ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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4 de março de 2014

O prelúdio do Sínodo


O recente consistório (a reunião dos cardeais com o Papa) não faz parte do Sínodo dos Bispos, mesmo assim, ganhou o "sobrenome" de "Consistório da Família" e, com razão, a sua leitura está sendo feita, justamente, no contexto do Sínodo (previsto para o próximo mês de outubro). O portal ihu.unisinos traz o longo texto do discurso, feito durante o consistório pelo cardeal Walter Kasper a pedido do Papa Francisco e o comentário inicial da redação traz a expressão "ouverture", fazendo alusão à introdução a uma peça musical (assim mesmo como o título desta reflexão). Ainda dentro dessa analogia, posso dizer que a palestra do cardeal Kasper é uma "ópera" ou talvez "sinfonia" em favor da família e de sua forma bíblico-tradicional. Sim, temos algumas novidades, quase dissonâncias, quando se trata de propostas relacionadas à admissão de (algumas) pessoas divorciadas e recasadas aos sacramentos. De acordo com outro cardeal alemão, Reinhard Marx, o discurso de Kasper despertou fortes oposições por parte de muitos participantes do consistório.

O texto é longo e requer (e, eu acho, merece) uma atenção redobrada. O meu contexto de leitura é a perspectiva LGBT e, por este ângulo, algumas afirmações destacam-se de maneira especial:

"A instituição da família é, embora com todas as diferenças particulares, a ordem original da cultura da humanidade. Não pode ter um bom sucesso estabelecer hoje uma nova definição da família, que contradiga ou mude a tradição cultural de toda a história da humanidade".

"Não nos tornamos homem ou mulher através da respectiva cultura, como afirmam algumas opiniões recentes. O ser homem e o ser mulher estão fundamentados ontologicamente na criação. A igual dignidade da sua diversidade explica a atração entre os dois, cantada nos mitos e nos grandes poemas da humanidade, assim como no Cântico dos Cânticos do Antigo Testamento. Querer torná-los iguais por ideologia destrói o amor erótico. A Bíblia entende esse amor como união para se tornar uma só carne, isto é, como uma comunidade de vida, que inclui sexo, eros, além da amizade humana ([Gn] 2, 14). Nesse sentido completo, o homem e a mulher foram criados pelo amor e são imagem de Deus, que é amor (1 J0 4, 8)".

Enquanto todas as esperanças (de uma percepção nova do amor entre as pessoas do mesmo sexo) parecem mortas e sepultadas, brotam no mesmo texto - a meu ver - alguns modestos sinais positivos, ainda que de forma indireta. O primeiro deles é a antiga e clássica relação entre o matrimônio e o celibato. O cardeal Kasper lembra:

"Como o celibato livremente escolhido se torna uma situação sociologicamente reconhecida em si mesma, o matrimônio também, por causa dessa alternativa, não é mais uma obrigação social, mas sim uma livre escolha. Sobretudo as mulheres não casadas são agora reconhecidas mesmo sem um marido. Assim, o matrimônio e o celibato se valorizam e se sustentam mutuamente, ou ambos juntos entram em uma crise, como infelizmente estamos experimentando agora".

Por analogia, podemos dizer que o casamento entre as pessoas do mesmo sexo que também já se tornou uma situação sociologicamente reconhecida em si mesma, faz com que a união matrimonial entre um homem e uma mulher, por causa dessa alternativa, não é mais uma obrigação social. Assim, o casamento heterossexual e a união homoafetiva se valorizam e se sustentam mutuamente. A visão do casamento igualitário como uma ameaça, ou um atentado contra a família tradicional, não tem mais razões para existir.

O outro sinal de esperança, pequeno e indireto, vem da abordagem de uma das situações, tradicionalmente tidas como irregulares, agora, porém, apresentada em uma ótica diferente. É a questão daqueles que, tendo o seu primeiro matrimônio sacramental desfeito, estão vivendo a "segunda união", baseada no contrato civil. Em primeiro lugar, o palestrante refere-se, de maneira mais generalizada, às "famílias desagregadas" e diz:

"Não basta considerar o problema só do ponto de vista e da perspectiva da Igreja como instituição sacramental; precisamos de uma mudança de paradigma e devemos - como fez o bom samaritano (Lc 10, 29-37) - considerar a situação a partir da perspectiva de quem sofre e pede ajuda".

Depois de recordar as antigas e clássicas tentativas de encontrar a solução, principalmente a avaliação das possibilidades de constatar a eventual nulidade do casamento religioso (e, consequentemente, promover a "santificação" da união existente), o cardeal Kasper lança uma nova proposta que diz respeito aos casais que não têm essa possibilidade, ou seja, àqueles que continuam sendo considerados "irregulares". Eu entro aqui, com a observação de que o meu casamento (caso exista um candidato que se aventure para tal façanha) também seria considerado irregular perante a Igreja (pois seria com um homem!) e sem chance de ser elevado ao nível do Sacramento do Matrimônio. Segundo os critérios propostos pelo cardeal, porém, nós dois, tendo cumprido certas condições, seríamos admitidos à Comunhão Eucarística, a não ser que a minha lógica esteja falhando.

Antes de chegar aos pontos concretos, o cardeal Kasper polemizou com a ideia (sustentada, inclusive, pelo Papa Bento XVI) sobre a "comunhão espiritual" que - unicamente - seria acessível aos casais "irregulares":

"De fato, quem recebe a comunhão espiritual é uma coisa só com Jesus Cristo; como pode, então, estar em contradição com o mandamento de Cristo? Por que, portanto, não pode receber também a comunhão sacramental? Se excluímos os cristãos divorciados em segunda união que estão dispostos a se aproximar deles [sacramentos] e os encaminhamos à vida de salvação extrassacramental [sic!], talvez não colocamos em discussão a estrutura fundamental sacramental da Igreja? Então, de que servem a Igreja e os sacramentos? Não pagamos um preço alto demais com essa resposta? Alguns defendem que justamente a não participação na comunhão é um sinal da sacralidade do sacramento. A pergunta que se coloca em resposta é: não seria talvez uma instrumentalização da pessoa que sofre e pede ajuda se fazemos dela um sinal e uma advertência para os outros? Deixamo-la sacramentalmente morrer de fome para que os outros vivam?".

Após essa premissa dramática, o palestrante passou para os pormenores da proposta:

"Um divorciado em segunda união:
1) se se arrepende do seu fracasso no primeiro matrimônio;
2) se esclareceu as obrigações do primeiro matrimônio, se definitivamente excluiu que volte atrás;
3) se não pode abandonar sem outras culpas os compromissos assumidos com o novo matrimônio civil;
4) se, porém, se esforça para viver no melhor das suas possibilidades o segundo matrimônio a partir da fé e para educar os próprios filhos na fé;
5) se tem o desejo dos sacramentos como fonte de força na sua situação,
- devemos ou podemos negar-lhe, depois de um tempo de nova orientação (metanoia), o sacramento da penitência e depois da comunhão?"

Entro aqui, de novo, com as minhas analogias:

Uma pessoa homossexual:
1) se se arrepende do seu fracasso nas tentativas de estabelecer uma união heterossexual, ou até mesmo se arrepende por ser homossexual, ou seja, admite o fato de que tal condição não depende de sua vontade livre (tipo: "ah, como seria mais fácil, eu ser uma pessoa heterossexual, mas, infelizmente, isso não depende de mim");
2) se esclareceu as obrigações do casamento com uma pessoa do sexo oposto e se excluiu definitivamente a possibilidade de tal casamento;
3) se não pode abandonar sem outras culpas os compromissos assumidos com a união homoafetiva;
4) se, porém, se esforça para viver no melhor das suas possibilidades a união homoafetiva a partir da fé e para educar na fé os filhos que adotou;
5) se tem o desejo dos sacramentos como fonte de força na sua situação,
- a Igreja deve ou pode negar-lhe, depois de um tempo de nova orientação (metanoia), o sacramento da penitência e depois da comunhão?

O cardeal parece ler os meus devaneios e logo acrescenta uma misteriosa advertência:

"Um casamento civil como descrito com critérios claros deve ser diferenciado de outras formas de convivência 'irregular' como os casamentos clandestinos, os casais de fato, sobretudo a fornicação e os chamados casamentos selvagens [sic!]. A vida não é só branco e preto; de fato, há muitas nuances". Bem, fiquei na dúvida: onde é que eu me encaixo?

Enfim, uma das considerações finais feita pelo cardeal Kasper, vejo também como um pequeno e indireto sinal positivo:

"Não podemos limitar o debate à situação dos divorciados em segunda união e a muitas outras situações pastorais difíceis que não foram mencionadas no presente contexto. Devemos tomar um ponto de partida positivo e redescobrir e anunciar o Evangelho da família em toda a sua beleza. A verdade convence mediante a sua beleza. Devemos contribuir, com as palavras e os fatos, para fazer com que as pessoas encontrem a felicidade na família e, de tal modo, possam dar às outras famílias testemunho dessa sua alegria. Devemos entender novamente a família como Igreja doméstica, torná-la a via privilegiada da nova evangelização e da renovação da Igreja, uma Igreja que está a caminho junto às pessoas e com as pessoas".

Só espero que a Igreja esteja, também, a caminho junto às pessoas homossexuais...

20 de fevereiro de 2014

Os namorados em Roma


Não sei se entre aqueles milhares de namorados (noivos), reunidos com o Papa na Praça de São Pedro no último dia 14 de fevereiro (em vários lugares celebrado como o Dia dos Namorados - "Valentine's-Day"), estava algum casal homoafetivo. Juro que eu estaria lá, caso tivesse um namorado e estivesse em Roma. Os textos principais deste encontro, a saber: Diálogo do Papa com os casais e a Oração dos namorados, não tinham nada a ver com a condenação de "formas alternativas do amor humano" (que poderíamos esperar na época de Bento XVI), mas trouxeram a serenidade e o júbilo de um relacionamento projetado para "até que a morte os separe". Evidentemente, havia referências diretas e indiretas ao relacionamento tradicional, consagrado e sacramentado, isto é, heterossexual. Não se ouviu, portanto, qualquer menção "revolucionária" ao namoro gay (também seria difícil esperar, eu acho). Porém, os casais homoafetivos, a meu ver, podem fazer um excelente proveito com essas reflexões. 

As pessoas homossexuais que acreditam em Cristo e - de alguma maneira - identificam-se com a Igreja (neste caso, católica), têm alguns desafios a mais, em comparação com outras pessoas, por exemplo, os heterossexuais, os ateus/agnósticos e os seguidores de outras doutrinas (não vou detalhar aqui as diferenças entre as religiões). Em primeiro lugar aparece o desafio, talvez maior entre todos, que consiste em reconciliar em si mesmo as duas dimensões da própria identidade, quer dizer, a homossexualidade e a fé. O caminho não é curto nem fácil, porém possível. Aliás, é necessário para quem não se vê capaz de abrir mão de nenhuma dessas dimensões. A maior parte do trabalho a ser feito resume-se em superação (redefinição) de conceitos, opiniões, pontos de vista que tentam (com muito sucesso, infelizmente) apresentar as duas coisas, justamente, como irreconciliáveis, tipo água-fogo, água-óleo etc. A superação dessa visão do inferno é libertadora e não é nenhuma blasfêmia ou heresia. É uma descoberta, é uma ressurreição. Depois dese primeiro (mais longo, mais profundo e mais importante) passo, vêm outros, como a recuperação da alegria de um relacionamento com Deus-Amor, o novo gosto pela oração e a repensada, criativa e não menos alegre leitura da Palavra de Deus. A partir desta perspectiva, fica possível e muito útil, tomar nas mãos o texto da pequena oração dos namorados, composta especialmente para o encontro com o Papa:

Deus Pai, fonte de amor,
abre nossos corações e nossas mentes
para reconhecer em Ti
a origem e a meta
do nosso caminho de namorados.

Sim, sim! Ele é a origem e a meta do caminho de namorados que se entregam um ao outro no amor, cheio de confiança, dedicação, carinho, diálogo e tantos outros atributos, capazes de elevar uma relação interpessoal bem acima de um mero desejo carnal que (não esquecido nem ignorado) é muito mais uma consequência do que o motivo e a finalidade máxima dos dois. Dois rapazes e duas moças que creem em Deus Pai, podem conseguir enxergar nele a fonte do amor que os/as une, por mais que o seu relacionamento tenha sido taxado de diabólico ou antinatural. 

Jesus Cristo, esposo amado,
ensina-nos a vida de fidelidade e do respeito,
mostra-nos a verdade de nossos sentimentos,
faz-nos disponíveis ao dom da vida.

Embora essa parte da oração faça alusão direta à procriação, podemos entender que a disponibilidade ao dom da vida vai muito além desse significado restrito. Quanto mais sou capaz de reconhecer a minha vida e a vida do meu amado como um dom de Deus, haverá mais firmeza, zelo, cuidado e respeito pelo próprio relacionamento. E, se Deus permitir, a mesma disponibilidade ao dom da vida, levará à experiência da vocação à paternidade (maternidade), ainda que por meio de uma adoção. Além disso, a visão da vida como o dom, será suficiente para encarar, com fé e aceitação, a chegada da morte...

Espírito Santo, fogo do amor,
acende em nós a paixão pelo Reino,
a valentia para assumir
decisões grandes e responsáveis,
a sabedoria da ternura e do perdão.

Sem dúvida, os homossexuais batizados podem contribuir para a construção do Reino de Deus. Podem e devem, afinal, este Reino é de amor, de acolhimento, de louvor ao Criador, de libertação dos cativos e de cura dos feridos. E nem precisa dizer de quanta valentia se exige das pessoas homossexuais que levam a sério a sua própria visibilidade e a decisão de compartilhar sua vida com alguém. Tampouco é necessário frisar a importância da sabedoria da ternura e do perdão em um relacionamento de pessoas do mesmo sexo, pois neste ponto não há diferença entre as sexualidades.

Deus, Trindade do Amor,
guia os nossos passos.
Amém.

As mesmas linhas de pensamento encontramos nas respostas do Papa aos representantes dos casais reunidos na Praça de São Pedro. As três perguntas perfeitamente dizem respeito às nossas inquietações:

1) Santidade, muitos, hoje, pensam que prometer fidelidade para toda a vida é um compromisso muito difícil. Muitos sentem que o desafio de viver juntos para sempre é bonito, fascinante, mas muito exigente, quase impossível. Pedimos que sua palavra possa nos iluminar sobre esse aspecto. 

Se os namorados (noivos) heterossexuais têm essa preocupação, imagine-se os homossexuais. Além da onipresente "cultura do descartável", da qual o Papa fala com frequência, acrescenta-se a pressão interna e externa, experimentada por todos "não-heterossexuais" que têm muito mais dificuldades em acreditar que "isso pode dar certo". O Papa dá dicas simples e concretas que, de novo, servem muitíssimo bem às pessoas do mesmo sexo que queiram levar a vida em comum (leia aqui). Em resumo, trata-se de uma construção, dia após dia e não apenas sobre a base de sentimentos. O Papa recomenda também a oração pelo relacionamento: "Senhor, dá-nos hoje, o nosso amor cotidiano".

2) Santidade, viver juntos todos os dias é belo, dá alegria, sustenta. Mas é um desafio a ser enfrentado. Acreditamos que devemos aprender a nos amar. Há um "estilo" de vida conjugal, uma espiritualidade do cotidiano que queremos aprender. O Senhor pode nos ajudar nisso, Santo Padre?

Aqui a resposta do Papa é ainda mais simples e bastante prática. É a capacidade de usar, conscientemente, os termos (ou melhor, as posturas): "Posso?", "Obrigado!" e "Desculpe!". Nada de invadir, com as "botas de montanha", a vida e a intimidade do outro. Nada de ingratidão, mas muita sensibilidade e reconhecimento. Finalmente, a sincera humildade em admitir os próprios erros e pedir o perdão por eles. Literalmente o Papa disse (entre outras coisas): "A gentileza preserva o amor"; 'É necessário saber dizer 'obrigado' para caminhar bem juntos"; "Jesus, que nos conhece bem, nos ensinou um segredo: nunca terminar um dia sem pedir perdão...".  

3) Santidade, nestes meses, estamos nos preparativos para o nosso casamento. O Senhor pode nos dar algum conselho para celebrar bem o nosso matrimônio?

Bem... No momento, esta é a questão que preocupa exclusivamente os casais heterossexuais, sobretudo no contexto do Sacramento do Matrimônio. Caberia aqui a pergunta sobre a celebração de uma bênção nupcial para os casais homoafetivos (enquanto o Sacramento está fora de qualquer cogitação). Mas, a resposta do Papa vai além e é, de fato, a continuação do tema de um "estilo de vida conjugal", mencionado anteriormente. O Papa Francisco disse (aqui vai a resposta inteira):

Façam de um modo que seja uma verdadeira festa, uma festa cristã, não uma festa social! A razão mais profunda da alegria desse dia nos indica o Evangelho de João: vocês se recordam do milagre nas bodas de Caná? Em um certo momento, o vinho faltou e a festa parecia arruinada. Por sugestão de Maria, naquele momento, Jesus se revela pela primeira vez e realiza um sinal: transforma a água em vinho e, assim, salva a festa de núpcias.
O que aconteceu em Caná há dois mil anos acontece, na realidade, em cada festa de núpcias: o que fará pleno e profundamente verdadeiro o matrimônio de vocês será a presença do Senhor que se revela e dá a sua graça. É a sua presença que oferece o “vinho bom”, é Ele o segredo da alegria plena, que realmente aquece o coração.
Ao mesmo tempo, no entanto, é bom que o matrimônio de vocês seja sóbrio e faça sobressair o que é realmente importante. Alguns estão mais preocupados com os sinais exteriores, com o banquete, fotografias, roupas e flores… São coisas importantes em uma festa, mas somente se forem capazes de apontar o verdadeiro motivo da alegria de vocês: a bênção do Senhor sobre o amor de vocês. Façam de modo que, como o vinho em Caná, os sinais exteriores da festa revelem a presença do Senhor e recorde a vocês e a todos os presentes a origem e o motivo de vossa alegria.

12 de fevereiro de 2014

Sonhando com a casa


O meu sonho associa-se a uma casa. Não necessariamente no sentido arquitetônico. Pode ser um apartamento, inclusive bem pequeno. Digo "casa", pensando em uma morada, um lar. E, principalmente, em uma vida compartilhada. A casa é algo de casal e o casal é algo (melhor: é tudo) de amor. Um amor que evolui e, ao mesmo tempo, cultiva algum tipo de rotina própria. É um clima, um espírito, um ritmo. Neste sentido, a rotina não precisa ser o sinônimo de estagnação. Antes, é o sinal de uma profunda sintonia entre dois seres humanos que se conhecem a ponto de prever, intuir, o próximo passo do outro. Essa intuição, um dos principais frutos do amor, não aprisiona. Eu posso prever que o meu amado está prestes a me fazer uma surpresa, mesmo sem saber qual. Vou saber, porém, que aquela surpresa foi preparada para mim. Eu também faria surpresas. A vida pode ser intensa e, ao mesmo tempo, serena. Existe uma diferença fundamental entre os aborrecimentos, diferenças de opinião, correções - coisas mais naturais entre duas pessoas - quando se baseiam, ou não, em uma neurose. Os relacionamentos neuróticos vivem sacudidos por ciumes, cobranças e mentiras. A raiz, mais que provavelmente, situa-se em algum tipo de insegurança. Os estudiosos e os experientes afirmam que é a baixa autoestima que gera dúvidas em relação ao amor do outro. O medo e amar e o medo de não ser amado andam de mãos dadas, enquanto são as pessoas que deveriam andar assim. 

As cenas mais preciosas de uma vida conjugal não vêm das memórias da minha própria família. Pelo menos, não no sentido clássico e estrito da palavra. Os meus pais se separaram quando eu ainda era pequeno. Lembro-me de algumas brigas entre eles e daqueles períodos em que não se falavam direito. Lembro-me de ausências prolongadas do meu pai e de olhar amargurado da minha mãe. Até que essa ausência e essa amargura se tornarem permanentes. Ele saiu definitivamente de casa. Ela, com o tempo, aceitou a nova situação e conseguiu amenizar a sua amargura. Eu e o meu irmão mais velho, ambos pré-adolescentes na época, descobrimos, aos poucos, que a vida assumiu as formas diferentes. Ele nos visitava com frequência, mais tarde começou a nos levar para acamparmos juntos, até chegou a hora em que - por meio de uns esforços diplomáticos com a nossa mãe que só poderíamos imaginar - promoveu o nosso encontro com a nova esposa dele. Havia a questão da forma de chamá-la. Sem dúvida, não seria "mãe", nem "madrasta", ou "tia". Foi ela que deu a proposta de chamá-la, simplesmente, pelo nome. Confesso que nunca consegui, o que resultou em uma espécie de ginástica mental para poder conversar com ela de curiosa forma impessoal. Não vou tentar explicar isso aqui para não fugir do assunto principal. 

Não tenho como e também não pretendo fazer aqui as comparações e - ainda menos - qualquer tipo de julgamento. Digo apenas que nunca (antes e depois) e em nenhum outro lugar vi algo que, de fato, pode ser chamado "casa", um lar fantástico, para não dizer "perfeito". Vi e vivi na casa deles. Não, eles não eram perfeitos, mas o que os unia beirava a perfeição, ou melhor, uma incrível sintonia, uma confidencialidade, uma paz. Foi assim até a morte do meu pai. E eu, assim como o meu irmão, visitávamos aquela casa e, depois, aquela mulher, já sozinha, com bastante frequência. Ela sempre foi a "gerente" da casa e ele, a cabeça. Ela administrava o dinheiro, as compras e as contas, mas a verdadeira paixão dela (além do meu pai, é claro) era a própria casa que, em cada detalhe, levava a sua marca. Cozinheira talentosa e carinhosa e decoradora nata, mesmo sem ser profissional do ramo. Notava-se, a todo momento, o profundo e sincero respeito entre eles. Eu diria, uma reverência. Os dois se revezavam nas advertências dadas a mim e ao meu irmão: "Fala mais baixo! Ele está trabalhando agora e não gosta de ser interrompido" (meu pai era um jornalista e foi em casa que ele dava aquele último toque aos seus textos). Ou então: "Arruma a mesa! Ela não gosta de bagunça... E na próxima vez vê se traz algumas flores para ela!".

Bem... Eu não convivi com eles o tempo todo, mas também não acredito que tenha sido um teatro, feito por eles, só para criar uma aparência hipócrita de harmonia, diante dos nossos olhos. Aquela compreensão sem precisar explicar as coisas, o respeitoso e profundo conhecimento mútuo de costumes e gostos pessoais, a sintonia, a paz. Eles falavam com a mesma voz quando nos orientavam ou cobravam algo da gente. Eles se divertiam. Sim, as vezes um chamava atenção do outro, mas nem por isso o clima entre eles ficava alterado. As diferenças que cada um deles trazia, só serviam para completar o outro. Ele era bem mais velho, havia diferenças intelectuais e as histórias familiares distintas. Nada disso atrapalhava a sua união. Passavam muito tempo juntos, mas não se via aquele jeitão grudento que muitos casais apresentam. Finalmente, quando chegou a hora, foi ela quem cuidou dele, até o último suspiro.

Quando, então, fico sonhando com a minha casa, com o meu casamento... penso neles. Um relacionamento lindo, posso dizer perfeito, sem deixar de ser profunda e autenticamente humano.

25 de janeiro de 2014

Café com leite


Queridos ouvintes, dentro de alguns instantes vai começar a cerimônia do casamento. O clima é festivo, mas também sente-se no ar um pouco de tensão. Afinal, não é todo dia que acontece uma coisa dessas. Os noivos são muito diferentes e há quem diga que esta união não vai dar certo. Entre os convidados as opiniões se dividem entre a comoção e a indignação. Para entendermos melhor as razões que levaram esses dois a tomarem uma decisão tão radical e definitiva, vamos conversar com os próprios noivos que não escondem a felicidade tão esperada. Vou começar pelo senhor Leite que acaba de conversar com seus familiares que, aliás, são a maioria dos convidados à festa, em comparação com um número visivelmente menor de parentes do outro noivo.

- Bom dia! Em primeiro lugar, os meus parabéns antecipados! Os nossos ouvintes gostariam de saber o que levou o senhor a decisão tão corajosa que, segundo alguns dos seus convidados, é uma renúncia da própria identidade, quase uma traição dos milenares costumes da tribo?

- Bem, eu poderia responder com apenas uma palavra: o amor. No entanto, gostaria de acrescentar mais algumas coisas. A mais importante tradição da nossa família e a mais autêntica identidade é a entrega, a generosidade, a doação. Nós existimos para dar a vida.

- Ah, que bonito! Mas, numa união dessas que paradoxalmente chama-se indissolúvel, não acontece justamente o contrário, quer dizer, o senhor fica diluído? Muita gente, aqui mesmo, diz que o senhor vai perder a sua pureza, a sua brancura, o seu sabor e o aroma? Para ser mais exato, o senhor vai perder até o seu nome que passará a funcionar como secundário...

- Na verdade, tudo depende da ótica. Dizem que vou perder tudo isso, enquanto, de fato, eu estou entregando o que tenho de melhor. Ao mesmo tempo vou ganhar uma cor nova, um sabor e aroma também novos. Não concordo quando as pessoas dizem que o branco é a mesma coisa que incolor, mas a nova cor que irei ganhar acho mais interessante. Pelo menos vou perder a minha palidez que, para mim, é o sinônimo da solidão. Mal posso esperar!

- O senhor tem uma família muito grande, mas fiquei sabendo que nem todos compareceram no seu casamento...

- É verdade. Uma irmã minha não veio porque, como disse, ela se derrete no calor das emoções. A outra irmã minha, a mais velha, ela é meio esnobe e se acha nobre demais para se misturar com os pobres [risos]. É a nata da família, muito conservadora, coitada. Mas, olha aqui os meus primos coloridos. Todos já se casaram: um ficou vermelho, outro cor-de-rosa e assim por diante. Para eles, o meu casamento é a coisa mais normal na face da terra. Alguns parentes vieram até do exterior. Já viu aquele esquisitão que parece estragado? O cheiro dele também não é dos melhores, mas dizem que ele é muito caro lá, onde mora. Enfim, a questão de cor não é mais um problema na nossa família, acabamos com este preconceito. E tem outra coisa, inclusive confirmada pelos cientistas. Sim, sim, eu li muito sobre isso. Nesta nova união, nenhuma das minhas propriedades se perde, além das coisas exteriores. Pelo contrário! Além de ganhar algumas novas, aquelas que tenho ficam ainda mais refinadas, agradáveis e até assimilam-se melhor. Com outras palavras, será uma fusão, mas não confusão. Eu entrego e não perco a minha vida para ganhar outra, nova, diferente. Alguns dizem que vou sofrer alterações. Mas, para que usar o termo "sofrer" em vez de "conquistar"? Sofre-se uma derrota e aquilo que estou vivendo não é uma derrota. É uma vitória e a vitória se conquista. Ah, sim, o sofrimento também faz parte do processo, é inevitável, porém, não essencial. Vou deixar de ser apenas eu para me tornar a metade de um "nós" que, neste caso, é mais um singular do que um plural. Como dizem os jovens: "É nós". Se quiser saber, isso vem da Bíblia que diz que "não serão mais dois, mas uma só carne". Não é maravilhoso?

- Bem, só posso agradecer pela sua atenção e desejar muita felicidade. E aproveito aqui a presença do outro noivo que ouviu toda a nossa conversa, sem esconder a emoção. Reitero as minhas felicitações também para o senhor e gostaria de perguntar se a sua opinião é semelhante. Não posso deixar de notar o fato de serem pouquíssimos os seus familiares, presentes no casamento...

- Ah, sim, é verdade. A minha família é bem menor do que a do meu noivo. E também tem gente reclamando, mas eu não ligo. Um irmão meu, o Expresso, me chamou de vacilão, mas ele é assim mesmo, tem um temperamento forte e esquenta com cada coisa. Eu, porém, prefiro a ideia do meu noivo e concordo com cada palavra dele, embora a nossa história tenha sido diferente. Por exemplo, aquilo que ele falou sobre a cor. Nossa! Eu já passei por tanta coisa! Nasci verde, virei vermelho e agora estou marrom quase preto. Primeiro me regaram, depois arrancaram, descascaram, queimaram, trituraram... enfim. Tive uma vida cheia de contradições. A água me deu a vida, mas fiquei desidratado, sequinho mesmo e ainda trancado hermeticamente, só para não pegar a umidade. Depois me afogaram na água fervente para que ficasse assim como está me vendo agora. Falando verdade, fiquei muito amargurado com tudo isso, mas agora isso vai mudar, graças a Deus e graças ao meu noivo. Para quem fala sobre as perdas, respondo: já pensou que, para mim, a escuridão é o mesmo que a solidão? O resto é a mesma coisa que ele disse: não perco nada e ganho tudo, torno-me mais suave. Estou muito feliz com esta mudança e se quiser saber, é por todo o resto da minha vida. Aliás, da nossa vida. Ah, lembrei! Em relação ao nome... Foi ele que pediu para colocar o meu na frente...

- Ai, que bonitinho! Parabéns então, de coração mesmo. E uma última palavra: vocês têm planos para a lua de mel e para depois?

- Temos sim, inclusive a sua dica sobre o mel é interessante. Por enquanto pensávamos apenas no açúcar, mas podemos testar outros adoçantes. Além de umas pitadas de canela e de sal. É sério! Muita gente não sabe, mas uma pitada de sal faz com que o sabor fique ainda mais refinado, só não se pode exagerar [risos]. E vamos viajar pelo mundo inteiro, de caneca, de copo e de xícara... Temos tantas possibilidades! E vamos testar novas proporções, novas cores e novos sabores. Vai ser um espetáculo! Agora precisamos pedir licença, porque a cerimônia vai começar...

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Obs.: O vídeo não é exatamente sobre a história relatada acima, mas não deixa de ter algo a ver com ela.

29 de dezembro de 2013

Sagrada Família


O domingo dentro da Oitava do Natal (e quando não há um domingo nesse período, é no dia 30 de dezembro), a Igreja celebra a festa da Sagrada Família. Os pregadores, em sua grande maioria, dedicam seus discursos à família contemporânea e destacam "as ameaças" sofridas por essa instituição que em si - sem dúvida - é um belíssimo projeto de Deus. Um dos equívocos mais frequentes é - digamos - a invertida direção do pensamento, ou seja: partindo do modelo (de família) considerado hoje "moralmente correto", tentam esticar a interpretação do mistério da criação, mencionando de passagem a Sagrada Família de Jesus Maria e José. É muito fácil deixar-se levar pelo tal discurso, porque os pregadores - além de tocarem no assunto que "mexe com qualquer um", misturam as afirmações certas com erradas e montam uma imagem que parece ser absolutamente perfeita. E de fato a visão é admirável... Mais ou menos como a de uma árvore de Natal. Ela nos comove e fascina, a ponto de esquecermos de que tanto a própria árvore, quanto o seu brilho, é tudo artificial. Estamos assim, igualmente, colocados diante de uma imagem artificial da família.

Vamos aos detalhes. O ponto de partida (do discurso) é uma família "perfeita" (dentro dos padrões ideológicos de hoje), isto é, formada pelo casal heterossexual, seus (não poucos) filhos e, talvez, os avós e alguns demais personagens. O casal, obrigatoriamente unido através do Sacramento do Matrimônio, permanece em maior fidelidade conjugal, aplica apenas os métodos naturais durante cada ato sexual e, quando chegar a hora, educa rigorosamente os filhos, inclusive sobre a "autêntica" sexualidade humana.

Esse ponto de partida para uma viagem bíblico-histórica ignora o fato de que ainda algumas décadas atrás, sob a bênção apostólica da Igreja, os pais escolhiam os maridos para suas filhas e os homens tratavam as suas mulheres como escravas (aliás, a própria escravidão, em seu sentido cruelmente literal, também possuía a mesma bênção). As pregações frisam a lei natural, da qual a única exceção é algum fato sobrenatural, bem como no caso de Maria Santíssima que ficou grávida antes de se casar com o seu castíssimo esposo, São José. O mesmo caso sobrenatural justifica a total ausência de procriação na Sagrada Família. Ainda assim, é exatamente essa Família de Nazaré (e de Belém) que está sendo apresentada como modelo de todas as famílias. Ou seja, as famílias que começam a sua existência no momento das núpcias e somente assim autorizadas por Deus para iniciarem a sua colaboração com Ele na geração de novas vidas, têm o seu modelo no (Santo) casal que teve a história particularmente diferente...

Talvez os próprios pregadores tenham percebido os pontos fracos dessa argumentação e por isso recorrem imediatamente ao fundamento de todas as coisas, isto e, à criação do ser humano, ou melhor, à formação do primeiro casal e à ordem de "povoarem a terra" através da procriação (literalmente, a "multiplicação"). Aí começa a "matança dos coelhos". E não são apenas dois com uma só cajadada. Na verdade, são muitos. O texto bíblico sobre Adão e Eva serve tanto para condenar o divórcio, quanto a monogamia e, principalmente "o homossexualismo" (sic!). Afinal, como diz a "sabedoria" popular, Deus criou Adão e Eva e não Adão e Ivo (sic! sic!)... Enfim, o discurso termina com a conclusão de que a ordem da criação, ferida pelo pecado, foi restaurada pelo fato do nascimento do Filho de Deus no seio de uma família...

Espero que, ao menos alguns pregadores, tenham o tempo de mencionar que Deus é amor e que - principalmente neste sentido - todos fomos criados à sua imagem e semelhança.

Quanto à criação, eu particularmente, vejo ali um princípio diferente que não tem nada a ver com a heterossexualidade. Basta ler o texto com atenção e sem "esticá-lo" ao tamanho do próprio preconceito. Vale lembrar de que não estamos diante de uma reportagem, mas recebemos de Deus, em forma alegórica (ou poética) a revelação sobre o mistério da nossa existência. Refiro-me, neste caso, ao texto do Livro do Gênesis, capítulo 2, versículos de 18 a 24, tendo como o "texto auxiliar" o Gn 1, 24-31, ou melhor, os dois primeiros capítulos inteiros. 

Em primeiro lugar, Deus revela que criou o ser humano à sua imagem e semelhança (Gn 1, 26-27). Em seguida (eu diria, em consequência disso), Ele mesmo afirma que "não é bom que o homem esteja só" e logo encontra a solução: "vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada" (Gn 2, 18). Os detalhes a seguir considero muito importantes para ter uma conclusão correta e não criar as ideologias baseadas em qualquer tipo de fobias...

Acho belíssima a cena em que Deus leva ao homem todos os animais e este lhes dá o nome. De um lado parece ser um tribunal no qual o homem é o juiz, mas ao mesmo tempo, sem perceber, o próprio homem está sendo avaliado por Deus. Desde o início o ser humano é convidado para ser um parceiro ou colaborador de Deus. Desde então, o homem tem a prerrogativa de dar o nome a todas as coisas. Isso é magnífico. Pelo menos no início (sabemos quanto mal pode fazer o ato de atribuir o nome, ou o rótulo, às coisas e às pessoas!).

O próximo passo do Criador é misterioso. Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem” (Gn 2, 21-22). A reação do homem, desta vez, é diferente: Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem.” (Gn 2, 23), o que o autor bíblico conclui com a frase, citada inclusive por Jesus no Evangelho: "Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne." (Gn 2, 24). Tudo parece óbvio. É o homem e a mulher. O que vem além disso, não pode ser de Deus... Será?

O contexto de toda aquela situação sugere que o homem se reconhece como tal e percebe a diferença entre a sua natureza e a dos animais. Ele é superior, é a questão de níveis diferentes. É nítido aqui o princípio do personalismo e não da heterossexualidade. Se Deus decidisse tomar a costela do homem para formar um outro homem, a resposta de Adão seria a mesma: Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne". Digo mais: essa resposta seria ainda mais rápida e com firmeza ainda maior. É como se Adão dissesse: "A minha solidão só pode ser preenchida por um outro ser humano, mas qualquer animal, por mais simpático que seja e me faça companhia, não é capaz de me complementar por inteiro". O sentido da criação de seres humanos com sexos diferentes está, evidentemente, em uma das principais tarefas confiadas a eles pelo Criador, isto e, de povoar a terra (cf. Gn 1, 28). Porém, essa não é a única maneira de dar o sentido a existência do ser humano. Se fosse a única, as pessoas não fariam mais nada, além de procriar. Aliás, não existiria, também, o celibato...

Terminando a minha reflexão neste dia da Sagrada Família, quero repetir mais uma vez: nós, os homossexuais, somos imensamente gratos às nossas famílias (e à instituição familiar como tal). Afinal, sem a família (por mais imperfeita que tenha sido) nenhum de nós existiria. Outra coisa importante: pelo fato de não procriarmos em nossos relacionamentos homossexuais, não pretendemos destruir a família, enquanto a célula fundamental da sociedade e da Igreja. Muito pelo contrário. Desejamos acrescentar a nossa própria experiência de amor e com ela enriquecer a convivência pacífica e fraterna de toda sociedade e da Igreja. Além disso, o glorioso exemplo da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, ensina-nos e inspira para não desanimarmos diante das incompreensões, ameaças e perigos que o mundo atual, cheio de fobias e fundamentalismos, nos oferece...

30 de outubro de 2013

5 minutos para o casal

 
Ainda não temos o material suficiente que pudesse nos ajudar a cultivar os nossos relacionamentos homoafetivos. A grande parte da literatura LGBT concentra-se na luta pelos direitos e uma outra parte é dedicada à erótica. Por isso precisamos recorrer à sessão de autoajuda com as obras dedicadas aos casais heterossexuais. Basta, porém, aplicar uma simples correção, substituindo, onde for necessário, o termo "mulher" por "homem" e vice-versa. Afinal, trata-se de relacionamento amoroso entre dois seres humanos. Alguns livros facilitam bastante a (nossa) leitura, empregando com frequência, a palavra "parceiro", sem insistir tanto em "marido & mulher". É o exemplo do livro, escrito por duas mulheres (casadas com homens), Bonnie Jacobson, psicóloga e psicoterapeuta e Alexia Paul, escritora e editora: "Cuide do seu casamento 5 minutos por dia. Práticas diárias para transformar seu relacionamento" (Editora Gente; São Paulo, 2013). Incluí este livro no presente ao casal gay, na ocasião da festa deles, na qual assinaram o Pacto de União Estável, no meio deste mês.
 
A Editora Gente, no seu site, apresenta o livro assim: Ano após ano, vemos o crescimento das estatísticas de separação, e com a rapidez das mudanças da vida moderna, o casamento parece um código indecifrável, um mistério. Parece que nunca sabemos se seremos os próximos a perder o amor até que seja tarde demais. Proteger o casamento é um ato diário – e, com este livro, vemos que ele está nas coisas simples. Com cinco minutos por dia, transforme seu relacionamento em uma união forte, amorosa e indestrutível. Sem precisar de planos complexos, descubra quais são as práticas dos casais felizes e inseparáveis e incorpore-as à sua rotina de maneira simples e prazerosa a partir da experiência da doutora Bonnie Jacobson na construção de relacionamentos felizes. É impossível ser feliz sozinho, e, com cinco minutos por dia, você nunca mais terá de se preocupar se o seu amor vai bem!
 
O mesmo site dá, também, o acesso ao primeiro capítulo do livro, em formato pdf (aqui). Transcrevo uma pequena parte:
 
Encha seu casamento de afeto
Todos os dias, ofereça a seu companheiro um beijo, um abraço, uma massagem nas costas para lembrá-lo de sua devoção e renovar o sentido de “estar nisso juntos”. A boa notícia? Cinco minutos por dia é tudo de que você precisa para restaurar a afeição amigável em seu relacionamento, um pequeno esforço que resulta em uma enorme recompensa emocional. A maioria gostaria de ser mais afetuosa. A chave é ter disciplina para dedicar tempo para buscar nosso parceiro enquanto atravessamos nossos dias sobrecarregados. (p. 3)
 
Crédito extra
No próximo sábado de manhã, quando vocês podem ficar um pouco mais na cama, tome a iniciativa de se enroscar no corpo de seu parceiro e veja se isso leva a um bom aconchego ou – ainda melhor – a uma sessão de sexo prazeroso. Entre vocês dois, o mais inclinado às demonstrações afetuosas pode se sentir negligenciado caso os abraços e beijos sejam escassos. Da mesma forma, seu companheiro pode se sentir invadido quando você se senta no colo dele sem convite ou quer trocar beijos quando ele não está no clima. Nesse caso, uma invasão discreta pode dar resultado. Cinco minutos diários de afetividade física podem funcionar para esse tipo de casal – contudo, a forma de abordar e o momento são cruciais. Se você adora afeto físico e acha que está faltando contato, não espere que seu parceiro faça a oferta. Aproxime-se nos momentos em que os dois estiverem relaxados. Sem chamar a atenção (“Viu, não é tão ruim!”) ou impor culpa (“Por que não ficamos de mãos dadas pelo menos de vez em quando?”), segure com delicadeza a mão de seu companheiro por alguns minutos e depois solte. O fundamental é não fazer pressão, não colocar culpa. Pegue leve. (p. 7)
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Observação final (e prática): Desisti de comprar esse livro via site, embora haja tal possibilidade. É que achei exagerado o custo de envio. Simplesmente fui a uma livraria (no meu caso, a Saraiva) e facilmente comprei o livro (talvez por ter sido lançado recentemente). Enfim, recomento essa leitura!

27 de outubro de 2013

A família em foco

 
Termina hoje em Roma a Jornada das Famílias em ocasião do Ano da Fé. Entre os textos que se destacam, estão dois discursos do Papa (aos participantes da Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para as Famílias, no dia 25 e às próprias famílias reunidas em Roma, no dia 26) e a sua homilia de hoje.
 
É uma oportunidade para esclarecer alguns pontos que, até agora, geram várias polêmicas e referem-se ao lugar de pessoas homossexuais no contexto da família. A maioria das pessoas não heterossexuais reconhece o valor e a importância do Sacramento do Matrimônio, designado aos casais formados pelo homem e pela mulher. Afinal, todos nós nascemos em família, ainda que - em vários casos - imperfeita, incompleta e não necessariamente construída na base do Sacramento. O que, porém, precisa ser dito uma vez por todas, nenhum homossexual é contra o Sacramento do Matrimônio, nem contra a família baseada no casal heterossexual. Ainda mais claramente devemos declarar a nossa absoluta contestação das opiniões que apontam as pessoas LGBT (e a sua luta pelos direitos humanos, inclusive pelo reconhecimento da união estável) como "grave ameaça à família tradicional enquanto instituição fundamental da sociedade". É pelo contrário. Nós reconhecemos o papel da família tradicional e a sua função majoritária na construção da sociedade. A família tradicional é, sim, o fundamento, porém, nenhuma construção limita-se apenas ao fundamento. É inevitável e verdadeiramente preciosa a inspiração que os casais homossexuais recebem dessas famílias. Ainda que muitos autores e militantes dos movimentos LGBT critiquem a "heteronormatividade", não temos como (e a maioria realmente não quer) ignorar esse papel fundamental, exercido pela família composta de papai, mamãe e demais familiares. Por isso não vamos enxergar como retrocesso, aquilo tudo que o Papa Francisco tem dito sobre o Sacramento do Matrimônio. Notamos, ao mesmo tempo, que as suas palavras sobre as coisas essenciais na vida de um casal heterossexual, aplicam-se perfeitamente aos casais homossexuais. Por exemplo:
 
Cada um de nós constrói a sua própria personalidade na família, crescendo com a mãe e o pai, irmãos e irmãs, respirando o calor da casa. A família é o lugar onde nós recebemos o nome, é o lugar dos afetos, o espaço de intimidade, onde se aprende a arte do diálogo e da comunicação interpessoal. Na família, a pessoa torna-se consciente de sua própria dignidade e, especialmente, se a educação é cristã, reconhece a dignidade de cada pessoa humana, especialmente dos doentes, dos fracos e marginalizados. [1]
 
Muitas vezes a vida é gravosa, frequentemente mesmo trágica! Ainda recentemente o ouvíamos… Trabalhar é fatigante; procurar trabalho é fatigante. E encontrar emprego hoje pede-nos tanta fadiga! Mas, aquilo que mais pesa na vida não é isto: aquilo que pesa mais do que tudo isso é a falta de amor. Pesa não receber um sorriso, não ser benquisto. Pesam certos silêncios, às vezes mesmo em família, entre marido e esposa, entre pais e filhos, entre irmãos. Sem amor, a fadiga torna-se mais pesada, intolerável. Penso nos idosos sozinhos, nas famílias em dificuldade porque sem ajuda para sustentarem quem em casa precisa de especiais atenções e cuidados. «Vinde a Mim todos os que estais cansados e oprimidos», diz Jesus. [2]
 
Queridas famílias, como bem sabeis, a verdadeira alegria que se experimenta na família não é algo superficial, não vem das coisas, das circunstâncias favoráveis... A alegria verdadeira vem da harmonia profunda entre as pessoas, que todos sentem no coração, e que nos faz sentir a beleza de estarmos juntos, de nos apoiarmos uns aos outros no caminho da vida. Mas, na base deste sentimento de alegria profunda está a presença de Deus, a presença de Deus na família, está o seu amor acolhedor, misericordioso, cheio de respeito por todos. E, acima de tudo, um amor paciente: a paciência é uma virtude de Deus e nos ensina, na família, a ter este amor paciente, um com o outro. Ter paciência entre nós. Amor paciente. Só Deus sabe criar a harmonia a partir das diferenças. Se falta o amor de Deus, a família também perde a harmonia, prevalecem os individualismos, se apaga a alegria. Pelo contrário, a família que vive a alegria da fé, comunica-a espontaneamente, é sal da terra e luz do mundo, é fermento para toda a sociedade. [3]
 
Certamente, o caminho para o reconhecimento pleno e oficial - principalmente por parte da Igreja - de famílias construídas com a base em casais homossexuais, é ainda muito longo. O primeiro passo consiste em parar de considerar tal fenômeno uma ameaça. Depois, sem dúvida, é preciso conhecer de perto a experiência dessas novas famílias. Talvez nunca se chegue a admitir o Sacramento do Matrimônio (e nem esse mesmo termo) aos casais homossexuais. Mas, reconhecer o seu direito de existir, inclusive dentro da comunidade eclesial, é possível. O que se faz necessário, é a remoção de preconceitos (de ambos os lados) e um diálogo sereno, sempre pautado pela fé e boa vontade.

13 de outubro de 2013

O casório

 
Estou de volta, depois de participar de um momento histórico: a cerimônia de assinatura de declaração de pacto de união estável, entre A. e V. Não houve a pergunta sobre os possíveis impedimentos ao casamento (com aquela famosa frase: "Diga agora ou cale-se para sempre!"), aliás, não houve qualquer pergunta, nem a presença de um juiz. Enfim, não se trata de um casamento, no sentido literal da palavra, ainda que os efeitos tenham sido os mesmos - pelo menos, no coração dos noivos (que o documento define com a palavra feia "contratantes") e, certamente, de todos os convidados, visivelmente emocionados. Um dos noivos fez o seu breve pronunciamento, os dois assinaram o documento, trocaram as alianças e a festa continuou, em forma de um esplêndido jantar.
 
O que mais chamou a minha atenção, foi a sensação de maior naturalidade na face da terra. Ninguém ficou cochichando pelos cantos, não houve um comentário sequer, sobre o fato de dois homens declararem o início de uma nova fase de suas vidas que, desde agora, tornam-se uma vida só. O grupo de convidados contou com a presença de umas 40 pessoas, entre os familiares (não todos compareceram e alguns nem ficaram sabendo da cerimônia), os amigos e a equipe do bufê. Ninguém estranhou a presença de algumas crianças na festa...
 
Eu perco a minha timidez, depois do segundo copo de caipirinha... Puxei o assunto da diferença de idade dos noivos (24 - 50 e poucos), em algumas conversas particulares, tentei fazer - em vão - as intervenções relacionadas ao beijo dos dois e da leitura - em voz alta - do texto daquele documento que tinha sido assinado. A única coisa que consegui, foi convencer os noivos (contratantes, nubentes, enfim...) a brindarem com o champanhe, cruzando os braços, mais ou menos assim, como os alemães e outros europeus, bebem o "brüderschaft" (um brinde à amizade que resulta em abandonar as formalidades e começar a chamar determinada pessoa pelo nome).
 
Depois do 4° copo de caipirinha, comecei as minhas investidas em relação a um jovem convidado, segundo o meu amigo (o noivo), um gay declarado. Consegui conversar um pouco com ele, descobri que mora no bairro vizinho e tal. Queria mais, mas como ele faz parte do grupo de amigos do outro noivo, provavelmente surgirão novas ocasiões para prosseguir o contato. Só para encerrar esse assunto, os 4 copos (relativamente pequenos) de caipirinha, não me deixam embriagado. Antes, ajudam-me a sair do casulo de timidez exagerada (e quase sair do armário). Falando nisso, descobri que a minha amiga que também estava presente ali, simplesmente sabe que eu sou gay, mesmo sem termos conversado sobre isso...
 
Enfim, foi uma noite feliz, marcada pelas gargalhadas saudáveis e mesas fartas. E, o que mais importante, o espírito de amor pairava sobre todos. Talvez tenha faltado um buquê de flores, jogado pelos noivos na minha direção (também reclamei!), mas o momento não deixou de ser contagiante de verdade. O namorado da minha amiga fez a ela o pedido de casamento. E ainda tem gente dizendo que "as uniões de pessoas do mesmo sexo ameaçam a família, enquanto célula fundamental da sociedade". Quem pensa assim, deveria participar de cerimônias como essa.
 
Parabéns aos pombinhos que, nesta altura, devem ter desembrulhado todos os presentes...

27 de setembro de 2013

Impressionismo cinematográfico

Procurei uma palavra que retratasse a minha impressão, depois de assistir o filme coreano "Hello my love" e me veio à mente, justamente, o impressionismo. O termo, obviamente, pertence ao mundo da arte de pintura (é um movimento artístico surgido na França no século XIX que criou uma nova visão conceitual da natureza utilizando pinceladas soltas dando ênfase na luz e no movimento - leia mais aqui). As cores frequentemente são empregadas puras na tela, em pinceladas desassociadas. Os impressionistas retratam em suas telas os reflexos e efeitos que a luz do sol produz nas cores da natureza. A fonte das cores está nos raios do sol. Uma mudança no ângulo destes raios implica na alteração de cores e tons. É comum um mesmo motivo ser retratado diversas vezes no mesmo local, porém com as variações causadas pela mudanças nas horas do dia e nas estações ao longo do ano. O estilo artístico que hoje fascina tanta gente, nem sempre foi acolhido com tanto entusiasmo. As maiores críticas recebeu logo no início. O pintor e crítico de Arte, Louis Leroy disse: “Selvagens obstinados, não querem por preguiça ou incapacidade terminar seus quadros. Contentam-se com uns borrões que representam suas impressões. Que farsantes! Impressionistas!”
 
Eu sei que o filme em questão pode despertar diversas emoções e muitos podem, simplesmente, não compartilhar o meu entusiasmo. Afinal, estamos diante de uma cultura oriental, tão distante da nossa. O tema principal gira em torno da homoafetividade, mas, o que posso dizer é que - como um soldado que põe tudo que tem dentro de um saco - o diretor, junto com toda a equipe do filme (que está longe de ser um saco) conseguiu, dentro de um pouco mais de 90 minutos, misturar - sem confundir - tanta coisa: amor e ódio, absurdo e mais pura lógica, fidelidade e traição, comédia e tragédia, covardia e coragem, religião, superstições e homofobia, sensualidade que não escandaliza, belíssimas paisagens e música, profundo mergulho na antiquíssima tradição oriental com o toque da moderna cultura ocidental, canalhice e nobreza, muita, muita chuva e realmente muita bebida, lágrimas e gargalhadas, homo- e hetroafetividade, família e amizade, sangue e morte, violência e ternura... e milhares de outras coisas. Vale acrescentar que o filme envolve, a ponto de você rir, chorar, xingar e torcer pelo final feliz. E tem mais: o elemento-surpresa, até o último minuto da história. E tudo isso protagonizado pelos lindos atores e atrizes!
 
É um filme a ser saboreado, como (e com) um bom vinho (que faz parte integral da trama). Recomendo especialmente aos casais (inclusive heterossexuais).
 
 

Casamento homoafetivo - longo cminho

 
São inquestionáveis as conquistas no campo dos direitos humanos. A comunidade GLBTTS está comemorando hoje mais um passo: O Tribunal Superior do Trabalho decidiu que que uniões heteroafetivas e homoafetivas tenham o tratamento igualitário pelas empresas. O reconhecimento legal de união estável entre as pessoas do mesmo sexo foi grande vitória. Mais tarde, o Conselho Nacional de Justiça proibiu cartórios de recusar a celebração de casamento civil de pessoas do mesmo sexo ou de negar a conversão de união estável de homossexuais em casamento.
 
Quase todos os dias de manhã escuto a Band News FM e foi um dia desses que ouvi a expressão, usada por Ricardo Boechat: "o efeito educativo da lei". Uma rápida busca me levou ao resumo de uma matéria de estudo, chamada Sociologia Jurídica (Autor: Prof. Rogério José de Almeida da PUC - Goiás), falando especificamente sobre a eficácia das normas jurídicas e seus efeitos sociais. Um dos tópicos chamou mais a minha atenção: quando se faz necessário educar o comportamento, tendo em vista modificações que se quer introduzir na cultura, a questão é de um efeito educativo do Direito com função transformadora. Entretanto, a simples edição de uma norma jurídica, mesmo armada de punição, é insuficiente para corresponder a uma efetiva aplicação.
 
Conclusão: é preciso comemorar, sim, mas, ao mesmo tempo, não se pode baixar a guarda e deixar de trabalhar, principalmente, em função de mudança da mentalidade vigente. No recente debate sobre a homofobia, voltava, com frequência, a questão dos cidadãos que precisam conhecer as leis e aprender a recorrer a elas para defender a sua dignidade. Dizia-se: "agora, pelo menos, temos os instrumentos em nossas mãos". No triste contexto da homofobia, isso é muito importante.
 
A minha pergunta, porém, vai mais longe. Queria saber (infelizmente só na teoria, pois continuo solteiro!), qual é o efeito de todas essas conquistas legais (repito: inquestionáveis) na vida real dos casais homoafetivos? Sem dúvida, é uma satisfação, poder exibir a certidão de casamento, diante dos familiares, amigos, empregadores, etc. É, também, um "escudo", quando a autodefesa se faz necessária, diante das mesmas pessoas...
 
Mas, para o próprio casal? Será que este reconhecimento legal e oficial da união ajuda a consolidar a própria união? Estou dizendo, principalmente, sobre a situação extrema - não muito rara entre os casais heterossexuais - que consiste em permanecer juntos apenas por causa daquele papel, quando todo o resto já tenha acabado. Vale acrescentar aqui o mesmo (ou, ainda mais forte e profundo) efeito educativo da lei religiosa, no caso do Sacramento do Matrimônio, ou, então, a existência dos filhos. Nessas situações extremas, os cônjuges (heterossexuais, casados na igreja e comprometidos com os próprios filhos), podem dizer: "O nosso amor acabou, não há mais nada entre nós, dormimos em quartos diferentes, mas vamos continuar juntos, por causa dos filhos, do Sacramento, dos efeitos civis do casamento e, ainda, por causa da opinião pública". Eu sei que isso, com frequência, torna a vida um absurdo, um inferno, mas o casal continua junto. Em alguns casos, aquele "um só fio" pelo qual o casamento sobreviveu, torna-se a chance de recomeço.
 
Imagino, então, um casal homoafetivo que confirmou a sua união perante a sociedade, no cartório e tem, para provar isso, um papel timbrado, carimbado e assinado. Será que, na hora de uma grave crise de relacionamento, a lei terá algum efeito educativo para o próprio casal? Ou um dos maridos, uma das esposas, dirá: "Isso não significa mais nada para mim! Até, porque significa quase nada, aos olhos da sociedade".
 
Clecius Borges (psicólogo, psicoterapeuta e escritor), em seu livro "Muito além do arco-íris" aborda este assunto (especificamente relacionado aos homens gays; seria interessante conhecer melhor, também, a mesma questão do ponto de vista de mulheres homossexuais):
 
Muitos homens gays, de diferentes idades e estratos sociais, se queixam da dificuldade de manter um relacionamento amoroso sério por um período maior do que alguns meses. (...) A maioria se contenta em apontar os outros, e o "mundo gay" de forma geral, como responsáveis pelo seu infortúnio. (...) Suas falas costumam ser recheadas de afirmações como: "Relacionamentos gays não duram mesmo", ou "Gays só pensam em sexo". Assim justificam seu fracasso, aplacam sua frustração e, sobretudo, se eximem de questionar os verdadeiros motivos pelos quais não conseguem, ou não desejam de fato, estabelecer um relacionamento profundo com outro homem gay.
 
Embora a dificuldade de amar seja relativamente comum entre homens em geral, ela aparece de forma mais intensa e frequente no universo dos homens gays. Isso se dá por uma série de fatores, direta ou indiretamente associados ao que chamamos em geral de homofobia. A homofobia de que falamos aqui é o conjunto de representações simbólicas negativas e degradantes da homossexualidade, em suas diversas manifestações, assim como ações concretas de opressão, discriminação e opressão social a que são submetidos os homossexuais ao longo da vida.
 
Em consequência desse processo contínuo e sistemático de opressão social, homens gays crescem sem espelhos que reflitam positivamente sua qualidade de amor e, portanto, não têm a possibilidade de se imaginar num relacionamento conjugal que lhes ofereça o continente afetivo pelo qual sua alma anseia. Estimulados e, de modo perverso, induzidos pela sociedade a viver uma vida marginalizada, muitas vezes associam sua inclinação homoerótica a uma sexualidade desvinculada, ou seja, sem os vínculos que conduzem à intimidade amorosa. (p. 18-20)
 
É isso... Só me resta desejar, rezar e torcer, para que as recentes conquistas legais tenham, realmente, o efeito educativo, tanto para a sociedade, quanto (ou, ainda mais!) para os próprios casais.

16 de setembro de 2013

A prova de fogo


Escrevi recentemente sobre a hetronormatividade como algo que, infelizmente, ainda existe e, muito provavelmente, tem uma vida longa pela frente. A minha tese é que, apesar de todos os seus defeitos, esse fenômeno pode contribuir para o bem das pessoas que não sejam heterossexuais. Evidentemente, é necessário retirar tudo que naquele sistema filosófico-social tenha qualquer cheiro de preconceito. Porém, como se trata de relacionamento amoroso entre dois seres humanos, independentemente de sua orientação sexual, podemos encontrar nas experiências de casais heterossexuais muita coisa útil e aproveitá-la para nossa vivência homossexual. Como uma verdadeira "prova de fogo", gostaria de convidar a todos a uma sessão cinematográfica. Este, também, é o título do filme: "A prova de fogo".
 
Provavelmente seja necessário deixar aqui uma advertência: o filme é evangélico, dura quase duas horas e aborda o tema de relacionamento conjugal, evidentemente, heterossexual. A pergunta que fiz a mim mesmo e quero fazer aos eventuais leitores/espectadores, é: o que posso aprender com a experiência de um casal, formado por um homem e uma mulher e ainda buscando os argumentos na Bíblia e na fé? Bem... eu acho que, neste caso, posso aprender muito. E digo mais: lamento não ter conhecido este filme (e o livro "O Desafio de Amar" que é uma referência para o roteiro) na época em que vivi cada um dos meus relacionamentos. Creio muito que eles (ou, pelo menos um deles) pudesse ter uma história diferente e hoje eu não estaria sozinho... Mas, tenho a esperança de que, um dia, poderei colocar em prática algumas orientações práticas do filme (e do livro). Só falta um candidato que queira experimentar isso comigo...  
 
 
Agora vem o que interessa. Imagino que não vou conseguir convencer ninguém de ler o texto somente depois de assistir o filme, embora fosse melhor, na minha modesta opinião. Enfim, tanto faz, pode continuar a leitura...

O principal destinatário deste material (o filme + o livro) é alguém que enfrenta problemas de relacionamento, principalmente conjugal, mas, igualmente, pode servir aos namorados e, até, aquele solteiro que queira realizar uma espécie de simulação para se preparar ao futuro convívio com alguém especial. O meu propósito é provar que as orientações, elaboradas originalmente com a finalidade de ajudar os casais heterossexuais, podem se aplicar muito bem nos relacionamentos homossexuais, requerendo apenas pouquíssimas adaptações.

O livro de Stephen & Alex Kendrick com Lawrence Kibrought, "O desafio de amar" (BV Films Editora Ltda, Niterói - RJ, 2009) traz a seguinte apresentação:

O desafio de amar é um desafio de 40 dias para maridos e esposas que desejam entender e praticar o amor incondicional. Independentemente de como está o seu casamento, ameaçado ou saudável, O desafio de amar é uma estrada que precisa ser seguida. É hora de descobrir os segredos de um casamento cheio de vida e da verdadeira intimidade. Aceite o desafio! "Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba". (1 Coríntios 13:7-8). OUSE AMAR  

A realização deste desafio de amar fica muito melhor com o livro que, além de uma tarefa para cada dia, traz uma fundamentação bíblica e a motivação detalhada para cada passo (e ainda tem espaço para as anotações). Encontrei o livro nas seguintes livrarias: Saraiva, Submarino, gospelgoods. Pode ser encontrado, também, em forma de arquivo pdf para baixar, p. ex.: aqui.

Para quem não tiver vontade de ler o livro, transcrevo aqui as tarefas para 40 dias que podem ser modificadas, de acordo com a situação em que cada um está vivendo. Evidentemente, a realização mais completa, só é possível no caso de um casal que mora junto, mas - com adaptações que se fizerem necessárias - as tarefas podem ser cumpridas, também, pelos namorados. A dinâmica do desafio prevê a ação, digamos, unilateral e um tanto secreta (para preservar o elemento surpresa). Quer dizer: um segue o desafio e surpreende o outro. Aconselha-se, também, o uso de anotações (um caderno ou, quem sabe, um blog...).

Vamos lá...

1° dia [O Amor é paciente] :  Decida demonstrar paciência e de modo algum diga algo negativo para o seu cônjuge (namorado). Se a tentação surgir, não diga nada. É melhor segurar a língua do que dizer algo de que possa se arrepender depois. (Leituras bíblicas: Ef 4, 2; 1Tes 5, 15; Tg 1, 19; Pr 14, 29; 15, 18)

2° dia [O Amor é bondoso]: Além de, mais uma vez, não dizer palavras negativas ao seu cônjuge (namorado) hoje, demonstre bondade com, no mínimo, um gesto inesperado. (Leituras bíblicas: Ef 4, 32; Lc 10, 30-35; Pr 31, 26)

3° dia [O Amor não é egoísta]: Aquilo em que você colocar seu tempo, energia e dinheiro, será mais importante para você. É difícil se importar com algo em que você não está investindo. Além de evitar comentários negativos, compre para o seu cônjuge (namorado) alguma coisa que diga: "eu estava pensando em você hoje". (Leituras bíblicas: Rm 12, 1; 1Cor 13, 5; Flp 2, 3; Tg 3, 16)

4° dia [O Amor é atencioso]: Faça contato com o seu cônjuge (namorado) em algum momento durante a agitação do dia. Não faça outra coisa senão perguntar como ele está e se tem algo que você pode fazer por ele. (Leituras bíblicas: Gn 2, 18; Flp 1, 3)

5° dia [O Amor não maltrata]: Peça ao seu cônjuge (namorado) para lhe dizer três coisas sobre você que o deixam desconfortável e irritado. Faça isso sem atacá-lo e sem justificar seu comportamento. Preocupe-se apenas com a perspectiva dele. (Leituras bíblicas: Lc 6, 31; Pr 25, 24)

6° dia [O Amor não se irrita facilmente]: Escolha hoje para reagir de maneira amorosa, apesar das circunstâncias do seu casamento (namoro, relacionamento). Comece fazendo uma lista das áreas em que você precisa separar um tempo para respirar. Então, faça uma lista das motivações negativas e abra mão delas. (Leituras bíblicas: Mt 12, 34; Col 3, 12-14; Flp 4, 6-7; Tg 4, 1-3; Ef 4, 31)

7° dia [O Amor acredita sempre no melhor]: Para o desafio de hoje, pegue duas folhas de papel. Na primeira, passe alguns minutos escrevendo coisas positivas a respeito do seu cônjuge (namorado). Depois, na segunda folha, faça o mesmo com as coisas negativas. Coloque as duas folhas em um lugar secreto para o próximo dia. Existe um propósito e um plano diferente para cada uma dessas listas. Em algum ponto durante o resto do dia, escolha um atributo positivo e agradeça ao seu cônjuge (namorado) por ter essa característica. (Leituras bíblicas: 1Cor 13, 7; Flp 4, 8)

8° dia [O Amor não arde em ciúmes]: Decida ser o maior fã do seu cônjuge (namorado), e decida rejeitar qualquer pensamento invejoso. Para ajudá-lo a manter o coração em seu cônjuge (namorado) e a focar nas conquistas dele, pegue a lista de atributos negativos que você fez ontem e, discretamente, queime-a. Depois, compartilhe com seu cônjuge (namorado) o quanto você está feliz com o sucesso que ele conquistou recentemente. (Leituras bíblicas: Rm 12, 15; Tg 3, 16. 4, 1-2; Ct 8, 6; Pr 27, 4)

9° dia [O Amor deixa boas impressões]: Pense em uma maneira especial de cumprimentar o seu cônjuge (namorado) hoje. Faça isso com um sorriso e com entusiasmo. Então, decida mudar a maneira como o cumprimenta de modo que reflita o seu amor por ele. (Leituras bíblicas: 1Pd 5, 14; Fm 7)

10° dia [O Amor é incondicional]: Faça algo fora do normal para o seu cônjuge (namorado) - algo que prove (para você e para ele) que o seu amor é baseado em suas escolhas e em nada mais. Lave o carro dele. Limpe a cozinha. Compre a sobremesa favorita dele. Dobre as roupas lavadas. Demonstre amor pela simples alegria de serem parceiros no casamento (namoro). (Leituras bíblicas: Rm 5, 8; 1Jo 30, 10. 4, 19)

11° dia [O Amor cuida]: Quais as necessidades do seu marido (namorado) podem ser supridas por você hoje? Você pode adiar uma viagem de negócios? Fazer uma massagem nas costas ou no pé dele? Tem algum trabalho doméstico onde possa ajudar? Escolha um gesto hoje, diga, "eu cuido de você" e faça isso com um sorriso. (Leitura bíblica: Mc 10, 51)

12° dia [O Amor deixa o outro vencer]: Demonstre amor através da disposição, escolhendo ceder em uma área de desacordo entre você e seu cônjuge (namorado). Diga a ele que você está colocando a preferência dele em primeiro lugar. (Leituras bíblicas: Rm 12, 18; Flp 2, 4-5; Tg 3, 17)

13° dia [O Amor é justo]: Converse com o seu cônjuge (namorado) e estabeleça regras saudáveis de conflito. Se ele não estiver pronto para isso, então escreva os seus limites pessoais para a "briga". Decida colocá-los em prática quando o próximo desentendimento ocorrer. (Leituras bíblicas: Mt 7, 3; Mc 3, 25; Rm 12, 16)

14° dia [O Amor sente prazer]: Propositadamente, negligencie uma atividade que normalmente faria. Para gastar um tempo de qualidade com o seu cônjuge (namorado). Faça algo que ele amaria fazer, ou um projeto que ele gostaria muito de realizar. Apenas estejam juntos. (Leituras bíblicas: Ct 2, 3-4; Pr 23, 26)

15° dia [O Amor é nobre]: Escolha uma maneira de demonstrar honra e respeito ao seu cônjuge (namorado) que vá além da sua rotina. Pode ser abrir a porta para ele. Pode ser separar as roupas que ele irá vestir. Pode ser a forma como você ouve e fala com ele. Mostre ao seu cônjuge (namorado) que ele é altamente honrado aos seus olhos. (Leituras bíblicas: Rm 12, 10; 13, 7)

16° dia [O Amor intercede]: Comece hoje orando pelo coração do seu cônjuge (namorado). Ore por três áreas específicas da vida dele onde você deseja que Deus trabalhe. Ore por seu casamento (namoro, relacionamento). (Leituras bíblicas: Mt 7, 7; Lc 18, 1; Flp 4, 6-7; Tg 5, 16; 3Jo 2)

17° dia [O Amor traz intimidade]: Decida guardar os segredos do seu cônjuge (namorado), (a menos que seja perigoso para ele ou para você) e orar por ele. Fale com ele e demonstre amor, apesar desses segredos. Ouça-o quando ele compartilha com você seus pensamentos mais secretos e suas lutas. Faça com que ele se sinta seguro. (Leituras bíblicas: Gn 2, 25; Pr 17, 9; Ct 6, 3; 1Jo 4, 18)

18° dia [O Amor busca entender]: Prepare um jantar especial em casa só para vocês dois. O jantar pode ser tão agradável quanto você preferir. Separe este momento para conhecer seu cônjuge (namorado) melhor, talvez em áreas que vocês raramente conversam. Decida fazer desta uma noite agradável para você e para o seu amor. (Leituras bíblicas: Pr 3, 13; 4, 7; 24, 3-4)

19° dia [É impossível Amar?]: Olhe os desafios dos dias anteriores. Existe algum que parecia impossível para você? Você percebeu que precisa de Deus para mudar seu coração e lhe dar capacidade para amar? Peça a Ele para mostrar onde você precisa da intervenção Dele, e peça força e graça para cumprir o seu destino eterno. (Leituras bíblicas: Mt 19, 26; 1Jo 4, 7)

20° dia [Jesus Cristo é amor]: Desafio você a conhecer a Deus pela palavra. Desafio você a crer em Jesus como seu Salvador. Desafio você a orar: "Senhor Jesus, sou pecador, mas o Senhor mostrou o seu amor por mim morrendo para perdoar os meus pecados e o Senhor provou o seu poder de me salvar da morte através da ressurreição. Senhor, mude o meu coração, e salve-me pela sua graça." (Leituras bíblicas: Rm 5, 7-8; 2Cor 6, 2; Ef 2, 8-9; 1Jo 4, 8)

21° dia [O Amor é saciado em Deus]: Separe hoje um tempo para orar e ler a Bíblia. Tente ler um capítulo de Provérbios (são trinta e um - um suprimento para o mês todo), ou um capítulo do Evangelho (Mt, Mc, Lc, Jo) a cada dia. Enquanto você faz isso, mergulhe no amor e nas promessas que Deus tem para você. Isso lhe proporcionará crescimento na sua caminhada com Ele. (Leituras bíblicas: Jo 4, 10; Flp 4, 6-7. 19; Is 58, 11)

22° dia [O Amor é fiel]: Amar é uma escolha. Não um sentimento. É uma ação inicial não uma ação automática. Hoje, escolha estar comprometido a amar, mesmo que seu cônjuge (namorado) tenha perdido o interesse em receber o seu amor. Diga a ele hoje, com palavras semelhantes a essas, "eu amo você e ponto final. Eu escolho amar você mesmo se você não me amar em troca". (Leitura bíblica: Lc 6, 32-33)

23°dia [O Amor sempre protege]: Remova qualquer coisa que esteja atrapalhando seu relacionamento, qualquer vício ou influência que esteja se infiltrando em seu amor e afastando seu coração do seu cônjuge (namorado). (Leituras bíblicas: Mt 24, 43; 1Cor 13, 7)

24° dia [Amor  x  cobiça]: Acabe com a cobiça agora. Identifique todo objeto dela em sua vida e remova-o. Rejeite todas as mentiras em que você acreditava ter prazer. A cobiça não pode terá permissão de ficar por perto. Ela deve ser destruída e exterminada - hoje - e substituída pelas promessas de Deus e por um coração cheio do seu perfeito amor. (Leituras bíblicas: Mt 6, 25-34; 1Tm 6, 7)

25° dia [O Amor perdoa]: Seja o que for que você ainda não perdoou em seu cônjuge (namorado), perdoe hoje. Esqueça. Assim como pedimos a Deus para "perdoar as nossas ofensas" a cada dia, devemos pedir a Deus para ajudar-nos a "perdoar a quem nos tem ofendido" a cada dia também. A falta de perdão tem mantido você e seu cônjuge (namorado) na prisão por muito tempo. Diga de coração, "eu escolhi perdoar". (Leitura bíblica: Mt 18, 21-35)

26° dia [O Amor é responsável]: Separe um tempo para orar pelas áreas onde você tem errado. Peça o perdão de Deus, então, humilhe-se a ponto de admiti-los ao seu cônjuge (namorado). Faça isso sinceramente e verdadeiramente. Peça perdão a seu cônjuge (namorado) também. Não importa como ele irá responder, certifique-se de ter assumido sua responsabilidade em amor. Mesmo se ele responder com uma crítica, aceite-a como um conselho. (Leituras bíblicas: Rm 2, 1; 1Jo 1, 8-9)

27° dia [O Amor encoraja]: Elimine do seu lar (do seu namoro, do seu convívio) o veneno das expectativas erradas. Pense em uma área onde seu cônjuge (namorado) tenha dito que você está esperando muito, e diga a ele que você está arrependido por ter exigido muito dele. Prometa que você procurará entendê-lo, e o assegure de seu amor incondicional. (Leituras bíblicas: 1Tes 5, 11; Hbr 10, 24)

28° dia [O Amor se sacrifica]: Qual é a maior necessidade do seu cônjuge (namorado) nesse momento? Existe alguma necessidade que você pode suprir hoje através de um ato corajoso de sacrifício da sua parte? Independente da necessidade ser grande ou pequena. Proponha-se a fazer o que você puder para suprir essa necessidade. (Leituras bíblicas: Mt 25, 35-36; Gl 6, 2; 1Jo 3, 16)

29° dia [A motivação do Amor]: Antes de ver seu cônjuge (namorado) hoje, ore por ele e por suas necessidades. Diga "eu te amo", sendo fácil para você ou não. Então expresse amor de maneira sensível. Volte-se a Deus em oração mais uma vez, agradecendo a Ele por ter lhe dado o privilégio de amar essa pessoa tão especial - incondicionalmente. Assim como Ele ama vocês dois. (Leituras bíblicas: Jo 15, 12-17; Cl 3, 23)

30° dia [O Amor traz unidade]: Separe uma área que causa divisão em seu casamento (namoro, relacionamento) e olhe para ela hoje como uma oportunidade de orar. Peça a Deus para revelar o que há no seu ração que está ameaçando sua unidade com seu cônjuge (namorado). Ore para que Deus faça o mesmo com ele. E se for apropriado, discuta abertamente esse problema, buscando em Deus a unidade. (Leituras bíblicas: Gn 1, 26; Jo 17, 11)

31° dia [O Amor e o casamento]: Existe algum "rompimento" (com a família ou os amigos) que você ainda não teve coragem de realizar? Confesse-o ao seu cônjuge (namorado) hoje, e decida agir corretamente. A unidade do seu casamento (namoro, relacionamento) depende disso. Siga a unidade com o compromisso com seu cônjuge (namorado) e com Deus de fazer do seu casamento (namoro) o relacionamento humano mais importante da sua vida. (Leitura bíblica: Lc 9, 57-62)

32° dia [O Amor satisfaz as necessidades sexuais]: Se possível, relacione-se sexualmente com o seu marido (namorado) hoje. Faça isso de maneira que honre o que seu cônjuge (namorado) lhe disse (ou deixou implícito) a respeito das necessidades dele em relação à sexualidade. Peça a Deus para que esse momento seja agradável para os dois e para que também seja um caminho para uma intimidade cada vez maior. (Leitura bíblica: Ct 5, 10-16). Observação: No caso de namorados que ainda não tiveram a experiência de intimidade sexual, a tarefa deste dia não deve ser compreendida como obrigatória, no sentido literal. Pode ser substituída pelas atitudes de carinho e de intimidade, dentro dos atuais padrões de relacionamento.

33° dia [O Amor completa um ao outro]: Faça-o saber hoje que você deseja incluí-lo em suas próximas decisões, e que você precisa do seu conselho e ponto de vista. Se você ignorou as ideias dele no passado, admita seu descuido e peça-o para perdoá-lo. (Leituras bíblicas: Cl 3, 14-15; Ecl 4, 9-11)

34° dia [O Amor celebra a Deus]: Encontre um exemplo específico e recente de quando seu cônjuge (namorado) demonstrou o caráter cristão de forma notável. Elogie-o verbalmente por isto em algum momento do dia. (Leitura bíblica: 2Ts 1, 3-4)

35° dia [O Amor presta contas]: Busque um conselheiro para casais - alguém que seja um cristão firme e que será honesto e amoroso (e isento de homofobia). Se você sente que o aconselhamento é necessário, então dê o primeiro passo para marcar o primeiro encontro. Durante esse processo, peça a Deus para direcionar suas decisões e discernimento. (Leitura bíblica: Lc 3, 10-14)

36° dia [O Amor é a palavra de Deus]: Tenha o compromisso de ler a Bíblia todos os dias. Encontre um livro devocional ou outra fonte que lhe servirá como guia. Se seu cônjuge (namorado) está aberto a isto, veja se ele se comprometerá a ler a Bíblia diariamente (ou frequentemente) com você. Inicie submetendo cada área da sua vida à direção da palavra de Deus e comece a construir a sua vida e seu casamento (namoro, relacionamento) na rocha. (Leituras bíblicas: Rm 15, 4; 2Tm 3, 14)

37° dia [O Amor concorda em Oração]: Pergunte ao seu cônjuge (namorado) se vocês podem começar a orar juntos. Conversem sobre a melhor hora para fazer isso, seja pela manha na hora do almoço ou antes de dormir. Utilize este tempo para colocar suas preocupações, discórdias e necessidades diante do Senhor. Não esqueça de agradecê-lo pela provisão e pelas bênçãos. Mesmo se o seu cônjuge (namorado) se recusara fazer isso, decida ter esse tempo de oração diariamente, ainda que sozinho. (Leituras bíblicas: Lc 11, 5-13; Mt 18, 19-20)

38° dia [O Amor realiza sonhos]: Pergunte a si mesmo o que o seu cônjuge (namorado) iria querer, se fosse possível de obter. Leve isso em oração e comece a mapear um plano para atender a alguns (se não todos) desses desejos, em todos os níveis possíveis. (Leituras bíblicas: Rm 5, 8; 2Cor 9, 8)

39° dia [O Amor permanece]: Passe um tempo orando individualmente, então escreva uma carta de comprometimento ao seu cônjuge (namorado). Inclua a razão pela qual está se comprometendo com este casamento até a morte (ou namoro, relacionamento) e que decidiu amá-lo, não importam as razões. Deixe-a em um lugar onde o seu cônjuge (namorado) possa encontrá-la. (Leituras bíblicas: 1Cor 13, 8; 1Jo 3, 16.18)

40° dia [O Amor é uma aliança]: Escreva novas promessas assim como você fez no dia do seu casamento (compromisso, início de namoro). Guarde-as em algum lugar da sua casa. Talvez, se for apropriado (e possível), você possa renovar essas promessas formalmente diante de um ministro e com a família presente. Faça dessas promessas um testamento vivo do valor do casamento (namoro) aos olhos de Deus e da grande honra de ser um com seu cônjuge (namorado). (Leituras bíblicas: Jo 15, 9; 1Sm 18, 1-4)

Parabéns! Você chegou ao final de O Desafio de Amar - o livro. Mas a experiência e o desafio de amar o seu cônjuge (namorado) é algo que não tem que ter um fim. Continua para o resto da sua vida. Este livro termina no 40° dia, mas quem disse que o seu desafio terminou? E, à medida que você vê o seu casamento (namoro, relacionamento) por essa perspectiva, nós desafiamos você a considerá-lo como uma aliança e não como um contrato. Essas duas palavras são parecidas em significado e intenção, mas, na realidade, são bastante diferentes. Ver o casamento como um contrato é como dizer ao seu cônjuge: "Eu tomo você para mim e vamos ver se dá certo". Porém, vê-lo como uma aliança muda a fala para: "Eu me entrego a você e me comprometo com este casamento por toda a minha vida".