ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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30 de março de 2011

Pleno cumprimento

Não pen­seis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da lei, sem que tudo se cumpra. (Mt 5, 17-18) Não é a primera vez em que Jesus fala da lei e dos profetas como de uma só coisa. Por exemplo: Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas. (Mt 7, 12); 'Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento!' Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: 'Amarás teu próximo como a ti mesmo'. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos (Mt 22, 37-40); São estas as coisas que eu vos falei quando ainda estava convosco: era necessário que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. (Lc 24, 44) Existe, sem dúvida, uma semelhança entre o cumprimento da lei e o cumprimento das profecias, embora haja, também, diferenças. Todo judeu era chamado à obediência aos preceitos da lei divina, transmitida por Moisés. É neste sentido, aliás, que entendo a expressão de Jesus: "eu vim para dar à lei pleno cumprimento", ou seja, Jesus é o perfeito cumpridor de toda a lei. A questão das profecias e do cumprimento delas é bastante diferente. Podemos simplesmente dizer que o cumprimento da lei depende do homem (com o auxílio da graça de Deus), enquanto o cumprimento das profecias depende de Deus (com a colaboração, nem sempre consciente, do homem). Evidentemente, como explica a maioria dos pregadores, o pleno cumprimento da lei, trazido por Jesus, significa também a revelação da essência desta lei, a purificação da mesma de toda imperfeição no entendimento dado pelos mestres da lei. A curiosidade que chama a minha atenção é o fato de que a lei e os profetas - coisas que andam juntas, mas ainda assim permanecem distintas - entram, na pessoa de Jesus, em sintonia tão profunda que acabam se equivalendo em alguns casos. Com outras palavras, a lei que fala das obrigações religiosas do povo judeu (às vezes bem minuciosas), revela-se ao mesmo tempo profecia e encontra em Jesus o seu cumprimento, quer dizer, a realização. O exemplo clássico é o preceito referente ao cordeiro pascal e às regras detalhadas sobre a preparação e o consumo da ceia. O Evangelista João registra: Era o dia de preparação do sábado, e este seria solene. Para que os corpos não ficassem na cruz no sábado, os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos crucificados e os tirasse da cruz. Chegando a Jesus viram que já estava morto. Por isso, não lhe quebraram as pernas, mas um soldado golpeou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. Isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura que diz: “Não quebrarão nenhum dos seus ossos”. (Jo 19, 31. 33-34. 36) É bom notar que João fala da Escritura a ser cumprida, sem dizer se era a lei ou a profecia, pois neste caso, o preceito revelu-se também um anúncio messiânico. Trata-se de um texto do Livro do Êxodo: O cordeiro será comido em uma mesma casa: tu não levarás nada de sua carne para fora da casa e não lhe quebrarás osso algum. (Ex 12, 46). Neste mesmo capítulo (12) temos todas as informações básicas sobre o sentido e a realização da ceia pascal. Em Cristo - o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo - este ritual ganha o "pleno cumprimento".
Depois dessa introdução, cabe ao blog que trata de homossexualidade, falar algo que interesse eventuais Leitores, os homossexuais. Vários oponentes (adversários, inimigos) do movomento gay citam, exatamente, os versículos próximos da passagem abordada aqui (a leitura litúrgica de hoje abrange Mt 5, 17-19). O último versículo diz: Portanto, quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus.
Com essa base, costuma-se lembrar dos preceitos referentes a comportamentos homossexuais, tais como: Não te deitarás com um homem, como se fosse mulher: isso é uma abominação. (Lv 18, 22) e também: Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometerão uma coisa abominável. Serão punidos de morte e levarão a sua culpa. (Lv 20, 13) O padre Daniel A. Helminiak, no livro "O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade" (Editora Summus, São Paulo, 1998), escreve: Entre os antigos israelitas, assim como o Levítico o interpreta, praticar atos homogenitais significava ser como os gentios, era o equivalente a identificar-se com os nao-judeus. Isto quer dizer que a prática de atos homogenitais representava uma traição à religião judaica. O Levítico condenava o sexo homogenital como um crime religioso de idolatria e não como ofensa sexual, e era esta traição religiosa o que era considerado grave o suficiente para merecer a pena da morte. (p. 49) A questão é que o Código Sagrado do Levítico proíbe o ato sexual entre homens devido a considerações religiosas, e não sexuais. A intenção era a de impedir Israel de participar das práticas dos gentios. O sexo homogenital era proibido porque estava associado a atividades pagãs, à idolatria e à identidade gentia. A questão no Levítico era religiosa, e não ética ou moral. Isso equivale a dizer que o sexo em si ser certo ou errado nunca foi cogitado. Tratava-se apenas da manutenção de uma forte identidade judaica. (pp. 50-51) O texto do Levítico afirma que é uma "abominação" para o homem deitar-se com outro homem como se fosse mulher. Uma vez mais, em linguagem comum isso parece bastante ruim. Conforme a vívida descrição de um pregador, abominação é algo que faz com que Deus sinta vontade de vomitar. Mas qual era o significado desta palavra para os hebreus antigos? Para eles, ela não soava assim tão mal quanto soa para nós. (...) Evidentemente, "abominável" é apenas um sinônimo de "impuro". Uma "abominação é uma violação das regras de pureza que governavam a sociedade israelita e faziam com que o povo judeu continuasse a ser diferente dos demais povos. (...) Determinadas práticas que envolviam a mistura de diferentes tipos de coisas, como semear um campo com dois tipos de sementes, tecer um pano com dois tipos de fibra - ou um homem fazendo sexo com outro homem como se fosse mulher - eram consideradas impuras e, assim, eram proibidas. Além disso, certos fatos geralmente inevitáveis, como a menstruação nas mulheres, a emissão de esperma pelo homem, participar de um enterro ou dar à luz tornavam a pessoa impura durante um certo período de tempo. (p. 52) Portanto, citar o Levítico como resposta à questão ética de hoje, que indaga se o sexo gay é certo ou errado, significa interpretar a Bíblia de maneira errônea. O Levítico não trata disso. (p. 58)
Deixo em aberto esta questão. Certamente, os adversários da "cultura gay", dirão que o padre Helminiak encaixa-se perfeitamente naquilo que diz Jesus: "Quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus". Por outro lado, é difícil não dar razão ao padre, quanto à necessidade de uma interpretação correta da Bíblia. O assunto é extenso demais para ser tratado em apenas uma postagem de blog. Até porque deixa-nos pensativos a afirmação de Jesus sobre cada "letra e vírgula" da lei a ser cumprida, no contexto de várias e numerosas atitudes dele nas quais desafiava abertamente as interpretações legalistas dos mestres da lei.

29 de março de 2011

Perdoar 70 × 7

Evangelho de hoje: Mt 18, 21-35. Geralmente os pregadores explicam que “70×7” significa “sempre”. Os números na Bíblia têm sua rica simbologia e o “7” refere-se à perfeição (plenitude). Eu compreendo estas palavras de Jesus também de outra maneira. Se compararmos os efeitos de ofensa (tais como mágoa, raiva, ressentimento, rancor, etc.) com as feridas no corpo, a recomendação de Jesus é como uma receita médica: "Aplique na ferida o bálsamo do perdão, quantas vezes for necessário". O perdão começa com uma decisão, mas não é só isso, pois lidamos com nossas emoções machucadas. Nem a razão, nem a força de vontade, conseguem dissolver os sentimentos de dor, humilhação e perda. É necessário o exercício do perdão para - por assim dizer - convencer o coração. Outro componente deste bálsamo é a graça de Deus que obtemos através de oração e, também, ao experimentarmos o perdão de Deus. É por isso que Jesus conta a parábola sobre os dois devedores. As dívidas são extremamente diferentes: uma enorme fortuna e, por outro lado, apenas cem moedas. O empregado perdoado não teve compaixão do comanheiro, mas nós devemos tê-la e é, justamente, a consciência de sermos perdoados por Deus, que nos inspira para perdoarmos aos outros. Precisamos compreender que estamos, exatamente, no lugar do primeiro empregado da parábola. Por mais graves e dolorosas ofensas que tenhamos sofrido neste mundo, todas elas estão sendo representadas com aquelas cem moedas. As nossas culpas diante de Deus são, por sua vez, aquela enorme fortuna. Por que tanta desproporção? Santa Catarina de Sena, no livro “O diálogo” (o fruto de sua experiência mística de ouvir a Deus), explica esta questão: Sendo eu [Deus] um bem infinito, a ofensa cometida contra mim pede satisfação infinita. (2.1) Vossa natureza humana era incapaz de satisfazer pela culpa e de cancelar a mancha do pecado de Adão, mancha que estragara a humanidade e lhe dera o mau cheiro da culpa. (...) Ocorreu que o humano se unisse à Deidade eterna; somente assim foi possível dar satisfação por todos os homens. (10.5) Desta união das duas naturezas, recebi e aceitei o sacrifício do Sangue. Era sangue humano, mas mesclado, amalgamado com a natureza divina, com o fogo do meu amor. (...) Foi somente desta forma – na virtude da divindade (de Cristo) – que se tornou possível a reparação da culpa humana; foi assim que se cancelou a mancha do pecado de Adão. Dela restou apenas uma cicatriz, que é a inclinação para o mal e os defeitos corporais, à semelhança da cicatriz que fica quando uma pessoa é curada de uma ferida. (4.2)
Escrevo tudo isso, porque não há um ser humano na face da terra que não tenha sido ofendido e, por isso, não precisasse dessas lições de perdão. Escrevo isso neste blog, dedicado à homossexualidade, pois são os homossexuais que têm muito mais ocasiões de sofrer ofensas. É por isso que se torna tão necessário para nós o exercício diário de perdão. Jesus disse: Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso. (Lc 6, 36) E João Paulo II escreveu: Estou plenamente consciente de quanto o perdão possa parecer contrário à lógica humana, que obedece frequentemente a dinamismos de contestação e represália. Pelo contrário, o perdão inspira-se na lógica do amor, aquele amor que Deus nutre por cada homem e mulher, por cada povo e nação, pela família humana inteira. (...) Como atesta a Sagrada Escritura, Deus é rico de misericórdia e não cessa de perdoar a todos os que regressam a Ele (cf. Ez 18, 23; Sl 32-31, 5; 103-102, 3.8-14; Ef 2, 4-5; 2Cor 1, 3). O perdão de Deus torna-se, em nossos corações, fonte inexaurível de perdão também no nosso interrelacionamento, ajudando-nos a vivê-lo sob o signo de uma verdadeira fraternidade. (Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1996). [leia o texto inteiro aqui]

28 de março de 2011

Gandhi

Transcrevo a notícia encontrada no site do "Jornal do Brasil" (aqui) e faço logo uma pergunta: se for verdade, isso muda alguma coisa na nossa percepção de grandeza e importância histórica de Gandhi?
Escrita pelo jornalista britânico Joseph Lelyveld, uma nova biografia de Mahatma Gandhi promete causar bastante polêmica. O livro, que deve ser publicado ainda neste mês, afirma que o líder indiano era bissexual e que abandonou a esposa para viver com o fisioculturista alemão Hermann Kallenbach. As informações são do jornal Daily Mail. Eles teriam morado juntos em uma casa na África do Sul e se comprometido a “dar um ao outro, um amor como o mundo jamais vira”. Em uma passagem, o jornalista afirma que Gandhi mantinha um retrato do alemão sobre a cabeceira de sua cama e prometera jamais olhar para uma mulher com intenções “impuras”. A história do suposto casal termina em 1914, quando Gandhi retorna à Índia e Kallenbach não pode acompanhá-lo devido a Primeira Guerra Mundial. Desse momento em diante, os dois passaram a corresponder-se apenas por cartas. Em uma destas, ele teria escrito que a sua esposa, com quem teve quatro filhos, era mulher mais venenosa que já tinha conhecido.

Naamã

A passagem do Evangelho de hoje (Lc 4, 24-30) já comentei neste blog (aqui), por isso vou diretamente à I leitura de 2Rs 5, 1-15a, que conta história de Naamã, general do exército do rei da Síria, (que) era um homem muito estimado e considerado pelo seu senhor, pois foi por meio dele que o Senhor concedeu a vitória aos arameus. Mas esse homem, valente guerreiro, era leproso. (v. 1) A lepra tem, até hoje, uma fama terrível e assustadora, mesmo com todo o avanço de ciência e medicina. Tento imaginar como foi visto este mal naquela época. As próprias prescrições da Lei de Moisés, ainda que indiretamente, induziam o povo à interpretação dessa enfermidade, também em dimensão espiritual e moral. Em consequência, o doente sentia-se rejeitado por Deus e pelos homens. A sensação mais provável era o desespero. No caso concreto de Naamã, várias coisas eram felizmente diferentes: teve todo o apoio do rei e, também, a sua posição social contribuía bastante para que não se sentisse tão rejeitado. Não era judeu, por isso não sentia tanto a "maldição da lepra". Além disso, desde o início da história, notamos vários sinais de ação da Divina Providência. Mas, como para Deus é impotante não apenas a saúde física do homem (ou a solução de qualquer outro problema), mas o homem inteiro, vemos Naamã colocado em prova. Deus lhe oferece o dom da cura, mas desafia a sua razão e quebra o seu orgulho. De novo aparece alguém que, com simples argumento, consegue convencê-lo (como foi no início a intervenção de uma moça de Israel - cf. vv. 2-3): Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: "Lava-te e ficarás limpo" (v. 13). Penso que, muitas vezes, a simplicidade do dom que Deus oferece (ou da maneira de como o oferece), desafia-nos a ponto de não aceitarmos tal oferta. Achamos impossível que Deus queira se comunicar assim conosco. Na minha opinião, o problema real está na dificuldade de aceitarmos o amor que Deus tem para conosco. No caso de pessoas homossexuais, isso torna-se ainda mais difícil, por causa do sentimento de culpa. Crescemos e convivemos com a visão de homossexualidade como algo absolutamente errado, sujo, inaceitável - como uma lepra. Se as pessoas que - no meu ver - representam Deus aqui na terra, dizem que "atos homossexuais são profundamente desordenados", logo imagino que seja esta, de fato, a opinião que Deus tem a meu respeito. E pior, porque se eu sou um homossexual, todos os meus atos são homossexuais também (- profundamente desordenados, entende-se). Até o ato de tomar, neste instante, um café, é também o ato homossexual. Dá para perceber a confusão interna? E, neste momento, vem o próprio Deus e me diz: "Aceita o meu dom. A sua sexualidade também é um dom. Como a finalidade de sua existência é amar, ame de acordo com a sua condição que lhe concedi...". Lemos no texto que Naamã, quando aceitou o desafio, experimentou um grande milagre - foi curado de sua lepra, de sua incredulidade e soberba. Por isso digo: é necessário reconhecer e aceitar os dona que Deus nos dá. Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado. (v. 14)

27 de março de 2011

O poço

A Igreja propõe hoje a leitura de uma longa e profunda mensagem do Evangelho (Jo 4, 5-42) sobre o encontro de Jesus com a samaritana. Em resumo: a mulher fica surpresa pelo fato de Jesus, um judeu, está falando com ela. Um simples diálogo sobre a água para matar sede, entra numa dimensão sobrenatural: Jesus fala de água viva. Em seguida, o Senhor mostra que sabe tudo sobre a mulher, inclusive sobre os seus "pontos fracos", mas não a condena, nem sequer critica. De fato, esta revelação, torna-se para samaritana a "pista" para descobrir a verdadeira identidade de Jesus, o Messias e Salvador. A mulher quer saber algo mais sobre a maneira certa de adorar a Deus e, em seguida, corre para anunciar aos habitantes daquela cidade a presença de Cristo.
Transcrevo aqui um trecho do livro de Françoise Dolto e Gérard Sévérin, "Os Evangelhos à luz da psicanálise" (Ed. Verus; Campinas, SP, 2010):
Jesus mostra que, se nós pensamos em parar em nosso corpo e em nosso prazer, jamais ficaremos extasiados na dimensão para a qual nosso ser é chamado. Ele não satisfaz essa mulher segundo o seu pedido, mas a questionou num lugar desconhecido para ela. Se Jesus a tivesse satisfeito, ela teria ficado lá, passiva. Questionada, ela é transportada a outro lugar. Buscando por meio de nosso corpo e em companhia dos outros, vamos descobrir que somos habitados não somente por necessidades, mas também pelo desejo que nos leva muito além do que o nosso corpo pode alcançar, um desejo que, para além dos sentidos, ainda faz apelo a outra comunicação. Essa mulher vai descobrir que o desejo jorra constantemente de reviravolta em reviravolta. O desejo que nos aflige é muitas vezes surpreendente. Jesus leva essa mulher a descobrir que além de todos os homens com quem ela procurava acalmar sua sede, para além das suas necessidades de segurança, de seus desejos carnais, ela buscava outra coisa. Mais do que em seus amantes, encontrou em Jesus alguém que a preenche. (p. 153)

Átrio dos gentios

Na sexta-feira passada, o Papa Bento XVI dirigiu uma mensagem aos participantes do ato de inauguração do Átrio dos Gentios (em outra tradução: Pátio dos Gentios), promovido em Paris. De acordo com as agências católicas de informação, este espaço será permanente e servirá para promover o diálogo entre crentes e não crentes. O nome evoca o espaço homônimo que, no antigo Templo de Jerusalém, hospedava os não judeus.
Não localizei no site do Vaticano a versão oficial e completa da mensagem pontifícia, mas os trechos da mesma, publicados em alguns lugares, permitem ter uma noção sobre aquilo que o Santo Padre disse. O portal da Canção Nova (aqui), cita afirmações importantes: Bento XVI lançou um apelo na noite de sexta-feira, 25, aos fiéis e não fiéis reunidos diante da Catedral Notre-Dame, em Paris, aderrubar as barreiras do medo do outro, do estrangeiro”. "O medo daquele que não se parece conosco nasce da ignorância mútua, do ceticismo ou da indiferença." É preciso “construir um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, no qual todos devem se sentir livres e iguais em seus direitos de viver sua vida pessoal e comunitária de acordo com as próprias convicções”.
Não preciso dizer que, para nós, que sofremos as consequências de homofobia, estas palavras do Papa são como bálsamo para o coração ferido. Resta agora esperar que as pessoas no mundo inteiro ouçam a voz de Bento XVI.
O site da Rádio Vaticana (aqui) informa que, depois de Paris, as iniciativas do «Pátio (Átrio) dos Gentios» vão passar por Florença (Itália), Tirana (Albânia), Estocolmo (Suécia), Berlim (Alemanha), Moscovo (Rússia), Quebeque (Canadá), Praga (República Checa), Chicago e Washington (EUA). A mesma fonte acrescenta e comenta (aqui) outros trechos da mensagem: Bento XVI explicou que as religiões não devem ter medo de uma laicidade justa e aberta, que deixa cada um livre de acreditar ou não, respeitosa diante do direito de todos a permanecer fieis ás próprias convicções, e em fraternidade com o outro. Não tenhais medo – concluiu o Santo Padre - no caminho que percorreis juntos rumo a um mundo novo, sede pessoas que procuram o Absoluto e que procuram Deus.

26 de março de 2011

Filho pródigo

Acho difícil resumir a reflexão sobre esta belíssima parábola de Jesus (Lc 15, 11-32) em apenas uma postagem do blog. É um texto tão rico que inspira livros inteiros, além de séries de pregações (como as de um retiro espiritual). João Paulo II tomou a história do filho pródigo como base da Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia sobre a reconciliação e penitência na missão da Igreja hoje (leia aqui). Entre livros, dignos de atenção, destaco "A volta do filho pródigo" de Henri J. M. Nouwen (Ed. Paulinas; São Paulo 1997). Para abordar apenas um dos aspectos - certamente não essencial - desta parábola, confrontarei um trecho do livro de Nouwem com outro texto, tirado da obra de Didier Eribon, "Reflexões sobre a questão gay" (Ed. Companhia de Freud; Rio de Janeiro, 2008).
Henri J. M. Nouwem, no capítulo 2, dedicado ao filho mais jovem (o pródigo), escreve: O filho indo embora é, portanto, um ato mais grave do que parece à primeira vista. É uma rejeição cruel do lar no qual o filho nasceu e foi criado e uma ruptura com a mais preciosa tradição apoiada pela comunidade maior da qual ele faz parte. Quando Lucas escreve "partiu para uma região longínqua", ele se refere a muito mais do que ao desejo de um jovem de ver o mundo. Ele se refere a uma quebra drástica da maneira de viver, pensar e agir que recebeu como um legado sagrado das gerações passadas. Mais do que desrespeito, é uma traição aos valores cultuados pela família e pela comunidade. O país distante é o mundo no qual não se respeita o que em casa é considerado sagrado. (p. 41)
O julgamento é claro, severo e usa termos fortes. É, no entanto, uma avaliação "de fora". Basta olhar nos olhos daquele jovem ou tentar colocar-se no lugar dele, para que tudo mude totalmente. Talvez não tenha sido cruel a sua atitude de rejeitar "a mais preciosa tradição, o legado sagrado da maneira de viver, pensar e agir", mas - pelo contrário - todas essas coisas (tradição, modo de pensar, etc.) tornaram-se insuportáveis, portanto cruéis, principalmente em sua expressão prática de intolerância, rejeição, agressividade, etc.
Dider Eribon dedica um capitulo do seu livro (coincidentalmente também o 2°), à "Fuga para a cidade". Escreve: Entendemos que um dos princípios estruturantes das subjetividades gays e lésbicas consiste em procurar os meios de fugir da injúria e da violência, que isso costuma passar pela dissimulação de si mesmo ou pela emigração para lugares mais clementes. Por isso é que as vidas gays olham para a cidade e suas redes de sociabilidade. São muitos os que procuram deixar o lugar onde nasceram e onde passaram a infância para vir se instalar em cidades mais acolhedores. Marie-Ange Schiltz escreve, comentando o resultado de estudos recentes, que, "comparando com as pesquisas feitas na população geral, fica claro que a partida do lar familiar e o acesso à independência econômica são mais rápidas entre os jovens homossexuais". Esse movimento de fuga seguramente conduz os homossexuais para a cidade grande. (p. 31)
A parábola de Jesus tem o final feliz (em sua parte principal): o retorno do filho pródigo para casa. Em algumas famílias acontece, justamente, este abraço do pai (da mãe e dos irmãos), no ato sincero de acolher o filho ou a filha homossexual que, após uma fuga, tem a coragem de voltar para o convívio familiar. Este novo convívio, graças ao amadurecimento interior dos familiares, torna-se possível (ainda que exista ainda algum "irmão mais velho", preso em sua falta de amor).

25 de março de 2011

Anunciação do amor

No dia em que a Igreja celebra a Solenidade da Anunciação do Senhor – que, de fato, comemora o mistério da Encarnação do Verbo Divino e não apenas o momento do anuncio feito pelo Anjo à Santíssima Virgem Maria – transcrevo aqui um trecho importante da primeira Encíclica do Papa João Paulo II “Redemptor hominis” (n° 10). Sobre este documento falei neste blog na ocasião da Novena de Natal (aqui) e o seu texto original pode ser encontrado no site do Vaticano (aqui).
O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor, (...) revela plenamente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade. No mistério da Redenção o homem é novamente «reproduzido» e, de algum modo, é novamente criado. Ele é novamente criado! «Não há judeu nem gentio, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher: todos vós sois um só em Cristo Jesus» (Gal 3, 28). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente — não apenas segundo imediatos, parciais, não raro superficiais e até mesmo só aparentes critérios e medidas do próprio ser — deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo.
O Papa insiste, ao longo de toda Encíclica, com a expressão “todo homem”, o que à luz da citação da Carta aos Gálatas, torna-se especialmente importante também para nós, homossexuais. Nós também não podemos viver sem amor, pois a nossa vida seria destituída de sentido e cada um de nós permaneceria para si próprio um ser incompreensível, Por isso encontrar-nos com o amor, experimentá-lo, participar nele vivamente, tornando-o algo próprio nosso, é tão importante para cada um de nós. O Papa João Paulo II, que será beatificado no próximo dia 01 de maio, escreveu muitos outros textos que contribuem, ainda que indiretamente, à causa de reconhecimento da dignidade de homossexuais, mostrando o seu lugar bem dentro da Igreja.

24 de março de 2011

Rico e Lázaro

Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. (Lc 16, 19) O maior problema deste homem não era a riqueza, mas a ausência de caridade no seu coração insensível e indiferente: Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. (v. 20) Evidentemente, o estilo de vida daquele homem rico, contribuía ainda mais, para essa insensibilidade. Em outros momentos, Jesus dizia: Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. (Mt 6,21) e É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus. (Mt 19, 24). Lembro-me de uma pregação na qual o padre tinha falado sobre o vidro que, enquanto permanece limpo, conseguimos enxergar através dele as pessoas e todas as outras coisas, mas basta cobri-lo com uma fina camada de prata e o vidro torna-se um espelho. Não dá mais para ver nada e ninguém, a não ser a nossa própria imagem. A riqueza tem capacidade de aprisionar o coração humano e mergulhá-lo no profundo egoísmo. Li, recentemente, no "Diálogo" de Santa Catarina de Sena, a seginte explicação: Se o apetite sensível procura os bens materiais, a eles orienta-se a inteligência; e quando a mesma toma como objeto os bens passageiros, surgem o egoísmo, o desprezo pelas virtudes, o apego ao vício e, como consequência, o orgulho e a impaciência. Por sua vez, a memória encher-se-á com tais elementos, fornecidos pelo afeto sensual, obscurecendo-se a inteligência, que não mais vê senão aparências da luz. (16, 1)
O "mundo gay" estende-se por todas as camadas da sociedade, mas a mídia (inclusive a do próprio "mundo gay") apresenta mais frequentemente os homossexuais que se vestem com roupas finas e elegantes e fazem (ou participam de) festas esplêndidas todos os dias. Basta acessar qualquer portal GLBTS ou assistir, por exemplo, a série "Queer as folk", para confirmar isso. Eu mesmo tenho amigos que dedicam todo seu tempo livre à "balada", como dizem por aqui. Por sua vez, é conhecida a sensibilidade dos homossexuais em relação a "roupas finas e elegantes", bem maior que dos heterossexuais. Repito: tudo isso, em si, não é um problema, mas não deixa de ser um perigo. Por isso, mais uma vez, insisto quanto à necessidade de um acompanhamento pastoral, ou de uma formação espiritual, para homossexuais. E faço um apelo aos meios de comunicação do "mundo gay": não se esqueçam que, neste nosso mundo, há "pobres Lázaros", também. Tenho uma edição da revista "Junior" de 2008 (n° 6) [veja informações sobre a revista aqui]. Uma das matérias ("À margem da margem", p. 38) fala sobre a vida dos homossexuais que moram nas ruas de São Paulo. São vários depoimentos emocinantes e surpreendentes, sobre preconceito, violência, rejeição e... esperança. Um dos entrevistados, Ramon de 35 anos, conta a sua passagem de um a outro personagem da parábola de Jesus: Sou modelista, estou desempregado hoje por safadeza mesmo, admito. Estou na rua por causa de muita farra que fiz quando tive dinheiro, era muito mão-aberta, gastava com comidas caras, roupas caras, pagava até a droga dos outros - e olha que não uso drogas. Meu sonho é montar uma grife de roupas ou seguir carreira de cozinheiro, mas primeiro preciso conquistar a confiança das pessoas para elas me darem emprego. Sou de Belo Horizonte, vim para São Paulo para ter uma vida com mais liberdade, bem longe da minha família, que é muito religiosa e não aceita minha homossexualidade. Outro entrevistado, Mourane Gutierrez de 47 anos, resume a sua vida assim: Saio do albergue às 7h30 e vou fazer meu trabalho com os portadores de HIV que estão nas ruas de São Paulo. Volto só no fim da tarde para dormir. Sei como é ruim estar na rua, e isso é ainda pior para quem tem HIV. A rua não te dá dignidade nenhuma, você vive à beira de todo mundo, ninguém te olha. Já faz oito meses que estou nessa luta diária. Não vou prá balada, não paquero ninguém, quase não me divirto, não me sobra tempo e eu fico bem cansado. Queria muito ter tempo tempo para caçar.
O meu sonho é uma Pastoral para Homossexuais que, além de toda formação espiritual, teria estruturas para trabalho social para com os homossexuais-Lázaros, abandonados até pelo próprio "mundo gay".

23 de março de 2011

pedido de mãe

A mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. (Mt 20, 20) As mães sempre querem o bem para os seus filhos, mas às vezes (como lemos hoje no Evangelho [Mt 20, 17-28]), não sabem o que estão pedindo, ou seja, nem sempre aquele bem que desejam, tem a mesma avaliação nos olhos de Jesus. Imagino quantas mães, numa expressão de desespero, clamam a Deus que "cure e liberte" o(s) seu(s) filho(s) do mal de homossexualismo (quase nunca dizem "homossexualidade"). Não é a primeira nem a única situação descrita nas páginas do Evangelho, em que vemos as pessoas (frequentemente as mais próximas do Senhor) que mostram uma tremenda falta de noção daquilo que Jesus falava e fazia. Hoje não é diferente. A origem disso pode estar no que descreve, também na liturgia de hoje, o profeta Jeremias, citando alguns detalhes de conspiração promovida pelos adversários dele: Não vamos prestar atenção a todas as suas palavras. (Jr 18,18). O que esses homens conscientemente tramavam, como forma de agir contra o profeta, é mais que comum entre os seres humanos e não necessariamente de maneira igualmente planejada. Sem dúvida, em nossos tempos, a própria civilização com sua rapidez, quantidade e superficialidade de informações, contribui para isso. Simplesmente, não conseguimos mais prestar devida atenção às pessoas e àquilo que estão dizendo. Penso que este seria mais um exercício valioso nesta Quaresma: prestar atenção à maneira como... presto atenção. Parece redundância, mas é aqui que está a grande parte da origem de vários problemas que enfrentamos. Inclusive - ou melhor: em primeiro lugar - temos dificuldade na hora de ouvir e assimilar aquilo que Deus nos fala. Já escrevi aqui algumas vezes que, na minha opinião, o diálogo sobre a homossexualidade não consegue avançar, porque as pessoas que se dispuseram a conversar, geralmente falam como que "línguas diferentes". Exatamente, como no Evangelho de hoje: Jesus acaba de anunciar a eminência de sua paixão, morte e ressurreição e, na mesma hora, aparece aquela mãe e pede favores para seus filhos.
Evidentemente, este não é a única conclusão da leitura deste texto do Evangelho. Jesus denuncia (para curar) a presença perigosa das ambições humanas (que aparecem, também, na reação dos osutros discípulos) e revela o modelo de todos os relacionamentos que ainda hoje esperam ser aprendidos por todos os seus seguidores: Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. (Mt 20, 26-27)

22 de março de 2011

pais, mestres e guias

O Evangelho de hoje (Mt 23, 1-12) traz duras criticas de Jesus dirigidas à elite religiosa de Israel. Logo podemos dizer que o cristianismo é o herdeiro do Povo de Israel não só em coisas boas, pois as mesmas críticas aplicam-se perfeitamente em relação à Igreja. Imagino como fica difícil para um sacerdote (consciente) ler e comentar este texto. Ainda bem que temos muitos padres que não se esquecem de que a própria orelha fica mais perto da boca que fala. Não faltam, entretanto, aqueles que falam e não praticam, amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo (vv. 3-4), gostam de lugar de honra nos banquetes e dos primeiros lugares (...), de ser cumprimentados nas praças públicas e de serem chamados de mestre (vv. 6-7). Por isso, devemos fazer e observar tudo o que eles dizem, mas não imitar suas ações (cf. v. 3). Compreendo estas advertências de Jesus não como incentivo ao anticlericalismo ou à contestação da Igreja como tal. A questão é de estarmos sempre atentos e cultivarmos a humildade. A crítica deve ser objetiva e construtiva. Ja falei neste blog sobre a razão pela qual não abandono a Igreja (aqui). Imagino uma pessoa que usa, por necessidade, a cadeira de rodas. Se perguntarmos: "Você acha essa cadeira boa e bonita?", a resposta, certamente, seria: "Não se trata de ser boa ou bonita. Ela até pode me incomodar, assim como incomoda os outros, mas neste momento necessito dela para chegar aonde preciso. Por ser útil, torna-se boa e até bonita". É, evidentemente, apenas uma comparação, talvez simples demais, mas algo assim ocorre na minha compreensão da Igreja como instrumento útil para chegar a Deus e o instrumento que Ele próprio quis chamar à existência. As falhas da Igreja provém da fragilidade humana e não são de autoria do seu Fundador. É também por isso que a liturgia não omite uma passagem do Evangelho como essa.
A segunda parte do texto pode gerar algumas dificuldades. O que foi que Jesus quis dizer com essas palavras: Na terra, não chameis a ninguém de pai, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. (v. 9)? Disse também que devemos evitar os títulos como "mestre" ou "guia" (cf. vv. 8. 10). No contexto das censuras anteriores, fica claro que o Senhor ensina a combater a tentação de falsa grandeza ou importância pessoal, "representada" para o olhar dos outros (coisas que os religiosos da época adoravam). Mas como fica a questão de não chamar ninguém, aqui na terra, de pai? Os irmãos protestantes apontam, como uma das formas de "infidelidade católica" perante a Sagrada Escritura, a existência e as funções do Papa e dos padres (cujos títulos provêm da palavra "pai"). A Igreja, aliás, utiliza também, os títulos de mestre (p.ex. nos noviciados) e de guia (espiritual). Pessoalmente, compreendo todas essas "proibições" de Jesus, exatamente, como advertências. Ele conhece o nosso coração e sabe como é fácil cairmos em algum tipo de exagero ou usurpação de poder e autoridade, como uma espécie de propriedade nossa. Para mim, a palavra-chave é a "participação" (aqui está também o argumento contra as críticas protestantes sobre a intercessão dos santos). Vou tentar explicar... A Bíbli diz que Jesus é o Fílho único de Deus (cf. Jo 1,14; 1Jo 4, 9, etc.), mas também, que nós somos filhos de Deus (cf. Rm 8, 16; 1Jo 3, 1, etc.). Não é contradição, pois somos filhos de Deus, porque fomos admititos pela graça à única filhação divina de Cristo. Com outras palavras: somos filhos de Deus em Cristo. A Bíblia diz que Cristo é o único mediador entre homens e Deus (cf. 1Tm 2,5). Da mesma maneira, Ele nos concedeu a graça de participarmos nesta mediação e sermos, também, mediadores ou intercessores (na terra e, depois de partirmos daqui, ainda mais). Creio que haja a mesma lógica em questão da paternidade, em todas as suas expressões, começando pela biológica. O Apóstolo Paulo diz: Dobro os joelhos diante do Pai, de quem recebe o nome toda paternidade no céu e na terra (Ef 3, 14) e, em outro lugar, reivindica o direito de paternidade espiritual, escrevendo aos seus "filhos": De fato, mesmo que tenhais milhares de educadores em Cristo, não tendes muitos pais. Pois fui eu que, pelo anúncio do evangelho, vos gerei no Cristo Jesus (1Cor 4, 15). Paulo não contradiz as palavras de Cristo. Ele as compreende e interpreta. Não se trata, então, de não usar as palavras "pai", "mestre" ou "guia" em relação aos homens, mas de - ao usá-las - não se esquecer de sua origem.
Dito isso tudo, quero acrescentar aqui o meu voto em favor do reconhecimento - em todas as dimensões da sociedade - de direito dos casais homossexuais à adoção dos filhos. A paternidade (assim como a maternidade) que recebe de Deus Pai o seu nome, revela-se - além de sua forma biológica - de muitas outras maneiras, não menos importantes e válidas.

Dia Mundial da Àgua

Desde 1992 (algumas fontes dizem 1993), acontece o Dia Mundial da Àgua, promovido pela Organização das Nações Unidas. Neste ano, o tema específico é "Água para as cidades: respondendo ao desafio urbano" e tem por objetivo incentivar aos governos, às organizações, às comunidades e às pessoas a participarem ativamente para responder ao desafio da gestão da água urbana. A Declaração Universal dos Direitos da Água, no parágrafo 7, diz: A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.
A coisa é séria e não tenho a intenção de banalizar o assunto, mas não resisti e deixei me levar pelo seguinte pensamento: será válida a proposta ao casal que compartilha tantas coisas, que tomasse banho junto? Parece que sim, mas a experiência mostra que pode haver o desperdício de água ainda maior, dado que atenção se volta para outras coisas e não propriamente para o banho...
Falando sério: vamos pensar com carinho sobre este dom precioso que é a água. Nós, católicos, temos neste ano mais um incentivo, através da Campanha da Fraternidade.

21 de março de 2011

a medida do homem

Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso colo; porque com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos. (Lc 6, 36-38) Neste pequeno texto lido hoje na Missa, temos o resumo de todo o Evangelho. Infelizmente, a nossa sociedade não é cristã, ainda que faça referências à fé e à religião. Mesmo em comunidades que se reúnem nas igrejas, realizam trabalhos pastorais, etc., estas regras de vida que Jesus deixou, não estão sendo vividas. Talvez a questão de "dar" tenha sido parcialmente posta em prática (por exemplo, através das pastorais sociais, campanhas de doações e coisas semelhantes), mas todo o resto não é. Geralmente recorremos à frase "não julgueis e não sereis julgados", apenas em situações em que nós mesmos nos vemos como alvo de críticas ou fofocas. Entretanto, vivemos o tempo todo exercendo a usurpação de direito para julgar os outros.
Acredito que um ditado popular, absolutamente equivocado e repetido com muita frequência por aí, tenha origem numa confusa troca de palavras, tiradas do ensiamento de Jesus citado acima. No povo se diz: "Quem sou eu para perdoar? Só Deus é quem perdoa!". Em vez disso, deveria ser: "Quem sou eu para julgar? Só Deus é quem julga!". Quanto ao perdão, Jesus está claro: "Perdoai e sereis perdoados". Todos nós já experimentamos na própria pele as consequências das atitudes contrárias às palavras de Jesus. Certos grupos de pessoas - entre eles, os homossexuais - tornam-se particularmente o objeto de julgamentos injustos, baseados nas opiniões generalizadas, alimentadas por infundadas emoções negativas. É isso que chamamos de preconceito e de homofobia.
Jesus fala no Evangelho sobre a medida. Qual é a medida do homem? Falou sobre isso o Papa João Paulo II, durante a sua primeira viagem apostólica à Polônia, em 1979 (leia aqui). Com que medida se há de medir o homem? Medi-lo com a medida das forças físicas de que dispõe? Ou medi-lo com a medida dos sentidos, que lhe permitem o contato com o mundo exterior? Ou medi-lo com a medida da inteligência, o que se realiza através dos vários testes ou exames? (...) É preciso medir o homem com a medida do «coração». O coração na linguagem bíblica significa a interiorização espiritual do homem, significa em particular a consciência. É preciso portanto medir o homem com a medida da consciência, com a medida do espírito aberto a Deus. Só o Espírito Santo pode «encher» este coração, ou seja, conduzi-lo a realizar-se através do amor e da sabedoria.
A cada um que me despreza, somente por causa da minha identidade homossexual, pergunto: o que você sabe sobre mim, sobre o meu coração e a minha consciência? Por que você se coloca no lugar de Deus que tem a autoridade única para julgar? Se você é um cristão, use a recomendada pelo Papa "medida do coração" que significa, também, a medida de caridade e respeito.

20 de março de 2011

Transfiguração

A transfiguração de Jesus, lida e meditada na liturgia deste 2° Domingo da Quaresma (Mt 17, 1-9), ocupa o lugar de destaque na tradição e na espiritualidade da Igreja que celebra também uma festa especial dedicada a este misterioso acontecimento (no dia 06 de agosto). Recentemente, o Papa João Paulo II, chamou ainda mais a atenção do povo à transfiguração do Sengor, ao inseri-la no elenco dos cinco novos mistérios do Rosário (confira a Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae - aqui). Também a sua Exortação Apostólica, dedicada à vida cosagrada (Vita consecrata - aqui), tem a transfiguração como o ponto de partida e o fio condutor de todo o seu conteúdo. O Papa escreve: No Evangelho, são muitas as palavras e gestos de Cristo, que iluminam o sentido desta vocação especial. No entanto, para se abarcar numa visão de conjunto os seus traços essenciais, revela-se particularmente útil fixar o olhar no rosto resplandecente de Cristo, no mistério da Transfiguração. (n. 14) E continua mais adiante: O episódio da Transfiguração assinala um momento decisivo no ministério de Jesus. É um evento de revelação que consolida a fé no coração dos discípulos, prepara-os para o drama da Cruz, e antecipa a glória da ressurreição. É um episódio misterioso revivido incessantemente pela Igreja, povo a caminho do encontro escatológico com o seu Senhor. Como os três apóstolos escolhidos, a Igreja contempla o rosto transfigurado de Cristo, para se confirmar na fé e não correr o risco de soçobrar ao ver o seu rosto desfigurado na Cruz. Em ambos os casos, ela é a Esposa na presença do Esposo, que participa do seu mistério, envolvida pela sua luz. Esta luz atinge todos os seus filhos, todos igualmente chamados a seguir Cristo, repondo n'Ele o sentido último da sua própria vida podendo dizer com o Apóstolo: «Para mim, o viver é Cristo» (Fil 1,21). Mas uma singular experiência dessa luz que dimana do Verbo encarnado é feita, sem dúvida, pelos que são chamados à vida consagrada. Na verdade, a profissão dos conselhos evangélicos coloca-os como sinal e profecia para a comunidade dos irmãos e para o mundo. (n. 15)
No seu livro "Direção espiritual e homossexualidade" (Edições Loyola; São Paulo, 2006), o padre jesuíta James L. Empereur, apresenta uma clara analogia entre a vida consagrada e a vida das pessoas homossexuais. Logo, a meditação do Papa, ganha para nós um significado especial. Leia a argumentação do autor: Os gays cristãos possuem um carisma análogo ao carisma de uma vocação religiosa. (...) O que diferencia o carisma do homem gay do carisma de um homem membro de uma ordem religiosa é que o do homem gay é um carisma sexual. Assim como Deus ofereceu certo dom aos sacerdotes, irmãos ou irmãs na vida religiosa para que seguissem o evangelho com certo caráter público, assim Ele ofereceu aos homens gays e mulheres lésbicas um dom sexual especial, que exibe de maneira pública a diversidade e a beleza de Deus em nosso mundo. Todas as criaturas de Deus expõem a obra de Deus, mas o mundo também precisa de variação para que a riqueza dessa obra seja inequivocamente evidente. Deus dá a gays e lésbicas a variação um tanto surpreendente de sua sexualidade para ajudar seus irmãos e irmãs a ter uma compreensão maior da realidade de seu Deus. (...) Os religiosos são poucos em comparação à população total, e pede-se a eles que vivam de certa meneira, que carrega consigo certa qualidade contracultural. Se a vida religiosa é indistinguível do resto da vida cristã, parece não haver nenhum propósito para sua existência. (...) Também os homossexuais são uma minoria. Também eles devem viver vidas contraculturais. Percebemos nitidamente a lógica desta analogia, mas o autor observa que ela não é completa: A vida religiosa é uma vocação acima da vocação que recebemos de Deus ao sermos criados filhos ou filhas de Deus. A sexualidade gay é um fato da criação. (...) Ao contrário dos homens e mulheres religiosos, eles [os homossexuais] não tiveram escolha quanto à vocação. Não lhes perguntaram se queriam ser homossexuais. (...) O carisma não se baseia primariamente na escolha, mas em um dom oferecido a alguém para ser compartilhado porque o mundo necessita desse dom. (pp. 4-6).

José

Escrevi uma reflexão sobre a figura paterna, tendo São José como referência, no 3° dia da Novena de Natal (aqui). Acrescento agora alguns outros pensamentos. Ao longo de vários séculos, a Tradição da Igreja e a piedade popular, atribuíam a José uma idade bastante avançada, retratando-o como o ancião ao lado de jovem Maria Santíssima. Hoje, alguns autores, aventuram-se ao apresentar São José relativamente jovem (veja, p. ex., "São José jovem e santo - o segredo do sucesso familiar" de Dom Cipriano Chagas ou "José, Esposo e Pai" de José H. Prado Flores). De fato, a Sagrada Escritura não fala absolutamente nada sobre a idade do esposo de Maria. Segundo um destes autores (não me lembro bem qual deles) afirma ter sido devido a dificuldade em lidar com a questão de sexualidade que a Igreja (ao menos em sua expressão popular) preferiu uma versão mais segura de São José (isto é, José velho). Como, entretanto, tudo está perfeito nos planos de Deus e foi Ele quem quis garantir ao seu Filho uma infância melhor possível, certamente esta estranha desproporção de idades no Casal da Sagrada Família não teria razão para existir. O Papa João Paulo II, além de uma Exortação Apostólica (Redemptoris custos - aqui), dedicou a São José uma das catequeses em 1996 (o site do Vaticano disponibiliza apenas versões em italiano e espanhol, esta última aqui). O texto trata de união virginal de Maria e José: Pode-se supor que entre José e Maria, no momento do noivado, houvesse um entendimento sobre o projeto de vida virginal. De resto, o Espírito Santo, que tinha inspirado a Maria a escolha da virgindade em vista do mistério da Encarnação, e queria que esta acontecesse num contexto familiar idôneo ao crescimento do Menino, pôde suscitar também em José o ideal da virgindade. (...) José e Maria receberam a graça de viverem juntos o carisma da virgindade e o dom do matrimônio. A comunhão de amor virginal de Maria e José, embora constitua um caso muito especial, ligado à realização concreta do mistério da Encarnação, foi todavia um verdadeiro matrimônio. Na Exortação Redemptoris custos, o Papa afirma: Neste matrimônio não faltou nenhum dos requisitos que o constituem. (n. 7) Exatamente aqui vem a curiosidade. A Sagrada Família é o modelo de toda família cristã, portanto, de todo o matrimônio (cristão). Isso é muito claro, porque a sua essência está no amor. Mas, se - neste caso - não aconteceu a procriação como nós a entendemos e, mesmo assim, "não faltou nenhum dos requisitos que constituem o matrimônio", por que razão os opositores de união homossexual batem tanto nesta tecla, dizendo que por faltar "o requisito" da procriação, tal união está errada e, portanto, inadmissível. Com outras palavras: fundamental é o amor e mesmo que não haja procriação, a união de duas pessoas que se amam, está nos planos de Deus.

19 de março de 2011

o meu adversário

Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. (Mt 5,25) A frase do evangelho, lido na liturgia desta sexta-feira (Mt 5, 20-26), ajuda-me a compreender a minha própria experiência, vivida há alguns anos. Sempre tive a impressão de que citada recomendação de Jesus não se referia apenas a este mundo. Sempre entendia, também, de que a nossa vida é um caminho para o tribunal. E não é um tribunal qualquer, mas o Juízo de Deus (o catecismo fala de "Juízo Particular", na hora da morte e "Juízo Final", no fim dos tempos). Um dia vamos ter que prestar conta da nossa vida. Uma das coisas que precisa ser resolvida pelo caminho é a reconciliação. Por muitos anos, confesso, a questão de "adversários" era para mim apenas uma teoria. Só recentemente tive a experiência, bastante dolorosa, de maldade humana, crueldade, frieza etc. Mas, quase ao mesmo tempo (um pouco antes), tinha compreendido que prováveis adversários não são apenas os "outros". Santa Catarina que, em sua experiência mística, escutava e anotava a voz de Deus (o que podemos acompanhar, por exemplo, no livro "O Diálogo"), escreveu: Cada um é o primeiro próximo de si mesmo (2.6). Por analogia, digo que o primeiro adversário meu, posso ser eu mesmo. E, como diz Jesus acima, devo reconciliar-me comigo mesmo, enquanto estou caminhando para o tribunal. Foi, aliás, este o nome do meu blog anterior: "Reconciliado consigo mesmo". Naquela época, há alguns anos, foi a mais profunda experiência da minha vida e a fonte de grande alegria. Ou melhor: uma consolação. Depois de décadas de uma feia, infundada e exaustiva briga interior, aceitei a minha identidade homossexual. Primeiro, admiti essa possibilidade, depois aceitei e, finalmente, amei. Acredito que o mesmo caminho deve ser percorrido no processo de reconciliação com qualquer pessoa: admitir, aceitar, amar. Digo mais: enquanto não houver a reconciliação consigo mesmo, dificilmente acontecerá uma autêntica reconciliação com outra pessoa. A propósito da foto ilustrativa desta postagem, lembrei das palavras de São Paulo: Mas, se vos mordeis e vos devorais, vede que não acabeis por vos destruirdes uns aos outros. (Ga 5, 15). No "nosso caso", podemos tranquilamente omitir o final da frase ("uns aos outros"), sem alterar a essência da mensagem.

17 de março de 2011

quanto mais

Ao falar sobre a oração (Mt 7, 7-12), Jesus faz (novamente) a referência à experiência humana de relacionamentos (escrevi sobre isso recentemente aqui). Para compreendermos mais um pouco o amor de Deus, Jesus nos remete à pessoa(-s) mais amada(-s) a quem somos capazes de dar tudo, porque é o amor que nos impulsiona. E essa reflexão deve ser bastante concreta, profunda e prolongada. A recordação das emoções que tivemos (ou temos) ao estar com a pessoa amada e ao tentar fazê-la feliz, ajuda-nos a entrar, digamos, no coração de Deus. O termo-chave é a expressão usada por Jesus: "quanto mais": ...quanto mais vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedirem! (v. 11). Se nos lembrarmos de que somos a imagem e semelhança de Deus, vamos entender que as nossas emoções e a nossa dedicação, são um pequeno reflexo da riqueza infinita do amor de Deus. É como uma gota perante o oceano. Com esta constatação a nossa oração fica diferente: mais confiante, mais alegre, mais bem-vinda. Poir isso, repito, é tão preciosa a nossa experiência de amar. Defendo a convicção de que as pessoas homossexuais não precisam pensar que estejam privadas de uma verdadeira vida de oração (ou vida espiritual, em geral). Podem até viver experiências mais profundas de intimidade com Deus, graças a sua natural (!) predisposição e sensibilidade.
Outra observação: no final da passagem do Evangelho de hoje, Jesus parece mudar de assunto. Pronuncia a famosa "regra de ouro": Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles. (v. 12). Evidentemente, a frase "funciona" perfeitamente sozinha, mas se for lida (como deve) no contexto das afirmações anteriores (sobre a oração), pode ganhar o sentido mais pleno (e dar este sentido a tudo que já foi dito). O que é que eu quero que o "Outro" (Deus) me faça? Quero que me escute e atenda. Por isso, logicamente, eu devo escutá-lo e atendê-lo também. E isso não tem nada a ver com aquela expressão "toma-lá-dá-cá". É, simplesmente, uma maneira de retirar os obstáculos do caminho pelo qual nos chegam as bênçãos e as graças do Senhor.

exclusivo (brincadeira)

O centro da cidade, por volta das 07:30, pareceu-me hoje um pouco vazio. Será algum feriado ou é o medo da nuvem radioativa do Japão? Até metrô, normalmente invadido pela avalanche humana na Central do Brasil, dava impressão diferente. Aí começaram as minhas divagações... Pensei a respeito daquela ideia brilhante sobre a existência de vagões exclusivos (em certos horários) para mulheres. Nada contra (embora eu questione a multiplicação de algumas leis que complicam a vida). Algumas vezes acabei sendo empurrado exatamente para dentro de um vagão desses (ou entrei por simples falta de atenção e não por motivos ideológicos) e constatei que nem sempre esta exclusividade é tão exclusiva assim. Hoje, entretanto, fiquei pensando sobre o significado da palavra "exclusivo". O dicionário de língua portuguesa diz o seguinte: adj. Que exclui, que cabe por privilégio ou prerrogativa; privativo, restrito, especial: direito exclusivo, uso exclusivo. / Que repele tudo aquilo que é estranho: amor exclusivo. Tudo bem: o vagão exclusivo para mulheres "repele" homens, mas será que exclui também outros vagões? Dá para acompanhar? Será que o fato de mulheres terem o seu espaço no metrô significa, também, que deveriam usar exclusivamente esses vagões e não outros? (Entenda-se o tom de brincadeira). Nunca me aconteceu o "acidente" de ser expulso de um vagão para mulheres, mas se isso ocorresse, será que eu teria o direito de pedir que as mulheres se retirassem de todos os vagões "comuns"? Alguém, daqui a pouco, vai me chamar de retardado (porque "comum" significa "para todos")! Mas, se aqueles benditos vagões existem para o uso exclusivo das mulheres, por que elas não os usam exclusivamente? Alguém já imaginou a maior parte da composição de metrô repleta só de homens? E se todos fossem charmosos? E com uma só passagem você (eu?!) ficaria o dia inteiro, andando de um lado para o outro!

Estou delirando...

15 de março de 2011

Pai nosso

Jesus retoma um dos assuntos com os quais tinha iniciado este tempo da Quaresma: a oração. Outros são: a esmola e o jejum (veja esta reflexão). O Evangelho de hoje (Mt 6, 7-15) traz a oração "Pai nosso", sobre qual ja foi dito e escrito tanto, que vou me limitar apenas a um comentário, para não ser um "repetidor de ideias" (usando o termo de Augusto Cury).
Insisto aqui no assunto de estrago que faz a falta de uma séria e estruturada Pastoral para Homossexuais, ou - pelo menos - de um tratamento mais digno das pessoas com esta identidade (ou condição) dentro da Igreja. Geralmente funciona isso da segiunte maneira (ainda que não necessariamente com estas palavras): "Você está todo errado, por isso nem vou lhe dar atenção". E se, neste mesmo momeno, perguntarmos ao autor desta resposta tão caridosa e cristã, se o 'Pai nosso' é também o Pai dos homossexuais? - com certeza não vai querer se envolver nessa conversa. As consequências são devastadoras. Um(-a) homossexual - estou falando daqueles que ainda conseguem buscar uma vida espiritual - carrega "nas costas" o peso de culpa, muitas vezes só pelo fato de sentir algo diferente e, exatamente por isso, não se sente digno(-a) de falar com Deus. Abandona a oração e cai, ainda mais, no "abismo" de abandono e solidão. Tenho certeza absoluta de que deveria acontecer, justamente, o contrário. Se o motivo de eu não falar com Deus é algum tipo de "vergonha", significa que estou transferindo para Deus as características puramente humanas. Eu posso sentir algum constrangimento perante as pessoas e não por estar errado, mas por conhecer (e experimentar na pele) a incompreensão da mente preconceituosa. Uma das atitudes movidas pela vergonha é a tentativa de se esconder ou de esconder "aquilo". E isso não funciona com Deus. Enquanto as pessoas se perguntam: "Será que ele é?", Deus sabe perfeitamente quem sou. E mais: em Deus o saber e o amar são a mesma coisa. Por isso não devo sentir nenhum constrangimento (a não ser aquele que vem da grandeza do amor divino), ao me aproximar de Deus. Até mesmo quando a minha consciência (e não as pessoas) me diz que pequei, não devo fugir de Deus, mas chegar perto e dizer: "Como o Senhor já sabe, pequei...". Santa Teresa d'Àvila deixou um testemunho muito interessante a respeito disso: Comecei (...) a meter-me tanto em ocasiões de pecado muito grandes e a andar tão estragada minha alma em muitas vaidades, que eu já tinha vergonha de voltar a me aproximar de Deus em tão particular amizade como é a conversa da oração. (...) Esse foi o mais terrível engano que o demônio me podia fazer sob o véu de parecer humildade, pois comecei a temer ter oração, por ver-me tão perdida. ("Livro da vida", cap. 7, 1)
Lembro-me de uma pregação, na qual o padre estava contando sobre o ancião que foi procurado por um jovem. "Diga-me, o que eu faço para ser santo?" - prguntou jovem. "Pega um pedaço de papel e escreve a oração 'Pai nosso'. Depois medita sobre estas palavras todos os dias. Isso é suficiente" - respondeu o ancião.
Quero propor aos (eventuais) Leitores este exercício, pelo menos por uma semana. Tenho certeza que os frutos não serão poucos nem pequenos.

14 de março de 2011

Tudo que fazemos

No Evangelho de hoje (Mt 25, 31-46), Jesus não deixa a mínima margem de dúvida: qualquer coisa que fazemos em relação às pessoas, estamos fzendo isso a Ele. Ainda que o Senhor tenha mencionado "apenas" famintos, sedentos, estrangeiros, nus, doentes e prisioneiros, compreendemos que a lista não está completa nem fechada. Trata-se de todos os necessitados, com os quais Jesus se identifica, chamando-os de "menores de meus irmãos" e de "pequeninos". (cf. vv. 40. 45) Encontrei uma explicação profunda das necessidades humanas e de seu lugar nos planos de Deus. É "O Diálogo" de Santa Catarina de Sena (1347-1380), um livro no qual a santa mística e Doutora da Igreja, descreve a sua experiência de conversar com Deus (Santa Catarina de Sena, "O Diálogo", Ed. Paulus; São Paulo 1985). Deus revela o mistério das necessidades humanas: Poderia ter criado os indivíduos, dotando-os de todo o necessário, seja na alma como no corpo; mas preferi que um necessitasse do outro; que fôsseis administradores meus no uso das graças e benefícios recebidos. Dessa forma, querendo ou não, o homem haveria de praticar a caridade, muito embora não seja meritória a benevolência não realizada por meu amor. Como vês, a fim de que os homens exercitássem o amor, fí-los meus administradores e os coloquei em diferentes estados de vida, em diferentes posições. (p. 40) Para quem presta atenção, esta é mais uma prova de que a diversidade faz parte integral e indispensável do plano de Deus. Um pouco antes, no mesmo capítulo, Santa Catarina transmite outra parte desse mesmo pensamento divino: Quem me ama, procura ser útil ao próximo. Nem poderia ser de outra maneira, dado que o amor por mim e pelo próximo são uma só coisa. Tanto alguém ama o próximo, quanto me ama, pois de mim se origina o amor ao outro. O próximo, eis o meio que vos dei para praticardes e manifestardes a virtude que existe em vós. (...) Quem se apaixona por mim, jamais cessa de trabalhar pelos outros. (p. 39) Tudo isso nos leva diretamente ao texto da Primeira Carta de São João que afirma, de diversas maneiras, a mesma verdade. A partir deste ponto de vista, não pode ser considerada uma blasfêmia, a seguinte frase: "Eu era um homossexual e me acolhestes, respeitastes, reconhecestes a minha dignidade e os meus direitos, por isso vinde benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo!" (Mt 25, 34). Creio que não seja necessário mencionar a versão oposta dessa declaração do Senhor...
Para não deixar esta reflexão "unilateral" demais, proponho uma pergunta: e nós, os homossexuais, podemos (e devemos) exercer o dever de caridade de que maneira? Como amar os homo e heterossexuais, os familiares, os opositores e até agressores? Não podemos, pois, fechar-nos em nós mesmos e em algum tipo de "nosso mundo". Amor gera amor, gentileza gera gentileza, bondade e tolerância gera bondade e tolerância. Ainda que seja necessário amar os inimigos, abençoar aqueles que nos amaldiçoam e perdoar àqueles que nos perseguem. O primero passo é, sem dúvida, a oração por essas pessoas, depois vem a palavra amiga e, em seguida, o gesto concreto. Tudo isso motivado no amor ao Senhor e fortalecido no amor que Ele tem por cada um de nós. Parece banal demais? Ou patético? Mas isso é a mais pura realidade! É o caminho para o céu.

13 de março de 2011

As tentações

O primeiro domingo da Quaresma apresenta-nos a cena das tentações enfrentadas por Jesus no deserto (Mt 4, 1-11). É muito interessante notar que, no pensamento generalizado dos cristãos, a palavra "tentação" associa-se quase exclusivamente à sexualidade. Como se não existisse a tentação referente a mentiras, roubos, assassinatos (e à violência de todo tipo), etc. Igualmente, alguns autores falam sobre pensamentos, palavras e atos imorais, usando este último termo como sinônimo de algo que envolve necessariamente a sexualidade. Até Anselm Grün, monge beneditino e escritor (citado neste blog diversas vezes) caiu nesta "tentação reducionista": Aquele que se familiariza com os demônios atravês da tentação encontra a verdade de sua alma e descobre os abismos de seu inconciente, os pensamentos homicidas, as representações sádicas e as fantasias imorais. ("O céu começa em você"; Ed. Vozes, Petrópolis-RJ, 1998; p. 46) Quer dizer que pensamentos homicidas e representações sádicas não são imorais? É como se alguém dissesse que foi fazer compras e trouxe maçãs, laranjas e frutas. Talvez eu esteja exagerando, mas vejo aqui, de novo, a velha confusão na interpretação das palavras que usamos. Deixando, entretanto, esse pequeno problema particular de lado, não posso ignorar o inegável mérito das afirmações de Grün, que aponta uma questão importantíssima que, apesar de ser muito antiga, não consegue penetrar suficientemente a mentalidade da maioria dos cristãos. A questão é: a tentação é um fenômeno indispensável para o crescimento espiritual, portanto (surpreendentemente) positivo. Não foi por acaso que Jesus, ao ensinar a oração "Pai nosso", disse "livrai nos do mal" e "não nos deixeis cair em tentação" e não ao contrário. Imagino, porém, que ao terminarem essa oração, muitos cristãos clamam a Deus que os livre das tentações (em geral daquelas "contra castidade"), mas deixam de pedir ajuda diante da inclinação ao desprezo pelas pessoas (por exemplo por causa da diferente orientação sexual) e à falta de amor em geral. No mesmo capítulo de su livro, Anselm Grün cita vários argumentos recolhidos na literatura dos padres do deserto (época dos anos 300 a 600), para a correta, isto é, positiva visão de tentação como tal. As tentações, assim dizem os monges, levam-nos ao encontro de nossa humanidade. Elas nos fazem entrar em contato com as raízes que sustentam o tronco. Colocar-se diante das tentações significa: confrontar-se com a verdade. Um dos patriarcas expressa-se a este respeito da seguinte maneira: "Sem as tentações ninguém será santo, pois aquele que foge do proveito da tentação também foge da vida eterna. Com efeito, tentações há que preparam aos santos as suas coroas". (p. 45) Encontramos a mesma ideia no texto de Santo Agostinho, lido hoje no Ofício das Leituras da Liturgia das Horas: Com efeito, nossa vida, enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações. (Dos Comentários Sobre os Salmos) Ainda que pareça muito estranho, o Evangelho afirma que o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo (Mt 4, 1). Vamos agora ao que interessa: a tentação no contexto da homossexualidade. Certamente, a maioria das pessoas pensa que sentir atração pelas pessoas do mesmo sexo seja a principal tentação. Não é! É uma das modalidades da própria natureza. A tentação é algo passageiro e a atração em questão é permanente. Muitos dirão que o desejo de "praticar atos homossexuais" seja a tentação. Mas o mecanismo é o mesmo que no desejo de praticar atos heterossexuais. Tudo depende das circunstâncias. Se estou vivendo numa relação estável e assumi o compromisso com alguém, experimento uma tentação ao sentir atração por outra pessoa, ou seja, a tentação de trair o meu parceiro. Posso sentir, exatamente como as pessoas heterossexuais, a tentação à promiscuidade, à prostituição, à pornografia ou, por exemplo, a tentação de reduzir o ato sexual a um meio de saciar somente a minha "fome de prazer", sem olhar ao parceiro e às suas necessidades.

12 de março de 2011

O amor é essencial

Lida nesta "sexta-feira depois das cinzas" passagem do Evangelho (Mt 9, 14-15) contém apenas dois versículos, mas revela algo muito importante: para mostrar os mistérios do Reino de Deus, Jesus faz constantes referências à experiência humana mais profunda e essencial - o amor. Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão. (v. 15)  Vou dizer aqui uma coisa muito simples: se eu não tivesse experimentado o amor (ainda que homossexual) e, também, a perda do "noivo", nunca compreenderia este texto do Evangelho (e tantos outros). Digo mais: não teria como compreender nem Jesus, nem o amor de Deus. Seria para mim apenas uma bela teoria. Louvado seja Deus por ter me concedido a graça de amar e de ser amado. Evidentemente não ponho aqui em dúvida a autenticidade e a profundidade do amor que tenho experimentado com os meus pais, mas tenho certeza que foi o viver um "novo amor" que me ajudou a acolher e a compreender melhor a Palavra e o amor de Deus.

10 de março de 2011

Campanha da Fraternidade [1]

História e motivação (fonte: CNBB):
A Campanha da Fraternidade, idealizada pelos padres da Cáritas Brasileira em 1961, foi realizada no ano seguinte em Natal (Rio Grande do Norte). Este projeto foi lançado, em nível nacional em 1963, sob o impulso do Concílio Vaticano II e realizado pela primeira vez na quaresma de 1964. Os conhecedores do assunto dividem a CF em três etapas: Renovação da Igreja e do cristão (1964-1971), Realidade social do povo e promoção da justiça social (1972-1984) e Situações existenciais do povo brasileiro (desde 1985). A Campanha da Fraternidade é uma atividade ampla de evangelização desenvolvida num determinado tempo (quaresma), para ajudar os cristãos e as pessoas de boa vontade a viverem a fraternidade em compromissos concretos no processo de transformação da sociedade a partir de um problema específico que exige a participação de todos na sua solução. É grande instrumento para desenvolver o espírito quaresmal de conversão, renovação interior e ação comunitária como a verdadeira penitência que Deus quer de nós em preparação da Páscoa.
Meu comentário:
Considero a Campanha da Fraternidade uma iniciativa preciosa. Entre tantos frutos deste trabalho registro aqui a criação da Pastoral para Homossexuais pelo Padre Antônio Transferetti. Ele mesmo conta essa hostória: Em 1995, o tema da Campanha da Fraternidade foi A Fraternidade e os Excluídos. Como homossexuais, travestis e prostitutas são excluídos pela sociedade, resolvi trabalhar com eles. Estudei a homossexualidade para entender mais de perto os problemas que eles enfrentam. Fazíamos reuniões nas quais eles contavam seus problemas e dramas pessoais. Também fazíamos trabalho de orientação sexual e prevenção a doenças sexualmente transmissíveis. (Leia o texto da entrevista aqui). Tenho, entretanto, uma observação a respeito da associação da Campanha com a Quaresma. Para ser mais claro: imagine que você está numa estação de metrô e chega uma composição, curiosamente, com vários vagões quase vazios e apenas um totalmente cheio de passageiros. Qual seria a sua decisão mais lógica? Certamente a de entrar num vagão mais vazio. Tenho a impressão de que a CNBB, ao lançar a Campanha da Fraternidade exatamente no tempo da Quaresma, preferiu "enfiar" o povo no vagão cheio. Com efeito, o conteúdo próprio deste tempo litúrgico, tão rico e profundo, acaba sendo esvaziado. Para mim isso é um resquício inquestionável da funesta influência da TL (teologia da libertação). É uma pena! Há tantos períodos durante o ano que seriam ótimos para concentrar a nossa atenção nos desafios e propósitos da Campanha da Fraternidade. Como resultado, temos aqueles paupérrimos (em conteúdo) textos da Via Sacra e de outros exercícios quaresmais. Cria-se na nossa mente uma convicção errada sobre a finalidade da Quaresma. Encontrei no blog da Diversidade Católica (aqui) uma reflexão que segue um pouco essa ideia [o blog em sí é ótimo e sou um dos seus seguidores"]: (A Quaresma) é um período em que toda a Igreja busca silenciar-se para tirar desse silêncio os frutos de uma reflexão aguda sobre o que cada um de nós pode fazer para melhorar a sua realidade e a dos que estão à sua volta. Eu diria que não é só isso. Há algo mais para refletir. O Papa Bento XVI, no livro-entrevista "Luz do mundo", fala sobre isso: O nosso sermão, o nosso anúncio é predominantemente orientado para a organização do mundo melhor, enquanto que o mundo verdadeiramente melhor já quase não é mencionado. Aqui temos de fazer um exame de consciência. Naturalmente que se tenta ir ao encontro dos ouvintes, dizer-lhes o que está no horizonte. Mas a nossa missão é ao mesmo tempo abrir esse horizonte, ampliar e olhar para além disso. Estas coisas são conceitos difíceis para os homens de hoje. Parecem-lhes irreais. Querem, em vez disso, respostas concretas para o agora, para o sofrimento do dia-a-dia. Mas essas respostas ficam incompletas se não sentirem e reconhecerem intimamente que vão para além desta vida materialista, que existe um juízo, que existem a misericórdia e a eternidade. Nessa medida, temos também de encontrar novas palavras e novos meios para possibilitar ao homem a ruptura com a finitude. (p. 170)
Voltando ao assunto, espero celebrar um dia a Campanha da Fraternidade com o tema "Fraternidade e pessoas homossexuais". O lema pode ser tirado, por exemplo, da 1 Carta de São João: "O amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus" (1Jo 4, 7)

O tripé

Com o rito da imposição das cinzas durante a Santa Missa, começou, nesta quarta-feira, a Quaresma. O texto do Evangelho (Mt 6, 1-6. 16-18) apresenta o "tripé" da vida cristã: a oração, a esmola e o jejum. É interessante notar que Jesus diz: "quando deres esmola", "quando orardes" e "quando jejuardes" (cf. Mt 6, 2. 5. 16). Provavelmente hoje o Senhor diria: "Dá esmola e, quando deres esmola...", "Orai e quando orardes...", "Jejuai e quando jejuardes...", pois na nossa civilização moderna tudo isso jão não é tão óbvio assim. Vejo estes três termos como verdadeiras palavras-chaves que abrem as portas para realidades muito mais ricas e profundas do que o seu significado apenas literal. Trata-se de três encontros ou, melhor, de três tipos de encontros que resumem toda a existência cristã. A oração, evidentemente, indica todo tipo de nosso encontro com Deus. A esmola é o termo (entre os três em questão), talvez, mais "obscuro" que pode levar a interpretações equivocadas, se ficarmos aprisionados apenas no seu significado literal e em suas expressões práticas ao longo da história. Na verdade, trata-se de todo tipo de nosso encontro com o próximo. Quem sabe, a palavra "oferta" ou "oferecimento", fique melhor nesta interpretação. Por fim, o jejum (também com um significado literal bastante reduzido), indica, de fato, o encontro consigo mesmo. Vários mestres de espiritualidade falam de "autoconhecimento" como a peça indispensável para uma vida interior. Voltando à comparação com a chave e a porta, é como se você abrisse cada uma destas três portas e, atrás delas, descobrisse uma enorme quantidade de outras portas com diversos espaços a serem explorados. Enquanto a oração, a esmola e o jejum são as chaves para estas realidades e experiências, é o amor que deve mover a pessoa que queira entrar. Assim, a oração consiste no amor a (e de) Deus, a "esmola" acontece no amor a (e de) pessoas e o jejum contêm o verdadeiro amor a si próprio, sem ser confundido com o egoísmo ou egocentismo. Podemos também dizer de "convivência" com Deus, com o próximo e cnsigo mesmo. Outro ainda conteúdo destes três encontros, destacado especialmente no tempo da Quaresma, é a reconciliação: com Deus, com as pessoas e consigo mesmo. Não preciso dizer que cada uma destas experiências é um desafio bem grande, mas é por isso que procuramos vários exercícios práticos para crescer e amadurecer nestas três dimensões da vida. Vale a pena tentar...

8 de março de 2011

Sagrada Humanidade

O carnaval está chegando ao fim e, para nós - católicos, começa amanhã (Quarta-feira de Cinzas) um período importante e profundo: a Quaresma. Por mais que pareça, não é um tempo triste, embora fale da cruz e da morte de Cristo e, também, insista na necessidade de conversão e penitência. Em vez de algum tipo de tristeza, a Quaresma ajuda a redescobrir a essência da verdadeira alegria: a salvação. É muito comum os cristãos estabelecerem alguns propósitos (vale aqui a comparação com os exercícios físicos, embora trate-se principalmente da alma). A finalidade da Quaresma é (digamos: a curto prazo) a preparação para a celebração da Páscoa da Ressurreição do Senhor Jesus. A longo prazo, estes quarenta dias ajudam-nos a compreender a necessidade de conversão contínua e de um aperfeiçoamento das qualidades pessoais do cristão (isto é, das virtudes, entre as quais destaca-se o amor). A Quaresma é, por excelência, o tempo de oração mais intensa e mais profunda, ou seja, uma formação espiritual para desenvolver cada vez mais a vida de oração (pois a oração em si não termina com o fim da Quaresma).
Ao ler, recentemente, o "Livro da vida" de Santa Teresa d'Ávila (Tradução de Marcelo Musa Cavallari; Editora Penguin Classics Companhia das Letras, São Paulo 2010), encontrei (entre tantas outras coisas belíssimas) uma excelenta dica para o tempo da Quaresma. Santa Teresa aconselha meditar (com o uso criativo da própria imaginação) a Sagrada Humanidade de Jesus. Transcrevo aqui dois trechos do texto:
Pode-se imaginar-se diante de Cristo e acostumar-se e enamorar-se muito de sua sagrada Humanidade e trazer-lhe sempre consigo e falar com Ele, pedir-lhe por suas necessidades e queixar-se de seus trabalhos, alegrar-se com Ele em suas alegrias e não esquecê-lo por causa delas. Sem procurar orações compostas, mas sim palavras conformes a seus desejos e necessidades. É uma excelente maneira de avançar e muito rápida. E quem trabalhar para trazer consigo essa preciosa companhia e se aproveitar muito dela e de verdade tomar amor a esse Senhor a quem tanto devemos, eu o considero bem avançado. [p. 115]
Teve início em mim muito maior amor e confiança nesse Senhor ao vê-lo como alguém com quem tinha conversa tão frequente. Via que, ainda que fosse Deus, era Homem, que não se assusta com as fraquezas dos homens, que entende nossa composição miserável, sujeita a muitas quedas por causa do primeiro pecado que Ele veio para reparar. Posso conversar como com um amigo, ainda que seja o Senhor, porque percebo que não é como os que aqui temos por senhores, que põem todo o senhorio em autoridades postiças: tem que ter hora para falar com eles, e pessoas designadas para falar com eles. [p. 353]
Uma das práticas típicas da Quaresma é a "Via Sacra". À semelhança das meditações da "Novena" e da "Oitava" de Natal, em breve irei postar aqui algumas reflexões de "Via Sacra". Como tudo neste blog, serão os textos elaborados do ponto de vista de um homossexual.

6 de março de 2011

genética e homossexualidade

Já escrevi aqui algumas vezes sobre a principal dificuldade enfrentada num (eventual) diálogo sobre a homossexualidade. Quando leio os argumentos, tanto dos "simpatizantes" quanto "antipatizantes", tenho a impressão de que, ao falar, estamos usando idiomas diferentes (ainda que tenha sido a mesma língua portuguesa). Muitas vezes, altera-se (propositalmente) o conteúdo das afirmações de opositores, para "ganhar pontos" em sua própria argumentação. É evidente que, desta maneira, o diálogo torna-se ainda mais difícil (ou praticamente impossível). Acrescentemos aqui toda aquela carga emocional e já temos pronta uma briga sem fim. Como exemplo, trago aqui uma declaração de José Manuel Giménez Amaya, professor de Anatomia e Embriologia na Universidade Autônoma de Madri e diretor do grupo de pesquisa "Ciência, razão e fé" da Universidade de Navarra. O texto completo encontra-se no portal católico de notícias, Zenit (aqui). O professor Amaya diz: "Há condicionamentos genéticos do homem que têm relação com seu comportamento, mas não se pode dizer que são absolutamente determinantes. Infelizmente, muitas vezes, quando se fala sobre os chamados genes que regulam o nosso comportamento, por exemplo, o ‘gene da conduta sexual', pretende-se dar a entender que tudo no homem é determinado pelo genoma. E neste caso, é importante notar, portanto, que, do ponto de vista científico, esta tese não pode ser sustentada." A pergunta que surge naturalmente é: como é que um professor universitário tira conclusões tão precipitadas? Como ele sabe o que, de fato "pretende-se dar a entender". Na linguagem popular, isso se chama "colocar palavras na boca do outro". Quem pretende aqui alguma coisa é o próprio Amaya. Se a frase em questão tivesse o termo "muito" no lugar de "tudo", não seria tão tendenciosa. Desta maneira as coisas ficariam mais objetivas. Vejamos: Quando se fala sobre os chamados genes que regulam o nosso comportamento, por exemplo, o ‘gene da conduta sexual', pretende-se dar a entender que muito no homem é determinado pelo genoma. Pretende-se, sim, professor. Todos os cientistas, sem "interesses partidários" (homo- ou heterossexuais), continuam as pesquisas, em mais diversas áreas de conhecimento do ser humano, procurando (entre muitas outras coisas) aproximar-se de uma explicação mais ampla das origens de homossexualidade. Acontece que, quando um cientista é mais cientista e menos ativista, os resultados de seu trabalho merecem crédito. O que se sabe realmente é que para formar (por exemplo) uma identidade sexual, contribuem muitos fatores, sem excluir, evidentemente, o da genética. Li recentemente uma matéria de Dr. Dráuzio Warella (aqui), médico oncologista e escritor brasileiro, conhecido por popularizar a medicina através de programas de rádio e TV. Esta é a sua opinião:
Existe gente que acha que os homossexuais já nascem assim. Outros, ao contrário, dizem que a conjunção do ambiente social com a figura dominadora do genitor do sexo oposto é que são decisivos na expressão da homossexualidade masculina ou feminina. (...) Sinceramente, acho essa discussão antiquada. Tão inútil insistirmos nela como discutir se a música que escutamos ao longe vem do piano ou do pianista. A propriedade mais importante do sistema nervoso central é sua plasticidade. De nossos pais herdamos o formato da rede de neurônios que trouxemos ao mundo. No decorrer da vida, entretanto, os sucessivos impactos do ambiente provocaram tamanha alteração plástica na arquitetura dessa rede primitiva que ela se tornou absolutamente irreconhecível e original. Cada indivíduo é um experimento único da natureza porque resulta da interação entre uma arquitetura de circuitos neuronais geneticamente herdada e a experiência de vida. (...) Teoricamente, cada um de nós tem discernimento para escolher o comportamento pessoal mais adequado socialmente, mas não há quem consiga esconder de si próprio suas preferências sexuais. Até onde a memória alcança, sempre existiram maiorias de mulheres e homens heterossexuais e uma minoria de homossexuais. O espectro da sexualidade humana é amplo e de alta complexidade, no entanto; vai dos heterossexuais empedernidos aos que não têm o mínimo interesse pelo sexo oposto. Entre os dois extremos, em gradações variadas entre a hetero e a homossexualidade, oscilam os menos ortodoxos. Como o presente não nos faz crer que essa ordem natural vá se modificar, por que é tão difícil aceitarmos a riqueza da biodiversidade sexual de nossa espécie? Por que insistirmos no preconceito contra um fato biológico inerente à condição humana? Em contraposição ao comportamento adotado em sociedade, a sexualidade humana não é questão de opção individual, como muitos gostariam que fosse, ela simplesmente se impõe a cada um de nós. Simplesmente, é!