ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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11 de outubro de 2013

Visitação

 
A vida continua, acontecem coisas importantes (e envolventes) e eu, aqui, continuo com o meu tercinho. A oração pode acompanhar todas as coisas, embora eu nunca tenha visto pessoas rezando o terço em uma Parada Gay (é uma das coisas que vai acontecer nestes dias). Bem... nunca vi, porque nunca fui nesse evento. Obviamente, o clima da Parada não contribui para com uma oração sequer, mas não me surpreenderia se alguém conseguisse essa arte (até me vem na mente um nome que começa com a letra "L" - é o rapaz que não renuncia, nem esconde, a sua identidade gay na Igreja e a sua fé cristã no meio GLBTTS... aliás, nem sei se ele costuma ir às paradas). É claro, o assunto não ia ser esse. Mas, como já comecei a falar das coisas que acontecem nesses dias (enquanto eu rezo o meu tercinho), devo lembrar de que amanhã estarei - pela primeira vez na minha vida - no casamento homoafetivo. Já estou ansioso e emocionado antecipadamente e - curiosamente - essa ocasião se inscreve na minha meditação do 2° mistério gozoso do rosário (não fui eu quem inventou esse termo!).
 
Além de toda riqueza bíblico-teológica (cf. Lc 1, 39-56) da visita que Maria foi fazer na casa de sua parenta Isabel, trata-se de um encontro - por que não dizer isso? - afetivo. O afeto é tão profundo que envolve o menino no ventre da mulher mais velha: apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1, 41). Vale acrescentar aqui o dado importantíssimo da doutrina cristã: Maria já carregava no seu seio imaculado o Filho de Deus, tendo-se passado um curto período de alguns dias, após o seu sim dado a Deus, representado pelo Anjo. Deu-se, portanto, o duplo encontro: de Maria com Isabel e de Jesus com João Batista. Este encontro, porém, ainda que o mais importante, permanece na esfera do mistério da fé. O que temos, diante dos nossos olhos, é o profundo afeto de duas mulheres, unidas no amor indescritível e "separadas" por uma grande diferença de idade.
 
É por isso disse antes que o casamento, ao qual fui convidado, me vem na mente neste momento. Como falei há um tempo, o meu amigo (um dos noivos) tem 24 anos e o seu futuro marido... mais de 50. Deixando de lado todos aqueles que consideram a união homoafetiva um absurdo em si, detenho-me em outra opinião, talvez ainda mais difundida, inclusive em referência aos casamentos heteroafetivos. São muitíssimas as pessoas que descartam a possibilidade de "dar certo" entre as pessoas que, em outras circunstâncias, poderiam ser, por exemplo, o pai e o filho, ou - quem sabe - o vovô e o neto. No próprio "universo GLBTTS" a crítica de tal configuração é muito frequente, a ponto de se manifestar como um preconceito. Em geral, "o velhote não presta" e "o jovem é louco" (quando não é um frio aproveitador). Porém, o amor é um dos maiores mistérios do coração humano. Não pretendo repetir aqui os inúmeros argumentos a favor de uma união semelhante, construída apesar de (ou, graças a) uma grande diferença de idade. Apenas acrescento: eu mesmo espero que algo assim possa acontecer, um dia, na minha própria vida.
 
Falando nisso, tenho sonhado recentemente com um jovem coreano [sic!], com quem me caso e para essa ocasião estamos juntos visitando a minha família (que o adora!) e já planejamos a nossa lua de mel, na Coréia. É esse tipo de sonho que não apenas se repete por várias noites em seguida, mas continua, mesmo depois de acordar. Enfim... esse já é o outro assunto.
 
Para concluir este texto que, a princípio, seria uma meditação de mais um mistério do rosário (e, na forma em que está, pode deixar alguém escandalizado), digo o seguinte: tudo aquilo que muita gente consideraria uma distração na hora de rezar, eu, simplesmente, incluo à oração. Assim, a vida se faz presente diante de Deus e a oração envolve a vida. Não sou um mestre de oração, mas rezo assim...
 
Outro texto sobre a Visitação de Nossa Senhora encontra-se, neste blog, aqui.

10 de outubro de 2013

Anunciação

Fonte: deviantART
 
Como falei recentemente, o rosário faz parte da minha experiência da fé e por isso decidi compartilhar aqui alguns pensamentos, seguindo o esquema proposto pela própria estrutura desta devoção. São os mistérios que nos ajudam a percorrer os momentos fundamentais da história da Salvação, ou melhor, do seu ponto mais alto - afinal, a história da salvação começou com a criação e só vai terminar com o fim dos tempos. Ainda que acreditemos na vida eterna, seria difícil aplicar o termo "história" a uma realidade que, pelo que parece, não se submeterá mais às dimensões (limites?) do tempo e de sua passagem. O conteúdo das meditações do rosário visam o ápice da história da salvação, que São Paulo chamou de "plenitude dos tempos": (...) quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher (Ga 4, 4).
 
Embora o título mais usado para descrever o momento inicial tenha sido "Anunciação", um pouco de reflexão leva a crer que o essencial no encontro do Anjo com Maria foi o "SIM" dela e, consequentemente, a encarnação do Verbo, isto é, a concepção do Menino no seio de Maria que, curiosamente, o próprio texto bíblico não menciona naquela altura. O que mesmo chama a minha atenção é a série de situações e acontecimentos tão diferentes daquilo que pode ter sido chamado de "padrão", inclusive na própria lei de Deus e nos costumes do povo, baseados naquela mesma lei. E o que dizer da "lei natural"? Se não se tratasse dos desígnios de Deus, o mais adequado seria dizer que tudo deu errado. A gravidez fora do casamento, o casamento sem a transmissão de vida (reprodução), a paternidade "putativa" (olha, não é isso o que o termo sugere!), a "família-modelo" (a Sagrada), tão diferente de todas as famílias anteriores e posteriores... A primeira ideia que vem à cabeça é que Deus, certamente, queria quebrar na mentalidade humana o conceito de "padrão".
 
O "SIM" de Maria - literalmente: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38) - foi precedido pela perturbação interior daquela que era a cheia de graça (cf. Lc 1, 28) e bendita entre as mulheres (cf. Lc 1, 48), pela incapacidade de entender e pela pergunta "como?" que, sem dúvida, contém o "por que?" (talvez, até: "por que eu?") e tantas outras interrogações. Mais uma ideia: Deus admite a nossa limitação e acolhe as nossas perguntas, ainda que quisesse deixa-las sem resposta suficientemente esclarecedora.
 
Por mais que me sinta distante da santidade, pureza e glória de Maria Santíssima, entro aqui com a minha analogia. Como um homossexual, vejo a parte essencial da minha realidade como aquela que não se encaixa nos "padrões" descritos pela lei natural, lei de Deus (pelo menos essa que me foi transmitida pela Igreja) e pelos costumes vigentes. Faço aqui uma observação: será que agindo exatamente desta forma incomum, o próprio Deus não quer ampliar o nosso entendimento de sua lei?
 
Quantas vezes brotaram no meu coração as mais existenciais perguntas, tais como: "Por que?", "Por que eu?", "Com viver?", "Como amar?". Por que seria uma blasfêmia, ou, ao menos, uma ousadia, considerar Maria como alguém que o próprio Deus colocou bem ao meu lado? Será um abuso pensar que Maria diz a cada um de nós: "Eu te compreendo"?
 
Deixo essas ideias aqui e vou me entregar à oração serena e confiante...
 
Outra meditação sobre a Anunciação está aqui.

4 de junho de 2011

Maria e Pentecostes

O Papa Bento XVI disse que não há Igreja sem Pentecostes e não há Pentecostes sem a Virgem Maria. (Oração Regina caeli, 23/05/2010, Solenidade de Pentecostes - aqui). E o seu predecessor, Beato João Paulo II, em uma catequese dedicada a Maria e o dom do Espírito (aqui), explica que a partir do momento que na Anunciação o Espírito Santo já havia descido sobre ela, recobrindo-a com a «sua sombra » e dando origem à Encarnação do Verbo. Tendo já feito uma experiência muito singular acerca da eficácia desse dom, a Virgem Santíssima estava na condição de o poder apreciar mais do que qualquer outro (...). Ela, plenamente consciente da importância da promessa de seu Filho aos discípulos (cf. Jo 14, 16), ajudava a comunidade a dispor-se bem para a vinda do «Paráclito». A sua singular experiência, então, enquanto a fazia desejar ardentemente a vinda do Espírito, empenhava-a também em predispor mentes e corações daqueles que estavam ao seu lado. (Audiência geral, 28/05/1997)

Embora muitos seguidores de Cristo tenham ainda certas dificuldades em reconhecer o papel de Maria no plano da salvação, ou seja, localizar o lugar exato ocupado por Ela nesse plano, nós católicos, não nos imaginamos sem a sua presença. Em outra ocasião, o Papa Bento XVI disse: Desde sempre foi claro que a catolicidade não pode existir sem um comportamento mariano, que ser católico quer dizer ser mariano (enquanto o site do Vaticano apresenta alguns problemas, leia a matéria no portal "Gaudium press" - aqui).

Nós, gays católicos, sabemos disso muito bem. Entre vários títulos atribuídos a Maria, especialmente querido para nós deve ser o de “Consoladora dos aflitos”. Isso não quer dizer que nos sintamos “coitados”, mas que, ao reconhecermos a nossa condição que, devido incompreensões, julgamentos e rejeições, provenientes do preconceito acarreta bastante aflições, recorremos à nossa Mãe que, até hoje, também não é compreendida por muitos e rejeitada. Entretanto, Nossa Senhora está no céu, gozando a prometida consolação. Nós buscamos a consolação para sabermos consolar os outros, de acordo com a Palavra de Deus: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação. Ele nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e qualquer aflição. Pois, à medida que os sofrimentos de Cristo crescem para nós, cresce também a nossa consolação por Cristo. (2Cor 1, 3-5). Não é por acaso que um dos termos, com o qual é traduzido o nome grego do Espírito Santo Paráclito é, justamente, o Consolador. Mas sobre isso vamos refletir numa das próximas postagens.



Leia também sobre a imagem de Nossa Senhora dos Gays - aqui


31 de maio de 2011

Visitação de Nossa Senhora

A riqueza de conteúdo da festa de hoje, longe de ser apenas uma comemoração devocional, faz com que possamos abordá-la sob diversos ângulos.

[1] Muitos destacam a caridade como consequência prática de um encontro pessoal com Deus. Maria, ao saber do Anjo sobre a gravidez avançada de sua idosa parenta Isabel, imediatamente põe-se a caminho para prestar-lhe serviços necessários.

[2] Os apóstolos (para não dizer militantes) “pró-vida” que se dedicam à batalha contra a prática do aborto, apontam o importante detalhe da saudação de Isabel: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? (Lc 1, 42-43). O fato de Isabel ter chamado Maria de mãe e não de, por exemplo, “futura mãe”, confirma a convicção dos cristãos de que a vida de cada ser humano inicia-se no momento da concepção, pois já neste momento faz-se presente o sopro de Deus sobre a matéria, isto é, a alma de um novo ser.

[3] O Beato Papa João Paulo II atribui a Maria o título de “mulher eucarística” e nos ajuda a compreender o episódio da visitação de um novo jeito: De certo modo, Maria praticou a sua fé eucarística ainda antes de ser instituída a Eucaristia, quando ofereceu o seu ventre virginal para a encarnação do Verbo de Deus. (...) Maria antecipou também, no mistério da encarnação, a fé eucarística da Igreja. E, na visitação, quando leva no seu ventre o Verbo encarnado, de certo modo Ela serve de «sacrário» – o primeiro «sacrário» da história –, para o Filho de Deus, que, ainda invisível aos olhos dos homens, Se presta à adoração de Isabel, como que «irradiando» a sua luz através dos olhos e da voz de Maria. (João Paulo II, Encíclica Ecclesia de Eucharistia, n° 55).

[4] Como, porém, a Providência Divina inseriu a Festa da Visitação de Maria na proximidade de Pentecostes e o próprio acontecimento revela coisas importantes sobre a ação do Espírito Santo, é justo que leiamos o texto do Evangelho (Lc 1, 39-56), também nessa perspectiva. Já mencionado fenômeno sobrenatural de Isabel ter a revelação da verdadeira identidade de sua jovem parenta, mostra a interevenção do Espírito Santo: Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. (v. 41). Podemos notar certa analogia entre este acontecimento e uma conversa de Jesus com os discípulos: Jesus (...) perguntou aos discípulos: “Quem é que as pessoas dizem ser o Filho do Homem?” (...) “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus então declarou: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. (Mt 16, 13. 15-17). Tanto Isabel quanto Pedro, não descobriram a verdadeira identidade da pessoa na sua frente, por conta própria. Foi lhes revelada. Essa verdade é muito importante também para nós, para admitirmos as nossas limitações humanas em questão de reconhecimento da real identidade de outras pessoas. Com outras palavras, é o Espírito Santo que abre nosso coração e nossos olhos para o mistério do ser humano, para que vejamos nele a criatura amada e adotada por Deus como filho ou filha. Desta maneira somos curados de todo tipo de preconceito.

Anselm Grün, alemão, monge beneditino, autor de vários livros sobre a espiritualidade, num belíssimo – como sempre – texto, ajuda-nos a compreender melhor esse aspecto da Visitação de Nossa Senhora. É o trecho do livro “Festas de Maria” (Editora Santuário, Aparecida – SP, 2009). Maria transpõe uma alta montanha para chegar até Isabel. Entre nós e o outro frequentemente há montanhas de preconceitos e empecilhos, montanhas de pensamentos que nos impedem de chegar até o outro. (...) Precisamos transpor a montanha de nossos medos e bloqueios e os montes de nosso comodismo para chegar realmente ao outro. Quando tivermos saído de nós mesmos, então conseguiremos aproximar-nos do outro (...). Então encontramos no outro o mistério de Deus que supera sua inteligência. Agora reconhecemos ter encontrado a Mãe de Nosso Senhor. E desse encontro desperta em nós alguma coisa que ajuda a viver. O menino que está em nós pula; no outro, tocamos em nosso âmago. No encontro com o outro, encontramo-nos conosco mesmos, entramos em contato com a origem incorrupta e autêntica do nosso ser. Ao mesmo tempo, num encontro autêntico, abre-se para nós o mistério do outro. Percebemos quem ele é realmente, percebemos que nele a Mãe de Nosso Senhor vem a nós, que o mistério mais profundo do outro é o próprio Cristo. E assim, no encontro com o outro, tocamos no próprio Deus. O encontro autêntico faz os dois tocarem sempre num mistério que os ultrapassa: liberta densidade e presença, a ponto de o próprio Deus tornar-se experimentável. (p. 73-74)

17 de abril de 2011

Via Sacra [4]

IV Estação: Jesus encontra a sua Mãe

Não há palavras que fossem capazes de descrever os sentimentos de Maria naquele momento. Vários autores falam de um encontro que trouxe conforto para Jesus, neste caminho rumo ao Calvário. Eu não tenho tanta certeza. Quando enfrento alguma dificuldade, procuro não envolver a minha mãe naquela situação e, quando ela pergunta, sempre digo: "Estou bem, mãe. Está tudo bem por aqui!". Não quero que ela fique preocupada (também porque acho que ela sempre exagera nesta questão). Talvez a minha reação, vontade e postura sejam diferentes, no caso de uma situação extrema, como a de Jesus na Via Sacra. Se eu estivesse morrendo, gostaria que ela estivesse ao meu lado? Com certeza. Entretanto, a sua dor iria aliviar ou aumentar a minha? De acordo com uma das reflexões anteriores (aqui), a dor é o elemento indispensável (e, até, "constituinte") de amor. O encontro de Jesus com Maria, na via sacra, era necessário e, embora não tenha deixado marca alguma nos textos sagrados, chegou até nós por meio da piedosa tradição do povo. Penso, nesta estação, em Maria Santíssima e no seu lugar no plano da salvação. Muitos teólogos e, de certa forma, o próprio Magistério da Igreja, falam de Maria como "corredentora". Este título não diminui, nem ofusca, os méritos infinitos de Cristo Jesus, o único Redentor da humanidade, mas Deus quis que Ela participasse, de modo todo singular, nesta obra (a mesma logica se dá em relação à intercessão e/ou mediação entre homens e Deus). Logo, em seguida, nesta IV Estação, o meu pensamento vai em direção da minha mãe. Como é importante, para um homossexual, o amor compreensivo e acolhedor de mãe! Eu sei que muitos não tiveram a felicidade de encontrar o apoio e o amor incondicional de suas mães. Ainda assim creio que o desejo maior de cada mãe é ver o seu filho feliz (ainda que, nem sempre, o conceito de felicidade, seja o mesmo para ambos - veja aqui). Muitas mães não estão angustiadas pelo fato de seu filho ser homossexual, mas pela perspectiva de sofrimentos (preconceitos, perseguições, etc.) que isso pode causar na vida deste filho. É algo parecido, um pouco, com a preocupação de mãe, com a sorte do filho-policial, piloto ou alpinista. A diferença evidente está na eventualidade de persuadir o filho para que desistisse daquela carreira, o que não pode ocorrer, no caso de um filho homossexual (e nem sempre a mãe se dá conta dessa diferença). Apesar de todas as dificuldades e limitações, a presença de mãe, no nosso caminho de homossexuais, é de suma impotrância.

ORAÇÃO

Senhor Jesus, obrigado pela Tua Mãe, Maria Santíssima! Mãe, consoladora dos aflitos, acompanha-nos em todos os instantes. O seu terno amor de mãe acolhe, também, os filhos e filhas homossexuais. E nós, muitas vezes machucados pela vida, contamos com este encontro. Pela intercessão de Maria das Dores, peço-Te, Jesus, por todos aqueles que, ao descobrirem a sua identidade homossexual, não tiveram a compreensão e o apoio da própria mãe. Abençoa as nossas mães, para que nunca desistam de seus filhos.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

25 de março de 2011

Anunciação do amor

No dia em que a Igreja celebra a Solenidade da Anunciação do Senhor – que, de fato, comemora o mistério da Encarnação do Verbo Divino e não apenas o momento do anuncio feito pelo Anjo à Santíssima Virgem Maria – transcrevo aqui um trecho importante da primeira Encíclica do Papa João Paulo II “Redemptor hominis” (n° 10). Sobre este documento falei neste blog na ocasião da Novena de Natal (aqui) e o seu texto original pode ser encontrado no site do Vaticano (aqui).
O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor, (...) revela plenamente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade. No mistério da Redenção o homem é novamente «reproduzido» e, de algum modo, é novamente criado. Ele é novamente criado! «Não há judeu nem gentio, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher: todos vós sois um só em Cristo Jesus» (Gal 3, 28). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente — não apenas segundo imediatos, parciais, não raro superficiais e até mesmo só aparentes critérios e medidas do próprio ser — deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo.
O Papa insiste, ao longo de toda Encíclica, com a expressão “todo homem”, o que à luz da citação da Carta aos Gálatas, torna-se especialmente importante também para nós, homossexuais. Nós também não podemos viver sem amor, pois a nossa vida seria destituída de sentido e cada um de nós permaneceria para si próprio um ser incompreensível, Por isso encontrar-nos com o amor, experimentá-lo, participar nele vivamente, tornando-o algo próprio nosso, é tão importante para cada um de nós. O Papa João Paulo II, que será beatificado no próximo dia 01 de maio, escreveu muitos outros textos que contribuem, ainda que indiretamente, à causa de reconhecimento da dignidade de homossexuais, mostrando o seu lugar bem dentro da Igreja.

20 de março de 2011

José

Escrevi uma reflexão sobre a figura paterna, tendo São José como referência, no 3° dia da Novena de Natal (aqui). Acrescento agora alguns outros pensamentos. Ao longo de vários séculos, a Tradição da Igreja e a piedade popular, atribuíam a José uma idade bastante avançada, retratando-o como o ancião ao lado de jovem Maria Santíssima. Hoje, alguns autores, aventuram-se ao apresentar São José relativamente jovem (veja, p. ex., "São José jovem e santo - o segredo do sucesso familiar" de Dom Cipriano Chagas ou "José, Esposo e Pai" de José H. Prado Flores). De fato, a Sagrada Escritura não fala absolutamente nada sobre a idade do esposo de Maria. Segundo um destes autores (não me lembro bem qual deles) afirma ter sido devido a dificuldade em lidar com a questão de sexualidade que a Igreja (ao menos em sua expressão popular) preferiu uma versão mais segura de São José (isto é, José velho). Como, entretanto, tudo está perfeito nos planos de Deus e foi Ele quem quis garantir ao seu Filho uma infância melhor possível, certamente esta estranha desproporção de idades no Casal da Sagrada Família não teria razão para existir. O Papa João Paulo II, além de uma Exortação Apostólica (Redemptoris custos - aqui), dedicou a São José uma das catequeses em 1996 (o site do Vaticano disponibiliza apenas versões em italiano e espanhol, esta última aqui). O texto trata de união virginal de Maria e José: Pode-se supor que entre José e Maria, no momento do noivado, houvesse um entendimento sobre o projeto de vida virginal. De resto, o Espírito Santo, que tinha inspirado a Maria a escolha da virgindade em vista do mistério da Encarnação, e queria que esta acontecesse num contexto familiar idôneo ao crescimento do Menino, pôde suscitar também em José o ideal da virgindade. (...) José e Maria receberam a graça de viverem juntos o carisma da virgindade e o dom do matrimônio. A comunhão de amor virginal de Maria e José, embora constitua um caso muito especial, ligado à realização concreta do mistério da Encarnação, foi todavia um verdadeiro matrimônio. Na Exortação Redemptoris custos, o Papa afirma: Neste matrimônio não faltou nenhum dos requisitos que o constituem. (n. 7) Exatamente aqui vem a curiosidade. A Sagrada Família é o modelo de toda família cristã, portanto, de todo o matrimônio (cristão). Isso é muito claro, porque a sua essência está no amor. Mas, se - neste caso - não aconteceu a procriação como nós a entendemos e, mesmo assim, "não faltou nenhum dos requisitos que constituem o matrimônio", por que razão os opositores de união homossexual batem tanto nesta tecla, dizendo que por faltar "o requisito" da procriação, tal união está errada e, portanto, inadmissível. Com outras palavras: fundamental é o amor e mesmo que não haja procriação, a união de duas pessoas que se amam, está nos planos de Deus.

8 de dezembro de 2010

Maria - nossa Mãe


Hoje (8 de dezembro), no dia da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, trago a imagem de "Nossa Senhora dos gays". O autor, Raffaele Ciotola, artista italiano (também músico, cantor de ópera e ator) nascido em 1964 (Nápolis), assim explica a sua obra:

Escolhi Maria como símbolo de um imenso amor, o único capaz de aceitar, proteger e apoiar cada indivíduo singularmente, sem reservas ou distinções. Com apenas um gesto, Maria não só segura nos braços Jesus, mas, ao mesmo tempo, abraça toda a humanidade, representada pela esfera terrestre que tem nas mãos. Além disso, seu olhar afetuoso está dirigido não somente a Jesus, mas, também, àqueles filhos que vivem a condição homossexual, aqui representados pelos símbolos homossexuais masculino e feminino, que o próprio Jesus lhe apresenta. Para reforçar a ligação entre Maria e seus filhos homossexuais, propus os mesmos símbolos no brasão que está em cima dela, acompanhado pelas cores da bandeira gay e dois pares de buquês de flores. Essas flores querem comunicar uma mensagem especial de duplo valor: por um lado podem indicar a felicidade da união homossexual, por outro querem lembrar a morte de todos os homossexuais, injusta e tragicamente desaparecidos. Refiro-me a todas as mortes historicamente documentadas que, porém, permaneceram esquecidas por demasiado tempo; mortes ocorridas, de modo particular, durante o nazismo e causadas pela discriminação, pelo medo em relação às diferenças de gênero e pelo desconhecimento do fato que o "homossexualismo" é uma condição, e não uma escolha. Por um tempo excessivamente longo a sociedade ignorou o que fossem os "triângulos rosas", e parece que o esqueceu a própria comunidade gay. Com esta obra quero despertar a lembrança dos sofrimentos e sensibilizar a consciência de todos para a possibilidade de confiar esta lembrança à protagonista da minha pintura".
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