ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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29 de novembro de 2011

André e os gregos

Havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa. Eles se aproximaram de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e disseram: “Senhor, queremos ver Jesus”. Filipe conversou com André, e os dois foram falar com Jesus. (Jo 12, 20-22)

O Papa Bento XVI dedicou uma das suas catequeses [em junho de 2006 - leia aqui] à figura de Santo André (cuja festa é celebrada no dia 30 de novembro):

A primeira característica que em André chama a atenção é o nome: não é hebraico, como teríamos pensado, mas grego, sinal de que não deve ser minimizada uma certa abertura cultural da sua família. Estamos na Galileia, onde a língua e a cultura gregas estão bastante presentes. (...)

Para a festa da Páscoa narra João tinham vindo à cidade santa alguns Gregos, provavelmente prosélitos ou tementes a Deus, que vinham para adorar o Deus de Israel na festa da Páscoa. André e Filipe, os dois apóstolos com nomes gregos, servem como intérpretes e mediadores deste pequeno grupo de Gregos junto de Jesus.

A resposta do Senhor à sua pergunta parece como muitas vezes no Evangelho de João enigmática, mas precisamente por isso revela-se rica de significado. Jesus diz aos dois discípulos e, através deles, ao mundo grego: "Chegou a hora de se revelar a glória do Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto" (12, 23-24).

O que significam estas palavras neste contexto? Jesus quer dizer: sim, o encontro entre mim e os Gregos terá lugar, mas não como simples e breve diálogo entre mim e algumas pessoas, estimuladas sobretudo pela curiosidade. Com a minha morte, comparável à queda na terra de um grão de trigo, chagará a hora da minha glorificação. A minha morte na cruz originará grande fecundidade: o "grão de trigo morto" símbolo de mim crucificado tornar-se-á na ressurreição pão de vida para o mundo; será luz para os povos e para as culturas. Sim, o encontro com a alma grega, com o mundo grego, realizar-se-á naquela profundidade à qual faz alusão a vicissitude do grão de trigo que atrai para si as forças da terra e do céu e se torna pão. Por outras palavras, Jesus profetiza a Igreja dos gregos, a Igreja dos pagãos, a Igreja do mundo como fruto da sua Páscoa.

Tradições muito antigas vêem em André, o qual transmitiu aos gregos esta palavra, não só o intérprete de alguns Gregos no encontro com Jesus agora recordado, mas consideram-no como apóstolo dos Gregos nos anos que sucederam ao Pentecostes; fazem-nos saber que no restante da sua vida ele foi anunciador e intérprete de Jesus para o mundo grego. Pedro, seu irmão, de Jerusalém, passando por Antioquia, chegou a Roma para aí exercer a sua missão universal; André, ao contrário, foi o apóstolo do mundo grego. (...)

Todas essas afirmações podem nos ajudar a reconhecer em Santo André o símbolo de um intercâmbio entre dois mundos diferentes. Antes: a civilização grega e a realidade judaica (depois cristã). Hoje, por que não: uma ponte, um encontro possível, entre o mundo cristão e o "mundo gay" (coincidentemente, o amor homossexual, é chamado de "amor grego").

Jesus insiste em nos convencer de todas as maneiras (hoje, por meio de Santo André) de que esse diálogo é possível e é necessário. Com outras palavras: fazem-se necessários homens e mulheres que, como André, pertençam a dois mundos, reconciliando-os mutuamente com o seu testemunho e a sua identidade...

Santo André, rogai por nós!

25 de outubro de 2011

o que realmente importa


Transcrevo o texto de Dom Orani, Arcebispo do Rio (os grifos são meus).

No último final de semana, comemoramos o Dia Mundial das Missões e celebramos o XXX Domingo do Tempo Comum. A Palavra de Deus deste final de semana nos convida a ir para a própria essência da nossa vida cristã e religiosa, trazendo para o centro da nossa reflexão e meditação o preceito do amor, que tem duas direções distintas e inseparáveis: o amor a Deus e o amor aos irmãos. Duas direções que estão integradas em um caminho de santidade e purificação, tendo os olhos fixos naquilo que realmente importa na vida humana e cristã: amar a todos e sempre, a qualquer pessoa, mesmo aquele que possa ser nosso maior inimigo.


Não é fácil viver de amor e no verdadeiro amor! É sempre mais fácil viver de amores superficiais e passageiros, inconclusivos, e que produzem apenas algum momento de prazer. O amor verdadeiro, que usa a linguagem de Cristo e é centrado em Cristo, nos convida a subir até o cume do Calvário, onde ele se manifesta como uma oblação, da obediência total à vontade de Deus, como uma resposta consciente de que Deus nos ama e nos ama tanto a ponto de dar o seu Filho por nós.

Amarás com todo... com todo... com todo ... Três vezes Jesus repete o convite à totalidade, ao impossível. Porque o homem ama, mas somente o amor de Deus é pleno e eterno, aquele que é o próprio Amor. Repete dois mandamentos antigos e bem conhecidos, mas acrescenta: o segundo é semelhante ao primeiro. Deduz-se com isso que o próximo é semelhante a Deus: este é o escândalo, a revolução trazida pelo Evangelho.

Amar a Deus com todo o coração. Ainda assim o coração dever amar o marido, a esposa, o filho, o amigo, o vizinho, e até mesmo o inimigo. Deus não rouba seu coração, Ele o multiplica.

Não é subtração, mas adição de amor! A novidade do cristianismo não é o mandamento de amar a Deus: amam o seu Deus muitos homens; fazem isso os místicos de todas as religiões. Mesmo aquele de amar o próximo como a si mesmo, já que está presente no Antigo Testamento. A novidade do cristianismo é o amor como aquele de Cristo. Os homens amam, os cristãos amam ao modo de Jesus. O amor é Ele quando lava os pés dos seus discípulos, quando chora pelo amigo morto, quando se alegra pelo nardo perfumado de Maria, quando se dirige ao traidor chamando-o de amigo e ora pelos que o matariam. Nem mesmo o seu sangue mantém para si mesmo, e recomeça pelos que estavam condenados, e tem a intenção de apagar o próprio conceito de inimigo. Amai-vos como eu vos amei. Não quando, mas como; não a quantidade, mas o estilo. Impossível amar quanto Ele, mas podemos seguir os seus passos para compreender o sabor, o fermento, o sal, e inseri-los em nossos dias: como eu fiz, vocês também devem fazer.


Amarás... Todo o nosso futuro está em um verbo, apresentado, porém, não como uma liminar, um imperativo nítido, mas conjugado no futuro, porque amar é uma ação interminável, pois vai durar tanto quanto perdurar o tempo e perdurará para a eternidade. Não uma exigência, mas uma necessidade para a vida, como respirar.

Amar, voz do verbo viver, voz do verbo morrer! O que devo fazer amanhã, Senhor, para estar vivo? Tu amarás. O que farei no mês seguinte ou no próximo ano, e depois, para o meu futuro? Tu amarás. E a humanidade, o seu destino, a sua história? Somente isso: o homem amará. Amar significa não morrer! Vai também e faze o mesmo e encontrarás a vida.


O Evangelho de Mateus deste final de semana, em sua extrema brevidade, é tudo o que pode e deve dizer-se sobre o significado da nossa fé e da nossa esperança. Aos presumidos mestres do tempo de Jesus era bem conhecida a lei de Deus a esse respeito. Já no Antigo Testamento, Deus tinha dado a conhecer os seus pensamentos através dos patriarcas, dos profetas, e tinha colocado no centro da religiosidade do seu povo o amor para com Deus sem limites, sem restrições, sem parcialidade ou reducionismo em todas os sentidos. Se o primeiro e fundamental mandamento do "Eu sou o Senhor vosso Deus, não terás outros deuses além de mim", deve ser traduzido em estilo de vida e de comportamento, ele só pode ser amor e só amor, porque Deus é Amor e Nele está a fonte de todo amor verdadeiro. Isso é bem diferente das paixões e das caricaturas de amor que permeiam a nossa sociedade. Jesus, nesta circunstância, dirige-se aos fariseus em resposta à sua pergunta específica. Não há muito para discutir sobre o tema sobre qual é o maior mandamento – é o amor a Deus e aos irmãos!

Tudo aqui em um nível conceitual e de mensagem e até poderíamos dizer: sob um plano jurídico. O problema é como traduzir este amor ao nível de princípio inspirador da fé e do nosso comportamento cotidiano. Desse mandamento depende a sabedoria, a organização, a perspectiva de cada pessoa e cada instituição. Deus reina onde há paz, justiça e a fraternidade. Onde impera o egoísmo reina a divisão da luta fratricida.

Eis porque já no livro do Êxodo, primeira leitura da Palavra de Deus deste final de semana, somos lembrados de como se traduz em obra o amor pelos outros. Em resumo, disse exatamente isso: que no coração de uma pessoa que ama existe a atenção para o estrangeiro, o órfão, a viúva, o forasteiro que está com problemas de toda espécie, principalmente no econômico. O amor não permite descontos e exceções, todos podem e devem ocupar um lugar especial em nossos corações e em nossas afeições e pensamentos. Ninguém deve ser excluído do nosso amor arraigado em Jesus Cristo.
É uma questão de tornar visível este amor através do testemunho da nossa vida. E, neste domingo, São Paulo Apóstolo nos lembra disso na passagem da Primeira Carta aos Tessalonicenses. Quem coloca Deus no centro de sua vida abandona o caminho do mal e da idolatria, que hoje são o dinheiro, o poder, o prazer, o sucesso, a carreira, a posição social e tudo o que é exterioridade.

Para vivermos em estado permanente de missão e com coragem testemunharmos o Senhor Ressuscitado, presente entre nós, somos chamados a viver com alegria o amor a Deus e ao próximo. Quem assim vive e é testemunha é missionário.

Que o Senhor nos livre de um egoísmo cada vez mais prevalente e emergente em todos os setores. Eis por que as nossas orações dirijam-se ao Senhor com todas as nossas boas intenções e nosso desejo sincero de fazer o bem: "Ó Pai, que fazeis todas as coisas por amor e sois a mais segura defesa dos humildes e dos pobres, dai-nos um coração livre de todos os ídolos para servir somente a Vós e amar nossos irmãos e irmãs segundo o Espírito do vosso Filho, fazendo do mandamento novo a única lei da vida" Amém.

Dom Orani João Tempesta,
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro.

17 de outubro de 2011

O Ano da Fé

O Vaticano divulgou hoje a Carta Apostólica "Porta fidei" ("A porta da fé"), com a qual o Papa Bento XVI proclama o Ano da Fé. Trata-se de período de 11 de outubro de 2012 (50º aniversário de abertura do Concílio Vaticano II) a 24 de novembro de 2013, Solenidade de Cristo Rei do Universo. "Será um momento de graça e de empenho para uma sempre mais plena conversão a Deus, para reforçar a nossa fé n'Ele e para anunciá-Lo com alegria ao homem do nosso tempo", explicou o Papa durante a Missa de encerramento do Encontro Novos Evangelizadores para a Nova Evangelização, que presidiu neste domingo, 16/10, na Basílica de São Pedro no Vaticano.

Leia a Carta do Papa aqui.

Para o contexto deste blog, achei muito interessante o seguinte trecho do texto de Bento XVI (os grifos são meus):

O Ano da Fé será uma ocasião propícia também para intensificar o testemunho da caridade. Recorda São Paulo: «Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade» (1 Cor 13, 13). Com palavras ainda mais incisivas – que não cessam de empenhar os cristãos –, afirmava o apóstolo Tiago: «De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta. Mais ainda! Poderá alguém alegar sensatamente: “Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé”» (Tg 2, 14-18).

A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra de realizar o seu caminho. De fato, não poucos cristãos dedicam amorosamente a sua vida a quem vive sozinho, marginalizado ou excluído, considerando-o como o primeiro a quem atender e o mais importante a socorrer, porque é precisamente nele que se espelha o próprio rosto de Cristo. Em virtude da fé, podemos reconhecer naqueles que pedem o nosso amor o rosto do Senhor ressuscitado. «Sempre que fizestes isto a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40): estas palavras de Jesus são uma advertência que não se deve esquecer e um convite perene a devolvermos aquele amor com que Ele cuida de nós. É a fé que permite reconhecer Cristo, e é o seu próprio amor que impele a socorrê-Lo sempre que Se faz próximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança o nosso serviço no mundo, aguardando «novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça» (2 Pd 3, 13; cf. Ap 21, 1). ["Porta fidei", n. 14]

Agora (e sempre) a questão é de os católicos e demais seres humanos de boa vontade seguirem o ensinamento do Papa...

5 de outubro de 2011

o povo GLBTS

São Benedito, celebrado hoje, nasceu na Itália por volta do ano de 1526 no seio de família pobre, descendente de escravos oriundos da Etiópia, daí o fato de ser chamado de Benedito, o Preto ou Mouro. Uniu-se aos eremitas organizados por São Jerônimo de Lanza por desejar entregar-se a uma vida de maior perfeição cristã, já que eles viviam conforme a regra de São Francisco de Assis, tanto assim que foi a sua observância que mereceu o cargo de superior daquela corporação de eremitas. Assumiu com dedicação e responsabilidade o cargo de mestre de noviços, e terminando o seu tempo de superior, voltou com a máxima simplicidade e naturalidade para os serviços da cozinha, onde ficou até a sua morte, em 05 de abril de 1589.

A oração da Missa diz: Ó Deus, quem em são Benedito, o Negro, manifestais as vossas maravilhas, chamando à vossa Igreja homens de todos os povos, raças e nações, concedei, por sua intercessão, que todos, feitos vossos filhos e filhas pelo batismo, convivam como verdadeiros irmãos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.

A expressão “homens de todos os povos, raças e nações” chamou a minha atenção. Primeiro, fui procurar no Dicionário do Aurélio (on-line aqui). Povo s.m. Conjunto de homens que vivem em sociedade. / Conjunto de indivíduos que constituem uma nação. / Conjunto de indivíduos de uma região, cidade, vila ou aldeia. / Conjunto de pessoas que não habitam o mesmo país, mas que estão ligadas por sua origem, sua religião ou por qualquer outro laço. / Conjunto dos cidadãos de um país em relação aos governantes. / Conjunto de pessoas que pertencem à classe mais pobre, à classe operária ou à classe dos não-proprietários; plebe. / Lugarejo, aldeia, vila, pequena povoação: um povo. / Público, considerado em seu conjunto. / Multidão de gente, as massas. / Fam. Família, a gente da casa.

Daí o termo que usei no título desta postagem: “o povo GLBTS”. Ainda que existam diferenças de pensamento e de comportamento, além de certas animosidades (talvez inevitáveis por ora), sem dúvida podemos falar de um “povo”. Se, portanto, Deus quis formar a Igreja de todos os povos, obviamente, é impossível excluir dessa realidade o povo GLBTS. Quem procura fazê-lo, esta pecando contra a vontade de Deus.

Os textos oficiais da Igreja católica, naquele seu típico estilo medroso (pois vai muito além de cautela), mencionam indiretamente a existência de tal “povo”. Infelizmente, tudo o que tem de dizer nesse assunto, a Igreja faz em tom de advertência. Vejamos uns trechos da “Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais”, assinada em 1986 pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI (na íntegra aqui):

(...) Um número cada vez mais largo de pessoas, mesmo dentro da Igreja, exerce fortíssima pressão para levá-la a aceitar a condição homossexual como se não fosse desordenada e a legitimar os atos homossexuais. Os que, no interior da Igreja, pressionam nesta direção, frequentemente mantêm estreita ligação com os que agem fora dela. Ora, tais grupos externos são movidos por uma visão oposta à verdade acerca da pessoa humana, verdade que nos foi revelada plenamente no mistério de Cristo. Embora de modo não de todo consciente, eles manifestam uma ideologia materialista, que nega a natureza transcendente da pessoa humana bem como a vocação sobrenatural de cada indivíduo. (...) Mesmo dentro da Igreja formou-se uma corrente, constituída por grupos de pressão com denominações diferentes e diferente amplitude, que tenta impor-se como representante de todas as pessoas homossexuais que são católicas. Na realidade, seus adeptos são, na maioria dos casos, pessoas que, ou desconhecem o ensinamento da Igreja, ou procuram subvertê-lo de alguma maneira. Tenta-se reunir sob a égide do catolicismo pessoas homossexuais que não têm a mínima intenção de abandonar o seu comportamento homossexual. Uma das táticas usadas é a de afirmar, em tom de protesto, que qualquer crítica ou reserva às pessoas homossexuais, à sua atitude ou ao seu estilo de vida, é simplesmente uma forma de injusta discriminação. Em algumas nações funciona, como consequência, uma tentativa de pura e simples manipulação da Igreja, conquistando-se o apoio dos pastores, frequentemente em boa fé, no esforço que visa mudar as normas da legislação civil. Finalidade de tal ação é ajustar esta legislação à concepção própria de tais grupos de pressão, para a qual o homossexualismo é, pelo menos, uma realidade perfeitamente inócua, quando não totalmente boa. (nn. 8-9)

Alguns grupos costumam até mesmo qualificar de «católicas» as suas organizações ou as pessoas às quais pretendem dirigir-se, mas, na realidade, não defendem nem promovem o ensinamento do Magistério; ao contrário, às vezes, atacam-no abertamente. Mesmo reafirmando a vontade de conformar sua vida ao ensinamento de Jesus, de fato os membros desses grupos abandonam o ensinamento da Sua Igreja. Este comportamento contraditório de forma alguma pode receber o apoio dos Bispos. (n. 14)

Deve ser retirado todo apoio a qualquer organização que procure subverter o ensinamento da Igreja, que seja ambígua quanto a ele ou que o transcure completamente. Tal apoio, mesmo só aparente, pode dar origem a mal-entendidos graves. Uma atenção especial deveria ser dedicada à programação de celebrações religiosas e ao uso, por parte desses grupos, de edifícios de propriedade da Igreja, inclusive a possibilidade de dispor das escolas e dos institutos católicos de estudos superiores. Para alguns, tal permissão de utilizar uma propriedade da Igreja pode parecer apenas um gesto de justiça e de caridade, mas, na realidade, ela contradiz as finalidades mesmas para as quais aquelas instituições foram fundadas, e pode ser fonte de mal-entendidos e de escândalo. (n. 17)

Para que não fiquemos totalmente desanimados, termino com outra citação. É do livro de Pe. José Lisboa “Acompanhamento de vocações homossexuais” que, partindo do principio de que “nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta” (p. 72; leia também aqui), apresenta as seguintes orientações:

[Entre outros, um] caso emblemático é aquele da pessoa homossexual que decide viver a sua vocação cristã participando de um movimento de pessoas homossexuais. Quando isso acontece, o papel do animador ou da animadora vocacional é, em primeiro lugar, lembrar ao vocacionado ou vocacionada que tal participação não é algo eticamente neutro. Esse fato tem consequências, especialmente quando se trata de alguém que ocupa uma função paradigmática dentro da comunidade eclesial. Uma vez colocada essa premissa, a pessoa que acompanha quem está em discernimento precisa ajudá-lo a verificar atentamente qual a ideologia que está por trás do movimento. Será indispensável que a pessoa tome consciência do grau de liberdade que o envolvimento num movimento desse tipo deixa para os seus participantes. Às vezes a participação cm associações desse tipo, sobretudo quando são de inspiração cristã, pode ajudar a superar uma serie de dificuldades, especialmente o problema da solidão sofrida pelos homossexuais, em razão do isolamento da sociedade provocado pela discriminação e pelo preconceito. Porém, há casos de grupos fechados e desorientados, verdadeiros guetos, bastante complicados. Estes mais do que ajudar a resolver os problemas só fazem aumentar as dificuldades. Especialmente para aquelas pessoas que ainda não superaram certas dificuldades provenientes da descoberta da sua condição de homossexual.

Thévenot [Pe. Xavier Thévenot, professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris] acredita que se o homossexual tem clareza da sua situação, conhece bem o ambiente, é capaz de avaliar as propostas do grupo e é suficientemente maduro para reagir a toda tentativa de manipulação e de fechamento do movimento, nada o impede de participar do mesmo. Todavia, lembra ainda esse autor, seria aconselhável que esse não fosse o único compromisso social da pessoa e que ela pudesse avaliar a sua participação com outros cristãos que não fazem parte do movimento homossexual. (pp. 78-79)

4 de outubro de 2011

honestidade intelectual

Um sujeito que se apresenta no twitter como "Sacerdote incardinado na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro", escreve, entre outras bobagens:

Ser de direita significa lutar até o derramamento de sangue contra a gayzificação da sociedade brasileira. [aqui cabe a pergunta: trata-se de sangue de quem?]
Ser de direita significa defender a família, os valores do trabalho, da dignidade, da honra, da pátria, de Deus, ser homofóbico.
Ser de direita significa ser católico tradicional, odiar comunistas, judeus, maçons, a democracia como tal.

É óbvio que não preciso ler essas coisas. Por outro lado, o twitter - neste caso - é público. Quando pensei em mencionar esse lamentável fato por aqui, vinha-me à mente e expressão do tipo: "tenho pena desse padre, vamos orar por ele". Mas, foi então que me lembrei de uma expressão do Padre José Lisboa (leia aqui): "a honestidade intelectual". Em nome da mesma, não posso dizer que o sentimento que brota do meu coração é a pena. Pois, é raiva mesmo. Isso me assemelha àquele canalha? Acho que não. A diferença entre raiva e ódio é muito grande. Conclusão: antigamente eu acreditava que não existem pessoas essencialmente más. Eu era muito ingênuo na época...

O Papa disse


Transcrevo um trecho da recente alocução do Papa Bento XVI, feita na ocasião do Ângelus, neste domingo (02 de outubro). O texto na íntegra pode ser lido aqui. Os grifos são meus.

Ele [Cristo] é “a pedra que os construtores rejeitaram” (cf. Mt 21,42), porque o julgaram como inimigo da lei e perigoso para a ordem pública, mas Ele mesmo, rejeitado e crucificado, ressuscitou, tornando-se a “pedra angular” na qual podem se apoiar com absoluta segurança os fundamentos de cada existência humana e do mundo inteiro.

Preciosas palavras, mas quem é que sabe ouvir...?

2 de outubro de 2011

O princípio da EPIKÉIA

Recebi o comentário no meu texto anterior (aqui) do Pessoal da Diversidade Católica (conheça o blog aqui) e como o assunto é sério e amplo (certamente não para uma simples "resposta ao comentário"), decidi transcrever aqui alguns trechos do livro "Acompanhamento de vocações homossexuais" (autor: Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira). Os grifos no texto são meus.

Uma parte do comentário que recebi diz: É sempre bom quando se percebe que a homoafetividade e o homoerotismo não são problemáticos em si; a grande delicadeza da doutrina do Magistério, hoje, é justamente a premissa de que o homoerotismo é desordenado e, portanto, o homoafetivo deve manter o celibato... Qual a posição desse autor a respeito?

O livro é tão bom que a sinto vontade de transcrevê-lo, praticamente, na íntegra. Como, porém o conceito de um blog não permite isso, vou me controlar [:)] e citar algumas partes mais importantes. O autor fala várias coisas sobre a homoafetividade e o homoerotismo. É verdade que o livro – em sua maior parte - aborda o tema de acompanhamento vocacional destinado àqueles que são chamados ao sacerdócio ou à vida religiosa, mas não deixa de apontar os princípios para o mesmo trabalho para com os católicos leigos que, igualmente, são chamados a diversos ministérios dentro da comunidade cristã.

Padre José Lisboa declara abertamente que não existem razões suficientes para se excluir alguém das nossas comunidades por causa do seu jeito atual de viver a sexualidade. Todavia, a acolhida não deve acontecer por motivos de piedade, como se a pessoa homossexual fosse alguém miserável, pecador público degenerado, que precisasse de pena e de misericórdia da nossa parte. Acolhe-se a pessoa porque é humana e porque ela é portadora de dignidade e de valores, independentemente daquilo que ela seja. As pessoas homossexuais são portadoras de qualidades e de talentos que não se encontram com facilidade no comum dos mortais. (p. 12)

Quanto ao próprio acompanhamento vocacional, o autor diz: O importante em tudo isso é que a animação vocacional contribua efetivamente para que o vocacionado ou vocacionada homossexual descubra a verdade acerca da sua situação e queira acolher essa verdade. A partir disso poderá fazer uma verificação profunda sobre a possibilidade ou não de abraçar um tipo específico de vocação. Certamente as exigências e as futuras responsabilidades de cada vocação específica são bem diferentes. Aquelas dos leigos e das leigas não são as mesmas da vida consagrada e do ministério ordenado. E vice-versa. Mas os vocacionados e as vocacionadas não podem ser enganados. Não devemos esconder deles as reais dificuldades que poderão enfrentar. (...) Quando há fortes indícios de que a pessoa não tem a mínima estrutura para assumir um tipo de vocação específica, é melhor ajudá-la a repensar o seu projeto. Fazer o contrário é enganar os vocacionados e as vocacionadas homossexuais e contribuir para futuras histórias sofridas e desastrosas. (p. 38)

E agora chegamos ao que interessa: “O acompanhamento de vocações homossexuais inclui também um itinerário voltado especificamente para os cristãos leigos e as cristãs leigas. ‘Se todas as pessoas são pensadas e queridas por Deus, antes mesmo de serem concebidas, como não admitir que Ele tenha planos para elas e também para elas tenha previsto alguma missão? Ninguém vem ao mundo por acaso, e, por isso mesmo, nos planos de Deus ninguém está sobrando’ [Antonio Moser*; “O enigma da esfinge: a sexualidade”, p. 258]. Este princípio teológico justifica a elaboração de um projeto de animação vocacional que contemple o acompanhamento de vocacionados e vocacionadas homossexuais leigos e leigas. (...) O animador ou a animadora vocacional deve ter presente que nem sempre é fácil para as pessoas cumprir determinadas exigências. Muitas vezes certas teorias são elaboradas por burocratas aos quais não falta nada. É muito fácil impor, aos outros, normas que nunca seremos obrigados a cumprir. Mas na prática a teoria é outra. Deve-se então, nesse tipo de acompanhamento vocacional, evitar fardos pesados insuportáveis que nós mesmos não seríamos capazes de carregar (cf. Mt 23, 1-4). (...) Não se pode falar de salvação quando o rigorismo e a rigidez transformam a vida da pessoa num verdadeiro inferno. (...) O trabalho do animador ou da animadora vocacional é contribuir para que cada vocacionado ou vocacionada, particularmente os homossexuais, sejam sensíveis à própria consciência e a sigam fielmente. Assim sendo, deve-se ter muito cuidado para não tentar violentar a consciência das pessoas, tentando impor a todo custo as concepções pessoais. É claro que existe a objetividade dos princípios e das normas. Mas esta serve tão-somente para o bem das pessoas. Em última instância, é o ser humano que decide diante de Deus. (...) Ninguém pode ser forçado a agir contra a sua consciência. (...) À luz da experiência de fé, a homossexualidade se transforma em uma forma concreta de se relacionar co Deus. De fato, vivendo com muita humildade, buscando o equilíbrio na vivência da sexualidade, superando toda forma de conformismo, mas também de perversão ou laxismo, a pessoa homossexual pode chegar a uma verdadeira experiência mística, percebendo-se como alguém amado por Deus. E a partir desta experiência poderá amar de verdade as pessoas, sem angústia e sem manipulações. Basta que para isso o homossexual tenha sido ajudado a libertar-se tanto da imagem de um Deus castrador como da atitude orgulhosa que leva ao fechamento e à auto-suficiência.

(...) O acompanhamento vocacional de homossexuais torna-se mais complexo quando o vocacionado ou vocacionada, a partir da sua convicção de fé, no uso de sua liberdade, decide assumir comportamentos considerados mais ousados e que fogem dos padrões comumente aceitos pela maioria da população católica. Neste caso, é necessário que o animador ou animadora vocacional tenha uma profunda maturidade humana e afetiva, sexual e cristã, para poder continuar realizando a sua missão sem traumas e sem preconceitos. Quem acompanha esses casos, sem deixar de considerar as indicações da fé cristã e as orientações da Igreja, precisará de uma grande liberdade interior para não sucumbir diante das provocações do vocacioando ou vocacionada, como também diante do rigorismo e da intransigência da lei eclesiástica. Vale mais uma vez recordar que a lei existe para promover o bem das pessoas e não o contrário. Alguém, motivado pela fé e pela consciência, pode, muitas vezes, fazer algo diferente daquilo que a lei determina. E na maioria das vezes o faz de um modo mais perfeito. Quando isso acontece tal pessoa está revelando os limites da lei. De fato, é sempre possível que uma lei se torne obsoleta no sentido que não responde mais à sua finalidade que é o bem e a salvação das pessoas. E quando algo se torna antiquado e não mais colabora para a salvação das pessoas precisa ser mudado. E, normalmente, alguém tem de correr esse risco de romper com o estabelecido, mesmo sob a pena de carregar o estigma de herético ou blasfemador. Foi o que aconteceu com Jesus. Nada impede, nem mesmo uma aprovação pontifícia, que uma lei eclesiástica se torne obsoleta. Por isso em todos os casos a lei da vida precisa ser sempre aplicada. Quando a lei não facilita o desenvolvimento da fé, da vida, da graça e da salvação ela não tem mais sentido. No acompanhamento vocacional o animador ou animadora não pode esquecer que a própria moral cristã sempre defendeu o direito a epikéia. Esta á, antes de tudo, uma atitude da pessoa que, olhando para a ordem estabelecida e confrontando-a com a sua situação concreta e para a realidade que lhe cerca, resolve ir além do ordenamento jurídico. É claro que existe sempre o risco do individualismo e do laxismo. Para não cair nesse perigo, a pessoa, antes de decidir avançar, precisa avaliar a sua atitude honestamente, com retidão, sem fazer pouco das normas, das leis e da autoridade. Isso tudo pode trazer conflito, inclusive com as autoridades estabelecidas, mas o princípio da epikéia afirma que a coisa mais importante não é pura e simples fidelidade à lei, mas a fidelidade à própria realidade, guiada pela retidão de consciência e pela decisão de obedecer a um apelo interior. (...) A epikéia, como atitude virtuosa, exige a prontidão para ousar. Em linha de princípio, corre-se este risco em toda situação que esteja sob a legislação positiva. Isto porque, segundo Santo Tomás de Aquino, em todo o campo do direito, a virtude da epikéia é o guia. (...)

Temos de partir do princípio que nem todas as pessoas têm o carisma do celibato. Por isso pode acontecer que um homossexual não consiga permanecer sem a convivência com alguém. A Igreja Católica propõe, por meio de seus documentos, que os homossexuais cristãos pratiquem a castidade. Isso é muito fácil quando não se está na pele da outra pessoa. Mas, como vimos antes, na prática é tudo muito complicado. Como exigir a continência de sujeitos que estão profundamente convencidos de não poder conservá-la e que sabem, ao mesmo tempo, que não podem casar? (pp. 71-74)

Padre José Lisboa cita um dos “casos emblemáticos”, aquele da pessoa homossexual que, sabendo da sua condição, decide em consciência formar um casal com outra pessoa do mesmo sexo, pretendendo continuar a viver como cristão. (...) É importante considerar esse caso porque a legislação de muitos países e a consciência coletiva tendem a aceitar cada vez mais essa situação como normal. E muitos cristãos homossexuais não chegam a formalizar a união por causa do medo de serem afastados da comunidade cristã. No processo de discernimento, o animador ou animadora vocacional precisa propor algumas considerações importantes ao vocacionado em questão. Não será suficiente o argumento do pecado, da condenação e da proibição, uma vez que essa pedagogia normalmente produz efeito contrário, levando a pessoa a uma vida até mais permissiva do que antes. Começando sempre pela reflexão sobre a fidelidade ao projeto de vida plena que Deus tem para cada pessoa, o animador ou animadora pode e deve interrogar o vocacionado sobre suas intenções, sobre o conceito de fidelidade, sobre o sentido da vida a dois. Não deve deixar de lado a proposta do ensinamento da Igreja sobre a questão. Além disso, pode e deve refletir sobre a importância da satisfação plena na realização do ato sexual, uma vez que existe o risco de não haver plena complementação no encontro íntimo entre pessoas do mesmo sexo. As pesquisas feitas por Thévenot** indicam que muitos casais homossexuais não se sentem satisfeitos com a relação e por isso se separam muito rápido. Há casos em que a insatisfação é tão grande que a pessoa, mesmo vivendo com alguém, busca com muita frequência relações sexual-genitais com outras pessoas. Porém, com muita honestidade, é preciso dizer que não faltam exemplos de casais homossexuais que conseguiram fazer uma experiência profunda de Deus-Amor. Para alguns, a vida a dois foi como que uma “terapia da vida”. Mas para chegar a isso tiveram que superar dolorosamente muitos desafios e cultivar muitos valores cristãos entre os quais o perdão, o desprendimento, a pobreza interior. Tiveram de ir além da “paixão fulminante” para abrir-se mais ao dom da ternura, da renúncia de um relacionamento perverso. Certamente não vivem uma união idílica. Permanecem nessas situações difíceis de carência e limites. É preciso confessar, com Thévenot, que, apesar de tudo, é possível encontrar hoje neste tipo de união pessoas vivendo com dignidade a vida cristã.

Existem autores que evocam também para esse caso o princípio da epikéia já mencionado anteriormente. Partem do princípio tomístico de que a verdade e a retidão não são iguais para todos. Por isso, em determinadas situações é possível transgredir legitimamente a lei para salvar o bem das pessoas. Todavia, lembram esses autores, para que o princípio da epikéia possa ser aplicado corretamente é indispensável que a decisão passe pelo crivo da razão, a qual tem a função de regular sabiamente as inclinações e paixões humanas. Não bastam o instinto e a paixão desmedida. De acordo com o mesmo princípio tomístico todas as vezes que agimos sem consultar a razão cometemos um pecado. [comentário no rodapé: Thévenot acredita que por honestidade intelectual este princípio tomístico não pode ser aplicado ao caso dos homossexuais porque, segundo Tomás, a razão da relação sexual reside na conservação da espécie. Hoje, porém, a reprodução não é mais considerada a razão exclusiva da relação sexual (cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 48). Também por honestidade intelectual é preciso dizer que, biblicamente falando, a relação sexual é destinada antes de tudo à superação da solidão: “Não é bom que o homem esteja só. Vôo fazer uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2, 18). O filho é a consequência e não a razão principal da relação sexual entre duas pessoas que verdadeiramente se amam.]

Portanto, no acompanhamento vocacional se abre uma brecha para evitar todo tipo de condenação. O papel do animador ou da animadora vocacional não é de ser porta-vos de Satanás, o acusador dos irmãos e irmãs (cf. AP 12, 10), mas de ser mensageiro da salvação trazida por Cristo: “Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus, que justifica? Quem condenará? Cristo Jesus, que morreu, mais ainda que tenha ressuscitado e está à direita de Deus, intercedendo por nós?” (Rm 8, 33-34). Vimos anteriormente que também as pessoas homossexuais são queridas por Deus e não estão sobrando no mundo. O papel de quem acompanha essas pessoas é ajudá-las a chegar o máximo possível à meta que nos é proposta. (pp. 75-78)
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Notas (minhas)
* Frei Antônio Moser é Diretor Presidente da Editora Vozes, professor de Teologia Moral e Bioética no Instituto Teológico Franciscano (ITF) em Petrópolis/ RJ, Membro do Conselho Administrativo da Diocese de Petrópolis/ RJ, Pároco da Igreja de Santa Clara, Diretor do Centro Educacional Terra Santa, Membro da Comissão de Bioética da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Coordenador do Comitê de Pesquisa em Ética da Universidade Católica de Petrópolis (UCP), além de conferencista no Brasil e no exterior. Escreveu 25 livros, participou como co-autor e colaborador de inúmeros e publicou incontáveis artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Atualmente desenvolve intensa atividade pastoral, sendo um dos principais especialistas brasileiros em Pastoral Familiar e Bioética.

** Pe. Xavier Thévenot, eminente professor de Teologia Moral no Instituto Católico de Paris, membro da Congregação Salesiana. Os Salesianos de Dom Bosco se dedicam particularmente à educação da juventude, o que dá maior autoridade e crédito a esse autor, em termos de educação da sexualidade.

30 de setembro de 2011

saber ler a Bíblia

São Jerônimo, Doutor da Igreja (n. 347; +420), cuja memória celebramos neste último dia do mês da Bíblia, disse: "Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo" (o que inclui também a capacidade de interpretá-la). É neste contexto que trago hoje um trecho do (surpreendente!) livro de José Lisboa, “Acompamhamento de vocações homossexuais". Antes de ler o próprio texto, vale a pena saber um pouco mais sobre o autor.

Jose Lisboa Moreira de Oliveira, nascido aos 14 de agosto de 1956, é o sacerdote da Sociedade das Divinas Vocações (Vocacionistas), natural de Araci (Bahia), doutor em teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, formador, autor de vários livros e dezenas de artigos sobre o tema da vocação e da animação vocacional, membro da Equipe de Reflexão Teológica da Conferência Nacional dos Religiosos do Brasil, foi assessor do Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003) e atualmente é Diretor-Presidente do Instituto de Pastoral Vocacional (IPV), gestor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília, onde também é professor de Antropologia da Religião e Ética.

...com outras palavras, o padre José Lisboa não pertence àquele pequeno grupo de sacerdotes católicos que, tidos pela hierarquia como bizarros, balançam no limiar entre a legitimidade de seu ministério e uma eventual suspensão de ordens ou, até, excomunhão. No contexto de sua ficha, cheia de méritos e reconhecimento, o livro em questão torna-se, de fato, uma leitura que espanta positivamente e desperta a esperança de uma provável mudança de mentalidade. Penso comigo mesmo: os componentes daquele ambiente fechado e petrificado, chamado “alto clero”, têm que ouvir a voz de um dos seus mais próximos e respeitados colaboradores. A não ser que já estejam preparando uma sentença de Pilatos... Vamos, pois, ao texto.

O ser homossexual, em si mesmo, não representa nenhum pecado e nenhuma culpa, assim como o ser heterossexual não é garantia de perfeição e de santidade. O que a Bíblia não aprova é um determinado tipo de prática da homossexualidade que inverte e perverte a dinâmica da sexualidade desejada pelo Criador para a pessoa humana (Cf. Gn 2, 18-25). Ela não condena a homossexualidade em si, uma vez que o ser humano não pode ser condenado por uma situação que ele mesmo não teve a liberdade, a consciência e a responsabilidade suficientes para escolher. (...) Acredito que nessa mesma direção devem ser interpretados os textos oficiais da Igreja Católica que tratam dessa questão. Tomando como referência o Catecismo da Igreja Católica de 1992, aprovado pelo papa João Paulo II, acredito que seja possível fazer essa leitura, superando a mentalidade de que tais documentos discriminam homossexualidade enquanto tal. (...) Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 2357-2359. Isso fica mais claro quando se analisam os textos bíblicos usados para dar fundamentação às afirmações magisteriais (Gn 19, 1-29; Rm 1, 24-27; 1Cor 6, 10; 1Tm 1-10). Todas essas referências bíblicas são unânimes em condenar os "abusos" (Gn 19, 4), o desrespeito ao corpo e as paixões descontroladas (Rm 1, 24-26), os relacionamentos injustos (1Cor 6, 10) e desregrados (1Tm 1, 10). Nenhum deles condena a identidade sexual da pessoa, mas a depravação, ou seja, um exercício da sexualidade que degrada e avilta a pessoa humana, imagem e semelhança do Criador. Na verdade o que é detestável é a "prostituição", isto é, toda forma de relação sexual-genital que torna a pessoa menos humana e que, por isso, ofende o Criador. Por essa mesma razão, a Bíblia condena também as relações sexual-genitais entre pessoas heterossexuais que não dignificam o ser humano e que o transformam em objeto. O que está em jogo e é detestável é a coisificação, a manipulação, da pessoa humana. Uma relação sexual-genital narcisista, voltada para a pura satisfação egoísta, custe o que custar (cf. 1Ts 4, 3-8; 1Cor 6, 15-20; 2Cor 12, 21; Gl 5, 19; Rm 1, 26-27).
[Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira, "Acompanhamento de vocações homossexuais",
Editora Paulus, São Paulo, 2007, pp. 13 e 15.]

O mistério dos Anjos

A Igreja convida-nos, nestes dias, a mergulhar no mistério que só aparentemente é um conto de fadas, próprio para ser contado às crianças. Trata-se de Anjos. O Credo católico proclama Deus, o Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis. Celebramos ontem (29/09) a Festa dos Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael. No próximo dia 02/10, temos a memória dos Santos Anjos da Guarda (omitida neste ano por coincidir com o domingo). Nesta ocasião, gostaria de compartilhar com Vocês uma reflexão...

Jesus disse que no Reino dos céus seremos iguais aos anjos (cf. Mt 22, 30; Mc 12, 25; Lc 20, 36). Segundo os nossos critérios de lógica, quem tem mais é superior àquele que tem menos. Na tentativa de comparação dos homens com os anjos, porém, acontece exatamente o contrário. Nós temos algo que os anjos não têm: o corpo e tudo que ele nos proporciona. Às vezes podemos pensar: "Coitadinhos desses seres espirituais. Se eles soubessem o que é que nós experimentamos e que sensações temos graças à corporeidade". E se descobrirmos que ter o corpo é uma limitação? Que, de fato - e principalmente depois do pecado original e antes da ressurreição da carne e glorificação final - o corpo nos diminui e não engrandece? Podemos ver isso através de um exemplo. Os amantes, de vez em quando, prometem "levar, um ao outro, ao céu". Com essa expressão eles estão, ao mesmo tempo, muito próximos e muito distantes da realidade. Enquanto, por um lado, nada neste mundo se compare com o gozo de um ato sexual, por outro lado, tais palavras estão beirando a blasfêmia, ainda que inconsciente. É inconsciente (e inocente) como tantas outras afirmações que fazemos, simplesmente por não termos noção do que estamos falando. Algo assim aconteceu com Pedro na hora da transfiguração de Jesus (cf. Lc 9, 33). Voltando à questão das nossas sensações que, como pensamos, os anjos não experimentam, podemos dizer que, de fato, eles não sentem o que nós sentimos, mas, certamente, sentem muito mais. Os anjos não têm as nossas sensações humanas, porque experimentam algo incomparavelmente mais elevado, sublime e profundo. Com outras palavras, aquilo que os amantes experimentam, por um instante apenas, ao serem "levados ao céu" um pelo outro, os anjos experimentam, de maneira muito mais intensa e, principalmente, duradoura de um “jeito celestial”. Seria, talvez, estranho dizer que eles vivem em um constante "super orgasmo", no entanto, o termo "gozo", é muito frequente na literatura mística da Igreja. S. Paulo diz que agora vemos confusamente, como num espelho e que então veremos face a face (cf. 1Cor, 13, 12). Em nosso contexto podemos entender o verbo "ver" no sentido mais amplo, como, por exemplo, sentir ou experimentar. Toda questão (e toda diferença) está no fato de que os anjos veem claramente e sem nenhum espelho. Isto é, experimentam a plenitude daquilo que nós temos de modo parcial e imperfeito, justamente por causa do corpo. Diferentemente da postura de desprezo em relação ao corpo à qual essa constatação levou numerosas gerações dos cristãos no passado, devemos contemplar todas as dimensões do nosso ser como um reflexo da divindade. Fomos, pois, criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26). E, ao cultivarmos a esperança da futura plenitude, desde já podemos assumir as três principais expressões angelicais: [1] a constante adoração ao Altíssimo, essencial para sua natureza, [2] a missão de proclamar a misericórdia do Senhor e [3] a tarefa de auxiliar os irmãos em suas necessidades. Pensando bem, percebemos que essas três são, na verdade, uma coisa só: o amor. Não foi por acaso, ou apenas pela beleza de expressão, que atribuíram o título de “Anjo bom da Bahia” à Irma Dulce, beatificada neste ano.

Amemos, portanto, para sermos, também nós, os anjos bons.

23 de setembro de 2011

Papa na Alemanha

Recordo aqui a notícia, divulgada em abril deste ano (leia aqui), sobre um encontro do Papa com os representantes das organizações GLBTS, na ocasião da sua viagem à terra natal, Alemanha. Como a "midia-padrão" (tipo: Globo, etc.) do Brasil quase não menciona a viagem do Papa, espero que, pelo menos, os "nossos" meios de comunicação notifiquem tal fato, caso aconteça mesmo.

o que dizem

O tema de - assim chamada - opinião pública foi abordado nesta quinta-feira nas leituras da Missa. Quem de nós, homens e mulheres GLBTS, não sofreu por causa desse fenômeno. Em nossos tempos a coisa ficou ainda mais grave, devido à rápida circulação de tal opinião. Podemos ter certeza de que o intercâmbio das notícias é capaz não só de derrubar o coronel Kadafi, mas, igualmente, tem o poder de infernizar a nossa própria vida. Não raramente, é a nossa sexualidade que se torna o alvo de divagações compartilhadas com total crueldade...

Vejamos as leituras. Os três versículos do Evangelho (Lc 9, 7-9) contêm tais termos como: Herodes ouviu falar... ficou perplexo... porque alguns diziam... outros diziam... Parece familiar? Pois é... Compare, também, com o texto desta sexta-feira (Lc 9, 18-22). O profeta Ageu (Ag 1, 1-8), por sua vez, é o mensageiro do Senhor que contesta (e detesta), justamente, a opinião pública: Este povo diz: "Ainda não chegou o momento de edificar a casa do Senhor". (v. 2) E reage assim: subi ao monte, trazei madeira e edificai a casa; ela me será aceitável, nela me glorificarei, diz o Senhor. (v. 8)

Conclusão: a opinião dos outros, capaz de nos empurrar ao vale de uma depressão, com frequência não está de acordo com a realidade e costuma estar em oposição com a "opinião" que o próprio Deus tem a nosso respeito. Acho bom e útil lembrar-se disso e, quando necessário, saber mandar aquela gente fofoqueira para o quinto dos infernos.

20 de setembro de 2011

Bento XVI aos namorados

No dia 11 de setembro deste ano o Papa Bento XVI realizou a sua viagem apostólica à cidade italiana de Ancona. No final da tarde o Papa teve o encontro com os namorados. O assunto principal, evidentemente, era a preparação ao matrimônio (heterossexual, entende-se). Ao ler o seu discurso, pensei: ele não tem como não falar sobre este tema, até porque dirige-se a todos e o namoro heterossexual é uma experiência vivida pela maioria daqueles jovens, reunidos lá, na Praça do Plebiscito. Aliás, seria super-curioso promover por lá um plebiscito sobre a união homoafetiva, mas não foi desta vez. Falando sério, o que chamou a minha atenção no texto (aqui), foi uma consoladora ausência daquelas famosas afirmações indiretas (antigamente mais frequentes) que detonam qualquer ideia sobre o amor entre as pessoas do mesmo sexo. Mesmo falando para a maioria heterossexual, o Papa deixou umas dicas preciosas que servem muito bem – na minha opinião – aos que vivem o amor homossexual. Vejamos algumas frases (os grifos são meus):

Nunca percais a esperança. Tende coragem, também nas dificuldades, permanecendo firmes na fé. Tende a certeza de que, em todas as circunstâncias, sois amados e protegidos pelo amor de Deus, que é a nossa força. Deus é bom. Por isso é importante que o encontro com Ele, sobretudo na oração pessoal e comunitária, seja constante, fiel, precisamente como o caminho do vosso amor: amar a Deus e sentir que Ele me ama. Nada nos pode separar do amor de Deus! Depois, tende a certeza de que também a Igreja está próxima de vós, vos ampara, não cessa de olhar para vós com grande confiança.


Como namorados estais a viver uma fase única, que abre para a maravilha do encontro e faz descobrir a beleza de existir e de ser preciosos para alguém, de poder dizer um ao outro: tu és importante para mim. Vivei com intensidade, gradualidade e verdade este caminho. Não renuncieis a perseguir um ideal alto de amor, reflexo e testemunho do amor de Deus!


Gostaria de vos dizer antes de tudo que eviteis fechar-vos em relações intimistas, falsamente animadoras; fazei antes com que a vossa relação se torne fermento de uma presença ativa e responsável na comunidade. Depois, não vos esqueçais de que para ser autêntico, também o amor exige um caminho de amadurecimento: a partir da atração inicial e do «sentir-se bem» com o outro, educai-vos a «amar» o outro, a «querer o bem» do outro. O amor vive de gratuidade, de sacrifício de si, de perdão e de respeito do outro.


Queridos amigos, cada amor humano é sinal do Amor eterno que nos criou, e cuja graça santifica a escolha de um homem e de uma mulher de se entregarem reciprocamente a vida no matrimônio. Vivei este tempo do namoro na expectativa confiante desse dom, que deve ser aceite percorrendo um caminho de conhecimento, de respeito, de atenções que nunca deveis perder: só sob esta condição a linguagem do amor permanecerá significativa também com o passar dos anos.


Gostaria de voltar mais uma vez a falar de um aspecto essencial: a experiência do amor tem no seu interior a propensão para Deus. O verdadeiro amor promete o infinito! Por conseguinte, fazei deste vosso tempo de preparação para o matrimônio um percurso de fé: redescobri para a vossa vida de casal a centralidade de Jesus Cristo e do caminhar na Igreja.


Também eu gostaria de vos dizer que estou próximo de vós e de todos os que, como vós, vivem este maravilhoso caminho de amor. Abençoo-vos de coração!

12 de setembro de 2011

o nome de Maria

Hoje a Igreja celebra a memória do Santíssimo Nome de Maria. O beneditino, Anselm Grün, em seu livro "Festas de Maria" [Ed. Santuário, Aparecida-SP, 2009], explica:

"Nomen est omen" (o nome é um presságio), diziam os latinos. O nome já diz alguma coisa do seu usuário. (...) O nome Maria deriva de duas raízes, uma egípcia e outra hebraica. Myr no Egito significa amada, enquanto em hebraico é uma abreviação de Javé. Assim, Maria ou Myrjam significa "amada de Javé" ou "muito amada de Deus". (...) Deus a escolheu para ser Vaso do Espírito Santo e Mãe de Deus.

Conforme outra etimologia, Maria pode significar "a exaltada e sublime". Na Tradição o termo "Maria" foi derivado de outras palavras. A palavra hebraica "mar" quer dizer amargo; "jam" significa mar. Maria seria chamada então "mar de amargura". Seria uma alusão à "Mãe dolorosa" que participa do sofrimento de Cristo.

Outros derivam Maria de "mir", que significa "iluminador". Então Maria seria a iluminadora do mar ou, como foi chamada pela tradição, "Estrela do mar". Bernardo de Claraval diz desta Estrela do Mar: "Experimenta tirar Maria, esta Estrela do mar, do grande e vasto mar! O que sobra além da treva avassaladora que tudo envolve nas sombras da morte e da escuridão cerrada". [p. 97-98]

10 de setembro de 2011

o cisco e a trave [2]

Volto a comentar o Evangelho de ontem (leia a primeira parte desta reflexão aqui). A advertência de Jesus: Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Lc 6,41-42) parece contradizer todo o seu (tão detalhado) ensinamento sobre a correção fraterna, proclamado no último domingo (Mt 18, 15-20) [leia essa reflexão]. À primeira vista, a frase: Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! (Mt 18, 15), não combina com a outra: Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? (Lc 6, 41). Uma leitura atenta, porém, leva-nos a compreender esses dois textos como complementares. Mais uma vez, essencial é o amor, como a única motivação de cada atitude. Quem quer tirar o cisco do olho de alguém, permanece numa postura de falso e soberbo juiz. Provavelmente, a sua iniciativa de apontar o erro do outro, tenha sido uma tentativa de se apresentar como o melhor. Com outras palavras, quem pretende tirar o cisco do olho de alguém, diz: "Você está errado". Quem abraça o delicado desafio, chamado "correção fraterna", diz: "Eu me preocupo com você".

Ao comparar estes dois textos do Evangelho, veio-me na memória um livro que tinha lido, há muitos anos. O título é: "Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar" de Adele Faber e Elaine Mazlish ([Editora Summus, 2003] - um best seller nos Estados Unidos, com mais de dois milhões de exemplares vendidos. As autoras desenvolvem um método efetivo e respeitoso para o diálogo com as crianças. O livro é ilustrado com divertidos quadrinhos que demonstram situações concretas e oferecem soluções inovadoras para problemas comuns em famílias, como lidar com sentimentos negativos, expressar emoções, conseguir a cooperação das crianças e resolver conflitos). Resumindo, o livro mostra (entre outras coisas) a grande diferença entre a sentença: "você está errado!" e uma descrição de seus próprios sentimentos: "Fiquei triste ao ver você fazendo isso. Não sei se entendi bem. Vamos conversar sobre isso?". A primeira opção não supõe a presença de amor. A segunda, pelo contrário, revela-o. Acredito que, justamente aqui, está toda a diferença.

9 de setembro de 2011

o cisco e a trave [1]

Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho? Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Lc 6,41-42)  [O texto do Evangelho de hoje: Lc 6, 39-42]

Fiquei pensando (de novo) sobre aquela interminável sinfonia de acusações mútuas entre dois mundos: o "mundo GLBTS" e o "mundo das Igrejas". Não adianta negar: o preconceito está de ambos os lados. Será que existe alguma saída?

São Paulo, na primeira leitura de hoje (1Tm 1,1-2.12-14) propõe uma pista. Infalível: Agradeço àquele que me deu força, Cristo Jesus, nosso Senhor, pela confiança que teve em mim ao designar-me para o seu serviço, a mim, que antes blasfemava, perseguia e insultava. Mas encontrei misericórdia, porque agia com a ignorância de quem não tem fé. Transbordou a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus. (vv. 12-14)

Com outras palavras: somente quem experimentou a misericórdia de Deus, é capaz de ter misericórdia para com os outros. Quem experimentou a misericórdia de Deus, torna-se humilde. Pensemos nisso.

5 de setembro de 2011

corrigir o irmão

Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como um pagão ou um pecador público. (Mt 18, 15-17)

É uma sábia e detalhada lição sobre a estratégia chamada "correção fraterna". Em nossa reflexão pessoal podemos nos colocar de um e de outro lado da questão: como aquele que corrige e aquele que está sendo corrigido. Em minha opinião, a palavra chave é o termo "irmão". Em nenhuma das situações descritas Jesus desiste deste termo. É o ponto de partida. Ou, o ponto de vista. Enquanto vejo o irmão, a minha atitude de corrigi-lo será motivada pelo amor fraterno. No momento em que o irmão se torne "adversário" ou "inimigo", melhor parar com esse negócio de querer corrigi-lo. As duas últimas fases requerem bastante atenção. Quando Jesus recomenda "Dize-o à Igreja", não se trata, certamente, de fazer fofoca, mas de recorrer à autoridade (o primeiro significado de "Igreja") e/ou de envolver a comunidade intercessora (o significado de "Igreja-comunidade"). Diante da resistência máxima daquele irmão vem o último passo: "tratá-lo como se fosse um pagão ou um pecador público". Embora, na nossa mente poluída, isso pode significar atos de rejeição ou, quem sabe, agressividade, basta perguntar: como é que Jesus tratava os pagãos e os pecadores públicos. Notemos que o Senhor continua falando de um irmão que, no caso extremo de "cabeça dura" deve ser tratado como se fosse o pagão ou o pecador público. Com outras palavras: devemos recomeçar (da estaca zero) uma amorosa evangelização daquele irmão.

A mensagem de Jesus fica ainda mais evidente com o texto da segunda leitura de hoje (Rm 13, 8-10): Irmãos! Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. De fato, os mandamentos: “Não cometerás adultério”, “Não matarás”, “Não roubarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento se resumem neste: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei.

31 de agosto de 2011

via da beleza

Em sua tradicional catequese, nesta quarta-feira, o Papa Bento XVI falou sobre um desses canais que podem nos conduzir a Deus e ser também auxílio para o encontro com Ele: a "via da beleza". (Leia aqui o texto na íntegra).

Talvez já tenhais experimentado algumas vezes diante de uma escultura, de um quadro, de alguns versos de uma poesia, ou de um trecho musical, o provar de uma íntima emoção, um sentimento de alegria, de perceber, isto é, claramente que, em frente a vós, não há somente matéria, um pedaço de mármore ou de bronze, uma tela pintada, um conjunto de letras ou um cúmulo de sons, mas sim qualquer coisa de maior, algo que "fala", capaz de tocar o coração, de comunicar uma mensagem, de elevar a alma. Uma obra de arte é fruto da capacidade criativa do ser humano, que se interroga diante da realidade visível, busca descobrir o seu sentido profundo e comunicá-lo através da linguagem das formas, das cores, dos sons. A arte é capaz de expressar e tornar visível a necessidade do homem de ir além do que se vê, manifesta a sede e a busca pelo infinito. Na verdade, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão para além do cotidiano. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, direcionando-os para o alto.

Pois bem, os gostos não se discute e os padrões de beleza não obedecem aos critérios de quem quer que seja. Concordo, porém, com o Papa. A beleza leva a Deus...

30 de agosto de 2011

os dedos que apontam

Acabei de ler um artigo no portal católico GaudiumPress (aqui) sobre a Missa celebrada pelo Papa Bento XVI no encerramento de um encontro com os seus ex-alunos. O título deste artigo cita (ou, melhor: interpreta) uma das frases do Pontífice: "A nossa época sofre a ausência de Deus". As palavras originais de Bento XVI afirmam, de fato, algo semelhante: "Neste tempo da ausência de Deus, quando a terra das almas está árida e seca e as pessoas ainda não sabem de onde brota a água viva, peçamos ao Senhor que se mostre. Queremos rezar a fim de que àqueles que alhures buscam a água viva, Deus mostre que Ele é a água viva e a fim de que não permita que a vida dos homens e a sua sede de grandeza se afoguem e sejam sufocadas no efêmero".

Por coincidência (existe isso?) ouvi recentemente a conversa de um idoso sacerdote com o Dom Orani (o Arcebispo do Rio de Janeiro). O padre dizia que já estava na hora de fazer algo sério com um problema que tem aumentado e causado - particularmente no seu coração - a enorme angústia (para não dizer revolta). Trata-se de noivos que aparecem para marcar o casamento em sua paróquia, mas apresentam tragicamente baixo nível de vida religiosa. No desabafo daquele padre havia um tom de cobrança direcionada ao Arcebispo (como se falasse "O senhor tem que fazer alguma coisa com isso! Por exemplo exigir mais ou então proibir tal cerimônia às pessoas ignorantes!"). Dom Orani respondeu com umas perguntas: "E o que você, padre, fez com que aquela pessoas não fossem ignorantes? Como cuidou de sua religiosidade quando, ainda eram crianças ou adolescentes? Você percebe que ao acusar não se sabe quem, acusa-se a si mesmo?" É como naquele ditado: "Enquanto eu aponto o dedo para o outro, há quatro dedos apontando para mim".

"Voltando às palavras do Papa sobre a "ausência de Deus". Em vez de dizer: "Peçamos ao Senhor que se mostre. Queremos rezar a fim de que àqueles que alhures buscam a água viva, Deus mostre que Ele é a água viva", podia ter declarado: "O Senhor quer se mostrar através de nós. Rezemos por nós mesmos para que sejamos sinais vivos da presença de Deus no mundo de hoje".

25 de agosto de 2011

Orações para Bobby

Acabei de assistir (finalmente!) o filme "Prayers for Bobby" ["Orações para Bobby"]. Profundo, emocionante e, principalmente, real. Quem dera que todos os pais assistissem também! Aliás, as famílias inteiras. E, de modo especial, os jovens homossexuais que enfrentam duras batalhas (internas e externas! Recomendo a todos (inclusive aos padres, pastores e demais agentes de pastoral em qualquer Igreja cristã). O filme pode ser encontrado, por exemplo, no site "Gay Load" (aqui). A frase de Mary Griffith: "A Bíblia diz que as pessoas podem mudar", torna-se realidade, mas de maneira totalmente diferente daquela em que tinha sido pronunciada no início da história.

Vigiar

A palavra vigiar aparece com frequência no Evangelho. No contexto histórico daqueles tempos (e de muitos séculos seguintes) o termo evoca a função de vigias ou sentinelas. Hoje (no Brasil é o Dia do Soldado) imaginamos aqueles guardas que fazem patrulhamento em torno dos quartéis. De qualquer maneira, a função do vigia é ficar atento, evitar distração, concentrar toda sua atenção em questões de segurança. No Evangelho (Mt 24, 42-51), as advertências do Senhor: "Ficai atentos" e "ficai preparados", referem-se ao fim dos tempos e à vinda gloriosa de Jesus.

A comparação dessa "postura escatológica" com o comportamento dos guardas de hoje (ou das épocas passadas) pode nos levar às conclusões equivocadas. No sentido mais ou menos literal o vigilante pode justificar a sua indiferença perante, por exemplo, qualquer necessidade alheia, dizendo "não posso atendê-lo, pois tenho que vigiar". É como naquela estória contada pelos pregadores. Uma senhora havia tido um sonho no qual o próprio Jesus prometia visitá-la em casa no dia seguinte. A mulher levantou cedo e logo começou os preparativos. Arrumou a casa, trocou a toalha de mesa e até as cortinas da sala. Sempre atenta a qualquer barulho próximo à porta de entrada, dedicou grande parte do dia aos trabalhos na cozinha, preparando o que sabia fazer melhor. Por três vezes, naquele dia, alguém batia à sua porta. Mas sempre era alguém que precisava ser despedido logo para não atrapalhar. Primeiro foi um mendigo pedindo comida, depois uma vizinha querendo um pouco de sal e, finalmente, um vendedor ambulante oferecendo alguns produtos. Com a dose reduzida de paciência a mulher mandou embora cada uma daquelas pessoas dizendo que não podia dar-lhes a devida atenção porque estava esperando alguém muito importante. Assim passou o dia inteiro. Ao anoitecer, a mulher, cansada e decepcionada, foi dormir. No sonho apareceu-lhe Jesus, mas ela nem deixou o Senhor falar. Foi ela que passou o sonho inteirinho reclamando e chamando Jesus de inconsequente, incompetente, furão e malandro. Quando cansou, o Senhor lhe disse apenas: "Minha filha, eu vim, mas, por três vezes, você não permitiu que entrasse na sua casa e me mandou embora". Quando acordou, a mulher tinha compreendido que o próprio Jesus estava presente na pessoa do mendigo, da vizinha e do vendedor ambulante.

Os textos litúrgicos de hoje sugerem a mesma interpretação da palavra "vigiar". Paulo Apóstolo, na primeira leitura (1 Tes 3,7-13) fala sobre a enriquecedora convivência fraterna e a edificação mútua na fé e no amor. Jesus no Evangelho aponta a responsabilidade de uns pelos outros e denuncia à soberba, à agressividade e à falta de caridade como graves pecados contra a vigilância cristã. Em vez de dizer: "Não posso te atender, aceitar e amar porque estou esperando a vinda do Senhor!", devemos aprender a pensar e viver o contrário: "Justamente porque estou esperando a vinda do Senhor, quero te atender, aceitar e amar".

24 de agosto de 2011

Preconceito superado

Segundo Augusto Cury (autor da teoria sobre a inteligência multifocal, comentada em mais de 20 livros) o fato de não ocultar os defeitos humanos dos discípulos de Jesus é uma das provas de autenticidade do Evangelho. Podemos, de fato, apontar inúmeras falhas e limitações daqueles homens. O apóstolo Pedro, por exemplo, é um mestre em imperfeições e, ao mesmo tempo, uma pedra bruta, lapidada pacientemente pelo Senhor, até alcançar a beleza de um diamante na hora do testemunho supremo, o martírio (não descrito na Bíblia, mas relatado pela tradição cristã).

Hoje a liturgia traz o nome de um outro discípulo de Jesus, Natanael, mais conhecido com o nome de Bartolomeu. Segundo os biblistas, o nome mais popular daquele homem aponta o pai dele, Tolomeu (sendo o prefixo "bar" o sinônimo de filho). O Evangelho lido hoje na Missa (Jo 1, 45-51) revela sua natureza preconceituosa: Filipe encontrou-se com Na­tanael e lhe disse: “Encontramos aquele de quem Moisés escreveu na Lei, e também os profetas: Jesus de Nazaré, o filho de José”. Natanael disse: “De Nazaré pode sair coisa boa?” Filipe respondeu: “Vem ver!” (vv. 45-46). No questionamento de Natanael identificamos com facilidade as dúvidas e perguntas retóricas presentes, também, em nossa própria mentalidade. Seja um país, uma cidade, um grupo específico da sociedade, nós também perguntamos: "dali pode sair coisa boa?" Basta ler, por exemplo, alguns textos oficiais da Igreja sobre a homossexualidade, para detectar esse "espírito de Natanael". Acrescentemos: Natanael antes de seu encontro pessoal com Jesus. Neste sentido a resposta de Filipe é simples e reveladora: "Vem ver!". Uma resposta eficaz que se parece com a palavra de ordem.

Resta-nos apenas recomendar essa ordem a todos que (ainda) questionam o "mundo GLST" como algo que não tem capacidade de gerar "coisa boa". Digo: "Vem ver!"


A tradição diz que Natanael (Bartolomeu) morreu por esfolamento.

23 de agosto de 2011

hora de acordar

Estou chegando. Ficar longe do mundo virtual foi interessante, mas está na hora de retomar contatos e continuar reflexões. Sejam todos bem-vindos. Pretendo, aos poucos, visitar todos os meus prediletos espaços da blogosfera. Aguardem...

6 de julho de 2011

Férias


Caros Amigos, Leitores, Visitantes!

Estou entrando (finalmente!) em férias. Não pretendo abandonar este espaço virtual, mas, certamente, haverá menos postagens por aqui nas próximas semanas. Desejo a todos muita paz e perseverança nas lutas diárias. E que o amor infinito de Deus se manifeste, cada vez mais, em nosso amor humano.

Levo comigo as recomendações do Papa Bento XVI: Neste momento do ano no qual muitos de vocês farão férias, rezo para que vocês possam verdadeiramente repousar o espírito e o corpo e possam encontrar em Deus uma ocasião de repouso. Dêem espaço à leitura da Palavra de Deus, em particular do Evangelho que espero vocês não deixarão de colocar na sua bagagem para as férias.

Pedro e as portas

No domingo passado a Igreja celebrou a Solenidade de São Pedro e São Paulo. A primeira leitura (At 12, 1-11) contou sobre a milagrosa libertação de Pedro da prisão. Além do carinho e simplicidade de Deus (Põe o cinto e calça tuas sandálias! Veste tua capa e vem comigo! vv. 7-8), impressiona o poder sobrenatural que se manifesta na própria saída da cadeia (As correntes caíram-lhe das mãos. Depois de passarem pela primeira e pela segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. vv. 7. 10). Entretanto, o mais curioso e inspirador é o texto deste mesmo capítulo de Atos dos Apóstolos, não incluído na própria leitura. A passagem lida na Missa termina com Pedro, sozinho, na rua, pois o anjo já o tinha deixado. Ao continuarmos a leitura, vemos Pedro dirigindo-se à casa de Maria, mãe de Marcos (é o próprio Cenáculo). [Pedro] Bateu no portão de entrada, e uma criada, chamada Rosa, foi atender. Ela reconheceu a voz de Pedro, e tanta foi sua alegria que, em vez de abrir a porta, entrou correndo para contar que Pedro estava ali diante da porta. “Estás louca!”, disseram-lhe. Mas ela insistia. Opinaram então: “Deve ser o seu anjo”. Pedro entretanto continuava a bater. Finalmente abriram a porta. Viram então que era ele; e ficaram atônitos. (At 12, 13-16)

Enquanto Deus abre todas as portas aos seus amados e escolhidos, a porta da Igreja demora para abir. Enquanto os amados de Deus continuam batendo e chamando, há, dentro da comunidade, quem diga: "Estás louco(a). Não abre! Toma cuidado!". Entre tanta gente, também nós, homossexuais, ainda estamos diante da porta e continuamos a bater...

4 de julho de 2011

Identidade revelada

Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro... (Mt 16, 15, 18a)

Esta conversa de Jesus com Pedro entra ao contexto de várias outras passagens do Evangelho que tratam sobre a identidade do Filho de Deus revelada pelo Pai. Uma delas é a misteriosa experiência que tiveram três discípulos de Jesus (entre eles Pedro) no monte da transfiguração (cf. Mt 17, 1-9; Mc 9, 2-9; Lc 9, 28-36). Ali, a voz do Pai afirmou (assim como na hora do batismo de Jesus no rio Jordão: Este é o meu Filho amado! (cf. Mt 3, 16-17; Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22 e, com detalhes diferentes e o mesmo sentido, Jo 1, 33) Em outra ocasião, Jesus disse: Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. (Lc 10, 22; cf. Mt 11, 27) Ou seja, o Pai revela o Filho e o Filho revela o Pai (a quem quiser). O texto do Evangelho de hoje sugere mais um elemento, resumido sabiamente por duas frases da Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II, Gaudium et spes: Na realidade o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (...) Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação. (n° 22) É neste sentido que leio aquela passagem: não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro... Da mesma maneira que as opiniões sobre a identidade de Jesus, citadas pelos discípulos (Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas. Mt 16, 14), são parciais e não alcançam a essência do seu ser, assim mesmo, o conhecimento do homem (por si mesmo e pelos outros), baseado apenas nos recursos de inteligência própria, ainda que contando com o apoio da ciência, não é capaz de responder à pergunta "quem é você?". Criam-se rótulos e alimentam preconceitos. Somente Deus sabe quem sou eu e só Ele pode (se quiser) revelar isso aos outros. Na prática, isso significa que a única maneira de enxergar um ser humano, sem cair na cilada de "classificação", é olhá-lo sob a luz de Deus, quer dizer, admitir que a minha visão seja parcial e, por isso, é necessário deixar aberta a questão de "como Deus está vendo essa ou aquela pessoa". A resposta é sempre a mesma: Deus está olhando com amor.

Falou sobre isso hoje o Papa Bento XVI, interpretando o texto do Evangelho previsto para 14° domingo do tempo comum (Mt 11, 25-30 - o texto omitido no Brasil, devido à comemoração de São Pedro e São Paulo): Quando Jesus percorria as estradas da Galiléia, proclamando o Reino de Deus e curando muitos doentes, sentia compaixão pelas multidões porque estavam cansadas e oprimidas, como ovelhas sem pastor. Ainda hoje [o olhar de Jesus] pousa sobre tantas pessoas oprimidas por condições de vida difíceis, mas também privadas de válidos pontos de referência para encontrar um significado e uma meta para sua existência. Multidões estão oprimidas nos países mais pobres, provadas pela indigência; e até mesmo nos países mais ricos são tantos os homens e mulheres insatisfeitos, até mesmo pessoas com depressão. Pensamos então nos numerosos deslocados e refugiados, naqueles que imigram arriscando suas vidas. O olhar de Cristo pousa sobre todas essas pessoas, ou melhor, sobre cada um desses filhos do Pai que está no céu, e repete: "Vinde a mim, vós todos..." O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, sejam aquelas materiais, como a fome e as injustiças, sejam aquelas psicológicas e morais causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, e que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso devemos abandonar o caminho da arrogância, da violência usada para obter posições de maior poder, para garantir o sucesso a qualquer custo. (Leia o resumo do pronunciamento de Bento XVI aqui e aguarde a publicação do texto na íntegra em português, no site do Vaticano - aqui).