ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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4 de março de 2014

O prelúdio do Sínodo


O recente consistório (a reunião dos cardeais com o Papa) não faz parte do Sínodo dos Bispos, mesmo assim, ganhou o "sobrenome" de "Consistório da Família" e, com razão, a sua leitura está sendo feita, justamente, no contexto do Sínodo (previsto para o próximo mês de outubro). O portal ihu.unisinos traz o longo texto do discurso, feito durante o consistório pelo cardeal Walter Kasper a pedido do Papa Francisco e o comentário inicial da redação traz a expressão "ouverture", fazendo alusão à introdução a uma peça musical (assim mesmo como o título desta reflexão). Ainda dentro dessa analogia, posso dizer que a palestra do cardeal Kasper é uma "ópera" ou talvez "sinfonia" em favor da família e de sua forma bíblico-tradicional. Sim, temos algumas novidades, quase dissonâncias, quando se trata de propostas relacionadas à admissão de (algumas) pessoas divorciadas e recasadas aos sacramentos. De acordo com outro cardeal alemão, Reinhard Marx, o discurso de Kasper despertou fortes oposições por parte de muitos participantes do consistório.

O texto é longo e requer (e, eu acho, merece) uma atenção redobrada. O meu contexto de leitura é a perspectiva LGBT e, por este ângulo, algumas afirmações destacam-se de maneira especial:

"A instituição da família é, embora com todas as diferenças particulares, a ordem original da cultura da humanidade. Não pode ter um bom sucesso estabelecer hoje uma nova definição da família, que contradiga ou mude a tradição cultural de toda a história da humanidade".

"Não nos tornamos homem ou mulher através da respectiva cultura, como afirmam algumas opiniões recentes. O ser homem e o ser mulher estão fundamentados ontologicamente na criação. A igual dignidade da sua diversidade explica a atração entre os dois, cantada nos mitos e nos grandes poemas da humanidade, assim como no Cântico dos Cânticos do Antigo Testamento. Querer torná-los iguais por ideologia destrói o amor erótico. A Bíblia entende esse amor como união para se tornar uma só carne, isto é, como uma comunidade de vida, que inclui sexo, eros, além da amizade humana ([Gn] 2, 14). Nesse sentido completo, o homem e a mulher foram criados pelo amor e são imagem de Deus, que é amor (1 J0 4, 8)".

Enquanto todas as esperanças (de uma percepção nova do amor entre as pessoas do mesmo sexo) parecem mortas e sepultadas, brotam no mesmo texto - a meu ver - alguns modestos sinais positivos, ainda que de forma indireta. O primeiro deles é a antiga e clássica relação entre o matrimônio e o celibato. O cardeal Kasper lembra:

"Como o celibato livremente escolhido se torna uma situação sociologicamente reconhecida em si mesma, o matrimônio também, por causa dessa alternativa, não é mais uma obrigação social, mas sim uma livre escolha. Sobretudo as mulheres não casadas são agora reconhecidas mesmo sem um marido. Assim, o matrimônio e o celibato se valorizam e se sustentam mutuamente, ou ambos juntos entram em uma crise, como infelizmente estamos experimentando agora".

Por analogia, podemos dizer que o casamento entre as pessoas do mesmo sexo que também já se tornou uma situação sociologicamente reconhecida em si mesma, faz com que a união matrimonial entre um homem e uma mulher, por causa dessa alternativa, não é mais uma obrigação social. Assim, o casamento heterossexual e a união homoafetiva se valorizam e se sustentam mutuamente. A visão do casamento igualitário como uma ameaça, ou um atentado contra a família tradicional, não tem mais razões para existir.

O outro sinal de esperança, pequeno e indireto, vem da abordagem de uma das situações, tradicionalmente tidas como irregulares, agora, porém, apresentada em uma ótica diferente. É a questão daqueles que, tendo o seu primeiro matrimônio sacramental desfeito, estão vivendo a "segunda união", baseada no contrato civil. Em primeiro lugar, o palestrante refere-se, de maneira mais generalizada, às "famílias desagregadas" e diz:

"Não basta considerar o problema só do ponto de vista e da perspectiva da Igreja como instituição sacramental; precisamos de uma mudança de paradigma e devemos - como fez o bom samaritano (Lc 10, 29-37) - considerar a situação a partir da perspectiva de quem sofre e pede ajuda".

Depois de recordar as antigas e clássicas tentativas de encontrar a solução, principalmente a avaliação das possibilidades de constatar a eventual nulidade do casamento religioso (e, consequentemente, promover a "santificação" da união existente), o cardeal Kasper lança uma nova proposta que diz respeito aos casais que não têm essa possibilidade, ou seja, àqueles que continuam sendo considerados "irregulares". Eu entro aqui, com a observação de que o meu casamento (caso exista um candidato que se aventure para tal façanha) também seria considerado irregular perante a Igreja (pois seria com um homem!) e sem chance de ser elevado ao nível do Sacramento do Matrimônio. Segundo os critérios propostos pelo cardeal, porém, nós dois, tendo cumprido certas condições, seríamos admitidos à Comunhão Eucarística, a não ser que a minha lógica esteja falhando.

Antes de chegar aos pontos concretos, o cardeal Kasper polemizou com a ideia (sustentada, inclusive, pelo Papa Bento XVI) sobre a "comunhão espiritual" que - unicamente - seria acessível aos casais "irregulares":

"De fato, quem recebe a comunhão espiritual é uma coisa só com Jesus Cristo; como pode, então, estar em contradição com o mandamento de Cristo? Por que, portanto, não pode receber também a comunhão sacramental? Se excluímos os cristãos divorciados em segunda união que estão dispostos a se aproximar deles [sacramentos] e os encaminhamos à vida de salvação extrassacramental [sic!], talvez não colocamos em discussão a estrutura fundamental sacramental da Igreja? Então, de que servem a Igreja e os sacramentos? Não pagamos um preço alto demais com essa resposta? Alguns defendem que justamente a não participação na comunhão é um sinal da sacralidade do sacramento. A pergunta que se coloca em resposta é: não seria talvez uma instrumentalização da pessoa que sofre e pede ajuda se fazemos dela um sinal e uma advertência para os outros? Deixamo-la sacramentalmente morrer de fome para que os outros vivam?".

Após essa premissa dramática, o palestrante passou para os pormenores da proposta:

"Um divorciado em segunda união:
1) se se arrepende do seu fracasso no primeiro matrimônio;
2) se esclareceu as obrigações do primeiro matrimônio, se definitivamente excluiu que volte atrás;
3) se não pode abandonar sem outras culpas os compromissos assumidos com o novo matrimônio civil;
4) se, porém, se esforça para viver no melhor das suas possibilidades o segundo matrimônio a partir da fé e para educar os próprios filhos na fé;
5) se tem o desejo dos sacramentos como fonte de força na sua situação,
- devemos ou podemos negar-lhe, depois de um tempo de nova orientação (metanoia), o sacramento da penitência e depois da comunhão?"

Entro aqui, de novo, com as minhas analogias:

Uma pessoa homossexual:
1) se se arrepende do seu fracasso nas tentativas de estabelecer uma união heterossexual, ou até mesmo se arrepende por ser homossexual, ou seja, admite o fato de que tal condição não depende de sua vontade livre (tipo: "ah, como seria mais fácil, eu ser uma pessoa heterossexual, mas, infelizmente, isso não depende de mim");
2) se esclareceu as obrigações do casamento com uma pessoa do sexo oposto e se excluiu definitivamente a possibilidade de tal casamento;
3) se não pode abandonar sem outras culpas os compromissos assumidos com a união homoafetiva;
4) se, porém, se esforça para viver no melhor das suas possibilidades a união homoafetiva a partir da fé e para educar na fé os filhos que adotou;
5) se tem o desejo dos sacramentos como fonte de força na sua situação,
- a Igreja deve ou pode negar-lhe, depois de um tempo de nova orientação (metanoia), o sacramento da penitência e depois da comunhão?

O cardeal parece ler os meus devaneios e logo acrescenta uma misteriosa advertência:

"Um casamento civil como descrito com critérios claros deve ser diferenciado de outras formas de convivência 'irregular' como os casamentos clandestinos, os casais de fato, sobretudo a fornicação e os chamados casamentos selvagens [sic!]. A vida não é só branco e preto; de fato, há muitas nuances". Bem, fiquei na dúvida: onde é que eu me encaixo?

Enfim, uma das considerações finais feita pelo cardeal Kasper, vejo também como um pequeno e indireto sinal positivo:

"Não podemos limitar o debate à situação dos divorciados em segunda união e a muitas outras situações pastorais difíceis que não foram mencionadas no presente contexto. Devemos tomar um ponto de partida positivo e redescobrir e anunciar o Evangelho da família em toda a sua beleza. A verdade convence mediante a sua beleza. Devemos contribuir, com as palavras e os fatos, para fazer com que as pessoas encontrem a felicidade na família e, de tal modo, possam dar às outras famílias testemunho dessa sua alegria. Devemos entender novamente a família como Igreja doméstica, torná-la a via privilegiada da nova evangelização e da renovação da Igreja, uma Igreja que está a caminho junto às pessoas e com as pessoas".

Só espero que a Igreja esteja, também, a caminho junto às pessoas homossexuais...

22 de setembro de 2013

Ser Igreja

 
Quantos cristãos recordam a data do próprio Batismo? Gostaria de fazer esta pergunta aqui pra vocês, mas cada um responda no seu coração: quantos de vocês recordam a data do próprio Batismo? Alguns levantam a mão, mas quantos não lembram! Mas a data do Batismo é a data do nosso nascimento na Igreja, a data na qual a nossa mãe Igreja nos deu à luz! E agora eu lhes deixo uma tarefa para fazerem em casa. Quando voltarem para casa hoje, procurem bem qual é a data do Batismo de vocês, e isto para festejá-la, para agradecer ao Senhor por este dom. Vocês farão isso?
 
Estas perguntas dirigiu aos ouvintes o Papa Francisco, no dia 11 de setembro deste ano (na íntegra, com pequenas diferenças: no site do Vaticano; no site da Canção Nova).
 
Então... é hoje - 22. 09 - a data do meu Batismo. Alguns cálculos simples mostram que demorei mais de 10 meses para ser batizado e conheço os porquês dessa demora, mas não vou falar sobre isso hoje... O que me vem à mente é o assunto com o qual procuro me ocupar um pouco neste blog: a Pastoral das Pessoas Homossexuais. Na verdade, fiquei na dúvida em relação a esse projeto, principalmente depois de algumas pesquisas sobre a natureza, ou definição de uma pastoral. Não vou citar nenhuma das fontes que consultei, mas em quase todas elas repete-se a expressão: As pastorais são trabalhos desenvolvidos pela Igreja, numa ação organizada e dirigida pela Diocese e Paróquia para atender determinada situação em uma realidade específica. Já o movimento nasce e se forma em um contexto externo à igreja local, é uma ação dos leigos que pode envolver várias pastorais/serviços ao mesmo tempo. Está mais ligado à vida pessoal dos participantes e, em geral, tem um caráter de espiritualidade e segue um carisma próprio, envolvendo mais ou menos as mesmas pessoas que vivenciaram um encontro, um retiro ou uma catequese.
 
A Igreja fala sobre o "atendimento pastoral" das pessoas homossexuais e encoraja os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. Uma dinâmica semelhante aparece na proposta de Pe. Antônio Transferetti (mencionado aqui). Eu mesmo criei neste blog o tag "pastoral para homossexuais", mas agora estou pensando, se não seria mais correto dizer "pastoral de homossexuais". O que parece ser apenas uma diferença gramática, na realidade é um convite às pessoas homossexuais a se tornarem agentes e não meros objetos da ação pastoral. Por isso a definição do movimento (acima) me parece mais adequado. Quem sabe, um "movimento pastoral"...
 
O Papa João Paulo II, em sua Exortação Apostólica Christifideles laici, (n. 29), diz: Antes de mais, é necessário reconhecer-se a liberdade associativa dos fiéis leigos na Igreja. Essa liberdade constitui um verdadeiro e próprio direito que não deriva de uma espécie de « concessão » da autoridade, mas que promana do Batismo, qual sacramento que chama os fiéis leigos para participarem ativamente na comunhão e na missão da Igreja. O Concílio é muito explícito a este propósito: « Respeitada a devida relação com a autoridade eclesiástica, os leigos têm o direito de fundar associações, dirigi-las e dar nome às já existentes » [LG, 37]. E o recente Código textualmente diz: « Os fiéis podem livremente fundar e dirigir associações para fins de caridade ou de piedade, ou para fomentar a vocação cristã no mundo, e reunir-se para alcançar em comum esses mesmos fins » [CDC, cân. 215].
 
Agradeço a Deus pelo dom do Batismo. Eu creio - com a Igreja - que a graça não tira a natureza, mas a supõe e a aperfeiçoa (cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, 1, 8 ad 2). Creio, também, que a minha natureza é homossexual e essa sua característica não impediu a ação da graça batismal, tampouco é a negação dessa mesma graça. As duas - a natureza e a graça - convivem em mim e ambas constituem a base de toda a minha relação com Deus e com as pessoas. Sim, no meu íntimo, eu amo a lei de Deus, mas percebo em meus membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo da lei do pecado que está nos meus membros. (Rm 7, 22-23) É a batalha de todo o batizado, seja ele hetero- ou homossexual. É do ser humano...

19 de setembro de 2013

O que o Papa disse?

 
Os meios de comunicação, grandes e pequenos (inclusive, as redes sociais), citam as palavras do Papa Francisco, de sua recente entrevista, concedida ao Pe. Antonio Spadaro, SJ, Diretor da revista dos jesuítas "La Civiltà Cattolica". Ao lado das citações, aparecem várias acusações, de todos os lados, alegando a "manipulação" tramada pelo adversário. A solução é simples: é preciso, apenas, ler o texto na íntegra. Quem quiser, vai encontra-lo AQUI. Na lista de assuntos (Índice da Entrevista), como o último item, aparece: "Entrevista completa" e pronto...
 
Como o blog tem as suas limitações, não vou transcrever aqui o texto completo, mas também não posso deixar por isso mesmo. Cito, então, um trecho, talvez o mais polêmico (sem cortes no meio), destacando - através de grifos - as partes que mais chamam a minha atenção. Deixei, até, a grafia de português de Portugal (paciência!):
 
«Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. Quem a abandonou fê-lo, por vezes, por razões que, se forem bem compreendidas e avaliadas, podem levar a um regresso. Mas é necessário audácia, coragem».

Reflicto naquilo que o Papa está a dizer e refiro o facto que existem cristãos que vivem em situações não regulares para a Igreja ou, de qualquer modo, em situações complexas, cristãos que, de um modo ou de outro, vivem feridas abertas. Penso nos divorciados recasados, casais homossexuais, outras situações difíceis. Como fazer uma pastoral missionária nestes casos? Em que insistir? O Papa faz sinal de ter compreendido o que pretendo dizer e responde.

«Devemos anunciar o Evangelho em todos os caminhos, pregando a boa nova do Reino e curando, também com a nossa pregação, todo o tipo de doença e de ferida. Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto. Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro disse que se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-la. Dizendo isso, eu disse aquilo que diz o Catecismo. A religião tem o direito de exprimir a própria opinião para serviço das pessoas, mas Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com uma outra pergunta: “Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afecto ou rejeita-a, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira o sacerdote a dizer a coisa mais apropriada».

«Esta é também a grandeza da confissão: o facto de avaliar caso a caso e de poder discernir qual é a melhor coisa a fazer por uma pessoa que procura Deus e a sua graça. O confessionário não é uma sala de tortura, mas lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. Penso também na situação de uma mulher que carregou consigo um matrimónio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois esta mulher voltou a casar e agora está serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito e está sinceramente arrependida. Gostaria de avançar na vida cristã. O que faz o confessor?»

«Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente».
 
«Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de carácter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evangélica deve ser mais simples, profunda, irradiante. É desta proposta que vêm depois as consequências morais».

«Digo isto também pensando na pregação e nos conteúdos da nossa pregação. Uma bela homilia, uma verdadeira homilia, deve começar com o primeiro anúncio, com o anúncio da salvação. Não há nada de mais sólido, profundo e seguro do que este anúncio. Depois deve fazer-se uma catequese. Assim, pode tirar-se também uma consequência moral. Mas o anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa. Hoje, por vezes, parece que prevalece a ordem inversa. A homilia é a pedra de comparação para calibrar a proximidade e a capacidade de encontro de um pastor com o seu povo, porque quem prega deve reconhecer o coração da sua comunidade para procurar onde está vivo e ardente o desejo de Deus. A mensagem evangélica não pode limitar-se, portanto, apenas a alguns dos seus aspectos, que, mesmo importantes, sozinhos não manifestam o coração do ensinamento de Jesus.»
 
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E aqui vem o "grito desesperado" no facebook: "O GLOBO E VEJA MENTEM E COLOCAM PALAVRAS QUE O PAPA NÃO DISSE. TIRAM DO CONTEXTO E AFIRMAM O QUE DESEJAM. COMPARTILHE A VERDADE PQ LOGO LOGO TE PERGUNTARÃO SE O PAPA... BLABLABLA
ESCREVA PARA ELES E RECLAME. NÃO DÁ MAIS PRA TANTA MANIPULAÇÃO. TODA VEZ QUE O PAPA DIZ ALGO, ELES DISTORCEM..."
 
 
Bem... a foto divulgada pelos "defensores da verdade", também traz algumas afirmações tiradas do contexto. Curiosamente, os "verdadeiros católicos" têm medo de citar o Papa Francisco, quando ele diz:
 
Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto.
 
A religião tem o direito de exprimir a própria opinião para serviço das pessoas, mas Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com uma outra pergunta: “Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afecto ou rejeita-a, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia.

16 de setembro de 2013

A prova de fogo


Escrevi recentemente sobre a hetronormatividade como algo que, infelizmente, ainda existe e, muito provavelmente, tem uma vida longa pela frente. A minha tese é que, apesar de todos os seus defeitos, esse fenômeno pode contribuir para o bem das pessoas que não sejam heterossexuais. Evidentemente, é necessário retirar tudo que naquele sistema filosófico-social tenha qualquer cheiro de preconceito. Porém, como se trata de relacionamento amoroso entre dois seres humanos, independentemente de sua orientação sexual, podemos encontrar nas experiências de casais heterossexuais muita coisa útil e aproveitá-la para nossa vivência homossexual. Como uma verdadeira "prova de fogo", gostaria de convidar a todos a uma sessão cinematográfica. Este, também, é o título do filme: "A prova de fogo".
 
Provavelmente seja necessário deixar aqui uma advertência: o filme é evangélico, dura quase duas horas e aborda o tema de relacionamento conjugal, evidentemente, heterossexual. A pergunta que fiz a mim mesmo e quero fazer aos eventuais leitores/espectadores, é: o que posso aprender com a experiência de um casal, formado por um homem e uma mulher e ainda buscando os argumentos na Bíblia e na fé? Bem... eu acho que, neste caso, posso aprender muito. E digo mais: lamento não ter conhecido este filme (e o livro "O Desafio de Amar" que é uma referência para o roteiro) na época em que vivi cada um dos meus relacionamentos. Creio muito que eles (ou, pelo menos um deles) pudesse ter uma história diferente e hoje eu não estaria sozinho... Mas, tenho a esperança de que, um dia, poderei colocar em prática algumas orientações práticas do filme (e do livro). Só falta um candidato que queira experimentar isso comigo...  
 
 
Agora vem o que interessa. Imagino que não vou conseguir convencer ninguém de ler o texto somente depois de assistir o filme, embora fosse melhor, na minha modesta opinião. Enfim, tanto faz, pode continuar a leitura...

O principal destinatário deste material (o filme + o livro) é alguém que enfrenta problemas de relacionamento, principalmente conjugal, mas, igualmente, pode servir aos namorados e, até, aquele solteiro que queira realizar uma espécie de simulação para se preparar ao futuro convívio com alguém especial. O meu propósito é provar que as orientações, elaboradas originalmente com a finalidade de ajudar os casais heterossexuais, podem se aplicar muito bem nos relacionamentos homossexuais, requerendo apenas pouquíssimas adaptações.

O livro de Stephen & Alex Kendrick com Lawrence Kibrought, "O desafio de amar" (BV Films Editora Ltda, Niterói - RJ, 2009) traz a seguinte apresentação:

O desafio de amar é um desafio de 40 dias para maridos e esposas que desejam entender e praticar o amor incondicional. Independentemente de como está o seu casamento, ameaçado ou saudável, O desafio de amar é uma estrada que precisa ser seguida. É hora de descobrir os segredos de um casamento cheio de vida e da verdadeira intimidade. Aceite o desafio! "Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba". (1 Coríntios 13:7-8). OUSE AMAR  

A realização deste desafio de amar fica muito melhor com o livro que, além de uma tarefa para cada dia, traz uma fundamentação bíblica e a motivação detalhada para cada passo (e ainda tem espaço para as anotações). Encontrei o livro nas seguintes livrarias: Saraiva, Submarino, gospelgoods. Pode ser encontrado, também, em forma de arquivo pdf para baixar, p. ex.: aqui.

Para quem não tiver vontade de ler o livro, transcrevo aqui as tarefas para 40 dias que podem ser modificadas, de acordo com a situação em que cada um está vivendo. Evidentemente, a realização mais completa, só é possível no caso de um casal que mora junto, mas - com adaptações que se fizerem necessárias - as tarefas podem ser cumpridas, também, pelos namorados. A dinâmica do desafio prevê a ação, digamos, unilateral e um tanto secreta (para preservar o elemento surpresa). Quer dizer: um segue o desafio e surpreende o outro. Aconselha-se, também, o uso de anotações (um caderno ou, quem sabe, um blog...).

Vamos lá...

1° dia [O Amor é paciente] :  Decida demonstrar paciência e de modo algum diga algo negativo para o seu cônjuge (namorado). Se a tentação surgir, não diga nada. É melhor segurar a língua do que dizer algo de que possa se arrepender depois. (Leituras bíblicas: Ef 4, 2; 1Tes 5, 15; Tg 1, 19; Pr 14, 29; 15, 18)

2° dia [O Amor é bondoso]: Além de, mais uma vez, não dizer palavras negativas ao seu cônjuge (namorado) hoje, demonstre bondade com, no mínimo, um gesto inesperado. (Leituras bíblicas: Ef 4, 32; Lc 10, 30-35; Pr 31, 26)

3° dia [O Amor não é egoísta]: Aquilo em que você colocar seu tempo, energia e dinheiro, será mais importante para você. É difícil se importar com algo em que você não está investindo. Além de evitar comentários negativos, compre para o seu cônjuge (namorado) alguma coisa que diga: "eu estava pensando em você hoje". (Leituras bíblicas: Rm 12, 1; 1Cor 13, 5; Flp 2, 3; Tg 3, 16)

4° dia [O Amor é atencioso]: Faça contato com o seu cônjuge (namorado) em algum momento durante a agitação do dia. Não faça outra coisa senão perguntar como ele está e se tem algo que você pode fazer por ele. (Leituras bíblicas: Gn 2, 18; Flp 1, 3)

5° dia [O Amor não maltrata]: Peça ao seu cônjuge (namorado) para lhe dizer três coisas sobre você que o deixam desconfortável e irritado. Faça isso sem atacá-lo e sem justificar seu comportamento. Preocupe-se apenas com a perspectiva dele. (Leituras bíblicas: Lc 6, 31; Pr 25, 24)

6° dia [O Amor não se irrita facilmente]: Escolha hoje para reagir de maneira amorosa, apesar das circunstâncias do seu casamento (namoro, relacionamento). Comece fazendo uma lista das áreas em que você precisa separar um tempo para respirar. Então, faça uma lista das motivações negativas e abra mão delas. (Leituras bíblicas: Mt 12, 34; Col 3, 12-14; Flp 4, 6-7; Tg 4, 1-3; Ef 4, 31)

7° dia [O Amor acredita sempre no melhor]: Para o desafio de hoje, pegue duas folhas de papel. Na primeira, passe alguns minutos escrevendo coisas positivas a respeito do seu cônjuge (namorado). Depois, na segunda folha, faça o mesmo com as coisas negativas. Coloque as duas folhas em um lugar secreto para o próximo dia. Existe um propósito e um plano diferente para cada uma dessas listas. Em algum ponto durante o resto do dia, escolha um atributo positivo e agradeça ao seu cônjuge (namorado) por ter essa característica. (Leituras bíblicas: 1Cor 13, 7; Flp 4, 8)

8° dia [O Amor não arde em ciúmes]: Decida ser o maior fã do seu cônjuge (namorado), e decida rejeitar qualquer pensamento invejoso. Para ajudá-lo a manter o coração em seu cônjuge (namorado) e a focar nas conquistas dele, pegue a lista de atributos negativos que você fez ontem e, discretamente, queime-a. Depois, compartilhe com seu cônjuge (namorado) o quanto você está feliz com o sucesso que ele conquistou recentemente. (Leituras bíblicas: Rm 12, 15; Tg 3, 16. 4, 1-2; Ct 8, 6; Pr 27, 4)

9° dia [O Amor deixa boas impressões]: Pense em uma maneira especial de cumprimentar o seu cônjuge (namorado) hoje. Faça isso com um sorriso e com entusiasmo. Então, decida mudar a maneira como o cumprimenta de modo que reflita o seu amor por ele. (Leituras bíblicas: 1Pd 5, 14; Fm 7)

10° dia [O Amor é incondicional]: Faça algo fora do normal para o seu cônjuge (namorado) - algo que prove (para você e para ele) que o seu amor é baseado em suas escolhas e em nada mais. Lave o carro dele. Limpe a cozinha. Compre a sobremesa favorita dele. Dobre as roupas lavadas. Demonstre amor pela simples alegria de serem parceiros no casamento (namoro). (Leituras bíblicas: Rm 5, 8; 1Jo 30, 10. 4, 19)

11° dia [O Amor cuida]: Quais as necessidades do seu marido (namorado) podem ser supridas por você hoje? Você pode adiar uma viagem de negócios? Fazer uma massagem nas costas ou no pé dele? Tem algum trabalho doméstico onde possa ajudar? Escolha um gesto hoje, diga, "eu cuido de você" e faça isso com um sorriso. (Leitura bíblica: Mc 10, 51)

12° dia [O Amor deixa o outro vencer]: Demonstre amor através da disposição, escolhendo ceder em uma área de desacordo entre você e seu cônjuge (namorado). Diga a ele que você está colocando a preferência dele em primeiro lugar. (Leituras bíblicas: Rm 12, 18; Flp 2, 4-5; Tg 3, 17)

13° dia [O Amor é justo]: Converse com o seu cônjuge (namorado) e estabeleça regras saudáveis de conflito. Se ele não estiver pronto para isso, então escreva os seus limites pessoais para a "briga". Decida colocá-los em prática quando o próximo desentendimento ocorrer. (Leituras bíblicas: Mt 7, 3; Mc 3, 25; Rm 12, 16)

14° dia [O Amor sente prazer]: Propositadamente, negligencie uma atividade que normalmente faria. Para gastar um tempo de qualidade com o seu cônjuge (namorado). Faça algo que ele amaria fazer, ou um projeto que ele gostaria muito de realizar. Apenas estejam juntos. (Leituras bíblicas: Ct 2, 3-4; Pr 23, 26)

15° dia [O Amor é nobre]: Escolha uma maneira de demonstrar honra e respeito ao seu cônjuge (namorado) que vá além da sua rotina. Pode ser abrir a porta para ele. Pode ser separar as roupas que ele irá vestir. Pode ser a forma como você ouve e fala com ele. Mostre ao seu cônjuge (namorado) que ele é altamente honrado aos seus olhos. (Leituras bíblicas: Rm 12, 10; 13, 7)

16° dia [O Amor intercede]: Comece hoje orando pelo coração do seu cônjuge (namorado). Ore por três áreas específicas da vida dele onde você deseja que Deus trabalhe. Ore por seu casamento (namoro, relacionamento). (Leituras bíblicas: Mt 7, 7; Lc 18, 1; Flp 4, 6-7; Tg 5, 16; 3Jo 2)

17° dia [O Amor traz intimidade]: Decida guardar os segredos do seu cônjuge (namorado), (a menos que seja perigoso para ele ou para você) e orar por ele. Fale com ele e demonstre amor, apesar desses segredos. Ouça-o quando ele compartilha com você seus pensamentos mais secretos e suas lutas. Faça com que ele se sinta seguro. (Leituras bíblicas: Gn 2, 25; Pr 17, 9; Ct 6, 3; 1Jo 4, 18)

18° dia [O Amor busca entender]: Prepare um jantar especial em casa só para vocês dois. O jantar pode ser tão agradável quanto você preferir. Separe este momento para conhecer seu cônjuge (namorado) melhor, talvez em áreas que vocês raramente conversam. Decida fazer desta uma noite agradável para você e para o seu amor. (Leituras bíblicas: Pr 3, 13; 4, 7; 24, 3-4)

19° dia [É impossível Amar?]: Olhe os desafios dos dias anteriores. Existe algum que parecia impossível para você? Você percebeu que precisa de Deus para mudar seu coração e lhe dar capacidade para amar? Peça a Ele para mostrar onde você precisa da intervenção Dele, e peça força e graça para cumprir o seu destino eterno. (Leituras bíblicas: Mt 19, 26; 1Jo 4, 7)

20° dia [Jesus Cristo é amor]: Desafio você a conhecer a Deus pela palavra. Desafio você a crer em Jesus como seu Salvador. Desafio você a orar: "Senhor Jesus, sou pecador, mas o Senhor mostrou o seu amor por mim morrendo para perdoar os meus pecados e o Senhor provou o seu poder de me salvar da morte através da ressurreição. Senhor, mude o meu coração, e salve-me pela sua graça." (Leituras bíblicas: Rm 5, 7-8; 2Cor 6, 2; Ef 2, 8-9; 1Jo 4, 8)

21° dia [O Amor é saciado em Deus]: Separe hoje um tempo para orar e ler a Bíblia. Tente ler um capítulo de Provérbios (são trinta e um - um suprimento para o mês todo), ou um capítulo do Evangelho (Mt, Mc, Lc, Jo) a cada dia. Enquanto você faz isso, mergulhe no amor e nas promessas que Deus tem para você. Isso lhe proporcionará crescimento na sua caminhada com Ele. (Leituras bíblicas: Jo 4, 10; Flp 4, 6-7. 19; Is 58, 11)

22° dia [O Amor é fiel]: Amar é uma escolha. Não um sentimento. É uma ação inicial não uma ação automática. Hoje, escolha estar comprometido a amar, mesmo que seu cônjuge (namorado) tenha perdido o interesse em receber o seu amor. Diga a ele hoje, com palavras semelhantes a essas, "eu amo você e ponto final. Eu escolho amar você mesmo se você não me amar em troca". (Leitura bíblica: Lc 6, 32-33)

23°dia [O Amor sempre protege]: Remova qualquer coisa que esteja atrapalhando seu relacionamento, qualquer vício ou influência que esteja se infiltrando em seu amor e afastando seu coração do seu cônjuge (namorado). (Leituras bíblicas: Mt 24, 43; 1Cor 13, 7)

24° dia [Amor  x  cobiça]: Acabe com a cobiça agora. Identifique todo objeto dela em sua vida e remova-o. Rejeite todas as mentiras em que você acreditava ter prazer. A cobiça não pode terá permissão de ficar por perto. Ela deve ser destruída e exterminada - hoje - e substituída pelas promessas de Deus e por um coração cheio do seu perfeito amor. (Leituras bíblicas: Mt 6, 25-34; 1Tm 6, 7)

25° dia [O Amor perdoa]: Seja o que for que você ainda não perdoou em seu cônjuge (namorado), perdoe hoje. Esqueça. Assim como pedimos a Deus para "perdoar as nossas ofensas" a cada dia, devemos pedir a Deus para ajudar-nos a "perdoar a quem nos tem ofendido" a cada dia também. A falta de perdão tem mantido você e seu cônjuge (namorado) na prisão por muito tempo. Diga de coração, "eu escolhi perdoar". (Leitura bíblica: Mt 18, 21-35)

26° dia [O Amor é responsável]: Separe um tempo para orar pelas áreas onde você tem errado. Peça o perdão de Deus, então, humilhe-se a ponto de admiti-los ao seu cônjuge (namorado). Faça isso sinceramente e verdadeiramente. Peça perdão a seu cônjuge (namorado) também. Não importa como ele irá responder, certifique-se de ter assumido sua responsabilidade em amor. Mesmo se ele responder com uma crítica, aceite-a como um conselho. (Leituras bíblicas: Rm 2, 1; 1Jo 1, 8-9)

27° dia [O Amor encoraja]: Elimine do seu lar (do seu namoro, do seu convívio) o veneno das expectativas erradas. Pense em uma área onde seu cônjuge (namorado) tenha dito que você está esperando muito, e diga a ele que você está arrependido por ter exigido muito dele. Prometa que você procurará entendê-lo, e o assegure de seu amor incondicional. (Leituras bíblicas: 1Tes 5, 11; Hbr 10, 24)

28° dia [O Amor se sacrifica]: Qual é a maior necessidade do seu cônjuge (namorado) nesse momento? Existe alguma necessidade que você pode suprir hoje através de um ato corajoso de sacrifício da sua parte? Independente da necessidade ser grande ou pequena. Proponha-se a fazer o que você puder para suprir essa necessidade. (Leituras bíblicas: Mt 25, 35-36; Gl 6, 2; 1Jo 3, 16)

29° dia [A motivação do Amor]: Antes de ver seu cônjuge (namorado) hoje, ore por ele e por suas necessidades. Diga "eu te amo", sendo fácil para você ou não. Então expresse amor de maneira sensível. Volte-se a Deus em oração mais uma vez, agradecendo a Ele por ter lhe dado o privilégio de amar essa pessoa tão especial - incondicionalmente. Assim como Ele ama vocês dois. (Leituras bíblicas: Jo 15, 12-17; Cl 3, 23)

30° dia [O Amor traz unidade]: Separe uma área que causa divisão em seu casamento (namoro, relacionamento) e olhe para ela hoje como uma oportunidade de orar. Peça a Deus para revelar o que há no seu ração que está ameaçando sua unidade com seu cônjuge (namorado). Ore para que Deus faça o mesmo com ele. E se for apropriado, discuta abertamente esse problema, buscando em Deus a unidade. (Leituras bíblicas: Gn 1, 26; Jo 17, 11)

31° dia [O Amor e o casamento]: Existe algum "rompimento" (com a família ou os amigos) que você ainda não teve coragem de realizar? Confesse-o ao seu cônjuge (namorado) hoje, e decida agir corretamente. A unidade do seu casamento (namoro, relacionamento) depende disso. Siga a unidade com o compromisso com seu cônjuge (namorado) e com Deus de fazer do seu casamento (namoro) o relacionamento humano mais importante da sua vida. (Leitura bíblica: Lc 9, 57-62)

32° dia [O Amor satisfaz as necessidades sexuais]: Se possível, relacione-se sexualmente com o seu marido (namorado) hoje. Faça isso de maneira que honre o que seu cônjuge (namorado) lhe disse (ou deixou implícito) a respeito das necessidades dele em relação à sexualidade. Peça a Deus para que esse momento seja agradável para os dois e para que também seja um caminho para uma intimidade cada vez maior. (Leitura bíblica: Ct 5, 10-16). Observação: No caso de namorados que ainda não tiveram a experiência de intimidade sexual, a tarefa deste dia não deve ser compreendida como obrigatória, no sentido literal. Pode ser substituída pelas atitudes de carinho e de intimidade, dentro dos atuais padrões de relacionamento.

33° dia [O Amor completa um ao outro]: Faça-o saber hoje que você deseja incluí-lo em suas próximas decisões, e que você precisa do seu conselho e ponto de vista. Se você ignorou as ideias dele no passado, admita seu descuido e peça-o para perdoá-lo. (Leituras bíblicas: Cl 3, 14-15; Ecl 4, 9-11)

34° dia [O Amor celebra a Deus]: Encontre um exemplo específico e recente de quando seu cônjuge (namorado) demonstrou o caráter cristão de forma notável. Elogie-o verbalmente por isto em algum momento do dia. (Leitura bíblica: 2Ts 1, 3-4)

35° dia [O Amor presta contas]: Busque um conselheiro para casais - alguém que seja um cristão firme e que será honesto e amoroso (e isento de homofobia). Se você sente que o aconselhamento é necessário, então dê o primeiro passo para marcar o primeiro encontro. Durante esse processo, peça a Deus para direcionar suas decisões e discernimento. (Leitura bíblica: Lc 3, 10-14)

36° dia [O Amor é a palavra de Deus]: Tenha o compromisso de ler a Bíblia todos os dias. Encontre um livro devocional ou outra fonte que lhe servirá como guia. Se seu cônjuge (namorado) está aberto a isto, veja se ele se comprometerá a ler a Bíblia diariamente (ou frequentemente) com você. Inicie submetendo cada área da sua vida à direção da palavra de Deus e comece a construir a sua vida e seu casamento (namoro, relacionamento) na rocha. (Leituras bíblicas: Rm 15, 4; 2Tm 3, 14)

37° dia [O Amor concorda em Oração]: Pergunte ao seu cônjuge (namorado) se vocês podem começar a orar juntos. Conversem sobre a melhor hora para fazer isso, seja pela manha na hora do almoço ou antes de dormir. Utilize este tempo para colocar suas preocupações, discórdias e necessidades diante do Senhor. Não esqueça de agradecê-lo pela provisão e pelas bênçãos. Mesmo se o seu cônjuge (namorado) se recusara fazer isso, decida ter esse tempo de oração diariamente, ainda que sozinho. (Leituras bíblicas: Lc 11, 5-13; Mt 18, 19-20)

38° dia [O Amor realiza sonhos]: Pergunte a si mesmo o que o seu cônjuge (namorado) iria querer, se fosse possível de obter. Leve isso em oração e comece a mapear um plano para atender a alguns (se não todos) desses desejos, em todos os níveis possíveis. (Leituras bíblicas: Rm 5, 8; 2Cor 9, 8)

39° dia [O Amor permanece]: Passe um tempo orando individualmente, então escreva uma carta de comprometimento ao seu cônjuge (namorado). Inclua a razão pela qual está se comprometendo com este casamento até a morte (ou namoro, relacionamento) e que decidiu amá-lo, não importam as razões. Deixe-a em um lugar onde o seu cônjuge (namorado) possa encontrá-la. (Leituras bíblicas: 1Cor 13, 8; 1Jo 3, 16.18)

40° dia [O Amor é uma aliança]: Escreva novas promessas assim como você fez no dia do seu casamento (compromisso, início de namoro). Guarde-as em algum lugar da sua casa. Talvez, se for apropriado (e possível), você possa renovar essas promessas formalmente diante de um ministro e com a família presente. Faça dessas promessas um testamento vivo do valor do casamento (namoro) aos olhos de Deus e da grande honra de ser um com seu cônjuge (namorado). (Leituras bíblicas: Jo 15, 9; 1Sm 18, 1-4)

Parabéns! Você chegou ao final de O Desafio de Amar - o livro. Mas a experiência e o desafio de amar o seu cônjuge (namorado) é algo que não tem que ter um fim. Continua para o resto da sua vida. Este livro termina no 40° dia, mas quem disse que o seu desafio terminou? E, à medida que você vê o seu casamento (namoro, relacionamento) por essa perspectiva, nós desafiamos você a considerá-lo como uma aliança e não como um contrato. Essas duas palavras são parecidas em significado e intenção, mas, na realidade, são bastante diferentes. Ver o casamento como um contrato é como dizer ao seu cônjuge: "Eu tomo você para mim e vamos ver se dá certo". Porém, vê-lo como uma aliança muda a fala para: "Eu me entrego a você e me comprometo com este casamento por toda a minha vida".  

13 de setembro de 2013

Mês da Bíblia (5) - 2° encontro

Foto: meh sea by ~oasis1

Sigo a proposta da CNBB de reflexão bíblica, baseada no texto do Evangelho de Lucas, de acordo com alguns temas principais. A minha leitura tem como o pano de fundo a identidade homossexual e católica, ambas em busca de conhecimento mútuo, através de um diálogo sereno e objetivo.
 
O segundo encontro aborda temas da vocação, missão e as exigências do discipulado. Este tema está em ressonância com a perspectiva do tema deste ano, que é o discipulado-missionário em Lucas e objetiva mostrar a radicalidade, na resposta dos chamados ao discipulado (Lc 5,11) e acentua o desprendimento que é uma atitude própria de todo discípulo, no seguimento de Jesus e, sobretudo no Evangelho Segundo Lucas.
 
O texto indicado é: "Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo, e seguiram a Jesus." (Lc 5, 11) Talvez seja interessante olhar o contexto mais amplo, principalmente os acontecimentos anteriores. É a passagem que contém o convite de um pregador (então pouco conhecido) aos pescadores: "Avance para águas mais profundas, e lancem as redes para a pesca." (Lc 5, 4) e a pesca milagrosa, acompanhada pelo espanto de Simão e de seus companheiros (cf. Lc 5, 6-9). Chama atenção, também, a prontidão de Simão em contrariar a própria lógica e experiência, para obedecer a estranha ordem do homem estranho... O "avançar às águas mais profundas" aconteceu tanto no sentido literal, quanto em forma de uma "viagem interior". Uma viagem na contramão, diga-se de passagem. É muito importante notar isso: Jesus mostra os novos horizontes e as realidades desconhecidas. Depois, convida a explorá-los. Não posso deixar de lembrar aqui de algumas afirmações do Pe. Frederico Lombardi, o porta-voz da Santa Sé, durante a entrevista concedida à Rádio Vaticano: O Papa Francisco fala muito de uma Igreja não auto-referencial, de uma Igreja de missão, de uma Igreja que olha para além de si mesma e a todo o mundo. A mim, veio em mente a belíssima Carta de João Paulo II no final do Jubileu, "Duc in altum", dirigida à Igreja do terceiro milênio. Assim, me parece que efetivamente, com o Papa Francisco, a barca da Igreja esteja viajando, sem medo, antes, com alegria de poder encontrar o mistério de Deus em novos horizontes.
 
Por mais óbvio que pareça, é extremamente importante admitir: existem, sim, novos horizontes, novos caminhos, novos rumos. É, justamente, o nome "Rumos novos" que foi escolhido para definir o "grupo de homossexuais católicos de Portugal que encoraja a animação da fé com homossexuais e suas famílias e que, acompanhado por um número cada vez maior de participantes de todas as idades, está lançando um novo olhar à Igreja Católica, reclamando a sua pertença ao Corpo de Cristo".

Eu sei que esta perspectiva de leitura e de reflexão bíblica pode irritar muita gente. Imagino os comentários, baseados principalmente na interpretação direta do texto de Lucas, mais ou menos neste sentido: "Aqueles homens, chamados por Cristo, deixaram as barcas e seguiram a Jesus e isso significa que vocês, gays e outros pervertidos, devem deixar esta vida de pecado e seguir os mandamentos de Deus e a doutrina da Igreja!". Bem, no momento, seria difícil esperar outra coisa. Tudo o que se refere aos dilemas de consciência, inclusive os conceitos de pecado, é delicado e não se resume, nem resolve, com apenas uma frase radical. É necessário o diálogo e o Papa Francisco tem falado sobre isso desde o início. Bento XVI também deixou orientações claras a esse respeito, por exemplo:  é absolutamente necessário o diálogo, conhecer-se reciprocamente, respeitar-se e procurar colaborar de todas as formas possíveis para as grandes finalidades da humanidade, ou para as suas grandes necessidades, para superar fanatismos e criar um espírito de paz e de amor. E isto está também no espírito do Evangelho, cujo sentido é precisamente que o espírito de amor, que aprendemos de Jesus, a paz de Jesus que Ele nos doou através da cruz, se torne presente universalmente no mundo. Neste sentido o diálogo deve ser diálogo verdadeiro, no respeito pelo próximo e na aceitação da sua alteridade; mas deve ser também  evangélico, no sentido que a sua finalidade fundamental é ajudar os homens a viver no amor e fazer com que este amor se possa expandir em todas as partes do mundo.

Sem dúvida, os homossexuais têm muitas "barcas a serem deixadas na margem", para seguir Jesus, sobretudo o pecado. O pecado, porém, está associado à condição humana e não apenas homossexual. Sim, as pessoas homossexuais enfrentam muitas situações particulares (inclusive, devido à falta de assistência pastoral séria), mas a solução não está na generalização, nem no preconceito. Esta é, de fato, a primeira "barca" que precisa ser abandonada. Seguir Jesus consiste em empregar a sua maneira de ir ao encontro do outro, sempre com o coração cheio de compreensão.

7 de junho de 2013

Muito além do arco-íris

O tamanho, sem dúvida, não é documento! Quando recebi a encomenda, enviada pelo Grupo Summus [Edições GLS], antes de abrir o pacote, pensei que tivesse sido enganado. A coisa não pesava quase nada e ao rasgar camadas e mais camadas de papelão, encontrei... um fino livreto de capa colorida:



Ah, como me enganei! A inicial decepção logo deu lugar à fascinação. Em pouco mais de um total de 100 páginas, mergulhei profundamente nos mais graves e reais dilemas da vida em dois e encontrei muitas pistas e soluções. O texto de Klecius Borges é baseado em sua prática clínica de psicólogo, dedicado ao atendimento de gays, lésbicas, bissexuais e seus familiares de acordo com a visão afirmativa. A principal tese, repetida em todos os capítulos, de maneira altamente objetiva, na abordagem de historias de vida real, é que não se pode tratar os problemas e desafios vividos nos relacionametos homoafetivos a partir de uma perspectiva heteronormativa. “Por mais que certas questões relacionais sejam comuns a todos os indivíduos, afirmar que casais são casais, não importando sua orientação e identidade sexual, é no mínimo um reducionismo. Para mim, essa atitude é inaceitável” - diz o Autor.

Digo mais: além de toda ajuda direta em questões que são também minhas, encontrei um argumento, ou melhor, uma analogia [ou lógica] que confirma todo o objetivo dos meus esforços relacionados à Pastoral para Homossexuais. Klecius escreve: Em minha prática clínica, predominantemente voltada para gays, lésbicas, bissexuais e seua familiares, as questões sobre relacionamentos são talvez as mais frequentes. Acredito não ser muito diferente em outras clínicas, mas no meu caso há uma particularidade: gays, lésbicas e bissexuais, ao contrário dos heterossexuais, não encontram nas livrarias, no cinema ou na televisão muitas referências ou representações sobre a natureza de seus relacionamentos - que, por razões óbvias, têm catacterísticas e desafios bastante diferentes daqueles que seguem heteronormatividade. Exatamente o mesmo pode ser dito sobre a falta de referências na assistência espiritual e pastoral da Igreja em relação às pessoas homo- e bissexuais. Por mais que se queira negar tal coisa, existe na Igreja (usando os termos do Autor) uma cultura não apenas heteronormativa, mas muitas vezes opressora e dominada, ainda hoje, por práticas e atitudes fortemente discriminatórias.

A Pastoral para Homossexuais não pretende substituir o trabalho de psicólogos e outros profissionais. Ela vem para somar e ocupar o seu lugar próprio. Basta ler a seguinte frase de Klecius Borges, com o devido "enxerto" da minha parte: Questões como autoaceitação, [espiritualidade, oração, vida sacramental, dilemas de consciência], visibilidade social, homofobia, visão patológica da sexualidade e preconceito em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à homopaternalidade, entre outras, além de específicas desse grupo, carregam em si um elevado teor emocional que requer, a meu ver, uma escuta distinta.

Enfim, recomendo a leiura do livro "Muito além do arco-íris: amor, sexo e relacionamentos na terapia homoafetiva" de Klecius Borges (Edições GLS, São Paulo, 2013). Compre aqui.

19 de maio de 2013

Pentecostes: novidade, harmonia, missão




O Papa Francisco, celebrando hoje a Solenidade de Pentecostes, dirigiu a todos nós uma belíssima mensagem (leia na íntegra aqui). A simplicidade e a coragem são as características notáveis da pregação do Papa Francisco. E quando leio as suas palavras, da perspectiva de um homossexual, batizado na Igreja Católica, encontro nelas uma mensagem de consolação e esperança. Os trechos que especialmente chamaram a minha atenção são estes:

A novidade causa sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós a construir, programar, projetar a nossa vida de acordo com os nossos esquemas, as nossas seguranças, os nossos gostos. E isto verifica-se também quando se trata de Deus [...] temos medo que Deus nos faça seguir novas estradas, faça sair do nosso horizonte frequentemente limitado, fechado, egoísta, para nos abrir aos seus horizontes. Mas, em toda a história da salvação, quando Deus Se revela traz novidade – Deus traz sempre novidade. [...] A novidade que Deus traz à nossa vida é verdadeiramente o que nos realiza, o que nos dá a verdadeira alegria, a verdadeira serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas o nosso bem. Perguntemo-nos hoje a nós mesmos: Permanecemos abertos às “surpresas de Deus”? Ou fechamo-nos, com medo, à novidade do Espírito Santo? Mostramo-nos corajosos para seguir as novas estradas que a novidade de Deus nos oferece, ou pomo-nos à defesa fechando-nos em estruturas caducas que perderam a capacidade de acolhimento? [...] À primeira vista o Espírito Santo parece criar desordem na Igreja, porque traz a diversidade dos carismas, dos dons. Mas não; sob a sua ação, tudo isso é uma grande riqueza, porque o Espírito Santo é o Espírito de unidade, que não significa uniformidade, mas a recondução do todo à harmonia. Só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. [...] Se [...] nos deixamos guiar pelo Espírito, a riqueza, a variedade, a diversidade nunca dão origem ao conflito, porque Ele nos impele a viver a variedade na comunhão da Igreja. [...] O Espírito Santo é a alma da missão. O Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e impele-nos para as periferias da existência a fim de anunciar a vida de Jesus Cristo. Perguntemo-nos, se tendemos a fechar-nos em nós mesmos, no nosso grupo, ou se deixamos que o Espírito Santo nos abra à missão.

Há alguns anos tenho conversado com várias pessoas a respeito de uma "Pastoral para homossexuais". A ideia, evidentemente, não é minha. Por mais incrível que pareça, ela vem da própria Santa Sé (leia a "Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"). Sempre procurei, como interlocutores nesse assunto, as pessoas que se identificam com a Igreja Católica e que são (ou simpatizam com) homossexuais. Todas as reações, até agora, variam entre o espanto e um pouco de admiração para com a ideia (desde que fique em dimensão de ideias). Ou seja, nunca consegui chegar, com ninguém, à decisão: "Está bem! Vamos começar!".

Continuo, então, escrevendo. E clamando pelo novo Pentecostes!

17 de julho de 2012

JMJ RIO2013


É muito natural que a Jornada Mundial da Juventude ocupe o lugar de destaque em todos os meios católicos de comunicação, bem como em nossas paróquias. Temos agora apenas um ano de contagem regressiva. Será que a Igreja (enquanto a instituição e enquanto o povo) saberá aproveitar esta HORA DA GRAÇA? Ou, mais uma vez, deixará tudo escorrer por entre os dedos...? E tudo isso, de novo, pela falta de atenção que, neste contexto, é o sinônimo de arrogância. O Idealizador (Fundador) das Jornadas, Beato João Paulo II, em sua última mensagem designada a tal evento [aqui] - que por isso pode ser lida como um testamento - escreveu:

São tantos os nossos contemporâneos que ainda não conhecem o amor de Deus, ou procuram encher o coração com alternativas insignificantes. É urgente, por conseguinte, ser testemunhas do amor contemplado em Cristo. O convite para participar na Jornada Mundial da Juventude é também para vós, queridos amigos que não sois batizados ou que não vos reconheceis na Igreja. Não é porventura verdade que também vós tendes sede de Absoluto e andais em busca de "algo" que dê significado à vossa existência? Dirigi-vos a Cristo e não sereis desiludidos.


Os homossexuais (entre tantos outros) não somente são ignorados/banalizados/desprezados (etc.) no ambiente eclesial, mas, eles próprios, em grande maioria, não admitem qualquer ligação sua com a Igreja. Há uns meses conversei com um gay assumido, católico, sobre a ideia de encontros para promover uma "Pastoral para homossexuais". Mesmo com todos os dilemas próprios para essa (aparente) dupla identidade, o rapaz definiu tal ideia como improvável.

Posso sonhar? Os grupos organizados de jovens homossexuais católicos, em vez de protagonizar atos do tipo "beijação" (a exemplo de Madri), poderiam formar núcleos da JMJ-GLBTS. Não para protestar, contestar e atrapalhar. Seria para marcar presença (na linguagem cristã: dar testemunho) e, justamente, aproveitar a HORA DA GRAÇA...

EI, VOCÊ QUE FAZ PARTE DA COMUNIDADE GLBTS!
EXERÇA SUA JUVENTUDE
E SEJA UM(A) VOLUNTÁRIO(A) DA JMJ RIO2013!
[AQUI]

5 de outubro de 2011

o povo GLBTS

São Benedito, celebrado hoje, nasceu na Itália por volta do ano de 1526 no seio de família pobre, descendente de escravos oriundos da Etiópia, daí o fato de ser chamado de Benedito, o Preto ou Mouro. Uniu-se aos eremitas organizados por São Jerônimo de Lanza por desejar entregar-se a uma vida de maior perfeição cristã, já que eles viviam conforme a regra de São Francisco de Assis, tanto assim que foi a sua observância que mereceu o cargo de superior daquela corporação de eremitas. Assumiu com dedicação e responsabilidade o cargo de mestre de noviços, e terminando o seu tempo de superior, voltou com a máxima simplicidade e naturalidade para os serviços da cozinha, onde ficou até a sua morte, em 05 de abril de 1589.

A oração da Missa diz: Ó Deus, quem em são Benedito, o Negro, manifestais as vossas maravilhas, chamando à vossa Igreja homens de todos os povos, raças e nações, concedei, por sua intercessão, que todos, feitos vossos filhos e filhas pelo batismo, convivam como verdadeiros irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

A expressão “homens de todos os povos, raças e nações” chamou a minha atenção. Primeiro, fui procurar no Dicionário do Aurélio (on-line aqui). Povo s.m. Conjunto de homens que vivem em sociedade. / Conjunto de indivíduos que constituem uma nação. / Conjunto de indivíduos de uma região, cidade, vila ou aldeia. / Conjunto de pessoas que não habitam o mesmo país, mas que estão ligadas por sua origem, sua religião ou por qualquer outro laço. / Conjunto dos cidadãos de um país em relação aos governantes. / Conjunto de pessoas que pertencem à classe mais pobre, à classe operária ou à classe dos não-proprietários; plebe. / Lugarejo, aldeia, vila, pequena povoação: um povo. / Público, considerado em seu conjunto. / Multidão de gente, as massas. / Fam. Família, a gente da casa.

Daí o termo que usei no título desta postagem: “o povo GLBTS”. Ainda que existam diferenças de pensamento e de comportamento, além de certas animosidades (talvez inevitáveis por ora), sem dúvida podemos falar de um “povo”. Se, portanto, Deus quis formar a Igreja de todos os povos, obviamente, é impossível excluir dessa realidade o povo GLBTS. Quem procura fazê-lo, esta pecando contra a vontade de Deus.

Os textos oficiais da Igreja católica, naquele seu típico estilo medroso (pois vai muito além de cautela), mencionam indiretamente a existência de tal “povo”. Infelizmente, tudo o que tem de dizer nesse assunto, a Igreja faz em tom de advertência. Vejamos uns trechos da “Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais”, assinada em 1986 pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI (na íntegra aqui):

(...) Um número cada vez mais largo de pessoas, mesmo dentro da Igreja, exerce fortíssima pressão para levá-la a aceitar a condição homossexual como se não fosse desordenada e a legitimar os atos homossexuais. Os que, no interior da Igreja, pressionam nesta direção, frequentemente mantêm estreita ligação com os que agem fora dela. Ora, tais grupos externos são movidos por uma visão oposta à verdade acerca da pessoa humana, verdade que nos foi revelada plenamente no mistério de Cristo. Embora de modo não de todo consciente, eles manifestam uma ideologia materialista, que nega a natureza transcendente da pessoa humana bem como a vocação sobrenatural de cada indivíduo. (...) Mesmo dentro da Igreja formou-se uma corrente, constituída por grupos de pressão com denominações diferentes e diferente amplitude, que tenta impor-se como representante de todas as pessoas homossexuais que são católicas. Na realidade, seus adeptos são, na maioria dos casos, pessoas que, ou desconhecem o ensinamento da Igreja, ou procuram subvertê-lo de alguma maneira. Tenta-se reunir sob a égide do catolicismo pessoas homossexuais que não têm a mínima intenção de abandonar o seu comportamento homossexual. Uma das táticas usadas é a de afirmar, em tom de protesto, que qualquer crítica ou reserva às pessoas homossexuais, à sua atitude ou ao seu estilo de vida, é simplesmente uma forma de injusta discriminação. Em algumas nações funciona, como consequência, uma tentativa de pura e simples manipulação da Igreja, conquistando-se o apoio dos pastores, frequentemente em boa fé, no esforço que visa mudar as normas da legislação civil. Finalidade de tal ação é ajustar esta legislação à concepção própria de tais grupos de pressão, para a qual o homossexualismo é, pelo menos, uma realidade perfeitamente inócua, quando não totalmente boa. (nn. 8-9)

Alguns grupos costumam até mesmo qualificar de «católicas» as suas organizações ou as pessoas às quais pretendem dirigir-se, mas, na realidade, não defendem nem promovem o ensinamento do Magistério; ao contrário, às vezes, atacam-no abertamente. Mesmo reafirmando a vontade de conformar sua vida ao ensinamento de Jesus, de fato os membros desses grupos abandonam o ensinamento da Sua Igreja. Este comportamento contraditório de forma alguma pode receber o apoio dos Bispos. (n. 14)

Deve ser retirado todo apoio a qualquer organização que procure subverter o ensinamento da Igreja, que seja ambígua quanto a ele ou que o transcure completamente. Tal apoio, mesmo só aparente, pode dar origem a mal-entendidos graves. Uma atenção especial deveria ser dedicada à programação de celebrações religiosas e ao uso, por parte desses grupos, de edifícios de propriedade da Igreja, inclusive a possibilidade de dispor das escolas e dos institutos católicos de estudos superiores. Para alguns, tal permissão de utilizar uma propriedade da Igreja pode parecer apenas um gesto de justiça e de caridade, mas, na realidade, ela contradiz as finalidades mesmas para as quais aquelas instituições foram fundadas, e pode ser fonte de mal-entendidos e de escândalo. (n. 17)

Para que não fiquemos totalmente desanimados, termino com outra citação. É do livro de Pe. José Lisboa “Acompanhamento de vocações homossexuais” que, partindo do principio de que “nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta” (p. 72; leia também aqui), apresenta as seguintes orientações:

[Entre outros, um] caso emblemático é aquele da pessoa homossexual que decide viver a sua vocação cristã participando de um movimento de pessoas homossexuais. Quando isso acontece, o papel do animador ou da animadora vocacional é, em primeiro lugar, lembrar ao vocacionado ou vocacionada que tal participação não é algo eticamente neutro. Esse fato tem consequências, especialmente quando se trata de alguém que ocupa uma função paradigmática dentro da comunidade eclesial. Uma vez colocada essa premissa, a pessoa que acompanha quem está em discernimento precisa ajudá-lo a verificar atentamente qual a ideologia que está por trás do movimento. Será indispensável que a pessoa tome consciência do grau de liberdade que o envolvimento num movimento desse tipo deixa para os seus participantes. Às vezes a participação cm associações desse tipo, sobretudo quando são de inspiração cristã, pode ajudar a superar uma serie de dificuldades, especialmente o problema da solidão sofrida pelos homossexuais, em razão do isolamento da sociedade provocado pela discriminação e pelo preconceito. Porém, há casos de grupos fechados e desorientados, verdadeiros guetos, bastante complicados. Estes mais do que ajudar a resolver os problemas só fazem aumentar as dificuldades. Especialmente para aquelas pessoas que ainda não superaram certas dificuldades provenientes da descoberta da sua condição de homossexual.

Thévenot [Pe. Xavier Thévenot, professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris] acredita que se o homossexual tem clareza da sua situação, conhece bem o ambiente, é capaz de avaliar as propostas do grupo e é suficientemente maduro para reagir a toda tentativa de manipulação e de fechamento do movimento, nada o impede de participar do mesmo. Todavia, lembra ainda esse autor, seria aconselhável que esse não fosse o único compromisso social da pessoa e que ela pudesse avaliar a sua participação com outros cristãos que não fazem parte do movimento homossexual. (pp. 78-79)

2 de outubro de 2011

O princípio da EPIKÉIA

Recebi o comentário no meu texto anterior (aqui) do Pessoal da Diversidade Católica (conheça o blog aqui) e como o assunto é sério e amplo (certamente não para uma simples "resposta ao comentário"), decidi transcrever aqui alguns trechos do livro "Acompanhamento de vocações homossexuais" (autor: Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira). Os grifos no texto são meus.

Uma parte do comentário que recebi diz: É sempre bom quando se percebe que a homoafetividade e o homoerotismo não são problemáticos em si; a grande delicadeza da doutrina do Magistério, hoje, é justamente a premissa de que o homoerotismo é desordenado e, portanto, o homoafetivo deve manter o celibato... Qual a posição desse autor a respeito?

O livro é tão bom que a sinto vontade de transcrevê-lo, praticamente, na íntegra. Como, porém o conceito de um blog não permite isso, vou me controlar [:)] e citar algumas partes mais importantes. O autor fala várias coisas sobre a homoafetividade e o homoerotismo. É verdade que o livro – em sua maior parte - aborda o tema de acompanhamento vocacional destinado àqueles que são chamados ao sacerdócio ou à vida religiosa, mas não deixa de apontar os princípios para o mesmo trabalho para com os católicos leigos que, igualmente, são chamados a diversos ministérios dentro da comunidade cristã.

Padre José Lisboa declara abertamente que não existem razões suficientes para se excluir alguém das nossas comunidades por causa do seu jeito atual de viver a sexualidade. Todavia, a acolhida não deve acontecer por motivos de piedade, como se a pessoa homossexual fosse alguém miserável, pecador público degenerado, que precisasse de pena e de misericórdia da nossa parte. Acolhe-se a pessoa porque é humana e porque ela é portadora de dignidade e de valores, independentemente daquilo que ela seja. As pessoas homossexuais são portadoras de qualidades e de talentos que não se encontram com facilidade no comum dos mortais. (p. 12)

Quanto ao próprio acompanhamento vocacional, o autor diz: O importante em tudo isso é que a animação vocacional contribua efetivamente para que o vocacionado ou vocacionada homossexual descubra a verdade acerca da sua situação e queira acolher essa verdade. A partir disso poderá fazer uma verificação profunda sobre a possibilidade ou não de abraçar um tipo específico de vocação. Certamente as exigências e as futuras responsabilidades de cada vocação específica são bem diferentes. Aquelas dos leigos e das leigas não são as mesmas da vida consagrada e do ministério ordenado. E vice-versa. Mas os vocacionados e as vocacionadas não podem ser enganados. Não devemos esconder deles as reais dificuldades que poderão enfrentar. (...) Quando há fortes indícios de que a pessoa não tem a mínima estrutura para assumir um tipo de vocação específica, é melhor ajudá-la a repensar o seu projeto. Fazer o contrário é enganar os vocacionados e as vocacionadas homossexuais e contribuir para futuras histórias sofridas e desastrosas. (p. 38)

E agora chegamos ao que interessa: “O acompanhamento de vocações homossexuais inclui também um itinerário voltado especificamente para os cristãos leigos e as cristãs leigas. ‘Se todas as pessoas são pensadas e queridas por Deus, antes mesmo de serem concebidas, como não admitir que Ele tenha planos para elas e também para elas tenha previsto alguma missão? Ninguém vem ao mundo por acaso, e, por isso mesmo, nos planos de Deus ninguém está sobrando’ [Antonio Moser*; “O enigma da esfinge: a sexualidade”, p. 258]. Este princípio teológico justifica a elaboração de um projeto de animação vocacional que contemple o acompanhamento de vocacionados e vocacionadas homossexuais leigos e leigas. (...) O animador ou a animadora vocacional deve ter presente que nem sempre é fácil para as pessoas cumprir determinadas exigências. Muitas vezes certas teorias são elaboradas por burocratas aos quais não falta nada. É muito fácil impor, aos outros, normas que nunca seremos obrigados a cumprir. Mas na prática a teoria é outra. Deve-se então, nesse tipo de acompanhamento vocacional, evitar fardos pesados insuportáveis que nós mesmos não seríamos capazes de carregar (cf. Mt 23, 1-4). (...) Não se pode falar de salvação quando o rigorismo e a rigidez transformam a vida da pessoa num verdadeiro inferno. (...) O trabalho do animador ou da animadora vocacional é contribuir para que cada vocacionado ou vocacionada, particularmente os homossexuais, sejam sensíveis à própria consciência e a sigam fielmente. Assim sendo, deve-se ter muito cuidado para não tentar violentar a consciência das pessoas, tentando impor a todo custo as concepções pessoais. É claro que existe a objetividade dos princípios e das normas. Mas esta serve tão-somente para o bem das pessoas. Em última instância, é o ser humano que decide diante de Deus. (...) Ninguém pode ser forçado a agir contra a sua consciência. (...) À luz da experiência de fé, a homossexualidade se transforma em uma forma concreta de se relacionar co Deus. De fato, vivendo com muita humildade, buscando o equilíbrio na vivência da sexualidade, superando toda forma de conformismo, mas também de perversão ou laxismo, a pessoa homossexual pode chegar a uma verdadeira experiência mística, percebendo-se como alguém amado por Deus. E a partir desta experiência poderá amar de verdade as pessoas, sem angústia e sem manipulações. Basta que para isso o homossexual tenha sido ajudado a libertar-se tanto da imagem de um Deus castrador como da atitude orgulhosa que leva ao fechamento e à auto-suficiência.

(...) O acompanhamento vocacional de homossexuais torna-se mais complexo quando o vocacionado ou vocacionada, a partir da sua convicção de fé, no uso de sua liberdade, decide assumir comportamentos considerados mais ousados e que fogem dos padrões comumente aceitos pela maioria da população católica. Neste caso, é necessário que o animador ou animadora vocacional tenha uma profunda maturidade humana e afetiva, sexual e cristã, para poder continuar realizando a sua missão sem traumas e sem preconceitos. Quem acompanha esses casos, sem deixar de considerar as indicações da fé cristã e as orientações da Igreja, precisará de uma grande liberdade interior para não sucumbir diante das provocações do vocacioando ou vocacionada, como também diante do rigorismo e da intransigência da lei eclesiástica. Vale mais uma vez recordar que a lei existe para promover o bem das pessoas e não o contrário. Alguém, motivado pela fé e pela consciência, pode, muitas vezes, fazer algo diferente daquilo que a lei determina. E na maioria das vezes o faz de um modo mais perfeito. Quando isso acontece tal pessoa está revelando os limites da lei. De fato, é sempre possível que uma lei se torne obsoleta no sentido que não responde mais à sua finalidade que é o bem e a salvação das pessoas. E quando algo se torna antiquado e não mais colabora para a salvação das pessoas precisa ser mudado. E, normalmente, alguém tem de correr esse risco de romper com o estabelecido, mesmo sob a pena de carregar o estigma de herético ou blasfemador. Foi o que aconteceu com Jesus. Nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta. Por isso em todos os casos a lei da vida precisa ser sempre aplicada. Quando a lei não facilita o desenvolvimento da fé, da vida, da graça e da salvação ela não tem mais sentido. No acompanhamento vocacional o animador ou animadora não pode esquecer que a própria moral cristã sempre defendeu o direito a epikéia. Esta á, antes de tudo, uma atitude da pessoa que, olhando para a ordem estabelecida e confrontando-a com a sua situação concreta e para a realidade que lhe cerca, resolve ir além do ordenamento jurídico. É claro que existe sempre o risco do individualismo e do laxismo. Para não cair nesse perigo, a pessoa, antes de decidir avançar, precisa avaliar a sua atitude honestamente, com retidão, sem fazer pouco das normas, das leis e da autoridade. Isso tudo pode trazer conflito, inclusive com as autoridades estabelecidas, mas o princípio da epikéia afirma que a coisa mais importante não é pura e simples fidelidade à lei, mas a fidelidade à própria realidade, guiada pela retidão de consciência e pela decisão de obedecer a um apelo interior. (...) A epikéia, como atitude virtuosa, exige a prontidão para ousar. Em linha de princípio, corre-se este risco em toda situação que esteja sob a legislação positiva. Isto porque, segundo Santo Tomás de Aquino, em todo o campo do direito, a virtude da epikéia é o guia. (...)

Temos de partir do princípio que nem todas as pessoas têm o carisma do celibato. Por isso pode acontecer que um homossexual não consiga permanecer sem a convivência com alguém. A Igreja Católica propõe, por meio de seus documentos, que os homossexuais cristãos pratiquem a castidade. Isso é muito fácil quando não se está na pele da outra pessoa. Mas, como vimos antes, na prática é tudo muito complicado. Como exigir a continência de sujeitos que estão profundamente convencidos de não poder conservá-la e que sabem, ao mesmo tempo, que não podem casar? (pp. 71-74)

Padre José Lisboa cita um dos “casos emblemáticos”, aquele da pessoa homossexual que, sabendo da sua condição, decide em consciência formar um casal com outra pessoa do mesmo sexo, pretendendo continuar a viver como cristão. (...) É importante considerar esse caso porque a legislação de muitos países e a consciência coletiva tendem a aceitar cada vez mais essa situação como normal. E muitos cristãos homossexuais não chegam a formalizar a união por causa do medo de serem afastados da comunidade cristã. No processo de discernimento, o animador ou animadora vocacional precisa propor algumas considerações importantes ao vocacionado em questão. Não será suficiente o argumento do pecado, da condenação e da proibição, uma vez que essa pedagogia normalmente produz efeito contrário, levando a pessoa a uma vida até mais permissiva do que antes. Começando sempre pela reflexão sobre a fidelidade ao projeto de vida plena que Deus tem para cada pessoa, o animador ou animadora pode e deve interrogar o vocacionado sobre suas intenções, sobre o conceito de fidelidade, sobre o sentido da vida a dois. Não deve deixar de lado a proposta do ensinamento da Igreja sobre a questão. Além disso, pode e deve refletir sobre a importância da satisfação plena na realização do ato sexual, uma vez que existe o risco de não haver plena complementação no encontro íntimo entre pessoas do mesmo sexo. As pesquisas feitas por Thévenot** indicam que muitos casais homossexuais não se sentem satisfeitos com a relação e por isso se separam muito rápido. Há casos em que a insatisfação é tão grande que a pessoa, mesmo vivendo com alguém, busca com muita frequência relações sexual-genitais com outras pessoas. Porém, com muita honestidade, é preciso dizer que não faltam exemplos de casais homossexuais que conseguiram fazer uma experiência profunda de Deus-Amor. Para alguns, a vida a dois foi como que uma “terapia da vida”. Mas para chegar a isso tiveram que superar dolorosamente muitos desafios e cultivar muitos valores cristãos entre os quais o perdão, o desprendimento, a pobreza interior. Tiveram de ir além da “paixão fulminante” para abrir-se mais ao dom da ternura, da renúncia de um relacionamento perverso. Certamente não vivem uma união idílica. Permanecem nessas situações difíceis de carência e limites. É preciso confessar, com Thévenot, que, apesar de tudo, é possível encontrar hoje neste tipo de união pessoas vivendo com dignidade a vida cristã.

Existem autores que evocam também para esse caso o princípio da epikéia já mencionado anteriormente. Partem do princípio tomístico de que a verdade e a retidão não são iguais para todos. Por isso, em determinadas situações é possível transgredir legitimamente a lei para salvar o bem das pessoas. Todavia, lembram esses autores, para que o princípio da epikéia possa ser aplicado corretamente é indispensável que a decisão passe pelo crivo da razão, a qual tem a função de regular sabiamente as inclinações e paixões humanas. Não bastam o instinto e a paixão desmedida. De acordo com o mesmo princípio tomístico todas as vezes que agimos sem consultar a razão cometemos um pecado. [comentário no rodapé: Thévenot acredita que por honestidade intelectual este princípio tomístico não pode ser aplicado ao caso dos homossexuais porque, segundo Tomás, a razão da relação sexual reside na conservação da espécie. Hoje, porém, a reprodução não é mais considerada a razão exclusiva da relação sexual (cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 48). Também por honestidade intelectual é preciso dizer que, biblicamente falando, a relação sexual é destinada antes de tudo à superação da solidão: “Não é bom que o homem esteja só. Vôo fazer uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2, 18). O filho é a consequência e não a razão principal da relação sexual entre duas pessoas que verdadeiramente se amam.]

Portanto, no acompanhamento vocacional se abre uma brecha para evitar todo tipo de condenação. O papel do animador ou da animadora vocacional não é de ser porta-vos de Satanás, o acusador dos irmãos e irmãs (cf. AP 12, 10), mas de ser mensageiro da salvação trazida por Cristo: “Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que justifica? Quem condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda que tenha ressuscitado e está à direita de Deus, intercedendo por nós?” (Rm 8, 33-34). Vimos anteriormente que também as pessoas homossexuais são queridas por Deus e não estão sobrando no mundo. O papel de quem acompanha essas pessoas é ajudá-las a chegar o máximo possível à meta que nos é proposta. (pp. 75-78)
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Notas (minhas)
* Frei Antônio Moser é Diretor Presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis/ RJ, Membro do Conselho Administrativo da Diocese de Petrópolis/ RJ, Pároco da Igreja de Santa Clara, Diretor do Centro Educacional Terra Santa, Membro da Comissão de Bioética da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Coordenador do Comitê de Pesquisa em Ética da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), além de conferencista no Brasil e no exterior. Escreveu 25 livros, participou como co-autor e colaborador de inúmeros e publicou incontáveis artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Atualmente desenvolve intensa atividade pastoral, sendo um dos principais especialistas brasileiros em Pastoral Familiar e Bioética.

** Pe. Xavier Thévenot, eminente professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris, membro da Congregação Salesiana. Os Salesianos de Dom Bosco se dedicam particularmente à educação da juventude, o que dá maior autoridade e crédito a esse autor, em termos de educação da sexualidade.