ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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19 de fevereiro de 2014

A pedagogia televisiva


A telenovela, enquanto um dos gêneros da arte cinematográfica, tem recebido muito mais críticas do que elogios. Basta lembrar as discussões, ou melhor, verdadeiras batalhas verbais (com o direito a xingamentos e anátemas em nome de Jesus), depois do último capítulo da obra, exibida recentemente pela TV Globo, "Amor à vida". Eu acredito, porém, que uma reflexão mais serena pode nos levar a outras conclusões, mais objetivas e, sobretudo, construtivas. Em primeiro lugar, vale a pena analisar um pouco o próprio estilo desse trabalho. É como a leitura de um livro, misturada com a peça teatral (ou, talvez, várias peças entrelaçadas). A própria dinâmica de capítulos faz com que o telespectador assimile sem pressa o conteúdo da obra. Não preciso dizer que é, justamente, essa dinâmica da telenovela que se torna o alvo de críticas daqueles que enxergam ali a "destruição da família cristã e dos mais nobres valores morais da sociedade". Lembro-me de um padre que, alguns anos atrás, dizia "Dessa vez eles acertaram com o título da novela: 'Suave veneno'! Toda novela é esse veneno que eles suavemente injetam na alma do nosso povo!"...

Volto à serenidade como o atributo necessário em cada conversa sensata e racional. Deixo de lado as "teorias de conspiração" de todo tipo (a "Nova Ordem Mundial" e até a "obra do maligno") que tanta gente consegue enxergar nas telenovelas. Tampouco pretendo, por outro lado, fazer aqui a ingênua apologia desse fenômeno. Apenas gostaria de apontar algumas questões. As estatísticas, bem como a simples observação pessoal do cotidiano, mostram que uma enorme parte da sociedade, de fato, acompanha as telenovelas, principalmente as da TV Globo. Podemos afirmar, com toda honestidade, que as histórias retratadas nessas tramas não se distanciam tanto da vida real, a não ser pelo acúmulo (necessário para os fins artísticos) de personagens, ou personalidades, fortes e situações encharcadas de emoções. O encontro da ficção com a realidade torna a telenovela, de um lado, mais próxima ao telespectador e por outro lado, mais suportável. Quem sabe, um dia alguém tenha a ideia de retratar apenas a vida real, sem um pingo de fantasia, tendo por exemplo, alguns capítulos dedicados a um dos personagens dentro do ônibus municipal, e ao outro fazendo compras no supermercado (e tudo isso em tempo real). Pode até ser uma ideia legal, mas por enquanto temos essa mistura. Uma outra questão é o nível profissional dos atores e atrizes que conseguem, com frequência, estragar as mais belas ideias do autor (neste momento não vou perder o meu tempo para isso)...

Vivemos, graças a Deus, nos tempos em que não é mais tão fácil negar a existência das pessoas não heterossexuais. Há quem diga que a telenovela também "entrou na onda da moda", ao que eu respondo que - na minha opinião - este tipo de arte retrata mais do que influencia a vida. E aqui está o grande mérito da telenovela. Exatamente através de sua dosagem lenta e duradoura, a telenovela é capaz de não apenas sinalizar a existência de um fenômeno ignorado (neste caso, o amor entre as pessoas do mesmo sexo), mas, de fato, retratar, passo a passo. Simplesmente dizer: "É assim que funciona". "Sim, a pessoa se apaixona de forma muito parecida como no caso de um casal heterossexual". Para mim e para vários Leitores deste blog, é a coisa mais óbvia na face da terra. Mas, para muita gente, não é. Por isso mostrar um ser humano, cheio de dilemas, mas também capaz de amar, com todo o seu ser e não apenas procurar o sexo, é tão importante. Essas cenas de ternura e de aflição revelam algo inédito para muitos: a homossexualidade não é luxúria desnaturada, mas é um mistério de emoções, sonhos, conquistas e realizações. É uma realidade tão profunda e tão humana ao mesmo tempo que pode, ao ser assistido com um pingo de boa vontade, curar de preconceitos e ensinar a olhar às pessoas diferentes em sua sexualidade, com mais compreensão.

Foi neste contexto que fiquei muito feliz com as cenas na nova telenovela da TV Globo "Em família" que mostraram (e prometem continuar mostrando) o surgimento de uma "química" entre duas mulheres, Marina (Tainá Müller) e Clara (Giovanna Antonelli). Para mim foi fabulosa a frase da Marina que disse: "Eu acho que estou me apaixonando por ela. Não sei se vai dar certo...". Repito: quem de nós, LGBT, já não experimentou esse tipo de coisa? Mas para uma mãe de homossexual, de travesti, de transgênero etc., assistir tal cena pode ser uma verdadeira revelação, uma descoberta que beneficiará, em geral, todos os relacionamentos dentro da própria família. Sei que não estou inventando, pois até hoje podem ser encontrados os testemunhos daqueles que experimentaram verdadeiros milagres em casa, na hora do beijo de Félix e Niko.

Deixo aqui, portanto, os meus parabéns, para todos os autores, diretores, atrizes e atores que abraçam o desafio e procuram retratar, por meio de sua arte, a nossa realidade - tão próxima e ainda tão distante - do resto da sociedade!

12 de fevereiro de 2014

Sonhando com a casa


O meu sonho associa-se a uma casa. Não necessariamente no sentido arquitetônico. Pode ser um apartamento, inclusive bem pequeno. Digo "casa", pensando em uma morada, um lar. E, principalmente, em uma vida compartilhada. A casa é algo de casal e o casal é algo (melhor: é tudo) de amor. Um amor que evolui e, ao mesmo tempo, cultiva algum tipo de rotina própria. É um clima, um espírito, um ritmo. Neste sentido, a rotina não precisa ser o sinônimo de estagnação. Antes, é o sinal de uma profunda sintonia entre dois seres humanos que se conhecem a ponto de prever, intuir, o próximo passo do outro. Essa intuição, um dos principais frutos do amor, não aprisiona. Eu posso prever que o meu amado está prestes a me fazer uma surpresa, mesmo sem saber qual. Vou saber, porém, que aquela surpresa foi preparada para mim. Eu também faria surpresas. A vida pode ser intensa e, ao mesmo tempo, serena. Existe uma diferença fundamental entre os aborrecimentos, diferenças de opinião, correções - coisas mais naturais entre duas pessoas - quando se baseiam, ou não, em uma neurose. Os relacionamentos neuróticos vivem sacudidos por ciumes, cobranças e mentiras. A raiz, mais que provavelmente, situa-se em algum tipo de insegurança. Os estudiosos e os experientes afirmam que é a baixa autoestima que gera dúvidas em relação ao amor do outro. O medo e amar e o medo de não ser amado andam de mãos dadas, enquanto são as pessoas que deveriam andar assim. 

As cenas mais preciosas de uma vida conjugal não vêm das memórias da minha própria família. Pelo menos, não no sentido clássico e estrito da palavra. Os meus pais se separaram quando eu ainda era pequeno. Lembro-me de algumas brigas entre eles e daqueles períodos em que não se falavam direito. Lembro-me de ausências prolongadas do meu pai e de olhar amargurado da minha mãe. Até que essa ausência e essa amargura se tornarem permanentes. Ele saiu definitivamente de casa. Ela, com o tempo, aceitou a nova situação e conseguiu amenizar a sua amargura. Eu e o meu irmão mais velho, ambos pré-adolescentes na época, descobrimos, aos poucos, que a vida assumiu as formas diferentes. Ele nos visitava com frequência, mais tarde começou a nos levar para acamparmos juntos, até chegou a hora em que - por meio de uns esforços diplomáticos com a nossa mãe que só poderíamos imaginar - promoveu o nosso encontro com a nova esposa dele. Havia a questão da forma de chamá-la. Sem dúvida, não seria "mãe", nem "madrasta", ou "tia". Foi ela que deu a proposta de chamá-la, simplesmente, pelo nome. Confesso que nunca consegui, o que resultou em uma espécie de ginástica mental para poder conversar com ela de curiosa forma impessoal. Não vou tentar explicar isso aqui para não fugir do assunto principal. 

Não tenho como e também não pretendo fazer aqui as comparações e - ainda menos - qualquer tipo de julgamento. Digo apenas que nunca (antes e depois) e em nenhum outro lugar vi algo que, de fato, pode ser chamado "casa", um lar fantástico, para não dizer "perfeito". Vi e vivi na casa deles. Não, eles não eram perfeitos, mas o que os unia beirava a perfeição, ou melhor, uma incrível sintonia, uma confidencialidade, uma paz. Foi assim até a morte do meu pai. E eu, assim como o meu irmão, visitávamos aquela casa e, depois, aquela mulher, já sozinha, com bastante frequência. Ela sempre foi a "gerente" da casa e ele, a cabeça. Ela administrava o dinheiro, as compras e as contas, mas a verdadeira paixão dela (além do meu pai, é claro) era a própria casa que, em cada detalhe, levava a sua marca. Cozinheira talentosa e carinhosa e decoradora nata, mesmo sem ser profissional do ramo. Notava-se, a todo momento, o profundo e sincero respeito entre eles. Eu diria, uma reverência. Os dois se revezavam nas advertências dadas a mim e ao meu irmão: "Fala mais baixo! Ele está trabalhando agora e não gosta de ser interrompido" (meu pai era um jornalista e foi em casa que ele dava aquele último toque aos seus textos). Ou então: "Arruma a mesa! Ela não gosta de bagunça... E na próxima vez vê se traz algumas flores para ela!".

Bem... Eu não convivi com eles o tempo todo, mas também não acredito que tenha sido um teatro, feito por eles, só para criar uma aparência hipócrita de harmonia, diante dos nossos olhos. Aquela compreensão sem precisar explicar as coisas, o respeitoso e profundo conhecimento mútuo de costumes e gostos pessoais, a sintonia, a paz. Eles falavam com a mesma voz quando nos orientavam ou cobravam algo da gente. Eles se divertiam. Sim, as vezes um chamava atenção do outro, mas nem por isso o clima entre eles ficava alterado. As diferenças que cada um deles trazia, só serviam para completar o outro. Ele era bem mais velho, havia diferenças intelectuais e as histórias familiares distintas. Nada disso atrapalhava a sua união. Passavam muito tempo juntos, mas não se via aquele jeitão grudento que muitos casais apresentam. Finalmente, quando chegou a hora, foi ela quem cuidou dele, até o último suspiro.

Quando, então, fico sonhando com a minha casa, com o meu casamento... penso neles. Um relacionamento lindo, posso dizer perfeito, sem deixar de ser profunda e autenticamente humano.

16 de janeiro de 2014

Só eu sei as esquinas...

Se compararmos a vida com uma caminhada, a esquina pode ser o sinônimo de uma virada, ou de um marco que fica gravado na história pessoal. É neste sentido que escuto a música de Djavan que inspirou o título desta postagem. Graças aos meus pais, eu sou desde criança, um homem apaixonado pelos livros, ou melhor, pelos escritos em geral. Alguns textos ficaram impregnados na minha alma, por terem causado as mais autênticas e profundas reviravoltas interiores. A minha juventude ficou marcada por alguns conjuntos de texto, digamos, paradoxais, pois misturaram suavemente, por exemplo, as reflexões filosófico-teológicas de Karol Wojtyla (João Paulo II) e a ficção infantil de Tove Jansson (sem saber naquela altura da homossexualidade dela). Os impactos existenciais que formaram a minha trajetória começam pelos textos, mas estendem-se, também, aos filmes, à música e as obras de arte. Em todo este universo de expressão humana, o que mais me fascina é o ato (ou o processo) de criar. Sou um homem apaixonado pelo mistério que envolve a concepção, a mais real gestação e, por fim, o nascimento das ideias que tomam forma, seja de um texto, de uma sinfonia, ou de um desenho. É algo que retratam, por exemplo, os filmes: “Amadeus” ou “O som do coração” (com o fantástico FreddieHighmore)

É incomparável a sensação de encontrar um texto, uma cena, uma pintura, enfim, uma obra que expresse, com a fascinante exatidão, aquilo que você está sentindo, mas nunca teve a capacidade de descrever. É com essa fascinação que transcrevo aqui, com a devida autorização, um dos textos de Matheus Gabry. É um jovem estudante de Design de Interiores, apaixonado por arquitetura, livros, fotos, músicas e tudo aquilo que o faz manter contato com sua própria alma (a a alma do universo). Os belíssimos textos de sua autoria estão vinculados às fotos no seu perfil do facebook. 

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Quando encontrei o amor

Sabe, tem um trecho de uma música que gosto muito:

If God had a name what would it be?
And would you call it to his face?
If you were faced with Him in all His glory
What would you ask if you had just one question?”
– One of Us - Joan Osborne

A tradução dela é essa:

“Se Deus tivesse um nome, qual seria?

E como você o chamaria na sua frente?
Se você se encontrasse com Ele em toda sua glória
O que você perguntaria se tivesse apenas uma pergunta?”

Acho que tenho encontrado o amor, mas quando digo isso não digo em relação ao amor físico ou humano, acho que tenho encontrado um tipo único de amor desde que me permiti deixar ser amado. Quando penso em como poder ser o amor de Deus eu logo penso em algo que não posso definir e nem tampouco medir ou descrever, nem mil linhas seriam capazes de expressar o que possa ser esse Amor.

Quando eu era criança e já sabia que eu possuía entendimento sobre certas coisas e sabia que eu tinha uma diferença que ainda é muito mal vista hoje em dia, quando eu me maltratava com apenas 6 ou 7 anos perguntando para mim mesmo se Deus me amava mesmo eu sendo um menininho que gostava de outros meninos. Eu simplesmente achava que Deus nunca iria me olhar com bons olhos, que eu era muito diferente e mal por ser assim, e que eu causava vergonha em Deus.

O tempo foi passando e eu tive que lidar sozinho com essa minha “diferença”, durante a escola, ainda que não soubessem de mim e dessa minha diferença - talvez até soubessem, mas não perguntassem ou tocassem no assunto por medo de como eu iria reagir -. O fato é que desde essa fase de crescimento eu achei que tinha perdido a companhia Dele, eu achava que Ele me protegia e ainda se importava comigo porque eu era um fruto de sua criação, mas não porque eu trazia tanta alegria como um outro menino que gostasse de meninas trazia para Ele. E por muitas vezes eu me sentia com um único destino pelo qual a “sociedade” e a comunidade religiosa achava que seria o correto para mim: o inferno. E eu temia muito isso, eu temia muito com todas as minhas forças que esse fosse o meu destino intransmutável.

Foi quando então eu comecei a me tornar um pouco mais pensante e menos fanático por leis, dogmas ou “conceitos divinos” com os quais eu cresci aprendendo. Foi quando eu finalmente tive a coragem de pensar em Deus como um ser que poderia ser negro ao invés de branco e de barba branca grande, foi quando eu comecei a pensar em Deus como um ser que não tem definição de gênero, etnia ou classe social. Foi quando eu comecei a ver Deus como a formiga que está caminhando sobre os meus pés carregando uma folha pesada até o formigueiro, como o passarinho que faz o seu ninho, como a abelha que está a toda hora buscando pólen. Como a perfeita combinação de cores do pôr-do-sol. Quando eu finalmente tentei ver a grandeza de Deus no minimalismo de sua criação que percebi que Deus é um ser muito além do que meus olhos ou sentidos captam ou podem captar. Deus… uma entidade regida de luz e amor, um ser incapaz de renegar a sua criação, pelo contrário, doar uma parte sua em sacrifício humano para demonstrar para alguém tão desacreditado como eu de que Ele me amava acima de tudo aquilo que eu fui, sou e ainda posso ser. Deus e essa mania de nos olhar como crianças indefesas que muitas das vezes fazem as coisas sem pensar, brincam e se machucam, ralam os joelhos, ferem o coração. E Ele?! Bem, Ele sempre foi o papai protetor que esteve por perto observando cada movimento meu e me levantando de todos os tombos e tropeços da vida, sempre me acalmando e me prometendo que independente de qualquer coisa Ele me amou, me ama e me amará para todo o sempre.

Posso não ser um portador de uma necessidade especial, posso não ter um tumor ou outra limitação física, posso não ser uma pessoa portadora de depressão ou qualquer outra doença da alma, mas eu fui por muito tempo uma pessoa que recusava o maior desejo de Deus para mim: ser livre para ser o que sou e se sentir amado. Hoje eu descobri o quanto importa para Ele que eu seja aquilo que meu coração pede, por mais que eu erre, por mais que eu fique na pior, por mais que eu esteja num balanço suspenso em que a qualquer momento eu possa cair, Ele nunca soltará minha mão e muito menos soltará a sua. Ele te ama, e isso te basta, ainda que você não entenda o quanto isso é grandioso, por mais que você ache que não tenha nada, você tem tudo desde que nasceu. Você tem vida, você tem o amor verdadeiro de Alguém especial e mesmo que você não queria ter esse amor, isso nunca irá mudar. Isso é o mais perfeito. Você tem amor. - Matheus Gabry


12 de outubro de 2013

Ser criança

 
O Dia das Crianças, celebrado no Brasil hoje (enquanto alguns outros países têm outras datas para tal comemoração), inspira várias reflexões. De um lado, é claro, a realidade das crianças de hoje - algo que desperta a ternura adormecida, traz preocupações e, até assusta de vez em quando. É o famoso e eterno: "Na minha época, a infância era diferente". Por outro lado, os pensamentos de um adulto, gay, solteiro... Uma parte das ideias gira em torno do passado e daquilo que sobrou em mim dos tempos de criança. Outra parte, em tom um tanto melancólico, afirma: as crianças sempre serão dos outros, pois nunca serei um pai natural e a adoção - pelo menos no momento - está fora de cogitação.
 
Assim, tenho a admiração pela beleza, inteligência e sinceridade das crianças, misturada com a profunda indignação, diante dos atos de violência, cometidos tão frequentemente, tanto de maneira individual, quanto em forma de injustiça social. Cada criança merece respeito, cuidado, segurança e um futuro feliz que coincide com a felicidade preservada desde já.
 
Quanto à recordação da minha própria infância, sinto a gratidão e a saudade, ainda que tenha sido um período regado de lágrimas. Considero a minha infância feliz, mas naquele tempo eu era muito chorão. Não fazia ideia de que tinha sido um gay. Sempre achei que olhar com admiração em direção aos meninos, era algo perfeitamente natural. Na verdade, não se falava de homossexuais e a homofobia - pelo menos em forma conhecida hoje - nem fazia parte da realidade. Lembro-me apenas de uma ou duas piadas sobre homens efeminados. Eu ria também, porque era engraçado. Como que atrás de uma neblina, vejo-me brincando com as bonecas que, depois, misteriosamente foram substituídas pelos ursinhos. Cedo aprendi algumas tarefas "femininas", tais como alguns simples truques de costura e de tricô (sem saber que, algumas décadas mais tarde, "tricotar" seria o sinônimo de "conversa entre duas bichas", como afirma um dicionário), bem como de me sentir bem na cozinha. A curiosidade daquele tempo é que eu sempre era um "namorador de meninas" - desde o jardim de infância (acredite quem quiser). Até briguei por uma menina com um grandalhão na escola. Hoje vejo isso - assim como a total ausência de "trejeitos efeminados" - como o fruto de alguma intuição de autodefesa - tudo de forma totalmente inconsciente. Nunca rolou um beijinho sequer com uma menina. Era algo que hoje pode ser chamado de fachada, só que sem ser um propósito, ou uma "estratégia". Desde cedo senti atração pelos meninos. Nunca gostei de jogar bola, mas adorava assistir os outros jogando. Confesso que, nem na infância, nem na adolescência, experimentei a "angústia de ser diferente", pois, como falei, sempre achava tudo isso absolutamente natural.
 
Leio hoje em dia os relatos de meninos com 12-14 anos que descobrem a própria homossexualidade e já sabem defini-la como tal. Provavelmente estamos diante de uma época diferente. A mentalidade mudou, a mídia também. A visibilidade GLBTT é infinitamente maior, a autoconsciência também. Lamentavelmente, a homofobia ganhou também muito mais espaço. De um lado, fico espantado com uma criança de seis anos que foi autorizada a mudar de nome e de gênero no registro de identidade argentino. Ao mesmo tempo, assusta a quantidade de atos de bullying homofóbico, inclusive nas escolas primárias. 
 
Só me resta agradecer a Deus, aos meus pais e demais familiares, pela infância que tive e tentar preservar a "eterna criança" dentro de mim. E, parabéns a todas as crianças pelo dia de hoje. Que seja protegida a sua dignidade e cumpram-se as leis, principalmente aquela que é fundamental: de amar e de ser amado(a).

3 de outubro de 2013

Meu zeloso guardador

 
No final deste dia, dedicado na Igreja aos Santos Anjos da Guarda (leia sobre este tema aqui e aqui), gostaria de prestar uma singela homenagem a meu amigo inseparável que nunca me abandona, pelo contrário, já me deu provas palpáveis de sua presença e de seu amor para comigo. Pois é, se não fosse um Anjo, eu o pediria para namorar comigo... pelo menos, de maneira mais visível. Bem... eu sei que os anjos do céu não se casam (cf. Mt 22, 30), portanto, certamente, não namoram, mas que o meu é um fofo, não tenho dúvida. Aliás, na minha opinião, ele faz parte do mundo GLBTTS, inserido no universo, pelo menos, correspondendo à letra "S", quer dizer, simpatizante - evidentemente simpatiza comigo. Só acho que ele se distrai no shopping... É, que eu sempre me perco no shopping. Mas, já passamos juntos no meio dos traficantes armados, já batemos com o carro, já apontaram em minha direção uma arma e - mais frequentemente - caminhamos nas madrugadas sem fim pelos bairros considerados perigosos e sempre chegamos bem em casa. Sim, nessas horas, particularmente senti a sua presença. Eu sei que o tal de Cupido, embora retratado como um anjinho, pertence a outra história, mas - como diz a Igreja - as sementes de verdade estão presentes e operantes nas diversas tradições religiosas e são um reflexo do único Verbo de Deus (veja aqui), portanto, não tenho certeza se não daria certo pedir ao meu Anjo da Guarda que me ajudasse a encontrar um namorado, fazendo o papel daquele Cupido. Ou, então, como fazia o Beato João XXIII, pedir ao eu Anjo da Guarda que conversasse com o seu colega, o Anjo da Guarda dessa ou daquela pessoa. Por exemplo, do Lucas ou do Gabriel... Falando nesses dois, eu acho que se o meu Anjo da Guarda assumisse um corpo, teria essa aparência, principalmente os cachos e aqueles olhos lindos que penetram a minha alma.
 
Essa coisa de assumir um corpo já aconteceu no passado (e deve estar acontecendo atualmente), basta ler o livro de Tobias, no qual a história com o anjo começa assim: Tobias encontrou um jovem de belo aspecto, equipado como para uma viagem. (Tb 5, 5) e termina dessa maneira: Então Tobit chamou seu filho e disse-lhe: Que havemos nós de dar a esse santo homem que te acompanhou? Meu pai, respondeu ele, que gratificação lhe havemos de dar? Que presente poderá igualar os seus benefícios? Ele levou-me e trouxe-me em boa saúde; foi receber o dinheiro de Gabael; fez-me ter uma mulher e afugentou dela o demônio; encheu de alegria os seus pais; livrou-me de ser devorado pelo peixe, e fez-te rever a luz do céu; enfim, ele cumulou-nos de toda a sorte de benefícios. Que presente poderia igualar a tudo isso? Rogo-te, meu pai, que lhe peças se digne aceitar a metade de tudo o que trouxemos. Chamaram-no, pois, o pai e o filho, e, tomando-o à parte, rogaram-lhe que aceitasse a metade de tudo o que tinham trazido. Então ele falou-lhes discretamente: Bendizei o Deus do céu, e dai-lhe glória diante de todo o ser vivente, porque ele usou de misericórdia para convosco. (...) Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos na presença do Senhor. (Tb 12, 1-6. 15) Notemos que uma das tarefas do Anjo parece muito com o trabalho de um Cupido.
 
Há quem considere as reflexões acima uma blasfêmia. Garanto, porém, que tenho o respeito profundo pelas coisas de Deus e acredito que a minha condição homossexual faça parte dos desígnios dele. A minha homossexualidade não anula a minha humanidade. A humanidade, por sua vez, contém o chamado ao amor, como a forma essencial de sua própria realização no plano de Deus. Evidentemente, posso me realizar amorosamente no serviço aos pobres, na dedicação generosa à ciência ou à arte. Posso, também, ter recebido uma vocação especial e sublime, ao celibato, mas tenho certeza de que não é todo homossexual que seja chamado a esta forma de vida. Aliás, a Igreja não admite, nem ao sacerdócio, nem à profissão religiosa nos conventos, "as pessoas com tendências homossexuais fortemente enraizadas". Logo, a plena realização humana, consiste em compartilhar o amor com outra pessoa. No caso de um/a homossexual, com a pessoa do mesmo sexo. E o meu Anjo da Guarda sabe de tudo e nem por isso me abandonou...
 
 
Quero terminar o texto com mais uma reflexão. Não sei se é uma questão de idade e, associada naturalmente a ela, a vocação à paternidade, mas reparo-me com um desejo que cresce no meu coração com o passar do tempo. É uma profunda, sincera e pura vontade de cuidar de alguém. Normalmente se pensa que a carência afetiva seja algo contrário, isto é, uma vontade de ter alguém que cuidasse da gente. Confesso, porém, que a minha visão de felicidade, aqui na terra, revela-se como a possibilidade de cuidar, de proteger. Assim imagino o meu namoro. Assim me sinto em relação a Lucas ou Gabriel. É uma sensação isenta de perversidade. É uma pena que ainda não aprendi a demonstrar isso de maneira mais clara e convincente. Talvez, um dia, o meu Anjo da Guarda me ensine essa arte, afinal é isso que ele faz comigo...
 
Todos os dias, antes de dormir, faço a saudação ao meu Anjo da Guarda, que aprendi ainda com a minha avó:

1 de outubro de 2013

+ Gefferson Ferrer



O Portal Gay1 informou ontem sobre a morte de um jovem, Gefferson Ferrer que se jogou do 3° piso, no shopping Taguatinga (Brasília, DF). Segundo o portal, Gefferson havia anunciado a sua morte no facebook. Nesta madrugada, o seu perfil ainda estava disponível, mas agora não existe mais. A sua despedida,
feita algumas horas antes do suicídio, expressa a profunda angústia e solidão. Uma das últimas postagens exibe o pensamento de Curt Cobain: "Se os meus olhos mostrassem a minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo" e a outra, traz a fase: "Tudo tem conserto menos a morte... a morte conserta tudo". Além dessas citações, havia as palavras do próprio Gefferson: "Obrigado gente pela força e pelo carinho de alguns, mas não tem volta, não... Um dia todos iremos embora e eu vou hoje!!!". Um pouco antes, o rapaz escreveu: "Só merece viver quem tem força pra enfrentar as armadilhas da vida e hoje eu não tenho mais força pra nada! Não tenho direito de amar muito menos de ser Amado. Viver com o coração cheio de dor eu não aguento por isso decidi partir pra nunca mais voltar". A página de notícias "Alto Paraíba" acrescenta a informação que o rapaz estava assistindo o filme "Invocação do mal" e, antes de terminar o filme, saiu e pulou.
 
 
Cada morte nos deixa perturbados, por mais que a cultura modera, justamente, a "cultura da morte", procure banaliza-la. Mais ainda, a morte suicida. Muitos sentem a tentação de julgar, outros de tentar explicar. Na verdade, estamos diante de um mistério, chamado "ser humano". O mistério é tão grande que até a Igreja (católica) que tem tanta dificuldade em modificar os seus pontos de vista e que, antigamente, negava às pessoas que tiraram a própria vida, o lugar na terra "benzida" e reservava um espaço à parte no cemitério para "tais pessoas". Hoje em dia, a Igreja diz: Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do  sofrimento ou da tortura, podem diminuir a responsabilidade do suicida. Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida (CIC, 2282-2283). Na prática, admite-se a suposição de que talvez, nos últimos instantes (entre o ato suicida e a morte efetiva), pela infinita misericórdia de Deus, ter-se-á arrependido de seu ato e obtido o perdão. Vale lembrar aqui o fato de que a Igreja que tenha declarado oficialmente a salvação eterna de muita gente (em forma de beatificação ou canonização), nunca se pronunciou a respeito da condenação no inferno de quem quer que seja.
 
Recentemente, o Papa Francisco, disse: Quantas pessoas tristes, quantas pessoas tristes, sem esperança! Pensai também nos muitos jovens que, depois de terem experimentado tantas coisas, não encontram sentido na vida e procuram o suicídio, como solução. Sabeis quantos suicídios de jovens há hoje no mundo? A cifra é alta! Por quê? Não têm esperança. Experimentaram tantas coisas e a sociedade, que é cruel — é cruel! — não nos pode dar esperança. A esperança é como a graça: não se pode comprar, é um dom de Deus. E nós devemos oferecer a esperança cristã com o nosso testemunho, com a nossa liberdade, com a nossa alegria. O dom da graça que Deus nos dá, traz a esperança. Nós, que temos a alegria de nos apercebermos que não somos órfãos, que temos um Pai, podemos permanecer indiferentes a esta cidade que nos pede, talvez também inconscientemente, sem o saber, uma esperança que ajude a olhar para o futuro com maior confiança e serenidade? Nós não podemos ser indiferentes.
 
Não sei como anda, neste sentido, a doutrina das Igrejas evangélicas. A morte de Gefferson trouxe a recordação de um outro jovem, Saulo Assis de Lima que se jogou de uma torre de telefonia em Porto Velho, Rondônia, em abril deste ano. Os relatos de amigos deste jovem de 23 anos não deixam dúvidas. Saulo foi expulso de casa pela família que é evangélica, por ele ter sido aidético e homossexual. De acordo com diversas fontes, o corpo de Saulo permaneceu muitos dias no IML da cidade. Surgiu, até, uma campanha no facebook: "Um funeral digno para Saulo".
 
Repito: não tenho o conhecimento suficiente sobre a doutrina evangélica e os seus "dogmas" sobre o suicídio. Talvez o ponto de partida tenha sido a história de Judas Iscariotes e uma associação inescrupulosa de versículos bíblicos, tais como: "Judas Iscariotes foi o traidor" (Mt 10, 4); "Satanás entrou em Judas" (Lc 22, 3); "Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!" (Mt 26, 24). Por sua vez, é mais que evidente, o discurso homofóbico da maioria dos pastores evangélicos. Voltemos, porém, ao contexto católico...
 
A Igreja católica que usa o termo "tendências homossexuais profundamente radicadas", na verdade revela a sua própria homofobia, profundamente radicada. Por mais que tente escondê-la sob uma veemente condenação de discriminação (injusta - sic!), logo acrescenta que quando é aceita a afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos. A Igreja não se surpreende com os comportamentos irracionais e violentos contra as pessoas homossexuais, mas é incapaz de admitir a sua própria contribuição para tais comportamentos. Vejamos alguns princípios que servem para a pregação da doutrina, nas igrejas e salas de catequese, nos encontros de oração e retiros, em formação de jovens e de todos os outros fiéis católicos. A Igreja afirma e ensina o seguinte:
 
Na "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"
  • Como acontece com qualquer outra desordem moral, a atividade homossexual impede a autorrealização e a felicidade porque contrária à sabedoria criadora de Deus.
  • Quando se entregam a uma atividade homossexual, elas [as pessoas homossexuais] reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência.
  • Uma pessoa que se comporta de modo homossexual, age imoralmente.
  • São Paulo apresenta o comportamento homossexual como um exemplo da cegueira em que caiu a humanidade.
  • A própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada.
  • O Autor [do Livro de Levítico] exclui do povo de Deus os que têm um comportamento homossexual.
  • O  fenômeno do homossexualismo, em suas múltiplas dimensões e com seus efeitos sobre a sociedade e sobre a vida eclesial, é um problema que afeta propriamente a preocupação pastoral da Igreja.
  • A prática do homossexualismo [está] ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de grande número de pessoas.
  • A opinião segundo a qual a atividade homossexual seria equivalente à expressão sexual do amor conjugal ou, pelo menos, igualmente aceitável, incide diretamente sobre a concepção que a sociedade tem da natureza e dos direitos da família, pondo-os seriamente em perigo.
  • A catequese poderá ajudar inclusive as famílias em que se encontrem pessoas homossexuais, a enfrentar um problema que as atinge tão profundamente.
 
Outros documentos:
  • Os atos homossexuais não se podem, de maneira nenhuma, aprovar. (...) Na Sagrada Escritura, as relações homossexuais são condenadas como graves depravações. (...) As legislações que favorecem as uniões homossexuais são contrárias à reta razão. A legalização das uniões homossexuais acabaria, portanto, por ofuscar a percepção de alguns valores morais fundamentais e desvalorizar a instituição matrimonial. (...) Há razões válidas para afirmar que tais uniões [homossexuais] são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social. (...) Todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (...) O respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (1)
  • Existem setores onde não se trata de discriminação injusta tomar em consideração a tendência sexual, por exemplo, na adoção ou no cuidado das crianças, nó trabalho dos professores ou dos treinadores atléticos e no recrutamento militar. (...) A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. (...) Existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.(2)
  • Certamente, na atividade pastoral estes homossexuais assim hão de ser acolhidos com compreensão e apoiados na esperança de superar as próprias dificuldades pessoais e a sua inadaptação social. (...) Segundo a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos destituídos da sua regra essencial e indispensável. Elas são condenadas na Sagrada Escritura como graves depravações e apresentadas aí também como uma consequência triste de uma rejeição de Deus. Este juízo exarado na Escritura Sagrada não permite, porém, concluir que todos aqueles que sofrem de tal anomalia são por isso pessoalmente responsáveis; mas atesta que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e que eles não podem, em hipótese nenhuma, receber qualquer aprovação. (3)
  • O caminho formativo [dos candidatos ao sacerdócio] deverá ser interrompido no caso do candidato, apesar do seu empenho, do apoio do psicólogo ou da psicoterapia, continuar a manifestar incapacidade para enfrentar de modo realista, ainda que com o progresso do crescimento humano, as suas graves imaturidades (fortes dependências afetivas, notável falta de liberdade nas relações, excessiva rigidez de carácter, falta de lealdade, identidade sexual incerta, tendências homossexuais fortemente enraizadas, etc.). (4)
  • Será tarefa da família e do educador procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade: descobrir se se trata de fatores fisiológicos ou psicológicos, se esta será o resultado de uma falsa educação ou da falta de uma evolução sexual normal, se provém de um hábito contraído ou de maus exemplos ou de outros fatores. (...) Existe mais no profundo, a congênita fraqueza do homem, como consequência do pecado original; esta fraqueza pode levar à perda do sentido de Deus e do homem e ter suas repercussões na esfera da sexualidade. (5)
  • Uma problemática particular, que se pode manifestar no processo de maturação-identificação sexual, é a da homossexualidade, que, aliás, se difunde cada vez mais nas culturas urbanas. (...) Os jovens precisam de ser ajudados a distinguir os conceitos de normalidade e de anomalia, de culpa sugestiva e de desordem objetiva, evitando induzir hostilidade e, por outro lado, esclarecendo bem a orientação estrutural e complementar da sexualidade em relação à realidade do matrimônio, da procriação e da castidade cristã. (...) Muitos casos, especialmente quando a prática de atos homossexuais não se estruturou, podem ser ajudados positivamente por meio de uma terapia apropriada. (...) Os pais, por seu lado, no caso de advertirem nos filhos, em idade infantil ou adolescente, o aparecimento de tal tendência ou dos comportamentos com ela relacionados, façam-se ajudar por pessoas especializadas e qualificadas para darem todo o auxílio possível. (6)
Se estas afirmações não incentivam os atos violentos de homofobia e não agravam o estado de depressão e angústia em pessoas que não conseguem aceitar a própria homossexualidade, então... eu sou o Papai Noel. A Igreja que se declara, tão firmemente, como a "defensora da vida e dos direitos humanos", precisa fazer um sincero e humilde exame de consciência.

28 de setembro de 2013

João Paulo I

 
Neste 35° aniversário da morte de João Paulo I (28. 09. 1978), não pretendo falar de teorias de conspiração, intrigas no Vaticano e coisas parecidas. Quero agradecer a Deus por este raio de luz que iluminou a Igreja durante 33 dias. O "Papa do sorriso" deixou poucas palavras, mas vale a pena recordar algumas, pois não perderam a sua atualidade e, sem dúvida, podemos identificar nelas uma espécie de testamento espiritual daquele que, desde então, acompanha-nos como intercessor.
 
O site oficial da Santa Sé disponibiliza 29 textos, escritos ou pronunciados pelo Papa João Paulo I, entre homilias, discursos, cartas e mensagens. Vale a pena recordar aqui algumas de suas palavras:
 
  • Na aula de filosofia dizia-me o professor: — Tu conheces a torre de São Marcos? — Conheço. — Isso significa que ela entrou dalgum modo na tua mente: fisicamente ficou onde estava, mas no teu íntimo ela imprimiu quase um retrato seu, intelectual. Mas tu, por tua vez, amas a torre de São Marcos? Significa isto que aquele retrato te impele de dentro e te inclina, quase te leva e te faz ir, com o espírito, até à torre que está fora. Numa palavra: amar significa viajar, correr com o coração para o objeto amado. Diz a Imitação de Cristo: quem ama "currit, volat, laetatur": corre, voa e alegra-se (Imitação de Cristo, 1. III, c. V, n. 4). [Audiência, 27. 09. 1978]
  • As vezes diz-se: "estamos numa sociedade toda estragada, toda sem moral". Mas tal afirmação não é verdade. Há ainda tanta gente boa, tanta gente honesta. Pergunte-se antes: Que fazer para melhorar a sociedade? Eu responderia: Procure cada um de nós ser bom e contagiar os outros com uma bondade toda penetrada pela mansidão e pelo amor ensinado por Cristo. A regra de ouro de Cristo foi: "Não fazeres aos outros aquilo que não queres te seja feito a ti. Fazeres aos outros o que queres te seja feito a ti. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". (...) Não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode. Peçamos ao Senhor a graça de que uma nova onda de amor para com o próximo invada este pobre mundo. [Angelus, 24. 09. 1978]
  • Uma alvorada de esperança paira sobre o mundo, mesmo se, de vez em quando, trevas densíssimas — que se distinguem pelos sinistros fulgores do ódio, do sangue e da guerra — parecem obscurecê-la. O humilde Vigário de Cristo, que, de ânimo tímido mas cheio de confiança, inicia a sua missão, está inteiramente pronto a servir a Igreja e a sociedade civil, sem qualquer discriminação de raças ou de ideologias, com o objetivo de que para o mundo nasça um dia mais claro e mais suave. [Radiomensagem, 27. 08. 1978]

17 de maio de 2011

Nosso Dia

Hoje é o Dia Internacional de combate à Homofobia. A data foi escolhida para lembrar a exclusão da homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 17 de maio de 1990. O Dia foi oficializado em 1992. Nesta ocasião, muitos veículos de comunicação, fazem uma homensagem ou, ao menos, mencionam o fato. E não se trata apenas de meios de comunicação que representam o "mundo gay". Como exemplo, trago um fragmento do material publicado no blog "Textos de Thereza Pires" (aqui). Thereza Pires apresneta-se assim: Carioca do Rio Comprido, moro no Rio, Graduada em Jornalismo pela UFRJ, Membro da Anistia Internacional [Todos os meus textos estão disponíveis para reprodução parcial ou total, desde que a fonte seja citada]. Thereza dedica um pensamento de ternura:
~ para meu filho, que tem a coragem e a coerência de se expor e pelos seus amigos e amigas gays
~ para Harvey Milk, primeiro politico assumidamente gay, vítima de crime de ódio
~ mais uma vez e sempre, pelos gays enforcados no Irã, pelos mortos por skinheads, ou mortos por gays enrustidos assassinos
~ para Judy Shepard, mãe coragem que tenta superar, com ativismo pela causa da não homofobia, o desespero te ter perdido o filho Matthew Sheppard de forma brutal
~ [aqui quero acrescentar: para Angélica Ivo, mãe de Alexandre Thomé Ivo Rajão e para os demais familiares e parentes deste menino de 14 anos, assassinado por crime de ódio - homofobia - no dia 21/06/10 na cidade de São Gonçalo - RJ (veja o blog: aqui)]
~ Para cada um que já foi vítima de chacota, deboche e escárnio na vida social, escolar ou profissional e pelas famílias que apoiam e compreendem seus meninos e meninas gays, sendo - elas mesmas - muitas vezes repelidas e discriminadas, em geral pelos parentes mais próximos
~ por quem precisa viver "na clandestinidade", mesmo sem desejar e apela para casamentos de mentirinha
~ para os gays soropositivos e os que já desenvolveram a AIDS, mas as famílias, com quem dividem o teto, nem de longe imaginam mesmo qual sua orientação sexual
~ para os excomungados da Igreja Catolica Romana e pelos excluídos nas religiões fundamentalistas
~ para as mães que tentam militar em favor da não homofobia - com boa vontade, é certo - mas não conseguem reinventar a maternidade pois, elas mesmas, são as primeiras a discriminar e não ousam reconhecer isso
~ para travestis e transexuais - que me inspiram especial carinho e que são, às vezes, discriminados pela própria comunidade LGBT.
Agradeço a Theresa pela sua atenção e carinho. O apoio de pessoas reconhecidas na sociedade e não necessariamente ligadas com o nosso ambiente, é muito importante para nós, homossexuais (e outros membros do mundo da diversidade sexual). Assim, mais gente (de mente abera e coração sensivel), terá a oportunidade de perceber que não se trata de uma obsessão ou de usurpação por parte de um pequeno grupo de pessoas, mas que, de fato, a luta é pela dignidade de todos os seres humanos.

8 de maio de 2011

A mãe

O laço (chame-o de conexão, ligação ou comunhão) que une a mãe e o filho/a filha, é incomparável. Assim como o amor. Existem outros tipos de relação, mas esta é inigualável. E não se trata apenas de uma realidade física. Os nove (ou menos) meses da gestação criam uma intimidade que perdura por toda a vida. É algo que mistura fatores biológicos, emocionais e - por que não - místicos (espirituais). A natural intuição feminina é potencializada com o dom da maternidade. E como a maternidade (como a paternidade) é uma participação direta da obra do Criador, não hesito em considerar a ituição materna sobrenatural. Para mim é coisa certa: a mãe sabe sobre os filhos muito mais do que eles imaginam. Sem dúvida, a revelação de homossexualidade do filho ou da filha, é um impacto para mãe, mas, na maioria das vezes é, justamente, a mãe quem dá o maior apoio para gente. E nós, homossexuais, devemos sempre lembrar-nos disso. Eu mesmo, um quarentão, nunca falei sobre a minha identidade gay, para a minha mãe. Recentemente, fiz alusão a respeito disso, em uma carta. Em resposta, ela escreveu que vamos conversar sobre isso pessoalmente. Não será grande surpresa para mim se, nessa conversa, ela dissesse que já sabia, há muito tempo. A essência da maternidade é o amor. Ainda que haja exemplos de rejeição - desde aqeulas notícias sobre as mulheres que deixam o recem-nascido numa lixeira, até as mães que expulsam os filhos homossexuais de casa - a grande maioria das mães apresenta traços heróicos. Neste Dia das Mães, presto esta singela homenagem e expresso a minha gratidão: Mãe, obrigado por ser o que você é! Desculpe por todas as vezes em que provoquei suas lágrimas. Que Deus te abençoe abundantemente.
No site do Grupo de Pais e Mães de Homossexuais (aqui), podemos ler vários depoimentos, tanto de mães e pais de homossexuais, como dos próprios gays e lésbicas, sempre no contexto da relação familiar. Em um dos relatos, a mãe conta:  Acho que foi o momento mais sofrido de toda a minha existência! O meu mundo foi destruído na totalidade. Meus sonhos, dilacerados. Meu filho não parecia mais meu filho. Era o fim de tudo! Pensei que enlouqueceria, que não resistiria a tanto sofrimento. Chorei dias e dias seguidos. Não comia, não dormia, não conseguia trabalhar. Fiquei doente. Menstruei fora da época, vomitava, tinha diarréia. Meu único pensamento era esse: Como aceitar que o meu filho, querido e amado, inteligente, íntegro, honesto,não passava de uma “bicha”? O que eu conhecia sobre o mundo dele era negro. Era muito nojento. Era promíscuo. Por tempos, sofri sozinha... Estava de luto.... Li livros, textos e tudo que surgia na minha frente... Descobri então o Grupo de Pais de Homossexuais. Parece que uma porta se abria para mim. (...) No grupo, ninguém estava ali pra me apontar, me criticar. Pelo contrário, as pessoas estavam ali para uma ajuda mútua, para se aconchegar, para que pudessem chorar todas as suas lágrimas, ter um colo. Penso que todos os pais como eu, que se encontrassem nessas condições e tivessem a chance de encontrar um grupo de apoio, as coisas seriam menos sofridas.Apenas 1 ano se passou desde a minha descoberta, mas a relação com o meu filho é excelente. Somos parceiros, somos mãe e filho, integrados...
Acredito que uma Pastoral para Homossexuais, estruturada, aprovada e apoiada pela Igreja, poderia - entre outras atividades - oferecer um valioso suporte para as mães e os pais.