ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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29 de janeiro de 2014

Vox populi...


(A foto de um dos participantes das manifestações em Kiev, capital da Ucrânia.
O texto, em ucraniano, diz: "Pela voz do povo fala Deus".
Pouco tempo depois, o mesmo manifestante foi encontrado morto
nas imediações da Praça da Independência.)

"A voz do povo é a voz de Deus", diziam os antigos. Ainda que a Igreja nunca tenha-se declarado democrática (e sim, "teocrática"), tal conceito já possuía o espaço maior ao longo de sua história. Basta lembrar das canonizações feitas antigamente pela aclamação (o que não teve vez no funeral de João Paulo II, acompanhado pelo grito popular "Santo subito!"), bem como em algumas eleições papais, ocorridas (também antigamente) através da mesma dinâmica. 

A Igreja, enquanto instituição, ao longo dos séculos, elaborou uma linguagem (palavras, gestos, símbolos, rituais etc.) que, além de pretender transmitir a doutrina, serviu para instalar e expandir o seu sistema monárquico (que, aliás, tornou-se parte integral da própria doutrina). Os pastores distanciaram-se do rebanho o que podemos alegoricamente expressar com a frase: "Preferiram megafone em vez de telefone". Optaram por falar e não por ouvir, mas, para qualquer eventualidade, tinham na ponta da língua a resposta pronta: "Nós escutamos o povo! Até fizemos uma lei que define isso como uma obrigação!". É claro que escutavam, enquanto o povo ficava de joelhos. Os príncipes ouviam a sua confissão de culpa para, logo depois, repreender o povo e sentenciar a sua penitência. Tinham, igualmente (e ainda têm!), o outro argumento "teológico": se a voz do povo realmente fosse a voz de Deus, Jesus não seria crucificado, pois foi o povo que gritava "Crucifica-o!". A interpretação de algumas passagens bíblicas, cuidadosamente escolhidas, sempre foi o trunfo na manga do clero.

Foi, no entanto, o próprio Jesus que disse aos fariseus que queriam calar a voz do povo: "Se eles se calarem, as pedras gritarão" (cf. Lc 19, 40). Entendeu isso muito bem o Papa João XXIII que nunca tinha perdido (nem negado) a sua alma de camponês. Com a intenção de aproximar a Igreja ao mundo, ou melhor, unir a Igreja-instituição (leia-se "o clero") à Igreja-povo, o Papa Roncalli convocou o Concílio Ecumênico Vaticano II. Como diz o monge beneditino espanhol Hilari Raguer Suñer: Seu projeto se deparou com a resistência cerrada da maioria do entorno curial, mas o mantiveram firme a certeza de que Deus o queria e também o entusiasmo que o anúncio do Concílio suscitou no povo de Deus (vox populi- vox Dei) e até mesmo, além das fronteiras da Igreja, em todos os "homens de boa vontade".

Foi o Concílio Vaticano II que declarou, entre outras coisas: Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito, guiada pelo Espírito Santo ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para condenar, para servir e não para ser servido. Para desempenhar tal missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática (Gaudium et Spes, 3-4).

Vivemos, há quase um ano, uma nova esperança. É a era do Papa Francisco. No último domingo ouvimos as suas afirmações (vale muito a pena ler o texto na íntegra!): O Evangelho deste domingo conta o início da vida pública de Jesus nas cidades e nos vilarejos da Galileia. A sua missão não parte de Jerusalém, isto é, do centro religioso, centro também social e político, mas parte de uma zona periférica, uma zona desprezada pelos judeus mais observadores [ortodoxos], por motivo da presença naquela região de diversas populações estrangeiras (...). Partindo da Galileia, Jesus nos ensina que ninguém é excluído da salvação de Deus, antes, que Deus prefere partir da periferia, dos últimos, para alcançar todos. (...) Jesus começa a sua missão não somente de um lugar descentralizado, mas por homens que se diriam, assim, "de baixo perfil". Para escolher os seus primeiros discípulos e futuros apóstolos, não se dirige às escolas dos escribas e dos doutores da Lei, mas às pessoas humildes e simples (...).

Embora o adágio "vox populi-vox Dei" não esteja (de forma literal) na Bíblia, o mesmo sentido podemos detectar na advertência de Jesus sobre os "sinais dos tempos" (mencionados acima, no texto do Concílio). Os nossos tempos têm mostrado muitos sinais, entre os quais, em diversas dimensões, destaca-se a voz do povo. Queira Deus que ela seja ouvida! 

Leia também a reflexão de Pe. Vitor Gonçalves "Da periferia ao centro", no blog Diversidade Católica ou no blog Rumos Novos.

27 de janeiro de 2014

Paixonite


Limerência é um estado cognitivo e emocional involuntário que resulta de um desejo romântico por outra pessoa (objeto da limerência) combinado por uma intensa, avassaladora e obsessiva necessidade de se ter o sentimento correspondido. O termo foi cunhado em 1979 pela psicóloga e escritora norte-americana Dorothy Tennov para descrever o conceito que havia surgido em suas pesquisas em meados dos anos 60, quando entrevistou mais de 500 pessoas sobre o amor. A palavra, que apareceu pela primeira vez no ano de 1979 livro "Love and Limerence: The Experience of Being in Love" (Amor e Limerência: A Experiência de Estar Apaixonado, em tradução livre).
Mais recentemente, a limerência foi definida em relação ao transtorno obsessivo-compulsivo como “um estado interpessoal involuntário que envolve pensamentos, sentimentos e comportamentos intrusivos, obsessivos e compulsivos que são contingentes e dependem da percepção de reciprocidade emocional da parte do objeto de interesse”.
Limerência também foi definida em termos de seus efeitos potencialmente inspiradoras e de sua relação com a teoria do apego, que não é exclusivamente sexual, como sendo "um estado involuntário potencialmente inspirador de adoração e de apego a um objeto da limerência envolvendo pensamentos, sentimentos e comportamentos intrusivos e obsessivos que vão da euforia ao desespero, a depender da reciprocidade emocional percebida”.
A teoria do apego enfatiza que "muitas das mais intensas emoções surgem durante a formação, manutenção, interrupção e renovação dos primeiros laços afetivos". Sugere-se que "o estado de limerência é a experiência consciente da motivação do incentivo sexual" durante a formação de um vínculo: "uma espécie de experiência subjetiva da motivação do incentivo sexual" durante o "intensivo... estágio de formação de pares" do vínculo afetivo humano.
A limerência pode durar dias, meses, anos, ou até mesmo pelo resto da vida da pessoa afetada. Na linguagem popular, é conhecida como Síndrome de Paixonite Aguda. (Wikipédia)

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Na prática, as coisas acontecem da seguinte maneira: ele está ao meu lado quase o tempo todo. Juntos assistimos e comentamos os programas da televisão, rimos das mesmas burrices e nos emocionamos com as mesmas cenas. Passeamos, fazemos compras, tomamos sorvete. Conversamos longamente sobre vários assuntos, contamos os nossos segredos do passado, relatamos aquilo que marcou a nossa vida e descrevemos os nossos familiares. Sim, dormimos juntos, mas (ainda ) não fizemos sexo. No momento, o mais importante é dormir "de conchinha". Já nos tornamos muito íntimos, o nosso olhar é apaixonado. Quando tomamos coragem para revelar algum defeito particular, uma mania ou vício, o carinho mútuo cresce ainda mais. Na presença de outras pessoas comunicamo-nos com caretas e olhares que só nós entendemos. Fazemos planos para o futuro e o que mais desejamos é viajar. Sonhamos em nos casar um dia (no futuro não muito distante) e morar junto pelo resto da vida. Não há ciumes, desentendimentos, neuroses. Também não ficamos exageradamente grudados. Eu gosto de ver quando ele escreve, passa a roupa ou faz qualquer outra coisa. As vezes ele sai e eu fico esperando pelo seu retorno. Quando isso acontece, percebo que ele sentiu saudade, assim como eu. Enfim, estamos muito felizes...

Um detalhe: tudo isso acontece dentro da minha cabeça. Se eu, um dia, tivesse a ocasião de encontrá-lo pessoalmente (sim, sim, ele é real), muito provavelmente eu confundiria o real com o imaginário. Ficaria decepcionado se ele não atendesse ao meu carinho ou não compreendesse as minhas piadas. O rapaz, certamente, ficaria espantado com o meu entusiasmo e - por me considerar um maluco - nunca mais teria vontade de me ver. Digo isso, porque já experimentei essas situações. A minha paixonite não é apenas aguda, mas se repete com bastante frequência. A única solução seria encontrar uma pessoa real, antes que surja o seu "substituto" imaginário...

Tive três namorados reais, cinco ficantes  e, talvez, uns cinquenta casos de paixonite. Quase sempre separadamente, ou seja, uma pessoa de cada vez. Em sua grande maioria, essas paixonites não saíram da minha cabeça. E, em poucos casos, ao saírem, as minhas tentativas (de me aproximar, de "abrir o jogo" ou até de "dar em cima") tinham sido frustradas. Algumas pessoas, diga-se de passagem, deixaram de falar comigo. Tudo isso parece ser suficiente para nunca mais me deixar levar por esse tipo de coisa. Acredite quem quiser... Estou, no momento, de uma paixonite nova...

Eu sei que as desilusões fazem parte da vida e por mais dolorosas que sejam, são saudáveis. Até agora, tirando os três relacionamentos felizes [enquanto duravam], todo o resto não passou de ilusão. Seria querer  e pedir demais, que a desilusão se limite apenas às qualidades da pessoa (afinal, só Deus é perfeito) e não à possibilidade real de tal pessoa namorar comigo?

25 de janeiro de 2014

Café com leite


Queridos ouvintes, dentro de alguns instantes vai começar a cerimônia do casamento. O clima é festivo, mas também sente-se no ar um pouco de tensão. Afinal, não é todo dia que acontece uma coisa dessas. Os noivos são muito diferentes e há quem diga que esta união não vai dar certo. Entre os convidados as opiniões se dividem entre a comoção e a indignação. Para entendermos melhor as razões que levaram esses dois a tomarem uma decisão tão radical e definitiva, vamos conversar com os próprios noivos que não escondem a felicidade tão esperada. Vou começar pelo senhor Leite que acaba de conversar com seus familiares que, aliás, são a maioria dos convidados à festa, em comparação com um número visivelmente menor de parentes do outro noivo.

- Bom dia! Em primeiro lugar, os meus parabéns antecipados! Os nossos ouvintes gostariam de saber o que levou o senhor a decisão tão corajosa que, segundo alguns dos seus convidados, é uma renúncia da própria identidade, quase uma traição dos milenares costumes da tribo?

- Bem, eu poderia responder com apenas uma palavra: o amor. No entanto, gostaria de acrescentar mais algumas coisas. A mais importante tradição da nossa família e a mais autêntica identidade é a entrega, a generosidade, a doação. Nós existimos para dar a vida.

- Ah, que bonito! Mas, numa união dessas que paradoxalmente chama-se indissolúvel, não acontece justamente o contrário, quer dizer, o senhor fica diluído? Muita gente, aqui mesmo, diz que o senhor vai perder a sua pureza, a sua brancura, o seu sabor e o aroma? Para ser mais exato, o senhor vai perder até o seu nome que passará a funcionar como secundário...

- Na verdade, tudo depende da ótica. Dizem que vou perder tudo isso, enquanto, de fato, eu estou entregando o que tenho de melhor. Ao mesmo tempo vou ganhar uma cor nova, um sabor e aroma também novos. Não concordo quando as pessoas dizem que o branco é a mesma coisa que incolor, mas a nova cor que irei ganhar acho mais interessante. Pelo menos vou perder a minha palidez que, para mim, é o sinônimo da solidão. Mal posso esperar!

- O senhor tem uma família muito grande, mas fiquei sabendo que nem todos compareceram no seu casamento...

- É verdade. Uma irmã minha não veio porque, como disse, ela se derrete no calor das emoções. A outra irmã minha, a mais velha, ela é meio esnobe e se acha nobre demais para se misturar com os pobres [risos]. É a nata da família, muito conservadora, coitada. Mas, olha aqui os meus primos coloridos. Todos já se casaram: um ficou vermelho, outro cor-de-rosa e assim por diante. Para eles, o meu casamento é a coisa mais normal na face da terra. Alguns parentes vieram até do exterior. Já viu aquele esquisitão que parece estragado? O cheiro dele também não é dos melhores, mas dizem que ele é muito caro lá, onde mora. Enfim, a questão de cor não é mais um problema na nossa família, acabamos com este preconceito. E tem outra coisa, inclusive confirmada pelos cientistas. Sim, sim, eu li muito sobre isso. Nesta nova união, nenhuma das minhas propriedades se perde, além das coisas exteriores. Pelo contrário! Além de ganhar algumas novas, aquelas que tenho ficam ainda mais refinadas, agradáveis e até assimilam-se melhor. Com outras palavras, será uma fusão, mas não confusão. Eu entrego e não perco a minha vida para ganhar outra, nova, diferente. Alguns dizem que vou sofrer alterações. Mas, para que usar o termo "sofrer" em vez de "conquistar"? Sofre-se uma derrota e aquilo que estou vivendo não é uma derrota. É uma vitória e a vitória se conquista. Ah, sim, o sofrimento também faz parte do processo, é inevitável, porém, não essencial. Vou deixar de ser apenas eu para me tornar a metade de um "nós" que, neste caso, é mais um singular do que um plural. Como dizem os jovens: "É nós". Se quiser saber, isso vem da Bíblia que diz que "não serão mais dois, mas uma só carne". Não é maravilhoso?

- Bem, só posso agradecer pela sua atenção e desejar muita felicidade. E aproveito aqui a presença do outro noivo que ouviu toda a nossa conversa, sem esconder a emoção. Reitero as minhas felicitações também para o senhor e gostaria de perguntar se a sua opinião é semelhante. Não posso deixar de notar o fato de serem pouquíssimos os seus familiares, presentes no casamento...

- Ah, sim, é verdade. A minha família é bem menor do que a do meu noivo. E também tem gente reclamando, mas eu não ligo. Um irmão meu, o Expresso, me chamou de vacilão, mas ele é assim mesmo, tem um temperamento forte e esquenta com cada coisa. Eu, porém, prefiro a ideia do meu noivo e concordo com cada palavra dele, embora a nossa história tenha sido diferente. Por exemplo, aquilo que ele falou sobre a cor. Nossa! Eu já passei por tanta coisa! Nasci verde, virei vermelho e agora estou marrom quase preto. Primeiro me regaram, depois arrancaram, descascaram, queimaram, trituraram... enfim. Tive uma vida cheia de contradições. A água me deu a vida, mas fiquei desidratado, sequinho mesmo e ainda trancado hermeticamente, só para não pegar a umidade. Depois me afogaram na água fervente para que ficasse assim como está me vendo agora. Falando verdade, fiquei muito amargurado com tudo isso, mas agora isso vai mudar, graças a Deus e graças ao meu noivo. Para quem fala sobre as perdas, respondo: já pensou que, para mim, a escuridão é o mesmo que a solidão? O resto é a mesma coisa que ele disse: não perco nada e ganho tudo, torno-me mais suave. Estou muito feliz com esta mudança e se quiser saber, é por todo o resto da minha vida. Aliás, da nossa vida. Ah, lembrei! Em relação ao nome... Foi ele que pediu para colocar o meu na frente...

- Ai, que bonitinho! Parabéns então, de coração mesmo. E uma última palavra: vocês têm planos para a lua de mel e para depois?

- Temos sim, inclusive a sua dica sobre o mel é interessante. Por enquanto pensávamos apenas no açúcar, mas podemos testar outros adoçantes. Além de umas pitadas de canela e de sal. É sério! Muita gente não sabe, mas uma pitada de sal faz com que o sabor fique ainda mais refinado, só não se pode exagerar [risos]. E vamos viajar pelo mundo inteiro, de caneca, de copo e de xícara... Temos tantas possibilidades! E vamos testar novas proporções, novas cores e novos sabores. Vai ser um espetáculo! Agora precisamos pedir licença, porque a cerimônia vai começar...

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Obs.: O vídeo não é exatamente sobre a história relatada acima, mas não deixa de ter algo a ver com ela.

24 de janeiro de 2014

Reencontros e desencontros


Pelo menos umas 2-3 vezes por ano participo de um encontro que para muita gente pode parecer algo impossível, ou uma loucura. Para mim não é... Para ser mais exato, trata-se de um reencontro que, desta vez, foi ainda mais especial. Acredite ou não, mas mantenho o contato frequente com o meu último ex-namorado (vou chamá-lo aqui de "L.") e mesmo tendo encerrado o relacionamento que durou uns três anos, hoje em dia somos melhores amigos. O penúltimo namorado meu (vou chamá-lo aqui de "M"), também é um bom amigo, embora os nossos encontros sejam menos frequentes por ele estar morando atualmente em São Paulo. Ele não é amigo apenas meu, mas também daquele que ocupou o seu lugar. Resumindo: nós três (eu e os meus dois últimos ex-namorados) cultivamos a amizade recíproca e sempre quando o "paulistano" vem ao Rio, procuramos nos encontrar e passamos pelo menos uma ótima tarde juntos. Em meados deste mês almoçamos juntos (na casa do "L") e o resto foi uma deliciosa tarde de altos papos e muitas gargalhadas. Houve, também, alguns desabafos particulares "nos bastidores". O "L" continua, há mais de um ano, em seu lindo e sereno relacionamento (se não me engano, o terceiro depois do nosso), está super feliz e eu compartilho a sua felicidade, torcendo que dure para sempre. Tive a oportunidade de conhecer o namorado dele e tenho certeza de que os dois formam um belíssimo casal. Quem me surpreendeu e deixou preocupado foi o "M". Primeiro, ele me lembrou que já se passaram 10 anos desde o momento em que terminamos (eu sempre fui péssimo em lembrar de datas e quaisquer números em geral). Ao me lembrar daquele tempo em que ele tinha sido trocado pelo "L" (sim, sim, o mesmo), ele me disse (com uma cara que eu não conhecia): "Você quer comemorar?". Entendi imediatamente, mas a surpresa me fez perguntar: "Comemorar, comemorar? Como assim?". - "Ah, não me diga que você se esqueceu de como se faz isso!". Confesso que fiquei sem resposta, tentei fazer piada e acabei mudando de assunto. Mais tarde ele me disse apenas: "Então... Entendi que a sua resposta é 'não', certo?". Certo. Não que eu tenha perdido a atração que sentia por ele. É que eu compreendo o sexo de outra maneira. Para mim é a consequência e a expressão de um relacionamento amoroso (pois é, sou careta mesmo). E eu não acredito muito no "relacionamento à distância" (como disse antes, ele mora atualmente em São Paulo). O que me preocupou, porém, foi a outra declaração dele: "Pense em sexo casual... Sou eu!". O "M", depois de terminarmos, ficou algum tempo sozinho e depois viveu um relacionamento de três anos (acho interessante essa sequência de triênios, diga-se de passagem), em seguida, passou um tempo fora do país e ao retornar, começou a "caça". Disse que já perdeu a conta, mas trata-de de "uns 30 caras", na maioria desconhecidos (alguns até de nome), de lugares inusitados e situações perigosas. Enfim... fiquei bastante preocupado e confesso que me senti um tanto culpado (afinal, mais que provavelmente, fui eu quem o introduziu a "essa vida"). Conversei depois com o "L" que discordou da minha sensação de culpa e decidiu dar uma bronca ao "M". O nível da nossa amizade atual permitiu que tal bronca não se baseasse na minha "fofoca". O próprio "M" contou a mesma história ao "L" e só depois levou a prometida bronca que, de fato, expressava a mais autêntica preocupação e um conselho: "Vê se arruma um namorado! É muito melhor e mais seguro".

Existe uma analogia entre os pais e os ex-namorados (pelo menos no nosso caso). Assim como muitos pais têm dificuldade de admitir que os filhos, um dia, deixam de ser crianças, assim eu pensei que o rapaz com quem terminei há 10 anos, fosse o mesmo também hoje. As pessoas evoluem. As vezes na direção previsível e outras vezes não...

Os nossos relacionamentos fazem parte do passado, mas o amor continua. Não é mais o amor de intimidade sexual, mas o mais sincero desejo de felicidade para cada um, junto com o respeito pelo espaço particular do outro, não deixam de significar um amor verdadeiro. Há coisas que só compartilho com eles e não conheço ninguém que consiga me compreender como eles. Por isso mesmo detesto os slogans do tipo: "Se ex-namorado fosse bom, não seria ex", "Ex-namorados são como vestidos velhos. Você vê um retrato antigo e diz: como um dia tive coragem de sair com aquilo?", "Não derrame lágrimas pelo 'ex'! Derrama logo gasolina e taca fogo". As frases desse gênero, criadas por uma mente mesquinha e retardada, mostram a total ausência de amor. E não apenas depois de um relacionamento rompido, mas principalmente enquanto ele durava. É o mesmo nível de idiotice que ouvimos todos os dias no insistente e irritante lançamento de um CD na TV globo: Tá duvidando, é? Cuidado que eu te esqueço e você cai do cavalo. Tá se achando, é? Aproveita que um dia eu te esqueço na gaveta! (Fernando e Sorocaba, "Gaveta").
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Obs.: A foto acima remete a dois fenômenos da atualidade televisiva (o seriado "Looking", estreado recentemente na HBO e a novela da globo "Amor à vida"). Nenhuma dessas histórias retrata a nossa, embora existam alguns elementos um tanto parecidos... 

22 de janeiro de 2014

Jurisprudência divina



A jurisprudência é o conjunto das soluções dadas pelos tribunais às questões de Direito. A sua função principal é a adaptação da lei às ideias e aos costumes contemporâneos. A jurisprudência nasceu com o Common law inglês, no qual o direito é criado e aperfeiçoado pelos juízes. Uma decisão a ser tomada num caso depende das decisões adotadas nos casos anteriores e afeta o direito que será aplicado em casos futuros. A cinematografia norte-americana, com certa frequência, ajuda-nos a compreender melhor como funciona o Common law. São aqueles advogados que desesperadamente estudam os processos antigos para encontrar a solução de um caso de outrora que seja útil aos seus clientes. O argumento que diz "uma vez, o caso semelhante, foi resolvido assim", é capaz de convencer o juiz.

Será que o Rei dos reis e Juiz dos juízes segue, também, algum tipo de jurisprudência? Segue, sim e podemos dizer que ela é, no mínimo, bastante curiosa. As leituras litúrgicas de ontem fornecem para nós alguns dos inúmeros exemplos bíblicos. Refiro-me aos textos da terça-feira da 2ª semana do tempo comum (1Sm 16, 1-13; Sl 88; Mc 2, 23-28). No primeiro texto temos o profeta Samuel que vem transmitir a voz de Deus, portanto, a sua ordem e a sua lei. Um detalhe chamou a minha atenção. Antes de tudo, Deus orientou assim o seu servo: Eu te mostrarei o que deves fazer e tu ungirás a quem eu te designar (v. 2). Depois Samuel purificou Jessé e seus filhos e convidou-os para o sacrifício (v. 5). Como se sabe, o ritual de mais diversas purificações e associado a ele conceito da impureza fazem parte da cultura e da mentalidade do povo de Israel, inclusive de sua legislação. Uma sociedade teocrática não distingue muito claramente a origem das leis vigentes e, para facilitar as coisas, justifica os seus comportamentos com a ideia da obediência a Deus, ainda que nem sempre tenha acertado o seu discernimento. Mostram isso as precipitações mentais de Samuel que, como um escolhido do Senhor, vivia ouvindo a voz de Deus. Percebemos, porém, que ele escutava igualmente as dicas de sua lógica humana. Em alguns momentos parecia até um duelo de vozes: Certamente é este o ungido do Senhor! - Não! Não é este! Quando acabou a fila dos candidatos, surgiu uma questão óbvia: Estão aqui todos os teus filhos? Pois é, havia mais um, mas quem teria a ideia de imaginar o caçula como o futuro rei de Israel? E o Senhor que acabava de dizer a Samuel para não se deixar enganar pela aparência, desta vez faz questão de notar que Davi era ruivo, de belos olhos e formosa aparência. Quando chegou, então, o bonitinho, Deus disse ao profeta: Levanta-te, unge-o: é este! Samuel, é claro, obedeceu na mesma hora e nem teve a ousadia de questionar: Uê, Senhor, e a purificação? Ele teria que ser purificado antes, porque é assim que manda a Tua lei! Se tivesse tal coragem, certamente teria recebido a mesma resposta que ouviu, séculos mais tarde, não menos ungido Apóstolo Pedro: Não chames de impuro o que Deus tornou puro! (At 10, 15).

O mesmo elemento da jurisprudência de Deus, isto é, a exceção (ou a suspensão), percebemos ainda mais nitidamente no texto do Evangelho proposto para o mesmo dia. É o típico exemplo do Common law, aplicado pelo próprio Jesus. Caminhando por uns campos de trigo, os discípulos de Jesus arrancaram algumas espigas para comer, o que não seria tão grave se não fosse o dia de sábado. De um lado, a lei de Deus obrigava os camponeses a deixarem um feixe de trigo "esquecido" no campo durante a colheita, para que os transeuntes necessitados pudessem comer (cf. Dt 24, 19). Afinal, Deus é Amor e se preocupa com os pobres. Por outro lado, no sábado não se podia fazer trabalho algum. Os fariseus, membros ilustres da elite religiosa do povo, lembraram-se, obviamente, da proibição e não do amor, o que observamos igualmente em todas as discussões travadas por eles com Jesus: Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido? (Mc 2, 24). Jesus recorre a um precedente (exatamente como os advogados que usam a lógica do Common law): Por acaso, nunca lestes o que Davi e seus companheiros fizeram quando passaram a necessidade e tiveram fome? Como ele entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu os pães oferecidos a Deus e os deu também aos seus companheiros? No entanto, só aos sacerdotes é permitido comer esses pães. (v. 25-26)

Mais ou menos neste sentido podemos dizer: Por acaso nunca lestes o que Jesus fez quando um centurião romano o pediu para curar seu servo que muito provavelmente era, também, o seu amante? Como o Senhor não somente curou o doente sem questionar a relação dos dois, mas ainda elogiou a fé daquele centurião? (cf. Mt 8, 5-13 e Lc 7, 1-10). Ou, quando Filipe, um dos sete diáconos, anunciou a fé ao eunuco etíope e, sem questionar a sua condição de esterilidade (ou, quem sabe, homossexualidade, o que era bastante comum nos haréns da época e nos palácios de rainhas), ministrou-lhe o Sacramento do Batismo? (cf. At 8, 29-39). Ou, então, quando já mencionado aqui Pedro, o primeiro Papa (talvez ante-Papa, sem confundir com qualquer anti-Papa, mas tendo em vista que os Papas são seus sucessores), chegou à conclusão definitiva: Deus me mostrou que não se deve dizer que algum homem é profano ou impuro. (At 10, 28)

A "jurisprudência" de Deus baseia-se no amor. Os teólogos e a doutrina oficial da Igreja afirmam que Deus é imutável, mas também que é insondável. Quando, então, alguém afirma que isso ou aquilo é assim e não pode ser diferente, pois provém da lei de Deus, nem sempre tem razão. Não valeu a pena brigar (em nome de Deus) com os cientistas (e queimar alguns deles na fogueira), só porque afirmavam que a Terra é redonda. Em um contexto mais amplo resume esta verdade a jornalista e escritora Martha Medeiros:

Somos vigorosamente contra ou a favor, como se de nossas posições dependesse nossa vida. E chegam a ser inocentes nossas tentativas de compreender a nós mesmos e ao mundo. Particularmente, gosto muito dessa busca, mas sem perder a consciência de que, onde quer que eu chegue, ainda estarei a milhões de anos-luz da compreensão absoluta. Ainda bem. O que viria depois da compreensão absoluta? ("Causa e efeito" em Revista O Globo, 22. 12. 2013; p. 14).

21 de janeiro de 2014

Ações essenciais


Há um ano, o Governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral sancionou a Lei N° 6394 de autoria da deputada estadual do Rio, Myrian Rios (PSD). A lei institui o "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" no âmbito do Estado do Rio de Janeiro. O texto parece um conto de fadas e certamente tem como anexo (?) a regulamentação bem precisa por parte da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. Afinal, alguns termos carecem de uma definição mais detalhada, por exemplo:

Parágrafo Único - O Programa deverá envolver diretamente a comunidade escolar, a família, lideranças comunitárias, empresas públicas e privadas, meios de comunicação, autoridades locais e estaduais e as organizações não governamentais e comunidades religiosas, por meio de atividades culturais, esportivas, literárias, mídia, entre outras, que visem a reflexão sobre a necessidade da revisão sobre os valores morais, sociais, éticos e espirituais (Deixando de lado as imperfeições gramáticas, pergunto: “a reflexão sobre a necessidade da revisão dos valores morais, sociais, éticos e espirituais” precisa de uma lei? E se alguém não quiser refletir? Será multado ou preso? Isso, sem dúvida precisa ser regulamentado...)

Art. 2º- O Poder Executivo deverá firmar convênios e parcerias articuladas e significativas, com prefeituras municipais e sociedade civil, no sentido de possibilitar a execução do cumprimento ao disposto nesta Lei, com os seguintes objetivos: I – promover o resgate da cidadania; II – fortalecer as relações humanas; III – valorizar a família, a escola e a comunidade como um todo. (Qual é o conceito da família? A legislação estadual obedece a nacional que define a família como “comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; independentemente de orientação sexual” [Lei nº 11.340; art. 5º, inciso II, e parágrafo único]?)

Parágrafo Único - Serão desenvolvidas ações essenciais que contribuam para uma convivência saudável entre pessoas, estabelecendo relações de confiança e respeito mutuo, alicerçada em valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais, como instrumento capaz de prevenir e combater diversas formas de violência. (Qual é o significado do termo “ações essenciais”? O "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" prevê, também, as ações essenciais para combater a homofobia, estabelecendo relações de confiança e respeito mútuo entre as pessoas heterossexuais e homossexuais? Ou os valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais não permitem isso? Em que baseiam-se esses valores? Na doutrina católica? A deputada, em outro momento, descreve-se assim: Em 2003, cheguei à Comunidade Canção Nova e lá eu me restaurei. Encontrei na fé um alicerce e recebi forças de Deus para me tornar uma nova mulher. Naquele momento, o meu maior desejo era ser totalmente de Deus e, por Ele, eu mudei.)

Justificativa - Infelizmente, a sociedade de uma maneira geral vem cada dia mais se desvencilhando dos valores morais, sociais, éticos e espirituais. Valores esses que são de extrema importância para que nossa sociedade caminhe para o crescimento. Sem esse tipo de valor, tudo é permitido, se perde o conceito do bom e ruim, do certo e errado. Perde-se o critério do que se pode e deve fazer ou o que não se pode. Estamos vivendo em um mundo onde o egoísmo e a ganância são predominantes. (É uma impressão minha, ou as afirmações acima realmente fazem alusão aos costumes e comportamentos, vistos como errados pelos católicos fundamentalistas?)

Justificativa [continuação] - Na busca de um mundo melhor o programa, descrito nesse projeto, objetiva formular proposta de ações educativas e sugestivas, direcionadas a criança, jovens e adultos despertando uma grande mudança na sociedade fluminense.Diante dessa realidade, a criação do programa supracitado, que tem como objetivo principal conscientizar e reinserir valores de suma importância para que possamos construir um futuro melhor, onde haja principalmente respeito pelo próximo. (Como neste contexto fica, por exemplo, a manifestação pública de afeto entre as pessoas do mesmo sexo, tal como o beijo, considerado por muitos católicos e evangélicos uma falta de respeito?)

A deputada mantêm um blog (ou mantinha, pois as últimas postagens são do ano passado). Lá mesmo, além de publicar a lei em questão, divulgou uma nota esclarecedora:

Gostaria de conversar com vocês sobre algumas polêmicas que vêm sendo questionadas a respeito da aprovação do Projeto de Lei de minha autoria, que institui o Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais.
Para esclarecer algumas informações erradas que estão circulando na mídia, eu não sou ex-atriz, sou e sempre serei atriz, pois sou apaixonada pela arte da interpretação.
Também gostaria de corrigir a matéria que divulgou que faço parte da bancada evangélica da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Respeito todas as religiões, mas sou missionária consagrada da comunidade católica Canção Nova.
Esse projeto foi feito com a intenção de fazer mudanças positivas na nossa sociedade, e não tem como propósito atacar ninguém por motivo algum.

Jacques Gruman procura respostas ao questionamento parecido com o meu: Afinal de contas, existirá definição universal para valorização da família ? E para alicerces espirituais? Quem vai fazer a lista dos “valores morais” sugeridos pela lei? E acrescenta: A autora do projeto de lei, que vive às custas dos nossos impostos, é a senhora Myrian Rios, ex-atriz, missionária católica conservadora. Como muitos de seus pares, faz carreira confundindo púlpito com tribuna, defendendo propostas “cristãs” arcaicas e destilando um preconceito raivoso contra os homossexuais. Chegou a fazer campanha contra o sexo anal (!). Não compreende e se revolta com as profundas mudanças comportamentais das últimas décadas, que se refletem em indivíduos e famílias, regurgita conceitos que não se sustentam nas mais elementares evidências científicas e, presa a um maniqueísmo pueril, nos ameaça com leis absurdas.

Repito: a Lei Estadual N° 6394 vigora no Estado do Rio de Janeiro há um ano. Em lugar algum consegui encontrar as notícias sobre a regulamentação e a execução desta lei...

20 de janeiro de 2014

Homofobia - palavra estranha


Escrevi recentemente que - em certo sentido - concordo com aafirmação usada pelo padre Paulo Ricardo: "Não existe nenhuma homofobia". Para ser mais exato, o padre disse: "Não existe nenhuma homofobia em considerarmos a estrutura do mundo real". De fato, a polêmica mais importante seria sobre o conceito do "mundo real", mas o início daquela frase despertou na minha memória o questionamento de outro tipo. Quando usei a expressão "em certo sentido", fiz referência, de fato, a um e único sentido. Enquanto a homofobia - como a entendemos - lamentavelmente continua existindo e até parece aumentar, o próprio termo não me deixa sossegado. O que quero dizer é que não existe a homofobia do ponto de vista linguístico (etimológico, fraseológico etc.). O que, de fato, existe e tanto nos atormenta é uma "heterofobia".

Analisemos um pouco a história:

A palavra homossexual é um híbrido do grego e do latim com o primeiro elemento derivado do grego homos'mesmo' e o segundo elemento derivado do latim sexus'sexo', conotando portanto, atos sexuais e afetivos entre pessoas do mesmo sexo. Especialistas em literatura psiquiátrica concordam em posicionar o surgimento do termo homossexualismo no século XIX, por volta da década de 1860 ou 1870, criado pelo discurso médico para identificar o sujeito homossexual. A primeira aparição conhecida do termo homossexual na impressão foi encontrada em um panfleto de 1869, publicado anonimamente, pelo romancista alemão nascido na Áustria, Karl-Maria Kertbeny. [fonte]

palavra homofobia é um neologismo criado pelo psicólogo George Weinberg, em 1971, numa obra impressa, combinando a palavra grega phobos ("fobia"), com o prefixo homo-, como remissão à palavra "homossexual". O problema é que tal prefixo ('homo') é também uma palavra completa (como vimos acima) e a mencionada remissão à palavra 'homossexual' não parece tão óbvia. Se, portanto, a palavra 'fobia' - "medo, aversão irreprimível" (do grego antigo φόβος) associarmos ao termo 'homo' (também do grego antigo ὁμός - 'mesmo, igual'), vamos descrever o "medo do igual" o que não é o caso da homofobia real, cujos tristes efeitos sofremos diariamente na própria pele. O medo, a aversão irreprimível, a agressão irracional... tudo isso dirige-se a nós, justamente por sermos diferentes. Na língua grega existe o termo 'heteros' (ετερός) que quer dizer 'diferente'. Por analogia (e, segundo os estudiosos, como a resposta à criação do termo "homossexual") surgiu a palavra "heterossexual", com a mesma lógica de associar um elemento derivado do grego ('heteros' - 'outro, diferente') e o outro, derivado do latim ('sexus' - 'sexo'), para indicar atos sexuais e afetivos entre pessoas de sexos opostos. Logo, o mencionado acima "medo causado pelas pessoas diferentes (no contexto sexual)" seria 'heterofobia' e não 'homofobia'.

Vale mencionar aqui mais um termo, desta vez composto de duas palavras gregas e que descreve a realidade muito próxima à homofobia. É a xenofobia (do grego ξένοςxénos -'estrangeiro' φόβοςphóbos - 'medo') é o medo, aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, a desconfiança em relação a pessoas estranhas ao meio daquele que as julga ou que vêm de fora do seu país. A xenofobia pode manifestar-se de várias formas, incluindo o medo de perda de identidade, suspeição acerca de suas atividades, agressão e desejo de eliminar a sua presença para assegurar uma suposta pureza.
A xenofobia pode ter como alvo não apenas pessoas de outros países, mas de outras culturas, subculturas ou sistemas de crenças. O medo do desconhecido pode ser mascarado no indivíduo como aversão ou ódio, gerando preconceitos. Em senso mais restrito, xenofobia é o medo excessivo e descontrolado do desconhecido. Neste sentido, é umadoença e insere-se no grupo das perturbações fóbicas,caracterizadas por ansiedade clinicamente significativa, provocada pela exposição a uma situação ou objeto temido. Para o tratamento da xenofobia são normalmente utilizados os métodos da terapia comportamental. Em alguns casos mais graves é habitual a administração de medicamentos que tenham por objetivo principal a diminuição da ansiedade extrema, uma vez que esta impede que se realizem as sessões terapêuticas de uma forma eficaz. Em outros casos, pode-se desenvolver crenças irracionais (geralmente preconceituosas), pelo que também é recomendado que se busquem estratégias cognitivas que trabalhem tais crenças.[fonte]

Bem... Não pretendo promover aqui uma revolução linguística ou a nova reforma ortográfica/etimológica etc. Procuro apenas analisar os termos que usamos.

O verdadeiro problema começa quando alguém insiste em negar a existência de algo real. É o caso de "homoafetividade" que, enquanto um termo, não deixa tantas dúvidas, porém é questionada como a mais autêntica experiência vivida pelas pessoas homossexuais. O "filósofo" Olavo de Carvalho, em um dos seus discursos, exibidos no YouTube, disse literalmente: Vamos falar o português claro: no que consiste a homoafetividade masculina, né? Consiste um comer o cu do outro, meu filho. Consiste na boa e velha sodomia, você tá entendendo? (Leia aqui e, se realmente quiser, assista os vídeos no mesmo link).

Terminando as minhas divagações sobre os termos e as expressões (com seus respectivos significados), gostaria de afirmar com a mais triste veemência: a homofobia existe, sim... A página virtual "Homofobia mata" é um dos veículos que comprovam i documentam esse trágico fenômeno.

Para finalizar, recorro ao texto do Deputado Federal Jean Wyllys, publicado na "Carta Capital":

Eu já disse uma vez e vou repetir. Cada uma dessas vítimas tem um algoz material — o assassino, aquele que enfia a faca, que puxa o gatilho, que "desce o pau", como o pastor Malafaia pediu numa de suas famosas declarações televisivas. Mas há outros algozes, que também têm sangue nas mãos. São aqueles que, no Congresso, no governo e nas igrejas fundamentalistas, promovem, festejam, incitam ou fecham os olhos, por conveniência, oportunismo, poder e dinheiro, cada vez que mais um Kaique é morto. Eles também são assassinos.

Como deputado federal, mas também como cidadão gay desse país, e antes disso tudo, como ser humano não consegue conviver com a violência e o ódio como se fossem naturais, ficarei à disposição da família e dos amigos de Kaique e farei tudo o que puder para que esse e outros crimes sejam esclarecidos e não fiquem impunes. Como dizia o poeta Pablo Neruda, chileno como Daniel Zamudio, "por esses mortos, nossos mortos, eu peço castigo".

18 de janeiro de 2014

Ser homossexual ou gay?


Escrevi várias vezes aqui sobre a dificuldade de promover o diálogo construtivo entre o dois "universos": o católico (ou cristão em geral) e o "LGBT". Os obstáculos começam bem antes do preconceito mútuo em si. Na verdade, tais obstáculos originam-se na incapacidade de usar as palavras com a devida compreensão. Isso começa na escola primária, as consegue se infiltrar até nas faculdades de teologia. Vale observar aqui que cada um desses "universos" possui a sua linguagem própria, sempre com uma margem de incompatibilidade que pode ser superada com uma dose de boa vontade e um pouco de esforço. Observo esse esforço, por exemplo, na assim chamada "grande mídia" que, aos poucos, vai modificando a sua terminologia, ao transmitir as notícias ligadas à Igreja. Agora conseguimos ouvir, com mais frequência, que o fulano de tal vai ser canonizado (e não santificado) pela Igreja etc. A Igreja, por sua vez e pelo menos em seus documentos oficiais, também consegue rever a sua linguagem, relacionada à homossexualidade. Um texto de 2002, assinado pelo Prefeito do Pontifício Conselho para a Família, traz uma distinção bastante curiosa: É inadmissível que se queira fazer passar como uma união legítima, e inclusivamente como "matrimônio", as uniões de pessoas homossexuais e lésbicas, até mesmo com a reivindicação do direito a adotar filhos. Nos documentos mais recentes esse equívoco já não aparece. O próprio conceito das uniões de pessoas do mesmo sexo parece ganhar, também, cada vez mais espaço, passando de algo "inadmissível" a um fato existente e digno de atenção. A evolução linguística, entretanto, parece não ter alcançado a mente de outros autores que, ainda que de maneira não tão oficial, também falam em nome da Igreja. Este é o caso do padre Paulo Ricardo, que em uma entrevista ao portal "Destrave", vinculado à "Canção Nova", afirma:

É preciso antes distinguir a pessoa homossexual do movimento gay. Homossexual é a pessoa que tem atração por outra do mesmo sexo. O gay é uma pessoa que assumiu uma postura política, ele é um militante. Nós católicos queremos acolher todos os homossexuais que estejam dispostos a renunciar ao gayzismo, porque este sim é incompatível com a moral cristã. 

Sem entrar na polêmica sobre o neologismo (copiado pelo padre do "filósofo" Olavo de Carvalho), pergunto: por que a postura política do movimento gay é incompatível com a moral cristã? Lutar contra o preconceito, defender a dignidade humana e zelar pela segurança das pessoas, não se encaixa aos deveres de um cristão? Ou a perseguição dos cristãos é ruim, enquanto a perseguição das pessoas homossexuais é boa e legítima? A militância católica fundamentalista está OK, mas a militância LGBT não está? Onde começa uma postura política? Não seria no momento em que, nas eleições de qualquer tipo, nego o meu voto ao candidato homofóbico? Ou quando mantenho e atualizo um blog, publicando as opiniões favoráveis às pessoas homossexuais?

Realmente, neste contexto, qualquer diálogo torna-se praticamente impossível...

Na mesma entrevista, o padre diz mais uma coisa: Não existe nenhuma homofobia em considerarmos a estrutura do mundo real. A estrutura do mundo real diz o seguinte: não existe nenhum modo de haver uma união genital entre duas pessoas do mesmo sexo. O cardeal Ratzinger, quando ainda prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, assinou um documento no qual dizia que nenhuma ideologia – no caso aqui a ideologia gay – será capaz de mudar a estrutura da realidade. Então eles podem repetir quanto quiserem, mas da união entre duas pessoas do mesmo sexo não sai vida e a união entre um homem e uma mulher gera vida. Esta é a estrutura do mundo real.

Quer dizer, eu sou irreal... É claro que ninguém vai aceitar dialogar comigo, afinal, eu não existo. Com todo respeito ao Papa emérito (citado acima cardeal Ratzinger), a "ideologia gay" não só é capaz de mudar a estrutura da realidade, mas já está fazendo isso há muito tempo. A antiga estrutura da "realidade", hermética e unânime em rejeitar as pessoas diferentes, está se abrindo, cada vez mais, à "ideologia do Evangelho" que consiste em atitudes de acolhimento, compreensão e, justamente, nas tentativas de diálogo.

Quanto à expressão do autor: "Não existe nenhuma homofobia", quero surpreender os meus (eventuais) Leitores e afirmar que - em certo sentido - concordo com isso. Prometo explicar melhor esta questão na próxima vez...

16 de janeiro de 2014

Só eu sei as esquinas...

Se compararmos a vida com uma caminhada, a esquina pode ser o sinônimo de uma virada, ou de um marco que fica gravado na história pessoal. É neste sentido que escuto a música de Djavan que inspirou o título desta postagem. Graças aos meus pais, eu sou desde criança, um homem apaixonado pelos livros, ou melhor, pelos escritos em geral. Alguns textos ficaram impregnados na minha alma, por terem causado as mais autênticas e profundas reviravoltas interiores. A minha juventude ficou marcada por alguns conjuntos de texto, digamos, paradoxais, pois misturaram suavemente, por exemplo, as reflexões filosófico-teológicas de Karol Wojtyla (João Paulo II) e a ficção infantil de Tove Jansson (sem saber naquela altura da homossexualidade dela). Os impactos existenciais que formaram a minha trajetória começam pelos textos, mas estendem-se, também, aos filmes, à música e as obras de arte. Em todo este universo de expressão humana, o que mais me fascina é o ato (ou o processo) de criar. Sou um homem apaixonado pelo mistério que envolve a concepção, a mais real gestação e, por fim, o nascimento das ideias que tomam forma, seja de um texto, de uma sinfonia, ou de um desenho. É algo que retratam, por exemplo, os filmes: “Amadeus” ou “O som do coração” (com o fantástico FreddieHighmore)

É incomparável a sensação de encontrar um texto, uma cena, uma pintura, enfim, uma obra que expresse, com a fascinante exatidão, aquilo que você está sentindo, mas nunca teve a capacidade de descrever. É com essa fascinação que transcrevo aqui, com a devida autorização, um dos textos de Matheus Gabry. É um jovem estudante de Design de Interiores, apaixonado por arquitetura, livros, fotos, músicas e tudo aquilo que o faz manter contato com sua própria alma (a a alma do universo). Os belíssimos textos de sua autoria estão vinculados às fotos no seu perfil do facebook. 

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Quando encontrei o amor

Sabe, tem um trecho de uma música que gosto muito:

If God had a name what would it be?
And would you call it to his face?
If you were faced with Him in all His glory
What would you ask if you had just one question?”
– One of Us - Joan Osborne

A tradução dela é essa:

“Se Deus tivesse um nome, qual seria?

E como você o chamaria na sua frente?
Se você se encontrasse com Ele em toda sua glória
O que você perguntaria se tivesse apenas uma pergunta?”

Acho que tenho encontrado o amor, mas quando digo isso não digo em relação ao amor físico ou humano, acho que tenho encontrado um tipo único de amor desde que me permiti deixar ser amado. Quando penso em como poder ser o amor de Deus eu logo penso em algo que não posso definir e nem tampouco medir ou descrever, nem mil linhas seriam capazes de expressar o que possa ser esse Amor.

Quando eu era criança e já sabia que eu possuía entendimento sobre certas coisas e sabia que eu tinha uma diferença que ainda é muito mal vista hoje em dia, quando eu me maltratava com apenas 6 ou 7 anos perguntando para mim mesmo se Deus me amava mesmo eu sendo um menininho que gostava de outros meninos. Eu simplesmente achava que Deus nunca iria me olhar com bons olhos, que eu era muito diferente e mal por ser assim, e que eu causava vergonha em Deus.

O tempo foi passando e eu tive que lidar sozinho com essa minha “diferença”, durante a escola, ainda que não soubessem de mim e dessa minha diferença - talvez até soubessem, mas não perguntassem ou tocassem no assunto por medo de como eu iria reagir -. O fato é que desde essa fase de crescimento eu achei que tinha perdido a companhia Dele, eu achava que Ele me protegia e ainda se importava comigo porque eu era um fruto de sua criação, mas não porque eu trazia tanta alegria como um outro menino que gostasse de meninas trazia para Ele. E por muitas vezes eu me sentia com um único destino pelo qual a “sociedade” e a comunidade religiosa achava que seria o correto para mim: o inferno. E eu temia muito isso, eu temia muito com todas as minhas forças que esse fosse o meu destino intransmutável.

Foi quando então eu comecei a me tornar um pouco mais pensante e menos fanático por leis, dogmas ou “conceitos divinos” com os quais eu cresci aprendendo. Foi quando eu finalmente tive a coragem de pensar em Deus como um ser que poderia ser negro ao invés de branco e de barba branca grande, foi quando eu comecei a pensar em Deus como um ser que não tem definição de gênero, etnia ou classe social. Foi quando eu comecei a ver Deus como a formiga que está caminhando sobre os meus pés carregando uma folha pesada até o formigueiro, como o passarinho que faz o seu ninho, como a abelha que está a toda hora buscando pólen. Como a perfeita combinação de cores do pôr-do-sol. Quando eu finalmente tentei ver a grandeza de Deus no minimalismo de sua criação que percebi que Deus é um ser muito além do que meus olhos ou sentidos captam ou podem captar. Deus… uma entidade regida de luz e amor, um ser incapaz de renegar a sua criação, pelo contrário, doar uma parte sua em sacrifício humano para demonstrar para alguém tão desacreditado como eu de que Ele me amava acima de tudo aquilo que eu fui, sou e ainda posso ser. Deus e essa mania de nos olhar como crianças indefesas que muitas das vezes fazem as coisas sem pensar, brincam e se machucam, ralam os joelhos, ferem o coração. E Ele?! Bem, Ele sempre foi o papai protetor que esteve por perto observando cada movimento meu e me levantando de todos os tombos e tropeços da vida, sempre me acalmando e me prometendo que independente de qualquer coisa Ele me amou, me ama e me amará para todo o sempre.

Posso não ser um portador de uma necessidade especial, posso não ter um tumor ou outra limitação física, posso não ser uma pessoa portadora de depressão ou qualquer outra doença da alma, mas eu fui por muito tempo uma pessoa que recusava o maior desejo de Deus para mim: ser livre para ser o que sou e se sentir amado. Hoje eu descobri o quanto importa para Ele que eu seja aquilo que meu coração pede, por mais que eu erre, por mais que eu fique na pior, por mais que eu esteja num balanço suspenso em que a qualquer momento eu possa cair, Ele nunca soltará minha mão e muito menos soltará a sua. Ele te ama, e isso te basta, ainda que você não entenda o quanto isso é grandioso, por mais que você ache que não tenha nada, você tem tudo desde que nasceu. Você tem vida, você tem o amor verdadeiro de Alguém especial e mesmo que você não queria ter esse amor, isso nunca irá mudar. Isso é o mais perfeito. Você tem amor. - Matheus Gabry


14 de janeiro de 2014

O retrato de um conceito


"A imagem (muitas vezes) mala mais do que mil palavras (por exemplo, de um sermão)" - foi isso que pensei, ao compartilhar esta foto, publicada originalmente no perfil oficial da Arquidiocese do Rio no facebook.

Se você quiser, antes mesmo de ler o texto a seguir, veja - com atenção e sem pressa - a fotografia e tente responder a essa questão: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

Como sempre acontece nas redes sociais, recebi imediatamente alguns comentários, relacionados à legenda com a qual publiquei a foto. Os comentários apareceram tanto de forma pública, quanto particular, via "bate-papo". Confesso ter ficado surpreso com aquilo que escreveram os meus amigos, a saber: um estudante de teologia, uma jovem católica "contestadora" e duas católicas de meia-idade, praticantes e piedosas.

O estudante de teologia (quase formado) respondeu: A meu ver a foto mostra que quem sustenta a vida da Igreja com as orações e a perseverança são as mulheres que a exemplo de São Sebastião não se cansam de dar testemunho...

Uma das mulheres piedosas escreveu: Para mim demonstra a simplicidade q deve existir em nossa Igreja.

Outra mulher piedosa me deixou um pouco mais preocupado: Vi a foto da trezena de Sto Antonio [como assim?] mas não entendi, ou não percebi oque lhe chamou atenção. O q teria sido?

Pensei em fugir da resposta, por isso disse: Ah, eu acho que cada um pode interpretar a vontade.

Tentei provocar um pouco o teólogo, então escrevi: Uma foto e mil interpretações... quando olho aqui, tenho na mente uma frase de Jesus, mas não me peça para citar... Na mesma hora, o rapaz tentou acertar: O maior dentre vós seja aquele que serve! (cf. Lc 22, 26). Não foi exatamente essa passagem que pensei, mas achei a conversa interessante. Só achei uma pena o fato de que as pessoas não conseguem associar bem o texto e uma imagem. Repito aqui, então: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

A mulher piedosa que havia confundido São Sebastião com Santo Antônio insistiu mais: O pensamento é livre mas a partir de que? Não vi, não notei nada estranho na foto. Qdo o senhor diz "de forma simbólica, retrata certo conceito da Igreja". Qual seria esse conceito?

A jovem católica "contestadora" seguiu uma estratégia diferente e não quis mais saber da passagem bíblica (ainda que estivesse bem próxima dela em sua intuição): uma mulher carregando a imagem... e o clero ao lado... não vou com o focinho desses dois ai...

Finalmente respondi a todos, citando o texto do Evangelho de Lucas (Lc 23, 2-8, com o destaque no v. 4):

Jesus falou às multidões e aos seus discípulos: "Os doutores da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Vejam como eles usam faixas largas na testa e nos braços, e como põem na roupa longas franjas, com trechos da Escritura. Gostam dos lugares de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas; gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, e de que as pessoas os chamem mestre. Quanto a vocês, nunca se deixem chamar mestre, pois um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos.

Enquanto o estudante de teologia acrescentava outra passagem, bem no contexto da primeira (Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Mt 11, 25), a mulher piedosa continuou com as suas dúvidas: Está querendo dizer q a mulher não deveria estar carregando a imagem? Pelo que li na passagem...

Conclusão: As conversas que acontecem nas redes sociais têm uma dinâmica particular e nada é tão óbvio como parece.

Se quiser, escreva a sua reflexão a partir desta foto e da legenda: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

13 de janeiro de 2014

Travando a Igreja


Citei ontem a frase de D. João Carlos Petrini, o Presidente da Comissão Vida e Família da CNBB que disse que "o Papa Francisco está destravando a Igreja". O esforço do Pontífice é visível a cada momento. Ao mesmo tempo, parecendo uns vermes que saem de baixo da terra, surgem textos e atitudes que, sem sombra de dúvida, procuram o contrário, isto é, travar a Igreja. É isso mesmo, pois a mais prejudicada fica, exatamente, a Igreja, cujo nome usam os pretensiosos teólogos e moralistas do fundo do quintal. O prejuízo é tanto maior, quanto mais os mesmos recorrem aos poderosos meios de comunicação social, em particular, à internet. Eu sei que a Igreja, enquanto instituição, é (e quase sempre foi) uma máquina enorme e, portanto, lenta em suas reações. O indevido uso de seu nome, porém, merece ser detectado e repudiado de forma exemplar. É o caso do portal "Pro Ecclesia Catholica ~ Lutar pela Verdade, Mesmo Que Seja Preciso Morrer Por Ela" (detesto quando alguém escreve assim, abusando das maiúsculas) que venho apontar como merecedor de todo repúdio. Em nome de Jesus!

Em uma de suas publicações recentes, o portal pergunta (e responde): "Por que dizer não à adoção de crianças por casais homossexuais?". O autor, Pedro Henrique Alves (quem quiser, pode localizá-lo no facebook), começa a sua brilhante argumentação com a tese: "Vivemos um dilema social que é o problema dos órfãos". Ainda bem que ele não tenha optado pelo caminho mais curto, a exemplo do cientista "apocalíptico" do romance de Dan Brown "Inferno". No livro, "o dilema" foi o crescimento avassalador da população mundial que precisava ser desacelerado de maneira tanto rápida, quanto radical. Mesmo que o autor do texto sobre a adoção de crianças por casais homossexuais não tenha chegado à conclusão tão drástica, há um passo apenas, entre a propaganda fanática e o aumento do preconceito e da violência homofóbica. Sinceramente, eu fico tranquilo em relação aos estudiosos e atentos, mas preocupo-me com todos aqueles que a palavra "católico" priva de qualquer reflexão inteligente e objetiva. Estes, sim, facilmente caem nas ciladas do discurso fundamentalista.

Os leitores sensíveis às regras da língua portuguesa rapidamente ficam com uma pulga atrás da orelha, diante da seguinte introdução do autor: "Para uma maior compreensão do artigo seguiremos a linha das minhas 4 linhas argumentações [sic! - talvez tenha sido um erro de digitação e o certo seria "lindas"] sendo que elas serão colocada [sic!] em tópicos para maior visualização". Vejamos, portanto, essas linhas, ou lindas argumentações:

1- Problema: Imposição cultural
Hoje vemos que não curamos esta ferida social (o problema dos órfãos), mas avançamos. Porém não é difícil constatar que alguns grupos com a intenção de se consolidar, e estruturar suas opiniões [sic!] usam de assuntos terminantemente sérios para se impor como solução. Isso se dá claramente na adoção de crianças por "casais" homossexuais. Não estou dizendo que estes casais tenham a intenção de impor os seus dilemas sexuais aos outros, porém aqueles militantes que estão por trás das leis de legalização das adoções por parte dos homossexuais, que assim se fazem de anjos guardiões que pouco estão se importando com estas crianças e sim, usando deste meio para conseguir se infiltrar na sociedade cristã [sic!] a fim de (talvez "afim") de satisfazer as organizações internacionais que pressionam o governo para uma nova moral mundial.  

A teoria (o a obsessão) de uma grande e misteriosa conspiração mundial sempre faz muito sucesso. Olavo de Carvalho que o diga. O autor do artigo em questão, sem dúvida, tem aquele ex-mago filósofo por mestre. Basta ver os termos que usa (por exemplo "gayzismo")...

2- Problema: Imposição [da] homossexualidade como uma nova vertente sexual
Sabemos por estudos e principalmente pelo DR. Gerard Van den Aardweg (...) que o homossexualismo não é genético (...) e sim da esfera comportamental ou traumática [sic!]. Sendo assim o Dr. Gerard explica que a criança até atingir sua fase adulta de maturidade emocional, ela é totalmente influenciável e as condições de onde ela vive e com quem vive a influenciará (influenciarão) a tomar para si suas características futuras [sic!] na parte emocional, intelectual e sexual. Através dessa influência a militância gay vê a oportunidade de se consolidar na sociedade, fazendo das crianças presas fáceis e moldáveis para seus planos [sic! sic!]. Esta mesma estratégia é utilizada por exemplo através da cartilha Gay.

Agora vem a parte mais impressionante. Merece um prêmio, quem conseguir acompanhar o raciocínio a seguir. E uma reprovação, quem não perceber uma contradição mais que grosseira:

Não estou aqui colocando um ponto final sobre a sincera vontade de um ou dois homossexuais de ajudar sinceramente uma criança órfã, mas sim explicitar que uma criação de uma criança por um casal homossexual não é benéfica e sim traumática para a criança que se verá em um ambiente que lhe trará confusão e questionamentos sobre si e sua sexualidade, questões que não são abertas a interpretações ou argumentações, como se houvesse uma escolha a qual sexo seguir, sendo sexo é uma característica inerente a vontade e não está no âmbito da faculdade de escolha. Todos nós se nos colocarmos nus em frente (aqui fiquei na dúvida se é para nos colocarmos uns em frente dos outros, o que seria talvez um pouco indecente, ou, por exemplo, em frente de um espelho) veremos que temos o órgão sexual feminino ou masculino, temos útero e vagina ou pênis e testículos (independentemente de cirurgias), e não que alguém esteja impedido de escolher ser hétero ou não, pois isso é uma escolha que esta no campo ideológico, afinal isso é a liberdade de escolha, porém, não se pode igualizar a heterossexualidade com a homossexualidade como se ambas fossem biológica e geneticamente comprovada ser inerente ao ser humano; não há como apresentar o homossexual como um 3º sexo, e sim uma opção de vida e não um gênero sexual.


Bem... talvez isso já seja suficiente para formar uma opinião clara sobre o autor e as suas divagações. Nos dois pontos restantes do texto temos algo sobre os "traumas psicológicos" da criança adotada pelos homossexuais (uma difusão do “gayzismo” como uma vertente da sexualidade; conceitos totalmente confusos que na cabeça de uma criança causa grande tempestade de ideias imaturas quanto a si mesma; muitas dificuldades no desenvolvimento emocional etc.) e, finalmente, sobre a "política fútil" (Enquanto houver interesses de grupos minoritários sendo colocados acima dos interesses do Povo, aquela parte da constituição que diz “Todo poder emana do povo” é apenas uma grande “tertúlia flácida para dormitar bovino”. O povo brasileiro em sua maioria é terminantemente Cristão e contra a adoção de crianças por parte de homossexuais, ou será que irão negar isto também?)...


O antídoto está, simplesmente, no bom senso. Quem quiser, entretanto, desintoxicar a mente, pode recorrer ao texto "Contribuições da psicologia em relação à adoção de crianças por casais homoafetivos: uma revisão de literatura", publicado por Revistas Unijorge. O artigo sério, objetivo, baseado realmente nas pesquisas científicas e assinado por nomes de peso e autoridade muito maiores do que o nome de um estudante de teologia disléxico, portador de um cérebro bem lavado. No texto vamos encontrar as respostas para todas as (eventuais) dúvidas causadas pela desastrosa argumentação citada acima. Escolhi apenas duas frases que podem servir como resumo de toda reflexão sensata e serena:

Foi percebido que, para a criança, conviver com o homoafetivo se constitui em uma maior possibilidade de desenvolvimento do respeito e tolerância às diferenças individuais, características estas muito valiosas para vida em sociedade.

A adoção de crianças por casais homoafetivos não se apresenta como fator prejudicial ao desenvolvimento saudável da criança, pois assim como os casais heteroafetivos, os homoafetivos possuem condições de cuidar, educar e fornecer o que preciso for ao filho.