ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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26 de dezembro de 2010

Oitava de Natal (3° dia)


OS INOCENTES

TEXTO BÍBLICO: Mt 2, 3. 16-18
A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele. (...) Vendo, então, Herodes que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou massacrar e Belém e nos seus arredores todos os meninos de dois anos para baixo, conforme o tempo exato que havia indagado os magos. Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: “Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque já não existem” (Jr 31, 15).
LEITURA/REFLEXÃO
1)
O mistério da iniquidade manifesta-se na pessoa de Herodes de maneira assustadora. Até onde pode chegar a maldade de um ser humano? O texto do Evangelho diz que o rei “ficou perturbado”. De todo o contexto podemos constatar que a causa maior desse estado emocional foi o medo. O medo que gera a agressão. Os cientistas observam que um animal assustado, ferido ou ameaçado, costuma reagir com o ataque. O ser humano também. Augusto Cury diz, no seu livro “Revolucione sua qualidade de vida” (Ed. Sextante, Rio de Janeiro, 2002): Em psiquiatria, chamamos o medo doentio de fobia. Fobia é uma reação exagerada, desproporcional, diante de um objeto, situação ou ser vivo. (p. 23). O mesmo autor, em outra sua obra, ajuda-nos a entrar no mistério de iniquidade do rei Herodes: Muitos ditadores, psicopatas e líderes políticos cometeram atrocidades porque deram ao pensamento consciente um crédito que ele nunca teve. Não entenderam que o pensamento é irreal, que pensar é interpretar, e interpretar é passível de inúmeras distrações maiores ou menores, dependendo do exercício da sabedoria. Se as interpretações forem contaminadas, seremos capazes de cometer injustiças, de discriminar, julgar, excluir. (...) Quem compreende esse processo aprende que os fortes compreendem e os fracos julgam. Descobre que os fortes acolhem e perdoam, mas os fracos condenam e excluem. (A. Cury, “Os segredos do Pai-nosso”, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2006, p. 35-36).
2) Alguém vai dizer que comparar os meninos-mártires de Belém aos jovens e adultos, agredidos e até assassinados, por causa de sua homossexualidade, seria uma blasfêmia. Mas, quem mede a inocência ou o pecado, é somente Deus. A verdade é que uma orientação sexual, independente do livre arbítrio, portanto involuntária (e é uma ignorância falar de "opção sexual"!), não pode ser a razão ou justificativa para atitudes de humilhação e agressão. Aliás, o que é que pode justificar a agressão? Foi, exatamente, neste ano de 2010, que recebemos mais notícias sobre a perseguição de homossexuais. Acredito que apenas tivemos mais acesso a estes acontecimentos, o “mundo gay” ganhou um pouco mais de visibilidade. Neste terceiro dia da oitava de Natal, quero prestar homenagem a todos os homossexuais, vítimas de homofobia. Em primeiro lugar aqueles que foram mortos literalmente. Outros, que morreram, assassinados “indiretamente”, ou seja, foram levados ao suicídio, devido uma insuportável pressão dos outros (às vezes dos próprios familiares!). Muitos tiveram uma morte “moral” ou “social”, caíram em depressão ou adquiriram outro tipo de doença psíquica, pelo mesmo motivo. Outros ainda, sobreviveram, mas a vida deles nunca mais voltou ao normal. Não temos estatísticas e nem podemos ter, mas com certeza, são milhares. Se isso ajudar, quero dizer que acredito no potencial espiritual do sacrifício. Não fosse assim, Deus não teria permitido, nem a morte dos inocentes em Belém, nem sangue dos mártires, derramado ao longo dos séculos e nem mesmo a morte do seu próprio Filho Jesus Cristo. A fé cristã baseia-se nesta verdade: o sangue dos mártires é a semente dos cristãos. Por analogia, digo: os homossexuais, perseguidos e mortos, ao oferecerem o seu sofrimento a Deus, em união com Cristo crucificado, estão levando à vitória definitiva, toda esta luta pelo reconhecimento, pela aceitação e pelo direito de amar, que ainda continua, em todos os continentes do mundo.
3) Relembremos algumas notícias:
- No Iraque, somente em 2008, foram registrados 285 homossexuais executados por ordem do governo, entre eles vários adolescentes, “suspeitos” desse “crime contra a democracia”.
- O número de gays assassinados no Brasil tem aumentado nos últimos anos. Em 2007 foram 122, em 2008 – 190 e em 2009 – 198 (registrados). Depois do Brasil, o México (35) e os Estados Unidos (25) foram os países mais homofóbicos em 2009.
- A maioria dos agressores (54%) conhece a vítima – 16% são da própria família e 38% são conhecidos, colegas de trabalho ou vizinhos.
- Seth Walsh estava na sexta série quando a sua mãe declarou-lhe o amor incondicional, depois da “revelação” de homossexualidade feita por ele. Infelizmente, a reação da mãe era exceção. As agressões, humilhações, insultos e provocações repetidas, sem cessar, pelos colegas, quebraram o Seth por dentro. Enforcou-se no quintal de sua casa. Tinha treze anos.
- Billy Lucas, 15 anos, de Greensburg, Indiana, enforcou-se por mesmo motivo e Asher Brown, 13 anos, dos subúrbios de Houston, atirou em si mesmo.
- Tyler Clementi, o calouro da Universidade Rutgers, pulou da ponte George Washington, em Nova York, depois que seu encontro sexual com outro homem foi transmitido on-line.
Estes são apenas alguns exemplos dos vários suicídios de jovens adolescentes gays que foram hostilizados por colegas, em pessoa ou on-line, nas últimas semanas e meses. Embora muitos meios de comunicação falem de “estatísticas forjadas pelo lobby gay”, é necessário e urgente que tenhamos consciência, de que não se trata apenas de estatísticas, mas de vida humana e, também, de que estamos recebendo apenas algumas informações daquilo que acontece, todos os dias, na maioria dos países do mundo.
ORAÇÃO
Rezemos hoje por todos que têm mente e coração mesquinhos como Herodes. Peçamos, também, que o Senhor da Vida e do Amor, receba no seu Reino, todos aqueles que foram martirizados por causa de sua homossexualidade, console e sustente os que sofrem todo tipo de perseguição e que conceda a todos os governantes, legisladores, educadores e pais, uma luz e o coração sensível, para que façam o que deve ser feito nesta situação de emergência. O Salmo 123(124) é proclamado na Festa dos Santos Inocentes:

Se o Senhor não estivesse ao nosso lado
enquanto os homens investiram contra nós,
com certeza nos teriam devorado
no furor de sua ira contra nós.
Então as águas nos teriam submergido,
a correnteza nos teria arrastado
e, então, por sobre nós teriam passado
essas águas sempre mais impetuosas.
O laço arrebentou-se de repente,
e assim nós conseguimos libertar-nos.
O nosso auxílio está no nome do Senhor,
do Senhor que fez o céu e fez a terra!

Oitava de Natal (2° dia)


JOÃO

TEXTO BÍBLICO: (1 Jo 4, 7-9)
Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por ele.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
27 de dezembro, o segundo dia da oitava de Natal, a Igreja dedica a São João, Apóstolo e Evangelista. A figura de João é, sem dúvida, simpática. Foi ele o “discípulo predileto” do Senhor, repousou a sua cabeça no peito do Mestre durante a Última Ceia, permaneceu ao pé da cruz junto com Maria, enquanto os outros preferiram salvar a própria pele. Foi ele que correu ao túmulo vazio de Jesus e acreditou na sua ressurreição. Finalmente, o único que não teve a morte violenta no martírio, foi agraciado com as visões da Jerusalém celeste e dos horrores (e da glória) do fim dos tempos. O Papa Bento XVI dedicou a ele, em 2006, três catequeses, no ciclo dedicado aos Apóstolos (confira: [1], [2], [3]). Aqui, neste blog, o discípulo amado já teve um destaque, no trecho do livro de Anselm Grün "Lutar e amar - Como os homens encontram a si mesmos" (aqui), em um surpreendente contexto homoerótico.
2) Os evangelistas trazem, entretanto, mais alguns pormenores sobre João. Dois episódios tornam a imagem deste homem mais humana, sem diminuir os seus méritos e ofuscar a sua simpatia. Um deles é o pedido, dirigido ao Mestre e feito, junto com o irmão Tiago, com o auxílio da mãe de ambos (cf.: Mt 20, 20-28; Mc 10, 35-45; Lc 22, 24-30). Certamente sem ter compreendido o sentido da missão de Jesus e a dimensão do seu reino, pediram que os dois pudessem se sentar, um à direita e outro à esquerda do Senhor. Jesus teve paciência (e até tentou explicar algo a eles), mas os "colegas" nem tanto. Todos os discípulos do Mestre revelaram-se... humanos. Esta também é uma mensagem importante para nós. Aliás, é muito interessante ler o Evangelho a partir deste princípio. Vamos encontrar pessoas humanas, normais, limitadas, mesmo assim, sempre amadas e acompanhadas por Jesus. Como seria mais serena a nossa vida, se todos admitissem que nem os apóstolos, nem os cristãos (de todas as gerações e de todos os “níveis”) são anjos, mas sim, seres humanos. Viva a humildade!
3) O outro episódio com João (de novo acompanhado pelo irmão), merece um pouco mais de atenção. O Evangelista Lucas (em Lc 9, 51-56) conta que quando Jesus resolveu dirigir-se a Jerusalém, enviou antes alguns mensageiros, para prepararem as localidades pelo caminho para a sua passagem. Surgiu logo um obstáculo: os habitantes de uma aldeia, samaritanos, não quiseram receber Jesus. Vendo isso, Tiago e João (apelidados “Boanerges”, Filhos do Trovão; cf. Mc 3, 17) disseram: “Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma?”. Com outras palavras: “Mestre, vamos fazer aqui uma pequena Sodoma?”. Eles se lembravam bem o que tinha acontecido com aquela grande cidade (veja Gn 20, 1-29). E tudo isso por causa da falta de hospitalidade, exatamente como neste caso da aldeia samaritana. Jesus confirma esta motivação da destruição de Sodoma quando, em outro momento, prepara os discípulos para a missão: Se entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saindo pelas suas praças, dizei: “Até o pó que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós; sabei, contudo, que o Reino de Deus está próximo”. Digo-vos: naqueles dias haverá um tratamento menos rigoroso para Sodoma. (Lc 10, 10-12). Muitos autores debatem aquela interpretação da destruição de Sodoma como castigo divino motivado pela homossexualidade. Durante vários séculos circulava essa distorção, a ponto de atribuir aos homossexuais o “nome” de “sodomitas”. Pensando bem, é justamente o contrário o que acontece. O pecado de Sodoma continua sendo cometido, exatamente, contra os homossexuais e tantos outros seres humanos que estão sendo rejeitados, desprezados e humilhados. Voltando ao episódio com João e Tiago, notamos uma diferença. É Jesus que anuncia novas todas as coisas. Como se dissesse: “Muito bem, meus discípulos. Vejo que vocês fizeram o trabalho de casa: conhecem as Escrituras. Mas precisam aprender uma lição. O tempo de reagir com violência, por qualquer motivo que seja, acabou”. Lucas descreve isso assim: Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. “Não sabeis de que espírito sois animados. O Filho do homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para salvá-las”. (Lc 9, 55-56). Quem sabe, João e Tiago, lembraram-se de um trecho do Salmo 76(77), 11: Eu confesso que esta é a minha dor: “A mão de Deus não é a mesma: está mudada!”. Ou, então, viram-se, de repente, na figura de Jonas, frustrado pelo fato de Deus não ter destruído a cidade de Nínive (leia o capítulo 5 do Livro de Jonas).
4) Finalmente, uma imagem de João que deve ficar gravada no nosso coração. Diz uma tradição que João, já idoso, andava no meio dos cristãos e repetia sem parar: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros!”.
ORAÇÃO
Vamos pedir ao Senhor que nos ensine a interpretar corretamente a Bíblia e, também, que nos ajude a reagir de acordo com a sua vontade em todas as situações da vida. Mas, antes de tudo, precisamos louvar ao Senhor. A inspiração será o texto escrito por João (Ap 4, 11. 5, 9):

Vós sois digno, Senhor nosso Deus,
de receber honra, glória e poder!
Porque todas as coisas criastes,
é por vossa vontade que existem
e subsistem porque vós mandais.
Vós sois digno, Senhor nosso Deus,
de o livro nas mãos receber
e de abrir suas folhas lacradas!
Porque fostes por nós imolado;
para Deus nos remiu vosso sangue
dentre todas as tribos e línguas,
dentre os povos da terra e nações.

Oitava de Natal (1° dia)


A FAMÍLIA

TEXTO BÍBLICO: (Col 3, 13-15)
Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. E sede agradecidos.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
No domingo dentro da oitava de Natal a Igreja celebra a solenidade da Sagrada Família: Jesus, Maria e José. Neste ano é o dia seguinte depois do Natal. A doutrina católica dedica bastante tempo e espaço ao assunto de família. Basta lembrar a Exortação Apostólica de João Paulo II “Familiaris consortio” (1981), as mensagens para os encontros mundiais das famílias e tantos outros textos. O valor e a importância da família são inquestionáveis. Entretanto, os documentos da Igreja, o que é compreensível, falam geralmente de um ideal de família. É claro, abordam os problemas familiares também, mas sempre com referência ao “projeto de Deus”. Eu acredito que cada família seja um projeto de Deus e um projeto muito singular. Quem sabe, um dia, vamos receber algum texto, assinado pelo Papa, ou por alguma Congregação da Santa Sé, que ajude às famílias a lidar, com claro e delicado amor, com os seus membros homossexuais (em geral, embora não exclusivamente, trata-se de filhos). E espero que não se pareça esse texto com as declarações da Sagrada Congregação para a Educação Católica (de 1974): “Para que se possa falar de pessoa amadurecida, o instinto sexual deve superar duas formas típicas de imaturidade: o narcismo e a homossexualidade, e conseguir a heterossexualidade”. Obviamente, é esse tipo de pensamento que deve ser superado e não a homossexualidade.
2) Seria impossível citar aqui todos os testemunhos, tanto dos pais, quanto dos filhos, sobre o “impacto de revelação” (ou descoberta) da homossexualidade de um(a) adolescente ou jovem membro de família. Costuma ser chocante, também, a “saída do armário” de um pai ou uma mãe de família. Por isso, acredito, é de suma importância, o zelo em construir um relacionamento familiar muito sincero, carinhoso, aberto ao diálogo e ao conhecimento mútuo. É como um “pano de fundo” para eventual declaração do tipo: “pai, mãe, sou gay”. De fato, não é a própria declaração, ou melhor, a própria verdade revelada, que causa o choque maior. É o coração duro e fechado, frieza no relacionamento, falta de diálogo, arrogância e ignorância. Por isso é ótimo que a Igreja procura tanto cuidar de casais, mesmo antes de iniciarem a vida em comum. O celebrante, no casamento, pergunta aos noivos se estão dispostos a receber e educar os filhos que Deus lhes confiar e espera um “sim” que dure por todo o resto da vida deles. Em cada “curso de noivos” deveria ser mencionada a probabilidade de “filhos que Deus lhes confiar”: deficientes física ou mentalmente (quanto preconceito ainda existe em relação a estes filhos) e – por que não? – diferentes sexualmente (ou melhor: em sua sexualidade). Aquela expressão “receber e educar” deve ser, com certeza, entendida como: “vocês estão dispostos a AMAR os filhos que Deus lhes confiar?”.
3) Kimeron Hardin, professor de anestesia, psiquiatria e psicologia em São Francisco, é o autor do livro “Auto-estima para homossexuais. Um guia para o amor próprio” (Edições GLS Summus, São Paulo, 2000). Entre diversos assuntos, fala, evidentemente, sobre a família: Muito da linguagem nas mensagens que você envia a si mesmo vem de comunicação que aprendeu no início de sua vida familiar. Você pode chegar a ouvir essas mensagens repetidas na voz da pessoa que as enviou quando você era criança. É importante reconhecer as várias formas de comunicação que a sua família usava para que você se torne capaz de enxergar como pode ainda estar se comunicando consigo mesmo e com os outros. (p. 44-45) O fato de a sua família acreditar em alguma coisa a seu respeito não faz disso uma verdade. O fato de eles terem lhe ensinado o que sabiam não significa que o que eles lhe ensinaram seja útil para você. De fato, em muitos casos, o que eles aprenderam como heterossexuais a respeito de gays e lésbicas ou a respeito de sexualidade de uma maneira geral pode ser bem doentio e nocivo para você. (p. 53-54)
ORAÇÃO
Rezemos por todas as famílias e, especialmente, por aquelas que têm, entre seus membros, os homossexuais. (Sl 88[89], 2-3. 6-7. 15-16):

Cantarei, eternamente, as bondades do Senhor;
minha boca publicará sua fidelidade de geração em geração.
Com efeito, vós dissestes:
A bondade é um edifício eterno.
Vossa fidelidade firmastes no céu.
Senhor, os céus celebram as vossas maravilhosas obras,
e na assembléia dos anjos a vossas fidelidade.
Quem poderá, nas nuvens, igualar-se a Deus?
Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos de Deus?
A justiça e o direito são o fundamento de vosso trono,
a bondade e a fidelidade vos precedem.
Feliz o povo que vos sabe louvar:
caminha na luz de vossa face, Senhor.

25 de dezembro de 2010

A PALAVRA


A Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 14) - a frase do Prólogo do Evangelho de São João marca o dia de hoje. É o mistério da Encarnação, no qual, Deus eterno e todo-poderoso, invisível, tornou-se visível, palpável, próximo. Emmanuel, o Deus-conosco. A mesma frase leva-me, também, a refletir um pouco sobre a palavra em si. Enquanto a Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós, a palavra humana continua na sua, tão comum, banalização e manipulação. É tão fácil usar a palavra (humana e divina) como instrumento de agressão. Às vezes, um texto, começa por despertar esperanças e, com a leitura mais atenta, acaba dissipando as mesmas esperanças...
Encontrei, nesta noite de Natal, o texto de homilia do bispo de Viseu (Portugal). Fiquei animado com o título: "A pior crise é a rejeição" (leia aqui), pois foi o mesmo assunto que abordei no 6° dia da recente "Novena de Natal" (aqui). O bispo, dom Ilídio Leandro, afirma: A crise pior é a rejeição – não haver lugar para as pessoas. E, depois, cita as situações de crianças, de famílias e de pobres. Ah, eu sei que seria um exagero esperar que um prelado falasse sobre a homofobia, a rejeição de homossexuais. Mas - pensei - tocar no assunto de rejeição, pode ajudar, também, a NOSSA CAUSA. Depois voltei à leitura. Chamou a minha atenção um trecho que fala de "famílias que não são reconhecidas nem protegidas na sua identidade e missão". Lembrei, então, de todas aquelas opiniões (lançadas, inclusive, pelos bispos católicos) sobre "o perigo" e "a ameaça" que a homossexualidade e os homossexuais representam em relação à família. Sem muito esforço podemos encontrar inúmeros exemplos de intolerância, desprezo e até ódio, justamente dentro de famílias que, "cumprindo a sua missão", rejeitam os homossexuais, em particular, os próprios filhos. Em conclusão, diria que a família que rejeita e agride os homossexuais está realmente ameaçada em sua estrutura e identidade. Pois, como ensina a Igreja: a família, no desígnio de Deus, é constituida como uma comunhão de amor e acolhimento. Vamos pensar nisso...

24 de dezembro de 2010

Onde nasceu Jesus?


Já era quase meia-noite. E Noite de Natal. Há duas horas, esta família tinha voltado para casa, depois da solene "Missa do galo". Mas, agora, a casa toda apresentava sinais de um violento terremoto. A árvore do Natal no chão, misturando-se os enfeites com os restos de comida e cacos que sobraram dos pratos. O pai, já bastante ebriagado, abria mais uma lata de cerveja. Estava sozinho, diante da tv, resmungando de vez em quando. A mãe, havia uma hora, permanecia sentada ao lado de um leito, no hospital. Acompanhava o seu filho único, o adolescente, que acabou sendo trazido à emergência, exatamente nesta noite santa. Hematomas na região dos olhos, nariz inchado e pior, duas costelas quebradas. Na verdade, não só costelas estavam quebradas, mas o rapaz todo: a sua alma, o seu coração, a sua dignidade. Para ele, o mundo tinha acabado. Em alguns momentos de lucidez pensava que certamente tinha cometido um erro ao escolher, justamente, a noite de Natal, para revelar aos pais a sua homossexualidade. Doeram os socos e pontapés recebidos do próprio pai. Doiam, ainda mais, as palavras do pai que disse ter aceito um filho drogado, ou até morto, do que um "boiola". A mãe, em silêncio, com olhos cheios de lágrimas olhava ao filho e relambrava as palavras do Papa que padre tinha lido na Missa: "demos graças a Deus por sua bondade conosco, e proclamemos alegremente aos que nos cercam a boa notícia de que Deus nos oferece libertar-nos de tudo que nos oprime; Ele nos dá a esperança, nos dá a vida".
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No mesmo bairro, uma outra família estava reunida em torno da mesa. Não costumavam ir à "Missa do galo". Acabada a sobremesa, iniciava-se a troca de presentes. Neste ano, a ceia de Natal era diferente. Houve um pouco de tensão e timidez no início, mas logo o clima de alegre acolhimento tomou conta de todos. Todos olhavam ao novo integrante da festa. Era o olhar de curiosidade, mas também de admiração. É que o filho único, jovem de 19 anos, obteve a aceitação dos pais para, pela primeira vez, trazer para casa, o seu namorado. O relacionamento deles já completava uns 6 meses, mas só em novembro do mesmo ano, o filho tomou coragem e conversou com os pais. Agora, tendo sido superada a difícil surpresa inicial, o jovem podia apresentar-lhes o amor de sua vida. Os pais retribuiram à surpresa do filho. Em segredo, prepararam um presente para o namorado dele. Mas o maior presente para os dois foi a declaração da mãe, confirmada pelo pai, que a partir deste momento, eles se alegravam, não apenas com um, mas com dois filhos. Filhos muito queridos.
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...onde nasceu Jesus?
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23 de dezembro de 2010

NOVENA DE NATAL (conclusões)


Pois bem, terminei a "Novena de Natal" antes do tempo. Para mim foi uma experiência ótima. Um pouco de mobilização para leitura, um pouco de desabafo. Caso houver Leitores, tenho a impressão que para os homossexuais a "novena" foi católica demais e para os católicos, foi homossexual demais. Com outras palavras: é uma previsão de insatisfação de ambos os lados (repito: caso houver Leitores). Mas, para mim, foi tão bom que já estou pensando em fazer uma "Oitava de Natal"... que tal?
Para quem quiser ter uma visão geral daquilo que foi feito (e, eventualmente, voltar a um dos assuntos), faço aqui um resumo:
A introdução (aqui) menciona um texto do Papa João Paulo II sobre Jesus que "se uniu (no mistério de sua Encarmação) a cada ser humano". Ainda que a novena quase não cita o próprio texto, todas as reflexões podem ser compreendidas melhor à luz desta afirmação.
1° dia (aqui): "O contexto histórico" - uma reflexão sobre Deus que entrou na história e sobre cada um de nós que, também, um dia aparecemos neste mundo.
2° dia (aqui): "Os segredos da gestação" - além de ser uma homenagem à vida, a postagem traz uma das teorias sobre possíveis fontes de homossexualidade.
3° dia (aqui): "A figura paterna" - reflexão sobre a importância de um pai na vida de cada pessoa e considerações sobre efeitos dolorosos da "figura paterna" negativa.
4° dia (aqui): "A mãe" - é uma homenagem a todas as mães e à sua sensibilidade. O texto traz, também, o testemunho de uma mãe. Há referência ao Grupo de Pais de Homossexuais (fundado por Edith Modesto).
5° dia (aqui): "Os anjos" - reflexão sobre a importância de amigos na vida de cada homossexual.
6° dia (aqui): "A rejeição" - faz analogia entre a falta de hospitalidade dos habitantes de Belém e o fenômeno da homofobia.
7° dia (aqui): "Os pastores" - uma meditação (e, por que não: uma proposta) sobre a pastoral de/para/com homossexuais e a sua importância.
8° dia (aqui): "O casamento" - aborda o tema de "casamento gay". Tenho consciência de que as minas opiniões pessoais são bastante polêmicas.
9° dia (aqui): "O amor" - uma visão de amor orientado pela ética personalista. O amor, com o qual não se brinca. Difícil, mas não impossível.


Aproveitando o momento, faço votos
de FELIZ NATAL
e ABENÇOADO ANO de 2011 (inteiro!)
-com muito mais amor
e muito menos preconceito !!!

22 de dezembro de 2010

NOVENA DE NATAL (9° dia)


O AMOR

TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 13-14
De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste cantando a Deus: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz aos que são do seu agrado!”
LEITURA/REFLEXÃO
1)
Quando o amor invade o coração de uma pessoa, parece que todos os anjos cantam “Glória”. Deus que é amor criou-nos à sua imagem e semelhança. Por isso, a nossa existência só se realiza plenamente no amor, ou seja, existimos para amar e para sermos amados. O Papa Bento XVI ao apresentar, em janeiro de 2006, a sua primeira Encíclica “Deus caritas est”, confessou: A palavra «amor» hoje está tão sem brilho, tão remexida e tão abusada, que quase dá medo de pronunciá-la com os próprios lábios. E, no entanto, é uma palavra primordial, expressão da realidade primordial; não podemos simplesmente abandoná-la, temos de retomá-la, purificá-la e dar-lhe novamente seu esplendor originário, para que possa iluminar nossa vida e conduzi-la pelo caminho correto. Esta consciência me levou a escolher o amor como tema de minha primeira encíclica. (leia na íntegra aqui)
2) O Catecismo da Igreja Católica, por sua vez, assim resume o mistério do homem: Por ser à imagem de Deus, o indivíduo humano tem a dignidade de pessoa: ele não é apenas uma coisa, mas alguém. É capaz de conhecer-se, de possuir-se e de doar-se livremente e entrar em comunhão com outras pessoas (n° 357). A expressão “o homem não é apenas uma coisa, mas alguém”, evoca uma belíssima teoria (ou melhor: uma corrente de pensamento), chamada “a ética personalista” (ou “personalismo ético”). É à luz desta linha de pensamento (o “padrão” na doutrina católica), que vamos formular a reflexão de hoje. A ética personalista tem muitos mestres e seguidores (p. ex.: Jacques Maritain, Gabriel Marcel, Max Scheler), entre os quais destaca-se Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II. Todos os seus escritos, mesmo os anteriores ao pontificado, possuem os “rastros” desta ética. No livro de Paulo Cesar da Silva “A ética personalista de Karol Wojtyla” (Editora Santuário, Aparecida – SP, 2001), encontramos um resumo deste pensamento. Vou transcrever aqui algumas frases desta obra e quero propor (novamente) a leitura no “contexto existencial” de um homossexual. Acredito, pois, que o uso do termo “pessoa (s)”, apesar de clara e geral conotação heterossexual, permite uma reflexão, também neste ponto de vista, embora um dos princípios do personalismo seja o conceito de “ser humano como varão e mulher” (confira no site wikilingue – aqui).
3) Frases do livro "A ética personalista de Karol Wojtyla" de Paulo Cesar da Silva:
> A pessoa, só amando, possibilita a completa atualização de suas potencialidades. (p. 99)
> A existência humana se afirma na proporção em que o homem existe para os outros, ou numa frase limite: ser é amar. (p. 126)
> A pessoa é o ser que, conforme a própria natureza, tem o amor como referência. O dever e o amor, na pessoa, de certo modo, identificam-se. O homem, que assume a própria dignidade de ser pessoa, responde com o amor. (p. 103)
> A ausência do amor é a causa principal de destruição que começa pela pessoa e, em seguida, chega à comunidade. (p. 127)
> O amor contradiz a si quando nega a responsabilidade pela pessoa, sendo, na verdade, egoísmo com a pretensão de ser chamado de amor. (p. 178)
> A pessoa humana, precisamente porque se distingue ontologicamente das coisas e dos animais, não pode ser objeto de uso. Ela, unicamente, pode ser objeto do amor, o que exclui o uso. O amor é a norma personalista. O uso coisifica a pessoa, frustrando o seu processo de plenificação pessoal. (p. 16)
> Usar a pessoa é exatamente o oposto de amá-la. (p. 132)
> A esfera sexual, de forma particular, cria condições para que a pessoa seja tratada como objeto de uso. (p. 99)
> O impulso sexual é um elemento natural, inato e integrante do ser humano que se expressa pelo agir pessoal. Este impulso se origina, no homem, não de uma iniciativa livre de sua parte, mas é um ocorrer que alicerça, por sua vez, os autênticos atos humanos, refletidos e livres, autodeterminados e responsáveis. (...) A pessoa não se responsabiliza pelo que ocorre nela quanto à esfera sexual porque ela não é a sua autora. (p. 134)
> O amor afetivo gera necessidades e desejos de diversos topos na pessoa, como o de aproximação, de tornarem-se íntimas e de outro ser exclusivo. (p. 163)
> Quando as pessoas se amam verdadeiramente, o pudor é assimilado pelo amor (...), então não mais se envergonham de conviver sexualmente. (p. 200)
> O amor à pessoa é que justifica as várias expressões da ternura. A pessoa humana tem o direito de receber e de expressá-la. (...) A ternura é arte de sentir o homem todo, toda a sua pessoa, todas as vibrações da sua alma, até as mais profundas, pensando sempre no seu verdadeiro bem (p. 212-213)
ORAÇÃO
Neste último dia da novena, às vésperas de Natal, vou louvar a Deus que é amor, pela graça de poder participar de sua divina natureza. Vou pedir por todos aqueles que estão vivendo as maravilhas do amor, por aqueles que o procuram (ou esperam por ele) e, finalmente, por tantos que padecem todas as dores de um amor imperfeito, traído, rompido... e muitas outras situações. Que Menino-Amor, nascido em Belém, traga a todos nós uma nova força de amar e nunca desistir. Como inspiração, leiamos o trecho do Salmo 62(63), 2- 9. No final, rezemos um “Pai nosso” e uma “Ave Maria”.


Sois vós, ó Senhor, o meu Deus!
Desde a aurora ansioso vos busco!
A minh'alma tem sede de vós,
minha carne também vos deseja,
como terra sedenta e sem água!
Venho, assim, contemplar-vos no templo,
para ver vossa glória e poder.
Vosso amor vale mais do que a vida:
e por isso meus lábios vos louvam.
Quero, pois, vos louvar pela vida,
e elevar para vós minhas mãos!
A minh'alma será saciada,
como em grande banquete de festa;
cantará a alegria em meus lábios,
ao cantar para vós meu louvor!
Penso em vós no meu leito, de noite,
nas vigílias suspiro por vós!
Para mim fostes sempre um socorro;
de vossas asas à sombra eu exulto!
Minha alma se agarra em vós;
com poder vossa mão me sustenta.

20 de dezembro de 2010

NOVENA DE NATAL (8° dia)


O CASAMENTO

TEXTO BÍBLICO: Mt 1, 18. 24b-25
Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. (...) José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa. E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus.

LEITURA/REFLEXÃO
1) A posição da Igreja sobre o Matrimônio não deixa a mínima sombra de dúvida. Com muita frequência podemos ler e ouvir a confirmação do matrimônio heterossexual como o único possível e legítimo. Ainda mais, diante de inúmeras campanhas e decisões de parlamentos em vários países, a voz da Igreja parece ficar cada vez mais forte e clara. De certo modo, resumo de todo este ensinamento, encontramos no documento da Congregação para a Doutrina da Fé (de 2003), assinado pelo, então, Prefeito dessa Congregaçã, o Cardeal Joseph Ratzinger (hoje o Papa Bento XVI), "Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais" (leia na íntegra aqui):
Nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente, que através da recíproca doação pessoal, que lhes é própria e exclusiva, tendem à comunhão das suas pessoas. Assim se aperfeiçoam mutuamente para colaborar com Deus na geração e educação de novas vidas. (...) Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. (...) Em presença do reconhecimento legal das uniões homossexuais ou da equiparação legal das mesmas ao matrimônio, com acesso aos direitos próprios deste último, é um dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo. Há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação. Nesta matéria, cada qual pode reivindicar o direito à objeção de consciência.
2) A minha opinião pessoal pode não agradar a muitos ativistas de movimento GLBTS que lutam, justamente, pelo reconhecimento das uniões de homossexuais (ao menos na lei civil), pelo direito de adotar filhos e pelo direito de pensão, entre outros. Há quem lute pelo reconhecimento de um casamento entre pessoas do mesmo sexo na Igreja, ou seja, como uma das formas de Sacramento do Matrimônio. A minha opinião é que toda esta luta (especialmente no último caso citado) é como aquela de Dom Quixote de la Mancha (de Cervantes): uma luta contra moinhos. Com outras palavras, acredito que a Igreja nunca vai abrir mão de sua doutrina sobre o matrimônio (casamento). Alguém vai dizer que isso é um monopólio? Respondo: sim, é um monopólio. Usando termos populares: é como se Deus entregasse os seus direitos autorais à Igreja. O casamento é, por natureza (em sua dimensão sobrenatural), hetrossexual. Pois bem, não há, então, solução? De novo apresento apenas a minha opinião pessoal: acho que se gasta, inutilmente, muita energia numa batalha já perdida, somente por causa de uma palavra - o casamento (matrimônio). Se este já tem a sua definição, para que tentar - em vão - alterar isso? Agora faço uma observação, para que esta opinião fique mais clara. Não sou contra o amor entre duas pessoas do mesmo sexo. Ao contrário, acredito muito neste amor (pretendo dedicar a este assunto a meditação do 9° dia desta novena). Não sou contra o reconhecimento civil e religioso (!) das uniões estáveis entre as pessoas homossexuais. Falo apenas sobre o uso de termo "casamento" ou "matrimônio". Eu sei que são os termos importantes, cheios de conteúdo e de simbolismo. Sei, também, que este é um grande sonho de muitos homossexuais, mas... será que vale a pena brigar tanto pelo nome que usamos? Será que não vale mais a pena lutar mais pela realidade do que pelo nome da coisa? Por que não satisfaz o termo "união", "compromisso", ou outro qualquer? Porque parece "técnico" demais? Por não ser tão romântico? Ora, os homossexuais são mundialmente reconhecidos como pessoas mais sensíveis, criativas, poéticas, etc. Será que ninguém consegue inventar um termo novo, bonito e, também cheio de conteúdo e simbolismo?
3) Fairchild e Nancy Hayward, no livro “Agora que você já sabe. O que todo pai e toda mãe deveriam saber sobre a homossexualidade” (Editora Record; Rio de Janeiro, 1996), escrevem: Uma das principais preocupações dos pais amorosos é que seus filhos encontrem a felicidade no casamento. Para pais cientes de que seu filho é homossexual, esta esperança parece uma trágica farsa. A possibilidade de que um relacionamento homossexual possa proporcionar as mesmas ricas recompensas oferecidas pelo casamento tradicional parece remota, especialmente para aqueles que tenham ouvido apenas mitos e informações deturpadas a respeito da vida homossexual. Solidão e uma série de romances fracassados, aos quais se seguirão anos de solitária e desditosa velhice, parecem ser a única opção.
Nós, como pais, nos sentimos particularmente animados em ter boas notícias nessa área, porque compartilhamos a mesma preocupação - nós queremos que nosso filho ou filha experimentem os benefícios de um compromisso firme e maduro com aquela pessoa cujo amor significará mais do que qualquer coisa neste mundo. E isso acontece. Homens e mulheres homossexuais se apaixonam e vivem felizes tal como acontece com casais tradicionais. (p. 157-158).
ORAÇÃO
Hoje vou pedir ao Senhor a graça de reconhecimento de união estável de pessoas homossexuais pela Igreja. Oro, também, por aqueles que já vivem esta união, pelos que nela acreditam e estão procurando por "aquela pessoa especial". Depois do trecho do Salmo (Sl 85[86], 1-8), rezo um "Pai nosso" e uma "Ave Maria".
.......................................................
Inclinai, ó Senhor, vosso ouvido,
escutai, pois sou pobre e infeliz!
Protegei-me, que sou vosso amigo,
e salvai vosso servo, meu Deus,
que espera e confia em vós!
Piedade de mim, ó Senhor,
porque clamo por vós todo o dia!
Animai e alegrai vosso servo,
pois a vós eu elevo a minh'alma.
Ó Senhor, vós sois bom e clemente,
sois perdão para quem vos invoca.
Escutai, ó Senhor, minha prece,
o lamento da minha oração!
No meu dia de angústia eu vos chamo,
porque sei que me haveis de escutar.
Não existe entre os deuses nenhum
que convosco se possa igualar;
não existe outra obra no mundo
comparável às vossas, Senhor!

NOVENA DE NATAL (7° dia)


OS PASTORES

TEXTO BÍBLICO: Lc 2, 8-11. 15-16Havia naquela região pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor lhes apareceu, e a glória do Senhor os envolveu de luz. Os pastores ficaram com muito medo. O anjo então lhes disse: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor! (...) Quando os anjos se afastaram deles, para o céu, os pastores disseram uns aos outros: “Vamos a Belém, para ver a realização desta palavra que o Senhor nos deu a conhecer”. Foram, pois, às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura.
LEITURA/REFLEXÃO1) Estamos, sem dúvida, diante dos privilegiados daquela hora: os pastores. O anjo não foi avisar nem ao rabino da cidade de Belém, nem às locais autoridades civis. Será porque Deus já conhecia a dureza de coração daquela elite religioso-social, ou porque a figura de um pastor foi sempre muito querida para o Altíssimo? Não são raras as vezes, em que Ele próprio se revela como pastor que as suas ovelhas conduz e guia (cf. Sl 23), apascenta seu rebanho, reúne os dispersos, carrega os cordeiros nas dobras de seu manto e conduz lentamente as ovelhas que amamentam (cf. Is 40, 11); inquieta-se por causa de seu rebanho, apascenta suas ovelhas em boas pastagens, procura a ovelha perdida e reconduz a desgarrada, cura a ovelha ferida e restabelece a doente, vela sobre a que estiver gorda e vigorosa (cf. Ez 34, 11-16). Finalmente, afirma em Jesus: Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância. Conheço as minhas ovelhas e elas conhecem a mim. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor (cf. Jo 10, 11-16).
2) A Igreja sempre procurou viver o ideal do bom pastor. Esta é a sua missão e toda a razão de sua existência. É a sua identidade. Guiada pelo Espírito Santo, ao longo da história e pelos caminhos da humanidade, a Igreja compreendeu que tudo que ela própria faz, requer uma dimensão pastoral. Com o tempo, a palavra pastoral, entrou no vocabulário eclesial e tornou-se o sinônimo de toda ação e de todo projeto. Já em nossos tempos (com o impulso do Concílio Vaticano II), multiplicaram-se as pastorais específicas (que podemos comparar, por exemplo, com os ministérios de um governo do estado). As pastorais vão amadurecendo e ganhando estruturas próprias e, também, surgem outras, de acordo com as novas circunstâncias que o mundo apresenta. Não deve ser surpresa alguma, no contexto desta novena e deste blog, que vou refletir hoje sobre a pastoral dos (ou para com os) homossexuais. Não é uma ideia nova nem minha, pois já existe, ainda que um pouco timidamente.
3) Antes de falar sobre alguns trabalhos concretos, realizados e, de certa forma, reconhecidos, quero voltar à declaração oficial da Igreja, apresentada no Catecismo da Igreja Católica (n° 2358 e 1359): Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizr a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior, às vezes pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.
Em breve, vamos analisar a "Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais" (Congregação para a Doutrina da Fé, 1986). Leia na íntegra aqui.
4) Em 1998 foi lançado o livro de um sacerdote católico, doutor em teologia e filosofia, o Padre José Trasferetti, “Pastoral com Homossexuais: Retratos de uma experiência” (Editora Vozes, Petrópolis, RJ). Sobre esta obra leia um artigo aqui. O padre fala sobre a sua experiência, também, numa entrevista, concedida à revista ISTOÉ em 1997 (veja aqui o texto na íntegra) : Conheço artigos de alguns teólogos, mas não tenho ciência de nenhuma outra paróquia que faça um trabalho voltado para esse segmento da população. Defendo a criação de uma pastoral do homossexual justamente para poder ampliar e enriquecer essa experiência. É importante dizer que não estamos falando do homossexual que vai para Miami. Me refiro sempre aos pobres, que não têm acolhida em nenhum outro lugar. Um sem-terra, por exemplo, é excluído, mas participa da sociedade. Os gays não. Principalmente os travestis. (...) No começo houve muita preocupação. Muitos tinham dificuldades para entender esse comportamento e vieram perguntar se a igreja não ficaria cheia de homossexuais, se era certo um gay entrar na igreja. Outros me trataram com deboche, chegavam a dizer: "Lá vem o padre das bichas." Mas não tardaram a aceitar, até porque minha paróquia abriga muitos familiares desses homossexuais.
5) Sem dúvida, a pastoral com (ou para) homossexuais é necessária. É urgente. Mas, ao mesmo tempo, precisa de muita sabedoria e delicadeza, também em seus métodos. As dificuldades surgem não só por parte dos “demais paroquianos”, ainda muito preconceituosos, mas também e não menos, no meio dos próprios homossexuais. É como um choque de dois mundos opostos, pelo menos assim parece. Na minha opinião, deve ser realizado um “trabalho de formiguinha”, bem discreto, mas destemido (nada de timidez ou medo!). Creio que a dinâmica das CEB-s (Comunidade Eclesiais de Base), também conhecidos como Círculos Bíblicos ou Grupos de Partilha (de estudo, de reflexão, etc.), seja a melhor de todas. As reuniões podem ser realizadas, inicialmente, nas casas dos participantes. Um dos componentes seria, com certeza, o Grupo de Pais de Homossexuais (já mencionado nesta novena). Haverá padres, teólogos e outros profissionais para fornecerem o material, elaborado para esta finalidade. Se não houver, podem ser utilizados os textos já existentes: livros, artigos, textos publicados na web. Afinal de contas, é a própria Bíblia que é uma fonte, mais que suficiente, para começar um trabalho. Uma Bíblia + a fé + a boa vontade + a coragem = a pastoral de homossexuais. O ideal seria o trabalho com a presença permanente de um padre, diácono ou catequista. Alguém acha impossível? Pois eu não acho.

ORAÇÃO
Provavelmente o mais conhecido entre todos os Salmos (22[23]) servirá hoje como inspiração para louvor e prece. Como de costume, termino com um “Pai nosso” e uma “Ave Maria”.


O Senhor é o pastor que me conduz;
não me falta coisa alguma.
Pelos prados e campinas verdejantes
ele me leva a descansar.
Para as águas refrescantes me encaminha,
e restaura as minhas forças.
Ele me guia no caminho mais seguro,
pela honra do seu nome.
Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso,
nenhum mal eu temerei;
estais comigo com bastão e com cajado;
eles me dão a segurança!
Preparais à minha frente uma mesa,
bem à vista do inimigo,
e com óleo vós ungis minha cabeça;
o meu cálice transborda.
Felicidade e todo bem hão de seguir-me
por toda a minha vida;
e, na casa do Senhor, habitarei
pelos tempos infinitos.

18 de dezembro de 2010

NOVENA DE NATAL (6° dia)


A REJEIÇÃO

TEXTO BÍBLICO: (Lc 2, 7)
Ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
Jesus, o Filho de Deus, desde o início – mesmo antes de nascer – e, principalmente, na sua vida pública, sofreu a rejeição. Talvez seja essa a mais dramática realidade (além dos momentos extremos de agonia e da morte), na qual “ele se uniu a cada homem”. Jesus se uniu (identificou), de maneira particular, a cada pessoa desprezada, rejeitada e marginalizada, independentemente das causas de hostilidade por parte dos outros. O Papa João Paulo II insiste sobre esta união, usando generosamente várias redundâncias (quase desafiando as regras de gramática), no texto que temos na introdução a esta novena (confira aqui): Trata-se do homem em toda a sua verdade, com a sua plena dimensão. Não se trata do homem “abstrato”, mas sim real: do homem “concreto”, “histórico”. Trata-se de “cada” homem, porque todos e cada um foram compreendidos no mistério da Redenção, e com todos e cada um Cristo se uniu, para sempre, através deste mistério. (João Paulo II, Encíclica Redemptor hominis, n. 13). Um pouco mais tarde, no mesmo documento, o Papa continua: O homem — todos e cada um dos homens, sem exceção alguma — foi remido por Cristo; e porque com o homem — cada homem, sem exceção alguma — Cristo de algum modo se uniu, mesmo quando tal homem disso não se acha consciente (n. 14). Não será, portanto, o abuso achar que Cristo se uniu, também, com cada homossexual (em toda a sua singular realidade do ser e do agir, da inteligência e da vontade, da consciência e do coração – palavras de João Paulo II sobre “cada homem”). Inclusive nessa dramática experiência de rejeição.
2) É fácil perceber que o tema da reflexão neste 6° dia da novena é a homofobia. Não é possível abordar exaustivamente este assunto. Primeiro, pela sua enorme dimensão e segundo, porque em praticamente todos os sites, portais e blogs (de orientação GLBTS) é justamente a homofobia que ocupa as primeiras páginas (em forma de notícias alarmantes ou de divulgação de campanhas). Tenho a impressão de que os que procuram descobrir as causas de homofobia sejam tão numerosos quanto aqueles que pesquisam as origens de homossexualidade. Uns e outros têm suas teorias, mas parece que estamos ainda longe de uma resposta definitiva. Em todos os dicionários sérios, a palavra “fobia” é descrita como medo obsedante, angustiante, que certas doenças provocam em circunstâncias determinadas. Esta palavra entra como composto nos nomes de diversas espécies de medos doentios: claustrofobia, medo de ficar encerrado, ou de lugares fechados em geral; acrofobia, medo das alturas; etc. Estes medos irracionais fazem parte dos transtornos da ansiedade, conjunto de anomalias emocionais que, segundo a Organização Mundial da Saúde, afetam hoje cerca de 400 milhões de pessoas (confira aqui). Na mitologia grega, Phobos (ou Fobos) é um dos filhos de Ares (Marte para os romanos) e Afrodite (Vênus para os romanos). Esse deus simbolizava o temor e acompanhava Ares nos campos de batalha, injetando nos corações dos inimigos a covardia e o medo que os fazia fugir. Por sua vez, o termo homofobia, é um neologismo criado pelo psicólogo George Weinberg, em 1971, numa obra impressa, combinando a palavra grega phobos ("fobia", medo), com o prefixo homo-, como remissão à palavra "homossexual".
3) Achei interessante o fato de que as palavras do anjo aos pastores em Belém, na noite em que nasceu Jesus, foram: “Não tenhais medo”. Se os moradores daquela pequena cidade ouvissem o mesmo, um dia antes, talvez não teria sido essa a sua atitude (de rejeição), diante de uma mulher prestes a dar à luz e de um “pai” apavorado com tudo que estava acontecendo. Acredito, no entanto, que justamente esta situação fazia parte do misterioso plano de Deus. São João, no Prólogo do seu Evangelho, escreveu assim: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. (...) Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. (...) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 1. 10-11. 14a). O eco destas palavras encontrei no livro “Reflexões sobre a questão gay” de Didier Eribon (Editora Companhia de Freud; Rio de Janeiro, 2008; p. 27-28): No começo há injúria. Aquela que todo gay pode ouvir num momento ou outro da vida, e que é sinal de sua vulnerabilidade psicológica e social. (...) São agressões verbais que marcam a conciência. São traumatismos sentidos de modo mais ou menos violento no instante, mas que se inscrevem na memória e no corpo. (...) E uma das consequências da injúria é moldar a relação com os outros e com o mundo. E, por conseguinte, moldar a personalidade, a subjetividade, o próprio ser de um indivíduo. (...) A injúria me faz saber que sou alguém que não é como os outros, que não está na norma. Alguém que é “viado” [queer]: estranho, bizarro, doente. Anormal. Logo, o insulto é um veredito. É uma sentença quase definitiva, uma condenação perpétua, e coma qual vai ser preciso viver.
4) Marco Aurélio Máximo Prado e Frederico Viana Machado escreveram na introdução de seu livro “Preconceito contra homossexualidades: A hierarquia da invisibilidade” (Editora Cortez, São Paulo, 2008; p. 7): Uma vez que compreendemos que este debate é, por princípio, provisório e inacabado, apresentamos este livro que pretende introduzir o leitor em um conjunto de literaturas, pesquisas e debates que não só abarcam os temas relativos à sexualidade e à orientação sexual, mas também colaboram na construção de uma sociedade mais justa (...). De fato, o último capítulo do livro, intitulado “Para continuidades”, fornece títulos de livros e vários links úteis. No capítulo 4 (“Preconceito, invisibilidades e manutenção das hierarquias sociais”), lemos: No âmbito da sexualidade, o preconceito social produziu a invisibilidade de certas identidades sexuadas, garantindo a subalternidade de alguns direitos sociais e, por sua vez, legitimando práticas de inferiorizações sociais, como a homofobia. O preconceito, neste caso, possui um funcionamento que se utiliza, muitas vezes, de atribuições sociais negativas advindas da moral, da religião ou mesmo das ciências, para produzir o que aqui denominamos de hierarquia sexual, a qual é embasada em um conjunto de valores e práticas sociais que constituem a heteronormatividade como um campo normativo e regulador das relações humanas (p. 70).
ORAÇÃO
Hoje vou pedir tanto por aqueles que vivem e promovem a homofobia, quanto pelas vítimas da mesma. Que penetre no coração de todos a mensagem que Jesus transmite ao longo do Evangelho, desde o seu nascimento, até a ressurreição: “Não tenham medo!”. A inspiração da prece vem de um trecho do Salmo 24(25), 15-21. No final rezo “Pai nosso” e “Ave Maria”.

Aliviai meu coração de tanta angústia,
e libertai-me das minhas aflições!
Considerai minha miséria e sofrimento
e concedei vosso perdão aos meus pecados!
Olhai meus inimigos que são muitos,
e com que ódio violento eles me odeiam!
Defendei a minha vida e libertai-me;
em vós confio, que eu não seja envergonhado!
Que a retidão e a inocência me protejam,
pois em vós eu coloquei minha esperança!

17 de dezembro de 2010

NOVENA DE NATAL (5° dia)

“The Dancing Angel”; fonte – DeviantArt (aqui)

OS ANJOS

TEXTO BÍBLICO: (Lc 2, 10-11. 13-14)
O anjo então lhes disse: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor!” De repente, juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste cantando a Deus: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz aos que são do seu agrado!”
LEITURA/REFLEXÃO
1)
Eu creio em Deus, o Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis. Acredito, portanto, na existência dos Anjos e louvo ao Senhor por eles. Especialmente pelo Anjo que me foi dado como o Guardião. Hoje, entretanto, neste quinto dia da novena de Natal, quero homenagear outros “anjos” – os amigos. São Gregório Magno disse que “é preciso saber que a palavra anjo indica o ofício, não a natureza” e São Bernardo assim se refere aos anjos: “Estão aqui, portanto, e estão junto de ti, não apenas contigo, mas em teu favor. Estão aqui para proteger, para te serem úteis”. A Palavra de Deus, por sua vez, revela: “Um amigo fiel é uma poderosa proteção: quem o achou, descobriu um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel; (...) é um remédio de vida e imortalidade”. (Eclo 6, 14-16).
2) Quando o adolescente homossexual encontra outros adolescentes ou adultos homossexuais para efetivarem amizades, torna-se saudável, pois assumir-se para estes amigos ajuda-o a superar as dificuldades e transtornos causados pela estigmatização e rejeição por parte dos colegas ou da família e atenua a sensação de isolamento cognitivo e social (Marina Castañeda, citada por Isaac Azevedo dos Santos, no portal G1aqui). Um outro autor (Richard A. Isay, no livro “Tornar-se gay”), citado no 3° dia desta novena (aqui), observa: Por se sentirem diferentes e por causa da rejeição paterna, alguns adolescentes homossexuais são mais introvertidos ou se sentem menos à vontade para interagir com seus amigos que seus companheiros heterossexuais. Sentindo-se como estranhos, estes adolescentes ficam frequentemente à margem dos grupos de amigos, que são tão essenciais neste estágio da vida para que seja possível separar-se dos pais e sentir-se aceito. Embora essa não seja a única solução, Isay descreve o caminho traçado por muitos nesse período de descobertas e definições (adolescência): Fazer amizades com outros adolescentes gays e envolver-se em meios sociais gays propicia a estes adolescentes a criação de alianças, o encontro de parceiros sexuais e a descoberta de modelos que possam idealizar e com quem possam se identificar.
3) Certamente, a “homossocialização” (termo usado por Isay) não é e não pode ser o único caminho para os gays adolescentes, jovens ou adultos. O “gueto” nunca é a solução. Por isso mesmo tão importantes são amizades com pessoas simpatizantes, tolerantes, abertas. A minha observação e a própria experiência me levam a crer que, com frequência, as mulheres tornam se esses anjos, confidentes, oferecendo uma amizade sincera, leal e incondicional. É nelas que penso nesta meditação sobre os “Anjos de Belém”. Lá, diante do mistério a ser revelado, o anjo disse aos pastores: “Não tenham medo!” (cf. Lc 2, 10). A verdadeira amizade dá a mesma sensação: acalma, encoraja, acolhe e compreende. Igualmente merece o destaque a confiança oferecida pelos irmãos e irmãs (quando acontece). Fairchild e Hayward, no citado (aqui) livro “Agora que você já sabe” contam sobre a reação de dois irmãos mais velhos à notícia, transmitida pela mãe, sobre a homossexualidade do caçula Philip: “Philip, mamãe nos disse. E nós o amamos mais do que nunca. Você terá que nos dar algum tempo para entender isso, mas queremos que você saiba que nossos sentimentos por você não mudaram nem um pouco” (p. 242). Finalmente, não podia deixar de mencionar mais uma, muito preciosa, experiência de amizade. Sei que nem sempre acontece e que, para muitos, parece impossível. É a amizade com o “ex-companheiro”. Eu tenho esta experiência e posso dizer, sem exagero, que o Deley é o meu maior e melhor amigo, apesar de estar (ele!) vivendo atualmente um relacionamento com outro rapaz.
ORAÇÃO
Hoje louvo e agradeço a Deus pelos amigos – estes invisíveis (os anjos) e outros, não menos reais e autênticos anjos: os Amigos. Inspiro-me em alguns versículos do Salmo 90(91) e, depois, rezo um “Pai nosso” e uma “Ave Maria”.


Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo,
que moras à sombra do Onipotente,
dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela,
meu Deus, em que eu confio.
É ele quem te livrará do laço do caçador,
e da peste perniciosa.
Ele te cobrirá com suas plumas,
sob suas asas encontrarás refúgio.
Sua fidelidade te será um escudo de proteção.
Tu não temerás os terrores noturnos,
nem a flecha que voa à luz do dia,
nem a peste que se propaga nas trevas,
nem o mal que grassa ao meio-dia.
Nenhum mal te atingirá,
nenhum flagelo chegará à tua tenda,
porque aos seus anjos ele mandou
que te guardem em todos os teus caminhos.
Eles te sustentarão em suas mãos,
para que não tropeces em alguma pedra.
Sobre serpente e víbora andarás,
calcarás aos pés o leão e o dragão.
Pois que se uniu a mim, eu o livrarei;
e o protegerei, pois conhece o meu nome.
Quando me invocar, eu o atenderei;
na tribulação estarei com ele.
Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória.
Será favorecido de longos dias,
e mostrar-lhe-ei a minha salvação.

NOVENA DE NATAL (4° dia)

A MÃE
TEXTO BÍBLICO (Lc 2, 6-7a. 19)
Quando estavam ali, chegou o tempo do parto. Ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura. (...) Maria, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
Existe um laço muito profundo entre mãe e filho (filha). Algo que se estabelece desde o início da gravidez e perdura por resto da vida. Ser mãe é um carisma que inclui uma misteriosa intuição dela em relação ao(s) filho(s). Por mais que ela, às vezes, não saiba viver ou expressar a sua maternidade, a essência está no amor singular e incomparável. É, justamente, por este amor que, de vez em quando, a mãe toma atitudes e decisões exageradas, erradas, confusas, mas – quem sabe – possamos compreendê-las (ou tolerar, desculpar) em nome deste mesmo amor. Lembro-me bem as minhas conversas com o Deley (na época quando namorávamos) sobre as nossas mães. Chegávamos à conclusão de que elas sabem de nós muito mais do que imaginamos. Talvez tenha sido um otimismo ingênuo da nossa parte, mas lá no fundo do coração tivemos aquela sonhada cena de “revelação” (da nossa identidade gay e/ou do nosso relacionamento), em que elas diziam: “Ah, já sabíamos disso o tempo todo, só estávamos esperando vocês acharem a hora certa para nos contar”. Se, de fato, ainda não aconteceu esta conversa (pelo menos no meu caso), deve ter sido pela falta de oportunidade (eu e a minha mãe moramos em lugares muito distantes) e, também, por falta de coragem da minha parte. Digo: lá no fundo do meu ser acredito de que a minha mãe sabe. E mais: sabe e aceita. Pois bem... conheço a minha mãe.
2) O livro de Betty Fairchild e Nancy Hayward “Agora que você já sabe. O que todo pai e toda mãe deveriam saber sobre a homossexualidade” (Editora Record; Rio de Janeiro, 1996) traz vários depoimentos, tanto de pais e mães, quanto dos filhos e filhas homossexuais, além de relatório sobre o trabalho dos grupos de pais de homossexuais e alguns outros assuntos. Neste quarto dia da novena, ao refletirmos a figura de Maria, transcrevo aqui o fragmento de depoimento de uma das mães (Charlotte Spitzer, de Los Angeles):
Quando a minha filha Robin tinha mais ou menos 21 anos de idade ela me contou que era lésbica. A notícia me atingiu como uma tijolada. Eu fiquei arrasada. Como é que eu pude fazer uma coisa dessas com a minha filhinha? O que foi que eu fiz de errado? Imediatamente comecei a me sentir responsável por seu homossexualismo. Minha reação me surpreendeu bastante, nunca pensei que reagiria de uma maneira tão drástica. (...) Na verdade, eu não havia escapado ao condicionamento preconceituoso da sociedade; eu simplesmente enterrei o preconceito dentro de mim, onde ficou dormindo pronto a vir à tona quando fui “atingida” emocionalmente. (...) Levou algum tempo para que eu reajustasse o meu modo de pensar, para ganhar novas perspectivas e finalmente para perguntar a mim mesma o que é que eu queria para o futuro da minha filha. Quando percebi que o que realmente queria era que ela encontrasse felicidade, amor e realização na vida, percebi que isso não tinha nada a ver com a sua orientação sexual. Foi então que percebi que por fim a havia aceito do jeito que ela era. (p. 71-72).
3) No site do Grupo de Pais de Homossexuais você encontra vários depoimentos comoventes (aqui) de mães e pais que aprendem a lidar com a homossexualidade de seus filhos. Não somente a lidar, mas a amá-los de coração. De fato, um trabalho como este, está trazendo paz e reconciliação a muitas famílias. Aliás, está salvando vidas! Parabéns para a Fundadora deste Grupo, Edith Modesto, um símbolo esplêndido e exemplo de todas as mães que acolhem com amor os seus filhos homossexuais.
ORAÇÃO
Hoje a oração é, em primeiro lugar, de louvor e ação de graças pelas mães, por seu amor. É o cântico de Maria, a Mãe de Jesus – o Magnificat (Lc 1, 46-55). Peçamos, também, por aquelas que ainda não encontraram as forças para aceitar a homossexualidade de seus filhos ou filhas. Pelas mães que não sabem, mas estão prestes a tomar conhecimento desta realidade. Que o Poderoso que faz maravilhas olhe à pequenez de suas servas. No final rezo um “Pai nosso” e uma “Ave Maria”.


A minha alma engrandece ao Senhor
e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador;
porque olhou para humildade de sua serva,
doravante as gerações hão de chamar-me de bendita.
O Poderoso fez em mim maravilhas
e Santo é o seu nome!
Seu amor para sempre se estende
sobre aqueles que o temem;
manifestou o poder de seu braço,
dispersou os soberbos;
derrubou os poderosos de seus tronos
e elevou os humildes;
saciou de bens os famintos,
despediu os ricos sem nada.
Acolheu Israel, seu servidor,
fiel ao seu amor,
como havia prometido a nossos pais,
em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre.
(Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.)

16 de dezembro de 2010

NOVENA DE NATAL (3° dia)

A FIGURA PATERNA
TEXTO BÍBLICO (Mt 1, 20-21. 24)
“José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados”. (...) Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
A meditação do mistério da Encarnação do Verbo Eterno de Deus abre vários horizontes e leva-nos em mais diversas direções. É muito interessante como o Pai celeste inclui a figura paterna no seu plano, como se quisesse mostrar a importância de um pai na vida de cada ser humano. Há muito tempo percebi um fenômeno, confirmado em quase 100% de conversas com vários homossexuais. Sem insinuar a eventual causa da própria homossexualidade, notei que quase todos os gays têm alguma coisa negativa para contar sobre o seu pai. Seja um pai ausente ou um “durão”, sem a menor possibilidade de diálogo, seja um chefe de família que bebe ou vive traindo a esposa ou os filhos. De fato, existe uma enorme variedade de experiências tristes e dolorosas no campo de relacionamento pai-filho. Evidentemente isso não impede a existência de homossexuais com pais presentes e amorosos.
2) Richard A. Isay, norte-americano, formado em psiquiatria e psicanálise, ativista da Associação Nacional de Saúde de Gays e Lésbicas, é o autor do Livro “Tornar-se gay; O caminho da auto-aceitação” (Edições GLS; São Paulo, 1898). Em sua obra apresenta (entre vários outros assuntos) a ideia de um processo necessário para a “reconciliação consigo mesmo” ou para “tornar-se gay”:
Para tornar-se gay é preciso ser capaz de se autodenominar “homossexual” ou “gay”. Garotos homossexuais com pais amorosos, que aceitam seus desejos sexuais distintos e seu tipo diferente de masculinidade, costumam desenvolver uma auto-imagem forte e positiva. É provável também que consigam se assumir como “gays” antes e mais facilmente do que aqueles que sentiram necessidade de se adequar às expectativas sociais para serem amados. Meninos que foram rejeitados pelos pais por causa de sua condição homossexual, em geral, manifestarão, quando adultos, raiva e autopiedade, tornando-se, portanto, muito menos capazes de estabelecer relações adultas de amor mútuo do que aqueles que se sentiram aceitos e amados pelos pais. (p. 15)
Pais de meninos homossexuais, que podem não gostar que seus filhos sejam menos convencionalmente masculinos do que outros meninos ou que se sentem desconfortáveis pela conexão erótica de seus filhos com eles ou com outros homens, podem se retrair. Uma criança homossexual pode se afastar de seu pai por sentir-se mais à vontade com a mãe e ter mais afinidade com ela ou por sentir-se incomodada com seus sentimentos eróticos para com o seu pai ou outro homem de suas relações. A rejeição paterna, real ou percebida, em resposta ao desejo do filho por alguém do mesmo sexo, interesses diferentes, ou uma masculinidade não convencional são fatores determinantes para a baixa auto-estima de alguns meninos recém-entrados na adolescência. (p. 63-64)
3) Seja qual for a sua relação com o pai, proponho hoje, no contexto de nossa jornada espiritual, uma “revisão” desta relação. Talvez seja necessário trabalhar o processo de perdão. Queiramos ou não, temos este pai e não algum outro. Carregamos em nós uma grande herança paterna (genética, cultural, espiritual). São Paulo dá um conselho que pode ser aplicado aqui: “Examinai tudo e guardai o que for bom.” (1 Tes 5, 21). Outro exercício deste terceiro dia da novena pode ser a oração por cada homossexual rejeitado, agredido, desprezado, expulso de casa pelo próprio pai. Por aquele rapaz que ouviu o seu pai falar: “Prefiro um filho morto a um homossexual” (leia sobre isso uma excelente matéria – e tantas outras - de Isaac Azevedo dos Santos no portal “Gay1” – aqui). E precisamos orar muito por cada pai, especialmente pai de homossexual (homossexuais)! Peçamos que ele ouça, como José, a voz de Deus, dizendo: "Não temas acolher em casa e no coração este filho, porque antes de ser teu, ele é o meu filho amado".
4) ORAÇÃO
Os trechos do Salmo 26(27) podem inspirar uma oração espontânea de louvor, súplica e entrega. Conclusão: “Pai nosso” e “Ave Maria”

[1] O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei?
O Senhor é o protetor de minha vida, de quem terei medo?
[4] Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente:
é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida,
para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário.
[5] Assim, no dia mau ele me esconderá na sua tenda,
ocultar-me-á no recôndito de seu tabernáculo,
sobre um rochedo me erguerá.
[7] Escutai, Senhor, a voz de minha oração,
tende piedade de mim e ouvi-me.
[8] Fala-vos meu coração, minha face vos busca;
a vossa face, ó Senhor, eu a procuro.
[9] Não escondais de mim vosso semblante,
não afasteis com ira o vosso servo.
Vós sois o meu amparo, não me rejeiteis.
Nem me abandoneis, ó Deus, meu Salvador.
[10] Se meu pai e minha mãe me abandonarem,
o Senhor me acolherá.
[11] Ensinai-me, Senhor, vosso caminho;
por causa dos adversários, guiai-me pela senda reta.

NOVENA DE NATAL (2° dia)

OS SEGREDOS DA GESTAÇÃO
TEXTO BÍBLICO (Lc 2, 3-5)
Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade. Também José, que era da família e da descendência de Davi, subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, à cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
Continuamos a nossa leitura do texto de São Lucas. O tema para o segundo dia deste ciclo de reflexões pré-natalinas surge no final do versículo 5. Para entender melhor podemos citar ainda a expressão usada pelo evangelista Mateus (Mt 1, 18): “ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo.” Não quero, neste momento, entrar em detalhes teológicos. O que me vem na mente é contribuir numa reflexão sobre as causas ou origens da homossexualidade. Entre várias teorias e pesquisas existe uma linha de pensamento que aponta, exatamente, a gestação como o período de formação ou definição de sexualidade humana. Sem dúvida, a gestação é um tempo delicado, importante e misterioso. Há um tempo, existe e se desenvolve a psicoembriologia ou psicologia pré-natal que (resumindo) estuda o comportamento e desenvolvimento evolutivo e psico-afetivo-emocional do indivíduo antes do nascimento. Uma das conclusões fundamentais desse estudo afirma que vários fatores (p. ex. a falta de afeto) no desenvolvimento psicológico ocasiona alterações na estrutura emocional do bebê, influenciando a sua personalidade pós-natal, conduta e comportamento.
2) O Padre Alírio Pedrini, pregador e escritor, conhecido principalmente no meio da Renovação Carismática Católica, dedica a este assunto uma parte de seu livro “Jovens em renovação; espiritualidade, afetividade, sexualidade” (Edições Loyola, São Paulo, 1993). Vou deixar de lado algumas expressões típicas do autor sobre a “cura do homossexualismo” e passo diretamente ao que interessa:
A rejeição do sexo da criança em formação no seio da mãe, por parte dos pais ou de um deles, principalmente quando houve manifestações e declarações abertas, fortes e repetidas por muitas vezes, pode ser a causa de homossexualismo (...). Um menino está sendo gerado. Os pais, porém, desejam muito, esperam e falam abertamente que querem uma menina. Esta criança capta a linguagem, os desejos e as manifestações dos pais. Ela sabe que não é do sexo que eles querem. Sabe que, se fosse do sexo desejado, seria muito mais acolhida, festejada, bem-vinda e querida. Esta constatação a choca profundamente e a traumatiza. Seu inconsciente passa a desejar ser do sexo esperado pelos pais (...). O profundo desejo de ser do sexo esperado pelos pais se aninha no impulso inconsciente de sexualidade da criança. Quando ela nasce e cresce, aquele desejo de ser do sexo esperado, vai agir sobre a sua sexualidade.” (p. 119)
3) Estas teorias e descobertas parecem levar diretamente a uma atitude de culpar os pais, de odiá-los ou desprezar como “causadores da nossa infelicidade”. Não é este o meu objetivo! Pelo contrário, talvez a reflexão sirva, para quem precisar, como o alívio. A teoria em questão, como várias outras, reforça a convicção de que a homossexualidade não é, de maneira alguma, a “opção”, a “escolha” de quem quer que seja. Citado ontem Pe. James L. Empereur (autor do livro “Direção espiritual e homossexualidade”) diz: Rejeito a posição segundo a qual optamos por ser homossexuais, como se o escolhêssemos da mesma forma que escolhemos o lugar onde vamos passar as férias. Quanto aos pais, quem sabe se o conhecimento deste ponto de vista não ajude num diálogo mais aberto, com simplicidade, carinho e... humildade.
ORAÇÃO
Continuo a oração de louvor, desta vez com um trecho do Salmo 15 (16), depois rezo um “Pai nosso” e uma “Ave Maria”.

Bendigo o Senhor porque me deu conselho,
porque mesmo de noite o coração me exorta.
Ponho sempre o Senhor diante dos olhos,
pois Ele está à minha direita; não vacilarei.
Por isso meu coração se alegra e minha alma exulta,
até meu corpo descansará seguro,
porque Vós não abandonareis minha alma
na habitação dos mortos,
nem permitireis que vosso Santo conheça a corrupção.
Vós me ensinareis o caminho da vida,
há abundância de alegria junto de Vós,
e delícias eternas à Vossa direita.

NOVENA DE NATAL (1° dia)

O CONTEXTO HISTÓRICO
TEXTO BÍBLICO (Lc 2, 1-3)
Naqueles dias, saiu um decreto do imperador Augusto mandando fazer o recenseamento de toda a terra - o primeiro recenseamento, feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade.
LEITURA/REFLEXÃO
1.
Otávio Augusto torna-se o primeiro imperador de Roma e o artífice de uma era de progresso intenso, com a proliferação de templos e monumentos importantes, a paz se disseminando por todo o Império, até a mais remota província. Artistas e empreendedores se multiplicam pela cidade dos Imperadores, as leis são renovadas e a educação conhece avanços anteriormente desconhecidos. Nesse período despontam mentes brilhantes e criativas, como Virgílio, Horácio, Ovídio, Tito Lívio, Mecenas, entre outros. Em outras regiões do mundo, também estavam acontecendo coisas (como as peripécias da dinastia Han na China, a prosperidade da Índia, considerada a maior economia mundial da época, o colapso da civilização fenícia, etc.). Numa pequena cidade de Belém, na Palestina, nasce um Menino...
2. Deus eterno, o Senhor do universo, escolheu exatamente este contexto histórico-geográfico para enviar ao mundo o seu Filho Unigênito, o Salvador da humanidade. Cristo entrou na história. São Paulo fala que tinha chegado a “plenitude dos tempos” (cf. Gal 4, 4). Não cabe a nós perguntar ou tentar entender o porquê desta escolha. Algo assim aconteceu, também com a o início da nossa própria existência. Vivemos, estamos aqui, porque Ele assim quis. Por que aqui? Por que agora? E, finalmente, por que deste jeito? Espero que, um dia, Deus vai responder a todas as nossas perguntas. Por enquanto buscamos uma intuição, ou melhor, uma FÉ.
3. No livro “Vidas em arco-íris”, Edith Modesto (entre outros méritos, a fundadora do Grupo de Pais de Homossexuais – confira aqui), ao entrevistar vários homens e mulheres homossexuais, faz uma pergunta interessante: “Deus criou você homossexual?”. A maioria dos entrevistados repudiou essa possibilidade: (Roberto): “Se Deus quis que eu fosse gay? Sem comentários. Essa frase é ridícula”. (Marcos): “Não, eu acho que Ele... Eu não penso muito nisso [risos], não consigo. Acho que Ele é superior a essas pequenas coisas”. Entretanto, um pequeno grupo de entrevistados respondeu “sim”, por exemplo: (Ricardo): “Criou. Ele, Deus, quis me criar gay porque Ele sabia que eu tinha um papel importante no mundo pra fazer... Ele me colocou aqui para fazer alguma coisa...”. (Beto): “Na verdade, até penso... Eu sou muito religioso e no Livro do Gênesis fala que Deus nos criou à sua imagem e semelhança, então eu fui criado assim por Deus.” [Então, há uma parte gay em Deus?] “Sem dúvida, como há uma parte mulher, como há uma parte negra, como há uma parte oriental, como... Na verdade é uma reflexão das multifacetas de Deus.” (p. 98).
4. A intuição de Ricardo e Beto confirma, em seu livro “Direção espiritual e homossexualidade”, o padre jesuíta James L. Empereur: A homossexualidade é um dos dons mais significativos de Deus para a humanidade. Ser gay ou lésbica é ter recebido uma bênção especial de Deus. Todos os humanos recebem suas graças especiais do Criador, mas Ele escolheu que alguns fossem gays e lésbicas como uma maneira de revelar algo a respeito de Sua identidade que os heterossexuais não revelam.
ORAÇÃO
Concluo a minha leitura/reflexão do primeiro dia da Novena de Natal com uma oração de agradecimento pela minha existência: aqui, agora e... da maneira como Deus quis. Podem me ajudar alguns trechos do Salmo 138 [139]. Acrescento um “Pai nosso” e uma "Ave Maria".
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Senhor, vós me perscrutais e me conheceis,
sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto.
De longe penetrais meus pensamentos.
Vós me cercais por trás e pela frente,
e estendeis sobre mim a vossa mão.
Conhecimento assim maravilhoso me ultrapassa,
ele é tão sublime que não posso atingi-lo.
Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo,
vós me tecestes no seio de minha mãe.
Sede bendito por me haverdes feito
de modo tão maravilhoso.
Pelas vossas obras tão extraordinárias,
conheceis até o fundo a minha alma.
Nada de minha substância vos é oculto,
quando fui formado ocultamente,
quando fui tecido nas entranhas subterrâneas.
Cada uma de minhas ações vossos olhos viram,
e todas elas foram escritas em vosso livro;
cada dia de minha vida foi prefixado,
desde antes que um só deles existisse.
Ó Deus, como são insondáveis para mim vossos desígnios!
E quão imenso é o número deles!