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Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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22 de janeiro de 2014

Jurisprudência divina



A jurisprudência é o conjunto das soluções dadas pelos tribunais às questões de Direito. A sua função principal é a adaptação da lei às ideias e aos costumes contemporâneos. A jurisprudência nasceu com o Common law inglês, no qual o direito é criado e aperfeiçoado pelos juízes. Uma decisão a ser tomada num caso depende das decisões adotadas nos casos anteriores e afeta o direito que será aplicado em casos futuros. A cinematografia norte-americana, com certa frequência, ajuda-nos a compreender melhor como funciona o Common law. São aqueles advogados que desesperadamente estudam os processos antigos para encontrar a solução de um caso de outrora que seja útil aos seus clientes. O argumento que diz "uma vez, o caso semelhante, foi resolvido assim", é capaz de convencer o juiz.

Será que o Rei dos reis e Juiz dos juízes segue, também, algum tipo de jurisprudência? Segue, sim e podemos dizer que ela é, no mínimo, bastante curiosa. As leituras litúrgicas de ontem fornecem para nós alguns dos inúmeros exemplos bíblicos. Refiro-me aos textos da terça-feira da 2ª semana do tempo comum (1Sm 16, 1-13; Sl 88; Mc 2, 23-28). No primeiro texto temos o profeta Samuel que vem transmitir a voz de Deus, portanto, a sua ordem e a sua lei. Um detalhe chamou a minha atenção. Antes de tudo, Deus orientou assim o seu servo: Eu te mostrarei o que deves fazer e tu ungirás a quem eu te designar (v. 2). Depois Samuel purificou Jessé e seus filhos e convidou-os para o sacrifício (v. 5). Como se sabe, o ritual de mais diversas purificações e associado a ele conceito da impureza fazem parte da cultura e da mentalidade do povo de Israel, inclusive de sua legislação. Uma sociedade teocrática não distingue muito claramente a origem das leis vigentes e, para facilitar as coisas, justifica os seus comportamentos com a ideia da obediência a Deus, ainda que nem sempre tenha acertado o seu discernimento. Mostram isso as precipitações mentais de Samuel que, como um escolhido do Senhor, vivia ouvindo a voz de Deus. Percebemos, porém, que ele escutava igualmente as dicas de sua lógica humana. Em alguns momentos parecia até um duelo de vozes: Certamente é este o ungido do Senhor! - Não! Não é este! Quando acabou a fila dos candidatos, surgiu uma questão óbvia: Estão aqui todos os teus filhos? Pois é, havia mais um, mas quem teria a ideia de imaginar o caçula como o futuro rei de Israel? E o Senhor que acabava de dizer a Samuel para não se deixar enganar pela aparência, desta vez faz questão de notar que Davi era ruivo, de belos olhos e formosa aparência. Quando chegou, então, o bonitinho, Deus disse ao profeta: Levanta-te, unge-o: é este! Samuel, é claro, obedeceu na mesma hora e nem teve a ousadia de questionar: Uê, Senhor, e a purificação? Ele teria que ser purificado antes, porque é assim que manda a Tua lei! Se tivesse tal coragem, certamente teria recebido a mesma resposta que ouviu, séculos mais tarde, não menos ungido Apóstolo Pedro: Não chames de impuro o que Deus tornou puro! (At 10, 15).

O mesmo elemento da jurisprudência de Deus, isto é, a exceção (ou a suspensão), percebemos ainda mais nitidamente no texto do Evangelho proposto para o mesmo dia. É o típico exemplo do Common law, aplicado pelo próprio Jesus. Caminhando por uns campos de trigo, os discípulos de Jesus arrancaram algumas espigas para comer, o que não seria tão grave se não fosse o dia de sábado. De um lado, a lei de Deus obrigava os camponeses a deixarem um feixe de trigo "esquecido" no campo durante a colheita, para que os transeuntes necessitados pudessem comer (cf. Dt 24, 19). Afinal, Deus é Amor e se preocupa com os pobres. Por outro lado, no sábado não se podia fazer trabalho algum. Os fariseus, membros ilustres da elite religiosa do povo, lembraram-se, obviamente, da proibição e não do amor, o que observamos igualmente em todas as discussões travadas por eles com Jesus: Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido? (Mc 2, 24). Jesus recorre a um precedente (exatamente como os advogados que usam a lógica do Common law): Por acaso, nunca lestes o que Davi e seus companheiros fizeram quando passaram a necessidade e tiveram fome? Como ele entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu os pães oferecidos a Deus e os deu também aos seus companheiros? No entanto, só aos sacerdotes é permitido comer esses pães. (v. 25-26)

Mais ou menos neste sentido podemos dizer: Por acaso nunca lestes o que Jesus fez quando um centurião romano o pediu para curar seu servo que muito provavelmente era, também, o seu amante? Como o Senhor não somente curou o doente sem questionar a relação dos dois, mas ainda elogiou a fé daquele centurião? (cf. Mt 8, 5-13 e Lc 7, 1-10). Ou, quando Filipe, um dos sete diáconos, anunciou a fé ao eunuco etíope e, sem questionar a sua condição de esterilidade (ou, quem sabe, homossexualidade, o que era bastante comum nos haréns da época e nos palácios de rainhas), ministrou-lhe o Sacramento do Batismo? (cf. At 8, 29-39). Ou, então, quando já mencionado aqui Pedro, o primeiro Papa (talvez ante-Papa, sem confundir com qualquer anti-Papa, mas tendo em vista que os Papas são seus sucessores), chegou à conclusão definitiva: Deus me mostrou que não se deve dizer que algum homem é profano ou impuro. (At 10, 28)

A "jurisprudência" de Deus baseia-se no amor. Os teólogos e a doutrina oficial da Igreja afirmam que Deus é imutável, mas também que é insondável. Quando, então, alguém afirma que isso ou aquilo é assim e não pode ser diferente, pois provém da lei de Deus, nem sempre tem razão. Não valeu a pena brigar (em nome de Deus) com os cientistas (e queimar alguns deles na fogueira), só porque afirmavam que a Terra é redonda. Em um contexto mais amplo resume esta verdade a jornalista e escritora Martha Medeiros:

Somos vigorosamente contra ou a favor, como se de nossas posições dependesse nossa vida. E chegam a ser inocentes nossas tentativas de compreender a nós mesmos e ao mundo. Particularmente, gosto muito dessa busca, mas sem perder a consciência de que, onde quer que eu chegue, ainda estarei a milhões de anos-luz da compreensão absoluta. Ainda bem. O que viria depois da compreensão absoluta? ("Causa e efeito" em Revista O Globo, 22. 12. 2013; p. 14).

29 de dezembro de 2013

Sagrada Família


O domingo dentro da Oitava do Natal (e quando não há um domingo nesse período, é no dia 30 de dezembro), a Igreja celebra a festa da Sagrada Família. Os pregadores, em sua grande maioria, dedicam seus discursos à família contemporânea e destacam "as ameaças" sofridas por essa instituição que em si - sem dúvida - é um belíssimo projeto de Deus. Um dos equívocos mais frequentes é - digamos - a invertida direção do pensamento, ou seja: partindo do modelo (de família) considerado hoje "moralmente correto", tentam esticar a interpretação do mistério da criação, mencionando de passagem a Sagrada Família de Jesus Maria e José. É muito fácil deixar-se levar pelo tal discurso, porque os pregadores - além de tocarem no assunto que "mexe com qualquer um", misturam as afirmações certas com erradas e montam uma imagem que parece ser absolutamente perfeita. E de fato a visão é admirável... Mais ou menos como a de uma árvore de Natal. Ela nos comove e fascina, a ponto de esquecermos de que tanto a própria árvore, quanto o seu brilho, é tudo artificial. Estamos assim, igualmente, colocados diante de uma imagem artificial da família.

Vamos aos detalhes. O ponto de partida (do discurso) é uma família "perfeita" (dentro dos padrões ideológicos de hoje), isto é, formada pelo casal heterossexual, seus (não poucos) filhos e, talvez, os avós e alguns demais personagens. O casal, obrigatoriamente unido através do Sacramento do Matrimônio, permanece em maior fidelidade conjugal, aplica apenas os métodos naturais durante cada ato sexual e, quando chegar a hora, educa rigorosamente os filhos, inclusive sobre a "autêntica" sexualidade humana.

Esse ponto de partida para uma viagem bíblico-histórica ignora o fato de que ainda algumas décadas atrás, sob a bênção apostólica da Igreja, os pais escolhiam os maridos para suas filhas e os homens tratavam as suas mulheres como escravas (aliás, a própria escravidão, em seu sentido cruelmente literal, também possuía a mesma bênção). As pregações frisam a lei natural, da qual a única exceção é algum fato sobrenatural, bem como no caso de Maria Santíssima que ficou grávida antes de se casar com o seu castíssimo esposo, São José. O mesmo caso sobrenatural justifica a total ausência de procriação na Sagrada Família. Ainda assim, é exatamente essa Família de Nazaré (e de Belém) que está sendo apresentada como modelo de todas as famílias. Ou seja, as famílias que começam a sua existência no momento das núpcias e somente assim autorizadas por Deus para iniciarem a sua colaboração com Ele na geração de novas vidas, têm o seu modelo no (Santo) casal que teve a história particularmente diferente...

Talvez os próprios pregadores tenham percebido os pontos fracos dessa argumentação e por isso recorrem imediatamente ao fundamento de todas as coisas, isto e, à criação do ser humano, ou melhor, à formação do primeiro casal e à ordem de "povoarem a terra" através da procriação (literalmente, a "multiplicação"). Aí começa a "matança dos coelhos". E não são apenas dois com uma só cajadada. Na verdade, são muitos. O texto bíblico sobre Adão e Eva serve tanto para condenar o divórcio, quanto a monogamia e, principalmente "o homossexualismo" (sic!). Afinal, como diz a "sabedoria" popular, Deus criou Adão e Eva e não Adão e Ivo (sic! sic!)... Enfim, o discurso termina com a conclusão de que a ordem da criação, ferida pelo pecado, foi restaurada pelo fato do nascimento do Filho de Deus no seio de uma família...

Espero que, ao menos alguns pregadores, tenham o tempo de mencionar que Deus é amor e que - principalmente neste sentido - todos fomos criados à sua imagem e semelhança.

Quanto à criação, eu particularmente, vejo ali um princípio diferente que não tem nada a ver com a heterossexualidade. Basta ler o texto com atenção e sem "esticá-lo" ao tamanho do próprio preconceito. Vale lembrar de que não estamos diante de uma reportagem, mas recebemos de Deus, em forma alegórica (ou poética) a revelação sobre o mistério da nossa existência. Refiro-me, neste caso, ao texto do Livro do Gênesis, capítulo 2, versículos de 18 a 24, tendo como o "texto auxiliar" o Gn 1, 24-31, ou melhor, os dois primeiros capítulos inteiros. 

Em primeiro lugar, Deus revela que criou o ser humano à sua imagem e semelhança (Gn 1, 26-27). Em seguida (eu diria, em consequência disso), Ele mesmo afirma que "não é bom que o homem esteja só" e logo encontra a solução: "vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada" (Gn 2, 18). Os detalhes a seguir considero muito importantes para ter uma conclusão correta e não criar as ideologias baseadas em qualquer tipo de fobias...

Acho belíssima a cena em que Deus leva ao homem todos os animais e este lhes dá o nome. De um lado parece ser um tribunal no qual o homem é o juiz, mas ao mesmo tempo, sem perceber, o próprio homem está sendo avaliado por Deus. Desde o início o ser humano é convidado para ser um parceiro ou colaborador de Deus. Desde então, o homem tem a prerrogativa de dar o nome a todas as coisas. Isso é magnífico. Pelo menos no início (sabemos quanto mal pode fazer o ato de atribuir o nome, ou o rótulo, às coisas e às pessoas!).

O próximo passo do Criador é misterioso. Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem” (Gn 2, 21-22). A reação do homem, desta vez, é diferente: Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem.” (Gn 2, 23), o que o autor bíblico conclui com a frase, citada inclusive por Jesus no Evangelho: "Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne." (Gn 2, 24). Tudo parece óbvio. É o homem e a mulher. O que vem além disso, não pode ser de Deus... Será?

O contexto de toda aquela situação sugere que o homem se reconhece como tal e percebe a diferença entre a sua natureza e a dos animais. Ele é superior, é a questão de níveis diferentes. É nítido aqui o princípio do personalismo e não da heterossexualidade. Se Deus decidisse tomar a costela do homem para formar um outro homem, a resposta de Adão seria a mesma: Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne". Digo mais: essa resposta seria ainda mais rápida e com firmeza ainda maior. É como se Adão dissesse: "A minha solidão só pode ser preenchida por um outro ser humano, mas qualquer animal, por mais simpático que seja e me faça companhia, não é capaz de me complementar por inteiro". O sentido da criação de seres humanos com sexos diferentes está, evidentemente, em uma das principais tarefas confiadas a eles pelo Criador, isto e, de povoar a terra (cf. Gn 1, 28). Porém, essa não é a única maneira de dar o sentido a existência do ser humano. Se fosse a única, as pessoas não fariam mais nada, além de procriar. Aliás, não existiria, também, o celibato...

Terminando a minha reflexão neste dia da Sagrada Família, quero repetir mais uma vez: nós, os homossexuais, somos imensamente gratos às nossas famílias (e à instituição familiar como tal). Afinal, sem a família (por mais imperfeita que tenha sido) nenhum de nós existiria. Outra coisa importante: pelo fato de não procriarmos em nossos relacionamentos homossexuais, não pretendemos destruir a família, enquanto a célula fundamental da sociedade e da Igreja. Muito pelo contrário. Desejamos acrescentar a nossa própria experiência de amor e com ela enriquecer a convivência pacífica e fraterna de toda sociedade e da Igreja. Além disso, o glorioso exemplo da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, ensina-nos e inspira para não desanimarmos diante das incompreensões, ameaças e perigos que o mundo atual, cheio de fobias e fundamentalismos, nos oferece...

27 de outubro de 2013

Perda e reencontro

 
Termino aqui o ciclo de meditações inspiradas nos primeiros cinco mistérios do Rosário. Confesso que já tive períodos de maior fidelidade a essa oração que aprendi ainda no tempo da minha adolescência. Descobri, com o passar do tempo, que o essencial nessa "reza" não é a repetição das "Ave-marias", mas a meditação bíblica, ou melhor, bíblico-existencial. A minha avó que rezava o Rosário todos os dias, uma vez me disse que o anjo tira do abismo do inferno as almas, usando - como se fosse uma corrente - o terço e que, portanto, eu deveria me agarrar a ele. Inicialmente levei isso meio que pelo lado de superstição. Agora sei que o que nos mantém ligados a Deus não é um objeto qualquer, mas sim, a oração confiante e, justamente, existencial, ou seja, aquela que traz na presença de Deus a nossa vida do jeito como ela está. Como falei em outra oportunidade, a minha oração é homossexual, porque em mim tudo é assim e eu não me vejo em condição de ir ao encontro com o Senhor apenas de maneira fragmentada. A homossexualidade não é uma característica, digamos, genital, mas envolve a razão e os afetos, o corpo e a alma. Ela ultrapassa todas as dimensões do meu ser...
 
O quinto mistério gozoso do Rosário me leva diretamente à adolescência. Para muitos adultos o termo em si é visto como pejorativo. Adolescente é "aborrescente". Lembra-se logo de rebeldia, imaturidade e esquisitice. Algo assim aparece, até, na cena bíblica em questão (Lc 2, 41-52). Podemos imaginar, com toda simplicidade, o momento em que Maria e José, tendo cumprido todas as prescrições da Lei, disseram a Jesus: "Agora vamos embora". Jesus, porém, ficou naquele lugar e não foi embora. Aquilo que, no olhar apressado e superficial, parece ser rebeldia ou desobediência é, de fato, a manifestação de uma nova autonomia. A pessoa começa a seguir os seus próprios caminhos. Lembro-me de uma meditação sobre esse mistério do Rosário que dizia: "Na verdade não foi Jesus que se perdeu dos pais, mas foram eles que se perderam em relação a ele". Na maioria dos casos, os pais têm dificuldade de admitir aquela autonomia (autossuficiência) nascente do(a) filho(a). E ainda mais, quando se trata de sexualidade, principalmente quando esta não se encaixa nos padrões gravados na mentalidade deles. Ainda que existam os testemunhos dos pais que dizem: "Nós sabíamos (desconfiávamos) disso desde a sua infância", a maioria dos adolescentes que descobrem e revelam a sua homossexualidade, são forçados a enfrentar batalhas pesadas que - não raramente - terminam em tragédia. É porque, para maioria dos adultos, o adolescente "não sabe o que quer". Na vida de muitos adolescentes repete-se, neste sentido, a resposta de Jesus: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?" (Lc 2, 49). Repete-se, também, a reação dos pais: "Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele lhes falou" (Lc 2, 50).
 
O que me vem mais à memória em relação à adolescência, é a timidez, acompanhada (paradoxalmente) pela teimosia. Houve alguns conflitos com o meu irmão e com os meus pais. Era o tempo de várias descobertas e experiências. Um período precioso, porém não valorizado por mim mesmo como tal. Não sei se todo adolescente sonha em ser logo um adulto, mas algum tipo de insatisfação - eu acho - faz parte dessa fase da vida. Curiosamente, o nome desse mistério do Rosário: "A perda e o reencontro", retrata, de maneira bastante exata, a experiência de cada adolescente.
 
Acrescento aqui mais uma observação pessoal. Ainda que as ciências forneçam algumas definições sobre a adolescência, inclusive os limites de idade, no meu caso, alguma parte de adolescência durou até uns 30 anos. Foi então que, definitivamente, admiti a minha própria homossexualidade. Antes, simplesmente, procurava evitar essa definição. Não queria ou não precisava me definir. De certa forma fui poupado, tanto de grandes traumas dessa descoberta, quanto de ocasiões ou necessidades de colocar em prática os meus desejos.
 
Rezando e meditando hoje "A perda e o reencontro de Jesus no Templo de Jerusalém", quero interceder por todos os adolescentes que enfrentam conflitos internos e externos, principalmente em relação a sua descoberta de homossexualidade.

24 de outubro de 2013

Apresentação no Templo


A cena do Evangelho de Lucas (2, 22-40) é o conteúdo do quarto mistério gozoso do Rosário. Ainda que o ritual pertença à tradição judaica do Antigo Testamento, o texto leva-nos, por analogia, ao momento em que nós mesmos fomos apresentados ao Senhor, através do Batismo. Existe, sim, um ritual devocional à parte, também chamado de "apresentação" que os pais católicos realizam na igreja, ainda antes da cerimônia sacramental do Batismo. Não quero entrar aqui na polêmica católico-protestante a respeito do costume de batizar as crianças recém-nascidas. Meditando a apresentação do Menino Jesus no Templo em Jerusalém, recorro ao dia em que eu mesmo tinha sido admitido à comunidade cristã. Os contos familiares trazem a revelação sobre a ausência do meu pai naquele momento. Ele se dizia ateu e a minha mãe, com a minha avó e um casal de padrinhos, tomaram todos os cuidados para que ele não ficasse sabendo. Sendo assim, cresci  - até uns 15 anos - com a lenda de eu não ter sido batizado. Quando tomei a decisão de me preparar para a I Comunhão, o tema do Batismo veio à tona. O padre que me dava umas aulas particulares (sim, nunca completei uma catequese regular), descobriu nos livros da paróquia de que, na verdade, fui batizado, com quase 1 ano de idade. Enfim... Todas essas coisas fizeram com que sempre me sentisse um tanto diferente em relação aos colegas da rua, da escola e, até mesmo, em relação ao meu irmão mais velho. De certa forma, o "ser diferente" sempre fez parte da minha (auto-) consciência e hoje vejo isso como algo providencial. Quando, finalmente, admiti a minha homossexualidade, não demorei tanto em questão de aceitá-la, como mais uma coisa na lista de componentes que me faziam - desde sempre - um ser diferente. Usei aqui os termos "admitir" e "aceitar", tentando apontar a diferença entre esses dois passos. Houve mais um passo, mais demorado e anterior aos dois que chamaria, talvez, de "intuição". Realmente (usando a expressão popular), desde que me entendo por gente, senti atração pelos rapazes. Passei (entre 13-15 anos) por uma fase de fetiche masoquista (sim, senhor) e - bem mais tarde - tive excelentes experiências de amor, vivido em forma de relacionamentos de até 3 anos. O fato de estar hoje solteiro, talvez se inscreva no conjunto de elementos do "ser diferente". É bom acrescentar aqui que a sensação de ser diferente, não se direciona necessariamente ao orgulho ("sou melhor do que os outros"), nem à baixa autoestima ("sou pior do que os outros"). Talvez - pelo menos nessa altura do campeonato - isso me ajude a olhar, com mais compreensão, a todos aqueles que, por qualquer motivo, estejam sendo tratados (ou se sintam) como diferentes. É quase como naquele slogan da Globo: "Ser diferente é normal".

E o que tudo isso tem a ver com a "Apresentação do Senhor", enquanto um mistério do Rosário? É assim que eu faço essa oração. Partindo de um texto, de uma cena, entro logo em reflexão sobe a vida, principalmente a minha. Os misteriosos personagens de Simeão e Ana, o amor de Maria e José, a sombra de Herodes e, sobretudo, a constante presença amorosa de Deus, repetiram se e ainda se repetem na minha vida. Aquilo que, nos olhos humanos, possa parecer apenas uma coincidência, na verdade revela-se como a sábia e terna providência de Deus. E como a apresentação - tanto no contexto judaico, quanto cristão - de fato é o ato de entrega e de consagração, recordo constantemente a verdade mais importante de toda a minha vida: Eu pertenço ao Senhor. Tudo o que sou, pertence a Ele. A minha homossexualidade pertence a Ele e nenhum padre, pastor ou quem quer que seja, vai me convencer do contrário. Nos períodos em que tive a graça (sim, a graça de Deus) de experimentar o mais profundo e verdadeiro amor - mesmo compartilhado com a pessoa do mesmo sexo - vivi a mais intensa e palpável revelação da divindade que, em sua essência, é o amor perfeito. Descobri na própria pele (e na própria alma) o que quer dizer que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Por mais que alguém chame isso de blasfêmia ou heresia, foi naquele tempo em que vivi o amor que realizei a minha mais plena consagração batismal a Deus.

Não posso deixar de mencionar a espada que - anunciada pelo velho Simeão - traspassou a alma de Maria. A mesma espada, em suas proporções próprias, fere a alma da minha mãe, assim como de todas as mães na face da terra. Sem dúvida, as mães de homossexuais, têm experimentado as dimensões dessa dor, desconhecidas por outras mães, embora a separação, a distância, o próprio momento em que o filho (-a) deixa a casa - tudo isso tenha sido a expressão desse misterioso desígnio de Deus, chamado "a espada", compartilhada por todas. As mães, por sua vez, são dotadas de uma incrível intuição, especialmente em relação aos filhos. Já devo ter falado sobre isso neste blog: embora nunca tenha realizado "aquela conversa" com a minha mãe, estou convencido de que ela sabe a respeito da minha homossexualidade. E me aceita, alás, ama, do jeito como sou. Louvado seja Deus por tudo isso!

Sobre a Apresentação do Senhor, leia também aqui.

22 de outubro de 2013

O nascimento

 
Daqui a pouco vai terminar o mês de outubro e eu aqui estou demorando com as prometidas (?) meditações dos mistérios do Rosário (as anteriores estão aqui e aqui). Ainda estamos no primeiro terço, chamado gozoso, mas - para evitar eventuais piadinhas de mau gosto - podemos dizer que se trata de mistérios de alegria. O momento central, evidentemente, é o nascimento de Jesus que nos leva diretamente ao nosso próprio nascimento e, logo em seguida, à figura da mãe. Foi a minha mãe que me ensinou a associar o dia do aniversário natalício à pessoa da mãe. Ela própria fazia assim, enquanto a minha avó estava viva: completando mais um ano de vida, homenageava a sua mãe com as flores. É como se fosse o segundo Dia das Mães, ainda mais particular, porque pessoal. E não é a questão de esquecer do pai, mas na hora do parto, o meu pai deve ter bebido umas doses, enquanto a minha mãe estava naquela sublime fronteira que separa a vida e a morte. Ela sobreviveu e eu apareci. Rezando o terceiro mistério de alegria, imagino as cenas de Belém, mas, ao mesmo tempo, imagino o meu próprio nascimento. O que já sei, nasci antes do tempo previsto, o que foi definido como "de 7 meses" (sinceramente, não faço ideia sobre essa contagem, nem como calcular a data, digamos, "certa" que seria o dia do meu nascimento, caso corresse tudo no esquema). O que importa é o fato de eu ter nascido e vivido até o momento presente. O resto está nas mãos de Deus. Assim, como o passado. Por isso, nesta ocasião, lembro com muita gratidão, de algumas passagens bíblicas:
  • A mulher, quando vai dar à luz, fica angustiada, porque chegou a sua hora. Mas depois que a criança nasceu, já não se lembra mais das dores, na alegria de um ser humano ter vindo ao mundo. (Jo 16, 21)
  • Todos os que ouviram a notícia ficavam pensando: "Que vai ser este menino?" De fato, a mão do Senhor estava com ele. (Lc 1, 66)
  • Nem todos são capazes de entender, mas só aqueles a quem é concedido. De fato, existem eunucos que nasceram assim do ventre materno (...). (Mt 19, 12)
  • Foste Tu que criaste minhas entranhas e me teceste no seio de minha mãe. Eu Te louvo porque me fizeste maravilhoso; são admiráveis as Tuas obras; Tu me conheces por inteiro. Não Te eram ocultos os meus ossos quando eu estava sendo formado em segredo, e era tecido nas profundezas da terra. Ainda embrião, Teus olhos me viram e tudo estava escrito no Teu livro; meus dias estavam marcados antes que chegasse o primeiro. (Sl 139[138], 13-16)
O que me foi contado inúmeras vezes, desde à infância, é que os meus pais desejavam e esperavam uma menina. Talvez por isso, tenham comprado, antes do tempo, algumas bonecas, com as quais cheguei a brincar, antes de desaparecerem. Ora, não escrevo isso para acusar os meus pais, afinal tudo o que fizeram, foi por um amor ingênuo e sincero. Se foi isso que contribuiu para minha orientação sexual - entre muitos outros fatores - louvado seja Deus.
 
A mina avó costumava me contar em segredo que, quando nasci, o médico chamou o meu pai e lhe disse: "Você tem um filho, mas ele não vai sobreviver". Ainda bem que - neste caso - os médicos às vezes se enganam. A vontade de viver é a força principal na luta contra todos os argumentos que procuram fazer com que a gente desista. Inclusive a homofobia e qualquer outro preconceito. Estou falando apenas sobre o meu caso. Não pretendo de maneira alguma julgar aqueles que, justamente por causa da discriminação, atentaram contra a própria vida. A minha vontade de viver, desafiada já na hora do nascimento, foi se fortalecendo ao longo dos anos e, quando chegou a hora, ajudou-me no processo de reconciliação comigo mesmo, ou seja, na minha autoaceitação.
 
Eu sei que me espera ainda um novo nascimento - para a eternidade. De certa forma, sinto uma ansiedade, em relação a esse momento. Enquanto ele não chega, desejo viver.
 
Outras meditações sobre o nascimento de Jesus podem ser encontradas neste blog, no final do ano 2010 e no início de 2011 (Novena e Oitava de Natal).

18 de outubro de 2013

O conceito da castidade

 
Insisto apontando o problema de linguagem como o principal (ou, pelo menos, inicial) obstáculo em qualquer tentativa de diálogo/aproximação entre os GLBTT e todos os seus oponentes, especialmente, os religiosos (e, mais especificamente: os cristãos). Já citei, em outras ocasiões, a expressão do Papa Bento XVI, de sua encíclica "Deus caritas est" (n. 2): O amor de Deus por nós é questão fundamental para a vida e coloca questões decisivas sobre quem é Deus e quem somos nós. A tal propósito, o primeiro obstáculo que encontramos é um problema de linguagem. O termo « amor » tornou-se hoje uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual associamos significados completamente diferentes.
 
O mesmo acontece com vários outros termos e, justamente por isso, toda tentativa de comunicação, torna-se parecida com o som de um instrumento desafinado. Além da palavra "amor", entendida diversamente, aparece também o termo "castidade" que exerce a função igual ao ponto final de qualquer discurso. Mesmo que alguém consiga argumentar sobre o amor existente no coração de uma pessoa homossexual, a conversa termina, quando entra em cena a falta de castidade, em qualquer relação íntima entre as pessoas do mesmo sexo.
 
Lembro-me aqui de um casal de portugueses, velhinhos, piedosos e de sua história sobre a viagem que fizeram à Aparecida do Norte, para comemorar o aniversário do Sacramento do Matrimônio. Foi uma romaria de uns 3 dias, repleta de momentos comoventes e de muita devoção. Como que de passagem, o marido tinha me informado que todas as noites, os dois, dormiram em camas separadas, "pois estavam no lugar sagrado". Coitado do homem, não ousou tocar em sua esposa. Imagino que nem o beijinho tinha ocorrido nessa circunstância, "para não pecar contra a castidade". Na verdade, o exemplo retrata a associação direta da virtude da castidade, com a total ausência de sexo (inclusive, em qualquer forma preliminar), mesmo aquele que é considerado legítimo por mais ortodoxa e rigorosa das Igrejas.
 
Afinal, o que é a castidade? O Catecismo da Igreja Católica diz que é uma virtude moral, um dom de Deus, uma graça, um fruto da obra espiritual. O Espírito Santo concede o dom de imitar a pureza de Cristo àquele que foi regenerado pela água do Batismo (n. 2345). Portanto, a castidade é a pureza e a pureza é o fruto de purificação. Este último termo podemos encontrar nas páginas da Bíblia com bastante frequência. É claro: quem purifica é o próprio Deus.
 
Podemos aqui recordar uma cena misteriosa que encontramos nos Atos dos Apóstolos. Pedro viu o céu aberto e descer uma coisa parecida com uma grande toalha que baixava do céu à terra, segura pelas quatro pontas. Nela havia de todos os quadrúpedes, dos répteis da terra e das aves do céu. Uma voz lhe falou: Levanta-te, Pedro! Mata e come. Disse Pedro: De modo algum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma profana e impura. Esta voz lhe falou pela segunda vez: O que Deus purificou não chames tu de impuro (At 10, 11-15). Certamente, neste momento, podem aparecer os argumentos do tipo: "uma coisa é a pureza ritual e a outra, a pureza moral". Porém, o texto diz: "O que Deus purificou não chames tu de impuro", sem especificar a abrangência da coisa. Pelo que entendo de português, a expressão "o que", corresponde ao "tudo (que)". Será, então, que Deus tenha purificado, também, o ato íntimo entre as pessoas do mesmo sexo?
 
O curioso é que em todas as explicações sobre a virtude da castidade, fornecidas pelo Catecismo, não aparece a palavra "amor". Não é o amor que purifica? Deus é amor e onde há amor, Deus está presente. Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor - disse Jesus sobre a mulher na casa de um fariseu (Lc 7, 47).
 
Evidentemente, neste exato momento, muitos irão afirmar que não existe o amor verdadeiro entre as pessoas do mesmo sexo, ou então, aquilo que acontece na intimidade de um casal homossexual, pode ser chamado de qualquer coisa, menos de amor. Queria perguntar aqui ao "filósofo" Olavo de Carvalho, ao "pastor" Marco Feliciano (e aos seus respectivos seguidores), se algum deles já sentou para ouvir o que tem para dizer um(a) homossexual? Com certeza, nunca fizeram isso, porque - conforme às suas doutrinas - "tais pessoas" não são dignas de diálogo. Valeria a pena observar o homem que passa, noites e mais noites à beira da cama de hospital, onde agoniza o seu amado. Alguém ainda vai dizer que é apenas desejo carnal que os une? Ali já não existe desejo carnal. É o amor. E aqueles homossexuais que estão prontos para dar a própria vida pela pessoa amada (ou já o fizeram), não expressam, por acaso, um amor que Jesus chama de maior (cf. Jo 15, 13)?
 
Eu sei que existem muitos homossexuais que procuram e vivem o "sexo por sexo" e detestam "todo aquele papo sobre o amor". Certamente, não irão gostar dessa minha opinião. O que, então, acontece, de fato, naquele ato sexual, movido apenas por tesão, pelo desejo da carne? É como se alguém se masturbasse, usando um objeto, neste caso, uma outra pessoa. Quem costuma assistir os filmes pornô, repara-se muito com esse tipo de comportamento. Permita-me perguntar: você tem nojo de zoofilia? Ou acha bizarro, alguém enfiar o seu pênis no buraco, feito em uma melancia? Entretanto, quem transa para sentir apenas o seu próprio prazer, sem se importar com a sensação do outro, está reduzindo outra pessoa ao nível de um animal, ou de uma melancia. Isso, sim, é o amor impuro, porque o amor está ausente. Estou falando de amor recíproco que só é possível entre dois seres humanos (não me venha dizer aqui que você e o seu cachorro se amam!). O amor recíproco, por sua vez, requer a consciência e a liberdade. Por isso, nunca será puro o ato sexual entre um adulto e uma criança. A pedofilia é crime e gravíssimo pecado! Quando falo de amor impuro que apenas usa outra pessoa, como se ela fosse um brinquedo para masturbação, refiro-me a muitos (muitos mesmo!) casos que acontecem na vida de casais heterossexuais. Agora virou piada, mas a famosa frase de uma minissérie nacional, retrata perfeitamente essa realidade (inclusive, aprovadíssima pela Igreja durante muitos séculos): "Prepara-te! Hoje vou te usar!". Alguém vai me dizer que só pelo fato de ter acontecido entre homem e mulher (casados na igreja), tal sexo é casto? A castidade é o amor. E amar, nunca significará usar. O sexo é casto, portanto, quando existe o amor. Não tem nada a ver com a orientação sexual.
 
Será que, a partir deste princípio, podemos começar a conversar?

13 de outubro de 2013

O antidepressivo chamado gratidão

 
A palavra "depressão" tem vários significados. Além de ser o nome de um distúrbio mental, altamente debilitante, a ponto de ser considerado por muitos como o “mal do século”, o termo é usado no estudo de geografia (uma região da superfície da Terra cuja altitude é mais baixa que a região à sua volta. Quando esta região situa-se numa altitude abaixo do nível do mar, ela é chamada de depressão absoluta), meteorologia (uma zona da atmosfera onde a pressão atmosférica é mais baixa que à sua volta) e economia (longo período de estagnação econômica mais prolongado e severa do que uma recessão). Para quem não é um perito em psicologia/psiquiatria, em geografia, nem meteorologia/climatologia (tipo: eu), a imaginação leva a visualizar uma linha que marca o "nível zero". Logo, aquilo que estiver abaixo dessa linha, está em depressão.
 
Acredito na existência de uma depressão espiritual/intelectual/social que talvez não seja uma doença, mas consiste em uma séria limitação do horizonte existencial, ou seja, da percepção que temos de nós mesmos e do mundo em nossa volta. Uma das áreas mais prejudicadas é a dimensão espiritual (ou religiosa) e a outra, sem dúvida, é a nossa convivência com os demais seres humanos. Basicamente, trata-se de uma espécie de "deslocamento" dos valores para baixo. A nossa cultura/mentalidade é, de modo geral, malcontente. A nossa mídia é negativista. As nossas conversas revelam, em sua maior parte, a grande insatisfação com tudo e com todos. Perdemos a capacidade de enxergar o bem, porque o bem passou a ser visto como o "nível zero". E o zero não merece atenção, é apenas normal. É como o ar com o qual respiramos, mesmo sem percebê-lo. A consequência imediata dessa situação é uma falta de gratidão, quase absoluta. Provavelmente, até a palavra usada para expressar a gratidão, tenha sido contestada, por se associar à obrigação que, por sua vez, é a maior inimiga do relativismo vigente.
 
Atenção! Eu não estou pregando um "lulismo-paz-e-amor" barato, nem pretendo anestesiar a sensibilidade para com os males que assolam o nosso mundo. Denunciar o mal, lutar contra as injustiças, apontar os problemas... não tem nada a ver com a depressão cultural. É, antes, um ato de coragem, um sinal de boa vontade, enfim... é tudo de bom. O que estou tentando dizer é que, talvez devido à epidemia do mal e à sua ampla divulgação, tenhamos perdido a noção daquilo que é positivo, precioso, enriquecedor, o que torna a nossa vida melhor, o que nos faz crescer e, finalmente, desperta(ria) em nós a gratidão.
 
Os textos bíblicos da liturgia de hoje falam sobre isso. A questão de gratidão/ingratidão está mais nítida no Evangelho (Lc 17, 11-19): Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. Então Jesus lhe perguntou: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?". O mesmo tema, frisando mais a gratidão (sem mencionar o lado oposto), apresenta o texto da I leitura (2Rs 5, 14-17). O sírio Naamã, já surpreendido pela simplicidade da graça de Deus, desdobra-se ao procurar a melhor maneira para agradecer pela cura. Descobre, finalmente, que a melhor forma de agradecer a Deus é o culto prestado a Ele. A ideia continua no Salmo (Sl 97): O Senhor fez conhecer a salvação e às nações, sua justiça; recordou o seu amor sempre fiel pela casa de Israel. Paulo, na segunda leitura (2Tm 2, 8-13), conclui com um conselho e um desabafo: Lembra-te de Jesus Cristo (...), suporto qualquer coisa.
 
Confesso que me entristece o fato de ver/ler/ouvir tantas declarações de agnosticismo e ateísmo (explícitos), de menor ou maior distanciamento dessa ou daquela religião, feitas pelos representantes do "mundo GLBTTS". Tudo bem, a ação gera a reação. Sinto, porém, por trás dessa contestação, aquela lógica da depressão cultural.  Por mais que alguém diga que tenha abandonado a instituição religiosa e não o próprio Deus, a direção continua a mesma. É possível pensar assim: "Eu abandono um «deus» que me foi transmitido pela Igreja e vou procurar o Deus verdadeiro". Se for realmente isso, tudo bem, mas na prática, abandona-se a religião e se esquece de Deus, ou não se acredita mais nem na sua existência.
 
Lembro-me de uma senhora que, em certa época, era a minha vizinha. Ela, desde a infância, tinha um grave defeito nos pés que não lhe permitia andar. A mulher vivia acamada, mas não me lembro de ter conhecido a pessoa que fosse mais alegre e otimista. Ela vivia louvando e agradecendo a Deus. Várias pessoas iam lá, na casa dela, para receber (não para dar!) o conforto em seus problemas e ela levava todo mundo à oração, à leitura da Bíblia e ao louvor. Muita gente saía de lá com a motivação renovada para agradecer a Deus.
 
Consciente de toda intolerância, homofobia, rejeição familiar e social e de tudo o mais que afeta a vida das pessoas GLBTT, pergunto: nós, de fato, não temos nenhum motivo para agradecer a Deus? O que somos e temos, consideramos - simplesmente - como o "nível zero" e o resto como "abaixo de zero"? Será que não podemos descobrir a gratidão (a Deus, às pessoas), como o antídoto para depressão? Eu sou capaz de dizer: "Agradeço a Deus pelo fato de eu ser gay"?

10 de outubro de 2013

Anunciação

Fonte: deviantART
 
Como falei recentemente, o rosário faz parte da minha experiência da fé e por isso decidi compartilhar aqui alguns pensamentos, seguindo o esquema proposto pela própria estrutura desta devoção. São os mistérios que nos ajudam a percorrer os momentos fundamentais da história da Salvação, ou melhor, do seu ponto mais alto - afinal, a história da salvação começou com a criação e só vai terminar com o fim dos tempos. Ainda que acreditemos na vida eterna, seria difícil aplicar o termo "história" a uma realidade que, pelo que parece, não se submeterá mais às dimensões (limites?) do tempo e de sua passagem. O conteúdo das meditações do rosário visam o ápice da história da salvação, que São Paulo chamou de "plenitude dos tempos": (...) quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher (Ga 4, 4).
 
Embora o título mais usado para descrever o momento inicial tenha sido "Anunciação", um pouco de reflexão leva a crer que o essencial no encontro do Anjo com Maria foi o "SIM" dela e, consequentemente, a encarnação do Verbo, isto é, a concepção do Menino no seio de Maria que, curiosamente, o próprio texto bíblico não menciona naquela altura. O que mesmo chama a minha atenção é a série de situações e acontecimentos tão diferentes daquilo que pode ter sido chamado de "padrão", inclusive na própria lei de Deus e nos costumes do povo, baseados naquela mesma lei. E o que dizer da "lei natural"? Se não se tratasse dos desígnios de Deus, o mais adequado seria dizer que tudo deu errado. A gravidez fora do casamento, o casamento sem a transmissão de vida (reprodução), a paternidade "putativa" (olha, não é isso o que o termo sugere!), a "família-modelo" (a Sagrada), tão diferente de todas as famílias anteriores e posteriores... A primeira ideia que vem à cabeça é que Deus, certamente, queria quebrar na mentalidade humana o conceito de "padrão".
 
O "SIM" de Maria - literalmente: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38) - foi precedido pela perturbação interior daquela que era a cheia de graça (cf. Lc 1, 28) e bendita entre as mulheres (cf. Lc 1, 48), pela incapacidade de entender e pela pergunta "como?" que, sem dúvida, contém o "por que?" (talvez, até: "por que eu?") e tantas outras interrogações. Mais uma ideia: Deus admite a nossa limitação e acolhe as nossas perguntas, ainda que quisesse deixa-las sem resposta suficientemente esclarecedora.
 
Por mais que me sinta distante da santidade, pureza e glória de Maria Santíssima, entro aqui com a minha analogia. Como um homossexual, vejo a parte essencial da minha realidade como aquela que não se encaixa nos "padrões" descritos pela lei natural, lei de Deus (pelo menos essa que me foi transmitida pela Igreja) e pelos costumes vigentes. Faço aqui uma observação: será que agindo exatamente desta forma incomum, o próprio Deus não quer ampliar o nosso entendimento de sua lei?
 
Quantas vezes brotaram no meu coração as mais existenciais perguntas, tais como: "Por que?", "Por que eu?", "Com viver?", "Como amar?". Por que seria uma blasfêmia, ou, ao menos, uma ousadia, considerar Maria como alguém que o próprio Deus colocou bem ao meu lado? Será um abuso pensar que Maria diz a cada um de nós: "Eu te compreendo"?
 
Deixo essas ideias aqui e vou me entregar à oração serena e confiante...
 
Outra meditação sobre a Anunciação está aqui.

29 de setembro de 2013

Lázaro ou o rico?

 
Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. (Lc 16, 19-21)
 
A reflexão sobre o Evangelho de hoje (Lc 16, 19-31) pode ser feita de várias maneiras. Uma delas é aquela que publiquei neste blog em 2011. A riqueza da Palavra de Deus, porém, permite-nos novas descobertas, principalmente, quando fazemos uma "leitura existencial": Observe, conforme a situação que você está vivendo, que personagem se encaixa melhor em você. Coloque-se no lugar de cada um deles (Pe. Léo). "Com quem nos identificamos?". A razão para o uso de tal abordagem é afinar a nossa inteligência, para que possamos, então, começar a levantar certas questões... (Pe. James Alison). Partindo destes princípios, proponho hoje três pontos de vista diferentes, lembrando de que quem está lendo o texto é um homossexual que recebeu o dom da fé cristã e procura cultivá-la, dentro do contexto de sua específica identidade.
 
1. A primeira, mais imediata e mais nítida interpretação, leva-me a identificar a pessoa homossexual na figura de Lázaro e... a Igreja, sendo representada pelo rico. Por que assim? Se olharmos bem à sociedade de hoje, ainda que não seja no sentido popular da palavra, mas quem se veste com roupas finas e elegantes e faz festas esplêndidas todos os dias, é a Igreja. No chão (e, muitas vezes, sem chão), à porta da igreja, sem poder (ou querer) entrar, está o/a homossexual, cheio de feridas. Recordo aqui as palavras do Papa, de sua recente entrevista, que dizia: Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Por sua vez, a Igreja, faz as suas festas esplêndidas, dedicando-as (pelo menos, este é o propósito) a Deus que é Amor. Além disso, a Igreja declara ter o monopólio do amor e é ela quem decide qual forma de amor é correta e permitida. O pobre Lázaro quer matar a fome com as sobras que caem da mesa do rico e, provavelmente, fica na mesma situação do filho pródigo: O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam (Lc 15, 16). A pessoa homossexual tem fome e sede da graça de Deus e do amor humano. Enquanto "o rico" não lhe der a sua permissão, vêm os cachorros lamber as feridas de Lázaro. Sem o acesso à graça e sem a permissão para amar, o Lázaro deixa-se lamber pelos cachorros do sexo casual, da prostituição, da promiscuidade. Uma lambida de cachorro pode, até, trazer o alívio momentâneo, mas, em consequência, agrava o sofrimento. Lázaro, sujo e lambido pelos cachorros, é nojento aos olhos do rico, por isso, cria-se no coração dele uma particular indiferença. O detalhe da parábola de Jesus fala de festas diárias. Imagino aquele rico, saindo e entrando, todos os dias, por aquela mesma porta, diante da qual, no chão, estava o pobre Lázaro. Afinal, o rico precisava resolver muita coisa em relação às festas, mas, certamente, Lázaro tenha se tronado mais um elemento da paisagem ao qual não se presta mais atenção.
 
2. A primeira leitura do Evangelho pode conservar em nós o "coitadismo". Olhar ao mundo e à Igreja, exclusivamente da posição de vítima, certamente não vai fazer bem a ninguém. Eu sei que existe a homofobia e que a luta contra ela é importante. Entretanto, a minha vida não pode se reduzir ao ponto de vista de Lázaro. Como escrevi em 2011, o "mundo gay" estende-se por todas as camadas da sociedade, mas a mídia (inclusive a do próprio "mundo gay") apresenta, mais frequentemente, os homossexuais que se vestem com roupas finas e elegantes e fazem (ou participam de) festas esplêndidas todos os dias. Por sua vez, é conhecida a sensibilidade dos homossexuais em relação a "roupas finas e elegantes", bem maior que dos heterossexuais. Seria possível, então, ler a mesma parábola de Jesus, identificando o/a homossexual com o rico? E, com o rico que fica insensível em relação ao pobre Lázaro? Quem, então, seria representado por Lázaro? Vamos inverter os papeis. Para muitos homossexuais é, justamente, a Igreja que não merece qualquer atenção. Quantos, entre nós, deixam de lado a Igreja, permitindo que seja lambida pelos cachorros (por exemplo, aqueles que só sabem falar mal dela). E da nossa riqueza não cedemos coisa alguma: nem a mera presença, nem os talentos que temos, nem a nossa fé e, menos ainda, a experiência do nosso amor. Talvez a Igreja queira se alimentar com as sobras que caem de nossas mesas, mas ela é, simplesmente, desprezada.
 
3. Talvez uma terceira tentativa de leitura possa ser mais útil. Independentemente do fato de eu ser gay, ou um "ativista" da Igreja, sou chamado à caridade. As periferias, mencionadas tanto pelo Papa, muitas vezes encontram-se diante da minha porta. Jesus disse: Pobres vós tereis sempre convosco (Mt 26 11) e o Apóstolo Pedro, lembra o antigo provérbio: a caridade cobre a multidão dos pecados (1 P 4, 8; cf. Pr 10, 12). O que importa, é a caridade, a sensibilidade, a partilha. É a questão de imitar o Senhor que faz justiça aos que são oprimidos, dá alimento aos famintos, faz erguer-se o caído, protege o estrangeiro e ampara a viúva e o órfão, como dizia o Salmo de hoje (Sl 145). Faz bem fazer o bem. E não apenas para uma satisfação momentânea, mas em vista à eternidade. Além disso, a experiência de Lázaro, assemelha-nos a Jesus, tanto em sua cruz, quanto na glória.
 
Termino com os votos que, tanto aqui, quanto na eternidade, desapareça aquele grande abismo, do qual fala Abraão na parábola: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós (Lc 16, 26).

28 de setembro de 2013

Medo de perguntar


Os discípulos não compreenderam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto. (Lc 9, 45)

É o último versículo do pequeno trecho do Evangelho deste sábado. As perguntas, mas também o medo de fazê-las, acompanham-nos durante a vida inteira. Bem, pelo menos, depois de encerrarmos a nossa infância. É próprio de toda criança fazer perguntas de todo tipo, inclusive aquelas que deixam os adultos embaraçados. Talvez esta tenha sido uma das razões de Jesus afirmar: quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele (Mc 10, 15).

Entretanto, o próprio Jesus não respondia a todas as perguntas: Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se e perguntaram-lhe: Com que direito fazes isso? Quem te deu esta autoridade? Respondeu-lhes Jesus: Eu vos proporei também uma questão. Se responderdes, eu vos direi com que direito o faço. Donde procedia o batismo de João: do céu ou dos homens? Ora, eles raciocinavam entre si: Se respondermos: Do céu, ele nos dirá: Por que não crestes nele? E se dissermos: Dos homens, é de temer-se a multidão, porque todo o mundo considera João como profeta. Responderam a Jesus: Não sabemos. Pois eu tampouco vos digo, retorquiu Jesus, com que direito faço estas coisas (Mt 21, 23-27). Algo parecido acontecia, quando se tratava de outras perguntas, feitas de má fé, por exemplo, sobre o imposto a ser pago - ou não - ao César (Mt 22, 15, 21), mas, principalmente, na hora do julgamento, diante do Sumo Sacerdote, de Herodes e de Pilatos. Pilatos perguntou-lhe outra vez: Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam! (Mc 15, 4).

Quais são as conclusões práticas para nós? Pelo menos duas... A principal maneira de seguir a Jesus, consiste em imitá-lo. Logo, não temos a obrigação de responder a todas as perguntas. Por outro lado, Jesus nem sempre responde aos nossos questionamentos, ainda que Ele próprio tenha sido a resposta a todas as interrogações do ser humano. Ou, então, Ele responde, sim só que somos nós que não sabemos ouvir...

Algumas perguntas existenciais sem resposta, levam muita gente a perder o sentido da vida, a ponto de acabar com ela com suas próprias mãos. "Por que eu?", "Por que nasci assim?", "Por que sinto isso?" - são as mais frequentes interrogações que fazem as pessoas homossexuais, pelo menos na hora da descoberta e, as vezas, pelo resto de sua vida. Muitos pais se perguntam "Onde nós erramos?", "Quem fez isso com o nosso filho/a nossa filha?", "O que fazer para livrá-lo(a) dessa desgraça?", além de todas aquelas, no estilo "O que irão dizer os vizinhos sobre a nossa família?". Há perguntas que não devem ser feitas, como aquela que fez, em público, o doutor César a seu filho Félix (na novela da Globo "Amor à vida"): "Quem é quem na cama? Quem é mulher e quem é homem?". Sem dúvida, alguns pais ficam curiosos e, sinceramente, não tenho certeza se eu mesmo negaria a resposta, caso a minha mãe me perguntasse. É, porque conheço a minha mãe e sei que ela faria (caso fizesse!) esta pergunta sem maldade e não para julgar, condenar, humilhar, etc. Não se trata de entrar em detalhes anatômicos, mas de querer saber como vai a vida amorosa do filho. Justamente, sem entrar em detalhes, a minha mãe conversa com o meu irmão (casado com uma mulher, com quem tem três filhos), sobre a vida conjugal dele. São as conversas cheias de tato, respeitosas, mesmo assim, tocam nos assuntos de intimidade. Acredito que, se eu vivesse em um relacionamento, as conversas com a minha mãe incluiriam tais assuntos.

Ah, quem nunca fez, no seu íntimo, aquela pergunta angustiante "Será que ele/ela é...?". As biblio- e videotecas estão repletas de obras que tentam descrever o arrependimento das pessoas que não tiveram coragem de dar aquele primeiro passo. As vezes funciona o "gaydar", cria-se aquele clima, surge a química. Comigo já funcionou... Ou, funcionava, antigamente. Mas, também, já fiz aquela pergunta, porém, eu acho que a forma, ou a hora, não tenham sido adequadas. Perdi o contato com alguns amigos por causa de algumas perguntas ousadas, ou entendidas mal...

Outra coisa, para muitos bastante polêmica, é a conversa entre os homossexuais, a respeito de sua "opção na cama". Aquele famoso: "ATV/PAS?". Vários comentários nas redes sociais expressam indignação com este tipo de pergunta. Eu diria o seguinte: exatamente assim, como em uma conversa respeitosa em família, o assunto não deve ser escancarado, nem colocado em primeiro lugar. Entretanto, penso que deve aparecer em algum momento e bem antes de duas pessoas decidirem ir para cama e antes de se apaixonar, um pelo outro. Por mais que se diga que "não existe 100% isso ou aquilo", não seria legal descobrir a eventual incompatibilidade, somente na hora "H".

Para terminar, deixo aqui uma pergunta aberta. Todos se lembram da revelação bíblica sobre a criação do ser humano. É o texto citado em quase todos os documentos da Igreja que descrevem a homossexualidade como profundamente desordenada e condenam os atos homossexuais. A parte principal dos argumentos não é a afirmação de que Deus tenha criado o homem a sua imagem e semelhança, mas que Ele "os fez homem e mulher", ordenando, logo depois, que fossem fecundos. A própria narração do Livro Sagrado, usando a sua predileta linguagem alegórica, diz o seguinte:

O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.” Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais dos campos, e todas as aves dos céus, levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar; e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome. O homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos céus e a todos os animais dos campos; mas não se achava para ele uma ajuda que lhe fosse adequada. Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. "Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem. Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne (Gn 2, 18-24).
 
A minha pergunta é: o que teria dito o homem, se Deus, em vez de mulher, levasse para junto dele... o outro homem? Não daria a mesma resposta: "Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne"?

22 de setembro de 2013

Mês da Bíblia (8) - Celebração final


[A introdução baseada no texto da Editora Paulinas] A celebração final é o resumo dos 4 encontros e é baseada no texto de Lc 24,13-35 - o relato exclusivo de Lucas, marcado pelo escutar e reler as Escrituras, à luz do Mistério Pascal de Jesus na certeza de que é no partir o pão, que o encontro com o Ressuscitado se faz sempre presente. É por meio desse encontro que somos chamados a anunciar a Alegre Notícia: Jesus ressuscitou e vive em nosso meio.

Uma celebração que imagino, requer a presença de algumas pessoas... Bem, pelo menos de mais uma pessoa. Seria ótimo poder celebrar o dom da Palavra de Deus, ao lado de uma pessoa amada. Algumas propostas do "Desafio de amar" falam, justamente, sobre isso. No meu caso, isso é uma lembrança do passado e faz parte de sonho sobre o futuro. Na verdade, já cogitei a possibilidade de namorar uma pessoa de outra religião, porém, a realidade da vida em comum, na qual se compartilha tudo, inclusive a espiritualidade, é um ideal.

Deixando de lado essas divagações, vamos ao que interessa. Temos o material de reflexão, dividido em 4 partes (estão aqui os encontros: , , , ). Por mais que uma parte pareça diferente da outra, podemos encontrar um "fio condutor", um caminho, como aquele que percorreram dois discípulos, rumo a Emaús, acompanhados por Jesus Ressuscitado.

O ponto de referência pode ser a "mentalidade do descartável", sobre a qual o Papa Francisco tem falado ultimamente com frequência.

Em sua carta, dirigida ao Primeiro-Ministro britânico, David Cameron, o Santo Padre escreveu: Quer as medidas de longo alcance para assegurar uma adequada instância de legalidade que oriente todas as decisões econômicas, quer as urgentes medidas comuns para resolver a crise econômica mundial devem ser norteadas pela ética da verdade que inclui, antes de tudo, o respeito pela verdade acerca do homem, que não é um elemento adicional da economia, nem um bem descartável, mas algo dotado de uma natureza e de uma dignidade que não podem ser reduzidas a um simples cálculo econômico. (15. 06. 2013)

Aos jornalistas, durante o voo ao Brasil, o Papa declarou: Temos de acabar com esse hábito de descartar. Ao contrário, cultura da inclusão, cultura do encontro, fazer um esforço para integrar a todos na sociedade. (22. 07. 2013)

Na Comunidade de Varginha, no Rio, ouvimos a advertência: Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável! Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável, porque nós somos irmãos. Ninguém é descartável! (25. 07. 2013)

Durante uma breve entrevista, no estúdio da Rádio Catedral, o Papa voltou a este assunto: Que todos trabalhemos por esta palavra que hoje em dia não é bem aceita: solidariedade. É uma palavra que procuram deixar de lado, sempre, porquê incômoda. Todavia, é uma palavra que reflete os valores humanos e cristãos que hoje nos pedem para ir contra; da cultura do descartável, de que tudo é descartável. Uma cultura que sempre deixa as pessoas de fora: deixa à margem as crianças, deixa à margem os jovens, deixa à margem os idosos, deixa a fora aos que não servem, aos que não produzem, e isso não pode acontecer. (27. 07. 2013)

Na Catedral do Rio, durante a Missa com os bispos e padres da JMJ, o Papa disse: Em muitos ambientes, e de maneira geral neste humanismo economicista que impôs-se no mundo, ganhou espaço a cultura da exclusão, a “cultura do descartável”. (27. 07. 2013)

Pensando bem, os dois discípulos do Senhor que estavam caminhando a Emaús, haviam descartado a pessoa de Jesus e, também, os sonhos que, eles mesmos, associavam a Ele:  Perguntou-lhes ele: Que foi? Disseram: A respeito de Jesus de Nazaré... Era um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo. Os nossos sumos sacerdotes e os nossos magistrados o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam. (Lc 24, 19-21)

Nós, os gays, temos uma experiência a mais que nos ajuda a compreender melhor esta passagem do Evangelho. Muitos de nós já viveu, ou ainda vive, a sua "caminhada a dois" que, exatamente por causa de sua dimensão gay, está sendo descartada pela Igreja, pela família e pela sociedade em geral. Não poucos, gays e lésbicas, que alcançaram a meta de tantos esforços e, finalmente, formam casais, sentem-se em obrigação de descartar Jesus, a fé e a Igreja de sua vida. A eles - a todos nós - Jesus dirige as mesmas palavras: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! (Lc 24, 25). É incomparável o momento, quando, um ao outro, podemos dizer: Não se nos abrasava o coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc 24, 32). Afinal, Ele não nos descarta!

Jesus foi descartado, também, pelos habitantes de Nazaré, após a revelação de sua identidade messiânica. Como meditamos no 1° encontro (também aqui), de certa maneira, Jesus "saiu do armário" e encontrou-se com uma reação violenta: a estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual era construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se (Lc 4, 28-30).

Vimos no 2° encontro que o ato de descartar, no sentido mais profundo do Evangelho, refere-se a todas aquelas coisas que não nos permitem seguir a Jesus. Em primeiro lugar, evidentemente, está o pecado. Destaca-se, porém, um tipo específico de pecado, frequentemente difícil a ser admitido e que consiste no apego às coisas ou às ideias. É, especialmente, aquela maneira de avaliar as coisas e as pessoas - inclusive a si mesmo - de acordo com alguns rótulos que a mentalidade vigente entrega, já prontos, em nossas mãos. Ainda que o texto bíblico, proposto para este encontro, consista em apenas um versículo (Lc 5, 11), temos ali o contexto mais amplo:  (...) apanharam peixes em tanta quantidade, que a rede se lhes rompia. (...)  Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. (...) Então Jesus disse a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens. (Lc 5, 6. 8. 10). Simão Pedro descartava a si mesmo, mas Jesus o resgatou. O Mestre não pronunciou qualquer tipo de julgamento. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem. (Jo 2, 25). Apenas disse a Simão e repete a cada um de nós: Não temas! O eco destas palavras de Cristo, encontramos na expressão que o Papa Francisco usou recentemente, referindo-se às pessoas homossexuais: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. A verdade é que muitos homossexuais, oprimidos pela mentalidade reinante, incorporam a cultura do descartável, a partir de si próprios. Sentem-se indignos, até mesmo de existir, o que tem a sua mais trágica manifestação em tantos suicídios.

O 3° encontro nos levou a contemplar as (mais descartadas pela cultura do seu tempo) mulheres, no seguimento de Jesus. Podemos acrescentar aqui mais um trecho da Carta Apostólica de João Paulo II "Mulieris dignitatem", já citada no próprio encontro: Admite-se universalmente — e até por parte de quem se posiciona criticamente diante da mensagem cristã — que Cristo se constituiu, perante os seus contemporâneos, promotor da verdadeira dignidade da mulher e da vocação correspondente a tal dignidade. Às vezes, isso provocava estupor, surpresa, muitas vezes raiando o escândalo: « ficaram admirados por estar ele a conversar com uma mulher » (Jo 4, 27), porque este comportamento se distinguia daquele dos seus contemporâneos. « Ficaram admirados » até os próprios discípulos de Cristo. O fariseu, a cuja casa se dirigiu a mulher pecadora para ungir os pés de Jesus com óleo perfumado, « disse consigo: "Se este homem fosse um profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que o toca: é uma pecadora" » (Lc 7, 39). Estranheza ainda maior ou até « santa indignação » deviam provocar nos ouvintes satisfeitos de si as palavras de Cristo: « Os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus » (Mt 21, 31) [n. 12]. A mesma "santa indignação" - como ironicamente comenta João Paulo II - está sendo provocada, ainda hoje, no coração piedoso dos discípulos de Jesus, diante da profissão de fé cristã, feita pelas pessoas homossexuais.

Chegamos, finalmente, ao 4° encontro, no qual detectamos a mesma "cultura do descartável", como o maior desafio e problema no seguimento de Jesus, de acordo com o capítulo 15 do Evangelho de Lucas. Recentemente, tive a ocasião de ouvir a pregação de um padre que analisava esta passagem bíblica. Dizia, logo no início, que existe uma conexão direta entre as duas pequenas parábolas de Jesus (sobre a ovelha perdida e sobre a mulher que perdeu uma moeda) com a grande história do pai e de seus dois filhos. O padre dizia que, assim como a ovelha, o filho mais novo, perdeu-se longe de casa, mas, com o filho mais velho, aconteceu o mesmo, só que dentro de casa - assim, como a moeda que foi perdida dentro de casa. E acrescentava: toda essa parábola foi contada por causa do filho que se perdeu por perto. Nunca saiu de casa, mesmo assim, conseguiu se perder. E pior, diferentemente do seu irmão mais novo, ele não foi capaz de admitir isso. Assim chegamos à conclusão, respondendo ao questionamento proposto, de que os desafios e os problemas no seguimento de Jesus, associam-se, também, à mentalidade do descartável. O irmão mais velho descartou o seu irmão (a ponto de não conseguir mais chamá-lo de irmão), descartou o pai e o seu amor. É muito provável que tenha descartado, também, a chance de reencontro, de inclusão, de diálogo e de reconciliação.

Jesus - tantas vezes descartado - aposta nos descartados (e, até naqueles que se autodescartam) e não descarta ninguém. Aqueles que aceitam o chamado do Senhor e se tornam discípulos-missionários, seguem o mesmo caminho. Por mais que tenham sido descartados, não descartam a esperança de um mundo melhor e, na eternidade, a plenitude da vida feliz.

Como dizia a introdução, estamos percorrendo o caminho catequético-litúrgico, marcado pelo escutar e reler as Escrituras, à luz do Mistério Pascal de Jesus e o reavivar, na certeza de que é no partir o pão, que o encontro com o Ressuscitado se faz sempre presente. É por meio desse encontro que somos chamados a anunciar a Alegre Notícia: Jesus ressuscitou e vive em nosso meio.

Não descartemos essa alegria!

18 de setembro de 2013

Mês da Bíblia (7) - 4° encontro

Estou seguindo aqui o roteiro de encontros, proposto pela Comissão  Bíblico-Catequética da CNBB, para o Mês da Bíblia de 2013. O 4° encontro, baseado no capítulo 15 do Evangelho de Lucas, tem como o tema: "Os desafios e problemas no seguimento [de Jesus], priorizando Lc 15". Vale lembrar que, neste ano, o Mês da Bíblia conta com o lema "Alegrai-vos comigo, encontrei o que estava perdido” (Lc 15). Os perdidos e reencontrados, descritos neste capítulo, são: a ovelha, a moeda e, principalmente, o filho - mais conhecido pelo apelido de "pródigo", cuja história ocupa 22 dos 32 versículos. Neste blog pode ser encontrada uma reflexão sobre o filho pródigo, portanto, hoje vou me deter em duas "microparábolas" (uma consiste em 4 versículos e outra em 3 - mesmo assim, o próprio Evangelista Lucas, insere em sua narrativa a seguinte introdução: Então lhes propôs a seguinte parábola [v. 3], o que sugere que as pequenas histórias, sobre o pastor das ovelhas e mulher das moedas, fazem parte integral da longa história sobre o pai e seus dois filhos).
 
O que une esses fatos tão distintos, é a alegria do reencontro. É importante notar essa conclusão, pois, vezes sem fim, temos ouvido as pregações em nossas igrejas que, ao falar - principalmente - sobre o filho pródigo, insistem em frisar o pecado, como se fosse essa a essência do ensinamento de Jesus. O texto, porém, não deixa dúvidas. Antes de apresentar as parábolas (ou a parábola, como ele mesmo diz), Lucas faz um comentário muito claro: Aproximavam-se de Jesus os publicanos e os pecadores para ouvi-lo. Os fariseus e os escribas murmuravam: Este homem recebe e come com pessoas de má vida! Então lhes propôs a seguinte parábola (Lc 15, 1-3). Jesus contrapõe a amargurada murmuração dos fariseus e escribas (representados pelo filho mais velho) ao júbilo no céu (retratado pela alegria do pastor, da mulher e do pai) por um pecador que se arrepende e faz penitência.
 
Aqui está, de fato, a resposta à questão indicada para este 4° encontro do Mês da Bíblia: "Os desafios e problemas no seguimento de Jesus". De novo, vou apelar à atenção: não se trata de desafios e problemas na pregação do Evangelho de Jesus, mas de desafios e problemas daqueles que ouvem o anúncio e querem corresponder a ele pela atitude de segui-lo. Bem... o lógico seria que os pregadores fossem, antes de tudo, os primeiros seguidores, mas - tanto a leitura, quanto a experiência - dizem que, muitas vezes, acontece o contrário. Podemos, então dizer que um dos desafios/problemas no seguimento de Jesus, sejam, lamentavelmente, os fariseus e escribas, travestidos de pregadores, pastores, padres, bispos, catequistas e tantos outros dignitários da(s) Igreja(s)...
 
Muitos de nós, homossexuais, já estivemos diante de um "irmão mais velho", ou seja, de um fariseu e escriba que "murmurava", ou fazia coisas bem piores, só ao nos ver por perto. Por outro lado, não é tão difícil imaginar a argumentação de muitos cristãos que diriam: "Jesus fala de pecador que se converte e vocês, gays, lésbicas e outros pecadores, nem pensam em mudar de vida!". Tudo bem, podemos começar uma conversa sobre os pecados de homossexuais (e todos os outros que não sejam heterossexuais), mas acredito que chegaríamos à conclusão de que, em sua maioria, tenham sido os pecados de cada ser humano, independentemente de sua orientação sexual (já que a homossexualidade em si, não é o pecado, por não ser algo voluntário).
 
Voltando ao texto do Evangelho, as palavras estão claras: Aproximavam-se de Jesus os publicanos e os pecadores para ouvi-lo. Os fariseus e os escribas murmuravam: Este homem recebe e come com pessoas de má vida! Ainda que alguém queira nos identificar como publicanos, pecadores e pessoas de má vida, muitos de nós desejam apenas aproximar-se de Jesus para ouvi-lo.
 
Vou dizer mais, principalmente aos que gostam de nos chamar de "sodomitas". Há um outro texto do Evangelho que tem muito a ver com o capítulo 15 de Lucas. É, também de Lucas: Mas se entrardes nalguma cidade e não vos receberem, saindo pelas suas praças, dizei: Até o pó que se nos pegou da vossa cidade, sacudimos contra vós; sabei, contudo, que o Reino de Deus está próximo. Digo-vos: naqueles dias haverá um tratamento menos rigoroso para Sodoma. (Lc 10, 10-12). O pecado de Sodoma descreve também o profeta Ezequiel: O crime da tua irmã Sodoma era este: opulência, glutoneria, indolência, ociosidade; eis como vivia ela, assim como suas filhas, sem tomar pela mão o miserável e o indigente (Ez 16, 49).
 
Que isso sirva de conclusão: a falta de acolhimento é uma abominação nos olhos do Senhor. A falta de acolhimento é o grande desafio e problema em nossas tentativas de seguir Jesus,

17 de setembro de 2013

Mês da Bíblia (6) - 3° encontro


"O papel das mulheres no seguimento de Jesus" é o tema do 3° encontro proposto pela CNBB para este Mês da Bíblia. A base de estudo é o texto do Evangelho de Lucas.
 
Como resumo podem servir alguns trechos da Carta Apostólica de João Paulo II "Mulieris dignitatem", por exemplo:

- Maria, desde o primeiro instante da sua maternidade divina, da união com o seu Filho que « o Pai enviou ao mundo, para que o mundo fosse salvo por ele » (cf. Jo 3, 17), insere-se no serviço messiânico de Cristo. (...)  Essa realidade determina também o horizonte essencial da reflexão sobre a dignidade e sobre a vocação da mulher. Ao pensar, dizer ou fazer algo em ordem à dignidade e à vocação da mulher, não se devem separar deste horizonte o pensamento, o coração e as obras. A dignidade de todo homem e a vocação que a ela corresponde encontram a sua medida definitiva na união com Deus. Maria — a mulher da Bíblia — é a expressão mais acabada desta dignidade e desta vocação. De fato, o ser humano, homem ou mulher, criado à imagem e semelhança de Deus, não pode realizar-se fora da dimensão desta imagem e semelhança. [n. 5]

Maria, a Mãe de Jesus, é mencionada no Evangelho de Lucas nos trechos sobre a Anunciação (1, 26-38), a visita a Isabel (1, 39-56), o Nascimento de Jesus (2, 1-20), a circuncisão e a apresentação de Jesus no Templo (2, 21-40), o desencontro e o reencontro com Jesus adolescente em Jerusalém (2, 41-52), a tentativa de encontro, durante a missão pública de Jesus (8, 19-21) e [indiretamente] o elogio da Mãe de Jesus, feito por uma mulher da multidão (11, 27-28). Embora pareça estranha a "ausência" de Maria, no texto de Lucas, em tais momentos como a Morte e Ressurreição de Jesus, nada impede que identifiquemos a sua figura entre "as mulheres que iam com Ele" (cf. 8, 3; 23, 49; 23, 55; 24, 10).

Na mencionada Carta Apostólica, João Paulo II escreve também:
 
- Diversas mulheres aparecem no itinerário da missão de Jesus de Nazaré, e o encontro com cada uma delas é uma confirmação da « novidade de vida » evangélica. [n. 12]
- Cristo se constituiu, perante os seus contemporâneos, promotor da verdadeira dignidade da mulher e da vocação correspondente a tal dignidade. [idem]
- Às vezes, figuras de mulheres aparecem nas parábolas, com que Jesus de Nazaré ilustrava aos seus ouvintes a verdade sobre o Reino de Deus. [n. 13]

...e, talvez, a constatação mais importante:
 
- Em todo o ensinamento de Jesus, como também no seu comportamento, não se encontra nada que denote a discriminação, própria do seu tempo, da mulher. Ao contrário, as suas palavras e as suas obras exprimem sempre o respeito e a honra devidos à mulher. Ao contrário, as suas palavras e as suas obras exprimem sempre o respeito e a honra devidos à mulher. (...) Este modo de falar às mulheres e sobre elas, assim como o modo de tratá-las, constitui uma clara « novidade » em relação aos costumes dominantes do tempo. Isso se torna ainda mais explícito no tocante àquelas mulheres que a opinião comum apontava com desprezo como pecadoras, pecadoras públicas e adúlteras. [idem]
- O comportamento de Jesus a respeito das mulheres, que encontra ao longo do caminho do seu serviço messiânico, é o reflexo do desígnio eterno de Deus, o qual, criando cada uma delas, a escolhe e ama em Cristo (cf. Ef 1, 1-5). Por isso, cada mulher é aquela « única criatura na terra que Deus quis por si mesma ». Cada mulher herda do « princípio » a dignidade de pessoa precisamente como mulher. Jesus de Nazaré confirma esta dignidade, recorda-a, renova-a e faz dela um conteúdo do Evangelho e da redenção, para a qual é enviado ao mundo. [idem]
 
- O modo de agir de Cristo, o Evangelho de suas obras e palavras é um protesto coerente contra tudo quanto ofende a dignidade da mulher. [n. 15]
 
- O fato de ser homem ou mulher não comporta aqui nenhuma limitação, como não limita em absoluto a ação salvífica e santificante do Espírito no homem o fato de ser judeu ou grego, escravo ou livre, segundo as palavras bem conhecidas do apóstolo: « todos vós sois um só em Cristo Jesus » (Ga 3, 28). Esta unidade não anula a diversidade. (...) A « igualdade » evangélica, a « paridade » da mulher e do homem no que se refere às « grandes obras de Deus », tal como se manifestou de modo tão límpido nas obras e nas palavras de Jesus de Nazaré, constitui a base mais evidente da dignidade e da vocação da mulher na Igreja e no mundo. Toda vocação tem um sentido profundamente pessoal e profético. Na vocação assim entendida, a personalidade da mulher atinge uma nova medida: a medida das « grandes obras de Deus », das quais a mulher se torna sujeito vivo e testemunha insubstituível. [n. 16]

Bem... o que podemos dizer é que as belas palavras da Bíblia e da doutrina da Igreja continuam sendo frequentemente contrariadas pela vida, inclusive daqueles que se declaram seguidores (e/ou ministros) de Jesus. Mas, ainda mais importante é reconhecer, seguindo o pensamento de João Paulo II, que as mulheres "apontadas com desprezo pela opinião pública" e defendidas em sua dignidade por Jesus, representam todos os seres humanos que, ainda hoje, encontram-se em situações de ofensa e discriminação.

Para que tenhamos mais facilidade em recorrer aos trechos do Evangelho de Lucas que mencionam as mulheres, segue aqui a lista completa das passagens:

1) As mulheres reais mencionadas pelo Evangelista:

- Maria, a Mãe de Jesus (Lc 1, 26-56; 2, 1-52; 8, 19-21)
- Isabel (1, 5-26; 1, 39-80)
- Ana (2, 36-38)
- Herodíades (3, 19)
- A sogra de Simão (4, 38-39)
- A viúva de Naim (7, 11-17)
- A pecadora (7, 37-50)
- As mulheres entre os seguidores de Jesus (8, 1-3)
- A filha de Jairo (8, 41-42 e 8, 49-56)
- A mulher com hemorragia (8, 43-48)
- Marta e Maria (10, 38-42)
- A mulher da multidão (11, 27-27)
- A mulher encurvada (13, 10-17)
- A viúva pobre (21, 1-4)
- A criada que reconheceu Pedro (22, 56-57)
- As mulheres no caminho da Cruz (23, 27-31)
- As mulheres no Calvário (23, 49)
- As mulheres no sepultamento de Jesus (23, 55-56)
- As mulheres e a Ressurreição de Jesus (24, 1-11)

2) As mulheres mencionadas por Jesus:

- Os nascidos de mulher (7, 28)
- A rainha do Sul (11, 31)
- As criadas (12, 45)
- A divisão em família (12, 52-53)
- [indiretamente] O casamento como desculpa (14, 20)
- A mãe, a mulher, as irmãs (14, 26)
- A mulher que perdeu uma moeda (15, 8-9)
- A mulher despedida (16, 18)
- A mulher de Ló (17, 32)
- Duas mulheres no fim dos tempos (17, 35)
- A viúva e o juiz (18, 2-5)
- Honrar pai e mãe (18, 21)
- Deixar a mulher (18, 29)
- Casar com a mulher do irmão falecido (20, 28-38)
- As viúvas exploradas (20, 47)
- As mulheres grávidas (21, 23)