ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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26 de janeiro de 2011

Reflexões sobre a "Carta" [2]

Depois de uma pequena pausa, estou retornando à leitura da "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais". O documento foi assinado pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Ratzinger (hoje o Papa Bento XVI), em 01 de outubro de 1986. Como todos os textos deste tipo, a "Carta" possui, também, uma observação final: "O Sumo Pontífice João Paulo II, no decurso da Audiência concedida ao Prefeito abaixo-assinado, aprovou e ordenou a publicação da presente Carta, decidida em reunião ordinária desta Congregação." O texto completo encontra-se aqui e a minha primeira reflexão, aqui. Francamente falando, logo depois daquela primeira postagem, fiquei bastante desanimado, mas como fui eu mesmo quem abraçou o desafio, vai aqui a segunda reflexão...
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Pessoalmente, acho louvável a própria iniciativa da Igreja de se ocupar com as pessoas homossexuais. É claro que a questão seguinte é: como fazer isso. Confesso que li a "Carta" diversas vezes e não encontrei uma resposta clara. O que sobressai (para mim, de uma maneira bastante irritante) é a cautela, para não dizer o medo. É uma preocupação impregnada ao longo do texto inteiro. Como se a Igreja falasse aos bispos e padres que, por acaso, quisessem se aventurar em tal atividade: "Tudo bem, vocês tem a nossa autorização, mas saibam que, certamente, vão se queimar! Por isso, pensem bem, antes de começar esse negócio!". Outra coisa (voltando agora à sequência da leitura) é a referência à ciência: Naturalmente, não se pretende elaborar neste texto um tratado exaustivo sobre um problema tão complexo. Prefere-se concentrar a atenção no contexto específico da perspectiva moral católica. Esta encontra apoio também nos resultados seguros das ciências humanas, as quais, também, possuem objeto e método que lhes são próprios e gozam de legítima autonomia. (n.2) Em seguida, acrescenta-se: a Igreja está em condições não somente de poder aprender das descobertas científicas, mas também de transcender-lhes o horizonte; ela tem a certeza de que a sua visão mais completa respeita a complexa realidade da pessoa humana que, nas suas dimensões espiritual e corpórea, foi criada por Deus e, por sua graça, é chamada a ser herdeira da vida eterna. (idem) Foi sobre isso que escrevi, anteriormente, algumas coisas e, também, argumentei numa conversa com o blogueiro Maicon (veja aqui, especialmente: os comentários). Eu acredito na importância da ciência nesta questão toda, pois é dela que surgem argumentos para o diálogo. Entretanto, o texto da "Carta", mesmo tendo dito sobre o "fenômeno do homossexualismo" (a expressão que pode sugerir um "olhar científico), surpreende depois com a seguinte afirmação: Alguns afirmam que a tendência homossexual, em certos casos, não é fruto de uma opção deliberada e que a pessoa homossexual não tem outra alternativa, sendo obrigada a se comportar de modo homossexual. Por conseguinte, afirma-se que, em tais casos, ela agiria sem culpa, não sendo realmente livre. A minha reação imediata para tal opinião não pode ser citada aqui literalmente, pois lembra bastante os gritos de torcedores numa partida de futebol. Será que é assim que a Igreja "transcende o horizonte da ciência", quer dizer, ignora totalmente as conclusões de suas pesquisas sérias e multidisciplinares? O termo "certos casos" induz à compreensão que seriam poucos estes casos. Onde está o resto desses casos, ou seja, aqueles que se tornaram "deliberadamente" gays e lésbicas? Que tipo de ser humano escolhe o que sentir? Quem é capaz de escolher a vida marcada pela constante discriminação e perseguição, privando-se de uma "felicidade normal" (abençoada pela Igreja-instituição), com o casamento, família e filhos, além de toda garantia de sucesso social e profissional? São, exatamente, estas frazes que põem em dúvida o documento inteiro, embora contenha certo incentivo à criação da Pastoral específica para homossexuais. Já escrevi, na reflexão anterior, que algum alívio em relação a contradições deste documento, é a evolução de pensamento da Igreja como tal. Ainda que esta evolução seja terrivelmente lenta, pelo menos a esperança não morre, por assim dizer. Para provar isso, cito algumas frases do Catecismo da Igreja Católica (de 1992): A homossexualidade se reveste de formas muito variáveis ao longo dos séculos e das culturas. Sua gênese psíquisa continua amplamente inexplicada. (...) Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. (CIC, 2357 e 2358). É muito interessante que, desta vez, não se fala de uma "opção". Talvez a lógica, finalmente, tenha funcionado...

21 de janeiro de 2011

riqueza da diversidade

Autor da imagem: Boguslaw Orlinski
Fonte: http://www.ilustratorzy.art.pl/bog-ilu.html

Recorro novamente a um texto que, aparentemente, não tem muito a ver com o assunto ao qual dedico este blog: a homossexualidade. Acredito, porém, que varias "vozes" que comentam alguns temas, digamos, existenciais, são como pedrinhas coloridas que, juntadas pouco a pouco, formam finalmente um mosaico, uma imagem clara e bonita. Pois bem, encontrei hoje, no portal da Agência Zenit ("O mundo visto de Roma"), uma entrevista que o rabino-chefe da comunidade judaica de Roma, Riccardo Di Segni deu ao programa Cristandade, de Rai Internazionale. O assunto principal é, obviamente, a relação entre judeus e cristãos, mas o entrevistado faz uma afirmação que achei importante, igualmente, para as convicções que defendo aqui. Espero que a citação das palavras do rabino, no contexto de homossexualidade (ou diversidade sexual), não seja vista como uma interpretação forçada ou tendenciosa. Penso que ouvir e acolher estas "pedrinhas" (ou pérolas), mesmo no panorama de pensamento geral, pode ajudar a formar uma renovada mentalidade no mundo (ou, pelo menos, em algumas cabeças). Leia o trecho da entrevista em questão (e o texto inteiro aqui):

Di Segni: Conhecer as diferenças é essencial para compreender que a humanidade não detém quem tem o rosto como o meu; devemos assumir que essas diferenças existem, e então aprender a viver juntos.
Rai Internazionale: A diversidade é um perigo ou uma riqueza?
Di Segni: A diferença deve ser uma riqueza.

20 de janeiro de 2011

Meu agradecimento

Para cada pessoa que tenha escrito e publicado algo (pois não escreve apenas "para guardar numa gaveta"), a maior satisfação é ver os seus textos lidos. Quero agradecer aqui ao Autor do blog "Moradas de Deus" (veja aqui). Faço, ao mesmo tempo, a minha entusiasmada recomendação deste blog para todos que estão interessados numa criativa reflexão sobre a homossexualidade sob a luz da fé cristã (católica). As "Moradas de Deus" trazem sempre novidades, conhecimentos, inspirações. Vale a pena conhecer e acompanhar. Os leitores do Brasil podem se sentir inicialmente um pouco incomodados com a versão do "português de Portugal" (exatamente como os portugueses com o "português do Brasil"), mas isso passa logo. O que importa e impressiona é o conteúdo. Parabéns pelo trabalho!

São Sebastião

Não surpreende, evidentemente, a escolha deste santo como padroeiro dos homossexuais. Basta olhar à maioria das expressões artísticas que o retratam. Há quem diga, também, que Sebastião, jovem oficial romano, teria um relacionamento com o próprio imperador e, depois de conhecer Jesus (Evangelho, cristianismo), optou por renunciar tal pecado, tendo sido isso o verdadeiro motivo de perseguição e morte cruel, sofrida por ele. Misturam-se aqui, sem dúvida, elementos da história, da tradição e da lenda. Os gays da Bahia elaboraram, em 2000, um manifesto, no qual proclamam solenemente São Sebastião o seu protetor e patrono. Seja qual for a história real deste santo, podemos chegar a uma conclusão clara e segura. Se acreditamos que Deus nos ama (no seu amor misericordioso e misterioso) e, ainda, acreditamos (com a Igreja) na comunhão dos santos, temos certeza de que nenhum daqueles que já alcançaram a glória da eternidade seja capaz de ter sentimento diferente daquele que está vivo no coração de Deus. E se Ele encarregou estes seus santos a serem nossos protetores e guias, não há nada de errado em venerar São Sebastião como padroeiro. Existem, aliás, outros santos que a “comunidade católica gay” reconhece, também, como intercessores e a sua história como exemplo: São Sérgio com São Baco (mártires do século IV) e Santa Perpétua com Santa Felicidade (senhora e escrava que morreram juntas na prisão romana, no século III). Sérgio e Baco integravam o exército do imperador romano Maximiano (286-305). Era um casal gay respeitado pela própria Igreja, segundo o polêmico e premiado livro "Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade", publicado em 1980 por John Boswell (1947-1994), historiador da Universidade de Yale (EUA). Defensores da Igreja acusaram Boswell de forçar a barra em seus estudos sobre os arquivos históricos da Igreja. O livro era visto como panfletário, ou seja, interessava à militância homossexual forjar santos gays. Quem apoiou o historiador dizia que a igreja adulterou os arquivos antigos para esconder registros sobre a homossexualidade dos dois. O fato é que São Sérgio e São Baco viraram ícones do movimento gay, inspirando artistas. Suas imagens servem à defesa da união civil entre pessoas do mesmo sexo, cujas cerimônias são seladas com a leitura da oração dos dois santos. Eles têm até um dia: 7 de outubro.
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LEITURA ADICIONAL
PROCLAMAÇÃO DE SÃO SEBASTIÃO PATRONO DOS GAYS
E A IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO DOS BENEDITINOS DA BAHIA,
SANTUÁRIO HOMOSSEXUAL DO BRASIL 20/1/2000

NÓS, GAYS, LÉSBICAS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS presentes aqui, na Igreja de São Sebastião do Mosteiro dos Beneditinos de Salvador, proclamamos hoje, 20 de janeiro de 2000, esta Igreja como o Santuário Homossexual do Brasil, e São Sebastião, padroeiro e patrono dos gays, lésbicas, travestis e transexuais do Brasil.
Seguindo uma tradição do povo gay que perdura desde primeiro milênio da Era Cristã, e que fez de São Sebastião o principal ícone e modelo da homossexualidade, proclamamos solenemente, neste primeiro aniversário de São Sebastião no terceiro milênio, nossa fé de que nosso santo padroeiro vai nos dar força para vencermos os inimigos e o mal que ainda ameaçam nossa vida e a felicidade, e que a partir deste novo milênio, a comunidade homossexual do Brasil passará a ser respeitada com os mesmos direitos dos demais cidadãos. Pedimos a São Sebastião que seja nosso advogado para a obtenção de três graças especiais:
1] O fim da violência anti-homossexual: as mesmas dores que o mártir São Sebastião sentiu ao ter seu corpo vazado pelas flechas, estas mesmas dores continuam a machucar ainda hoje os homossexuais: a cada três dias um gay, travesti ou lésbica é barbaramente assassinado, vítima da homofobia, mais de 170 homicídios cometidos somente em 1999;
2] Que a Igreja Católica e todas as religiões peçam perdão aos homossexuais pela perseguição, fogueira, inquisição e intolerância como ainda hoje tratam os homossexuais; que aceitem e abençoem o amor homossexual pois "onde há amor, Deus aí está"; que instaurem pastoral específica para os homossexuais, pois também somos filhos de Deus e Templos do Espírito Santo;
3] Que São Sebastião, tradicional patrono contra a peste, inspire os cientistas e pesquisadores a encontrar rapidamente a cura da AIDS, afastando para sempre o fantasma desta epidemia de nossa comunidade, ajudando aos soropositivos e doentes de AIDS a vencer a dor e a ter vida longa e saudável.
Ao consagrar esta igreja como Santuário Homossexual do Brasil, conclamamos a todos os gays, lésbicas e travestis do Brasil e do Mundo que não deixem morrer esta semente de esperança que hoje aqui plantamos, e que nos próximos anos venham celebrar nosso orgulho e esperança aos pés de nosso patrono, o glorioso São Sebastião, padroeiro dos homossexuais.

19 de janeiro de 2011

Casamento e adoção

O site da agência Zenit publicou uma entrevista com Ingrid Tapia, advogada, especialista em direito constitucional e direitos humanos, professora decana de direito romano no Instituto Tecnológico Autônomo do México (leia aqui na íntegra). O assunto: casamento de pessoas do mesmo sexo e adoção de crianças pelos mesmos casais. Achei, ao menos, o tom das declarações um tanto suave embora, em alguns pontos, sarcástico. Ingrid parece até defender os homossexuais, reconhecendo o mal da discriminação, mas não deixa de sustentar alguns argumentos equivocados. Por exemplo: Todas as pessoas de um país devem ser reconhecidas pelo Estado, todos nós devemos fazer um esforço por incluir e não discriminar as pessoas por sua preferência sexual ou crença religiosa. Estar comprometidos com a não-discriminação não significa que as leis das maiorias devem ser criadas segundo o capricho das minorias. Pergunto: por que, de repente, os direitos passam a ser considerados "caprichos"? Qual é fundamento para isso? Só porque são manifestados pela minoria? Outro exemplo: ZENIT: O que dizer com relação às adoções por parte de homossexuais? Ingrid Tapia: Isso é o cúmulo. Na França, Inglaterra e em 46 estados da União Americana, a adoção homoparental é proibida. O que a corte fez é um ultraje; as crianças são concebidas como objetos de satisfação, e não como sujeitos. Pergunto: qual é o fundamento para afirmar tal coisa? Os casais hetrossexuais procuram ter filhos e sentem uma grande satisfação quando isso acontece. Mas a satisfação (ou a felicidade) de ser pai ou mãe não impede que eles reconheçam os filhos como "sujeitos". Por outro lado, há muito mais exemplos de abandono ou agressão em relação às crianças nas famílias basadas no casamento heterossexual (os pais imaturos entediados com o brinquedo chamado filho) e não somente pelo fato de serem estes casais uma evidente maioria. De fato, um casal homossexual que precisa enfrentar inúmeros obstáculos até conseguir realizar o seu desejo de ter filho(s), dá muito mais valor à presença de uma criança em sua casa. Não quero dizer que isso seja algo fácil ou que sempre dá certo. Mas, sem dúvida, há aqui muito mais amor e muito menos rotina, do que em grande parte de famílias dos casais hetrossexuais. Em outro momento da entrevista, Ingrid Tapia diz: A criança em adoção seria destinatária de desprezo devido às decisões de seus pais. Com outras palavras: há muita homofobia na nossa sociedade. O que, então, é certo? Reconhecer o preconceito como algo normal e, por isso, evitar (ou impedir) a adoção dos filhos pelos casais homossexuais? Ou investir numa educação da mesma sociedade, libertando-a da homofobia? O primeiro parece mais fácil. Mas o que está mais correto? Enfim, a polêmica continua e não tem previsão de um final feliz próximo...

18 de janeiro de 2011

unidade & diversidade

Em Roma e em várias partes do mundo celebra-se nestes dias a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18-15 de janeiro). No Brasil (e, talvez, em todo o hemisfério sul) esta semana é realizada na época de Pentecostes. Isso já é um belo exemplo de "unidade". Mas não é sobre isso que hoje quero falar. Trago um trecho de meditação e uma oração que acompanhará o 2° dia desta Semana de oração. O texto faz parte dos materiais distribuídos pela Comissão Fé e Constituição, do Conselho Ecumênico das Igrejas e pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos (leia pela Agência Zenit). A base do texto foi redigida por uma equipe de representantes ecumênicos de Jerusalém. Como sempre, proponho uma leitura "existencial", no contexto dos ideais e das lutas que estão sendo sustentadas pelos homossexuais, dentro de sua identidade cristã.
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A Igreja de Jerusalém nos Atos dos Apóstolos é o modelo da unidade que buscamos hoje. Como tal, ela nos lembra que a oração pela unidade dos cristãos não pode ser um pedido de uniformidade, porque a unidade desde o começo foi caracterizada por uma rica diversidade. A Igreja de Jerusalém é o modelo ou ícone da unidade na diversidade. (...) Antigas tradições nos ensinam que a diversidade e a unidade existem na Jerusalém celeste. Elas nos relembram que diferença e diversidade não são o mesmo que divisão e desunião, e que a unidade cristã pela qual oramos sempre preserva a autêntica diversidade.
Oração
Deus, de quem flui toda a vida em sua diversidade, chamas tua Igreja, como corpo de Cristo, a estar unida no amor. Possamos nós aprender mais profundamente nossa unidade na diversidade, e buscar trabalhar juntos na pregação e na construção do teu Reino de amor abundante para todos, enquanto nos acompanhamos uns aos outros em cada lugar, em todos os lugares. Que tenhamos sempre em mente Cristo, como fonte de nossa vida em comum. Oramos na unidade do Espírito. Amém.

17 de janeiro de 2011

Reflexões sobre a "Carta" [1]

Mencionei recentemente a "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais" (o texto deste documento está no site do Vaticano: aqui). Vou completar os dados sobre ela: dirigida aos bispos da Igreja Católica e assinada pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI) e por um secretário, no dia 01 de outubro de 1986. Acho útil lembrar logo a data para facilitar a nossa percepção de uma eventual evolução do pensamento da Igreja. Por exemplo, a redação do Catecismo da Igreja Católica foi concluída em 1992 e, já nestes poucos anos, podemos notar algumas diferenças na definição da homossexualidade (sobre isso vou falar em outra ocasião). Tive a ideia de analisar aqui a "Carta" toda (aos poucos), mas não sei se tenho paciência suficiente para isso. Mas, vamos lá. Naquela vez citei uma pequena parte, transcrita do final deste documento, só para mostrar a recomendação da Igreja para promover uma pastoral específica, voltada aos homossexuais. Hoje vou começar a mostrar o quanto a própria Igreja ainda precisa superar, dentro do seu próprio ponto de vista, para que tal pastoral possa existir de fato e trazer algum benefício (tanto para os homossexuais quanto para a Igreja).
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O problema do homossexualismo e do juízo ético acerca dos atos homossexuais tornou-se cada vez mais objeto de debate público, mesmo em ambientes católicos. ("Carta", n° 1) Ainda bem que se tornou cada vez mais objeto de debate público. É, sem dúvida, o mérito e a conquista de vários homossexuais e pessoas simpatizantes, organizados ou não, numa campanha pela visibilidade que, por sua vez, é a reação mais que justificada, diante de toda a intolerância, muitas vezes manifestada de forma violenta. Há, também, contribuição da ciência e da mídia. O final da primeira frase desta Carta parece expressar um espanto, parecido com aquele de Cristóvão Colombo, na hora de descobrir a América. Como se a Igreja esperasse um silêncio por parte dos seus próprios membros acerca de uma realidade que toca, em massa, os mesmos católicos. Se a Igreja fala sobre políticos, trabalhadores, migrantes, cientistas, alcoólatras, aidéticos, cegos, jovens, crianças e idosos, homens e mulheres, negros e brancos (etc., etc.), é porque, em primeiro lugar reconhece, em seu próprio meio, a presença e o valor dessas pessoas. Jesus falou sobre a importância de “reconhecer os sinais dos tempos” e, ainda que muito lentamente, a Igreja sempre procurou manter o olhar atento ao mundo e a todos os fenômenos que nele ocorrem. Portanto a expressão “mesmo em ambientes católicos”, co contexto do crescente debate sobre “o homossexualismo”, de um lado não surpreende tanto, por retratar a postura costumeira da Igreja enquanto instituição, mas por outro cria, logo no início, uma sensação desanimadora diante de todo o documento. Imagine uma notícia semelhante: "Nesta tarde caiu a chuva na nossa cidade. Várias pessoas ficaram molhadas, mesmo as católicas". Enquanto muitos documentos da Igreja começam de uma maneira animadora (por exemplo "Gaudium et spes" do Concílio Vaticano II), esta Carta nem um pouco. Outro problema é chamar o “homossexualismo” de “problema”. Digamos que desencoraja também. Se alguém falasse do “problema” da cor de pele ou do "problema" do judaísmo, teria – sim! - um grande problema. Pois bem, é só o início da carta. Teremos mais "pepinos" pela frente...

16 de janeiro de 2011

A Igreja recomenda

A ideia de uma Pastoral, estruturada para acolher e atender os homossexuais, não é minha. A própria Igreja, através de alguns documentos, recomenda este trabalho. A Congregação para a Doutrina da Fé, chefiada por vários anos pelo atual Papa Bento XVI (então Cardeal Joseph Ratzinger), enviou a todos os bispos da Igreja Católica a "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"(leia aqui o texto completo). Apesar de apresentar várias opiniões discutíveis (até mesmo do ponto de vista da ciência), o documento traz um incentivo (não sei se posso chamá-lo de uma ordem) aos bispos: Esta Congregação encoraja, pois, os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. (...) Um programa pastoral autêntico ajudará as pessoas homossexuais em todos os níveis da sua vida espiritual, mediante os sacramentos e, particularmente, a frequente e sincera confissão sacramental, como também através da oração, do testemunho, do aconselhamento e da atenção individual. Desta forma, a comunidade cristã na sua totalidade pode chegar a reconhecer sua vocação de assistir estes seus irmãos e irmãs, evitando-lhes tanto a desilusão como o isolamento. Desta abordagem diversificada podem advir muitas vantagens, entre as quais não menos importante é a constatação de que uma pessoa homossexual, como, de resto, qualquer ser humano, tem uma profunda exigência de ser ajudada contemporaneamente em vários níveis. Evidentemente, os trechos acima, parecem bastante animadores e, realmente, vale a pena aproveitá-los para dar o primeiro passo. O resto do texto é, digamos, extremamente cauteloso (para não dizer contraditório), mas isso também podemos compreender. O próprio assunto continua ainda assustando os líderes da Igreja, assim como a maioria do povo. Precisamos de tempo, de perseverança e de uma corajosa clareza na hora apresentar ao povo tal projeto. Lembro-me, neste momento, das primeiras iniciativas em implantar as casas de acolhimento para portadores do vírus HIV (anos 80). Houve muitos protestos, não raro bastante violentos, promovidos pelos habitantes naquelas localidades. Muitas casas, simplesmente, não tiveram chance alguma para começar a sua missão. E tudo isso devido uma tremanda falta de conhecimento básico da coisa. Assim como, naquela época (e às vezes até hoje), as pessoas acreditavam que o vírus "se pega" respirando com o mesmo ar, do mesmo jeito muitos acham que os gays, só pela sua presença, irão "perverter os normais", especialmente as crianças e os jovens, mas também alguns piedosos e honestos pais e mães de família. Outra "ideia genial" diz que a moda, promovida pelo poderoso lobby gay, faz com que "a praga entra até na Igreja, como se não bastasse a invasão na mídia e o escândalo das paradas de orgulho gay". Resumindo: temos argumento nas mãos (a recomendação do Vaticano), mas também um árduo e longo trabalho pela frente. Vamos? Alguém se arrisca?

14 de janeiro de 2011

Pastoral para Homossexuais

Continuo a reflexão inspirada na passagem do Evangelho de hoje (Mc 2, 1-12), iniciada nesta madrugada (leia aqui ou desca um pouco no blog). Talvez por ter sido a madrugada, escrevi que esta passagem bíblica "é a imagem, ou melhor, a "Carta Magna" (a constituição) de uma verdadeira Pastoral para Homossexuais". Não retiro as minhas palavras, embora sejam, talvez, enfáticas demais. Acrescento logo: esse não é o único texto do Evangelho que me leva a compreender melhor, ou idealizar, uma Pastoral voltada aos Homossexuais: a necessidade de sua existência, a estrutura e a metodologia. Em outras ocasiões proponho-me desenvolver esta reflexão. Volto, por ora, à cena com o paralítico, trazido pelos quatro amigos, até Jesus. Uma coisa me impressiona devido à diferença em relação a tantos outros casos de cura realizada por Jesus. Com frequência o Senhor revela a fé daquela pessoa curada como - digamos - um "veículo" da graça acontecida. Ou, então, como a condição necessária para tal cura. Mais ainda: como que "saíndo de cena", Jesus aponta a fé como a própria causa do milagre. Vejamos alguns exemplos. O centurião romano que pedia a cura para seu servo amado (em breve uma reflexão especial sobre este caso), ouviu as palavras do Senhor admirado: "Nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé" (Lc 7, 9) e "seja-te feito conforme a tua fé" (Mt 8, 13). À mulher que sofria de hemorragia disse: "Tua fé te salvou" (Mt 9, 22; Mc 5, 34; Lc 8, 48). O mesmo declarou ao cego Bartimeu (Mc 10, 52; Lc 18, 42) e na versão de Mateus (9, 29) a dois cegos: "Seja-vos feito segundo vossa fé". Temos ainda a cananéia que pedia a libertação do demônio para sua filha (Mt 15,29): "Ó mulher, grande é a tua fé! Seja-te feito como desejas", a pecadora perdoada (Lc 7, 50), o único dos dez leprosos curados que voltou para agradecer (Lc 17, 19). Sempre: "Tua fé te salvou!" Tua fé. No milagre com o paralítico em questão acontece algo diferente. Diz o Evangelista que os quatro homens abriram o teto, bem em cima do lugar onde ele estava e, pelo buraco, desceram a maca em que o paralítico estava deitado. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Filho, os teus pecados são perdoados” e depois: "eu te digo: levanta-te, pega a tua maca, e vai para casa!" (Mc 2, 4-5 e 11), ou seja, a fé dos amigos contribuiu para a cura daquele homem. Aqui está a essência de todo e qualquer projeto ou trabalho pastoral. Inclusive da Pastoral para Homossexuais. Como falei na postagem anterior, longe de mim identificar a homossexualidade com a paralisia. Mas existe, sim (e entre os homossexuais numa dimensão bem preocupante) a paralisia espiritual que se manifesta em várias formas: o afastamento da Igreja, o abandono da oração e da Bíblia, a sensação de exclusão ou excomunhão e, não raro, uma postura de desprezo, em relação a tudo que está ligado à Igreja, ao cristianismo e à religião em geral. A consequência mais grave e dolorosa é o afastamento do próprio Deus. A perda da fé. O papel da Pastoral, portanto, é levar aquela pessoa (que tem suas razões para tal jeito de ser) até Jesus. Fazer com que aconteça este encontro pessoal com o Salvador. Ele tem o poder de perdoar os pecados (quem de nós não precisa disso?) e de dizer: "Levanta-te e vai para casa" (vai e leva a tua vida, sê feliz, íntegro, realizado). É um caminho, sem dúvida, longo, acidentado, desafiador, mas único. E necessário. É um caminho "pelo amor de Deus". E aos irmãos.

A fé - um projeto ousado

Nesta sexta-feira da I semana do tempo comum lemos o Evangelho segundo São Marcos (Mc 2, 1-12): Reuniu-se uma tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto à porta. E ele os instruía. Trouxeram-lhe um paralítico, carregado por quatro homens. Como não pudessem apresentar-lho por causa da multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Jesus se achava e, por uma abertura, desceram o leito em que jazia o paralítico. Sabemos o que aconteceu depois, mas já esta descrição inicial merece muita atenção. Pessoalmente, vejo nestes poucos versículos, uma inspiração para uma autêntica e vitoriosa Pastoral para Homossexuais. Vou explicando passo a passo. Primeiro: cinco homens, um deles paralítico, carregado pelos quatro demais. Impossível não notar uma incrível e profunda sintonia entre eles. Uma meta bem definida: encontrar Jesus. E não é uma pretensão, uma fantasia ou uma conquista qualquer. É uma necessidade. E, também, uma expressão concreta e corajosa da fé. Com outras palavras: estes homens são "os necessitados de Jesus". Não me detenho - de propósito - sobre o mal específico do qual sofria aquele homem, só para não criar uma falsa associação de homossexualidade com a paralisia. Não é este o meu objetivo. Insisto em dizer que os homossexuais têm pleno direito de serem pessoas religiosas e terem o seu espaço na Igreja. Voltando ao texto do Evangelho: os quatro homens abraçam o desafio e não desanimam com as dificuldades que, desde o início, não são poucas nem pequenas. Já o próprio peso, carregado não se sabe por quanto tempo e que tipo de caminhos, exigia força, equilíbrio, delicadeza e perseverança. Eles não estavam levando um saco de batatas e tinham plena consciência disso. E, exatamente como acontece na vida, quando já estavam perto da meta, surgiu de surpresa um obstáculo novo e maior de todos. Este momento é muito importante para perceber todo o sentido da mensagem. Diz Marcos que os quatro homens não conseguiram apresentar o paralítico a Jesus por causa da multidão. Que multidão é essa? São os ouvintes de Jesus, seus seguidores, discípulos. Mas que multidão é essa que impede - também hoje - os necessitados chegarem perto de Jesus? São os ouvintes dele, seguidores, discípulos. Os cristãos. Agora percebemos que para uma "equipe de necessitados" que realmente deseja encontrar Jesus, um "muro" feito de seguidores de Jesus, ou um "muro" da instituição chamada Igreja, é mais difícil a ser escalado do que o muro daquela casa. Aqueles quatro homens, entretanto, mostram uma determinação extraordinária que só pode nascer no coração cheio de amor. O amor que não desiste e que descobre, ou inventa, soluções. Para mim, esta é a imagem, ou melhor, a "Carta Magna" (a constituição) de uma verdadeira Pastoral para Homossexuais. Aquela barreira humana (intransponível, como dizem, "em nome de Jesus") vai existir sempre. Mas, enquanto existir este amor corajoso, criativo, delicado e inteligente, no coração dos cristãos que não abandonam a sua fé só por serem homossexuais, será possível o maravilhoso encontro com Jesus que acolhe e apoia, atende e compreende, porque ama. É por isso que acredito nesta ideia de uma Pastoral específica para nós. Ela pode funcionar em pequenos grupos - como este do Evangelho - desde que tenha o mesmo objetivo (de encontrar Jesus) e a mesma união. E tudo isso inspirado e alimentado pelo amor ao Senhor e aos irmãos.

13 de janeiro de 2011

Jesus e o leproso

O Evangelho lido hoje (Mc 1,40-45) conta sobre um leproso [que] chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: “Se queres, tens o poder de curar-me”. Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele, e disse: “Eu quero: fica curado!” No mesmo instante, a lepra desapareceu, e ele ficou curado. Como sempre, além de relatar fatos concretos, o Evangelho traz uma mensagem. A lepra (conhecida também como hanseníase, morfeia, mal de Hansen, mal de Lázaro), até hoje assusta, ainda que - graças ao avanço da medicina - não seja mais considerada como uma doença incurável e fatal (aquela que leva, inevitavelmente, à morte). Nos tempos de Jesus, entretanto, além de ser realmente incurável, a lepra trazia também a marca de maldição (castigo pelos pecados) e, especialmente na mentalidade dos judeus, a "impureza" física refletia o estado espiritual da pessoa afetada. De acordo com as normas da lei religiosa, o leproso era obrigado a permanecer nos lugares afastados da população "normal" e, caso precisasse passar por uma via pública, tinha que fazer barulho e gritar: "Impuro! Impuro!". A simbologia do leproso é, portanto, muito clara: é o maldito, o excluído. Neste contexto, a leitura do texto revela, em primeiro lugar, a fé (e a coragem como sua expressão concreta) daquele homem que "chegou perto de Jesus". Interessante, também, é a descrição, um tanto imprecisa, feita por Marcos. O Evangelista diz que o homem "pediu", mas o que realmente temos aqui, é uma firme profissão de fé, uma impressionante certeza: "Se queres, tens o poder de curar-me". Jesus reage imediatamente. Lembramos que cada gesto, cada atitude de Cristo é, também, um ensinamento. Depois de curar o leproso, Jesus faz dois pedidos (ou dá duas ordens) a ele: Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles! (Mc 1, 44) A primeira questão, talvez, esteja associada ao cuidado de Jesus de evitar o sensacionalismo exagerado e a distorção de sua identidade pela multidão entusiasmada, ou seja, para que a sua missão não fosse reduzida a de um "curandeiro" (lembramos a reação de Jesus depois da multiplicação dos pães: ele se escondeu do povo que queria proclamá-lo rei. Confira Jo 6,15). O segundo pedido, feito ao "ex-leproso", certamente ia ajudá-lo no retorno à sociedade, através do reconhecimento de sua cura pelas autoridades.
Pois bem. Para minha "leitura existencial" (de um homossexual e católico), a mensagem de hoje fica muito clara e consoladora. Jesus veio para nos curar, para reconhecer e fazer reconhecida a nossa dignidade, para nos dar, de novo, o lugar no meio da sociedade, para abolir todas as exclusões. E quando Ele diz "Eu quero, fica curado", não se refere apenas a um toque de sua mão, mas a todo o sacrifício que realizou de si próprio na cruz, para nos dar a salvação. Ele se fez um excluído, condenado, amaldiçoado (um "leproso"!), só para oferecer a todos a inclusão, a aceitação, a bênção e uma vida digna, livre e plena. São Marcos conclui o seu relato: Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava fora, em lugares desertos. (Mc 1, 45) Como se Jesus trocasse de lugar com o leproso...

Santo Hilário

Hoje, na liturgia, comemora-se Santo Hilário, Bispo e Doutor da Igreja. Nascido por volta do ano 300 na cidade Pictavium, então no Império Romano, hoje Poitiers (cidade localizada no centro-oeste da França). Hilário é famoso pela luta contra a heresia dos arianos (a ponto de ser chamado o "Martelo dos Arianos"). Falecido em 368, deixou várias obras (tratados teológicos, cartas, etc.), além de alguns discípulos, entre os quais destaca-se São Martinho, posteriormente bispo de Tours.
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Escrevo sobre Santo Hilário, neste blog dedicado a reflexões sobre a homossexualidade (no contexto de uma espiritualidade católica), por mais um motivo. Não, não tenho indícios de que ele tenha sido gay. Muito pelo contrário. A tradição (apoiada pela documentação) afirma: Tão grande era o respeito que lhe tinham os habitantes de Pictavium que, por volta de 353 d.C., ainda um homem casado, ele foi aclamado bispo da cidade (o conceito de celibato clerical estava apenas começando a emergir no ocidente). Há informações, também, sobre a sua filha, Santa Abra. Entretanto, é o seu nome que merece um pouco de atenção. De acordo com vários dicionários, a palavra "hilário", um adjetivo proveniente do latim, significa: alegre, jovial contente, e tem como sinônimos: engraçado, divertido, empolgante, diferente, legal, espantoso. Vejamos agora uma outra palavra: "gay". Conquanto a cultura contemporânea em geral tenha herdado o termo diretamente do inglês (gay = "alegre, jovial"), o inglês assimilou-o do francês arcaico (gui, com o mesmo significado) e este obteve-o do latim tardio (gaiu, com semelhante significado). A palavra originariamente não tinha conotação sexual necessária. Era usada para designar uma pessoa espontânea, alegre, entusiástica, feliz. O termo gay, já marcado pela conotação sexual, ao ser difundido pelos países lusófonos, era utilizado principalmente de forma pejorativa contra homens gays. Contudo, a utilização da palavra pelos próprios homossexuais, a se referirem a si mesmos, fez com que a conotação negativa fosse amenizada. Em outras palavras, os homossexuais apropriaram-se da palavra, na busca de retirar-lhe, assim, a carga insultuosa. (informações colhidas no site Wikipedia). Resumindo: percebemos facilmente que as palavras "gay" e "hilário", têm praticamente o mesmo significado. Por que, então, não cultivar uma devoção particular a este Santo. A minha oração poderia começar assim: "Ó grande Santo Hilário! Tu foste chamado de engraçado ou alegre, devido o seu nome e eu, por motivos de minha sexualidade, sou chamado, também assim. Mesmo que, no fundo, o significado deste nome ou apelido, possa ter conotações muito diferentes e, às vezes, ofensivas, peço-te a proteção e intercessão. Durante a tua vida enfrentaste muita oposição e foste perseguido, mas não desanimaste na busca e defesa da verdade. Espero obter de Deus, pela tua intercessão, um pouco de alegria e jovialidade e muita perseverança na mesma busca e defesa da verdade e da dignidade de cada ser humano. Amém!".
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OBSERVAÇÂO: Em breve pretendo falar sobre outros santos, reconhecidos como intercessores ou padroeiros de homossexuais (São Sérgio e São Baco, Santas Perpétua e Felicidade, São Sebastião e outros).

12 de janeiro de 2011

entre arte e pornografia

Recomendo uma excelente matéria no site obvious - "Caminhos cruzados: a arte, a nudez e a pornografia", de Rejane Borges. O site inteiro, aliás, merece ser conhecido e visitado. Para despertar um pouco de curiosidade, transcrevo um pequeno trecho do texto: O corpo humano causa fascínio e é exaltado como algo naturalmente belo. Como instinto, a nudez sempre foi e será o meio pelo qual o homem busca uma conexão com o seu próprio ser e com a criação. (...) Desde os primórdios dos tempos a nudez pertence à arte, estando presente nos ateliês de artistas clássicos e contemporâneos, assim como está presente em todas as outras vertentes artísticas. O corpo humano é visto como uma obra de arte. E como tal é contemplado. Afinal, é uma notável composição de músculos, uma máquina que reage e funciona à base de emoções. Que sangra, que expressa. Que causa prazer para quem sente e vê, de uma desconcertante (im)perfeição.

curiosidades de um discurso

Tenho muito respeito pelo Papa Bento XVI. Recentemente li, em algum lugar, uma opinião de alguém, dizendo que "enquanto as multidões iam para VER João Paulo II, agora vão para OUVIR Bento XVI". É, sem dúvida, um pensador e tanto. Mas não vou exagerar em elogios. Há coisas que despertam meus questionamentos. Por exemplo, o discurso do Papa ao Corpo Diplomático acreditado junto ao Vaticano, no último dia 10 de janeiro (leia aqui na íntegra). O tema principal: a violação do direito de liberdade religiosa em várias partes do mundo, especialmente no Oriente Médio. Uma frase do Papa chamou minha atenção e - como de costume - logo traduzi esta afirmação para a realidade abordada especificamente neste blog. O (eventual) Leitor pode ver que não estou "puxando a sardinha para o meu lado". A frase é seguinte: O peso particular de uma determinada religião numa nação não deveria jamais implicar que os cidadãos pertencentes a outra confissão fossem discriminados na vida social ou, pior ainda, que se tolerasse a violência contra eles. É evidente que o Papa, sendo um lider religioso, vai abordar, exatamente, esta (religiosa) dimensão da vida humana. Parece, no entanto, que trata-se de uma lei universal: a minoria não deve ser perseguida pela maioria, aliás, ninguém deve ser perseguido por ninguém. Repito, então, a mesma frase, com a minha interpretação: O peso particular de uma determinada orientação sexual numa nação (sociedade) não deveria jamais implicar que os cidadãos pertencentes a outra orientação fossem discriminados na vida social ou, pior ainda, que se tolerasse a violência conta eles. Parece simples e lógico. Mais uma vez, na metade de uma leitura, sinto-me animado e começo imaginar "coisas" (por exemplo que, em breve, o Papa vai condenar a homofobia). E, mais uma vez, na continuação da mesma leitura, as minhas esperanças desaparecem. Basta ler isso: Continuando a minha reflexão, não posso passar sem referir outra ameaça à liberdade religiosa das famílias em alguns países europeus, onde é imposta a participação em cursos de educação sexual ou cívica que propagam concepções da pessoa e da vida pretensamente neutras mas que, na realidade, refletem uma antropologia contrária à fé e à reta razão. (...) Menos justificáveis ainda são as tentativas de contrapor ao direito da liberdade religiosa pretensos novos direitos, promovidos ativamente por certos setores da sociedade e inseridos nas legislações nacionais ou nas diretrizes internacionais, mas que, na realidade, são apenas a expressão de desejos egoístas e não encontram o seu fundamento na natureza humana autêntica.

Certamente não preciso explicar do que o Papa está falando...

Jesus é o Senhor

As leituras desta primeira semana do tempo comum trazem uma espécie de "resumo" ou "roteiro" de toda a missão de Jesus. Hoje, na primeira leitura, lemos: Visto que os filhos têm em comum a carne e o sangue, também Jesus participou da mesma condição, para assim destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo (...) [Hb 2,14]. E continua: Por isso devia fazer-se em tudo semelhante aos irmãos, para se tornar um sumo sacerdote misericordioso e digno de confiança nas coisas referentes a Deus, a fim de expiar os pecados do povo. [Hb 2, 17] Volta aqui, mais uma vez, aquela afirmação de João Paulo II (citada neste blog várias vezes) sobre "Jesus que se uniu, de certo modo, a cada homem" (veja aqui). Entretanto, tal expressão, não anula o fato de que Jesus é o Senhor, ou seja, é Ele que tem a autoridade suprema, os seus próprios planos, muitas vezes tão diferentes dos nossos e, frequentemente - digamos - maiores do que toda a capacidade de nossa inteligência humana. Fala sobre isso o Evangelho lido também hoje: Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”. Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. [Mc 1, 36-37]. Ou seja: "Simão, você não vai me dizer o que, como e quando devo fazer. Eu sou o Senhor, eu sou o Sumo Sacerdote misericordioso, mesmo que você não consiga enxergar. Eu tenho a minha lógica e a minha dinâmica". Com outras palavras: todas as tentativas de impor a Jesus coisas que Ele, na nossa opinião, deveria fazer ou atribuir-lhe estas ou aquelas características são, simplesmente, sinais de nossa falta de humildade. Ele é o Senhor. Portanto, as questões, por exemplo, de "curar as pessoas de homossexualismo" que vários "cristãos" levantam, não são bem assim como paracem. Primeiro: Jesus cura, sim, também hoje, se, quando e como Ele mesmo quiser, desde que aquilo que atormenta alguém seja uma doença (física, espiritual, emocional, etc.) e não é o caso de homossexualidade. Segundo: Ele pode transformar água em vinho, morto em vivo e, também, um homossexual em heterossexual, pois para Ele nada é impossível. Agora, cabe a Jesus, porque Ele é o Senhor, fazê-lo (ou não), no momento e da maneira que Ele bem entender. Por isso, todas as aspirações daqueles que se autodenominam "seguidores de Jesus", de impor, exigir ou mandar, não passam de imaturidade, ignorância, arrogância, soberba, preconceito e falta de fé. Jesus, e somente Ele, é o Senhor.

11 de janeiro de 2011

Homossexuais e Eucaristia (2)

Na postagem anterior sobre este assunto (aqui) citei a opinião do então Cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI). Mais precisamente, o texto refere-se à situação dos "casais de segunda união" (casados na igreja, depois divorciados e casados novamente, sem o Sacramento do Matrimônio). Temos, portanto, uma analogia entre esses casais e as pessos homossexuais que vivem, também, numa união não reconhecida pela Igreja como legal (legítima). Um ponto de vista bastante diferente sobre a relação entre "tais pessoas" e a Eucaristia, apresenta o padre jesuíta Matthew Linn, no livro escrito em conjunto com o seu irmão Dennis e a cunhada Sheila Fabricant Linn ("Abuso espiritual & vício religioso"; Editora Verus, Campinas-SP, 2000; p. 76-77 e 136). Estes três autores formam uma equipe de pregadores de retiros e escritores (outros livros deles: "Cura dos oito estágios da vida" e "Não perdoe cedo demais", da mesma editora) - sempre no contexto (com aprovação, supõe-se) da Igreja Católica. Embora o texto não fale (de novo), literalmente, sobre os homossexuais, podemos facilmente e sem exagero algum, inclui-los na lista de "casos" mencionados. Resta agora apenas uma reflexão pessoal de cada homossexual que se identifica (apesar de todas as dificuldades) com a Igreja Católica.
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[Padre Matthew Linn, jesuíta]: Durante anos segui ao pé da letra a lei que recebessem a comunhão somente aqueles que reconhecessem a autoridade do papa, não fossem divorciados e não estivessem em pecado mortal. Eu negava comunhão a uma parte do corpo místico de Cristo, embora afirmasse durante a comunhão que me tornava um com o corpo de Cristo. Ignorei o fato de Jesus ter dado comunhão a Judas e de nós chegarmos como pessoas feridas, rezando: “Dizei uma só palavra e serei salvo.” Hoje acredito que a Eucaristia é um sacramento de salvação para ser recebido em resposta ao amor de Deus, não como medalha de honra ao mérito do amor de Deus conseguido através de boas ações. O rebelde em mim quer deixar de lado a letra da lei e agir de acordo com uma lei de amor mais elevada (cf. Mt 22, 34-40). Mas a criança responsável e obediente em mim tem medo de desconsiderar a lei. Sou tentado a obedecer por medo e acho difícil pôr de lado a lei e, com amor, convidar todos para a comunhão. Obedeço por medo, porque não quero arriscar ser censurado pelos bispos e outras autoridades da Igreja. Como é que posso então amar com minha energia rebelde e ainda manter satisfeita minha criança obediente e responsável? Nos nossos retiros, quando me perguntam sobre a comunhão, cito duas regras, dizendo: “Temos uma regra que não permite que eu publicamente convide a todos para receber a comunhão. Temos outra regra (eu sorrio) que me diz para não recusar comunhão a ninguém que venha recebê-la. Faça o que você acredita que Jesus quer que você faça.” Aposto que você pode adivinhar o que acontece. Rezo pelo dia em que essas regras farisaicas acabem sendo postas de lado. Até lá, isso é o melhor que posso fazer, porque ainda sou uma criança responsável em processo de cura, assim como é o resto da Igreja. (p. 76-77)
Através dos séculos, quando os cristãos recebem a Eucaristia, as palavras permanecem as mesmas: “O Corpo de Cristo”, às quais a pessoa que comunga responde: “Amém”. Santo Agostinho lembrou às pessoas que comungam que “amém” quer dizer: “Sim, eu sou”. Ao dizer “amém”, o comungante faz a afirmação mais radical possível para um cristão, ou seja: “Sim, eu sou o corpo de Cristo”. Até o nome “cristão”, que vem de alter Christus (outro Cristo), declara: “Sim, eu sou o corpo de Cristo”. Durante os primeiros séculos da Igreja, todos os cristãos, e não somente os padres, eram considerados e reconhecidos como aqueles cuja identidade mais profunda era aquela do alter Christus. Porque nossa mais profunda identidade é Cristo (cf. Gal 2, 20), nossa resposta à lei canônica, à autoridade da Igreja ou a qualquer situação da vida reflete nosso verdadeiro eu, até o ponto de podermos dizer (...): “Eu fiz o que Jesus teria feito!” (p. 136)
(Matthew* Linn, Sheila Fabricant Linn, Dennis Linn; “Abuso espiritual & vício religioso”; Editora Verus, Campinas, SP, 2000) * Matthew é sacerdote jesuíta.

Homossexuais e Eucaristia (1)

Provavelmente a maioria dos homossexuais católicos vive um grave conflito interior em relação à Eucaristia. Muitos, simplesmente, abandonaram a Missa e a Comunhão, desde o momento em que assumiram (ainda que apenas perante si mesmos) a sua identidade homossexual. Outros tiveram experiências traumáticas ao procurarem a Confissão ou aconselhamento junto a um sacerdote. Alguns (talvez graças a uma sensibilidade de sua consciência) recorrem ao Sacramento da Reconciliação, desde que não estejam vivendo num relacionamento "estável", mas procuram a absolvição (e o acesso à Eucaristia) depois de cada "pecado contra castidade". Acredito que, devido à dolorosa ausência de formação espiritual específica, voltada diretamente aos homossexuais (Pastoral para Homossexuais!), existe grande confusão neste assunto. Quem não abandonou definitivamente a Igreja, procura "improvisar". Ou, então, encontra algum meio para "casar" a sua fé com a própria sexualidade. Como não encontrei ainda o texto que fale exatamente sobre esta questão, resolvi recorrer às opiniões mais "genéricas" que podem ser interpretadas, também, no contexto da homossexualidade. Nesta primeira parte da reflexão "Homossexuais e Eucaristia", trago o ponto de vista do Cardeal Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI). No livro-entrevista com Peter Seewald, "O sal da terra" (Editora Imago; Rio de Janeiro, 1997, p. 163-165), então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fala sobre os "casais de segunda união" (aqueles que vivem uma vida conjugal sem o Sacramento do Matrimônio, por terem sido casados anteriormente com outras pessoas) e a sua relação com a Comunhão Eucarística. Faço esta citação por considerar bastante próxima a analogia destes casais (heterossexuais, mas não sacramentais) com o relacionamento homoafetivo. Digo logo que a opinião do atual Papa não é muito animadora. Na próxima postagem prometo apresentar um outro ponto de vista...
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[Cardeal Joseph Ratzinger sobre as pessoas que vivem num casamento civil não reconhecido pela Igreja]:
Neste caso, devo precisar primeiro, num sentido jurídico, que essas pessoas não estão excomungadas num sentido formal. A excomunhão é um conjunto de medidas punitivas da Igreja, é uma limitação de se ser membro da Igreja. Essa punição da Igreja não lhes foi imposta. Mesmo que, por assim dizer, o que salta logo à vista, o fato de não poderem comungar, se aplique a eles. Mas, como disse, não estão excomungados num sentido jurídico. São membros da Igreja que não podem comungar por causa de determinada situação na vida. Não há nenhuma dúvida de que isso seja um grande peso, precisamente no nosso mundo, em que o número de casamentos desfeitos aumenta cada vez mais. Julgo que esse peso pode ser suportado quando, por um lado, se torna claro que também existem outras pessoas que não podem comungar. O problema só se tornou tão dramático porque a comunhão é, por assim dizer, um rito social, e uma pessoa é realmente marcada quando não participa. Quando se voltar a tornar visível que muitas pessoas têm de dizer a si mesmas que têm alguma coisa na consciência, e que assim não podem ir à comunhão, e quando, como diz São Paulo, desse modo se voltar a fazer a distinção do Corpo de Cristo, logo tudo será diferente. É uma condição. O segundo ponto é que devem sentir que, apesar disso, são aceitas pela Igreja, que a Igreja sofre com elas. [Peter Seewald: "Parece uma ilusão".] Naturalmente, isso deveria poder tornar-se visível na vida de uma comunidade. E, pelo contrário, também se faz alguma coisa pela Igreja e pela humanidade ao tomar essa renúncia sobre si, ao dar, por assim dizer, testemunho do caráter único do casamento. Julgo que disso também faz parte algo que é muito importante: que se reconheça que o sofrimento e a renúncia podem ser algo positivo, e que temos de voltar a encontrar uma nova relação com eles. E, por fim, que voltemos a tomar consciência de que também se pode participar da missa, da Eucaristia, de modo fecundo, sem ir sempre à comunhão. É uma questão difícil, mas julgo que, quando diversos fatores que estão relacionados uns com os outros se resolverem, também isso será mais fácil de suportar. [Peter Seewald: "O padre pronuncia as palavras: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”. Por conseguinte, os outros deveriam sentir-se infelizes.] Infelizmente, a tradução tornou o sentido da frase pouco claro. Essa expressão não se relaciona diretamente com a Eucaristia. É tirada do Apocalipse e refere-se ao convite para o banquete nupcial definitivo, representado na Eucaristia. Quem, portanto, não pode comungar no momento, não tem de estar excluído do banquete nupcial eterno. Trata-se sempre de um exame de consciência, de que se pense ser algum dia capaz desse banquete eterno, e que agora também se comungue. Mesmo quem agora não possa comungar, é admoestado através desse apelo, como também todos os outros, a pensar no seu caminho, que um dia será aceito nesse banquete nupcial eterno. E talvez, porque sofreu, possa ter ainda melhor aceitação. (p. 163-165)
(Cardeal Joseph Ratzinger&Peter Seewald; “O sal da terra”; Editora Imago; Rio de Janeiro, 1997)

10 de janeiro de 2011

Batismo de Jesus

Duas frases chamam minha atenção na leitura do Evangelho neste Domingo, em que a Igreja, encerrando as festividades natalinas, celebra o Batismo do Senhor. Primeira é a reação de João Batista. O Evangelista diz que ele protestou (leia Mt 3, 14) . Protestou, porque não conseguia entender o motivo da presença de Jesus, naquele momento e naquele lugar. João pregava a conversão, chamava os pecadores à penitência e único que não se encaixava nesse apelo e nessa multidão era, exatamente, Jesus. Como se João falasse: "O que é que você está fazendo aqui? Este não é o seu lugar!" O protesto é um dos efeitos princiais da falta de compreensão. Existem coisas que ultrapassam a capacidade da nossa inteligência. E uma das formas mais frequentes de protesto é a rejeição. Mais uma vez voltamos à definição da homofobia. É um protesto, uma rejeição (muitas vezes violenta!) de algo e de alguém que um ser humano (um grupo, uma sociedade) não é capaz de compreender e, portanto, de aceitar, acolher ou, mesmo, tolerar.

A segunda frase é de Jesus. Se entrarmos no sentido exato e profundo daquilo que Jesus disse, vamos ficar espantados: "Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!". Parece nada demais, mas é Deus (que assumiu, em Jesus, a natureza humana, sem deixar ou diminuir a divina) quem diz a um ser humano: "nós devemos". Deus se rebaixa a ponto de tratar o homem como parceiro. E não um parceiro qualquer, mas um "filho muito amado". Mesmo que não tenhamos escutado literalmente, mas foi isso que o Pai do céu disse, no momento em que se realizava o nosso Batismo. É bom lembrarmos disso sempre. Por mais que nos sintamos rejeitados, desprezados e insignificantes, Deus diz: tu és o meu filho(-a) muito amodo(-a).

8 de janeiro de 2011

Homossexuais e defuntos

O que têm em comum os homossexuais e os defuntos, além do fato de que cada um dos seres humanos (hetero-, homo-, bi-, trans- e metrossexual), em algum momento, vai morrer e será, de fato, um defunto? Uma leitura atenta da legislação da Igreja (chamada também “Direito Canônico”) pode nos levar a conclusões interessantes. Os católicos mais velhos ainda se lembram de situações constrangedores e duplamente tristes de uma postura intransigente dos padres em relação ao sepultamento dos suicidas, bem como em questão de cremação do corpo (às vezes determinada previamente, no testamento, pelo próprio falecido). Não bastava a tristeza dos familiares causada pela perda de um ente querido, o ponto de vista da Igreja, enquanto instituição, agravava ainda mais o desespero deles. Vieram, então, as reformas promovidas pelo Concílio Vaticano II. Terminado em 1965, o Concílio foi sendo colocado em prática aos poucos. Entre os mais diversos assuntos, tinha sido revisto o ponto de vista acerca de suicídio e de cremação dos corpos. De fato, o Código de Direito Canônico, não menciona os suicidas e o Catecismo da Igreja Católica afirma: Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida. (n° 2282) E acrescenta: A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida. (n° 2283) Em relação à cremação dos corpos de defuntos o Código de Direito Canônico (Cân. 1176 § 3) afirma: A Igreja recomenda insistentemente que se conserve o costume de sepultar os corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido escolhida por motivos contrários à doutrina cristã. O comentário para este parágrafo esclarece: A disciplina da Igreja sobre a cremação de cadáveres, que por razões históricas era totalmente contrária, foi modificada [em 1963]. Com as modificações introduzidas pelo novo Ritual de Exéquias é possível realizar os ritos exequiais inclusive no próprio crematório, evitando porém o escândalo ou o perigo de idiferentismo religioso. (Código de Direito Canônico; Edições Loyola, São Paulo 2001; p. 297).
Voltando à pergunta inicial: o que têm a ver os homossexuais com o sepultamento de suicidas ou com a cremação dos corpos? A chave da resposta está no texto acima: A disciplina da Igreja (...), que por razões históricas era totalmente contrária, foi modificada. Hoje em dia, a disciplina da Igreja é totalmente contrária, por exemplo, à união estável entre as pessoas do mesmo sexo, à Comunhão Eucarística dos homossexuais que vivem um relacionamento homoerótico [em breve voltarei a este assunto], à adoção de filhos pelos casais homossexuais, à admissão dos gays ao sacerdócio, etc.
Sejam razões históricas, culturais, teológicas, morais ou outras, a Igreja – ainda que demoradamente – modifica a sua disciplina. Citei aqui apenas dois exemplos, mas podemos procurar mais: a posição sobre os escravos, negros, mulheres, sobre a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário ou, então, a opinião modificada sobre Galileu* ou Giordano Bruno e tantos outros personagens da história. Tendo em vista o fato de serem necessários séculos entre a condenação e a reabilitação de Galileu, podemos ficar moderadamente animados. Talvez não aconteça em nossa geração (embora pareça que agora o ritmo destas “descobertas” esteja um pouco mais acelerado), mas pelo menos não precisamos ter aquela sensação de um colapso total ou de estarmos numa rua sem saída. Sem dúvida, é grande e importante a contribuição da ciência que, unida a uma reflexão séria de mentes abertas, produz algumas modificações.
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*LEITURA ADICIONAL:
Profundas transformações sociais aconteceram nos últimos quinhentos anos, durante os quais a compreensão da natureza da matéria e da estrutura do universo passou por importantes revisões. Não há dúvida de que mais revisões estão por vir. Tais rupturas podem ser penosas quando se tenta atingir uma síntese confortável entre a ciência e a fé, principalmente se a Igreja se ligar a uma visão anterior das coisas e incorporar isso em seu sistema de crenças fundamentais. A harmonia de hoje pode ser a discórdia de amanhã. Nos séculos XVI e XVII, Copérnico, Kepler e Galileu (que acreditavam em Deus com muita convicção) desenvolveram uma ideia que os foi atraindo aos poucos: a de que o movimento dos planetas só poderia ser compreendido de forma adequada se a Terra se movesse em torno do Sol, em vez de o contrário. (...) Em princípio, muitos da comunidade científica não ficaram convencidos. Entretanto, ao final, os dados e a consistência das previsões da teoria foram aceitos até pelo mais cético dos cientistas. A Igreja Católica, contudo, sustentou sua oposição com firmeza, alegando que tal ponto de vista era incompatível com as Sagradas Escrituras. Olhando em retrospectiva, fica claro que se basear na Bíblia para fazer tais alegações é uma atitude bastante limitada; contudo, esse confronto alastrou-se durante décadas e causou, no fim das contas, danos consideráveis tanto à ciência quanto à Igreja. (Francis S. Collins, “A linguagem de Deus”; Editora Gente; São Paulo, 2007; p. 66-67)

7 de janeiro de 2011

preces natalinas

A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro facilita a participação dos fiéis nas Missas de domingos e solenidades, por meio de folheto que contém todos os textos litúrgicos daquele dia. Nas recentes celebrações, de 1 de janeiro (Santa Mãe de Deus, Maria) e da Epifania (2 de janeiro), as “Preces da Comunidade” trouxeram um destaque interessante. Não sei se é o autor dos textos que mudou ou foi algo que mudou no autor. Todos os católicos da cidade rezaram assim:
Pai Santo, sem o respeito mútuo diante das diferenças entre pessoas e povos. Dai-nos a graça de vencermos todas as formas de preconceito e discriminação (1 de janeiro).
Ainda mais generosas foram as preces do dia da Epifania (“dia dos reis” celebrado, neste ano, no dia 2 de janeiro):
- Pela Santa Igreja de Deus, para que, na fidelidade do Evangelho, anuncie sempre mais um mundo de paz e fraternidade, onde as diferenças sejam acolhidas de modo enriquecedor.
- Pelas comunidades cristãs, para que, através do testemunho e do efetivo empenho, sejam firmes construtoras de um mundo sem preconceito nem discriminação.
- Por todas as pessoas que carregam dentro de si sentimentos de divisão, preconceito e indiferença ao próximo, para que, deles libertadas, acolham a comunhão que brota da gruta de Belém.
- Pelas vítimas da divisão, da violência, preconceito e indiferença ao próximo e de tudo mais que segrega pessoas, para que, unidos a Cristo, perseverem na esperança de fraternidade e união.
- Por nós que, alegremente, celebramos a Epifania do Senhor, para que as alegrias da solenidade de hoje se traduzam em gestos concretos de acolhimento, partilha e sentido do bem comum.

Para completar o sonho que, em parte, tornou-se realidade, imaginei um representante da Pastoral para Homossexuais, vestido numa camisa do grupo, com uma logomarca bem visível, lendo estas preces para toda comunidade paroquial.
Impossível?
Acho que não...

6 de janeiro de 2011

Sinagoga de Nazaré

Que ninguém se escandalize: Jesus "saiu do armário" em grande estilo. Fala sobre isso a liturgia de hoje (leia Lc 4, 14-22a). Aliás, a passagem do Evangelho, lida hoje na Missa, relata apenas a primeira parte deste acontecimento. O termo "sair do armário" entrou de vez na linguagem moderna e está relacionado diretamente com a revelação da identidade homossexual de um indivíduo. Entretanto, no sentido mais amplo, podemos falar aqui de todo tipo de "autorrevelação". A pessoa assume e mostra aquilo que, de fato, é. Neste caso, o "armário" de Jesus era o período de, aproximadamente, 30 anos, chamado "vida oculta". Depois de passar este tempo todo, Jesus vai à sinagoga de Nazaré, faz a leitura da profecia de Isaías (61, 1-2a) e diz: "Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir" (Lc 4, 21). Podemos (nós, os gays) tirar algumas conclusões desta comparação. Primeira delas parece indicar a "saída do armário" como inevitável ou até necessária. Falam sobre isso muitos autores, entre os quais, psicólogos e terapeutas. Muitos homossexuais dão testemunho sobre a sensação de alívio, após este ato de coragem e apesar de vários "efeitos colaterais" do choque inicial. Outra conclusão pode não ser tão clara, mas o fato de Jesus ter aguardado até alcançar a idade adulta para se revelar como Messias, sugere certa precaução ou prudência, em questão do "momento exato", também para assumir publicamente a homossexualidade. Embora muitos adolescentes tenham experimentado fortes pressões (internas e externas), sem dúvida devem ter muita paciência e sabedoria para tal decisão. A leitura da passagem completa, inclusive sobre a reação dos ouvintes, leva-me a uma outra conclusão. Mais uma vez, vem na minha mente a frase de João Paulo II (na verdade, é uma afirmação do Concílio Vaticano II, citada e desenvolvida pelo Papa), mancionada algumas vezes neste blog (p.ex. na "Novena de Natal" - aqui): Pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, se uniu de certo modo a cada homem. (Encíclica Redemptor hominis, n° 13). O Evangelista Lucas conta o que aconteceu depois da declaração de Jesus. No início todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que procediam da sua boca (Lc 4, 22a) e diziam: Não é este o filho de José?" (v. 22b). A admiração transforma-se logo em questionamento e este tem uma direção clara: o pai (a mãe, a família). É notável a frequente preocupação dos pais, diante do filho ou filha homossexual que acaba de se revelar. Geralmente dizem: "O que os outros vão pensar e falar sobre nós, sobre nossa família?!". O evangelho de Lucas continua mostrando Jesus na tentativa de uma argumentação, um diálogo. Infelizmente não há diálogo: a estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual era construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se (Lc 4, 28-30). Eu leio este texto como uma declaração de amor e solidariedade de Jesus para com cada pessoa rejeitada e não compreendida, inclusive com cada homossexual que sai do armário e enfrenta uma tempestade. Jesus diz: eu também passei por isso e por outras coisas, ainda piores. Eu te amo, compreendo e acolho. Não temas. Eu estou contigo.

5 de janeiro de 2011

Reflexões da virada 2010/2011

Eu não saí do armário, mas alguém, de repente, abriu a porta e várias pessoas me viram ali, dentro. E agora continuo convivendo com os mesmos amigos e conhecidos e ninguém toca no assunto. Tento captar as “entrelinhas” em nossas conversas. Por enquanto, nada. Não me importo muito com isso. Diria: “Por mim, tanto faz”. Fico rindo comigo, ao lembrar-me de como ficava irritado com esta resposta. Foi na época do meu “caso amoroso” (namoro, relacionamento... não sei a palavra certa) com o Deley. Naquele tempo, ouvir isso (“Por mim...”), soava como: “Não me importo com você”. Talvez esteja exagerando, mas então, foi essa a minha sensação. Anos se passaram, várias coisas aconteceram e hoje somos amigos. Agora não preciso mais “arrancar” as respostas dele nem puxar a conversa. Parece que aquela tensão de antigamente sumiu. Amadurecemos? Talvez. O tempo, ao passar, fez isso por nós? Talvez. Uma coisa sei hoje: o meu olhar a todas essas coisas ficou mais sereno. Estou pronto para um novo relacionamento? Ah, não tenho certeza. E não tenho pressa. Sem dúvida, existe, lá no fundo, uma disposição para isso. Mas, parece, estou mais exigente em relação ao eventual candidato. Surgiu, recentemente, um. Não passou no teste. Antigamente ficaria feliz com qualquer oferta. Hoje já é outra coisa. Talvez fique sozinho por resto da vida? Já não me assusta tanto esta perspectiva. Em algum lugar do meu coração está viva uma esperança de que vai aparecer aquele príncipe encantado (e encantador). Pode ser comodismo. Não sei dizer. Mas estou tranquilo.

Oitava de Natal (8° dia)


OS MAGOS

TEXTO BÍBLICO: Mt 2, 1. 11
Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente. (...) Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
O último dia da oitava de Natal traz a misteriosa cena com os magos do oriente. Celebra-se, ao mesmo tempo (por uma coincidência, neste ano) a festa da Epifania (em grego: "manifestação"). A tradição e a piedade popular atribuem aos magos a identidade de reis (não mencionada no Evangelho), provavelmente por influência do Salmo 71(72) [Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes; os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. v. 10]. Também o número destes visitantes (três) é fruto da piedosa imaginação sugerida, talvez, pelo número de presentes. O sentido litúrgico e teológico leva-nos a contemplar o caráter universal da salvação que Jesus trouxe. De certo modo, os magos representam “todos os povos”, com suas tradições, culturas e histórias diferentes. Cristo veio a todos. Uma verdade que só aos poucos foi conquistando espaço no coração dos seguidores de Jesus (e, ainda hoje, continua encontrando resistência). E esta afirmação sobre a Igreja surpreende, porque na sua própria constituição está o envio (ou a ordem) de Jesus que, pouco antes de sua Ascensão, disse: Ide, pois, e ensinai a todas as nações (Mt 28, 19). Na versão de Marcos, a ordem do Senhor é ainda mais ampla: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura (Mc 16, 15). Lucas acrescenta: Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras (Lc 24, 45) que era necessário tudo isso que aconteceu com Ele e que se pregasse, em seu nome, a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações (cf. Lc 24, 47). Lembramos, entretanto, as dificuldades de Pedro, mesmo depois de ter recebido o Espírito Santo em Pentecostes (leia At 10, 9ss). O Senhor precisou usar de “efeitos especiais” para convencê-lo (Em verdade, reconheço que Deus não faz distinção de pessoas; At 10, 34) e levar os irmãos a esta convicção: Portanto, também aos pagãos concedeu Deus o arrependimento que conduz à vida! (At 11, 18). Também Paulo obteve esta descoberta em circunstâncias dramáticas: Era a vós [judeus] que em primeiro lugar se devia anunciar a palavra de Deus. Mas, porque a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os pagãos (At 13, 46). E, quando abraçou este princípio, tornou-se Apóstolo dos Gentios. E da própria causa. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. (Gal 3, 28), pois Deus deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2, 4).
2) Quando Paulo fala de “judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher” (Gal 3, 28), usa os termos e conceitos daquela época. Hoje, evidentemente, não seriam mais “escravo e livre”, mas talvez “analfabeto e letrado”, “empregado e desempregado”, “rico e pobre”, “branco e não-branco”, “hetero- e homossexual”. Com outras palavras: as “categorias” de pessoas que, em Cristo, foram “anuladas”, para formar um só povo, uma só família, dependem da mentalidade de cada época e geração. Podemos dizer que Jesus é uma denúncia constante de desigualdades e exclusões. Enquanto, aos olhos humanos, existem sempre alguns “estranhos”, como se apresentam, exatamente, os magos do oriente (os estrangeiros), Deus mostra, através deles que, para Ele, todos são importantes. Importantes porque amados. E a presença de “estranhos” serve para quebrar a rotina, para despertar e sensibilizar.
3) Há séculos, existem interpretações do significado de cada um dos presentes trazidos pelos magos. A mais difundida decifra todos estes dons como uma expressão (ou profissão) de fé. O incenso é visto como o sinal de fé na divindade do recém-nascido, o ouro como o reconhecimento de sua realeza e a mirra (naquela época usada nos procedimentos médicos e nos funerais) expressa a fé na humanidade verdadeira do Messias e alude o desígnio divino de seu sofrimento e morte. Com outras palavras: em nome de toda a humanidade, os magos do oriente, adoraram Jesus e professaram a sua fé, reconhecendo nele verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o rei do universo e salvador do gênero humano, nascido para se oferecer no sacrifício redentor.
4) Animado com a presença dos misteriosos visitantes diante da manjedoura de Jesus, vou também eu, o estranho como eles. Compreendo que eles trouxeram algo que possuíam, dentro das suas condições. Eu não vou levar nem ouro (não tenho), nem mirra (não sei onde encontrar), nem mesmo o incenso (vou deixar aos padres esta tarefa). Simbolicamente, porém, vou apresentar tudo isso. A minha adoração e louvor ao meu Senhor, Deus e Rei. Vou levar, também, a minha homossexualidade, com tudo que ela significa para mim. Com suas sombras, angústias, dúvidas e medos. Mas, sem dúvida, com uma enorme gratidão pela graça de autoconhecimento e auto-aceitação. Com toda sensibilidade, própria desta condição. E, principalmente, com a mais preciosa experiência de amar e ser amado. Vou levar até Jesus, também, toda essa luta pela dignidade, respeito e reconhecimento que uma multidão dos meus irmãos e irmãs, no mundo inteiro, trava incansavelmente, enfrentando incompreensões, zombarias, humilhações, agressões e a própria morte. Entrego tudo isso nas mãos do Menino de Belém, confiante de que nenhum esforço ou sacrifício será em vão. E desejo muito que todos estes meus irmãos e irmãs, os homossexuais, fizessem a mesma visita a Jesus. Pois, quem o encontra, volta para casa por outro caminho, como os magos do oriente (confira Mt 2, 12).
ORAÇÃO
Hoje não podia ser diferente. O louvor e a súplica inspiram-se no trecho do Salmo 71(72), 10-14:

Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes;
os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons.
Todos os reis hão de adorá-lo,
hão de servi-lo todas as nações,
porque ele livrará o infeliz que o invoca,
e o miserável que não tem amparo.
Ele se apiedará do pobre e do indigente,
e salvará a vida dos necessitados.
Ele livrará da injustiça e da opressão,
e preciosa será a sua vida ante seus olhos.

Oitava de Natal (7° dia)


A PAZ

TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 21
Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
A maternidade divina de Maria Santíssima, celebrada no primeiro dia do ano civil, permite-nos olhar ao mistério de Deus, de seu amor e de seus desígnios, com os olhos dela. O Papa João Paulo II falou muito em “entrar na escola de Maria” (confira a Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae”, aqui). Este olhar é um modo de enxergar o invisível, de descobrir o sentido profundo e oculto das coisas. É um olhar de delicadeza, respeito e ternura. Um olhar necessário em cada tipo de convivência. Seria demais pedir isso e desejar aos outros, no início de um ano novo? Augusto Cury, em seu livro “Maria, a maior educadora da História” (Editora Planeta; São Paulo, 2007), propõe um estudo da pessoa de Maria, do ponto de vista de um psicólogo: A imagem que se tem de Maria no inconsciente coletivo é de uma mulher pobrezinha, coitada, sofredora, muito diferente da sua personalidade à luz da psicologia. Maria era espantosamente forte, mais forte do que os fariseus de Jerusalém. Seu Filho, quando adulto, elevou a arte da intrepidez ao máximo. Nunca reclamou, nem quando foi abandonado. Nunca desistiu, nem quando traído. Nunca puniu, mesmo quando zombaram dele ou o torturaram. (p. 42-43) Maria educou, dentro das suas limitações, Jesus para que corresse risco, fosse intuitivo, tivesse compromisso social, contemplasse a fauna e a flora, protegesse sua emoção; para que ele experimentasse a natureza humana em grande estilo e se tornasse uma dádiva para a humanidade. (p. 145)
2) Desde 1968, a Igreja promove, junto à maternidade divina de Maria, o Dia Mundial da Paz. Notamos, imediatamente, a conexão com a “escola de Maria”. Esta escola nos ensina a buscar e construir a paz. Não é coisa fácil, exige um esforço, ou melhor: um sacrifício. Talvez o maior seja este: “amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem” (Mt 5, 44), mas “sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (cf. Mt 10, 16) e “se vos perseguirem numa cidade, fugi para uma outra” (Mt 10, 23) e, se fugirdes, não leveis ódio nem desejo de vingança, nos vossos corações. Não pagueis a ninguém o mal com o mal. Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos os homens. Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens. Não vos vingueis uns aos outros (...). (Rm 12, 17-19). Já percebemos: a escola de Maria é a escola do Evangelho. Um dos “alunos” que concluiu seus estudos ali, e com louvor, foi São Francisco de Assis. A ele é atribuída autoria do famoso texto: Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz! Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. (...) Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido (...). É perdoando que se é perdoado...
3) Aqui na terra não se pode obter a paz a não ser que seja salvaguardado o bem das pessoas e que os homens comuniquem entre si, com confiança e espontaneidade, suas riquezas de coração e de inteligência. Vontade firme de respeitar a dignidade de outros homens e povos, ativa fraternidade na construção da paz, são coisas absolutamente necessárias. Deste modo a paz será também fruto do amor, que vai além do que a justiça é capaz de proporcionar. (...) É a razão por que todos os cristãos são insistentemente chamados a que, vivendo a verdade na caridade (cf. Ef 4, 15), se unam aos homens verdadeiramente pacíficos, a fim de implorar e estabelecer a paz. (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, n° 78)
ORAÇÃO
Oremos pela paz. Salmo 129(121):
Para os montes levanto os olhos:
de onde me virá socorro?
O meu socorro virá do Senhor,
Criador do céu e da terra.
Ele não permitirá que teus pés resvalem;
não dormirá aquele que te guarda.
Não, não há de dormir, nem adormecer
o guarda de Israel.
O Senhor é teu guarda,
o Senhor é teu abrigo, sempre ao teu lado.
De dia, o sol não te fará mal;
nem a lua durante a noite.
O Senhor te resguardará de todo o mal;
ele velará sobre tua alma.
O Senhor guardará os teus passos,
agora e para todo o sempre.