ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



_____________________________________________________________________________



30 de abril de 2011

Urbi et orbi

Tradicionalmente, na ocasião de Natal e de Páscoa, o Papa proclama uma mensagem especial, dirigida "à cidade [de Roma] e ao mundo". Neste ano, Bento XVI disse: Esta minha mensagem quer chegar a todos e, como anúncio profético, sobretudo aos povos e às comunidades que estão a sofrer uma hora de paixão, para que Cristo Ressuscitado lhes abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz. (Leia a mensagem na íntegra aqui) Nós, homossexuais, também somos uma comunidade, um povo. E também, com frequência, sofremos uma hora de paixão. Nós também pedimos que Cristo Ressuscitado nos abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz. Por isso escutamos com atenção as palavras do Papa: Tal como os raios do sol, na primavera, fazem brotar e desabrochar os rebentos nos ramos das árvores, assim também a irradiação que dimana da Ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana, a cada expectativa, desejo, projeto. Por isso, hoje, o universo inteiro se alegra, implicado na primavera da humanidade, que se faz intérprete do tácito hino de louvor da criação. O aleluia pascal, que ressoa na Igreja peregrina no mundo, exprime a exultação silenciosa do universo e sobretudo o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela sua infinita bondade, beleza e verdade. «Na vossa ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra». A este convite ao louvor, que hoje se eleva do coração da Igreja, os «céus» respondem plenamente: as multidões dos anjos, dos santos e dos beatos unem-se unânimes à nossa exultação. No Céu, tudo é paz e alegria. Mas, infelizmente, não é assim sobre a terra! Aqui, neste nosso mundo, o aleluia pascal contrasta ainda com os lamentos e gritos que provêm de tantas situações dolorosas: miséria, fome, doenças, guerras, violências. E todavia foi por isto mesmo que Cristo morreu e ressuscitou! Ele morreu também por causa dos nossos pecados de hoje, e também para a redenção da nossa história de hoje Ele ressuscitou. Apresento a Jesus Ressuscitado o projeto de uma Pastoral de Homossexuais, levada a sério, estruturada, acolhida e acompanhada pela Igreja em todos os níveis. É um projeto de formação contínua e de plena participação de homossexuais na vida da Igreja. É um projeto de superação da homofobia e de outros tipos de preconceito, começando pelos católicos - sejam os membros da hierarquia, sejam os leigos. Se a situação continuar do jeito que está, isso significaraá que, mais uma vez, a palavra de Cristo e de seu representante, o Papa, não está sendo ouvida nem obedecida.

26 de abril de 2011

Maria Madalena


Maria voltou-se para trás
e viu Jesus, de pé.
Mas não sabia que era Jesus,
(...)
pensando que era o jardineiro...
(cf. Jo 20, 15-16)
_______________________________________
O tempo pascal relembra alguns personagens do Evangelho, cuja imagem, ao longo dos séculos, sofreu graves deturpações. Entre eles está Maria Madalena, retratada hoje no seu encontro com Jesus Ressuscitado (Jo 20, 11-18). O outro é o Apóstolo Tomé, a quem pretendo dedicar uma das próximas reflexões. Confesso que nunca encontrei um devoto destes dois santos, mesmo entre católicos mais piedosos. Que pena...
Deixando de lado a história que ganhou recentemente o espaço na literatura e no cinema (graças à obra de Dan Brown, "O código da Vinci"), ao contar sobre o caso de amor entre o próprio Jesus e Maria Madalena, vou apontar um equívoco mais antigo e "consgrado" na memória coletiva do povo. Alguns estudiosos dizem que foi São Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja (+604), quem divulgou a errônea identificação de Maria Madalena com outras mulheres do Evangelho: a mulher pecadora que, na Galileia, em casa de Simão, o fariseu, ungiu os pés de Jesus com as suas lágrimas, enxugou-os com os seus cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume (Lc 7, 36-50), Maria, irmã de Lázaro e a mulher que, em Betânia, ungiu com perfume a cabeça de Jesus (Jo 12, 1-11). Os poucos dados que nos oferecem os evangelhos são estes: Lc 8, 2 informa-nos que entre as mulheres que seguiam Jesus e o assistiam com os seus bens estava Maria Madalena, quer dizer, uma mulher chamada Maria, que era oriunda de Magdala (ou Migdal Nunayah, em grego Tariquea), uma pequena povoação junto ao lago da Galileia, situada ao norte de Tiberíades. Dela Jesus tinha expulsado sete demônios (Lc 8, 2; Mc 16, 9), que é o mesmo que dizer “todos os demônios”. A expressão pode entender-se como uma possessão diabólica, mas também como uma enfermidade do corpo ou do espírito. Alguns autores associam esta expressão aos sete pecados capitais. Pode ter sido, justamente, essa descrição que levou a imaginação de Gregório Magno e de outros padres da Igreja (e com eles, todo o resto do povo), a associarem Maria Madalena à mulher adúltera. Pode parecer estranho, mas nós adoramos apontar os pecados dos outros, ainda que imaginários. O pregador da Casa Pontifícia, Pe. Raniero Cantalamessa, diz: É lamentável que, por causa da identificação incorrecta com a mulher pecadora que lava os pés de Jesus (Lc 7, 37), Maria Madalena tenha acabado por alimentar infinitas lendas antigas e modernas e tenha entrado no culto e na arte quase somente como "penitente", e não como a primeira testemunha da ressurreição, "apóstola dos apóstolos", como a define S. Tomás de Aquino. (leia a pregação do Padre Cantalemessa aqui)
Maria Madalena pode ser padroeira de todos os injustiçados, inclusive os homossexuais. Da mesma maneira que se atribui a ela a promiscuidade e todo tipo de outros delitos, enquanto é uma mulher escolhida e amada por Jesus, também os homossexuais (e outros discriminados), identificados como monstros, cheios de perversidade, têm sido relamente acolhidos e amados pelo Senhor e enviados em missão. Para que possamos experimentar isso, apesar de todas as opiniões contrárias, precisamos de algo muito especial: o encontro pessoal com Jesus Ressuscitado. Fala sobre isso o Papa Bento XVI: O que dizer de Maria Madalena? Chorando, permanece ao lado do túmulo vazio, unicamente com o desejo de saber para onde levaram o seu Mestre. Reencontra-o e reconhece-o quando Ele a chama pelo nome (cf. Jo 20, 11-18). Também nós, se procurarmos o Senhor com espírito simples e sincero, o encontraremos, aliás, será Ele mesmo que virá ao nosso encontro; far-se-á reconhecer, chamar-nos-á pelo nome, isto é, far-nos-á entrar na intimidade do seu amor. (Audiência de 11. 04. 2007; o texto na íntegra: aqui)

25 de abril de 2011

a dipsosição do coração

O Evangelho desta segunda-feira da Oitava da Páscoa (Mt 28, 8-15), mostra dois extremos do coração humano. De um lado: as mulheres que estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos (v. 8). É interessante notar esta incomum mistura de sentimentos: o medo e a alegria. A coisa fica mais interessante ainda, quando percebemos que Jesus ressuscitado, ao encontrá-las, faz referência, justamente, a estas duas emoções: disse: Alegrai-vos!” As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés. Então Jesus disse a elas: “Não tenhais medo. Ide anunciar a meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”. (vv. 9-10) Jesus alimenta a alegria no coração humano, dando-lhe a maior motivação: a sua vitória sobre a morte. Liberta, também, do medo. Mais tarde, o Apóstolo João, escreveu: No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor. (1Jo 4, 18)
De outro lado, na segunda parte da leitura do Evangelho, temos o estado oposto do coração humano. Trata-se de soldados, sumos sacerdotes e anciãos do povo. Embora o texto não mencione, explicitamente, o medo, temos muitas razões para admitir tal sentimento, aliás, não apenas por ocasião da ressurreição de Jesus. Já na hora da morte de Cristo, todos eles devem ter ficado bastante assustados (Desde o meio-dia, uma escuridão cobriu toda a terra até às três horas da tarde. [...] O véu do Santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram. Os túmulos se abriram e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram! Saindo dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitas pessoas. O centurião e os que com ele montavam a guarda junto de Jesus, ao notarem o terremoto e tudo que havia acontecido, ficaram com muito medo e disseram: “Este era verdadeiramente Filho de Deus!” [Mt 27, 45. 51-54]) Bem antes, as autoridades religiosas de Israel, expressavam ainda outro tipo de medo: Os sumos sacerdotes e os fariseus, então, reuniram o sinédrio e discutiam: “Que vamos fazer? Este homem faz muitos sinais. Se deixarmos que ele continue assim, todos vão acreditar nele; os romanos virão e destruirão o nosso Lugar Santo e a nossa nação”. (Jo 11, 47-48) Podemos constatar que o medo, ainda que tenha motivos diferentes, é algo que deixa no mesmo ponto de partida, tanto as mulheres, seguidoras de Jesus, quanto os soldados e os religiosos judaicos. O que faz toda a diferença é a disposição do coração. As mulheres, mesmo amedrontadas, tinham o coração cheio de fé, esperança, amor, humildade e boa vontade. Os demais, também assustados, mas sem fé, esperança e amor, apresentavam sinais de soberba e má vontade. Por este motivo, enquanto as mulheres, libertas do medo, dedicaram-se, alegremente, ao anúncio da verdade, os demais, com o medo ainda maior, investiram na propagação da metira: Os sumos sacerdotes reuniram-se com os anciãos, e deram uma grande soma de dinheiro aos soldados, dizendo-lhes: “Dizei que os discípulos dele foram durante a noite e roubaram o corpo, enquanto vós dormíeis. Se o governador ficar sabendo disso, nós o convenceremos. Não vos preocupeis”. Os soldados pegaram o dinheiro, e agiram de acordo com as instruções recebidas. E assim, o boato espalhou-se entre os judeus, até o dia de hoje. (Mt 28, 12-15) Quando leio as palavras finais deste trecho, penso que elas se referem não somente ao boato sobre um suposto roubo do corpo de Jesus morto, mas também ao fenômeno que continua funcionando no coração humano, até o dia de hoje: falta de fé e de amor, soberba e má vontade, são capazes de pagar o alto preço, com a finalidade de fazer vigorar a mentira. Isso acontece na política e na mídia, mas também, na vida pessoal de muita gente. É neste "ambiente interior" que nasce o preconceito, inclusive a homofobia (como sabemos, a "fobia" significa, exatamente, o medo!). Nem os religiosos de hoje estão livres desse drama. O Catecismo da Igreja Católica, ao falar sobre a ação do Espírito Santo na liturgia, afirma: É o Espírito Santo que dá aos leitores e ouvintes, segundo as disposições de seus corações, a compreensão espiritual da Palavra de Deus. (n° 1101). Isso vale não apenas para os momentos litúrgicos, mas para toda a nossa vida. A compreensão e a interpretação da Palavra de Deus e, portanto, da própria vida, ficam comprometidas, enquanto o coração não estiver curado por Jesus Ressuscitado. A chave chama-se A DISPOSIÇÃO DO CORAÇÃO.

24 de abril de 2011

Correria e ausência

Reparamo-nos com muita correria no Evangelho de hoje (Jo 20, 1-9). Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. (vv. 1-4) A Ressurreição de Jesus põe-nos a correr, não nos deixa parados, exige um movimento. Esclarece isso melhor o Apóstolo Paulo, na II leitura de hoje (Cl 3, 1-4): Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. (vv. 1-2) A liturgia de hoje aponta mais uma coisa muito importante. Ao longo de sua missão pública, Jesus foi procurado por todos. Todos se lembram de Zaqueu que subiu numa árvore para ver Jesus (cf. Lc 19, 4), ou daqueles quatro homens que trouxeram um paralítico e como não conseguiam apresentá-lo a ele, por causa da multidão, abriram o teto, bem em cima do lugar onde ele estava e, pelo buraco, desceram a maca em que o paralítico estava deitado (Mc 2, 4), ou então, daquelas multidões que chegavam em certos lugares, antes mesmo que Jesus chegasse ali: Muitos os viram partir e perceberam a intenção; saíram então de todas as cidades e, a pé, correram à frente e chegaram lá antes deles. Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão por eles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. (Mc 6, 33-34). Também os pagãos faziam questão de encontrar Jesus: Havia alguns gregos entre os que tinham subida a Jerusalém para adorar durante a festa. Eles se aproximaram de Filipe, que era de Betsaida da Galiléia, e disseram: “Senhor, queremos ver Jesus” (Jo 12, 20-21). Até o rei Herodes procurava ver Jesus (Lc 9, 9) e ficou muito contente ao ver Jesus, pois havia muito tempo desejava vê-lo. Já ouvira falar a seu respeito e esperava vê-lo fazer algum milagre. (Lc 23, 8). Entretanto, no Domingo da Páscoa, tudo ficou diferente. Pela primeira vez, o fato de não encontrar Jesus, era melhor do que encontrá-lo. Bendita ausência de Jesus no sepulcro. Isso nos faz lembrar de todas aquelas situações, em que experimentávamos a "ausência" do Senhor. Escrevo entre aspas, pois o Senhor nunca se ausenta, mas - como já meditamos, na ocasião da Via Sacra (aqui) - somos nós que, de vez em quando, temos a sensação de sua ausência. Isso ocorre, sobretudo, na hora de grande provação (sofrimento, morte de pessoas amadas, morte de inocentes, desestres, perseguição, etc.) O mesmo afirmam os místicos, ao descreverem a experiência da "noite escura da alma" (São João da Cruz, Santa Teresa d'Ávila, Santa Catarina de Sena e muitos outros). A verdade é que o fato de não encontrar o Senhor faz parte de seus planos e torna-se o prenúncio de um encontro novo, muito mais rico e enriquecedor. Em algum momento, Jesus vitorioso vai aparecer. Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, os discípulos estavam reunidos, com as portas fechadas por medo dos judeus. Jesus entrou e pôs-se no meio deles. Disse: “A paz esteja convosco”. (Jo 20, 19) Por mais absurdo que isso pareça, as vezes é necessário - e até melhor - não conseguir encontrar Jesus por algum tempo. Nessas horas a nossa fé amadurece e a nossa oração deixa de ter aquela forma ensaiada e superficial. Começamos a gritar ao Senhor. E Ele, certamente, fica esperando por aquele grito. É a mais autêntica e sincera oração do homem. Já antes dos acontecimentos dolorosos de sua paixão, Jesus havia dito: É bom para vós que eu vá. (...) Um pouco de tempo, e não mais me vereis; e mais um pouco, e me vereis de novo. (...) Ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. (Jo 16, 7. 16. 20) Estas palavras revelam, também, o sentido e a importância daquela "noite escura da alma".
........................................
Portanto, meu irmão! Se você estiver, neste momento, mergulhado numa escuridão, ou agitado pelas ondas de tribulações e, principalmente, se tiver a sensação de que Deus o abandonou, não desanime! Isso vai passar, sem dúvida alguma. Pode até demorar, mas depois dessa, você vai sair mais forte do que nunca. A sua fé provada, será comprovada. O seu olhar às coisas do mundo e, também, à sua própria vida, nunca mais será o mesmo. Imagine-se na pessoa de Madalena, ou de outros discípulos de Jesus que, ao chegarem ao sepulcro vazio, devem ter pensando: "Graças a Deus que Ele não está aqui". Naquele momento, já nascia em seus corações aquela certeza da fé: ELE RESSUSCITOU!

FELIZ PÁSCOA !

23 de abril de 2011

FELIZ PÁSCOA

Celebro a Ressurreição do Senhor, com as palavras da última mensagem "Urbi et Orbi" ("À cidade [de Roma] e ao mundo") de João Paulo II. Na mesma semana, às vésperas do 2° Domingo da Páscoa - Festa da Divina Misericórdia de 2005, o Papa deixou a terra e foi celebrar a Páscoa definitiva, na casa do Pai. No próximo dia 01 de maio, a Igreja vai proclamá-lo bem-aventurado. Com estas palavras, desejo a todos os meus Leitores, Feliz Páscoa. E que ela seja permanente em nossas vidas.


Também hoje, Páscoa da Ressurreição,
nós, com todos os cristãos do mundo repetimos:
Jesus, crucificado e ressuscitado, fica conosco!
Fica conosco, amigo fiel
e seguro apoio da humanidade
a caminho pelas estradas da vida!
Tu, Palavra viva do Pai,
infunde certeza e esperança
naqueles que buscam
o verdadeiro sentido da sua existência.
Tu, Pão de vida eterna,
nutre o homem
faminto de verdade, liberdade, justiça e paz.
(27 de março de 2005)

22 de abril de 2011

Via Sacra [conclusão]

Segui o esquema mais antigo de Via Sacra. Atualmente, os textos incluem frequentemente a XV Estação: "Jesus ressuscita dos mortos" que, na minha opinião, não faz parte deste conjunto. Alguns autores elaboram, por analogia à Via Crucis, uma outra jornada espiritual, chamada "Via lucis", o caminho da luz que começa, justamente, com a Ressurreição de Cristo. Em todas as meditações desta Via Sacra, procurei mencionar algo da complexa experiência de um homossexual. Alguém pode julgar ousados alguns pensamentos, classificando-os como blasfêmia. Não creio que tenha ofendido a Deus, porque derramei diante dele o meu coração. Confesso que os textos são pouco ortodoxos, mas esta Via Sacra, é uma tentativa de buscar a luz da fé, para os temas existenciais, com os quais convivem as pessoas homossexuais. À semelhança das meditações da recente Novena de Natal, encontro a motivação para esta Via Sacra, nas palavras do Papa João Paulo II: Pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, se uniu de certo modo a cada homem. A Igreja reconhece, portanto, como sua tarefa fundamental fazer com que uma tal união se possa atuar e renovar continuamente. A Igreja deseja servir esta única finalidade: que cada homem possa encontrar Cristo, a fim de que Cristo possa percorrer juntamente com cada homem o caminho da vida, com a potência daquela verdade sobre o homem e sobre o mundo, contida no mistério da Encarnação e da Redenção, e com a potência do amor que de tal verdade irradia. (...) Aqui, portanto, trata-se do homem em toda a sua verdade, com a sua plena dimensão. Não se trata do homem "abstrato", mas sim real: do homem "concreto", "histórico". Trata-se de "cada" homem, porque todos e cada um foram compreendidos no mistério da Redenção, e com todos e cada um Cristo se uniu, para sempre, através deste mistério. (Encíclica "Redemptor hominis", n°13).

Via Sacra [14]

XIV Estação: Jesus é sepultado

Ao entardecer, veio um homem rico de Arimatéia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus. Ele foi procurar Pilatos e pediu o corpo de Jesus. Então Pilatos mandou que lhe entregassem o corpo. José, tomando o corpo, envolveu-o num lençol limpo e o colocou num túmulo novo, que mandara escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra na entrada do túmulo e retirou-se. Maria Madalena e a outra Maria estavam ali sentadas, em frente ao sepulcro. (Mt 27, 57-61) Provavelmente, todos nós já sepultamos alguém. Por mais que tenha sido anunciada, a morte sempre nos surpreende. Enterramos nossos pais, irmãos, amigos. Às vezes precisamos enterrar aquela pessoa, com a qual nos unia um laço particular de amor e paixão. Há vários relatos sobre as famílias de homossexuais mortos, que impediam a presença do namorado/amante do(-a) falecido(-a) no enterro. A dor da perda, multiplica-se, com a semelhante proibição. Nessas horas dá vontade de gritar: "Vocês não conheceram o seu filho (a sua filha)! Ele (ela) gostaria muito de que eu lhe prestasse a última homenagem!". Hoje em dia, chegam às vezes, notícias sobre a decisão judicial acerca da herança de um homossexual falecido, concedida ao parceiro. Certamente, a herança, não é a coisa mais importante, naquelas momentos. A vida que precisa seguir em frente, é o verdadeiro desafio. Nelson Luiz de Carvalho, em seu espetacular livro "O 3° travesseiro" (Ed. Arx; São Paulo, 2005), retrata os momentos do enterro, vividos pelo amante do rapaz que tinha sofrido um acidente fatal: Ao ouvir que o caixão seria fechado, fui envolvido por uma força muito parecida com a do vento. Meu corpo continuava inerte enquanto minha alma se arrastava pelo chão. As pessoas se movimentavam como em câmera lenta. Gritos, choros, desmaios. Desespero. Empurrado para trás por um sopro de sentomentos descontrolados, me separei do abraço seguro do meu pai. Sozinho e quase fora do salão, acompanhei com os olhos, segundo a segundo, a tampa da morte selar a vida. Duas almas gêmeas foram estraçalhadas naquele instante. (p. 209) E conclui, sobre a vida que precisava continuar: (...) desde aquele triste acidente de carro, vivo apenas para viver. Não existe nada na Terra capaz de arrancar esse vazio do meu peito. A saudade é a pior coisa do mundo. (...) Caminhando pelas estreitas alamedas do cemitério, espero por um milagre que nunca aconteceu. O silêncio da morte é enorme. O do meu coração, maior ainda. (p. 210) A última parte do texto está no capítulo final do livro, intitulado "Cinco Anos Depois". Nesta XIV Estação da Via Sacra, uno-me com todos os homossexuais que sofreram o semelhante trauma. É claro que não são apenas os homossexuais que perdem seus entes queridos. Todos os outros, porém, recebem um apoio, por exemplo, de uma "Pastoral de Consolação e Esperança", ou coisa parecida. Os gays, não. Com esta meditação, quero preencher, modesta e simbolicamente, esse lacuna.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Foste sepultado e, a partir daquele momento, todos os túmulos ganharam um novo significado. Como escreve o Teu Apóstolo, Paulo: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. (...) Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos serão vivificados. Cada qual, porém, na sua própria categoria: como primícias, Cristo; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. (1Cor 15, 20. 22-23) Jeus, consola os que choram. Dá-me a graça de enxergar a morte de pessoa amada e o seu túmulo, com os olhos da fé. Ensina-me a olhar, também assim, à minha própria morte.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [13]

XIII Estação: Jesus é descido da cruz

Um dos momentos anteriores vem na mente neste silencioso momento, em que o corpo de Jesus sem vida é descido da cruz. É o grito cruel dos religiosos, reunidos ao pé da cruz: Zombavam de Jesus os sumos sacerdotes, junto com os escribas e os anciãos, dizendo: “A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel: desça agora da cruz, e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que o ama! Pois ele disse: ‘Eu sou Filho de Deus’”. (Mt 27, 41-43) Também os que passavam por ali o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: “Tu que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt 27, 39-40) Jesus tinha o poder de descer da cruz, assim como de se defender para não ser crucificado. Mas permaneceu fiel, no seu amor divino e humano, até o fim. Esta XIII Estação é, portanto, a revelação da fidelidade de Jesus. Como se Ele quisesse dizer: “Eu sou o que sou. Eu sou assim. Nada e ninguém vai tirar isso de mim. Foi para isso que eu vim”. No contexto de nossas reflexões sobre a homossexualidade, à luz da Paixão de Cristo, chegamos à questão de fidelidade à própria identidade. Embora haja, recentemente, um avanço de aceitação da homossexualidade, como algo inseparável da natureza humana e, portanto, uma clara oposição (apoiada pela lei, em alguns casos), diante das tentativas de “tratamentos” ou “terapias” para “curar” alguém desse “vício”, infelizmente existem ainda muitos que acreditam no êxito de tal procedimento. A profunda ignorância de tanta gente proclama a urgência de que o “gay vire homem”. Sinceramente, é o mesmo grito daqueles que zombavam de Jesus e exigiam que descesse da cruz. Ele não desceu, mas foi descido, somente depois de sua morte. Eu posso dizer que vou deixar de ser homossexual, só na hora da minha morte. Embora não tenha tanta certeza, pois o próprio Jesus disse sobre a vida além da morte: Quando ressuscitarem dos mortos, os homens e as mulheres não se casarão; serão como anjos no céu. (Mc 12,25). Essas palavras do Senhor parecem sugerir que a definição da sexualidade, ou pelo menos o casamento, é a coisa passageira e limitada apenas para esta vida (ou este mundo). Na eternidade não será assim. São Paulo, por sua vez, afirma: O amor jamais acabará. (...) Atualmente permanecem estas três: a fé, a esperança, o amor. Mas a maior delas é o amor. (1Cor 13, 8a. 13) Na eternidade, não teremos mais necessidade de fé e de esperança. Viveremos a plenitude de amor. Será que a orientação deste amor continuará, ou haverá uma transformação? Isso só vamos saber quando chegarmos lá. Como está escrito, “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu”. (1Cor 2, 9)

ORAÇÃO

Senhor Jesus! A Tua fidelidade até o fim inspira a minha fidelidade. Creio que sou assim, porque o Criador me fez deste jeito. Tu disseste: Não se vendem dois pardais por uma moedinha? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. (Mt 10, 29) Pois é! Nada acontece sem o consentimento do Pai do céu. É com este consentimento do Pai, que eu sou homossexual. Embora muitos gritem, para que eu deixasse de ser o que sou, o Teu exemplo de permanecer na cruz até o fim, consola-me e fortalece. Obrigado, Jesus!
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [12]

XII Estação: Jesus morre na cruz

Pelas três da tarde, Jesus deu um forte grito: “Eli, Eli, lamá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46) Jesus nunca foi abandonado por Deus, até porque Ele próprio é Deus. Na hora da morte, porém, Jesus experimentou o ápice de toda angústia humana. A partir daquele momento, também a sensação de ser abandonado por Deus, foi consagrada. Não é mais identificada com a blasfêmia. Quando sentimo-nos abandonados por Deus, estamos muito mais perto dele do que pode parecer. Muitos homossexuais experimentam esta angústia, alimentada, inclusive, por aqueles que se consideram representantes de Deus neste mundo. Não nos esqueçamos de que, ao pé da cruz, além de Maria Santíssima e o discípulo amado, estavam, justamente, os "representantes de Deus" que, naquela hora, não paravam de zombar de Jesus. Cristo está sendo representado, de maneira mais eloquente, pelos perseguidos e, por isso mesmo, angustiados, do que por aqueles que exibem os seus títulos e ministérios eclesiásticos. O livro "Vidas em arco-íris" (Editora Record; Rio de Janeiro, 2006) de Edith Modesto (fundadora do movimento dos pais de homossexuais), reune vários depiomentos de gays e lésbicas. Uma parte é dedicada à relação dessas pessoas com Deus. Um dos entrevistados, Bruno, diz: A adolescência foi quando começaram as crises, porque, para mim, que era protestante, eu tinha a minha realidade formada, eu acreditava em todo aqule mundo que a religião mostra. Então, na adolescência, óbvio que depois aconteceu de eu me apaixonar por outro rapaz e não entender o que estava acontecendo. Eu me preocupava com a minha família religiosa, e com Deus... Tinha uma coisa de Deus extremamente presente, absolutamente cruel. Eu iria ser muito castigado... Seria a minha destruição, com certeza. (p. 102) Betty Fairchild e Nancy Hayward, em seu livro "Agora que você já sabe: o que todo pai e toda mãe deveriam saber sobre a homossexualidade" (Ed. Record; Rio de Janeiro, 1996), citam a obra de McNeill, "The Church and the Homosexual": O homossexual passa por uma grande angústia mental e por um profundo sentimento de alienação, frequentemente se considerando uma pessoa banida, não apenas da sociedade, mas também do amor divino. (p. 188) Jesus crucificado deixou um testamento muito importante para todos aqueles que experimentam a sensação de serem abandonados por Deus: Não tenhas medo que fui eu quem te resgatou, chamei-te pelo próprio nome, tu és meu! Pois és muito precioso para mim, e mesmo que seja alto o teu preço, é a ti que eu quero! Para te comprar, eu dou, seja quem for; entrego nações, para te conquistar! Não tenhas medo, estou contigo! (Is 43, 1b. 4-5a)

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Eu sei que Tu estás sempre comigo. Nunca me abandonaste. Houve momentos em que gritei por me sentir desamparado. Peço-Te, abençoa todos os homossexuais, sobretudo os que se sentem abandonados ou condenados por Deus. Também aqueles que foram expulsos das Igrejas. Dá-nos a graça de experimentarmos a Tua presença e o Teu amor em nossa vida.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

21 de abril de 2011

Via Sacra [11]


XI Estação: Jesus é pregado na cruz

Dedico esta XI Estação a todos os homossexuais torturados e assassinados por causa de sua identidade homossexual. Didier Eribon conclui a introdução ao seu livro "Reflexões sobre a questão gay" (Ed. Companhia de Freud; Rio de Janeiro, 2008), com o seguinte texto: No momento em que termino este prefácio, leio nos jornais que um jovem gay foi assassinado nos Estados Unidos, numa cidadezinha do Wyoming. Foi torturado pelos dois agressores e abandonado, agonizante, pendurado numa cerca de arame farpado. Tinha 22 anos. Chamava-se Matthew Shepard. Sei bem que não é o único homossexual a ter conhecido sorte tão trágica nos Estados Unidos nos últimos anos. Sei igualmente que, em muitos países, os gays, as lésbicas, os bissexuais e os transexuais são regularmente, sistematicamente, vítimas de violências como essa. Um relatório da Anistia Internacional publicou recentemente uma lista aterrorizante e, com certeza, bem incompleta. Mas é a foto de Matthew Shepard que hoje tenho diante dos olhos; o relato do que ele sofreu. Como não pensar nele quando me preparo para publicar este livro? Como não pedir ao leitor para nunca esquecer, ao lê-lo, qua não são apenas problemas teóricos que estão em jogo? (p. 23) Jesus disse: Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. (Mt 25, 40) Jesus continua sendo crucificado. E a Igreja, em vez de lavar os pés dos mais marginalizados, continua lavando as suas próprias mãos.


ORAÇÃO

Senhor Jesus! Foste humilhado, torturado e crucificado. Olha com amor àqueles que são crucificados por causa de sua homossexualidade. Recebe-os no Teu reino.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [10]

X Estação: Jesus é despido de suas vestes

As vestes de Jesus estavam praticamente grudadas em Seu corpo por causa do sangue coagulado nas feridas causadas pelo açoitamento. (...) A roupa foi arrancada, causando surtos de dor pelo corpo de Jesus. (Frederick T. Zugibe, "A crucificação de Jesus: as conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal"; Ed. Idéia & Ação; São Paulo, 2008; p. 67) Nos textos devocionais de Via Sacra, fala-se frequentemene, nesta estação, sobre a imoralidade, associada à nudez. É interessante notar, neste contexto, que a vergonha causada pelo corpo nu, é a primeira consequência do pecado. Então os olhos de ambos se abriram, e, como reparassem que estavam nus, teceram para si tangas com folhas de figueira. (...) O Senhor Deus chamou o homem e perguntou: “Onde estás?” Ele respondeu: “Ouvi teu ruído no jardim. Fiquei com medo, porque estava nu, e escondi-me”. (Gn 3, 7. 9-10) Vamos colocar o pensamento em ordem. Se a vergonha, diante da nudez, é o efeito imediato do pecado e, por sua vez, Jesus sofreu, morreu (nu!) na cruz e ressuscitou, por que, então, a Igreja, ao longo dos séculos, cultiva e alimenta, até ao extremo, a vergonha da nudez? Será que, ao permitir ser despido de sus vestes e crucificado nu, Jesus não redimiu e santificou, também, a nudez humana? Outra observação importante: o ato de descobrir (expor) o corpo, em toda a sua extensão, é um elemento indispensável da experieência de intimidade no amor. Quanto maior o amor, menor é a vergonha diante da nudez. Na verdade, a vergonha desparece totalmente, sem ter algo a ver com aquilo que, na linguagem popular chamamos de "sem-vergonha". É na intimidade do amor que se revela a nudez redimida pelo amor de Deus. E é na nudez que se revela, por excelência, a beleza da criação. Para deixar as coisas bem claras: a "sem-vergonhice" consiste em ver o corpo do outro, como o objeto a ser usado para obter um prazer individual. É a expressão do egoísmo. Quando, porém, fico fascinado e - por que não - atraído, pela beleza do corpo do outro, mas enxergo muito mais do que apenas o corpo, sou capaz de desenvolver o profundo e sincero amor. Livro-me, então, das minhas roupas e, os dois, experimentamos a comunhão íntima do amor. Repito: ao redimir o homem, Jesus santificou e consagrou a nudez.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Desde pequeno, olho o Teu corpo nu, exposto na cruz. Obrigado pela redenção da nudez. Obrigado por tantos belíssimos corpos que já tive a graça de contemplar (e, alguns, de tocar). Peço-Te que o corpo humano, que me fascina tanto, não seja para mim apenas um objeto do desejo carnal, mas o caminho para crescer no amor pelo homem inteiro. Livra-me da hipocrisia de toda falsa vergonha. Junto contigo, Jesus, louvo o Pai Criador, magnífico Artista, Autor da maior beleza: o corpo humano.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

19 de abril de 2011

Via Sacra [9]

IX Estação: Jesus cai pela terceira vez

Eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E a gente achava que ele era um castigado, alguém por Deus ferido e massacrado. Mas estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos pagar caiu sobre ele, com os seus ferimentos veio a cura para nós. (Is 53, 4-5) Todo o sofrimento de Jesus - e não somente as suas quedas no caminho ao Calvário, como sugerem alguns - foi a consequência dos pecados de cada ser humano. Ao contemplarmos a Paixão de Cristo, desperta-se em nós o arrependimento de nossas fraquezas, precedido pelo exame de consciência. Estes dois atos (o exame de consciência e o arrependimento) e mais outros três (o propósito de emenda, a própria confissão perante o sacerdote e a penitência, cumprida posteriormente),  formam o conjunto das condições de uma boa confissão. Entre estes elementos da reconciliação sacramental, o exame de consciência parece representar a maior dificuldade. Muitas vezes temos dúvidas, tanto em questão o que é e o que não é um pecado, bem como em relação ao "tamanho" (a gravidade) de cada pecado. Lembro-me da conversa com um pastor evangélico que afirmava ter sido a "adoração das imagens", o mais grave de todos os pecados. Não adiantava explicar de que nós, os católicos, não adoramos, mas veneramos as imagens, ao homenagearmos as pessoas representadas nelas (Jesus, Maria, os Santos, etc.). Naquele conversa não recorri aos argumentos bíblicos ou teológicos, mas à lógica. Jesus disse no Evangelho: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos. (Mt 22, 37-40). Logicamente, o maior pecado, será a falta de amor a Deus e ao próximo. O resto depende destes dois mandamentos. Em vários ambientes católicos (comunidades, movimentos, grupos de espiritualidade, etc.), existe uma obsessão relacionada aos "pecados contra castidade", tidos evidentemente, como as mais graves (vejam aqui a semelhança com a neurose de alguns grupos evangélicos, em relação às imagens católicas). Anselm Grün, monge beneditino e escritor, fez uma interessante observação: Projetamos sobre os outros o demônio que habita o nosso coração, endemoniniando-os, acusando-os de serem pouco ortodoxos ou cristãos sem muita convicção. (...) Os defeitos que se apontam nos outros são sempre os próprios defeitos. ("O ser fragmentado: da cisão à integração"; Ed. Idéias & Letras; Aparecida, SP, 2004; p. 71). A clássica (e histórica) obsessão da Igreja, em relação à sexualidade (ou: sexualidades), parece revelar a sombra interior, da mesma espécie, presente (mas não admitida) nos próprios líderes e membros desta instituição. E, muitas vezes, comete-se o maior pecado - a falta de amor - ao investir na "caça das bruxas", na área da(s) sexualidade(s).

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Sofreste por causa dos nossos pecados. Perdoa-nos, por favor! Dá-nos a luz interior, para reconhecermos tudo aquilo que nos afasta de Ti. Dá-nos o dom de um verdadeiro e profundo arrependimento. Não nos deixes cair em tentação e livra-nos do mal. Do mal de não amar.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

18 de abril de 2011

Via Sacra [8]

VIII Estação:
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
que choram por Ele

Seguia-o uma grande multidão do povo, bem como de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se para elas e disse: “Mulheres de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. Então começarão a pedir às montanhas: ‘Caí sobre nós!’, e às colinas: ‘Escondei-nos!’ Pois, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” (Lc 23, 27-31). Jesus Mestre ensina até o último instante e suas palavras, nestas circunstâncias, ganham ainda mais peso. Tornam-se testamento. Jesus sabe que, muitas vezes, choramos e nos lamentamos sobre os outros, para não olhar a nós mesmos, ao nosso interior. Da mesma maneira, censuramos outras pessoas, para abafar a voz da nossa própria consciência. As palavras iniciais de Jesus ("não choreis por mim"), por mais que pareçam, não constituem uma proibição. É a mesma história que a da afirmação do Senhor: O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos. (Mt 20, 28). Se fosse uma ordem explícita, não teria sentido (pois seria abominável nos olhos do Senhor) todo o serviço prestado a Ele (pela Igreja, por pessoas individualmente, etc.). Jesus se importa com as prioridades. Em primeiro lugar, Ele veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. E, por isso mesmo, os que foram resgatados, procuram servi-lo. Da mesma maneira, quando Jesus diz "não choreis", não quer dizer que esteja nos ensinando a insensibilidade e a indiferença. Ele quer que choremos, mas, em primeiro lugar, sobre nós mesmos e sobre os que amamos. Assim, como Jesus chorou, olhando à cidade de Jerusalém: Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: “Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados. Esmagarão a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada”. (Lc 19, 41-44) Choramos, porque amamos e nos preocupamos. E devemos chorar (com outras lágrimas), quando não amamos o suficiente. As mães de Jerusalém e de todos os lugares da terra, devem chorar sobre si mesmas, quando não são capazes de acolher os filhos, do jeito como eles são. Por exemplo, homossexuais. E devem, por mesmo motivo, chorar sobre estes filhos que não recebem o amor necessário, dentro de sua própria casa. A Igreja precisa chorar sobre si mesma, quando não consegue se libertar de preconceito e, por isso, não serve a Jesus, presente em cada pessoa homossexual. E deve chorar por estes seus filhos abandonados. Por serem abandonados.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Eu choro sobre Ti, sobre mim e sobre aqueles que amo, ou devo amar. Ajuda-me a compreender o sentido das lágrimas e perceber a diferença entre elas. Ajuda-me a chorar sobre os meus pecados. Ensina-me a chorar por amor. Acolhe todas as minhas lágrimas. E que nenhuma delas Te ofenda.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [7]

VII Estação: Jesus cai pela segunda vez

"O sol do meio-dia estava forte e o suor pingava do rosto e do corpo de Jesus. O forte calor do sol e o peso da barra da cruz em Seus ombros irritados, considerando a condição em que Ele se encontrava, causaram intensa fraqueza e tontura, fazendo com que Ele tropeçasse, se desequilibrasse e caisse. As Estações da Cruz (indicadas por São Francisco de Assis) mostram Jesus caindo três vezes. Mas essa suposição não é compatível com Seu estado clínico, porque, considerando-se Sua condição física, há poucas dúvidas de que Ele tenha caído inúmeras vezes antes de chegar ao Calvário. (...) Ele tinha cada vez mais dificuldade para se erguer cada vez que ia ao chão, na tentativa de suportar o peso da cruz." (Frederick T. Zugibe, "A crucificação de Jesus. As conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal"; Ed. Idéia&Ação; São Paulo, 2008; p. 66) Repito aqui o meu pensamento, apresentado na meditação da III Estação: a maioria dos textos devocionais, associa as quedas de Jesus ao pecado, mais ou menos da seguinte maneira: "Cristo cai de novo por terra. São os pecados horríveis que o oprimem. Tão depresa acostumo-me a praticar o mal." Eu não pretendo fugir deste assunto, mas acredito que haja muito mais significado no verbo "cair" e que Jesus, derrubado no chão, deseja unir-se com cada ser humano, em todo tipo de queda. Na ocasião da III Estação (aqui), refleti sobre a experiência de "cair em si" que, em muitos casos, pode ter sido algo muito doloroso (exemplo: as pessoas que se surpreendem com a descoberta de sua homossexualidade). Continuando, de certo modo, aquela meditação, proponho agora o fenômeno de "cair em depressão". Muitos autores afirmam que entre os grupos mais propensos a sofrer depressão, o grupo homossexual destaca-se de modo acentuado. (...) Alguns cientistas têm sustentado uma vinculação genética entre a homossexualidade e a depressão (uma proposta [...] não apenas perturbadora como também insustentável). Outros sugeriram que as pessoas cuja sexualidade não pressupõe filhos podem confrontar mortalidade mais cedo do que a maioria dos heterossexuais. Diversas outras teorias têm circulado, mas a explicação mais óbvia para as altas taxas de depressão gay é a homofobia. Os gays são mais vulneráveis a serem rejeitados por suas famílias do que as pessoas em geral. São mais propensos a problemas de ajuste social. Devido a tais problemas, são mais vulneráveis a abandonar a escola. Eles têm uma taxa mais elevada de doenças sexualmente transmitidas. Têm menos probabilidade de formar relações estáveis em sua vida adulta. É menos provável que tenham guardiões quando idosos. São mais vulneráveis a serem infectados pelo HIV; e mesmo os que não são soropositivos, quando ficam deprimidos são mais vulneráveis à prática de sexo inseguro e a contrair o vírus, o que, por sua vez, exacerba a depressão. E, acima de tudo, têm uma maior probabilidade de viver furtivamente e ter passado por intensa segregação em consequência disso. (Andrew Solomon; “O demônio do meio-dia”; Ed. Objetiva; Rio de Janeiro, 2010; pp. 305-306)
Em vez de reduzir a riquíssima simbologia das quedas de Jesus durante a Via Sacra a questões morais ou legais ("pecado"), prefiro abrir os meus olhos a tantas outras realidades e expressar a solidariedade aos irmãos que caíram ao fundo do poço de solidão, tristeza e desânimo.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Vejo-Te prostrado, outra vez, no caminho. Creio que cada instante de Tua passagem por este mundo, tem o profundo sentido. Também estas quedas. Ampara, com o poder do Teu amor, todo aquele que caiu em depressão. Olha, de maneira especial, àqueles que, não recebem apoio algum, em sua dolorosa experiência de homossexualidade incompreendida e perseguida.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [6]

VI Estação: Verônica enxuga o rosto de Jesus

Esta cena não foi registrada pelos evangelistas, mas é transmitida por meio da tradição, inclusive o nome daquela mulher sensível e corajosa. Verônica teria sido a mulher curada por Jesus de hemorragia (cf. Mt 9, 20-22) e o seu nome, em versão grega, seria Berenice, tendo mais tarde a forma latinizada "Verônica", o que por sua vez, evoca a sua atitude da via crucis (vera [lat.] = verdade + eikon [gr.] = imagem). É aquela que recebeu de Jesus um singular sinal de gratidão, em forma de sua face sagrada e maltratada, impressa na toalha. A tradição atribui ao gesto de Verônica e ao "presente" de Jesus, a origem do culto à Sagrada Face. O que chama atenção, é o encontro de duas virtudes no coração daquela mulher. Uma atenciosa delicadeza e compaixão, normalmente seria vista como aquele frágil lado feminino. Não é de se surpreender que os rapazes, com traços delicados e sensíveis, são desprezados por muitos, por serem efeminados (a maioria dos machões, mesmo entre os gays, usam - em sua ignorância - o termo "afeminados"). No exemplo de Verônica percebemos que a sensibilidade não é necessariamente o sinal de fraqueza, muito pelo contrário. Unida com a coragem, esta virtude torna-se o meio para um belíssimo exercício de amor. Imagino os soldados, surpresos e aborrecidos, mas impotentes, diante de tal gesto. No meio da multidão, sem dúvida, houve quem sentisse vergonha, por causa da própria indolência. Muitos se lamentavam, mas somente Verônica tomou atitude. Naquele oceano de indiferença e zombaria, misturadas com a medrosa inêrcia, aquela mulher, junto com a Mãe de Jesus, tornaram-se como ilhas de esperança, consolo e autêntico amparo, para Jesus que naufragava nas profundezas de dolorosa solidão. Medito e rezo, nesta Estação, pensando em todas as pessoas que foram - e ainda são - as minhas Verônicas. É impressionante como, em torno de um homossexual, estão sempre presentes as mulheres, contrariando aquela ideia de que os gays são antifeministas, por natureza (perversa, é claro!). Tenho certeza de que, na maioria das vezes, as mulheres são tratadas melhor pelos homossexuais do que por homens heterossexuais. Está aqui a minha homenagem a todas as minhas amigas, que pertencem a várias gerações e diferentes "classes sociais", moram em lugares diversos, mas sempre, quando enfrento algum tormento, estão comigo, com aquela toalha na mão, para enxugar o meu rosto. E preciso completar que fazem isso, sem esperar qualquer coisa em retribuição da minha parte. Pelo contrário: suportam com paciência as minhas frequentes e estúpidas irritações e outras neuroses.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Aprendo contigo a verdadeira gratidão. Obrigado por cada Verônica que puseste no meu caminho. Abençoa todas elas, uma por uma! Envia outras pessoas, sensíveis e corajosas, ao encontro dos meus irmãos e irmãs homossexuais, sobretudo aqueles que enfrentam, sozinhos, as ondas furiosas de preconceito e perseguição.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

17 de abril de 2011

Via Sacra [5]

V Estação: Jesus recebe ajuda de Simão Cireneu

Passava por ali certo homem de Cirene, chamado Simão, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo, e obrigaram-no a que lhe levasse a cruz. (Mc 15,21) As duas principais informações são estas: 1) Simão ajudou Jesus; 2) Simão foi obrigado (Lc 23, 26, diz: detiveram um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para que a carregasse atrás de Jesus). A tradição da Igreja acrescenta a história de profunda transformação daquele homem, após o encontro com Jesus e com a sua cruz (alguns autores dizem que ele não queria devolver a cruz no final do caminho). Há quem associe o nome de Rufo, mencionado pelo Apóstolo Paulo (em Rm 16, 13) a um dos filhos de Simão Cireneu, como eventual prova daquela tradição. Seja qual for a história real desse homem, a V Estação da Via Sacra, leva-me à reflexão sobre todas as pessoas que assumiram o papel de Cireneu na vida de muitos homossexuais. Às vezes é uma ajuda conquistada, depois de longas e duras batalhas (portanto forçada), como a lei contra a homofobia e vários sinais de avanço em questão de reconhecimento da dignidade e dos direitos de pessoas homossexuais na sociedade. Ainda que se trate de leis e instituições, na prática acaba sendo uma convivência com as pessoas que representam essas leis ou instituições. Acredito que haja casos de mudança no interior de algumas dessas pessoas, à semelhança da experiência de Simão, descrita pela tradição. Mais uma vez confirma-se a tese de que o preconceito pode ser superado quando surge a oportunidade de conhecer o "problema" de perto. Alguns, ao conhecerem o "mundo gay" (ou, melhor, um ser humano, concreto e real), tornam-se seus defensores, além de toda obrigação institucional, ou pelo menos, ficam curados de medo e de má vontade. Por outro lado, existem entidades nas quais eu não depositaria tanta confiança assim. Hoje em dia, por exemplo, a mídia parece estar ao nosso lado. Como, porém - na minha opinião - a mídia é como uma prostituta conformista, acredito que a simpatia atual por parte dela, em relação ao universo GLBT, é o efeito da "onda do momento" e nada mais (pelo menos, no sentido geral). Só espero que essa onda dure ainda por muito tempo. A Igreja, por sua vez, declara o seu papel de Cireneu para com as pessoas homossexuais, mas (com algumas exceções) isso não passa de uma bela teoria.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Quando vejo Simão de Cirene, renova-se no meu coração, a memória de todas as pessoas que me ampararam pelo caminho. Quero agradecer, Senhor, por todas as conquistas que aliviam a vida de homossexuais em nossa sociedade. Peço-Te a graça para toda a Igreja, para que encontre as maneiras melhores de acolher e acompanhar os homossexuais, através de um trabalho pastoral, levado a sério. Quando vejo Simão de Cirene, desperta-se no meu coração, o desejo de ajudar os outros a carregarem a sua cruz.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [4]

IV Estação: Jesus encontra a sua Mãe

Não há palavras que fossem capazes de descrever os sentimentos de Maria naquele momento. Vários autores falam de um encontro que trouxe conforto para Jesus, neste caminho rumo ao Calvário. Eu não tenho tanta certeza. Quando enfrento alguma dificuldade, procuro não envolver a minha mãe naquela situação e, quando ela pergunta, sempre digo: "Estou bem, mãe. Está tudo bem por aqui!". Não quero que ela fique preocupada (também porque acho que ela sempre exagera nesta questão). Talvez a minha reação, vontade e postura sejam diferentes, no caso de uma situação extrema, como a de Jesus na Via Sacra. Se eu estivesse morrendo, gostaria que ela estivesse ao meu lado? Com certeza. Entretanto, a sua dor iria aliviar ou aumentar a minha? De acordo com uma das reflexões anteriores (aqui), a dor é o elemento indispensável (e, até, "constituinte") de amor. O encontro de Jesus com Maria, na via sacra, era necessário e, embora não tenha deixado marca alguma nos textos sagrados, chegou até nós por meio da piedosa tradição do povo. Penso, nesta estação, em Maria Santíssima e no seu lugar no plano da salvação. Muitos teólogos e, de certa forma, o próprio Magistério da Igreja, falam de Maria como "corredentora". Este título não diminui, nem ofusca, os méritos infinitos de Cristo Jesus, o único Redentor da humanidade, mas Deus quis que Ela participasse, de modo todo singular, nesta obra (a mesma logica se dá em relação à intercessão e/ou mediação entre homens e Deus). Logo, em seguida, nesta IV Estação, o meu pensamento vai em direção da minha mãe. Como é importante, para um homossexual, o amor compreensivo e acolhedor de mãe! Eu sei que muitos não tiveram a felicidade de encontrar o apoio e o amor incondicional de suas mães. Ainda assim creio que o desejo maior de cada mãe é ver o seu filho feliz (ainda que, nem sempre, o conceito de felicidade, seja o mesmo para ambos - veja aqui). Muitas mães não estão angustiadas pelo fato de seu filho ser homossexual, mas pela perspectiva de sofrimentos (preconceitos, perseguições, etc.) que isso pode causar na vida deste filho. É algo parecido, um pouco, com a preocupação de mãe, com a sorte do filho-policial, piloto ou alpinista. A diferença evidente está na eventualidade de persuadir o filho para que desistisse daquela carreira, o que não pode ocorrer, no caso de um filho homossexual (e nem sempre a mãe se dá conta dessa diferença). Apesar de todas as dificuldades e limitações, a presença de mãe, no nosso caminho de homossexuais, é de suma impotrância.

ORAÇÃO

Senhor Jesus, obrigado pela Tua Mãe, Maria Santíssima! Mãe, consoladora dos aflitos, acompanha-nos em todos os instantes. O seu terno amor de mãe acolhe, também, os filhos e filhas homossexuais. E nós, muitas vezes machucados pela vida, contamos com este encontro. Pela intercessão de Maria das Dores, peço-Te, Jesus, por todos aqueles que, ao descobrirem a sua identidade homossexual, não tiveram a compreensão e o apoio da própria mãe. Abençoa as nossas mães, para que nunca desistam de seus filhos.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

16 de abril de 2011

Via Sacra [3]

III Estação: Jesu cai pela primeira vez

Os Evangelistas não mencionam nenhuma das três quedas de Jesus no caminho da cruz, celebradas entre as "estações" da Via Sacra. É a tradição que nos transmite esses fatos. Por sua vez, a devoção atribui imediatamente o significado às quedas. Jesus caiu sob o peso da cruz, para salvar os homens que caíram no pecado. Obviamente, a maioria das meditações desta terceira estação (assim como da sétima e da nona), gira em torno do pecado. Não pretendo fugir deste assunto. Vou abordá-lo, em uma das próximas ocasiões. Neste momento penso sobre outros significados da palavra "cair". Na parábola sobre o filho pródigo (Lc 15, 11-32), Jesus descreve o estado interior do rapaz, com a expressão: "Caiu em si" (v. 17). O termo é claro: o jovem viu, enxergou a sua situação. Tomou consciência. Como dizemos popularmente: "caiu a ficha dele". Quando vejo Jesus que, ao carregar a cruz, cai pela primeira vez, penso naqueles momentos, em que para mim "caiu a ficha", em relação da minha homossexualidade. Caí em mim, tomei consciência. Isso não aconteceu, porém, num só instante, mas aos poucos. Como uma leve pena ou folha seca, a "minha ficha" foi caindo lentamente, ainda que causasse o autêntico terremoto ao tocar no chão. "Eu sou homossexual!". Para muitos, esta descoberta tornou-se insuportável, a ponto de atentarem contra a própria vida. Outros, morreram social ou emocionalmente. Há quem, depois de algum tempo, conseguiu ficar em pé, reconciliando-se consigo mesmo. Se ele cair, não ficará prostrado, pois o Senhor segura sua mão. (Sl 37, 24) Hoje agradeço a Deus por esta reconciliação. Peço por aqueles que continuam em guerra consigo mesmos.

ORAÇÃO

Senhor Jesus, prostrado no chão! Tu me acompanhaste naqueles momentos em que, finalmente, admiti a minha homossexualidade. Foi um tempo difícil, pois os fundamentos do meu mundo ficaram abalados, mas tu seguraste a minha mão. Obrigado, Senhor! Olha com amor àqueles que ainda não se deram conta desta realidade e àqueles que procuram fugir da verdade. Estende a Tua mão protetora sobre aqueles, cuja percepção do sentido de viver, foi ofuscada pelo desespero ou depressão. Faze com que não desistam da vida e que se aceitem como são. Que consigam enxergar a homossexualidade como uma variação - e não aberração - da própria natureza. Dá-lhes a paz!

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [2]

II Estação: Jesus recebe a cruz

Bem antes de sua paixão, Jesus disse aos discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. (Mt 16,24) Contemplamos, nesta segunda estação, o momento em que o próprio Jesus tomou a cruz. E, para nós, "tomar a cruz", quer dizer: tomar o quê? Grande parte da reflexão teológica, ao longo dos séculos, identifica esta atitude com a penitência pelos pecados e, neste contexto, também com a aceitação de sofrimentos e adversidades, bem como a fidelidade aos deveres do estado de vida. Há, em todas estas interpretações, o aspecto negativo, triste e pesado. É impossível negar que carregar uma cruz seja uma coisa triste e dolorosa, mas será que aqui está a sua essência? Até hoje, os católicos são associados a uma postura passiva diante de dor, perseguição, pobreza, etc. Tudo está sendo resumido por uma palavra: a cruz. Para muitos, os católicos são aqueles "pobres coitados" que, com resignação, permitem ser pisoteados, humilhados e injustiçados, porque - segundo dizem - tudo isso faz parte da cruz de cada dia. Acredito que, para respondermos à pergunta sobre a verdadeira "essência" da cruz, seja necessário olhar de um ângulo diferente (e único correto): o ponto de vista do próprio Jesus. Como foi que Jesus encarou aquele madeiro? Como enxergou o significado da cruz? Pouco antes da sua morte, o Senhor declarou: Sinto agora grande angústia. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. (Jo 12, 27) Em outra ocasião disse: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos. (Jo 15, 13) Para Jesus, a cruz era a melhor maneira de amar. Ou melhor: a cruz é o amor! Não se trata de masoquismo, mas de um amor autêntico e exigente, capaz de se sacrificar por inteiro. Jesus sabia que essa foi a melhor maneira de expressar o amor ao Pai e aos homens. Jesus ficaria inconsolado se alguém impedisse a sua morte na cruz. Em consequência, "tomar a cruz", significa amar. Amar de maneira com a qual foi formado o nosso coração. Se o meu coração é homossexual, o meu amor será homossexual também.

ORAÇÃO
Senhor Jesus, tomaste a cruz para realizar divino plano de amor. Obrigado pela Tua cruz e também pela minha. Às vezes tenho dificuldades em compreender o significado da cruz da minha sexualidade. Peço-Te, por isso, que a luz do Teu Espírito ilumine sempre o meu coração, para que eu veja a importância do amor. E que eu saiba sofrer por amor, quando for necessário. Abençoa cada homossexual, sobretudo todo aquele que sofre por ser assim. Ajuda-nos a acreditarmos no amor. Cura-nos do medo de amar. Fortalece aqueles que são perseguidos, porque amam. Convence aqueles que foram desiludidos no amor, que vale a pena começar de novo.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

15 de abril de 2011

Via Sacra [1]

I Estação: Jesus é condenado à morte

Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Pilatos disse a Jesus: “O que é a verdade?Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus. (Jo 18, 37b-38) Um detalhe, aparentemente sem importância, resume o absurdo do “processo” que levou Jesus à condenação. Em Jesus cumprem-se os projetos maliciosos dos homens, registradas pelo profeta Jeremias: Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras. (Jr 18, 18) Jesus é rejeitado, julgado, condenado, humilhado, maltratado, crucificado e morto, porque os homens não deram atenção a suas palavras.
Várias pessoas têm dúvidas em relação à homossexualidade, não a compreendem, pensam que seja algo monstruoso. Têm medo de algo obscuro que teria sido “contra a natureza”. Não se dão conta de que muito mais contra a natureza humana seja viajar de avião, pois a natureza do ser humano é pisar no chão. Se a homossexualidade não estiver dentro da natureza humana, onde então estaria? O medo, a fobia, faz com que as pessoas fogem das respostas, ainda que tenham feito perguntas, como Pilatos. O medo e a falta de respostas, geram preconceito e incitam agressividade. Milhares de homossexuais são insultados, espancados, mortos. As recentes estatísticas apontam o crescimento do número de assassinatos de homossexuais, travestis e lésbicas no Brasil. É Jesus que continua sendo condenado.

ORAÇÃO
Senhor Jesus, foste condenado, porque o medo dominou o coração do homem e impediu o conhecimento da verdade. Tu és a Verdade. Tu nos chamas a vivermos a verdade do nosso ser. Dá-nos a graça de reconhecermos e respeitarmos a nossa própria dignidade e a dignidade de cada ser humano. Dá-nos, também, o dom de perdoar a todos aqueles que nos ofendem e agridem. Protege de todos os perigos, os nossos irmãos e irmãs homossexuais. Cura a humanidade do mal da homofobia. Liberta o coração humano de todo preconceito. Orienta a Tua Igreja, para que esteja realmente aberta e saiba acolher com amor e conduzir a Ti, todas as pessoas homossexuais.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

13 de abril de 2011

Via Sacra [introdução]

Diz uma antiga tradição que foi Maria Santíssima, a Mãe de Jesus, que percorreu, como primeira, todos os lugares que marcaram o doloroso caminho do Senhor, rumo ao Calvário. Os discípulos de Jesus, mesmo depois de sua ressurreição, preservaram este piedoso costume, assim como o próprio Crucifixo, o símbolo e a memória do amor infinito de Deus pelos homens. Proponho uma série de meditações, seguindo o esquema milenar das quatorze estações: a Via Sacra. Como introdução, trago um trecho de texto escrito pelo então Cardeal Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI) e lido no início da celebração de Via Sacra no Coliseu, na Sexta-feira da Paixão de 2005. Naquela hora, o Papa João Paulo II, já muito debilitado, assistia tudo via televisão, no interior de sua capela particular. Ofereço esta Via Sacra em homenagem deste Servo de Deus e grande apóstolo do homem, em vista de sua próxima beatificação (01 de maio).
Introdução à Via Sacra (Card. J. Ratzinger)
A Via-Sacra mostra-nos um Deus que partilha pessoalmente os sofrimentos dos homens, cujo amor não se mantém impassível nem distante, mas desce ao nosso meio até à morte na cruz (cf. Fil 2, 8). Este Deus que partilha os nossos sofrimentos, o Deus que Se fez homem para levar a nossa cruz, quer transformar o nosso coração de pedra chamando-nos a partilhar os sofrimentos alheios, quer dar-nos um «coração de carne» que não fique impassível diante dos sofrimentos alheios, mas se deixe comover e nos leve ao amor que cura e ajuda. (...) «Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me» (Mt 16, 24). Com estas palavras, o próprio Jesus nos dá a interpretação da «Via-Sacra», ensina-nos como devemos fazê-la e segui-la: a Via-Sacra é o caminho da perda de nós mesmos, isto é, o caminho do amor verdadeiro. Ele precedeu-nos neste caminho; este é o caminho que a devoção da Via-Sacra nos quer ensinar. (Leia o texto na íntegra aqui).
ORAÇÃO
Senhor Jesus! Venho seguir os Teus passos neste doloroso caminho da cruz. Tu me conheces profundamente. Trago a minha homossexualidade e tudo que nela é doloroso para mim. Como Tu, ao carregar a cruz, eu também experimento a solidão. Como Tu, encontro pelo caminho várias pessoas agressivas e preconceituosas, mas também, algumas pessoas cheias de amor, atenção, carinho e disposição. Ajuda-me a carregar a minha cruz e eu me proponho a ser o Teu Cirineu e a Tua Verônica. Peço a companhia de Tua Mãe compassiva. Abençoa, Senhor, todos os meus irmãos e irmãs, os homossexuais em toda a face da terra. Concede-nos a preciosa graça de fé, esperança e de amor verdadeiro. Abençoa aqueles que amamos, por quem estamos apaixonados. Abençoa aqueles que nos odeiam e perseguem. Abençoa, sobretudo, nossas mães e pais, nossos irmãos, irmãs e demais familiares. Ampara-nos na hora da dor. Consola-nos na hora da tristeza. Defende-nos na hora da tentação. Livra-nos de todo mal. Amém.

12 de abril de 2011

Jesus elevado

A declaração de Jesus, lida no Evangelho de hoje (Jo 8,21-30): Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sa­bereis que eu sou, e que nada faço por mim mesmo, mas apenas falo aquilo que o Pai me ensinou. (v. 28), lembra uma outra frase: É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim. (Jo 12, 31-32) De imediato, vem a ideia da cruz, pelo menos na primeira passagem, na qual Jesus dirige-se aos fariseus. Foram eles, juntamente com os sumos sacerdotes e outras autoridades que, aproveitando o poder dos romanos e a confusa conjuntura político-social do momento, condenaram Jesus à crucificação. Apesar de vários sinais extraordinários na hora da morte de Jesus (Desde o meio-dia, uma escuridão cobriu toda a terra até às três horas da tarde. [Mt 27, 45]; O véu do Santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram. Os túmulos se abriram e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram. [Mt 27, 51-52]) e, principalmente, diante das notícias inegáveis sobre a sua ressurreição, não há registro de que tivessem cumprimento as palavras de Jesus: então sa­bereis que eu sou (Jo 8, 28), pelo menos, no sentido de uma conversão dos fariseus em massa. As afirmações de Jesus nesta mesma passagem de hoje (Jo 8, 28-30) revelam a gravidade do estado espiritual desses fariseus: Disse-vos que morrereis nos vossos pecados, porque, se não acreditais que eu sou, morrereis nos vossos pecados. (v. 24) Neste contexto, podemos decifrar um segundo significado do termo "elevar Jesus". Quando abraçamos a fé, elevamos ou, como querem alguns tradutores, exaltamos Jesus, em nosso coração e na nossa vida. Ele passa a ocupar o primeiro lugar, acima de todas as coisas. Fica evidente a associação com o primeiro mandamento do Decálogo: "Amar a Deus sobre todas as coisas". Alguém disse que, quando Jesus (Deus) está em primeiro lugar, todas as outras coisas ficam em seus devidos lugares. Há uma harmonia e paz interior. A fé e o amor a Deus, são frutos da ressurreição de Cristo. A segunda das citações iniciais (Jo 12, 31-32), sugere esta interpretação. Jesus, "elevado" na cruz pelos homens é realmente "elevado da terra", pelo próprio poder divino, na hora de sua ressurreição e, mais tarde, na ascensão (Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi elevado ao céu. [Lc 24, 51]) A promessa de Jesus é de atrair todos a si. Elevado na cruz e exaltado na ressurreição e ascensão, Jesus nos atrai, ou seduz (usando as palavras do Profeta Jeremias: Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir! [Jr 20, 7]), para que o elevemos acima de todas as coisas na nossa vida. Isto é a fé.

11 de abril de 2011

Atirar a pedra

Não adianta negar. Todos estamos no meio daquela multidão em torno da mulher adúltera (Jo 8, 1-11). Julgamos, vivemos com a pedra na mão. Talvez por termos sido - todos nós - julgados pelos outros, retribuímos com a mesma moeda. Invertemos a frase de Jesus: Não julgueis, e não sereis julgados. (Mt 7, 1). Julgamos, criticamos, condenamos e desprezamos, porque já fomos julgados, criticados, condenados e desprezados. Na verdade, o ato de julgar, está gravado em nossa natureza humana. Digo mais: a capacidade de julgar é um dom de Deus, indispensável para tornar a nossa existência plena, realizada. Quem não sabe, ou não consegue julgar é alguém sem juízo. Na prática, usamos vários sinônimos para essa atitude, só para não dizer que estejamos julgando. Avaliamos, apreciamos, opinamos, supomos, cremos, achamos, etc. Surpreendentemente, queremos ser julgados (sim, mas sem usar esta palavra!). Quando saio à rua, estufo peito e encolho barriguinha, cuido da minha aparência: roupa, penteado, perfume, etc. (quem nunca fez isso, atire a primeura padra!) Eu quero ser julgado. Julgado digno de atenção (quem sabe, posso virar a caça!). Percebemos agora que o problema não está em julgar, mas na maneira de julgar. Vale lembrar aqui que, assim como todos os dons de Deus, também a capacidade de julgar, foi distorcida dentro de nós, em consequência do pecado original. O Pe. Cantalamessa, em sua terceira pregação quaresmal deste ano na Casa Pontifícia, disse: O discurso sobre julgamentos é delicado e complexo. Se ficar pela metade, parece pouco realista. Como é que se pode viver sem julgar nunca? O juízo é implícito em nós até num olhar. Não podemos observar, escutar, viver, sem fazer avaliações, ou seja, sem julgar. Um pai, um superior, um confessor, um juiz, qualquer um que tenha responsabilidade sobre outros, precisa julgar. (...) Realmente, não é tanto o julgar que deve ser extirpado do nosso coração, mas o veneno do nosso julgar! O rancor, a condenação. Na redação de Lucas, o mandado de Jesus “Não julgueis e não sereis julgados” é seguido imediatamente, como para explicitar o sentido destas palavras, pelo mandado “Não condeneis e não sereis condenados” (Lc 6,37). Em si, julgar é uma ação neutra. (Leia na íntegra aqui). A primeira leitura de hoje (Dn , 13,41c-62), complementa o assunto, com uma advertência do jovem Daniel: Sois tão insensatos, filhos de Israel? Sem julgamento e sem conhecimento da causa verdadeira, condenais uma filha de Israel? Voltai a repetir o julgamento, pois é falso o testemunho que levantaram contra ela! (vv. 48-49). A conclusão é esta: por mais que tenhamos sido incompreendidos, criticados, ridicularizados, condenados - por qualquer motivo - não vale a pena fazer o mesmo com o nosso semelhante. No "mundo gay", infelizmente, a atitude de atirar pedras, ainda é muito frequente. Será uma competição doentia? Ou, talvez, a reação insana de um coração traumatizado?

10 de abril de 2011

A Ressurreição e a Vida

A ressurreição de Lázaro (Jo 11, 1-45) é a magnífica revelação da Humanidade e da Divindade de Jesus. Quando lemos que Jesus era muito amigo de Marta, de sua irmã Maria e de Lázaro (v. 5), sentimo-nos em casa, pois também somos "muito amigos" de alguém. De maneira ainda mais particular toca-nos aquele curtinho versículo que diz: E Jesus chorou (v. 35). Agora sei, a partir desta palavra, que posso entrar em profunda comunhão com o Senhor, quando choro. Ai de mim se não conseguir chorar. As lágrimas tornam-me mais humano, assim como revelam poderosamente a Sagrada Humanidade de Jesus (recomendada tanto pela Santa Teresa d'Ávila, como o conteúdo de meditação frequente - leia aqui). É um prenúncio da revelação máxima de Jesus-Homem que se realizou na cruz, assim como a ressureição de Lázaro, introduz ao mistério da Vida que venceu a morte em Jesus. A revelação da Divindade de Cristo não consiste somente na manifestação do seu poder sobre a vida e a morte. O Senhor não quer mostrar apenas o que Ele pode fazer (sendo todo-poderoso, logicamente, pode tudo), mas também, como é que faz. Evidentemente, não somos capazes de compreender toda a metódica (se preferir: metodologia) de Deus: Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus — oráculo do Senhor. Pois tanto quanto o céu acima da terra, assim estão os meus caminhos acima dos vossos e meus pensamentos distantes dos vossos. (Is 55, 8-9) Graças a Jesus, porém, podemos penetrar um pouquinho neste mistério. A passagem sobre a ressurreição de Lázaro é um exemplo. Primeiro, parece que o Senhor gosta de surpreender a gente. Vejamos a desorientação dos discípulos, a delicada, mas firme, "reclamação" de Marta e Maria e, sobretudo, os comentários daqueles judeus: Este, que abriu os olhos ao cego, não podia também ter feito com que Lázaro não morresse? (v. 37). Esta é a palavra-chave: "não podia?". A resposta é clara e, acima de tudo, única: "podia!". Podia ter feito, mas não fez. Se não fez, foi porque não quis. O próprio Jesus disse isso aos discípulos: Esta doença não leva à morte; ela serve para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela. (v. 4); e, depois, a Marta: Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus? (v. 40). Creio que o nosso problema está na dificuldade de enxergarmos esta glória. Talvez, até, porque ela ainda não se tenha manifestado. Confesso que, o que me consola e tranquiliza, diante dos fatos que não compreendo é, exatamente, a convicção de que o Senhor sabe muito bem o que faz e tudo que tem feito é o melhor. Penso que, muitas vezes, é melhor que eu não entenda, mas, em primeiro lugar, tenho consciência de que sou pequeno demais para entender. O que importa, nessas horas, é estar nas mãos de Deus. Vejamos alguns exemplos: Deus não podia ter feito com que o terremoto, seguido por tsunami, não acontecesse no Japão? Ou a tragédia na região serrana do Rio? Ou o massacre na escola Tasso da Silveira em Realengo? Outro tipo de pergunta: Deus não podia ter feito com que eu nascesse hetrossexual? E, já nascido com algum tipo de predisposição para a homossexualidade, Ele não podia ter feito que eu ficasse livre disso (alguns abusam da palavra "curado"). Repito: podia! Podia tudo isso, porque Ele é todo-poderoso. Mas não o fez, assim como não fez com que Lázaro não morresse. O exemplo mais eloquente é o do momento literalmente crucial. Enquanto Jesus agonizava, os judeus comentavam entre si: A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel: desça agora da cruz, e acreditaremos nele. (Mt 27,42) Jesus podia descer da cruz? Podia! Não desceu. Não quis. A cruz é uma das peças mais importantes em todo o seu plano de amor e salvação!
Uma outra ideia, também a respeito da metódica (metodologia) de Jesus. Chamam a minha atenção alguns detalhes. Jesus disse: Tirai a pedra! (v. 39) e, mais tarde: Desatai-o e deixai-o caminhar. (v. 44). O Senhor que, apenas com o poder de sua palavra, faz a morte recuar e a vida renascer, dá trabalho às pessoas ali presentes. Ele não podia fazer o "serviço completo"? Para mesma pergunta, a mesma resposta: podia! Quis, entretanto, envolver o homem nessa obra. Acredito que essa seja uma revelação muito importante para nós. Jesus não nos chama para sermos espectadores, mas participantes. E Ele nos diz o que fazer, ainda que fiquemos surpresos e queiramos protestar como Marta...