ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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3 de novembro de 2013

Entre a cruz e o arco-íris

 
O título do livro de Marília Camargo César faz alusão à expressão "entre a cruz e a espada" e situa-se, de fato, no espaço intermediário que divide as duas realidades, neste caso, a religião cristã e o mundo LGBT. Talvez mais uma frase idiomática ajude a definir o livro: "em cima do muro". A primeira impressão que me ocorreu durante e depois da leitura é que a autora está em cima do muro o que não precisa ser entendido como uma crítica. Ela simplesmente não "puxa sardinha para o seu lado" (para usar mais uma expressão popular), porque não existe o lado dela, nesta questão. Existe sim, mas não pertence ao duelo "Igreja (s) & LGBT". O lado dela é o ser humano, sem outros adjetivos, títulos e sobrenomes. Marília repete várias vezes, nas páginas deste livro, a sua humilde confissão: "eu não sabia... eu precisava estudar, ouvir, ler, estar junto..". Provavelmente essa tenha sido a maior lição da obra que, por sua vez, deixa no ar um sabor de algo incompleto. Também neste caso não é uma crítica, porque o mergulho no mistério do ser humano, em sua religiosidade e sua sexualidade, nunca poderá ser completo, pois trata-se de profundezas impenetráveis por inteiro. Podem e devem ser tocadas essas profundezas e ainda trazidas a um encontro, por mais que tal encontro pareça impossível, ou inútil. Este livro é uma espécie de abre-alas. É, também, mais um livro na minha estante, ao lado de outros autores, como Edith Modesto, James Alison, José Lisboa, José Trasferetti, Klecius Borges, James L. Empereur, Kimeron N. Hardin, Didier Eribon, Nelson Luiz de Carvalho, Betty Fairchild e Nancy Hayward, Márcio El-Jaick, Jean Luc Schwab, Felipe Alface, Daniel A. Helminiak, Amílcar Torrão Filho, M. A. Prado e F. Machado e alguns outros. Faz parte, como todos os outros, da tentativa de estabelecer um diálogo, um conhecimento mútuo, afim de preparar o terreno para futura convivência mais respeitosa e acolhedora.
 
Para quem está acostumado com o pensamento católico, o livro "Entre a cruz e o arco-íris" ajudará compreender um pouco mais a doutrina protestante, pois este é um dos pontos de partida da autora. Pode servir também de inspiração para um trabalho paralelo que inclua os teólogos católicos.
 
Concordo com a opinião de David Santos, autor do blog "Culto diferente" que diz:
 
Minha critica em relação a ele, deve-se ao fato de que, como sempre, os debates resumem-se apenas à cama, não se leva em conta que heterossexuais se unem em matrimonio por muito mais motivos que apenas o sexo, homossexuais também!!  Faltou relatos de casais homoafetivos, cuja união seja consistente como as idealizadas pela igreja, e que conseguem equilibrar sexualidade e religião. Assim como a autora, devia possuir seus preconceitos pelo desconhecimento, a sociedade precisa também saber que há homossexuais que, como muitos heterossexuais, não são promíscuos e querem viver uma vida moralmente sadia em seus relacionamentos. A falta de conhecimento, ainda é a maior fonte de preconceitos!!
 
Por sua vez, Sérgio Viula, um dos entrevistados no livro (e um sábio que tive a honra de conhecer pessoalmente neste ano), em seu blog "Fora do armário", afirma:
 
O livro tem a seu favor duas coisas, pelo menos:
 
1. A tentativa de dar voz as dois lados (ou mais): gente religiosa (a maioria) ou não (como o meu caso); sejam contra ou a favor; gente que é LGBT, e nega-se; gente que é LGBT, e afirma-se com reservas; gente que é LGBT, e afirma-se sem medo de ser feliz; e gente que jamais soube o que é ser LGBT, mas mesmo assim não para de fiscalizar a sexualidade alheia;
 
2. O livro identifica ideias, acontecimentos, comportamentos, mudanças em relação ao tema ao longo da história, tocando em religião (e ausência dela), psicologia, política, estatísticas, testemunhos pessoais de conversão, “des-conversão”, ex-gays, ex-ex-gays, suicídios e crimes motivados por homo-transfobia e seus efeitos, entre outras coisas. Tem muita informação bem sistematizada, tanto do passado como do presente.
 
Bem, vale a pena ler – não como manual de fé e prática. Chega disso!!!! Mas como fonte de conhecimento sobre diversas facetas da mesma questão: a recriminação dos que se arvoram representantes de Deus, da família, dos bons costumes, e os avanços dos direitos humanos na forma dos direitos civis dessas minorias, por tanto tempo discriminadas, renegadas, mal-compreendidas. Apesar do livro cutucar o Movimento LGBT em diversos momentos, não deixa barato para os fundamentalistas.

30 de outubro de 2013

5 minutos para o casal

 
Ainda não temos o material suficiente que pudesse nos ajudar a cultivar os nossos relacionamentos homoafetivos. A grande parte da literatura LGBT concentra-se na luta pelos direitos e uma outra parte é dedicada à erótica. Por isso precisamos recorrer à sessão de autoajuda com as obras dedicadas aos casais heterossexuais. Basta, porém, aplicar uma simples correção, substituindo, onde for necessário, o termo "mulher" por "homem" e vice-versa. Afinal, trata-se de relacionamento amoroso entre dois seres humanos. Alguns livros facilitam bastante a (nossa) leitura, empregando com frequência, a palavra "parceiro", sem insistir tanto em "marido & mulher". É o exemplo do livro, escrito por duas mulheres (casadas com homens), Bonnie Jacobson, psicóloga e psicoterapeuta e Alexia Paul, escritora e editora: "Cuide do seu casamento 5 minutos por dia. Práticas diárias para transformar seu relacionamento" (Editora Gente; São Paulo, 2013). Incluí este livro no presente ao casal gay, na ocasião da festa deles, na qual assinaram o Pacto de União Estável, no meio deste mês.
 
A Editora Gente, no seu site, apresenta o livro assim: Ano após ano, vemos o crescimento das estatísticas de separação, e com a rapidez das mudanças da vida moderna, o casamento parece um código indecifrável, um mistério. Parece que nunca sabemos se seremos os próximos a perder o amor até que seja tarde demais. Proteger o casamento é um ato diário – e, com este livro, vemos que ele está nas coisas simples. Com cinco minutos por dia, transforme seu relacionamento em uma união forte, amorosa e indestrutível. Sem precisar de planos complexos, descubra quais são as práticas dos casais felizes e inseparáveis e incorpore-as à sua rotina de maneira simples e prazerosa a partir da experiência da doutora Bonnie Jacobson na construção de relacionamentos felizes. É impossível ser feliz sozinho, e, com cinco minutos por dia, você nunca mais terá de se preocupar se o seu amor vai bem!
 
O mesmo site dá, também, o acesso ao primeiro capítulo do livro, em formato pdf (aqui). Transcrevo uma pequena parte:
 
Encha seu casamento de afeto
Todos os dias, ofereça a seu companheiro um beijo, um abraço, uma massagem nas costas para lembrá-lo de sua devoção e renovar o sentido de “estar nisso juntos”. A boa notícia? Cinco minutos por dia é tudo de que você precisa para restaurar a afeição amigável em seu relacionamento, um pequeno esforço que resulta em uma enorme recompensa emocional. A maioria gostaria de ser mais afetuosa. A chave é ter disciplina para dedicar tempo para buscar nosso parceiro enquanto atravessamos nossos dias sobrecarregados. (p. 3)
 
Crédito extra
No próximo sábado de manhã, quando vocês podem ficar um pouco mais na cama, tome a iniciativa de se enroscar no corpo de seu parceiro e veja se isso leva a um bom aconchego ou – ainda melhor – a uma sessão de sexo prazeroso. Entre vocês dois, o mais inclinado às demonstrações afetuosas pode se sentir negligenciado caso os abraços e beijos sejam escassos. Da mesma forma, seu companheiro pode se sentir invadido quando você se senta no colo dele sem convite ou quer trocar beijos quando ele não está no clima. Nesse caso, uma invasão discreta pode dar resultado. Cinco minutos diários de afetividade física podem funcionar para esse tipo de casal – contudo, a forma de abordar e o momento são cruciais. Se você adora afeto físico e acha que está faltando contato, não espere que seu parceiro faça a oferta. Aproxime-se nos momentos em que os dois estiverem relaxados. Sem chamar a atenção (“Viu, não é tão ruim!”) ou impor culpa (“Por que não ficamos de mãos dadas pelo menos de vez em quando?”), segure com delicadeza a mão de seu companheiro por alguns minutos e depois solte. O fundamental é não fazer pressão, não colocar culpa. Pegue leve. (p. 7)
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Observação final (e prática): Desisti de comprar esse livro via site, embora haja tal possibilidade. É que achei exagerado o custo de envio. Simplesmente fui a uma livraria (no meu caso, a Saraiva) e facilmente comprei o livro (talvez por ter sido lançado recentemente). Enfim, recomento essa leitura!

16 de outubro de 2013

Teresa e a solidão

 
Quem já leu alguns escritos de Santa Teresa d'Ávila (Doutora da Igreja; 1515-1582), por exemplo, "Livro da vida", "Caminho de perfeição", "Castelo interior", ou outros, percebe facilmente a profunda analogia que existe entre as experiências místicas e... eróticas. Afinal, o essencial, em ambas as dimensões, é a experiência de amor. Por mais que alguém se espante com tal comparação, para mim vale a frase do Evangelho de hoje (Lc 11, 37-41): Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? O mesmo Criador que se revela na infinita riqueza dos fenômenos da alma, manifesta o seu amor em - também infinita - riqueza dos fenômenos do corpo. É claro que trata-se de uma enorme desproporção, pois - como nós, cristãos, acreditamos - a alma é imortal e o corpo (pelo menos em sua forma atual) não é. A desproporção não é, entretanto, uma oposição. Ainda que a Palavra de Deus tenha revelado a rivalidade que existe entre essas duas dimensões do ser humano, a espiritual e a carnal, não há necessidade de demonizar o corpo e, particularmente, a sua experiência sexual, como costumam fazer muitos cristãos.
 
Anselm Grün, monge beneditino e escritor (mais um dos autores, criticados por causa da originalidade de suas ideias), em seu livro "Mística e eros" (Ed. Lyra; Curitiba, 2002), escreve: Eu sei que, a partir da minha história de vida, sempre tenho estado em dificuldades com a minha própria sexualidade, principalmente quando quero padronizá-la ou perco a relação com ela, separando-a, reprimindo-a, ou quando, coisa maximamente preferível, quero elevar-me acima dela. Quando eu a acolho com reconhecimento, como força que me faz sentir vivo, que quer me conduzir para além de mim mesmo, que me faz ser completamente homem, então há instantes nos quais a minha sexualidade se transforma em energia espiritual. Então percebo em mim mesmo uma profunda paz (p. 119).
 
Voltando à Santa Teresa, devo dizer que ao ler os seus textos, sobretudo os autobiográficos, percebo aquela analogia da qual falei acima. Ainda que ela tenha falado de coisas muito mais sublimes e místicas, sinto-me tocado e compreendo, um pouco melhor, as coisas que sinto. Digamos que a "alta mística" de uma Santa Doutora, ajuda a desvendar a "baixa mística" de um homossexual... Vejamos, por exemplo, este texto:
 
Se alguma coisa pudesse dar consolo, seria conversar com quem tivesse passado por esse tormento. (...) É como alguém que está com a corda no pescoço e está sufocando, que procura tomar fôlego. Assim me parece que esse desejo de companhia é nossa fraqueza, pois, como a dor nos põe em perigo de morte, assim o desejo que a alma e o corpo têm de não se separar é o que pede socorro para tomar fôlego. E falando, queixando-se e divertindo-se, busca remédio para viver (Santa Teresa, Livro da vida, Ed. Penguin Classics Companhia das Letras, São Paulo, 2010; p. 183).
 
Ou este trecho, que parece tão familiar para nós, os GLBTT:
 
Era esta visão: vi-me em oração sozinha num campo grande, ao redor de mim pessoas de diferentes tipos me cercavam. Todas, parecia-me, tinham armas nas mãos para ferir-me: umas, lanças; outras, espadas; outras, adagas; e outras, estoques muito grandes. Enfim, eu não podia sair por nenhum lado sem que me pusesse em perigo de morte. E sozinha, sem achar uma pessoa do meu lado. Estando meu espírito nessa aflição, pois não sabia o que fazer de mim, ergui os olhos ao céu e vi Cristo, não no céu, mas acima de mim bem alto no ar. E estendia a mão em minha direção e dali me favorecia de um modo que eu não temia mais todas as outras pessoas, nem elas, ainda que quisessem, podiam me causar dano. (...) falo de amigos e parentes e, o que mais me espanta, pessoas muito boas. Por todos me vi tão pressionada, pensando eles que faziam um bem, que não sabia como me defender nem o que fazer (idem, p. 381-382).
 
Mais um texto. Lindo!
 
Via um anjo junto de mim do lado esquerdo em forma corporal, o que não costumo ver, a não ser por maravilha. (...) Não era grande, mas pequeno, muito bonito, o rosto tão aceso que parecia dos anjos muito elevados que parecem que se abrasam inteiros. (...) Via em suas mãos um dardo de ouro grande e no final da ponta me parecia haver um pouco de fogo. Ele parecia enfiá-lo algumas vezes em meu coração e chagava às entranhas. Ao tirá-lo me parecia que as levava consigo e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão grande a dor que me fazia dar aqueles gemidos, e tão excessiva suavidade que põe em mim essa enorme dor que não há como desejar que se tire nem se contenta a alma com menos do que Deus. Não é uma dor corporal, mas espiritual, ainda que não deixe o corpo de participar em alguma coisa e até bastante (idem, p. 267-268).
 
 

9 de outubro de 2013

Em parte, sou um conservador

 
O conservadorismo e o progressismo são dois conceitos que preenchem a cena política, revelam-se nas conversas à mesa do boteco e detectam-se em todos os níveis da vida eclesial. A regra que diz: "Os opostos se atraem", muitas vezes precisa de uma vírgula, para constatar: "atraem-se, para a guerra". Paradoxalmente, porém, com certa frequência, descobrimos que os mesmos opostos conseguem coexistir - sem entrar em guerra - dentro da mesma pessoa. Entre os famosos, o excelente exemplo, é o Beato João Paulo II, de quem se diz que era um progressista em questões da doutrina social e o conservador, em relação à doutrina moral. Mas, talvez, o paradoxo tenha sido apenas aparente. Se olharmos a um dos princípios fundamentais que, além do Evangelho, movia a atuação desta Papa - e este principio é o personalismo ético - ali mesmo iremos encontrar a luta pelos direitos trabalhistas, o combate à fome, o apelo pala paz, bem ao lado de absoluta proibição de preservativos, a veemente condenação das práticas (e uniões) homossexuais, do aborto e do divórcio.
 
É neste sentido que eu mesmo me defino como um conservador parcial. De um lado, penso sobre a releitura das passagens bíblicas sobre a criação do ser humano, a redefinição do conceito de castidade e o reconhecimento de homossexualidade como planejada (e não apenas admitida) por Deus. Por outro lado, porém, defendo a monogamia (mesmo em uniões homoafetivas) e questiono a parte mais radical da "ideologia trans".
 
Acho muito precioso e construtivo o livro de Klecius Borges, "Muito além do arco-íris - amor, sexo e relacionamentos na terapia homoafetiva". A obra reúne os questionamentos, trazidos pelos gays ao consultório de psicoterapia e apresenta os conselhos de um profissional (o próprio autor, psicoterapeuta, analista junguiano e mestre em psicologia clínica). Várias ideias sobre a estratégia de superação de traumas e problemas de relacionamento, são ótimas e, sem dúvida, muito úteis. O ponto de partida para todo este trabalho é o questionamento da heteronormatividade. Pergunto-me, entretanto, se a monogamia faz parte da (rejeitada) heteronormatividade, ou antes, é um princípio de "antroponormatividade", ou seja, define a forma de um laço afetivo fundamental que faz parte da natureza humana.
 
A proposta de experimentar o relacionamento poliamoroso (que permite ter um envolvimento sexual e emocional com mais de um parceiro), aparece várias vezes nas páginas do livro. Clecius escreve, por exemplo: Criados numa cultura homocentrada, na qual o casamento monogâmico representa o modelo saudável de relacionamento, e a não exclusividade sexual é tratada como traição, passível de várias penalidades, inclusive o divórcio, é natural que os homens gays (assim como os héteros) internalizem esse modelo a ser respeitado (p. 26-27). Relatando o caso de Samuel e Léo, o autor escreve: O que Samuel, e certamente também Léo, não sabe é que essa maneira de amar tem hoje um nome, poliamorosidade - isto é, o desejo e a capacidade de amar e de se relacionar amorosa e sexualmente com mais de um parceiro sem alimentar os sentimentos de posse e de exclusividade comuns nos relacionamentos tradicionais -, e é cada vez mais aceita e praticada por grupos de vanguarda comportamental. (...) compreendê-la e aceitá-la como uma forma legítima e saudável (...) me parece muito promissor, pois nela está plantada a semente de uma transformação criativa dos modelos tradicionais que, como sabemos, podem ser profundamente aprisionadores (p 72 e 74).
 
A minha opinião negativa sobre tal proposta, baseia-se na experiência própria e diz respeito apenas da minha perspectiva existencial. Enquanto não critico, nem condeno, as pessoas que vivem assim por opção livre e consciente, eu mesmo não consigo me ver nessa situação. Ainda que eu ame (de certa forma) e considere amigos, todos os meus 3 ex-namorados, não consigo imaginar a vida em formação de um triângulo (neste caso: um quadrado) como a união poliamorosa (poligâmica). Confesso que a cena de intimidade entre nós 4, até me parece possível (e interessante), mas apenas como travessura e não um estado permanente de "namoro". Acredito que o desejo primordial de poder chamar alguém de "(só) meu", faça parte na natureza do ser humano e não seja o atributo da heteronormatividade.
 
Mencionada acima, a minha contestação de algumas ideias mais extremas da "ideologia trans" é ainda mais firme. Tenho consciência de estar diante de um profundo, delicado e complexo mistério do ser humano, em busca de adequação da própria corporeidade com a afetividade e a identidade sexual. Estou totalmente a favor de todos os esforços possíveis que possam trazer a paz e a felicidade a uma pessoa. Reconheço, também, o enorme sacrifício com que as pessoas transgêneras pagam por isso. Não sou capaz, porem, de compreender aquela parte da teoria do gênero que propõe a livre e frequente mudança de sexo. Para mim, isso é a falta de identidade. Essa sugestão podemos observar na enquete "Teste a sua dependência de gênero", proposta pelo site da Letícia Lanz.
 
É possível perceber aqui que, em certas coisas, sou tradicionalista e conservador. Já era mais do que isso. Demorei mais de 30 anos para admitir a minha própria homossexualidade. Talvez, daqui a outros 30 anos (caso esteja vivo), aceite as ideias apresentadas aqui. Vou ter que admitir, também, que - devido à minha idade - tudo isso permanecera, realmente, apenas no nível das ideias. 

4 de outubro de 2013

Ir ao encontro

 
O Papa Francisco está em Assis. É uma visita cheia de simbologia, por isso as palavras do Santo Padre ganham ainda mais peso, tornam-se "constituintes". Na verdade, a "Constituição" não é nova. É o Evangelho. Nova é a leitura, afim de promover uma nova prática. Exatamente como fez, há séculos, São Francisco de Assis. O próprio Papa disse: queridos amigos, eu não dei a vocês receitas novas. Não o fiz e não acreditem em quem diz que eu o fiz. Não existem. (...) Escutar a Palavra, caminhar junto em fraternidade, anunciar o Evangelho nas periferias! Quem escuta/lê as palavras do Papa, já percebeu que as periferias ocupam um lugar especial no seu coração. É a importância de sair para ir ao encontro do outro, nas periferias, que são lugares, mas, sobretudos, pessoas, situações de vida. Tudo isso o Papa disse aos membros do clero em Assis. E continuou: Quais são as vossas periferias? Procuremos pensar. Perguntemo-nos quais são as periferias desta Diocese. Certamente, em um primeiro sentido, são as zonas da Diocese que são suscetíveis de estar no limite, fora dos feixes de luz dos holofotes. Mas são também pessoas, realidades humanas de fato marginalizadas, desprezadas. São pessoas que talvez se encontram fisicamente próximas ao “centro”, mas espiritualmente estão distantes. Não tenham medo de sair e ir ao encontro destas pessoas, destas situações. Não se deixem bloquear pelos preconceitos, hábitos, rigidez mental ou pastoral, do famoso “se faz sempre assim!”. Mas se pode ir às periferias somente se se leva a Palavra de Deus no coração e se caminha com a Igreja, como São Francisco. Caso contrário, levamos a nós mesmos, e não a Palavra de Deus e isto não é bom, não serve para ninguém! Não somos nós que salvamos o mundo: é o Senhor que o salva!
 
 
 
A denúncia do "famoso «se faz sempre assim»" é um grito revolucionário. É preciso, porém, perceber a diferença entre a revolução e a anarquia. Encaixa-se aqui a frase bíblica: Examinai tudo: abraçai o que é bom (1 Ts 5, 21). Neste contexto podemos recordar o trabalho de um dos pioneiros que descobriram a "periferia da homossexualidade" e foram até lá para levar a Palavra de Deus. É o Padre José Trasferetti que assim conta esta história (o texto é de 2002):
 
Comecei a trabalhar com homossexuais em 1995. Eu trabalhava em uma paróquia de periferia em Campinas, São Paulo, e lá passei a ter contatos com homossexuais e travestis que moravam perto da igreja da paróquia. Foi uma amizade muito gostosa que eu criei com esse grupo e, a partir dessa data, comecei a me interessar pelo tema de forma teológica. Então, além do aspecto pastoral, eu quis incluir o aspecto teológico, ou seja, passei a estudar o tema. E aí então comecei a produzir. Saiu o primeiro livro "Pastoral dos homossexuais" [leia o resumo]; depois (...) "Deus por onde andas?" (...) [e] "Homossexuais e Ética Cristã". E estou preparando outros temas também. (em 2001 foi publicado o livro de Ademildo Gomes e José Trasferetti "Homossexualidade, orientações formativas e pastorais") Então, eu tenho muito interesse pastoral e também interesses teóricos sobre essa questão. Acho que precisamos evoluir mais nessa área e eu gostaria de contribuir educando as comunidades religiosas, os seminaristas, os padres porque eu sinto que existe uma grande ignorância ao redor desse tema. É preciso romper essa ignorância e ampliar nossos conhecimentos, porque somente ampliando nossos conhecimentos é que nós vamos combater a homofobia ainda reinante na sociedade e nas igrejas.
 
Estudar e escrever já é uma forma de ir às periferias. É claro, nada substitui a presença física, o "andar junto" do qual fala o Papa. Os livros ajudam na formação da consciência e facilitam a abertura do coração. Encorajam à ação. Assim como as palavras do Papa...

30 de setembro de 2013

A coragem do diálogo

 
Mais uma vez, as palavras do Papa Francisco. Mais uma vez, o receio de que a sua voz tenha sido aquela que grita no deserto, portanto, ouvida por... ninguém. Ou, mesmo ouvida, ignorada por todos. Pior: ouvida e entendida, mas "traduzida", isto é, distorcida, para que não alcance o seu objetivo.
 
O Papa discursou hoje aos participantes do encontro internacional para a paz, promovido pela Comunidade de Santo Egídio. O encontro, chamado “A coragem da esperança - religiões e culturas em diálogo”, reuniu em Roma 400 representantes das principais religiões e representantes da vida política e cultural da Europa e do mundo vindos de 60 países. Entre as palavras do Santo Padre, destaco:
 
No mundo, na sociedade, há pouca paz também porque falta o diálogo, é difícil sair do estreito horizonte dos próprios interesses para abrir-se a uma verdadeira e sincera comparação. Pela paz é necessário um diálogo determinado, paciente, forte, inteligente, para o qual nada está perdido.  O diálogo pode vencer a guerra. O diálogo faz viver junto pessoas de diferentes gerações, que muitas vezes se ignoram; faz viver junto cidadãos de diversas proveniências étnicas, de diversas convicções. O diálogo é o caminho da paz. Porque o diálogo favorece o entendimento, a harmonia, a concórdia, a paz. Por isto é vital que cresça, que se alargue entre os povos de toda condição e convicção como uma rede de paz que protege o mundo e, sobretudo, protege os mais frágeis.
 
De modo especial, digamos com força, todos, continuamente, que não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência. Não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência, de nenhum modo que essa se manifeste. (...) Os líderes religiosos são chamados a ser verdadeiros “dialogantes”, a agir na construção da paz não como intermediários, mas como autênticos mediadores. (...) Cada um de nós é chamado a ser um artesão da paz, unindo e não dividindo, eliminando o ódio e não o conservando, abrindo os caminhos do diálogo e não levantando novos muros! Dialogar, encontrar-nos para instaurar no mundo a cultura do diálogo, a cultura do encontro.
 
Para que um diálogo seja possível, é necessário remover os principais obstáculos, inclusive alguns conceitos ultrapassados. Foi isso que aconteceu no início de uma nova fase de diálogo entre católicos e judeus. Em 1963, por ocasião da Sexta-Feira Santa, João XXIII mandou suspender a oração da liturgia que se referia aos judeus por “pérfidos” (leia mais aqui). Naquela mesma época foi dado um passo para frente no diálogo entre católicos e ortodoxos: em 1965, mediante um ato conjunto, o Patriarca Ecumênico Atenágoras e o Papa Paulo VI eliminaram e cancelaram da memória e da vida da Igreja a sentença da excomunhão entre Roma e Constantinopla. Recentemente o Conselho Pontifício da Cultura, inspirado nas palavras do Papa Bento XVI, criou  um projeto chamado "Átrio dos gentios", como lugar de encontro e de diálogo, espaço de expressão para os que não creem e para os que se colocam questões sobre a própria fé, uma janela sobre o mundo, sobre a cultura contemporânea e uma escuta das vozes que aí ressoam.
 
Será possível o diálogo entre as pessoas homossexuais e a Igreja? Quais são os (pre)conceitos que deveriam ser repensados, antes de sentar à "mesa redonda" e conversar?
 
A Igreja, mesmo tendo declarado ser de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam, continua insistindo que a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Em outro documento, a Igreja afirma: A homossexualidade, que impede à pessoa de alcançar  a sua maturidade sexual, seja do ponto de vista individual, como interpessoal, é um problema que deve ser assumido pelo sujeito e pelo educador, quando se apresentar o caso, com toda a objetividade. A ideia de definir a homossexualidade como falta de maturidade, aparece em outros textos e parece ser a base de toda a doutrina da Igreja sobre este assunto.
 
A consequência direta de considerar as pessoas homossexuais como imaturas é a categórica negação de quaisquer direitos, inclusive civis, a essas pessoas. O texto de "Algumas reflexões acerca da resposta a propostas legislativas sobre a não-discriminação das pessoas homossexuais", assinado em 1992 pela Congregação para a Doutrina da Fé, diz, por exemplo:  As pessoas homossexuais, como seres humanos, têm os mesmos direitos de todas as pessoas, inclusivamente o direito de não serem tratadas de maneira que ofenda a sua dignidade pessoal. Entre outros direitos, todas as pessoas têm o direito de trabalhar, de ter uma habitação, etc. Todavia, estes direitos não são absolutos. Podem ser legitimamente limitados por motivos de conduta externa desordenada. Isto, às vezes, é não só lícito, mas obrigatório. (...) Incluir a «tendência homossexual» entre as reflexões, na base das quais é ilegal discriminar, pode facilmente levar a afirmar que a homossexualidade é uma fonte positiva de direitos humanos, por exemplo, no que se refere aos chamados direitos de ação afirmativa ou ao tratamento preferencial no que se refere à admissão ao trabalho. Isto é ainda mais deletério se considerarmos que não existe um direito à homossexualidade, o que não deveria, portanto, constituir a base para reivindicações jurídicas. A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. A homossexualidade de uma pessoa seria invocada em oposição a uma discriminação declarada e, assim, o exercício dos direitos seria defendido exatamente mediante a afirmação da condição homossexual, em vez de em termos de uma violação dos direitos humanos básicos. (...) Além disso, existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.
 
Se não fosse tão triste, mereceria uma boa gargalhada. O problema consiste na postura da Igreja que nega às pessoas homossexuais (por serem imaturas) os mais básicos direitos humanos. Muito provavelmente, o direito ao diálogo, encontra-se no meio da lista de "direitos inexistentes", declarada pela Igreja. A minha esperança está nos exemplos da história recente. Os inexistentes (pérfidos) judeus foram, finalmente, considerados dignos de diálogo, assim como os inexistentes (excomungados) ortodoxos, sem falar dos gentios que, apesar desse nome, nitidamente pejorativo, foram admitidos ao "átrio" da Igreja...
 
Quanto à imaturidade, vale a pena citar aqui a opinião de A. W. Richard Sipe, da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins (o texto reproduzido no livro "Abuso espiritual & vício religioso" de Matthew Linn, Sheila Fabricant Linn e Dennis Linn; Ed. Verus, Campinas, SP; 2000):
 
É evidente que a Igreja instituída está num estágio pré-adolescente de desenvolvimento psicossexual. Este é um período tipicamente anterior aos 11 anos de idade. (...) Em geral o sexo é exteriormente rejeitado com rigor, mas é secretamente explorado. A severidade se estende a regras rigorosas de inclusão e de exclusão. Controle e anulação são de extrema importância. Essa estrutura instituída, apesar de incluir os indivíduos que a superaram em maturidade, está dominada e entrincheirada num nível de funcionamento que não pode enfrentar as realidades sexuais da adolescência, muito menos a igualdade e sexualidade de homens e mulheres maduros (p. 50).
 
Os autores do livro desenvolvem este pensamento: Uma Igreja estagnada, presa no estágio pré-adolescente de desenvolvimento, é limitada em sua habilidade de lidar com questões sexuais e ditar normas sexuais (...). Assim sendo, muitos católicos questionam as normas da Igreja em assuntos da sexualidade, tais como divórcio, novo casamento, controle de natalidade, aborto, homossexualidade, celibato obrigatório para os padres, ordenação de mulheres e limitações, para os homens, do poder de tomar decisões importantes. Muitas dessas pessoas apreciam os bons valores da Igreja, tais como a sacralidade em todas as circunstâncias da vida humana, a intuição de que a reprodução é um elo sagrado com a criatividade de Deus e o valor sacramental do amor conjugal. Contudo esses valores se perdem nas discussões sobre questões sexuais. Uma das razões por que isso acontece pode ser o fato de a Igreja instituída, que interpreta e promove esses valores, estar frequentemente presa no estágio pré-adolescente do desenvolvimento psicossexual. Assim, a mensagem principal que muitas pessoas recebem não é a dos bons valores da Igreja, mas o medo fundamental das mulheres e da sexualidade. É essa atitude negativa e medrosa que muitas pessoas rejeitam quando questionam os ensinamentos da Igreja sobre sexualidade (p. 50-51).
 
Sem dúvida, a coragem de dialogar, é um dos elementos fundamentais de maturidade.

27 de setembro de 2013

Casamento homoafetivo - longo cminho

 
São inquestionáveis as conquistas no campo dos direitos humanos. A comunidade GLBTTS está comemorando hoje mais um passo: O Tribunal Superior do Trabalho decidiu que que uniões heteroafetivas e homoafetivas tenham o tratamento igualitário pelas empresas. O reconhecimento legal de união estável entre as pessoas do mesmo sexo foi grande vitória. Mais tarde, o Conselho Nacional de Justiça proibiu cartórios de recusar a celebração de casamento civil de pessoas do mesmo sexo ou de negar a conversão de união estável de homossexuais em casamento.
 
Quase todos os dias de manhã escuto a Band News FM e foi um dia desses que ouvi a expressão, usada por Ricardo Boechat: "o efeito educativo da lei". Uma rápida busca me levou ao resumo de uma matéria de estudo, chamada Sociologia Jurídica (Autor: Prof. Rogério José de Almeida da PUC - Goiás), falando especificamente sobre a eficácia das normas jurídicas e seus efeitos sociais. Um dos tópicos chamou mais a minha atenção: quando se faz necessário educar o comportamento, tendo em vista modificações que se quer introduzir na cultura, a questão é de um efeito educativo do Direito com função transformadora. Entretanto, a simples edição de uma norma jurídica, mesmo armada de punição, é insuficiente para corresponder a uma efetiva aplicação.
 
Conclusão: é preciso comemorar, sim, mas, ao mesmo tempo, não se pode baixar a guarda e deixar de trabalhar, principalmente, em função de mudança da mentalidade vigente. No recente debate sobre a homofobia, voltava, com frequência, a questão dos cidadãos que precisam conhecer as leis e aprender a recorrer a elas para defender a sua dignidade. Dizia-se: "agora, pelo menos, temos os instrumentos em nossas mãos". No triste contexto da homofobia, isso é muito importante.
 
A minha pergunta, porém, vai mais longe. Queria saber (infelizmente só na teoria, pois continuo solteiro!), qual é o efeito de todas essas conquistas legais (repito: inquestionáveis) na vida real dos casais homoafetivos? Sem dúvida, é uma satisfação, poder exibir a certidão de casamento, diante dos familiares, amigos, empregadores, etc. É, também, um "escudo", quando a autodefesa se faz necessária, diante das mesmas pessoas...
 
Mas, para o próprio casal? Será que este reconhecimento legal e oficial da união ajuda a consolidar a própria união? Estou dizendo, principalmente, sobre a situação extrema - não muito rara entre os casais heterossexuais - que consiste em permanecer juntos apenas por causa daquele papel, quando todo o resto já tenha acabado. Vale acrescentar aqui o mesmo (ou, ainda mais forte e profundo) efeito educativo da lei religiosa, no caso do Sacramento do Matrimônio, ou, então, a existência dos filhos. Nessas situações extremas, os cônjuges (heterossexuais, casados na igreja e comprometidos com os próprios filhos), podem dizer: "O nosso amor acabou, não há mais nada entre nós, dormimos em quartos diferentes, mas vamos continuar juntos, por causa dos filhos, do Sacramento, dos efeitos civis do casamento e, ainda, por causa da opinião pública". Eu sei que isso, com frequência, torna a vida um absurdo, um inferno, mas o casal continua junto. Em alguns casos, aquele "um só fio" pelo qual o casamento sobreviveu, torna-se a chance de recomeço.
 
Imagino, então, um casal homoafetivo que confirmou a sua união perante a sociedade, no cartório e tem, para provar isso, um papel timbrado, carimbado e assinado. Será que, na hora de uma grave crise de relacionamento, a lei terá algum efeito educativo para o próprio casal? Ou um dos maridos, uma das esposas, dirá: "Isso não significa mais nada para mim! Até, porque significa quase nada, aos olhos da sociedade".
 
Clecius Borges (psicólogo, psicoterapeuta e escritor), em seu livro "Muito além do arco-íris" aborda este assunto (especificamente relacionado aos homens gays; seria interessante conhecer melhor, também, a mesma questão do ponto de vista de mulheres homossexuais):
 
Muitos homens gays, de diferentes idades e estratos sociais, se queixam da dificuldade de manter um relacionamento amoroso sério por um período maior do que alguns meses. (...) A maioria se contenta em apontar os outros, e o "mundo gay" de forma geral, como responsáveis pelo seu infortúnio. (...) Suas falas costumam ser recheadas de afirmações como: "Relacionamentos gays não duram mesmo", ou "Gays só pensam em sexo". Assim justificam seu fracasso, aplacam sua frustração e, sobretudo, se eximem de questionar os verdadeiros motivos pelos quais não conseguem, ou não desejam de fato, estabelecer um relacionamento profundo com outro homem gay.
 
Embora a dificuldade de amar seja relativamente comum entre homens em geral, ela aparece de forma mais intensa e frequente no universo dos homens gays. Isso se dá por uma série de fatores, direta ou indiretamente associados ao que chamamos em geral de homofobia. A homofobia de que falamos aqui é o conjunto de representações simbólicas negativas e degradantes da homossexualidade, em suas diversas manifestações, assim como ações concretas de opressão, discriminação e opressão social a que são submetidos os homossexuais ao longo da vida.
 
Em consequência desse processo contínuo e sistemático de opressão social, homens gays crescem sem espelhos que reflitam positivamente sua qualidade de amor e, portanto, não têm a possibilidade de se imaginar num relacionamento conjugal que lhes ofereça o continente afetivo pelo qual sua alma anseia. Estimulados e, de modo perverso, induzidos pela sociedade a viver uma vida marginalizada, muitas vezes associam sua inclinação homoerótica a uma sexualidade desvinculada, ou seja, sem os vínculos que conduzem à intimidade amorosa. (p. 18-20)
 
É isso... Só me resta desejar, rezar e torcer, para que as recentes conquistas legais tenham, realmente, o efeito educativo, tanto para a sociedade, quanto (ou, ainda mais!) para os próprios casais.

20 de setembro de 2013

Atrás da cortina de ferro


O termo "cortina de ferro" foi usado para designar a divisão da Europa em duas partes (ocidental e oriental), como áreas de influência político-econômica distintas, após a II Guerra Mundial, no período chamado "guerra fria", enquanto existia a União Soviética. Um fenômeno que dura várias décadas, ainda que acabe, continua exercendo a sua principal influência que consiste, sobretudo, em divisões e diferenças culturais. A maioria das fontes atribui a autoria deste termo ao primeiro-ministro britânico Winston Churchill que teria usado tal expressão em um discurso no ano de 1946. O outro termo, um pouco menos conhecido, é "homo sovieticus" que facilmente traduzimos do latim como "o homem soviético", para designar um tipo de mentalidade que se formou, justamente, pelas décadas de uma sistemática lavagem cerebral, através de educação e propaganda, acompanhadas pela cruel opressão.
 
Quando lemos as notícias sobre os atos de homofobia - tanto em forma oficial, digamos, estatal, quanto em sua dimensão popular, cultural - por exemplo na Rússia, ou em outros países que, neste sentido, ainda permanecem atrás da "cortina de ferro", precisamos ter em conta este contexto da história recente. É por isso que merecem um destaque especial todos os sinais positivos daquilo que podemos chamar de "primavera de tolerância". É o caso do filme polonês, cujo título podemos traduzir como "Em nome (de)" e que faz referência direta ao sinal da cruz: "Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo". O filme foi apresentado no Festival de Cinema de Berlim (Berlinale), neste ano e, embora não tenha recebido o sonhado Urso de Ouro, ganhou o prêmio independente Teddy Award, como melhor filme com temática gay do Festival de Berlim.
 

É muito importante notar que o objetivo do filme e a sua mensagem principal não formam qualquer acusação ou julgamento, antes, retratam a realidade que, não apenas atrás da "cortina de ferro", é uma experiência, vivida por vários (não poucos, mesmo!) padres católicos. Fala sobre isso, por exemplo, Pe.  José Lisboa, em seu livro “Acompanhamento de vocações homossexuais” (falei sobre este livro aqui e aqui):
 
Hoje, em toda parte, aumenta cada vez mais o número de vocacionados e vocacionadas homossexuais. (...) No Brasil, a presença de homossexuais nos seminários, no meio da hierarquia, já é bem visível. (...) Na maioria das vezes, os casos permanecem velados, pois ainda existe muito preconceito contra esse tipo de conduta sexual. Além do mais, os altos escalões da hierarquia ainda preferem negar e até proibir a reflexão pública sobre essa realidade. Há os que, consciente ou inconscientemente, escondem a sua condição debaixo da capa das aparências da ortodoxia, da fidelidade, do rigorismo, do moralismo e das vestes eclesiásticas. (...) Diante disso, percebo que a confusão é geral. A hierarquia, na maioria das vezes, encontra-se perdida e não sabe o que fazer. (...) Penso, porém, que é preciso encarar essa realidade de maneira diferente. Deixando de lado os preconceitos, com bastante naturalidade e tranquilidade, sem superficialidade, e sem fazer vista grossa para as questões mais sérias e delicadas. (p. 5-7)
 
O resumo do filme encontrei na página CineSplendor:
 
O filem segue a história do padre católico Adam, responsável pela paróquia de um pequeno vilarejo polonês ao mesmo tempo em que trabalha com um grupo de jovens desajustados. Assediado por uma das moradoras, ele diz já estar comprometido e, aos poucos, vai admitindo para si mesmo seu desejo por um de seus garotos. Abordando o tema do celibato e, simultaneamente, da homossexualidade de forma direta e natural, a diretora Malgorzata (ou Malgoska, em forma crinhosa) Szumowska constrói um extraordinário filme não para chocar, mas para nos fazer refletir. O padre Adam nunca é retratado como um predador, mas sim como uma vítima de uma situação que não tem saída. Religioso devoto, ele vive sempre em conflito consigo mesmo, apelando para o álcool ocasionalmente como forma de fuga.
 
Suas caminhadas – filmadas com uso de bela fotografia e com planos gerais que tiram proveito da estupenda paisagem local –, descobrimos mais tarde, quando o vemos sugerindo a um jovem homossexual que corra 5km como forma de penitência, são mais uma forma de tentar desviar seus pensamentos das tentações de pecar. As caminhadas, diga-se de passagem, não são apenas belas, mas brilhantes em seu significado. Usando-as como interlúdios durante o filme, elas são os únicos trechos do longa que possuem trilha – composta unicamente com o uso de violinos, com apenas uma exceção – e mostram gradualmente sua aceitação/compreensão de sua “doença“.
 
Com menos simbolismo, mas igualmente genial ao dizer tanto em uma conversa tão curta, é em uma ligação – via skype – que ele faz para a irmã, que todas as dificuldades de sua vida são expostas. Primeiramente pelo fato dele, por vezes, tentar sem sucesso entrar em contato com a irmã. Passando por um momento difícil, quando ele finalmente consegue falar com ela, a conversa se mostra como um desabafo por parte dele, enquanto ela demonstra clara falta de interesse. E ao confessar para ela que ele se sente atraído por homens, os comentários dela de que “você não é doente” e “mas você sempre gostou de mulheres” demonstram o claro preconceito que há – não apenas – por parte da família, além de também revelar o fato de que ele vinha escondendo isso há muito tempo, mesmo de entes queridos.
 
Não fugindo de mostrar como a Igreja católica trata desse assunto, o filme nos permite testemunhar a conversa de um membro da paróquia de Adam com o bispo responsável pela região, onde ele acusa o padre de ser homossexual – após tê-lo flagrado em um momento íntimo com um garoto. Evitando qualquer conflito, o bispo diz não ser nada demais o que ocorreu e que ele resolverá a questão, o que resulta na transferência de Adam para outra cidade.
 
O filme ainda conta com boas atuações por parte de seu elenco, mas real destaque vai mesmo para a fenomenal e tocante performance de Andrzej Chyra como o Padre protagonista que, embora sempre contido, consegue claramente transmitir uma sensação de serenidade quando está “a trabalho”, enquanto demonstra claro desconforto em sua vida pessoal, mesmo antes de suas crises depressivas. Nos poucos momentos de prazer e felicidade em que o vemos, é comovente notar a dificuldade que Adam tem para se entregar por completo, para verdadeiramente desfrutá-los.

Só nos resta aguardar o lançamento deste filme aqui, no Brasil...

Enquanto isso, veja o trailer (legendas em inglês):

 

17 de setembro de 2013

Olavo de Carvalho

 
Recentemente, um amigo meu me mostrou o livro de Olavo de Carvalho "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota" que tinha comprado. A apresentação dele foi feita com aquele brilho nos olhos que me deixou curioso. O amigo me disse que, para compreender melhor o conteúdo do livro, ele vai intercalar a leitura com os inúmeros vídeos, gravados pelo autor e disponíveis no YouTube. Curioso por natureza, fui lá para ver do que se trata. Já sabia que o cara é um filósofo e jornalista. Descobri que é, também, ex-astrólogo (o que explica muita coisa). Bem... assisti alguns vídeos e já sei que NÃO VOU LER aquele livro. Para mim foi mais que suficiente, ouvir as declarações do tipo:

- Vamos falar o português claro: no que consiste a homoafetividade masculina, né? Consiste um comer o cu do outro, meu filho. Consiste na boa e velha sodomia, você tá entendendo?

- A homofobia jamais existiu!

- [referindo-se ao Deputado Jean Wyllys] Você está nos acusando de incentivar uma violência que nem sequer existe. Você me pega esses 100 casos, onde não tem conexão alguma entre o discurso religioso e esses crimes... Ele vem com esses 100 casos de gays mortos que ele não tem nem sequer a prova que foi por preconceito antigay... Vocês, gauzistas, matam os cristãos desde I século! Vocês são os assassinos de cristãos! Desde o século I vocês são!  

Quem tiver paciência, assista esses dois vídeos (existem muitos outros!), mas a minha conclusão, inspirada no título daquele livro, é: O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, é ler os livros de Olavo de Carvalho e assistir os vídeos dele...
 
Quem quiser, tire as suas próprias conclusões (porra! - como diria Olavo de Carvalho)


 

15 de setembro de 2013

Heteronormatividade: é o que temos...

Foto: papaigay
 
O termo "heteronormatividade" é relativamente novo e apareceu na literatura GLSBTTS, como um neologismo de fácil compreensão. Eu mesmo passei a usar esta palavra, ora citando alguns autores, ora tentando fazer a referência ao fenômeno que perece ser tão óbvio, quanto - as vezes - enganador. Digo enganador, não no sentido de estar errado em si, mas que pode nos levar a umas conclusões precipitadas. Para explicar melhor, vou recorrer a um exemplo de cunho doméstico. Imaginemos os preparativos para ceia de Natal, na casa de uma família pobre. Todo mundo sonhava com aquele peru enorme ou, pelo menos, um chester, mas as coisas não foram exatamente assim como todos esperavam. Houve uns gastos a mais naquela mesma época e só deu para comprar um frango médio. A mulher, mãe daquela família, olhou à cara triste do filho e disse: "Meu filho, é o que temos, vamos dar graças a Deus!"...
 
Mais ou menos neste sentido que digo: a heteronormatividade é o que temos. Pelo menos no momento.
 
Alguns autores apresentam tal fenômeno, como algo que precisa ser urgentemente superado, combatido e extinto, para, finalmente, livrar a sociedade do preconceito, notadamente, de homofobia.
 
Um dos exemplos dessa opinião, à qual dou muita razão, é (já citado aqui) o livro de Klecius Borges "Muito além do arco-íris" que diz: Por mais que certas questões relacionais sejam comuns a todos os indivíduos e casais, afirmar que casais são casais, não importa a sua orientação e identidade sexual, é no mínimo um reducionismo. Para mim, essa atitude é inaceitável. Essa afirmação desconsidera as dinâmicas psíquicas e sociais envolvidas nas vivências e experiências de indivíduos e casais submetidos a uma cultura não apenas heteronormativa, mas muitas vezes opressora e dominada, ainda hoje, por práticas e atitudes fortemente discriminatórias. (p. 11)
 
Por sua vez, Alex Castro, citando a sua conversa com o psicólogo clínico Gilmaro Nogueira, na Revista online "Papo de Homem" (o texto reproduzido, também, pelo portal Homorrelidade), diz: A heteronormatividade é tão forte que opera até mesmo dentro da comunidade de gays, lésbicas e simpatizantes. Sempre que alguém, mesmo se for GLS, reclama contra gays afetados, exagerados, ou efeminados demais, está se caindo também, sem nem perceber, na armadilha da heteronormatividade, ou seja, “até aceito gays, desde que se comportem de acordo com a norma heterossexual de conduta masculina”.
 
Concordo quase com tudo, mas pergunto: na certeza de que esse processo de superação seja um processo longo e penoso, o que podemos fazer agora? Apenas esperar até que a heteronormatividade acabe? E se não acabar, enquanto estivermos vivos e só será possível criar uma nova mentalidade daqui a um século?
 
Discordo um pouco da opinião de Klecius Borges, quanto ao reducionismo, do qual ele fala e que se refere à atitude de equiparar os casais homossexuais aos heterossexuais (é bom notar que a Igreja levanta o mesmo questionamento e usa o mesmo termo, só que em direção oposta!). A minha opinião é que o relacionamento, antes de ser hetero- ou homossexual, é um relacionamento humano e como tal tem, de fato, muito em comum em todos os seus tipos, se olharmos aos requisitos necessários e básicos, tais como diálogo, confiança, perdão, humildade, sacrifício, etc. Na atual e quase total ausência de um sólido material de estudo sobre o relacionamento exclusivamente heterossexual, o que temos para hoje, é uma vasta literatura que trata de casais heterossexuais e de seus inúmeros problemas, fornece testemunhos de superação daqueles mesmos problemas, etc.
 
Voltando à imagem do frango, no lugar do peru: a mãe precisou tomar mais cuidado em sua generosidade, ao dividir as porções. Esse "tomar cuidado" é importante, mas associa-se ao "é o que temos". Seria um absurdo se aquela família ficasse olhando ao frango em cima da mesa, reclamando que não era um peru e ficasse com fome, logo na noite de Natal. O filho poderia ficar revoltado, jogar o frango ao chão e gritar: "Se não for o peru, eu prefiro não comer nada! Para mim o Natal acabou!". Imagino a mãe, igualmente muito triste e decepcionada, repetindo: "Mas é o que temos por hoje, meu filho! É o que temos!"... A palavra cuidado aplica-se aqui perfeitamente. Trata-se de ler, estudar e consultar, todos aqueles livros e artigos, sempre com um pé atrás, para (como diz Alex Castro) não cair na armadilha da heteronormatividade, mas, ao mesmo tempo, aprendendo com aquilo que realmente possa ser considerado universal em cada relacionamento humano. Por enquanto (até que acabe a heteronormatividade), a única restrição seria: "o relacionamento amoroso" (para não se afogar em questões de relacionamentos entre pais e filhos, amigos, chefes e subordinados, etc). Acredito muito que, no amor humano, seja ele voltado à pessoa do mesmo sexo, ou do sexo oposto, haja muito em comum, justamente por ele ser... humano.
 
Como exemplo prático, prometo publicar aqui (em breve), em forma de exercício para os casais homossexuais, um texto baseado no material que se encaixa perfeitamente naquele conceito da heteronormatividade. Digo mais, é um material do tipo gospel, ou seja, evangélico...
 
...é o que temos por hoje...

2 de setembro de 2013

Mês da Bíblia (3) - leitura existencial

 
 
"Leitura existencial" (vivencial, existencialista, etc.) é um dos métodos de estudo bíblico que, a princípio, não exige muito, além de atenção e imaginação - sempre acompanhadas pela fé e oração. Vários autores recomendam este método. Entre eles, gostaria de citar o Pe. Léo, scj (Léo Tarcísio Gonçalves Pereira - 1961-2007; sacerdote dehoniano, escritor, pregador, compositor e cantor, fundador da Comunidade Bethânia que trabalha com a recuperação de dependentes químicos). Em seu livro "Roteiros bíblicos de cura interior" (Edições Loyola, São Paulo, 2005), o Pe. Léo escreve:
 
Como estamos nos orientando por roteiros bíblicos, que são experiências vividas por pessoas em situações similares às nossas, devemos fazer ao máximo o uso da imaginação (p. 23). Conforme os roteiros que vamos rezando, precisamos aprender a nos colocar dentro da cena. Não adianta nada ler esses roteiros somo se fossem uma informação geral sobre um tema. Esses roteiros são exercícios práticos. Precisam ser vividos. Nenhum de nós chegará a alcançar as metas desejadas se não seguir pelas trilhas que a Bíblia vai apresentando. Somos convidados a fazer a mesma experiência. Somos convidados a ouvir o que o Senhor está nos falando, a respeito de nossa vida, a partir da rota que estamos seguindo (p. 25). Tome consciência da presença de Jesus. Peça ao Espírito Santo que venha em socorro de sua fraqueza. Leia e releia o texto bíblico até conseguir memorizar suas partes principais. Depois tente reproduzir, para si mesmo, mentalmente, o esquema do texto. A partir disso comece a se inserir na história. A Bíblia não é um livro escrito para contar a história de fulano, sicrano ou beltrano. A Bíblia é o livro escrito sobre a sua história. É um roteiro no mais amplo e perfeito sentido dessa palavra. Retome o texto. Observe, conforme a situação que você está vivendo, que personagem se encaixa melhor em você. Coloque-se no lugar de cada um deles. Pergunte, muitas vezes, para Deus o que ele quer lhe falar. Peça, muitas vezes, as luzes do Espírito Santo. E não se canse de rezar a partir desses roteiros. Com certeza essa oração lhe fará um bem imenso. Experimente (p. 28-29).
 
A mesma proposta metodológica de leitura da Bíblia propõe o Pe. James Alison (James Nicholas Francis Alison, inglês, nascido em 1959 em Londres, sacerdote, teólogo, escritor. Estudou, viveu e trabalhou na Inglaterra, no México, Brasil, Bolívia, Chile e Estados Unidos. Obteve o doutorado em Teologia pelas Faculdades Jesuítas de Belo Horizonte. Além de teólogo, é um dos raros padres e teólogos católicos assumidamente gays). Em seu livro "Fé além do ressentimento - fragmentos católicos em voz gay" (Editora É Realizações, São Paulo, 2010), o Pe. James escreve:
 
A leitura não ficará restrita a um simples comentário, será uma tentativa de fazer um experimento sobre a própria perspectiva da leitura. Isso significa que faremos estas perguntas: "Quem está lendo esta passagem?", "Com quem nos identificamos?". A razão para o uso de tal abordagem é afinar a nossa inteligência, para que possamos, então, começar a levantar certas questões sobre aspectos fundamentais da moral, de como falamos sobre essas coisas, ou mesmo de como as vivemos de uma forma mais ou menos coerente e convincente. (...) Minha intenção não é causar escândalo, mas provocar um tipo de discussão que habilite a formação de um caminho mais completo para se viver uma vida cristã (p. 35).

7 de junho de 2013

Muito além do arco-íris

O tamanho, sem dúvida, não é documento! Quando recebi a encomenda, enviada pelo Grupo Summus [Edições GLS], antes de abrir o pacote, pensei que tivesse sido enganado. A coisa não pesava quase nada e ao rasgar camadas e mais camadas de papelão, encontrei... um fino livreto de capa colorida:



Ah, como me enganei! A inicial decepção logo deu lugar à fascinação. Em pouco mais de um total de 100 páginas, mergulhei profundamente nos mais graves e reais dilemas da vida em dois e encontrei muitas pistas e soluções. O texto de Klecius Borges é baseado em sua prática clínica de psicólogo, dedicado ao atendimento de gays, lésbicas, bissexuais e seus familiares de acordo com a visão afirmativa. A principal tese, repetida em todos os capítulos, de maneira altamente objetiva, na abordagem de historias de vida real, é que não se pode tratar os problemas e desafios vividos nos relacionametos homoafetivos a partir de uma perspectiva heteronormativa. “Por mais que certas questões relacionais sejam comuns a todos os indivíduos, afirmar que casais são casais, não importando sua orientação e identidade sexual, é no mínimo um reducionismo. Para mim, essa atitude é inaceitável” - diz o Autor.

Digo mais: além de toda ajuda direta em questões que são também minhas, encontrei um argumento, ou melhor, uma analogia [ou lógica] que confirma todo o objetivo dos meus esforços relacionados à Pastoral para Homossexuais. Klecius escreve: Em minha prática clínica, predominantemente voltada para gays, lésbicas, bissexuais e seua familiares, as questões sobre relacionamentos são talvez as mais frequentes. Acredito não ser muito diferente em outras clínicas, mas no meu caso há uma particularidade: gays, lésbicas e bissexuais, ao contrário dos heterossexuais, não encontram nas livrarias, no cinema ou na televisão muitas referências ou representações sobre a natureza de seus relacionamentos - que, por razões óbvias, têm catacterísticas e desafios bastante diferentes daqueles que seguem heteronormatividade. Exatamente o mesmo pode ser dito sobre a falta de referências na assistência espiritual e pastoral da Igreja em relação às pessoas homo- e bissexuais. Por mais que se queira negar tal coisa, existe na Igreja (usando os termos do Autor) uma cultura não apenas heteronormativa, mas muitas vezes opressora e dominada, ainda hoje, por práticas e atitudes fortemente discriminatórias.

A Pastoral para Homossexuais não pretende substituir o trabalho de psicólogos e outros profissionais. Ela vem para somar e ocupar o seu lugar próprio. Basta ler a seguinte frase de Klecius Borges, com o devido "enxerto" da minha parte: Questões como autoaceitação, [espiritualidade, oração, vida sacramental, dilemas de consciência], visibilidade social, homofobia, visão patológica da sexualidade e preconceito em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à homopaternalidade, entre outras, além de específicas desse grupo, carregam em si um elevado teor emocional que requer, a meu ver, uma escuta distinta.

Enfim, recomendo a leiura do livro "Muito além do arco-íris: amor, sexo e relacionamentos na terapia homoafetiva" de Klecius Borges (Edições GLS, São Paulo, 2013). Compre aqui.

5 de outubro de 2011

o povo GLBTS

São Benedito, celebrado hoje, nasceu na Itália por volta do ano de 1526 no seio de família pobre, descendente de escravos oriundos da Etiópia, daí o fato de ser chamado de Benedito, o Preto ou Mouro. Uniu-se aos eremitas organizados por São Jerônimo de Lanza por desejar entregar-se a uma vida de maior perfeição cristã, já que eles viviam conforme a regra de São Francisco de Assis, tanto assim que foi a sua observância que mereceu o cargo de superior daquela corporação de eremitas. Assumiu com dedicação e responsabilidade o cargo de mestre de noviços, e terminando o seu tempo de superior, voltou com a máxima simplicidade e naturalidade para os serviços da cozinha, onde ficou até a sua morte, em 05 de abril de 1589.

A oração da Missa diz: Ó Deus, quem em são Benedito, o Negro, manifestais as vossas maravilhas, chamando à vossa Igreja homens de todos os povos, raças e nações, concedei, por sua intercessão, que todos, feitos vossos filhos e filhas pelo batismo, convivam como verdadeiros irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

A expressão “homens de todos os povos, raças e nações” chamou a minha atenção. Primeiro, fui procurar no Dicionário do Aurélio (on-line aqui). Povo s.m. Conjunto de homens que vivem em sociedade. / Conjunto de indivíduos que constituem uma nação. / Conjunto de indivíduos de uma região, cidade, vila ou aldeia. / Conjunto de pessoas que não habitam o mesmo país, mas que estão ligadas por sua origem, sua religião ou por qualquer outro laço. / Conjunto dos cidadãos de um país em relação aos governantes. / Conjunto de pessoas que pertencem à classe mais pobre, à classe operária ou à classe dos não-proprietários; plebe. / Lugarejo, aldeia, vila, pequena povoação: um povo. / Público, considerado em seu conjunto. / Multidão de gente, as massas. / Fam. Família, a gente da casa.

Daí o termo que usei no título desta postagem: “o povo GLBTS”. Ainda que existam diferenças de pensamento e de comportamento, além de certas animosidades (talvez inevitáveis por ora), sem dúvida podemos falar de um “povo”. Se, portanto, Deus quis formar a Igreja de todos os povos, obviamente, é impossível excluir dessa realidade o povo GLBTS. Quem procura fazê-lo, esta pecando contra a vontade de Deus.

Os textos oficiais da Igreja católica, naquele seu típico estilo medroso (pois vai muito além de cautela), mencionam indiretamente a existência de tal “povo”. Infelizmente, tudo o que tem de dizer nesse assunto, a Igreja faz em tom de advertência. Vejamos uns trechos da “Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais”, assinada em 1986 pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI (na íntegra aqui):

(...) Um número cada vez mais largo de pessoas, mesmo dentro da Igreja, exerce fortíssima pressão para levá-la a aceitar a condição homossexual como se não fosse desordenada e a legitimar os atos homossexuais. Os que, no interior da Igreja, pressionam nesta direção, frequentemente mantêm estreita ligação com os que agem fora dela. Ora, tais grupos externos são movidos por uma visão oposta à verdade acerca da pessoa humana, verdade que nos foi revelada plenamente no mistério de Cristo. Embora de modo não de todo consciente, eles manifestam uma ideologia materialista, que nega a natureza transcendente da pessoa humana bem como a vocação sobrenatural de cada indivíduo. (...) Mesmo dentro da Igreja formou-se uma corrente, constituída por grupos de pressão com denominações diferentes e diferente amplitude, que tenta impor-se como representante de todas as pessoas homossexuais que são católicas. Na realidade, seus adeptos são, na maioria dos casos, pessoas que, ou desconhecem o ensinamento da Igreja, ou procuram subvertê-lo de alguma maneira. Tenta-se reunir sob a égide do catolicismo pessoas homossexuais que não têm a mínima intenção de abandonar o seu comportamento homossexual. Uma das táticas usadas é a de afirmar, em tom de protesto, que qualquer crítica ou reserva às pessoas homossexuais, à sua atitude ou ao seu estilo de vida, é simplesmente uma forma de injusta discriminação. Em algumas nações funciona, como consequência, uma tentativa de pura e simples manipulação da Igreja, conquistando-se o apoio dos pastores, frequentemente em boa fé, no esforço que visa mudar as normas da legislação civil. Finalidade de tal ação é ajustar esta legislação à concepção própria de tais grupos de pressão, para a qual o homossexualismo é, pelo menos, uma realidade perfeitamente inócua, quando não totalmente boa. (nn. 8-9)

Alguns grupos costumam até mesmo qualificar de «católicas» as suas organizações ou as pessoas às quais pretendem dirigir-se, mas, na realidade, não defendem nem promovem o ensinamento do Magistério; ao contrário, às vezes, atacam-no abertamente. Mesmo reafirmando a vontade de conformar sua vida ao ensinamento de Jesus, de fato os membros desses grupos abandonam o ensinamento da Sua Igreja. Este comportamento contraditório de forma alguma pode receber o apoio dos Bispos. (n. 14)

Deve ser retirado todo apoio a qualquer organização que procure subverter o ensinamento da Igreja, que seja ambígua quanto a ele ou que o transcure completamente. Tal apoio, mesmo só aparente, pode dar origem a mal-entendidos graves. Uma atenção especial deveria ser dedicada à programação de celebrações religiosas e ao uso, por parte desses grupos, de edifícios de propriedade da Igreja, inclusive a possibilidade de dispor das escolas e dos institutos católicos de estudos superiores. Para alguns, tal permissão de utilizar uma propriedade da Igreja pode parecer apenas um gesto de justiça e de caridade, mas, na realidade, ela contradiz as finalidades mesmas para as quais aquelas instituições foram fundadas, e pode ser fonte de mal-entendidos e de escândalo. (n. 17)

Para que não fiquemos totalmente desanimados, termino com outra citação. É do livro de Pe. José Lisboa “Acompanhamento de vocações homossexuais” que, partindo do principio de que “nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta” (p. 72; leia também aqui), apresenta as seguintes orientações:

[Entre outros, um] caso emblemático é aquele da pessoa homossexual que decide viver a sua vocação cristã participando de um movimento de pessoas homossexuais. Quando isso acontece, o papel do animador ou da animadora vocacional é, em primeiro lugar, lembrar ao vocacionado ou vocacionada que tal participação não é algo eticamente neutro. Esse fato tem consequências, especialmente quando se trata de alguém que ocupa uma função paradigmática dentro da comunidade eclesial. Uma vez colocada essa premissa, a pessoa que acompanha quem está em discernimento precisa ajudá-lo a verificar atentamente qual a ideologia que está por trás do movimento. Será indispensável que a pessoa tome consciência do grau de liberdade que o envolvimento num movimento desse tipo deixa para os seus participantes. Às vezes a participação cm associações desse tipo, sobretudo quando são de inspiração cristã, pode ajudar a superar uma serie de dificuldades, especialmente o problema da solidão sofrida pelos homossexuais, em razão do isolamento da sociedade provocado pela discriminação e pelo preconceito. Porém, há casos de grupos fechados e desorientados, verdadeiros guetos, bastante complicados. Estes mais do que ajudar a resolver os problemas só fazem aumentar as dificuldades. Especialmente para aquelas pessoas que ainda não superaram certas dificuldades provenientes da descoberta da sua condição de homossexual.

Thévenot [Pe. Xavier Thévenot, professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris] acredita que se o homossexual tem clareza da sua situação, conhece bem o ambiente, é capaz de avaliar as propostas do grupo e é suficientemente maduro para reagir a toda tentativa de manipulação e de fechamento do movimento, nada o impede de participar do mesmo. Todavia, lembra ainda esse autor, seria aconselhável que esse não fosse o único compromisso social da pessoa e que ela pudesse avaliar a sua participação com outros cristãos que não fazem parte do movimento homossexual. (pp. 78-79)

2 de outubro de 2011

O princípio da EPIKÉIA

Recebi o comentário no meu texto anterior (aqui) do Pessoal da Diversidade Católica (conheça o blog aqui) e como o assunto é sério e amplo (certamente não para uma simples "resposta ao comentário"), decidi transcrever aqui alguns trechos do livro "Acompanhamento de vocações homossexuais" (autor: Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira). Os grifos no texto são meus.

Uma parte do comentário que recebi diz: É sempre bom quando se percebe que a homoafetividade e o homoerotismo não são problemáticos em si; a grande delicadeza da doutrina do Magistério, hoje, é justamente a premissa de que o homoerotismo é desordenado e, portanto, o homoafetivo deve manter o celibato... Qual a posição desse autor a respeito?

O livro é tão bom que a sinto vontade de transcrevê-lo, praticamente, na íntegra. Como, porém o conceito de um blog não permite isso, vou me controlar [:)] e citar algumas partes mais importantes. O autor fala várias coisas sobre a homoafetividade e o homoerotismo. É verdade que o livro – em sua maior parte - aborda o tema de acompanhamento vocacional destinado àqueles que são chamados ao sacerdócio ou à vida religiosa, mas não deixa de apontar os princípios para o mesmo trabalho para com os católicos leigos que, igualmente, são chamados a diversos ministérios dentro da comunidade cristã.

Padre José Lisboa declara abertamente que não existem razões suficientes para se excluir alguém das nossas comunidades por causa do seu jeito atual de viver a sexualidade. Todavia, a acolhida não deve acontecer por motivos de piedade, como se a pessoa homossexual fosse alguém miserável, pecador público degenerado, que precisasse de pena e de misericórdia da nossa parte. Acolhe-se a pessoa porque é humana e porque ela é portadora de dignidade e de valores, independentemente daquilo que ela seja. As pessoas homossexuais são portadoras de qualidades e de talentos que não se encontram com facilidade no comum dos mortais. (p. 12)

Quanto ao próprio acompanhamento vocacional, o autor diz: O importante em tudo isso é que a animação vocacional contribua efetivamente para que o vocacionado ou vocacionada homossexual descubra a verdade acerca da sua situação e queira acolher essa verdade. A partir disso poderá fazer uma verificação profunda sobre a possibilidade ou não de abraçar um tipo específico de vocação. Certamente as exigências e as futuras responsabilidades de cada vocação específica são bem diferentes. Aquelas dos leigos e das leigas não são as mesmas da vida consagrada e do ministério ordenado. E vice-versa. Mas os vocacionados e as vocacionadas não podem ser enganados. Não devemos esconder deles as reais dificuldades que poderão enfrentar. (...) Quando há fortes indícios de que a pessoa não tem a mínima estrutura para assumir um tipo de vocação específica, é melhor ajudá-la a repensar o seu projeto. Fazer o contrário é enganar os vocacionados e as vocacionadas homossexuais e contribuir para futuras histórias sofridas e desastrosas. (p. 38)

E agora chegamos ao que interessa: “O acompanhamento de vocações homossexuais inclui também um itinerário voltado especificamente para os cristãos leigos e as cristãs leigas. ‘Se todas as pessoas são pensadas e queridas por Deus, antes mesmo de serem concebidas, como não admitir que Ele tenha planos para elas e também para elas tenha previsto alguma missão? Ninguém vem ao mundo por acaso, e, por isso mesmo, nos planos de Deus ninguém está sobrando’ [Antonio Moser*; “O enigma da esfinge: a sexualidade”, p. 258]. Este princípio teológico justifica a elaboração de um projeto de animação vocacional que contemple o acompanhamento de vocacionados e vocacionadas homossexuais leigos e leigas. (...) O animador ou a animadora vocacional deve ter presente que nem sempre é fácil para as pessoas cumprir determinadas exigências. Muitas vezes certas teorias são elaboradas por burocratas aos quais não falta nada. É muito fácil impor, aos outros, normas que nunca seremos obrigados a cumprir. Mas na prática a teoria é outra. Deve-se então, nesse tipo de acompanhamento vocacional, evitar fardos pesados insuportáveis que nós mesmos não seríamos capazes de carregar (cf. Mt 23, 1-4). (...) Não se pode falar de salvação quando o rigorismo e a rigidez transformam a vida da pessoa num verdadeiro inferno. (...) O trabalho do animador ou da animadora vocacional é contribuir para que cada vocacionado ou vocacionada, particularmente os homossexuais, sejam sensíveis à própria consciência e a sigam fielmente. Assim sendo, deve-se ter muito cuidado para não tentar violentar a consciência das pessoas, tentando impor a todo custo as concepções pessoais. É claro que existe a objetividade dos princípios e das normas. Mas esta serve tão-somente para o bem das pessoas. Em última instância, é o ser humano que decide diante de Deus. (...) Ninguém pode ser forçado a agir contra a sua consciência. (...) À luz da experiência de fé, a homossexualidade se transforma em uma forma concreta de se relacionar co Deus. De fato, vivendo com muita humildade, buscando o equilíbrio na vivência da sexualidade, superando toda forma de conformismo, mas também de perversão ou laxismo, a pessoa homossexual pode chegar a uma verdadeira experiência mística, percebendo-se como alguém amado por Deus. E a partir desta experiência poderá amar de verdade as pessoas, sem angústia e sem manipulações. Basta que para isso o homossexual tenha sido ajudado a libertar-se tanto da imagem de um Deus castrador como da atitude orgulhosa que leva ao fechamento e à auto-suficiência.

(...) O acompanhamento vocacional de homossexuais torna-se mais complexo quando o vocacionado ou vocacionada, a partir da sua convicção de fé, no uso de sua liberdade, decide assumir comportamentos considerados mais ousados e que fogem dos padrões comumente aceitos pela maioria da população católica. Neste caso, é necessário que o animador ou animadora vocacional tenha uma profunda maturidade humana e afetiva, sexual e cristã, para poder continuar realizando a sua missão sem traumas e sem preconceitos. Quem acompanha esses casos, sem deixar de considerar as indicações da fé cristã e as orientações da Igreja, precisará de uma grande liberdade interior para não sucumbir diante das provocações do vocacioando ou vocacionada, como também diante do rigorismo e da intransigência da lei eclesiástica. Vale mais uma vez recordar que a lei existe para promover o bem das pessoas e não o contrário. Alguém, motivado pela fé e pela consciência, pode, muitas vezes, fazer algo diferente daquilo que a lei determina. E na maioria das vezes o faz de um modo mais perfeito. Quando isso acontece tal pessoa está revelando os limites da lei. De fato, é sempre possível que uma lei se torne obsoleta no sentido que não responde mais à sua finalidade que é o bem e a salvação das pessoas. E quando algo se torna antiquado e não mais colabora para a salvação das pessoas precisa ser mudado. E, normalmente, alguém tem de correr esse risco de romper com o estabelecido, mesmo sob a pena de carregar o estigma de herético ou blasfemador. Foi o que aconteceu com Jesus. Nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta. Por isso em todos os casos a lei da vida precisa ser sempre aplicada. Quando a lei não facilita o desenvolvimento da fé, da vida, da graça e da salvação ela não tem mais sentido. No acompanhamento vocacional o animador ou animadora não pode esquecer que a própria moral cristã sempre defendeu o direito a epikéia. Esta á, antes de tudo, uma atitude da pessoa que, olhando para a ordem estabelecida e confrontando-a com a sua situação concreta e para a realidade que lhe cerca, resolve ir além do ordenamento jurídico. É claro que existe sempre o risco do individualismo e do laxismo. Para não cair nesse perigo, a pessoa, antes de decidir avançar, precisa avaliar a sua atitude honestamente, com retidão, sem fazer pouco das normas, das leis e da autoridade. Isso tudo pode trazer conflito, inclusive com as autoridades estabelecidas, mas o princípio da epikéia afirma que a coisa mais importante não é pura e simples fidelidade à lei, mas a fidelidade à própria realidade, guiada pela retidão de consciência e pela decisão de obedecer a um apelo interior. (...) A epikéia, como atitude virtuosa, exige a prontidão para ousar. Em linha de princípio, corre-se este risco em toda situação que esteja sob a legislação positiva. Isto porque, segundo Santo Tomás de Aquino, em todo o campo do direito, a virtude da epikéia é o guia. (...)

Temos de partir do princípio que nem todas as pessoas têm o carisma do celibato. Por isso pode acontecer que um homossexual não consiga permanecer sem a convivência com alguém. A Igreja Católica propõe, por meio de seus documentos, que os homossexuais cristãos pratiquem a castidade. Isso é muito fácil quando não se está na pele da outra pessoa. Mas, como vimos antes, na prática é tudo muito complicado. Como exigir a continência de sujeitos que estão profundamente convencidos de não poder conservá-la e que sabem, ao mesmo tempo, que não podem casar? (pp. 71-74)

Padre José Lisboa cita um dos “casos emblemáticos”, aquele da pessoa homossexual que, sabendo da sua condição, decide em consciência formar um casal com outra pessoa do mesmo sexo, pretendendo continuar a viver como cristão. (...) É importante considerar esse caso porque a legislação de muitos países e a consciência coletiva tendem a aceitar cada vez mais essa situação como normal. E muitos cristãos homossexuais não chegam a formalizar a união por causa do medo de serem afastados da comunidade cristã. No processo de discernimento, o animador ou animadora vocacional precisa propor algumas considerações importantes ao vocacionado em questão. Não será suficiente o argumento do pecado, da condenação e da proibição, uma vez que essa pedagogia normalmente produz efeito contrário, levando a pessoa a uma vida até mais permissiva do que antes. Começando sempre pela reflexão sobre a fidelidade ao projeto de vida plena que Deus tem para cada pessoa, o animador ou animadora pode e deve interrogar o vocacionado sobre suas intenções, sobre o conceito de fidelidade, sobre o sentido da vida a dois. Não deve deixar de lado a proposta do ensinamento da Igreja sobre a questão. Além disso, pode e deve refletir sobre a importância da satisfação plena na realização do ato sexual, uma vez que existe o risco de não haver plena complementação no encontro íntimo entre pessoas do mesmo sexo. As pesquisas feitas por Thévenot** indicam que muitos casais homossexuais não se sentem satisfeitos com a relação e por isso se separam muito rápido. Há casos em que a insatisfação é tão grande que a pessoa, mesmo vivendo com alguém, busca com muita frequência relações sexual-genitais com outras pessoas. Porém, com muita honestidade, é preciso dizer que não faltam exemplos de casais homossexuais que conseguiram fazer uma experiência profunda de Deus-Amor. Para alguns, a vida a dois foi como que uma “terapia da vida”. Mas para chegar a isso tiveram que superar dolorosamente muitos desafios e cultivar muitos valores cristãos entre os quais o perdão, o desprendimento, a pobreza interior. Tiveram de ir além da “paixão fulminante” para abrir-se mais ao dom da ternura, da renúncia de um relacionamento perverso. Certamente não vivem uma união idílica. Permanecem nessas situações difíceis de carência e limites. É preciso confessar, com Thévenot, que, apesar de tudo, é possível encontrar hoje neste tipo de união pessoas vivendo com dignidade a vida cristã.

Existem autores que evocam também para esse caso o princípio da epikéia já mencionado anteriormente. Partem do princípio tomístico de que a verdade e a retidão não são iguais para todos. Por isso, em determinadas situações é possível transgredir legitimamente a lei para salvar o bem das pessoas. Todavia, lembram esses autores, para que o princípio da epikéia possa ser aplicado corretamente é indispensável que a decisão passe pelo crivo da razão, a qual tem a função de regular sabiamente as inclinações e paixões humanas. Não bastam o instinto e a paixão desmedida. De acordo com o mesmo princípio tomístico todas as vezes que agimos sem consultar a razão cometemos um pecado. [comentário no rodapé: Thévenot acredita que por honestidade intelectual este princípio tomístico não pode ser aplicado ao caso dos homossexuais porque, segundo Tomás, a razão da relação sexual reside na conservação da espécie. Hoje, porém, a reprodução não é mais considerada a razão exclusiva da relação sexual (cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 48). Também por honestidade intelectual é preciso dizer que, biblicamente falando, a relação sexual é destinada antes de tudo à superação da solidão: “Não é bom que o homem esteja só. Vôo fazer uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2, 18). O filho é a consequência e não a razão principal da relação sexual entre duas pessoas que verdadeiramente se amam.]

Portanto, no acompanhamento vocacional se abre uma brecha para evitar todo tipo de condenação. O papel do animador ou da animadora vocacional não é de ser porta-vos de Satanás, o acusador dos irmãos e irmãs (cf. AP 12, 10), mas de ser mensageiro da salvação trazida por Cristo: “Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que justifica? Quem condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda que tenha ressuscitado e está à direita de Deus, intercedendo por nós?” (Rm 8, 33-34). Vimos anteriormente que também as pessoas homossexuais são queridas por Deus e não estão sobrando no mundo. O papel de quem acompanha essas pessoas é ajudá-las a chegar o máximo possível à meta que nos é proposta. (pp. 75-78)
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Notas (minhas)
* Frei Antônio Moser é Diretor Presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis/ RJ, Membro do Conselho Administrativo da Diocese de Petrópolis/ RJ, Pároco da Igreja de Santa Clara, Diretor do Centro Educacional Terra Santa, Membro da Comissão de Bioética da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Coordenador do Comitê de Pesquisa em Ética da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), além de conferencista no Brasil e no exterior. Escreveu 25 livros, participou como co-autor e colaborador de inúmeros e publicou incontáveis artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Atualmente desenvolve intensa atividade pastoral, sendo um dos principais especialistas brasileiros em Pastoral Familiar e Bioética.

** Pe. Xavier Thévenot, eminente professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris, membro da Congregação Salesiana. Os Salesianos de Dom Bosco se dedicam particularmente à educação da juventude, o que dá maior autoridade e crédito a esse autor, em termos de educação da sexualidade.