ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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25 de fevereiro de 2014

O Papa e as famílias


A Santa Sé divulgou hoje, 25 de fevereiro, a Carta às Famílias, escrita pelo Papa Francisco. O texto, como tudo do Papa Francisco, é simples, objetivo e cheio de carinho. Eu leio a "Carta" com bastante esperança, lembrando de uma atenção nova e diferente da Igreja, voltada aos casais formados pelas pessoas do mesmo sexo. Talvez tenha chegado a hora de corrigir as afirmações anteriores, baseados nitidamente no medo perante o desconhecido que definiam como sendo abominável a "equiparação" das uniões homossexuais ao matrimônio e à família (escrevi sobre isso, p.ex. aqui). Como sabemos, o questionário, elaborado pelo Vaticano e enviado aos quatro cantos do mundo, aborda também o tema das uniões de pessoas do mesmo sexo, como um dos temas do próximo Sínodo dos Bispos. Falando, justamente do Sínodo, cujo tema será "Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização", o Papa Francisco faz um pedido importante: "(...) unamo-nos todos em oração para que a Igreja realize (...) um verdadeiro caminho de discernimento e adote os meios pastorais adequados para ajudarem as famílias a enfrentar os desafios atuais com a luz e a força que provêm do Evangelho". No início da "Carta", o Papa coloca-se, literalmente, à porta da casa de cada família, para conversar. Não é difícil imaginar este homem, entrando no lar formado por dois homens ou duas mulheres, assim como à mais humilde casa de uma mãe solteira ou mesmo de um casal heterossexual que vive sem o vinculo sacramental do Matrimônio. O Papa diz a cada uma dessas famílias: "Efetivamente, hoje, a Igreja é chamada a anunciar o Evangelho, enfrentando também as novas urgências pastorais que dizem respeito à família". E acrescenta: "[Jesus] é a fonte inesgotável daquele amor que vence todo o isolamento, toda a solidão, toda a tristeza". No final ainda diz: "Queridas famílias, a vossa oração pelo Sínodo dos Bispos será o tesouro precioso que enriquecerá a Igreja".

Há quem diga que não faz bem criar as expectativas, afinal trata-se de um sínodo, isto é, de uma reunião de trabalho que reunirá muitos bispos do mundo inteiro e que, em sua grande maioria, não têm a mente tão aberta quanto o Papa. Por outro lado, como disse o cardeal alemão Walter Kasper, "a Igreja não é uma democracia (...), porque, no final, quem decide é o Papa". Temos ainda outros sinais de esperança. É o pronunciamento do Secretário do Sínodo dos Bispos, o cardeal Lorenzo Baldisseri que, entre outras coisas, disse: "As respostas [ao questionário enviado pela Santa Sé aos católicos do mundo inteiro] apresentam muito sofrimento, sobretudo da parte dos que se sentem excluídos ou abandonados pela Igreja, por se encontrarem num estado de vida que não corresponde à sua doutrina e à sua disciplina". O mesmo cardeal afirmou ainda que as respostas ao questionário que já chegaram ao Vaticano (em aproximadamente 80% do total esperado), sublinham "a urgência de tomar consciência das realidades vividas pelas pessoas, de retomar o diálogo pastoral com as pessoas que se afastaram, por várias razões". E acrescenta: "A figura do Papa Francisco comprova, dia após dia, uma nova abordagem humana e cristã que faz vibrar as pessoas, dispondo-as à escuta e ao acolhimento daquilo que é bom para elas, mesmo quando há sofrimento".

Finalizo a reflexão com as palavras do próprio Papa, pronunciadas no início do recente "Consistório sobre a família", no dia 20 de fevereiro. Podemos notar facilmente que tanto o otimismo exagerado, quanto o pessimismo desesperado, não deve nos acompanhar. Antes, o realismo...

Eu diria que são dois lados da mesma moeda...
De um lado: "Nestes dias, refletiremos especialmente sobre a família que é a célula fundamental da sociedade humana. Desde o início, o Criador colocou a sua bênção sobre o homem e a mulher, para que fossem fecundos e se multiplicassem sobre a terra; e assim a família torna presente, no mundo, como que o reflexo de Deus, Uno e Trino".
Do outro lado: "Procuraremos aprofundar a teologia da família e a pastoral que devemos implementar nas condições atuais. Façamo-lo com profundidade e sem cairmos na 'casuística', porque decairia, inevitavelmente, o nível do nosso trabalho. Hoje, a família é desprezada, é maltratada, pelo que nos é pedido para reconhecermos como é belo, verdadeiro e bom, formar uma família, ser família hoje; reconhecermos como isso é indispensável para a vida do mundo, para o futuro da humanidade".

20 de fevereiro de 2014

Os namorados em Roma


Não sei se entre aqueles milhares de namorados (noivos), reunidos com o Papa na Praça de São Pedro no último dia 14 de fevereiro (em vários lugares celebrado como o Dia dos Namorados - "Valentine's-Day"), estava algum casal homoafetivo. Juro que eu estaria lá, caso tivesse um namorado e estivesse em Roma. Os textos principais deste encontro, a saber: Diálogo do Papa com os casais e a Oração dos namorados, não tinham nada a ver com a condenação de "formas alternativas do amor humano" (que poderíamos esperar na época de Bento XVI), mas trouxeram a serenidade e o júbilo de um relacionamento projetado para "até que a morte os separe". Evidentemente, havia referências diretas e indiretas ao relacionamento tradicional, consagrado e sacramentado, isto é, heterossexual. Não se ouviu, portanto, qualquer menção "revolucionária" ao namoro gay (também seria difícil esperar, eu acho). Porém, os casais homoafetivos, a meu ver, podem fazer um excelente proveito com essas reflexões. 

As pessoas homossexuais que acreditam em Cristo e - de alguma maneira - identificam-se com a Igreja (neste caso, católica), têm alguns desafios a mais, em comparação com outras pessoas, por exemplo, os heterossexuais, os ateus/agnósticos e os seguidores de outras doutrinas (não vou detalhar aqui as diferenças entre as religiões). Em primeiro lugar aparece o desafio, talvez maior entre todos, que consiste em reconciliar em si mesmo as duas dimensões da própria identidade, quer dizer, a homossexualidade e a fé. O caminho não é curto nem fácil, porém possível. Aliás, é necessário para quem não se vê capaz de abrir mão de nenhuma dessas dimensões. A maior parte do trabalho a ser feito resume-se em superação (redefinição) de conceitos, opiniões, pontos de vista que tentam (com muito sucesso, infelizmente) apresentar as duas coisas, justamente, como irreconciliáveis, tipo água-fogo, água-óleo etc. A superação dessa visão do inferno é libertadora e não é nenhuma blasfêmia ou heresia. É uma descoberta, é uma ressurreição. Depois dese primeiro (mais longo, mais profundo e mais importante) passo, vêm outros, como a recuperação da alegria de um relacionamento com Deus-Amor, o novo gosto pela oração e a repensada, criativa e não menos alegre leitura da Palavra de Deus. A partir desta perspectiva, fica possível e muito útil, tomar nas mãos o texto da pequena oração dos namorados, composta especialmente para o encontro com o Papa:

Deus Pai, fonte de amor,
abre nossos corações e nossas mentes
para reconhecer em Ti
a origem e a meta
do nosso caminho de namorados.

Sim, sim! Ele é a origem e a meta do caminho de namorados que se entregam um ao outro no amor, cheio de confiança, dedicação, carinho, diálogo e tantos outros atributos, capazes de elevar uma relação interpessoal bem acima de um mero desejo carnal que (não esquecido nem ignorado) é muito mais uma consequência do que o motivo e a finalidade máxima dos dois. Dois rapazes e duas moças que creem em Deus Pai, podem conseguir enxergar nele a fonte do amor que os/as une, por mais que o seu relacionamento tenha sido taxado de diabólico ou antinatural. 

Jesus Cristo, esposo amado,
ensina-nos a vida de fidelidade e do respeito,
mostra-nos a verdade de nossos sentimentos,
faz-nos disponíveis ao dom da vida.

Embora essa parte da oração faça alusão direta à procriação, podemos entender que a disponibilidade ao dom da vida vai muito além desse significado restrito. Quanto mais sou capaz de reconhecer a minha vida e a vida do meu amado como um dom de Deus, haverá mais firmeza, zelo, cuidado e respeito pelo próprio relacionamento. E, se Deus permitir, a mesma disponibilidade ao dom da vida, levará à experiência da vocação à paternidade (maternidade), ainda que por meio de uma adoção. Além disso, a visão da vida como o dom, será suficiente para encarar, com fé e aceitação, a chegada da morte...

Espírito Santo, fogo do amor,
acende em nós a paixão pelo Reino,
a valentia para assumir
decisões grandes e responsáveis,
a sabedoria da ternura e do perdão.

Sem dúvida, os homossexuais batizados podem contribuir para a construção do Reino de Deus. Podem e devem, afinal, este Reino é de amor, de acolhimento, de louvor ao Criador, de libertação dos cativos e de cura dos feridos. E nem precisa dizer de quanta valentia se exige das pessoas homossexuais que levam a sério a sua própria visibilidade e a decisão de compartilhar sua vida com alguém. Tampouco é necessário frisar a importância da sabedoria da ternura e do perdão em um relacionamento de pessoas do mesmo sexo, pois neste ponto não há diferença entre as sexualidades.

Deus, Trindade do Amor,
guia os nossos passos.
Amém.

As mesmas linhas de pensamento encontramos nas respostas do Papa aos representantes dos casais reunidos na Praça de São Pedro. As três perguntas perfeitamente dizem respeito às nossas inquietações:

1) Santidade, muitos, hoje, pensam que prometer fidelidade para toda a vida é um compromisso muito difícil. Muitos sentem que o desafio de viver juntos para sempre é bonito, fascinante, mas muito exigente, quase impossível. Pedimos que sua palavra possa nos iluminar sobre esse aspecto. 

Se os namorados (noivos) heterossexuais têm essa preocupação, imagine-se os homossexuais. Além da onipresente "cultura do descartável", da qual o Papa fala com frequência, acrescenta-se a pressão interna e externa, experimentada por todos "não-heterossexuais" que têm muito mais dificuldades em acreditar que "isso pode dar certo". O Papa dá dicas simples e concretas que, de novo, servem muitíssimo bem às pessoas do mesmo sexo que queiram levar a vida em comum (leia aqui). Em resumo, trata-se de uma construção, dia após dia e não apenas sobre a base de sentimentos. O Papa recomenda também a oração pelo relacionamento: "Senhor, dá-nos hoje, o nosso amor cotidiano".

2) Santidade, viver juntos todos os dias é belo, dá alegria, sustenta. Mas é um desafio a ser enfrentado. Acreditamos que devemos aprender a nos amar. Há um "estilo" de vida conjugal, uma espiritualidade do cotidiano que queremos aprender. O Senhor pode nos ajudar nisso, Santo Padre?

Aqui a resposta do Papa é ainda mais simples e bastante prática. É a capacidade de usar, conscientemente, os termos (ou melhor, as posturas): "Posso?", "Obrigado!" e "Desculpe!". Nada de invadir, com as "botas de montanha", a vida e a intimidade do outro. Nada de ingratidão, mas muita sensibilidade e reconhecimento. Finalmente, a sincera humildade em admitir os próprios erros e pedir o perdão por eles. Literalmente o Papa disse (entre outras coisas): "A gentileza preserva o amor"; 'É necessário saber dizer 'obrigado' para caminhar bem juntos"; "Jesus, que nos conhece bem, nos ensinou um segredo: nunca terminar um dia sem pedir perdão...".  

3) Santidade, nestes meses, estamos nos preparativos para o nosso casamento. O Senhor pode nos dar algum conselho para celebrar bem o nosso matrimônio?

Bem... No momento, esta é a questão que preocupa exclusivamente os casais heterossexuais, sobretudo no contexto do Sacramento do Matrimônio. Caberia aqui a pergunta sobre a celebração de uma bênção nupcial para os casais homoafetivos (enquanto o Sacramento está fora de qualquer cogitação). Mas, a resposta do Papa vai além e é, de fato, a continuação do tema de um "estilo de vida conjugal", mencionado anteriormente. O Papa Francisco disse (aqui vai a resposta inteira):

Façam de um modo que seja uma verdadeira festa, uma festa cristã, não uma festa social! A razão mais profunda da alegria desse dia nos indica o Evangelho de João: vocês se recordam do milagre nas bodas de Caná? Em um certo momento, o vinho faltou e a festa parecia arruinada. Por sugestão de Maria, naquele momento, Jesus se revela pela primeira vez e realiza um sinal: transforma a água em vinho e, assim, salva a festa de núpcias.
O que aconteceu em Caná há dois mil anos acontece, na realidade, em cada festa de núpcias: o que fará pleno e profundamente verdadeiro o matrimônio de vocês será a presença do Senhor que se revela e dá a sua graça. É a sua presença que oferece o “vinho bom”, é Ele o segredo da alegria plena, que realmente aquece o coração.
Ao mesmo tempo, no entanto, é bom que o matrimônio de vocês seja sóbrio e faça sobressair o que é realmente importante. Alguns estão mais preocupados com os sinais exteriores, com o banquete, fotografias, roupas e flores… São coisas importantes em uma festa, mas somente se forem capazes de apontar o verdadeiro motivo da alegria de vocês: a bênção do Senhor sobre o amor de vocês. Façam de modo que, como o vinho em Caná, os sinais exteriores da festa revelem a presença do Senhor e recorde a vocês e a todos os presentes a origem e o motivo de vossa alegria.

11 de janeiro de 2014

Canção nova ou velha?


A "Canção Nova" (para quem não sabe) é uma comunidade católica (carismática), dedicada à evangelização, principalmente através dos meios de comunicação social. A mais conhecida, obviamente, é a TV Canção Nova. A sede da comunidade está na cidade de Cachoeira Paulista (SP) e lá acontecem os maiores eventos promovidos por ela e transmitidos ao vivo pela própria emissora. Durante os famosos acampamentos e retiros da Canção Nova discursam vários pregadores que, para tal privilégio, precisam ser reconhecidos pela sua fidelidade à determinada linha doutrinal da Igreja. Com outras palavras, não é qualquer um, mesmo sendo bispo, padre, ou diácono (isto é, pregador autorizado pela Igreja para esse ofício) que pode ser admitido ao púlpito (e às câmeras) da Canção Nova. Não encontraremos por lá, por exemplo, os padres: José Trasferetti, James Alison, Luis Corrêa Lima, José Lisboa Moreira de Oliveira e muitos outros. É mais fácil contar com a presença do midiático padre Reginaldo Manzotti ou do ferrenho defensor da doutrina e da tradição, padre Paulo Ricardo. Este último está presente, agora mesmo, no acampamento "Revolução Jesus - Livres para amar" (08-12/01/2014). O portal da Canção Nova publicou a transcrição de sua palestra. Entre outras coisas, padre Paulo Ricardo, fala sobre os homossexuais [os grifes são meus]:

Você pode repetir quantas vezes quiser que a união entre dois homens e que a união de duas mulheres são a mesma coisa que a união de um homem com uma mulher. Você pode repetir várias vezes isso, mas isso é artificial, pois o mundo real grita que, quando um homem se une com uma mulher, acontece o milagre da vida. Quando dois homens se unem não acontece nada; e quando duas mulheres se unem também não acontece nada; e este é o mundo real. Desculpem-me, não estou discriminando ninguém. A Igreja não quer discriminar os homossexuais como se eles fossem inferiores. A Igreja quer somente dizer: Existe uma obra inscrita na criação, se nós obedecermos ao nosso Criador, ao ''Fabricante'', vai ser melhor para todos. As pessoas dizem que ficamos castrando os homossexuais ao afirmarmos que eles não podem usar o sexo como querem. Mas ninguém pode usar o sexo como quiser. A Igreja não discrimina ninguém, ela pede a castidade para todos. Os casais [homem e mulher] também são chamados à castidade.

Para explicar melhor a minha resposta, recorro a outro trecho da mesma pregação:

O sexo só pode ser realizado em um projeto de família, em queum homem e uma mulher se unem de forma permanente para gerar filhos, não estou dizendo que ele é feito só para isso, mas ele tem a ver com esta obra linda de gerar crianças. Este é o projeto de Deus e é, porque perdemos a noção disso, que a moral sexual se tornou tão complicada para nós.

E mais um trecho:

(…) temos dois caminhos, temos que escolher entre eles. O primeiro caminho é o mais comum, a aliança de amor, chamada de "matrimônio" e o outro caminho chamado é o "celibato", que também é uma aliança de amor, uma oferenda da sua sexualidade para Deus. (…) Quem é solteiro, está solto, disponível. Um padre, como eu, não é solteiro. O padre é comprometido em uma aliança de amor com Deus e deve viver assim. Nós precisamos entender isso, ninguém tem vocação para ser solto, para ser solteiro, no entanto, hoje, nossa sociedade acha que liberdade é você ser solteiro, mas não é assim. A liberdade do amor acontece quando selamos uma aliança de amor, quando celebramos uma aliança de amor nós somos livres para amar.

1. Um homem e uma mulher se unem de forma permanente para gerar filhos - sem dúvida, padre! Nenhuma das pessoas homossexuais pretende negar isso, afinal todos nós viemos a este mundo por meio de uma união desse tipo (bem, nem sempre tenha sido uma união permanente, mas sem dúvida alguma, trata-se de união entre um homem e uma mulher).

2. O senhor padre diz que esse projeto de família (que une um homem e uma mulher) não é feito só para gerar filhos, mas tem a ver com essa obra linda de gerar crianças. Eu sempre pensei que o projeto de Deus em relação ao ser humano tem a ver com o amor e não necessariamente com essa obra linda de gerar crianças. O celibato que - usando as suas palavras – é uma oferenda da sexualidade para Deus - não tem nada a ver com essa obra linda de gerar crianças. Além disso, a Igreja reconhece como válido o matrimônio entre um homem e uma mulher que, por algum motivo independente de sua vontade, não podem ter filhos.

3. O senhor, padre Paulo Ricardo, diz que ninguém tem vocação para ser solto, para ser solteiro, no entanto, hoje, nossa sociedade acha que liberdade é você ser solteiro, mas não é assim. Por que, então, o Beato João Paulo II afirmouEstou também contente por encontrar pessoas que pertencem aos vários setores da Igreja: diáconos e seminaristas, religiosos e religiosas, maridos e esposas, mães e pais, solteiros, noivos, viúvas, jovens e crianças. Todos juntos podemos assim celebrar a nossa união eclesial em Cristo?

4. Em sua palestra, o senhor disse: Quando dois homens se unem não acontece nada; e quando duas mulheres se unem também não acontece nada; e este é o mundo real. O senhor já conversou, alguma vez, com um casal homossexual? Já tentou ouvir, com calma, o que é que acontece entre essas pessoas? O que é que as une? Senhor seria capaz de compreender que as suas próprias palavras aplicam-se na experiência de muitos casais homoafetivos: a liberdade do amor acontece quando selamos uma aliança de amor, quando celebramos uma aliança de amor nós somos livres para amar. Este, padre Paulo Ricardo, é o mundo real.

5. Para terminar, senhor padre, recorro de novo às suas palavras:As pessoas dizem que ficamos castrando os homossexuais ao afirmarmos que eles não podem usar o sexo como querem. Mas ninguém pode usar o sexo como quiser. Pois é, Padre! Eu acho que aqui está o "x" da questão. Ninguém pode usar o sexo como quiser. Por mais que eu quisesse fazer sexo com uma mulher, simplesmente não posso, não consigo. Quem pretende nos "transformar" ("converter", se quiser esse termo) em heterossexuais, está de fato tentando nos castrar. O próprio Catecismo, ao qual o senhor es refere tanto, diz: Cabe a cada um, homem e mulher, reconhecer e aceitar sua identidade sexual(CIC, 2333) Por isso não é questão de "usar o sexo como quiser", mas de acordo com a própria identidade sexual.

6. A última coisa. O padre afirma: Desculpem-me, não estou discriminando ninguém. A Igreja não quer discriminar os homossexuais como se eles fossem inferiores. (…) A Igreja não discrimina ninguém (...). NÃO ME DIGA!

7 de outubro de 2013

Homossexual pode rezar o rosário?

O terço não é um colar? Veja no final do texto...
 
A Igreja dedica o dia 07 de outubro e, consequentemente, todo este mês, à Nossa Senhora do Rosário. Queria, nesta ocasião, fazer uma pergunta: eu, sendo um homossexual que professa a fé católica, posso rezar o rosário? Ou, pelo menos, o terço do rosário (que, de fato, é um quarto, lembrando a criação dos Mistérios Luminosos pelo Beato João Paulo II)?
 
As respostas serão, sem dúvida, diversas, de acordo com a sua autoria. Os que não acreditam em Deus, irão considerar inútil toda essa questão. Os seguidores de religiões não cristãs, podem não entender o sentido de tal pergunta. Os cristãos não católicos, julgarão a minha proposta como duplamente errada, considerando uma blasfêmia o fato de dirigir a prece a Maria e outra, fazer oração, sendo um pérfido pecador. A maioria dos católicos, especialmente os tradicionalistas, certamente farão uma elaborada analogia entre a história da festa de hoje e a "abominação do homossexualismo" que pode ser combatida com o auxílio de Nossa Senhora do Rosário. Assim como em 1572, os turcos otomanos (muçulmanos) que queriam invadir a Europa, foram derrotados no estreito de Lepanto e a vitória do exército cristão se deu graças à intervenção de Nossa Senhora do Rosário, do mesmo jeito, é necessário hoje que a avalanche do homossexualismo seja interrompida. As palavras do comandante cristão, servem também para o combate de hoje: "Este é o dia em que a Cristandade deve mostrar seu poder, para aniquilar esta seita maldita e obter uma vitória sem precedentes".
 
Aprendi a rezar o rosário com a minha avó. Mais tarde, descobri que - de acordo com a expressão de João Paulo II - ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor.  Quem contempla a Cristo, percorrendo as etapas da sua vida, não pode deixar de aprender d'Ele a verdade sobre o homemUma oração tão fácil e ao mesmo tempo tão rica merece verdadeiramente ser descoberta de novo pela comunidade cristã.
 
É verdade que, neste ponto, pode surgir o questionamento: um homossexual pode ser considerado cristão? A resposta surge por meio de outras perguntas:
 
1. O (a) homossexual tem o direito de viver?
 
- A vida humana é sagrada e inviolável em cada momento da sua existência (João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae, n. 61);
 
2. O (a) homossexual tem o direito de crer em Deus?
 
- A fé é um dom, porque é Deus que toma a iniciativa e vem até nós; e assim a fé é uma resposta com a qual nós O acolhemos como fundamento estável da nossa vida. É um dom que transforma a existência, porque nos faz entrar na mesma visão de Jesus, o qual age em nós e nos abre ao amor a Deus e aos outros. (Bento XVI);
 
3. O (a) homossexual tem o direito de orar?
 
- O Deus vivo e verdadeiro chama incessantemente cada pessoa ao encontro misterioso da oração. Essa atitude de amor fiel vem sempre em primeiro lugar na oração; a atitude do homem é sempre resposta a esse amor fiel. À medida que Deus se revela e revela o homem a si mesmo, a oração aparece como um recíproco apelo, um drama de Aliança. (CIC, 2567);
 
4. O (a) homossexual tem o direito de rezar o rosário?
 
- Penso em vós todos, irmãos e irmãs de qualquer condição, em vós, famílias cristãs, em vós, doentes e idosos, em vós, jovens: retomai confiadamente nas mãos o terço do Rosário, fazendo a sua descoberta à luz da Escritura, de harmonia com a Liturgia, no contexto da vida quotidiana. (João Paulo II).
 
A observação final refere-se à foto que acompanha o texto. Já tinha visto umas frases do tipo "Terço não é colar! Aprenda a usá-lo corretamente!". Encontrei, porém, os argumentos do grande "Doutor Mariano", São Luís Maria Grignion de Montfort que, em seu livro "O Segredo do Rosário", afirma: Aqueles que usam o Rosário no corpo (pescoço ou cintura) em público por devoção e como bom exemplo poderão ganhar cem dias de indulgência.
 
Vou continuar, então, rezando o meu rosário. Talvez publique aqui algumas reflexões sobre isso...

5 de outubro de 2013

Não brigo por este "gender"

 
Todos se lembram do caso de um policial que, durante o protesto dos professores no Rio, forjou a posse de morteiros para deter um jovem manifestante. Exceto a nota oficial da PM, todas as reações na mídia, nas redes sociais e em conversas particulares, são unânimes: é algo revoltante, vergonhoso, inaceitável e digno de punição. Certamente, os policiais recebem a formação profissional, inclusive a instrução sobre a conduta ética. Por outro lado, as situações extremas e estressantes, facilitam (ainda que não justifiquem) o fracasso moral, principalmente no caso de pessoas que, talvez, não tenham firmeza em sua própria estrutura psíquica, quem sabe, devido, por exemplo, às falhas na educação em casa. Não estou aqui para julgar as pessoas. Há instituições e autoridades para isso. Entretanto, gostaria de usar este exemplo como a introdução a outra questão que considero infinitamente mais grave, com todos os adjetivos já citados: revoltante, vergonhoso e inaceitável. Digo "infinitamente mais grave" porque não se trata de uns policiais despreparados que permitem a confusão externa tomar conta do seu interior. Falo de pessoas cultas, formadas em filosofia e teologia, conhecedores e adeptos (pelo menos assim se declaram) do Evangelho e dos mandamentos de Deus. Pessoas que sabem perfeitamente qual é o conteúdo do 8° Mandamento, ainda que tenham alguma obsessão doentia com o 6°...
 
Assisti - ou, melhor: tentei assistir - o programa do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, fiel discípulo de Olavo de Carvalho e, também (suponho), de Jesus, sobre a "Ideologia de gênero". A minha dificuldade consistiu não apenas no fato de discordar de sua argumentação, mas também, em algum problema técnico do site que não permitiu (até agora) uma formatação melhor do vídeo [ATUALIZAÇÃO 07/10/2013: o programa editado está aqui]. O padre que gosta de usar a expressão "gayzismo", copiada do seu mestre Olavo de Carvalho, retrata o estudo (e a legislação) a respeito da identidade de gênero, como uma das mais poderosas armas da "ditadura gay(zista)", a mesma que tem por objetivo - segundo ele - a destruição da sociedade e da Igreja (através da destruição de família tradicional), bem como a introdução da "nova ordem mundial". Tudo isso tem o tom apocalíptico e, de fato, serve para difundir, ainda mais, a intolerância, em particular, a homofobia. O discurso do padre é eloquente e sempre inclui a citação de uma série de nomes e fontes internacionais. Essa eloquência, porém, não é capaz de ocultar o falso princípio que, ao ser detectado, desmascara a verdadeira intenção do ensinamento. Não é a defesa da família, nem da sociedade, mas sim, mais uma tentativa de desmoralizar as pessoas homossexuais, atribuindo a elas algo que não existe. É, justamente, como forjar o flagrante, como no caso daquele policial. Por isso digo: essa briga que o padre apresenta, não é minha. Eu não brigo por este "gender", até porque ele não existe, da forma apresentada por este padre.
 
Vou tentar explicar a questão de maneira mais breve possível. Para um estudo maior, recomendo assistir o discurso do padre e ler todos os materiais que ele indica. O resumo da aula encontra-se no texto, publicado junto ao vídeo. É uma espécie de panfleto, certamente preparado para os escudeiros do padre, para ser multiplicado e distribuído pelo Brasil afora (quem sabe, nas Paradas de orgulho gay[zista]). O título do panfleto, diga-se de passagem, pode ser perfeitamente aplicado, em resposta, a toda argumentação da aula: "Gênero" - Defina ou então não use! A palavra gênero foi politizada. Se ela for utilizada em um texto, deve ser definida para que todos possam estar conscientes do seu significado. Algumas feministas radicais usam "gênero" em contraposição ao "sexo". "Sexo" diz respeito à realidade biológica de masculino e feminino. "Gênero" diz respeito ao condicionamento social e às práticas culturais relacionadas com a masculinidade e a feminilidade. Os que defendem esta definição o fazem por crerem que todas as evidentes diferenças entre homem e mulher não são naturais, mas são produzidas pela "socialização opressiva de gênero" e a mulher será livre somente quando não seja obrigada a ser feminina por sua cultura. Além disso, creem que, enquanto o "sexo" é uma realidade fixa, o "gênero" é algo que se pode escolher. Esta interpretação é particularmente popular entre homossexuais e lésbicas [sic! - como se as lésbicas não fossem homossexuais]. Esta definição declara guerra à feminilidade natural.
 
No vídeo, o padre Paulo Ricardo, reforça esta afirmação: Na verdade, o que está por trás, é um outro conceito. O que está por trás é o fato que - segundo essas pessoas - o homem é uma massinha de modelar e você é construído como homem, ou é construída como mulher, ou é construído como homossexual, ou como lésbica, ou como transexual. Isto é uma questão de opção e não é sequer uma coisa fixa.
 
Quem não percebe, exatamente por trás deste discurso, a intenção de desmoralizar a luta GLBTTS pelos próprios direitos e pela dignidade, corre o risco de ser agredido, amanhã mesmo, em uma esquina qualquer, por um "católico" que - induzido ao erro - vai punir você, por ter escolhido ser gay. Afinal, a ira de Deus volta-se contra os infiéis. Certamente, ele não vai entender que você está sendo fiel a si mesmo, à sua identidade, ao seu gênero que, entretanto, não foi criado por você.
 
E quem pensa que a opinião deste padre é algo raro e individual, engana-se redondamente. Basta entrar nos sites "católicos" e conferir. Um deles, "Annales Historiae", publica o mesmo pensamento: A heterossexualidade está na base da complementariedade entre os homens e as mulheres. Mas outros preferem ver nisso um ponto de exploração, de dominação e de intolerância. Para combater esta situação, então eles trabalham incansavelmente para destruir o que eles consideram como um preconceito. (...) O indivíduo é intimado a escolher entre todas estas possibilidades (heterossexual feminino, heterossexual masculino, homossexual masculino, homossexualidade feminina, bissexualidade, transsexualidade e indiferenciado), com o direito fundamental de trocá-las, quando lhe apetece. (Obs.: Os conhecedores de língua portuguesa, ao menos em Portugal, sugerem que se use o termo "transexualidade" - com um "s")
 
É tão óbvia a falte de lógica na argumentação sobre a "opção" que, somente através de uma lavagem cerebral, é possível implantá-la na cabeça de quem quer que seja.
 
O Papa Bento XVI fez uma referência à "ideologia do gênero": [O rabino-chefe de França, Gilles Bernheim] cita o célebre aforismo de Simone de Beauvoir: «Não se nasce mulher; fazem-na mulher – On ne naît pas femme, on le devient». Nestas palavras, manifesta-se o fundamento daquilo que hoje, sob o vocábulo «gender - gênero», é apresentado como nova filosofia da sexualidade. De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia. (...) O homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um facto pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada.
 
Talvez existam pessoas que pensam assim, ou movimentos que queiram difundir tal teoria, mas com certeza não são os homossexuais. Repito: nenhum homossexual acredita ter o poder de decidir sobre a sua própria orientação sexual. A sociedade, tampouco, tem esse poder, porque, se tivesse, já não existiria um homossexual sequer na face da terra, graças à pressão da sociedade, em sua maioria, homofóbica. Quanto à "natureza pré-constituída", sempre pensei que a Igreja tivesse pregado a superioridade da alma em relação ao corpo e das coisas espirituais em relação às materiais. Pois, muito mais do que a minha corporeidade, é a minha psíquica e a afetividade, que definem a direção da minha sexualidade. O que "pré-constituiu" a corporeidade daquela criança que nasceu com 4 pernas na Índia? Ou de outra que nasceu com 4 braços e 4 pernas? Que era a encarnação do deus Vishnu, como tantos afirmavam? Não! Foram realizadas várias cirurgias, para que essas pessoas pudessem ter a vida normal. Foi a corporeidade que impedia essa normalidade de viver. E o que dizer sobre a Letícia Lanz que nasceu com o corpo masculino, mas, em sua essência, sempre foi uma mulher? Ela mesma diz: Por décadas, tenho vivido com um nome que não corresponde à pessoa que eu sou e que, como qualquer outra pessoa, eu também desejaria poder mostrar ao mundo, com orgulho e dignidade, em todos as ocasiões.
 
Pelo que sei, a ciência ainda não possui métodos para consertar o interior de um ser humano. Consegue, porém - e com grande sucesso - adequar o corpo à identidade da pessoa. E todas as tentativas de "adequar" a sexualidade foram desastrosas.
 
Acrescento, no final, mais uma observação. Eu creio, assim como o Papa Bento XVI e como a maioria das pessoas não-heterossexuais, que a criatura humana foi feita por Deus nessa dualidade de homem e mulher. Ser gay, não anula o fato de ser homem, assim como ser lésbica, não anula a feminilidade. Essa é a situação das pessoas transgêneras, a quem devemos o respeito, merecido por cada ser humano. Elas também, assim como todos os seres humanos, não escolheram a sua sexualidade por mero capricho. A dualidade do ser humano contém muitas identidades. Deus que, em Jesus, ordenou: Dizei somente sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno (Mt 5, 37), não criou o mundo preto e branco, mas sim, muito colorido. Tentar corrigir a obra do Criador, ou negar a sua diversidade, é um ato de estupidez e a manifestação de soberba que resulta em violência. É, exatamente, por dizer "sim" a Deus e a si mesmo, que as pessoas não-heterossexuais defendem a sua identidade e lutam por seus direitos.
 
A ilustração que ajuda compreender a diversidade do ser humano, encontrei no blog do Vinícius:
 

4 de outubro de 2013

"A Igreja dos puros" é uma heresia

 
Confesso que me senti entalado, como que em uma lama pegajosa e fedorenta, ao ler vários textos nos sites, portais e páginas, onde escrevem aqueles que se declaram "guardiões da Santa Tradição Católica", repudiam o modernismo pós-conciliar e detonam cada nova fala do Papa Francisco. Evidentemente, depois da última entrevista do Santo Padre, os caras entraram em desespero e, praticamente, excomungaram Francisco. O meu alívio veio logo depois. Se alguém ainda duvida na ação do Espírito Santo, atribua isso, então, à intuição do Papa. Tenho certeza de que o Santo Padre não perde tempo para ler as matérias daquele tipo, menos ainda, os furiosos comentários que se multiplicam como uma praga, mas tudo o que foi dito na última catequese papal, durante a Audiência Geral no dia 02 de outubro, torna-se uma resposta direta e clara aos uivos dos fundamentalistas "católicos" (que, aliás, perderam a própria catolicidade, desde o momento em que contestaram as decisões da Santa Igreja, definidas no Concílio Vaticano II).
 
Como sempre, vale a pena ler o texto todo. Eu cito aqui alguns trechos:
 
Vocês poderiam dizer-me: mas a Igreja é formada por pecadores, vemos isso todos os dias. E isto é verdade: somos uma Igreja de pecadores; e nós pecadores somos chamados a deixar-nos transformar, renovar, santificar por Deus. Houve na história a tentação de alguns que afirmavam: a Igreja é somente a Igreja dos puros, daqueles que são totalmente coerentes e os outros seguem afastados. Isto não é verdade! Isto é uma heresia! A Igreja, que é santa, não rejeita os pecadores; não rejeita todos nós; não rejeita porque chama todos, acolhe-os, está aberta também aos mais distantes, chama todos a deixar-se envolver pela misericórdia, pela ternura e pelo perdão do Pai, que oferece a todos a possibilidade de encontrá-Lo, de caminhar rumo à santidade. “Mas, padre, eu sou um pecador, tenho grandes pecados, como posso sentir-me parte da Igreja?”. Querido irmão, querida irmã, é propriamente isto que deseja o Senhor; que você lhe diga: “Senhor, estou aqui, com os meus pecados”. Alguém de vocês está aqui sem os próprios pecados? Alguém de vocês? Ninguém, nenhum de nós. Todos levamos conosco os nosso pecados. Mas o Senhor quer ouvir que lhe digamos: “Perdoa-me, ajuda-me a caminhar, transforma o meu coração!”. E o Senhor pode transformar o coração. Na Igreja, o Deus que encontramos não é um juiz implacável, mas é como o Pai da parábola evangélica. Você pode ser como o filho que deixou a casa, que tocou o fundo do distanciamento de Deus. Quando tens a força de dizer: quero voltar pra casa, encontrarás a porta aberta, Deus vem ao seu encontro porque te espera sempre, Deus te espera sempre. Deus te abraça, te beija e faz festa. Assim é o Senhor, assim é a ternura do nosso Pai celeste. O Senhor nos quer parte de uma Igreja que sabe abrir os braços para acolher todos, que não é a casa de poucos, mas a casa de todos, onde todos podem ser renovados, transformados, santificados pelo seu amor, os mais fortes e os mais frágeis, os pecadores, os indiferentes, aqueles que se sentem desencorajados e perdidos. A Igreja oferece a todos a possibilidade de percorrer o caminho da santidade, que é o caminho do cristão: faz-nos encontrar Jesus Cristo nos Sacramentos, especialmente na Confissão e na Eucaristia; comunica-nos a Palavra de Deus, faz-nos viver na caridade, no amor de Deus para com todos. Perguntemo-nos então: deixamo-nos santificar? Somos uma Igreja que chama e acolhe de braços abertos os pecadores, que dá coragem, esperança, ou somos uma Igreja fechada em si mesma? Somos uma Igreja na qual se vive o amor de Deus, na qual se tem atenção para com o outro, na qual se reza uns pelos outros?
 
Conheço muitos homossexuais que se sentem indignos, até mesmo, de entrar na igreja para participar da Missa. Outros, já escutaram essa "sentença" (de não serem dignos), por parte dos pais, irmãos, amigos, colegas de escola, padres e muitos outros. Muitos desistiram de procurar o caminho para a Igreja, devido à leitura de alguns documentos oficiais dela. Não me surpreendo, portanto, ao ver um tipo de desconfiança, em relação às palavras do Papa. Uns insistem em afirmar de que não se trata de ensinamento oficial da Igreja, mas de opiniões pessoais de um tal de Bergoglio (que por acaso, ou talvez, por engano, ocupa o trono de Pedro). Outros imaginam (de certa forma, até esperam, assustados) um "cala-a-boca", dado ao Papa, por seus adversários da cúpula vaticana. Há quem pense: "eles vão acabar com ele". Realmente, quando se lê as declarações dos fundamentalistas "católicos", do tipo: "chegou a hora do combate", a gente começa a se preocupar. Mas, aqui, surpreendentemente, vou concordar - em um ponto - com os tradicionalistas: o Papa é o Papa e a Igreja é a Igreja. Um Papa não vai mudar a Igreja.
 
Tenho, porém, uma má notícia aos contestadores de Francisco. Na mesma medida, em que o Papa fala pela Igreja, é a Igreja que fala através do Papa. Não é o Papa que vai demolir, de repente, a Igreja. É a Igreja que se revela no Papa e em suas palavras. Ele apenas transmite a mudança (a conversão) da Igreja. Mesmo que alguém queira calar o Papa, é o Espírito Santo que conduz a Igreja à plena verdade. Basta ler a história! É uma ótima leitura, especialmente neste dia, dedicado a um outro Francisco... 

1 de outubro de 2013

+ Gefferson Ferrer



O Portal Gay1 informou ontem sobre a morte de um jovem, Gefferson Ferrer que se jogou do 3° piso, no shopping Taguatinga (Brasília, DF). Segundo o portal, Gefferson havia anunciado a sua morte no facebook. Nesta madrugada, o seu perfil ainda estava disponível, mas agora não existe mais. A sua despedida,
feita algumas horas antes do suicídio, expressa a profunda angústia e solidão. Uma das últimas postagens exibe o pensamento de Curt Cobain: "Se os meus olhos mostrassem a minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo" e a outra, traz a fase: "Tudo tem conserto menos a morte... a morte conserta tudo". Além dessas citações, havia as palavras do próprio Gefferson: "Obrigado gente pela força e pelo carinho de alguns, mas não tem volta, não... Um dia todos iremos embora e eu vou hoje!!!". Um pouco antes, o rapaz escreveu: "Só merece viver quem tem força pra enfrentar as armadilhas da vida e hoje eu não tenho mais força pra nada! Não tenho direito de amar muito menos de ser Amado. Viver com o coração cheio de dor eu não aguento por isso decidi partir pra nunca mais voltar". A página de notícias "Alto Paraíba" acrescenta a informação que o rapaz estava assistindo o filme "Invocação do mal" e, antes de terminar o filme, saiu e pulou.
 
 
Cada morte nos deixa perturbados, por mais que a cultura modera, justamente, a "cultura da morte", procure banaliza-la. Mais ainda, a morte suicida. Muitos sentem a tentação de julgar, outros de tentar explicar. Na verdade, estamos diante de um mistério, chamado "ser humano". O mistério é tão grande que até a Igreja (católica) que tem tanta dificuldade em modificar os seus pontos de vista e que, antigamente, negava às pessoas que tiraram a própria vida, o lugar na terra "benzida" e reservava um espaço à parte no cemitério para "tais pessoas". Hoje em dia, a Igreja diz: Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do  sofrimento ou da tortura, podem diminuir a responsabilidade do suicida. Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida (CIC, 2282-2283). Na prática, admite-se a suposição de que talvez, nos últimos instantes (entre o ato suicida e a morte efetiva), pela infinita misericórdia de Deus, ter-se-á arrependido de seu ato e obtido o perdão. Vale lembrar aqui o fato de que a Igreja que tenha declarado oficialmente a salvação eterna de muita gente (em forma de beatificação ou canonização), nunca se pronunciou a respeito da condenação no inferno de quem quer que seja.
 
Recentemente, o Papa Francisco, disse: Quantas pessoas tristes, quantas pessoas tristes, sem esperança! Pensai também nos muitos jovens que, depois de terem experimentado tantas coisas, não encontram sentido na vida e procuram o suicídio, como solução. Sabeis quantos suicídios de jovens há hoje no mundo? A cifra é alta! Por quê? Não têm esperança. Experimentaram tantas coisas e a sociedade, que é cruel — é cruel! — não nos pode dar esperança. A esperança é como a graça: não se pode comprar, é um dom de Deus. E nós devemos oferecer a esperança cristã com o nosso testemunho, com a nossa liberdade, com a nossa alegria. O dom da graça que Deus nos dá, traz a esperança. Nós, que temos a alegria de nos apercebermos que não somos órfãos, que temos um Pai, podemos permanecer indiferentes a esta cidade que nos pede, talvez também inconscientemente, sem o saber, uma esperança que ajude a olhar para o futuro com maior confiança e serenidade? Nós não podemos ser indiferentes.
 
Não sei como anda, neste sentido, a doutrina das Igrejas evangélicas. A morte de Gefferson trouxe a recordação de um outro jovem, Saulo Assis de Lima que se jogou de uma torre de telefonia em Porto Velho, Rondônia, em abril deste ano. Os relatos de amigos deste jovem de 23 anos não deixam dúvidas. Saulo foi expulso de casa pela família que é evangélica, por ele ter sido aidético e homossexual. De acordo com diversas fontes, o corpo de Saulo permaneceu muitos dias no IML da cidade. Surgiu, até, uma campanha no facebook: "Um funeral digno para Saulo".
 
Repito: não tenho o conhecimento suficiente sobre a doutrina evangélica e os seus "dogmas" sobre o suicídio. Talvez o ponto de partida tenha sido a história de Judas Iscariotes e uma associação inescrupulosa de versículos bíblicos, tais como: "Judas Iscariotes foi o traidor" (Mt 10, 4); "Satanás entrou em Judas" (Lc 22, 3); "Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!" (Mt 26, 24). Por sua vez, é mais que evidente, o discurso homofóbico da maioria dos pastores evangélicos. Voltemos, porém, ao contexto católico...
 
A Igreja católica que usa o termo "tendências homossexuais profundamente radicadas", na verdade revela a sua própria homofobia, profundamente radicada. Por mais que tente escondê-la sob uma veemente condenação de discriminação (injusta - sic!), logo acrescenta que quando é aceita a afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos. A Igreja não se surpreende com os comportamentos irracionais e violentos contra as pessoas homossexuais, mas é incapaz de admitir a sua própria contribuição para tais comportamentos. Vejamos alguns princípios que servem para a pregação da doutrina, nas igrejas e salas de catequese, nos encontros de oração e retiros, em formação de jovens e de todos os outros fiéis católicos. A Igreja afirma e ensina o seguinte:
 
Na "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"
  • Como acontece com qualquer outra desordem moral, a atividade homossexual impede a autorrealização e a felicidade porque contrária à sabedoria criadora de Deus.
  • Quando se entregam a uma atividade homossexual, elas [as pessoas homossexuais] reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência.
  • Uma pessoa que se comporta de modo homossexual, age imoralmente.
  • São Paulo apresenta o comportamento homossexual como um exemplo da cegueira em que caiu a humanidade.
  • A própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada.
  • O Autor [do Livro de Levítico] exclui do povo de Deus os que têm um comportamento homossexual.
  • O  fenômeno do homossexualismo, em suas múltiplas dimensões e com seus efeitos sobre a sociedade e sobre a vida eclesial, é um problema que afeta propriamente a preocupação pastoral da Igreja.
  • A prática do homossexualismo [está] ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de grande número de pessoas.
  • A opinião segundo a qual a atividade homossexual seria equivalente à expressão sexual do amor conjugal ou, pelo menos, igualmente aceitável, incide diretamente sobre a concepção que a sociedade tem da natureza e dos direitos da família, pondo-os seriamente em perigo.
  • A catequese poderá ajudar inclusive as famílias em que se encontrem pessoas homossexuais, a enfrentar um problema que as atinge tão profundamente.
 
Outros documentos:
  • Os atos homossexuais não se podem, de maneira nenhuma, aprovar. (...) Na Sagrada Escritura, as relações homossexuais são condenadas como graves depravações. (...) As legislações que favorecem as uniões homossexuais são contrárias à reta razão. A legalização das uniões homossexuais acabaria, portanto, por ofuscar a percepção de alguns valores morais fundamentais e desvalorizar a instituição matrimonial. (...) Há razões válidas para afirmar que tais uniões [homossexuais] são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social. (...) Todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (...) O respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (1)
  • Existem setores onde não se trata de discriminação injusta tomar em consideração a tendência sexual, por exemplo, na adoção ou no cuidado das crianças, nó trabalho dos professores ou dos treinadores atléticos e no recrutamento militar. (...) A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. (...) Existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.(2)
  • Certamente, na atividade pastoral estes homossexuais assim hão de ser acolhidos com compreensão e apoiados na esperança de superar as próprias dificuldades pessoais e a sua inadaptação social. (...) Segundo a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos destituídos da sua regra essencial e indispensável. Elas são condenadas na Sagrada Escritura como graves depravações e apresentadas aí também como uma consequência triste de uma rejeição de Deus. Este juízo exarado na Escritura Sagrada não permite, porém, concluir que todos aqueles que sofrem de tal anomalia são por isso pessoalmente responsáveis; mas atesta que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e que eles não podem, em hipótese nenhuma, receber qualquer aprovação. (3)
  • O caminho formativo [dos candidatos ao sacerdócio] deverá ser interrompido no caso do candidato, apesar do seu empenho, do apoio do psicólogo ou da psicoterapia, continuar a manifestar incapacidade para enfrentar de modo realista, ainda que com o progresso do crescimento humano, as suas graves imaturidades (fortes dependências afetivas, notável falta de liberdade nas relações, excessiva rigidez de carácter, falta de lealdade, identidade sexual incerta, tendências homossexuais fortemente enraizadas, etc.). (4)
  • Será tarefa da família e do educador procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade: descobrir se se trata de fatores fisiológicos ou psicológicos, se esta será o resultado de uma falsa educação ou da falta de uma evolução sexual normal, se provém de um hábito contraído ou de maus exemplos ou de outros fatores. (...) Existe mais no profundo, a congênita fraqueza do homem, como consequência do pecado original; esta fraqueza pode levar à perda do sentido de Deus e do homem e ter suas repercussões na esfera da sexualidade. (5)
  • Uma problemática particular, que se pode manifestar no processo de maturação-identificação sexual, é a da homossexualidade, que, aliás, se difunde cada vez mais nas culturas urbanas. (...) Os jovens precisam de ser ajudados a distinguir os conceitos de normalidade e de anomalia, de culpa sugestiva e de desordem objetiva, evitando induzir hostilidade e, por outro lado, esclarecendo bem a orientação estrutural e complementar da sexualidade em relação à realidade do matrimônio, da procriação e da castidade cristã. (...) Muitos casos, especialmente quando a prática de atos homossexuais não se estruturou, podem ser ajudados positivamente por meio de uma terapia apropriada. (...) Os pais, por seu lado, no caso de advertirem nos filhos, em idade infantil ou adolescente, o aparecimento de tal tendência ou dos comportamentos com ela relacionados, façam-se ajudar por pessoas especializadas e qualificadas para darem todo o auxílio possível. (6)
Se estas afirmações não incentivam os atos violentos de homofobia e não agravam o estado de depressão e angústia em pessoas que não conseguem aceitar a própria homossexualidade, então... eu sou o Papai Noel. A Igreja que se declara, tão firmemente, como a "defensora da vida e dos direitos humanos", precisa fazer um sincero e humilde exame de consciência.

22 de setembro de 2013

Ser Igreja

 
Quantos cristãos recordam a data do próprio Batismo? Gostaria de fazer esta pergunta aqui pra vocês, mas cada um responda no seu coração: quantos de vocês recordam a data do próprio Batismo? Alguns levantam a mão, mas quantos não lembram! Mas a data do Batismo é a data do nosso nascimento na Igreja, a data na qual a nossa mãe Igreja nos deu à luz! E agora eu lhes deixo uma tarefa para fazerem em casa. Quando voltarem para casa hoje, procurem bem qual é a data do Batismo de vocês, e isto para festejá-la, para agradecer ao Senhor por este dom. Vocês farão isso?
 
Estas perguntas dirigiu aos ouvintes o Papa Francisco, no dia 11 de setembro deste ano (na íntegra, com pequenas diferenças: no site do Vaticano; no site da Canção Nova).
 
Então... é hoje - 22. 09 - a data do meu Batismo. Alguns cálculos simples mostram que demorei mais de 10 meses para ser batizado e conheço os porquês dessa demora, mas não vou falar sobre isso hoje... O que me vem à mente é o assunto com o qual procuro me ocupar um pouco neste blog: a Pastoral das Pessoas Homossexuais. Na verdade, fiquei na dúvida em relação a esse projeto, principalmente depois de algumas pesquisas sobre a natureza, ou definição de uma pastoral. Não vou citar nenhuma das fontes que consultei, mas em quase todas elas repete-se a expressão: As pastorais são trabalhos desenvolvidos pela Igreja, numa ação organizada e dirigida pela Diocese e Paróquia para atender determinada situação em uma realidade específica. Já o movimento nasce e se forma em um contexto externo à igreja local, é uma ação dos leigos que pode envolver várias pastorais/serviços ao mesmo tempo. Está mais ligado à vida pessoal dos participantes e, em geral, tem um caráter de espiritualidade e segue um carisma próprio, envolvendo mais ou menos as mesmas pessoas que vivenciaram um encontro, um retiro ou uma catequese.
 
A Igreja fala sobre o "atendimento pastoral" das pessoas homossexuais e encoraja os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. Uma dinâmica semelhante aparece na proposta de Pe. Antônio Transferetti (mencionado aqui). Eu mesmo criei neste blog o tag "pastoral para homossexuais", mas agora estou pensando, se não seria mais correto dizer "pastoral de homossexuais". O que parece ser apenas uma diferença gramática, na realidade é um convite às pessoas homossexuais a se tornarem agentes e não meros objetos da ação pastoral. Por isso a definição do movimento (acima) me parece mais adequado. Quem sabe, um "movimento pastoral"...
 
O Papa João Paulo II, em sua Exortação Apostólica Christifideles laici, (n. 29), diz: Antes de mais, é necessário reconhecer-se a liberdade associativa dos fiéis leigos na Igreja. Essa liberdade constitui um verdadeiro e próprio direito que não deriva de uma espécie de « concessão » da autoridade, mas que promana do Batismo, qual sacramento que chama os fiéis leigos para participarem ativamente na comunhão e na missão da Igreja. O Concílio é muito explícito a este propósito: « Respeitada a devida relação com a autoridade eclesiástica, os leigos têm o direito de fundar associações, dirigi-las e dar nome às já existentes » [LG, 37]. E o recente Código textualmente diz: « Os fiéis podem livremente fundar e dirigir associações para fins de caridade ou de piedade, ou para fomentar a vocação cristã no mundo, e reunir-se para alcançar em comum esses mesmos fins » [CDC, cân. 215].
 
Agradeço a Deus pelo dom do Batismo. Eu creio - com a Igreja - que a graça não tira a natureza, mas a supõe e a aperfeiçoa (cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, 1, 8 ad 2). Creio, também, que a minha natureza é homossexual e essa sua característica não impediu a ação da graça batismal, tampouco é a negação dessa mesma graça. As duas - a natureza e a graça - convivem em mim e ambas constituem a base de toda a minha relação com Deus e com as pessoas. Sim, no meu íntimo, eu amo a lei de Deus, mas percebo em meus membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo da lei do pecado que está nos meus membros. (Rm 7, 22-23) É a batalha de todo o batizado, seja ele hetero- ou homossexual. É do ser humano...

19 de setembro de 2013

O que o Papa disse?

 
Os meios de comunicação, grandes e pequenos (inclusive, as redes sociais), citam as palavras do Papa Francisco, de sua recente entrevista, concedida ao Pe. Antonio Spadaro, SJ, Diretor da revista dos jesuítas "La Civiltà Cattolica". Ao lado das citações, aparecem várias acusações, de todos os lados, alegando a "manipulação" tramada pelo adversário. A solução é simples: é preciso, apenas, ler o texto na íntegra. Quem quiser, vai encontra-lo AQUI. Na lista de assuntos (Índice da Entrevista), como o último item, aparece: "Entrevista completa" e pronto...
 
Como o blog tem as suas limitações, não vou transcrever aqui o texto completo, mas também não posso deixar por isso mesmo. Cito, então, um trecho, talvez o mais polêmico (sem cortes no meio), destacando - através de grifos - as partes que mais chamam a minha atenção. Deixei, até, a grafia de português de Portugal (paciência!):
 
«Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e recebe, tendo as portas abertas, procuramos mesmo ser uma Igreja que encontra novos caminhos, que é capaz de sair de si mesma e ir ao encontro de quem não a frequenta, de quem a abandonou ou lhe é indiferente. Quem a abandonou fê-lo, por vezes, por razões que, se forem bem compreendidas e avaliadas, podem levar a um regresso. Mas é necessário audácia, coragem».

Reflicto naquilo que o Papa está a dizer e refiro o facto que existem cristãos que vivem em situações não regulares para a Igreja ou, de qualquer modo, em situações complexas, cristãos que, de um modo ou de outro, vivem feridas abertas. Penso nos divorciados recasados, casais homossexuais, outras situações difíceis. Como fazer uma pastoral missionária nestes casos? Em que insistir? O Papa faz sinal de ter compreendido o que pretendo dizer e responde.

«Devemos anunciar o Evangelho em todos os caminhos, pregando a boa nova do Reino e curando, também com a nossa pregação, todo o tipo de doença e de ferida. Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto. Durante o voo de regresso do Rio de Janeiro disse que se uma pessoa homossexual é de boa vontade e está à procura de Deus, eu não sou ninguém para julgá-la. Dizendo isso, eu disse aquilo que diz o Catecismo. A religião tem o direito de exprimir a própria opinião para serviço das pessoas, mas Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com uma outra pergunta: “Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afecto ou rejeita-a, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Quando isto acontece, o Espírito Santo inspira o sacerdote a dizer a coisa mais apropriada».

«Esta é também a grandeza da confissão: o facto de avaliar caso a caso e de poder discernir qual é a melhor coisa a fazer por uma pessoa que procura Deus e a sua graça. O confessionário não é uma sala de tortura, mas lugar de misericórdia, no qual o Senhor nos estimula a fazer o melhor que pudermos. Penso também na situação de uma mulher que carregou consigo um matrimónio fracassado, no qual chegou a abortar. Depois esta mulher voltou a casar e agora está serena, com cinco filhos. O aborto pesa-lhe muito e está sinceramente arrependida. Gostaria de avançar na vida cristã. O que faz o confessor?»

«Não podemos insistir somente sobre questões ligadas ao aborto, ao casamento homossexual e uso dos métodos contraceptivos. Isto não é possível. Eu não falei muito destas coisas e censuraram-me por isso. Mas quando se fala disto, é necessário falar num contexto. De resto, o parecer da Igreja é conhecido e eu sou filho da Igreja, mas não é necessário falar disso continuamente».
 
«Os ensinamentos, tanto dogmáticos como morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não está obcecada pela transmissão desarticulada de uma multiplicidade de doutrinas a impor insistentemente. O anúncio de carácter missionário concentra-se no essencial, no necessário, que é também aquilo que mais apaixona e atrai, aquilo que faz arder o coração, como aos discípulos de Emaús. Devemos, pois, encontrar um novo equilíbrio; de outro modo, mesmo o edifício moral da Igreja corre o risco de cair como um castelo de cartas, de perder a frescura e o perfume do Evangelho. A proposta evangélica deve ser mais simples, profunda, irradiante. É desta proposta que vêm depois as consequências morais».

«Digo isto também pensando na pregação e nos conteúdos da nossa pregação. Uma bela homilia, uma verdadeira homilia, deve começar com o primeiro anúncio, com o anúncio da salvação. Não há nada de mais sólido, profundo e seguro do que este anúncio. Depois deve fazer-se uma catequese. Assim, pode tirar-se também uma consequência moral. Mas o anúncio do amor salvífico de Deus precede a obrigação moral e religiosa. Hoje, por vezes, parece que prevalece a ordem inversa. A homilia é a pedra de comparação para calibrar a proximidade e a capacidade de encontro de um pastor com o seu povo, porque quem prega deve reconhecer o coração da sua comunidade para procurar onde está vivo e ardente o desejo de Deus. A mensagem evangélica não pode limitar-se, portanto, apenas a alguns dos seus aspectos, que, mesmo importantes, sozinhos não manifestam o coração do ensinamento de Jesus.»
 
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E aqui vem o "grito desesperado" no facebook: "O GLOBO E VEJA MENTEM E COLOCAM PALAVRAS QUE O PAPA NÃO DISSE. TIRAM DO CONTEXTO E AFIRMAM O QUE DESEJAM. COMPARTILHE A VERDADE PQ LOGO LOGO TE PERGUNTARÃO SE O PAPA... BLABLABLA
ESCREVA PARA ELES E RECLAME. NÃO DÁ MAIS PRA TANTA MANIPULAÇÃO. TODA VEZ QUE O PAPA DIZ ALGO, ELES DISTORCEM..."
 
 
Bem... a foto divulgada pelos "defensores da verdade", também traz algumas afirmações tiradas do contexto. Curiosamente, os "verdadeiros católicos" têm medo de citar o Papa Francisco, quando ele diz:
 
Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto.
 
A religião tem o direito de exprimir a própria opinião para serviço das pessoas, mas Deus, na criação, tornou-nos livres: a ingerência espiritual na vida pessoal não é possível. Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com uma outra pergunta: “Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afecto ou rejeita-a, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia.

14 de setembro de 2013

Exaltar a CRUZ

 
A festa litúrgica da Exaltação da Santa Cruz inspira-se na tradição que conta a história da descoberta da cruz de Jesus Cristo, por volta do ano 326. Helena, a mãe do imperador Constantino teria recebido a revelação do local, onde se encontravam as três cruzes e, entre elas, aquela na qual morreu Jesus. No local da descoberta foi construída a igreja do Santo Sepulcro por ordem de Helena e dedicada em 335, com uma parte da cruz em exposição. Em 13 de setembro ocorreu a dedicação da igreja e a cruz foi posta em exposição no dia 14, para que os fiéis pudessem orar e venerá-la.
 
A Igreja convida-nos à reflexão sobre o mistério da Cruz, relembrando as palavras de Jesus: Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. (Jo 3, 13-14) e, também: Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim (Mt 10, 38). 
 
A tradição cristã (que podemos chamar de "sabedoria espiritual do povo") sempre associou a cruz ao sofrimento (à provação, em geral) e ao cumprimento do dever, interpretando assim a exigência de "tomar a cruz" expressa nas palavras de Jesus. É um caminho à santificação e, consequentemente, à salvação e à vida eterna.
 
Do ponto de vista de uma pessoa homossexual, a Exaltação da Santa Cruz, pode ser uma ocasião para refletir sobre a sua condição e, de fato, exaltá-la. O texto do Catecismo da Igreja Católica, justamente assim, descreve a situação:

Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objetivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição. (CIC, 2358)
 
Na Carta aos Gálatas (3, 13) lemos: Cristo remiu-nos da maldição da lei, fazendo-se por nós maldição, pois está escrito: Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro (Dt 21, 23). Se a cruz que no Antigo Testamento foi o sinônimo de maldição e Jesus teve o poder de transformá-la em maior fonte de bênção, por que não podemos assim contemplar algo que faz parte integral de nossa identidade? O Catecismo diz que, sendo cristãos, devemos unir à cruz do Senhor as nossas dificuldades. Pergunto, pois: é unir à cruz na visão do Antigo, ou do Novo Testamento? Em outra Carta, São Paulo escreve: nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos - força de Deus e sabedoria de Deus (2Cor 1, 23-24).
 
ORAÇÃO:
(a primeira parte inspirada no texto de Pe. Reginaldo Manzotti)
 
Ó Santa Cruz, Cruz Bendita onde a humanidade foi redimida
e o Filho do homem teve suas mãos e seus pés transpassados
e teve seu peito aberto de onde jorrou água e sangue.
Ó Santa Cruz, instrumento de morte e de castigo,
mas que no Sangue Redentor se tornou sinal de nossa salvação.
Ó Cruz Bendita, chave de nossa eternidade,
coroa de nossa salvação, na cruz do Senhor eu coloco estas intenções:
 
Por todos os homossexuais,
crucificados em suas famílias
e em qualquer parte da sociedade,
muitas vezes por "motivos religiosos"...
Por todos os homossexuais
que não aceitam a sua própria condição,
pelos que vivem em depressão e solidão,
por aqueles que atentam contra a própria vida...
Pelos que foram expulsos de casa
abandonados pelos amigos
desprezados por colegas na escola e no trabalho,
agredidos na rua
e rejeitados pela Igreja.
 
Que todos possam descobrir
a Cruz gloriosa e vitoriosa.
Que encontrem na Cruz a força
para viver, lutar e amar
e que cheguem pela Cruz
à glória da eternidade.
Amém.