ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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27 de outubro de 2013

Perda e reencontro

 
Termino aqui o ciclo de meditações inspiradas nos primeiros cinco mistérios do Rosário. Confesso que já tive períodos de maior fidelidade a essa oração que aprendi ainda no tempo da minha adolescência. Descobri, com o passar do tempo, que o essencial nessa "reza" não é a repetição das "Ave-marias", mas a meditação bíblica, ou melhor, bíblico-existencial. A minha avó que rezava o Rosário todos os dias, uma vez me disse que o anjo tira do abismo do inferno as almas, usando - como se fosse uma corrente - o terço e que, portanto, eu deveria me agarrar a ele. Inicialmente levei isso meio que pelo lado de superstição. Agora sei que o que nos mantém ligados a Deus não é um objeto qualquer, mas sim, a oração confiante e, justamente, existencial, ou seja, aquela que traz na presença de Deus a nossa vida do jeito como ela está. Como falei em outra oportunidade, a minha oração é homossexual, porque em mim tudo é assim e eu não me vejo em condição de ir ao encontro com o Senhor apenas de maneira fragmentada. A homossexualidade não é uma característica, digamos, genital, mas envolve a razão e os afetos, o corpo e a alma. Ela ultrapassa todas as dimensões do meu ser...
 
O quinto mistério gozoso do Rosário me leva diretamente à adolescência. Para muitos adultos o termo em si é visto como pejorativo. Adolescente é "aborrescente". Lembra-se logo de rebeldia, imaturidade e esquisitice. Algo assim aparece, até, na cena bíblica em questão (Lc 2, 41-52). Podemos imaginar, com toda simplicidade, o momento em que Maria e José, tendo cumprido todas as prescrições da Lei, disseram a Jesus: "Agora vamos embora". Jesus, porém, ficou naquele lugar e não foi embora. Aquilo que, no olhar apressado e superficial, parece ser rebeldia ou desobediência é, de fato, a manifestação de uma nova autonomia. A pessoa começa a seguir os seus próprios caminhos. Lembro-me de uma meditação sobre esse mistério do Rosário que dizia: "Na verdade não foi Jesus que se perdeu dos pais, mas foram eles que se perderam em relação a ele". Na maioria dos casos, os pais têm dificuldade de admitir aquela autonomia (autossuficiência) nascente do(a) filho(a). E ainda mais, quando se trata de sexualidade, principalmente quando esta não se encaixa nos padrões gravados na mentalidade deles. Ainda que existam os testemunhos dos pais que dizem: "Nós sabíamos (desconfiávamos) disso desde a sua infância", a maioria dos adolescentes que descobrem e revelam a sua homossexualidade, são forçados a enfrentar batalhas pesadas que - não raramente - terminam em tragédia. É porque, para maioria dos adultos, o adolescente "não sabe o que quer". Na vida de muitos adolescentes repete-se, neste sentido, a resposta de Jesus: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?" (Lc 2, 49). Repete-se, também, a reação dos pais: "Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele lhes falou" (Lc 2, 50).
 
O que me vem mais à memória em relação à adolescência, é a timidez, acompanhada (paradoxalmente) pela teimosia. Houve alguns conflitos com o meu irmão e com os meus pais. Era o tempo de várias descobertas e experiências. Um período precioso, porém não valorizado por mim mesmo como tal. Não sei se todo adolescente sonha em ser logo um adulto, mas algum tipo de insatisfação - eu acho - faz parte dessa fase da vida. Curiosamente, o nome desse mistério do Rosário: "A perda e o reencontro", retrata, de maneira bastante exata, a experiência de cada adolescente.
 
Acrescento aqui mais uma observação pessoal. Ainda que as ciências forneçam algumas definições sobre a adolescência, inclusive os limites de idade, no meu caso, alguma parte de adolescência durou até uns 30 anos. Foi então que, definitivamente, admiti a minha própria homossexualidade. Antes, simplesmente, procurava evitar essa definição. Não queria ou não precisava me definir. De certa forma fui poupado, tanto de grandes traumas dessa descoberta, quanto de ocasiões ou necessidades de colocar em prática os meus desejos.
 
Rezando e meditando hoje "A perda e o reencontro de Jesus no Templo de Jerusalém", quero interceder por todos os adolescentes que enfrentam conflitos internos e externos, principalmente em relação a sua descoberta de homossexualidade.

24 de outubro de 2013

Apresentação no Templo


A cena do Evangelho de Lucas (2, 22-40) é o conteúdo do quarto mistério gozoso do Rosário. Ainda que o ritual pertença à tradição judaica do Antigo Testamento, o texto leva-nos, por analogia, ao momento em que nós mesmos fomos apresentados ao Senhor, através do Batismo. Existe, sim, um ritual devocional à parte, também chamado de "apresentação" que os pais católicos realizam na igreja, ainda antes da cerimônia sacramental do Batismo. Não quero entrar aqui na polêmica católico-protestante a respeito do costume de batizar as crianças recém-nascidas. Meditando a apresentação do Menino Jesus no Templo em Jerusalém, recorro ao dia em que eu mesmo tinha sido admitido à comunidade cristã. Os contos familiares trazem a revelação sobre a ausência do meu pai naquele momento. Ele se dizia ateu e a minha mãe, com a minha avó e um casal de padrinhos, tomaram todos os cuidados para que ele não ficasse sabendo. Sendo assim, cresci  - até uns 15 anos - com a lenda de eu não ter sido batizado. Quando tomei a decisão de me preparar para a I Comunhão, o tema do Batismo veio à tona. O padre que me dava umas aulas particulares (sim, nunca completei uma catequese regular), descobriu nos livros da paróquia de que, na verdade, fui batizado, com quase 1 ano de idade. Enfim... Todas essas coisas fizeram com que sempre me sentisse um tanto diferente em relação aos colegas da rua, da escola e, até mesmo, em relação ao meu irmão mais velho. De certa forma, o "ser diferente" sempre fez parte da minha (auto-) consciência e hoje vejo isso como algo providencial. Quando, finalmente, admiti a minha homossexualidade, não demorei tanto em questão de aceitá-la, como mais uma coisa na lista de componentes que me faziam - desde sempre - um ser diferente. Usei aqui os termos "admitir" e "aceitar", tentando apontar a diferença entre esses dois passos. Houve mais um passo, mais demorado e anterior aos dois que chamaria, talvez, de "intuição". Realmente (usando a expressão popular), desde que me entendo por gente, senti atração pelos rapazes. Passei (entre 13-15 anos) por uma fase de fetiche masoquista (sim, senhor) e - bem mais tarde - tive excelentes experiências de amor, vivido em forma de relacionamentos de até 3 anos. O fato de estar hoje solteiro, talvez se inscreva no conjunto de elementos do "ser diferente". É bom acrescentar aqui que a sensação de ser diferente, não se direciona necessariamente ao orgulho ("sou melhor do que os outros"), nem à baixa autoestima ("sou pior do que os outros"). Talvez - pelo menos nessa altura do campeonato - isso me ajude a olhar, com mais compreensão, a todos aqueles que, por qualquer motivo, estejam sendo tratados (ou se sintam) como diferentes. É quase como naquele slogan da Globo: "Ser diferente é normal".

E o que tudo isso tem a ver com a "Apresentação do Senhor", enquanto um mistério do Rosário? É assim que eu faço essa oração. Partindo de um texto, de uma cena, entro logo em reflexão sobe a vida, principalmente a minha. Os misteriosos personagens de Simeão e Ana, o amor de Maria e José, a sombra de Herodes e, sobretudo, a constante presença amorosa de Deus, repetiram se e ainda se repetem na minha vida. Aquilo que, nos olhos humanos, possa parecer apenas uma coincidência, na verdade revela-se como a sábia e terna providência de Deus. E como a apresentação - tanto no contexto judaico, quanto cristão - de fato é o ato de entrega e de consagração, recordo constantemente a verdade mais importante de toda a minha vida: Eu pertenço ao Senhor. Tudo o que sou, pertence a Ele. A minha homossexualidade pertence a Ele e nenhum padre, pastor ou quem quer que seja, vai me convencer do contrário. Nos períodos em que tive a graça (sim, a graça de Deus) de experimentar o mais profundo e verdadeiro amor - mesmo compartilhado com a pessoa do mesmo sexo - vivi a mais intensa e palpável revelação da divindade que, em sua essência, é o amor perfeito. Descobri na própria pele (e na própria alma) o que quer dizer que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Por mais que alguém chame isso de blasfêmia ou heresia, foi naquele tempo em que vivi o amor que realizei a minha mais plena consagração batismal a Deus.

Não posso deixar de mencionar a espada que - anunciada pelo velho Simeão - traspassou a alma de Maria. A mesma espada, em suas proporções próprias, fere a alma da minha mãe, assim como de todas as mães na face da terra. Sem dúvida, as mães de homossexuais, têm experimentado as dimensões dessa dor, desconhecidas por outras mães, embora a separação, a distância, o próprio momento em que o filho (-a) deixa a casa - tudo isso tenha sido a expressão desse misterioso desígnio de Deus, chamado "a espada", compartilhada por todas. As mães, por sua vez, são dotadas de uma incrível intuição, especialmente em relação aos filhos. Já devo ter falado sobre isso neste blog: embora nunca tenha realizado "aquela conversa" com a minha mãe, estou convencido de que ela sabe a respeito da minha homossexualidade. E me aceita, alás, ama, do jeito como sou. Louvado seja Deus por tudo isso!

Sobre a Apresentação do Senhor, leia também aqui.

22 de outubro de 2013

O nascimento

 
Daqui a pouco vai terminar o mês de outubro e eu aqui estou demorando com as prometidas (?) meditações dos mistérios do Rosário (as anteriores estão aqui e aqui). Ainda estamos no primeiro terço, chamado gozoso, mas - para evitar eventuais piadinhas de mau gosto - podemos dizer que se trata de mistérios de alegria. O momento central, evidentemente, é o nascimento de Jesus que nos leva diretamente ao nosso próprio nascimento e, logo em seguida, à figura da mãe. Foi a minha mãe que me ensinou a associar o dia do aniversário natalício à pessoa da mãe. Ela própria fazia assim, enquanto a minha avó estava viva: completando mais um ano de vida, homenageava a sua mãe com as flores. É como se fosse o segundo Dia das Mães, ainda mais particular, porque pessoal. E não é a questão de esquecer do pai, mas na hora do parto, o meu pai deve ter bebido umas doses, enquanto a minha mãe estava naquela sublime fronteira que separa a vida e a morte. Ela sobreviveu e eu apareci. Rezando o terceiro mistério de alegria, imagino as cenas de Belém, mas, ao mesmo tempo, imagino o meu próprio nascimento. O que já sei, nasci antes do tempo previsto, o que foi definido como "de 7 meses" (sinceramente, não faço ideia sobre essa contagem, nem como calcular a data, digamos, "certa" que seria o dia do meu nascimento, caso corresse tudo no esquema). O que importa é o fato de eu ter nascido e vivido até o momento presente. O resto está nas mãos de Deus. Assim, como o passado. Por isso, nesta ocasião, lembro com muita gratidão, de algumas passagens bíblicas:
  • A mulher, quando vai dar à luz, fica angustiada, porque chegou a sua hora. Mas depois que a criança nasceu, já não se lembra mais das dores, na alegria de um ser humano ter vindo ao mundo. (Jo 16, 21)
  • Todos os que ouviram a notícia ficavam pensando: "Que vai ser este menino?" De fato, a mão do Senhor estava com ele. (Lc 1, 66)
  • Nem todos são capazes de entender, mas só aqueles a quem é concedido. De fato, existem eunucos que nasceram assim do ventre materno (...). (Mt 19, 12)
  • Foste Tu que criaste minhas entranhas e me teceste no seio de minha mãe. Eu Te louvo porque me fizeste maravilhoso; são admiráveis as Tuas obras; Tu me conheces por inteiro. Não Te eram ocultos os meus ossos quando eu estava sendo formado em segredo, e era tecido nas profundezas da terra. Ainda embrião, Teus olhos me viram e tudo estava escrito no Teu livro; meus dias estavam marcados antes que chegasse o primeiro. (Sl 139[138], 13-16)
O que me foi contado inúmeras vezes, desde à infância, é que os meus pais desejavam e esperavam uma menina. Talvez por isso, tenham comprado, antes do tempo, algumas bonecas, com as quais cheguei a brincar, antes de desaparecerem. Ora, não escrevo isso para acusar os meus pais, afinal tudo o que fizeram, foi por um amor ingênuo e sincero. Se foi isso que contribuiu para minha orientação sexual - entre muitos outros fatores - louvado seja Deus.
 
A mina avó costumava me contar em segredo que, quando nasci, o médico chamou o meu pai e lhe disse: "Você tem um filho, mas ele não vai sobreviver". Ainda bem que - neste caso - os médicos às vezes se enganam. A vontade de viver é a força principal na luta contra todos os argumentos que procuram fazer com que a gente desista. Inclusive a homofobia e qualquer outro preconceito. Estou falando apenas sobre o meu caso. Não pretendo de maneira alguma julgar aqueles que, justamente por causa da discriminação, atentaram contra a própria vida. A minha vontade de viver, desafiada já na hora do nascimento, foi se fortalecendo ao longo dos anos e, quando chegou a hora, ajudou-me no processo de reconciliação comigo mesmo, ou seja, na minha autoaceitação.
 
Eu sei que me espera ainda um novo nascimento - para a eternidade. De certa forma, sinto uma ansiedade, em relação a esse momento. Enquanto ele não chega, desejo viver.
 
Outras meditações sobre o nascimento de Jesus podem ser encontradas neste blog, no final do ano 2010 e no início de 2011 (Novena e Oitava de Natal).

11 de outubro de 2013

Visitação

 
A vida continua, acontecem coisas importantes (e envolventes) e eu, aqui, continuo com o meu tercinho. A oração pode acompanhar todas as coisas, embora eu nunca tenha visto pessoas rezando o terço em uma Parada Gay (é uma das coisas que vai acontecer nestes dias). Bem... nunca vi, porque nunca fui nesse evento. Obviamente, o clima da Parada não contribui para com uma oração sequer, mas não me surpreenderia se alguém conseguisse essa arte (até me vem na mente um nome que começa com a letra "L" - é o rapaz que não renuncia, nem esconde, a sua identidade gay na Igreja e a sua fé cristã no meio GLBTTS... aliás, nem sei se ele costuma ir às paradas). É claro, o assunto não ia ser esse. Mas, como já comecei a falar das coisas que acontecem nesses dias (enquanto eu rezo o meu tercinho), devo lembrar de que amanhã estarei - pela primeira vez na minha vida - no casamento homoafetivo. Já estou ansioso e emocionado antecipadamente e - curiosamente - essa ocasião se inscreve na minha meditação do 2° mistério gozoso do rosário (não fui eu quem inventou esse termo!).
 
Além de toda riqueza bíblico-teológica (cf. Lc 1, 39-56) da visita que Maria foi fazer na casa de sua parenta Isabel, trata-se de um encontro - por que não dizer isso? - afetivo. O afeto é tão profundo que envolve o menino no ventre da mulher mais velha: apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1, 41). Vale acrescentar aqui o dado importantíssimo da doutrina cristã: Maria já carregava no seu seio imaculado o Filho de Deus, tendo-se passado um curto período de alguns dias, após o seu sim dado a Deus, representado pelo Anjo. Deu-se, portanto, o duplo encontro: de Maria com Isabel e de Jesus com João Batista. Este encontro, porém, ainda que o mais importante, permanece na esfera do mistério da fé. O que temos, diante dos nossos olhos, é o profundo afeto de duas mulheres, unidas no amor indescritível e "separadas" por uma grande diferença de idade.
 
É por isso disse antes que o casamento, ao qual fui convidado, me vem na mente neste momento. Como falei há um tempo, o meu amigo (um dos noivos) tem 24 anos e o seu futuro marido... mais de 50. Deixando de lado todos aqueles que consideram a união homoafetiva um absurdo em si, detenho-me em outra opinião, talvez ainda mais difundida, inclusive em referência aos casamentos heteroafetivos. São muitíssimas as pessoas que descartam a possibilidade de "dar certo" entre as pessoas que, em outras circunstâncias, poderiam ser, por exemplo, o pai e o filho, ou - quem sabe - o vovô e o neto. No próprio "universo GLBTTS" a crítica de tal configuração é muito frequente, a ponto de se manifestar como um preconceito. Em geral, "o velhote não presta" e "o jovem é louco" (quando não é um frio aproveitador). Porém, o amor é um dos maiores mistérios do coração humano. Não pretendo repetir aqui os inúmeros argumentos a favor de uma união semelhante, construída apesar de (ou, graças a) uma grande diferença de idade. Apenas acrescento: eu mesmo espero que algo assim possa acontecer, um dia, na minha própria vida.
 
Falando nisso, tenho sonhado recentemente com um jovem coreano [sic!], com quem me caso e para essa ocasião estamos juntos visitando a minha família (que o adora!) e já planejamos a nossa lua de mel, na Coréia. É esse tipo de sonho que não apenas se repete por várias noites em seguida, mas continua, mesmo depois de acordar. Enfim... esse já é o outro assunto.
 
Para concluir este texto que, a princípio, seria uma meditação de mais um mistério do rosário (e, na forma em que está, pode deixar alguém escandalizado), digo o seguinte: tudo aquilo que muita gente consideraria uma distração na hora de rezar, eu, simplesmente, incluo à oração. Assim, a vida se faz presente diante de Deus e a oração envolve a vida. Não sou um mestre de oração, mas rezo assim...
 
Outro texto sobre a Visitação de Nossa Senhora encontra-se, neste blog, aqui.

10 de outubro de 2013

Anunciação

Fonte: deviantART
 
Como falei recentemente, o rosário faz parte da minha experiência da fé e por isso decidi compartilhar aqui alguns pensamentos, seguindo o esquema proposto pela própria estrutura desta devoção. São os mistérios que nos ajudam a percorrer os momentos fundamentais da história da Salvação, ou melhor, do seu ponto mais alto - afinal, a história da salvação começou com a criação e só vai terminar com o fim dos tempos. Ainda que acreditemos na vida eterna, seria difícil aplicar o termo "história" a uma realidade que, pelo que parece, não se submeterá mais às dimensões (limites?) do tempo e de sua passagem. O conteúdo das meditações do rosário visam o ápice da história da salvação, que São Paulo chamou de "plenitude dos tempos": (...) quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher (Ga 4, 4).
 
Embora o título mais usado para descrever o momento inicial tenha sido "Anunciação", um pouco de reflexão leva a crer que o essencial no encontro do Anjo com Maria foi o "SIM" dela e, consequentemente, a encarnação do Verbo, isto é, a concepção do Menino no seio de Maria que, curiosamente, o próprio texto bíblico não menciona naquela altura. O que mesmo chama a minha atenção é a série de situações e acontecimentos tão diferentes daquilo que pode ter sido chamado de "padrão", inclusive na própria lei de Deus e nos costumes do povo, baseados naquela mesma lei. E o que dizer da "lei natural"? Se não se tratasse dos desígnios de Deus, o mais adequado seria dizer que tudo deu errado. A gravidez fora do casamento, o casamento sem a transmissão de vida (reprodução), a paternidade "putativa" (olha, não é isso o que o termo sugere!), a "família-modelo" (a Sagrada), tão diferente de todas as famílias anteriores e posteriores... A primeira ideia que vem à cabeça é que Deus, certamente, queria quebrar na mentalidade humana o conceito de "padrão".
 
O "SIM" de Maria - literalmente: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38) - foi precedido pela perturbação interior daquela que era a cheia de graça (cf. Lc 1, 28) e bendita entre as mulheres (cf. Lc 1, 48), pela incapacidade de entender e pela pergunta "como?" que, sem dúvida, contém o "por que?" (talvez, até: "por que eu?") e tantas outras interrogações. Mais uma ideia: Deus admite a nossa limitação e acolhe as nossas perguntas, ainda que quisesse deixa-las sem resposta suficientemente esclarecedora.
 
Por mais que me sinta distante da santidade, pureza e glória de Maria Santíssima, entro aqui com a minha analogia. Como um homossexual, vejo a parte essencial da minha realidade como aquela que não se encaixa nos "padrões" descritos pela lei natural, lei de Deus (pelo menos essa que me foi transmitida pela Igreja) e pelos costumes vigentes. Faço aqui uma observação: será que agindo exatamente desta forma incomum, o próprio Deus não quer ampliar o nosso entendimento de sua lei?
 
Quantas vezes brotaram no meu coração as mais existenciais perguntas, tais como: "Por que?", "Por que eu?", "Com viver?", "Como amar?". Por que seria uma blasfêmia, ou, ao menos, uma ousadia, considerar Maria como alguém que o próprio Deus colocou bem ao meu lado? Será um abuso pensar que Maria diz a cada um de nós: "Eu te compreendo"?
 
Deixo essas ideias aqui e vou me entregar à oração serena e confiante...
 
Outra meditação sobre a Anunciação está aqui.

7 de outubro de 2013

Homossexual pode rezar o rosário?

O terço não é um colar? Veja no final do texto...
 
A Igreja dedica o dia 07 de outubro e, consequentemente, todo este mês, à Nossa Senhora do Rosário. Queria, nesta ocasião, fazer uma pergunta: eu, sendo um homossexual que professa a fé católica, posso rezar o rosário? Ou, pelo menos, o terço do rosário (que, de fato, é um quarto, lembrando a criação dos Mistérios Luminosos pelo Beato João Paulo II)?
 
As respostas serão, sem dúvida, diversas, de acordo com a sua autoria. Os que não acreditam em Deus, irão considerar inútil toda essa questão. Os seguidores de religiões não cristãs, podem não entender o sentido de tal pergunta. Os cristãos não católicos, julgarão a minha proposta como duplamente errada, considerando uma blasfêmia o fato de dirigir a prece a Maria e outra, fazer oração, sendo um pérfido pecador. A maioria dos católicos, especialmente os tradicionalistas, certamente farão uma elaborada analogia entre a história da festa de hoje e a "abominação do homossexualismo" que pode ser combatida com o auxílio de Nossa Senhora do Rosário. Assim como em 1572, os turcos otomanos (muçulmanos) que queriam invadir a Europa, foram derrotados no estreito de Lepanto e a vitória do exército cristão se deu graças à intervenção de Nossa Senhora do Rosário, do mesmo jeito, é necessário hoje que a avalanche do homossexualismo seja interrompida. As palavras do comandante cristão, servem também para o combate de hoje: "Este é o dia em que a Cristandade deve mostrar seu poder, para aniquilar esta seita maldita e obter uma vitória sem precedentes".
 
Aprendi a rezar o rosário com a minha avó. Mais tarde, descobri que - de acordo com a expressão de João Paulo II - ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor.  Quem contempla a Cristo, percorrendo as etapas da sua vida, não pode deixar de aprender d'Ele a verdade sobre o homemUma oração tão fácil e ao mesmo tempo tão rica merece verdadeiramente ser descoberta de novo pela comunidade cristã.
 
É verdade que, neste ponto, pode surgir o questionamento: um homossexual pode ser considerado cristão? A resposta surge por meio de outras perguntas:
 
1. O (a) homossexual tem o direito de viver?
 
- A vida humana é sagrada e inviolável em cada momento da sua existência (João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae, n. 61);
 
2. O (a) homossexual tem o direito de crer em Deus?
 
- A fé é um dom, porque é Deus que toma a iniciativa e vem até nós; e assim a fé é uma resposta com a qual nós O acolhemos como fundamento estável da nossa vida. É um dom que transforma a existência, porque nos faz entrar na mesma visão de Jesus, o qual age em nós e nos abre ao amor a Deus e aos outros. (Bento XVI);
 
3. O (a) homossexual tem o direito de orar?
 
- O Deus vivo e verdadeiro chama incessantemente cada pessoa ao encontro misterioso da oração. Essa atitude de amor fiel vem sempre em primeiro lugar na oração; a atitude do homem é sempre resposta a esse amor fiel. À medida que Deus se revela e revela o homem a si mesmo, a oração aparece como um recíproco apelo, um drama de Aliança. (CIC, 2567);
 
4. O (a) homossexual tem o direito de rezar o rosário?
 
- Penso em vós todos, irmãos e irmãs de qualquer condição, em vós, famílias cristãs, em vós, doentes e idosos, em vós, jovens: retomai confiadamente nas mãos o terço do Rosário, fazendo a sua descoberta à luz da Escritura, de harmonia com a Liturgia, no contexto da vida quotidiana. (João Paulo II).
 
A observação final refere-se à foto que acompanha o texto. Já tinha visto umas frases do tipo "Terço não é colar! Aprenda a usá-lo corretamente!". Encontrei, porém, os argumentos do grande "Doutor Mariano", São Luís Maria Grignion de Montfort que, em seu livro "O Segredo do Rosário", afirma: Aqueles que usam o Rosário no corpo (pescoço ou cintura) em público por devoção e como bom exemplo poderão ganhar cem dias de indulgência.
 
Vou continuar, então, rezando o meu rosário. Talvez publique aqui algumas reflexões sobre isso...

3 de outubro de 2013

Meu zeloso guardador

 
No final deste dia, dedicado na Igreja aos Santos Anjos da Guarda (leia sobre este tema aqui e aqui), gostaria de prestar uma singela homenagem a meu amigo inseparável que nunca me abandona, pelo contrário, já me deu provas palpáveis de sua presença e de seu amor para comigo. Pois é, se não fosse um Anjo, eu o pediria para namorar comigo... pelo menos, de maneira mais visível. Bem... eu sei que os anjos do céu não se casam (cf. Mt 22, 30), portanto, certamente, não namoram, mas que o meu é um fofo, não tenho dúvida. Aliás, na minha opinião, ele faz parte do mundo GLBTTS, inserido no universo, pelo menos, correspondendo à letra "S", quer dizer, simpatizante - evidentemente simpatiza comigo. Só acho que ele se distrai no shopping... É, que eu sempre me perco no shopping. Mas, já passamos juntos no meio dos traficantes armados, já batemos com o carro, já apontaram em minha direção uma arma e - mais frequentemente - caminhamos nas madrugadas sem fim pelos bairros considerados perigosos e sempre chegamos bem em casa. Sim, nessas horas, particularmente senti a sua presença. Eu sei que o tal de Cupido, embora retratado como um anjinho, pertence a outra história, mas - como diz a Igreja - as sementes de verdade estão presentes e operantes nas diversas tradições religiosas e são um reflexo do único Verbo de Deus (veja aqui), portanto, não tenho certeza se não daria certo pedir ao meu Anjo da Guarda que me ajudasse a encontrar um namorado, fazendo o papel daquele Cupido. Ou, então, como fazia o Beato João XXIII, pedir ao eu Anjo da Guarda que conversasse com o seu colega, o Anjo da Guarda dessa ou daquela pessoa. Por exemplo, do Lucas ou do Gabriel... Falando nesses dois, eu acho que se o meu Anjo da Guarda assumisse um corpo, teria essa aparência, principalmente os cachos e aqueles olhos lindos que penetram a minha alma.
 
Essa coisa de assumir um corpo já aconteceu no passado (e deve estar acontecendo atualmente), basta ler o livro de Tobias, no qual a história com o anjo começa assim: Tobias encontrou um jovem de belo aspecto, equipado como para uma viagem. (Tb 5, 5) e termina dessa maneira: Então Tobit chamou seu filho e disse-lhe: Que havemos nós de dar a esse santo homem que te acompanhou? Meu pai, respondeu ele, que gratificação lhe havemos de dar? Que presente poderá igualar os seus benefícios? Ele levou-me e trouxe-me em boa saúde; foi receber o dinheiro de Gabael; fez-me ter uma mulher e afugentou dela o demônio; encheu de alegria os seus pais; livrou-me de ser devorado pelo peixe, e fez-te rever a luz do céu; enfim, ele cumulou-nos de toda a sorte de benefícios. Que presente poderia igualar a tudo isso? Rogo-te, meu pai, que lhe peças se digne aceitar a metade de tudo o que trouxemos. Chamaram-no, pois, o pai e o filho, e, tomando-o à parte, rogaram-lhe que aceitasse a metade de tudo o que tinham trazido. Então ele falou-lhes discretamente: Bendizei o Deus do céu, e dai-lhe glória diante de todo o ser vivente, porque ele usou de misericórdia para convosco. (...) Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos na presença do Senhor. (Tb 12, 1-6. 15) Notemos que uma das tarefas do Anjo parece muito com o trabalho de um Cupido.
 
Há quem considere as reflexões acima uma blasfêmia. Garanto, porém, que tenho o respeito profundo pelas coisas de Deus e acredito que a minha condição homossexual faça parte dos desígnios dele. A minha homossexualidade não anula a minha humanidade. A humanidade, por sua vez, contém o chamado ao amor, como a forma essencial de sua própria realização no plano de Deus. Evidentemente, posso me realizar amorosamente no serviço aos pobres, na dedicação generosa à ciência ou à arte. Posso, também, ter recebido uma vocação especial e sublime, ao celibato, mas tenho certeza de que não é todo homossexual que seja chamado a esta forma de vida. Aliás, a Igreja não admite, nem ao sacerdócio, nem à profissão religiosa nos conventos, "as pessoas com tendências homossexuais fortemente enraizadas". Logo, a plena realização humana, consiste em compartilhar o amor com outra pessoa. No caso de um/a homossexual, com a pessoa do mesmo sexo. E o meu Anjo da Guarda sabe de tudo e nem por isso me abandonou...
 
 
Quero terminar o texto com mais uma reflexão. Não sei se é uma questão de idade e, associada naturalmente a ela, a vocação à paternidade, mas reparo-me com um desejo que cresce no meu coração com o passar do tempo. É uma profunda, sincera e pura vontade de cuidar de alguém. Normalmente se pensa que a carência afetiva seja algo contrário, isto é, uma vontade de ter alguém que cuidasse da gente. Confesso, porém, que a minha visão de felicidade, aqui na terra, revela-se como a possibilidade de cuidar, de proteger. Assim imagino o meu namoro. Assim me sinto em relação a Lucas ou Gabriel. É uma sensação isenta de perversidade. É uma pena que ainda não aprendi a demonstrar isso de maneira mais clara e convincente. Talvez, um dia, o meu Anjo da Guarda me ensine essa arte, afinal é isso que ele faz comigo...
 
Todos os dias, antes de dormir, faço a saudação ao meu Anjo da Guarda, que aprendi ainda com a minha avó:

24 de setembro de 2013

Padre Pio e a natureza

 
Hoje é o dia que a Igreja dedica à celebração da memória de um dos mais famosos Santos dos tempos recentes: o Padre Pio de Pietrelcina. A sua fama refere-se, principalmente, aos estigmas (as chagas de Cristo, carregadas pelo Padre Pio durante 50 anos), mas também a outros dons extraordinários, como a bilocação (o dom sobrenatural de estar em dois lugares simultaneamente), a leitura da mente/consciência dos penitentes e aos milagres que ele realizava. O que surpreende na história deste santo é que ele tinha sido perseguido pela Igreja, inclusive pelo Santo Ofício (antes chamado Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal  e, atualmente, Congregação para a Doutrina da Fé) e, mais tarde, pela mesma Igreja, foi canonizado. Longe de ter sido um pedido de perdão em nome da Igreja, o rito de canonização do Padre Pio, em 2002, contou com esta observação de João Paulo II: A imagem evangélica do "jugo" recorda as numerosas provas que o humilde capuchinho de San Giovanni Rotondo teve que enfrentar. Hoje contemplamos nele como é suave o "jugo" de Cristo e verdadeiramente leve o seu fardo quando é carregado com amor fiel. A vida e a missão do Padre Pio testemunham que as dificuldades e os sofrimentos, se forem aceitos por amor, transformam-se num caminho privilegiado de santidade, que abre perspectivas de um bem maior, que só Deus conhece. Na cerimônia da beatificação, em 1999, as palavras do Papa foram um pouco mais diretas: Não menos dolorosas, e humanamente talvez ainda mais fortes, foram as provações que teve de suportar como consequência, dir-se-ia, dos seus singulares carismas. Na história da santidade às vezes acontece que o escolhido, por especial permissão de Deus, é objeto de incompreensões.
 
Aqui fica um pouco mais claro o título deste texto. A Igreja tem algum tipo de obsessão em relação à natureza. Uma instituição que se apresenta ao mundo como "guardiã do sobrenatural", tem dificuldade de reconhecer os fenômenos que não se encaixam no conceito de "natureza". A Congregação para as Causas dos Santos, declara: O mundo muda, mas os santos, embora também mudem com o mundo que se transforma, representam sempre o mesmo rosto vivo de Cristo. Não existe nisto, porventura, um indício inconfundível da vitalidade peculiar, metacultural e meta-histórica para nós, católicos, "sobrenatural" é a palavra justa do anúncio e da Graça cristã?
 
Pois é, Deus não se submete às leis da natureza. Ou, talvez, Ele mesmo tenha revelado as dimensões desconhecidas dessa mesma natureza. Já o rei Salomão, considerado um dos maiores sábios na história da humanidade, assim expressou a sua pequenez: Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu? E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo? (Sb 9, 16-17). Façamos aqui uma conexão direta com a promessa que Jesus deu aos seus discípulos, depois de ter constatado a limitação deles: Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade (Jo 16, 12-13). É importante notar aqui que, mesmo depois de terem sido revestidos com o poder do alto (cf. Lc 24, 49), os Apóstolos apresentavam grandes dificuldades em compreender os desígnios de Deus. Não foi e não está sendo diferente na Igreja, até o dia de hoje. Com outras palavras, a ação do Espírito Santo que consiste em conduzir a Igreja à plena verdade, continua e continuará até o fim dos tempos. As palavras de Jesus "Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?" não perderam a sua atualidade.
 
Vejamos agora, qual é a maior razão das dificuldades que a Igreja tem em relação ao reconhecimento dos direitos de pessoas homossexuais:
 
- Os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados. (CIC, 2357)
- O Catecismo distingue entre os atos homossexuais e as tendências homossexuais. Quanto aos atos, ensina que, na Sagrada Escritura, esses são apresentados como pecados graves. A Tradição considerou-os constantemente como intrinsecamente imorais e contrários à lei natural. Por conseguinte, não podem ser aprovados em caso algum. (Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais..., n. 2)
- Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimónio e a família. O matrimónio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. (Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n. 4)
 
Um site "ultracatólico" (Veritatis splendor), tenta explicar as coisas assim:
O homossexualismo pertence à primeira classe dos pecados de luxúria. Ele não se contenta em usar da natureza contra a reta razão: viola a própria natureza. Entre os vícios contra a natureza, ele ocupa o segundo lugar, perdendo apenas para a bestialidade. Talvez seja por sua especial gravidade que esse pecado tenha sido escolhido como motivo de "orgulho", com marchas, campanhas e ameaça de perseguição aos discordantes ("homofóbicos"). Quem exalta o homossexualismo deve fazê-lo com a intenção de afrontar a Deus ao máximo.
Os que não entendem que o homossexualismo seja antinatural, talvez usem "natural" no sentido de "habitual". O hábito, porém, não se confunde com a natureza. Um hábito acrescentado à natureza produz uma inclinação que a natureza, por si só, não tem. Um hábito contrário à natureza é capaz de inclinar a faculdade a agir contra a natureza. Tal inclinação habitual, não é, porém, natural.
Como se diz em algumas ocasiões, será necessário começar por Adão e Eva, mas isso só na próxima vez. Apenas vou adiantar que é, justamente, o contrário do que "explica" o site acima. Por exemplo, por mais que seja habitual, voar de avião, é totalmente antinatural.
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Fica comigo, Senhor,
pois é só a Ti que procuro,
Teu amor, Tua graça, Tua vontade,
Teu coração, Teu Espírito, porque Te amo,
e a única recompensa que Te peço
é poder amar-te sempre mais.
Como este amor resoluto desejo
amar-Te de todo o coração
enquanto estiver na terra,
para continuar a te amar perfeitamente
por toda a eternidade.
Amém.
(S. Padre Pio)

14 de setembro de 2013

Exaltar a CRUZ

 
A festa litúrgica da Exaltação da Santa Cruz inspira-se na tradição que conta a história da descoberta da cruz de Jesus Cristo, por volta do ano 326. Helena, a mãe do imperador Constantino teria recebido a revelação do local, onde se encontravam as três cruzes e, entre elas, aquela na qual morreu Jesus. No local da descoberta foi construída a igreja do Santo Sepulcro por ordem de Helena e dedicada em 335, com uma parte da cruz em exposição. Em 13 de setembro ocorreu a dedicação da igreja e a cruz foi posta em exposição no dia 14, para que os fiéis pudessem orar e venerá-la.
 
A Igreja convida-nos à reflexão sobre o mistério da Cruz, relembrando as palavras de Jesus: Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna. (Jo 3, 13-14) e, também: Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim (Mt 10, 38). 
 
A tradição cristã (que podemos chamar de "sabedoria espiritual do povo") sempre associou a cruz ao sofrimento (à provação, em geral) e ao cumprimento do dever, interpretando assim a exigência de "tomar a cruz" expressa nas palavras de Jesus. É um caminho à santificação e, consequentemente, à salvação e à vida eterna.
 
Do ponto de vista de uma pessoa homossexual, a Exaltação da Santa Cruz, pode ser uma ocasião para refletir sobre a sua condição e, de fato, exaltá-la. O texto do Catecismo da Igreja Católica, justamente assim, descreve a situação:

Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objetivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição. (CIC, 2358)
 
Na Carta aos Gálatas (3, 13) lemos: Cristo remiu-nos da maldição da lei, fazendo-se por nós maldição, pois está escrito: Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro (Dt 21, 23). Se a cruz que no Antigo Testamento foi o sinônimo de maldição e Jesus teve o poder de transformá-la em maior fonte de bênção, por que não podemos assim contemplar algo que faz parte integral de nossa identidade? O Catecismo diz que, sendo cristãos, devemos unir à cruz do Senhor as nossas dificuldades. Pergunto, pois: é unir à cruz na visão do Antigo, ou do Novo Testamento? Em outra Carta, São Paulo escreve: nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas, para os eleitos - quer judeus quer gregos - força de Deus e sabedoria de Deus (2Cor 1, 23-24).
 
ORAÇÃO:
(a primeira parte inspirada no texto de Pe. Reginaldo Manzotti)
 
Ó Santa Cruz, Cruz Bendita onde a humanidade foi redimida
e o Filho do homem teve suas mãos e seus pés transpassados
e teve seu peito aberto de onde jorrou água e sangue.
Ó Santa Cruz, instrumento de morte e de castigo,
mas que no Sangue Redentor se tornou sinal de nossa salvação.
Ó Cruz Bendita, chave de nossa eternidade,
coroa de nossa salvação, na cruz do Senhor eu coloco estas intenções:
 
Por todos os homossexuais,
crucificados em suas famílias
e em qualquer parte da sociedade,
muitas vezes por "motivos religiosos"...
Por todos os homossexuais
que não aceitam a sua própria condição,
pelos que vivem em depressão e solidão,
por aqueles que atentam contra a própria vida...
Pelos que foram expulsos de casa
abandonados pelos amigos
desprezados por colegas na escola e no trabalho,
agredidos na rua
e rejeitados pela Igreja.
 
Que todos possam descobrir
a Cruz gloriosa e vitoriosa.
Que encontrem na Cruz a força
para viver, lutar e amar
e que cheguem pela Cruz
à glória da eternidade.
Amém.

7 de setembro de 2013

Preciosas palavras

 
Seria melhor, simplesmente, transcrever na íntegra a homilia do Papa Francisco, feita hoje na Praça de São Pedro, durante a Vigília de Oração pela Paz. Para isso, porém, basta acessar o site oficial do Vaticano, ou a página da Canção Nova. Não posso, entretanto, deixar de destacar alguns trechos e mencionar certas características do discurso.
 
Primeira coisa que chamou a minha atenção foi a frequência com a qual o Papa usou o termo "todos". Parece ser algo muito óbvio, mas o Santo Padre deixa a impressão de querer lembrar disso à humanidade e à Igreja, pois, enquanto não se vê todos, é possível criar uma visão fragmentada da humanidade e começar a "classificar" as pessoas.
 
O Papa Francisco, logo no início, afirma que o nosso mundo, no coração e na mente de Deus, é “casa de harmonia e de paz” e espaço onde todos podem encontrar o seu lugar e sentir-se “em casa”, porque é “isso é bom”. Toda a criação constitui um conjunto harmonioso, bom, mas os seres humanos em particular, criados à imagem e semelhança de Deus, formam uma única família, em que as relações estão marcadas por uma fraternidade real e não simplesmente de palavra: o outro e a outra são o irmão e a irmã que devemos amar, e a relação com Deus, que é amor, fidelidade, bondade, se reflete em todas as relações humanas e dá harmonia para toda a criação. O mundo de Deus é um mundo onde cada um se sente responsável pelo outro, pelo bem do outro.
 
O que seriam "todas as relações humanas"? Todas mesmo? E antes, o nosso mundo é, realmente, o espaço onde todos podem encontrar o seu lugar? Bem, o Papa diz que assim é o mundo no coração e na mente de Deus. Bem sabemos que no coração e na mente de muitas pessoas, simplesmente não é. Pergunto, como já fiz várias vezes neste blog, será que, pelo menos os católicos, prestam atenção a tudo o que Santo Padre diz? Ou, então, prestam atenção, mas interpretam de seu jeito e "todos", na verdade, são "quase todos". Vi em algum lugar uma charge que mostrava a multidão segurando duas faixas. Em uma estava escrito: "Jesus te ama" e na outra "a não ser que você seja homossexual".
 
Logo em seguida, fazendo referência à história de Caim e Abel, o Papa continuou:  Deus pergunta à consciência do homem: «Onde está o teu irmão Abel?». E Caim responde «Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Esta pergunta também se dirige a nós, assim que também a nós fará bem perguntar: - Acaso sou o guarda do meu irmão? Sim, tu és o guarda do teu irmão! Ser pessoa significa sermos guardas uns dos outros! Contudo, quando se quebra a harmonia, se produz uma metamorfose: o irmão que devíamos guardar e amar se transforma em adversário a combater, a suprimir. Quanta violência surge a partir deste momento, quantos conflitos, quantas guerras marcaram a nossa história! Basta ver o sofrimento de tantos irmãos e irmãs. Não se trata de algo conjuntural, mas a verdade é esta: em toda violência e em toda guerra fazemos Caim renascer. Todos nós! E ainda hoje prolongamos esta história de confronto entre os irmãos, ainda hoje levantamos a mão contra quem é nosso irmão. Ainda hoje nos deixamos guiar pelos ídolos, pelo egoísmo, pelos nossos interesses; e esta atitude se faz mais aguda: aperfeiçoamos nossas armas, nossa consciência adormeceu, tornamos mais sutis as nossas razões para nos justificar. Como fosse uma coisa normal, continuamos a semear destruição, dor, morte! A violência e a guerra trazem somente morte, falam de morte! A violência e a guerra têm a linguagem da morte!
 
O Papa Francisco conclui essa parte, dizendo: Depois do Dilúvio, cessou a chuva, surge o arco-íris e a pomba traz um ramo de oliveira.
 
O movimento GLBTTS, justamente por isso, escolheu o arco-íris como a sua marca. É o sinal da paz e da fraternidade. Pelo menos, da esperança de ambas...
 
O ponto seguinte foi feito em forma de um diálogo: E neste ponto, me pergunto: É possível percorrer o caminho da paz? Podemos sair desta espiral de dor e de morte? Podemos aprender de novo a caminhar e percorrer o caminho da paz? Invocando a ajuda de Deus, sob o olhar materno da Salus Populi romani, Rainha da paz, quero responder: Sim, é possível para todos! Esta noite queria que de todos os cantos da terra gritássemos: Sim, é possível para todos! E mais ainda, queria que cada um de nós, desde o menor até o maior, inclusive aqueles que estão chamados a governar as nações, respondesse: - Sim queremos! (...) Queria pedir ao Senhor, nesta noite, que nós cristãos e os irmãos de outras religiões, todos os homens e mulheres de boa vontade gritassem com força: a violência e a guerra nunca são o caminho da paz! Que cada um olhe dentro da própria consciência e escute a palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o teu coração, supera a indiferença para com o outro que torna o teu coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação.
 
A pregação do Papa Francisco termina com o apelo: Rezemos, nesta noite, pela reconciliação e pela paz, e nos tornemos todos, em todos os ambientes, em homens e mulheres de reconciliação e de paz.

A prece pela PAZ

Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. (Mt 5, 9)
A tua fé te salvou. Vai em paz! (Mc 5, 34; cf. Lc 7, 50; 8, 48;) 
Tende sal em vós e vivei em paz uns com os outros. (Mc 9, 50)
Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa! (Lc 10, 5)
Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!... Mas não, isso está oculto aos teus olhos. (Lc 19, 42)
A paz esteja convosco! (Lc 24, 36)
Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. (Jo 14, 27)
Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo. (Jo 16, 33)
Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. (At 10, 36)
A vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da parte do Senhor Jesus Cristo! (Rm 1, 7)
A aspiração do espírito é a vida e a paz. (Rm 8, 6)
Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens. (Rm 12, 18)
O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e gozo no Espírito Santo. (Rm 14, 17)
Apliquemo-nos ao que contribui para a paz e para a mútua edificação. (Rm 14, 19)
O Deus da paz esteja com todos vós. (Rm 15, 33)
Deus vos chamou a viver em paz. (1Cor 7, 15)
Deus não é Deus de confusão, mas de paz. (1Cor 14, 33)
Vivei em paz, e o Deus de amor e paz estará convosco. (2Cor 13, 11)
O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade. (Ga 5, 22-23)
Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava. (Ef 2, 14)
Veio para anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz também àqueles que estavam perto. (Ef 2, 17)
Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. (Ef 4, 3)
A paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus. (Flp 4, 7)
Ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus. (Col 1, 20)
Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. (Col 3, 15)
Conservai a paz entre vós. (1Tes 5, 13)
O Senhor da paz vos conceda a paz em todo o tempo e em todas as circunstâncias. (2Tes 3, 16)
Procurai a paz com todos. (Hbr 12, 14)
O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz. (Tg 3, 18)
Busque a paz e siga-a. (1P 3, 11)
A paz esteja com todos vós que estais em Cristo. (1P 5, 14)
A paz esteja contigo! (3J 1, 15)



Senhor Jesus, Príncipe da Paz! Confesso que nem sempre fui amigo da paz. Agredi pessoas, senti raiva, guardei mágoa. Menti. Fui egoísta. Julguei pelas aparências. Falei mal dos outros... Com tudo isso que carrego nas minha costas, venho hoje para Vos pedir o dom da PAZ. A paz para Síria e para o mundo inteiro. Não peço, invocando os meus méritos, pois não tenho nada, além de confiança e arrependimento. Escutai o grito de tantos filhos e filhas de Deus que desejam a paz. Especialmente aqueles que vivem nos lugares atingidos pela violência e pela guerra. Inspirai o mesmo desejo de paz nos corações daqueles que têm o poder sobre as nações. Protegei cada pessoa que tem a sua paz ameaçada. Impedi atitudes de discriminação por qualquer motivo. Despertai no coração de cada ser humano a boa vontade. Dai a cada um de nós a compreensão de que somos todos irmãos, filhos do mesmo Pai celeste. Acolhei as preces da Vossa Igreja e de cada ser humano que clama pela paz. Acolhei o pedido de Maria, Rainha da Paz, Vossa Mãe. Senhor Jesus, Príncipe da Paz! 

1 de setembro de 2013

O grito da PAZ

 

Hoje, queridos irmãos e irmãs, queria fazer-me intérprete do grito que se eleva, com crescente angústia, em todos os cantos da terra, em todos os povos, em cada coração, na única grande família que é a humanidade: o grito da paz! É um grito que diz com força: queremos um mundo de paz, queremos ser homens e mulheres de paz, queremos que nesta nossa sociedade, dilacerada por divisões e conflitos, possa irromper a paz! Nunca mais a guerra! Nunca mais a guerra! A paz é um dom demasiado precioso, que deve ser promovido e tutelado.
 
Estas são as palavras do Papa Francisco, pronunciadas hoje, 01 de setembro de 2013, na Praça de São Pedro, na ocasião da oração do Angelus (leia na íntegra aqui).
 
Como destacam as principais agências de notícias, visivelmente preocupado, Francisco dedicou inteiramente seu encontro de domingo à situação na Síria, onde a guerra civil já matou mais de 100 mil pessoas em três anos. Foi a primeira vez que o Papa não fez alguma menção à liturgia do dia antes de rezar a oração mariana do Angelus no Vaticano.

Gostaria de acrescentar aqui uma importante afirmação. Embora o Santo Padre tenha se referido particularmente à situação na Síria, as suas palavras expressam um princípio que se aplica em todas as situações, em todos os tempos e lugares. Quem de nós não tenha experimentado, tantas vezes, as dolorosas consequências da falta de paz? Entre as situações, às quais dedico este espaço, encontra-se a constante "guerra civil", em toda a face da terra, mais frequentemente chamada de homofobia. Também nesta perspectiva vale a pena meditar as palavras do Papa Francisco.
 
O que podemos fazer pela paz no mundo? Como dizia o Papa João XXIII, a todos corresponde a tarefa de estabelecer um novo sistema de relações de convivência baseados na justiça e no amor (cf. Pacem in terris).
 
Possa uma corrente de compromisso pela paz unir todos os homens e mulheres de boa vontade! Trata-se de um forte e premente convite que dirijo a toda a Igreja Católica, mas que estendo a todos os cristãos de outras confissões, aos homens e mulheres de todas as religiões e também àqueles irmãos e irmãs que não creem: a paz é um bem que supera qualquer barreira, porque é um bem de toda a humanidade.
 
Repito em alta voz: não é a cultura do confronto, a cultura do conflito, aquela que constrói a convivência nos povos e entre os povos, mas sim esta: a cultura do encontro, a cultura do diálogo: este é o único caminho para a paz.
 
Que o grito da paz se erga alto para que chegue até o coração de cada um, e que todos abandonem as armas e se deixem guiar pelo desejo de paz.
 
Por isso, irmãos e irmãs, decidi convocar para toda a Igreja, no próximo dia 7 de setembro, véspera da Natividade de Maria, Rainha da Paz, um dia de jejum e de oração pela paz na Síria, no Oriente Médio, e no mundo inteiro, e convido também a unir-se a esta iniciativa, no modo que considerem mais oportuno, os irmãos cristãos não católicos, aqueles que pertencem a outras religiões e os homens de boa vontade.
 
No dia 7 de setembro, na Praça de São Pedro, aqui, das 19h00min até as 24h00min, nos reuniremos em oração e em espírito de penitência para invocar de Deus este grande dom para a amada nação síria e para todas as situações de conflito e de violência no mundo. A humanidade precisa ver gestos de paz e escutar palavras de esperança e de paz! Peço a todas as Igrejas particulares que, além de viver este dia de jejum, organizem algum ato litúrgico por esta intenção.
 
Peçamos a Maria que nos ajude a responder à violência, ao conflito e à guerra com a força do diálogo, da reconciliação e do amor. Ela é mãe: que Ela nos ajude a encontrar a paz; todos nós somos seus filhos! Ajudai-nos, Maria, a superar este momento difícil e a nos comprometer a construir, todos os dias e em todo lugar, uma autêntica cultura do encontro e da paz. Maria, Rainha da paz, rogai por nós!

16 de junho de 2011

nossa oração




Ouvimos na liturgia destes dias o ensinamento de Jesus sobre a oração. É importante não tirarmos conclusões equivocadas que poderiam colocar em dúvida a nossa vida espiritual e, portanto, a nossa fé. Os textos do Evangelho de hoje (Mt 6, 7-15) e de ontem (Mt 6, 1-6. 16-18) trazem algumas afirmações enigmáticas de Jesus: [ontem] Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. (...) Quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. (Mt 6, 5-6); [hoje] Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. (Mt 6, 7) Diante deste ensinamento, parece que a maior parte da prática devocional da Igreja está errada. A própria Missa, as procissões (como na festa de Corpus Christi) e tudo o mais que contém a oração pública por um lado e, por outro, os terços, ladainhas e até a liturgia das horas, entre outros - tudo parece contradizer a orientação do Senhor sobre a oração discreta, individual e com poucas palavras. Na prática, as conclusões rápidas, levam-nos a contestar e abandonar a Igreja ou, pelo menos, alimentam o fervor de nossas criticas. Qual é a solução?

A leitura mais atenta permite-nos perceber as referências que Jesus faz para ilustrar os erros de postura de quem ora: os hipócritas e os pagãos. A primeira “categoria” é constituída, sem dúvida, pelos religiosos judaicos da época (fariseus, doutores da Lei, etc.), o que podemos constatar em outras passagens (cf. Mt 23, 1- 36; Mc 12, 38-40; Lc 11, 37-54. 20, 45-47). A segunda engloba os pagãos (isto é, todos os não-judeus). Em ambos os casos, o que desqualifica a oração, não é a sua forma (pública/privada, muitas/poucas palavras), mas, sim, a motivação. Os hipócritas oram e fazem várias outras coisas para serem vistos pelos homens. Os pagãos acreditam no poder de suas próprias palavras, mais do que no poder de Deus, aproximando-se assim de um conceito mágico da prece.

No contexto, digamos, máximo da revelação bíblica, a oração nada é senão o colóquio amoroso do homem com Deus. O Catecismo da Igreja Católica fala que a fé (expressa, entre outras formas, em oração), é a resposta ao amor revelado de Deus. Todo mundo sabe perfeitamente que quem ama, embora consiga expressar os sentimentos sem palavras, vive multiplicando, e até inventando, as palavras dirigidas ao amado. Se analisarmos, por exemplo, a ladainha ao Sagrado Coração de Jesus (ou qualquer outra), vamos notar uma analogia nítida com aquela linguagem de apaixonados que substituem o nome da pessoa amada por “lindo(a)”, “fofo(a)”, “bem”, “amor”, entre milhares de outros termos. Ao tratar-se de uma resposta amorosa, percebemos que Deus que nos amou primeiro (cf. 1Jo 4, 19), também fala de maneiras mais variadas, entre as quais, destaca-se a Sagrada Escritura. Ali, o próprio Deus, multiplica as palavras. O interessante é que essa multiplicidade, paradoxalmente, chama-se a Palavra de Deus (em singular). Aí percebemos o segredo. Deus nos dirige uma única palavra: “eu te amo” de muitíssimas maneiras, sem alterar a mensagem, a ponto de a própria mensagem tornar-se o Verbo Encarnado, Jesus Cristo. Podemos dizer, portanto, que Deus espera de nós, também, uma única palavra de resposta: “eu te amo”, ainda que falada de milhares de formas. Assim Jesus corrige a postura de quem, ao orar, mistura a declaração de amor com, por exemplo, barganha ou chantagem (o famoso “toma lá dá cá”). Quanto à oração pública, esta também não está proibida pelo fato de ser pública, desde que tenha a motivação correta, isto é, o amor. Desta maneira, a oração inscreve-se na lista das formas de testemunhar a fé. O próprio Jesus que passava noites inteiras em oração pessoal, não evitava as ocasiões para orar em público. O exemplo clássico é a súplica diante do túmulo de Lázaro: Pai, eu te dou graças porque me ouviste! Eu sei que sempre me ouves, mas digo isto por causa da multidão em torno de mim, para que creia que tu me enviaste. (Jo 11, 41-42) Ou, um pouco mais tarde: Pai, glorifica o teu nome! Veio, então, uma voz do céu: “Eu já o glorifiquei, e o glorificarei de novo”. A multidão que ali estava e ouviu, dizia que tinha sido um trovão. Outros afirmavam: “Foi um anjo que falou com ele”. Jesus respondeu: “Esta voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por vossa causa. (Jo 12, 28-30)

Percebemos que a essência da oração consiste no amor e a coerência da postura de quem ora, chama-se sinceridade. Ser autêntico na oração e na vida descarta qualquer tipo de fingimento. Isso é importante também para nós homossexuais. A identidade sexual, por mais que leve esse nome, não diz respeito apenas ao sexo, mas a tudo que somos e fazemos. Não será, portanto, exagero dizer que a nossa oração é homossexual.

15 de junho de 2011

verdadeira adoração

O Papa Bento XVI dedicou a sua catequese de hoje ao profeta Elias (leia na íntegra aqui). Já é o sexto discurso nessa série de catequeses sobre a oração, proferidas pelo Papa no Vaticano às quartas-feiras. Ao concluir o resumo da história bíblica sobre Elias, Bento XVI disse: Os Padres dizem-nos que também essa história de um profeta é profética, está – dizem – à sombra do futuro, do futuro Cristo; é um passo no caminho rumo a Cristo. E dizem-nos que aqui vemos o verdadeiro fogo de Deus: o amor que guia o Senhor até a cruz, até o dom total de si. A verdadeira adoração de Deus, portanto, é dar a si mesmo a Deus e aos homens, a verdadeira adoração é o amor. E a verdadeira adoração a Deus não destrói, mas renova, transforma. Certamente, o fogo de Deus, o fogo do amor queima, transforma, purifica, mas mesmo assim não destrói, mas sim cria a verdade do nosso ser, recria o nosso coração. E, assim, realmente vivos pela graça do fogo do Espírito Santo, do amor de Deus, somos adoradores em espírito e em verdade.

Em nossa realidade de pessoas homossexuais, muitas vezes ouvimos - e acabamos acreditando - que amar (de um determinado jeito) é errado, portanto, proibido. Entretanto, amamos de maneira que nos foi dada pelo Criador. Como disse o Papa, o amor cria a verdade do nosso ser. Quanto mais nos damos conta do nosso amor, descobrimos melhor quem somos. É interessante, também, olhar ao amor do ponto de vista proposto pelo Papa. A verdadeira adoração é o amor. Será um equívoco dizer: o amor é a verdadeira adoração?

Bento XVI falou sobre o significado da palavra "adoração" aos jovens reunidos na Esplanada de Marienfeld em Colônia, durante XX Jornada Mundial da Juventude (2005): A palavra grega ressoa proskynesis. Ela significa o gesto da submissão, o reconhecimento de Deus como a nossa verdadeira medida, cuja norma aceitamos seguir. Significa que liberdade não quer dizer gozar a vida, considerar-se absolutamente autônomos, mas orientar-se segundo a medida da verdade e do bem, para, desta forma, nos tornarmos nós próprios verdadeiros e bons. Este gesto é necessário, mesmo se a nossa ambição de liberdade num primeiro momento resiste a esta perspectiva. Fazê-la completamente nossa só será possível na segunda passagem que a Última Ceia nos apresenta. A palavra latina para adoração é ad-oratio - contato boca a boca, beijo, abraço e, por conseguinte, fundamentalmente amor. A submissão torna-se união, porque Aquele ao qual nos submetemos é Amor. Assim, submissão adquire um sentido, porque não nos impõe coisas alheias, mas liberta-nos em função da verdade mais íntima do nosso ser. (Leia a homilia do Papa aqui).

Quando você estiver experimentando o amor e, por exemplo, beijando a boca da pessoa amada, não-se esqueça que está adorando a Deus.

14 de junho de 2011

mitologia católica


São muito de recomendar os exercícios piedosos do povo cristão, desde que estejam em conformidade com as leis e as normas da Igreja, e especialmente quando se fazem por mandato da Sé Apostólica. (Concílio Vaticano II, Constituição Sacrosanctum concilium sobre a Sagrada Liturgia, n° 13)

Na ocasião da memória litúrgica de Santo Antônio, aparecem os problemas antigos e nunca resolvidos que podemos chamar de "mitologia católica". Justamente como na religiosidade da Grécia Antiga havia Afrodite - deusa do amor e da beleza, Ares - deus da guerra, Hades - deus da morte, e Atena - deusa da sabedoria e da coragem (e muitos outros personagens), assim nós temos Santo Antônio casamenteiro, São Pedro que cuida (ou não) da meteorologia e, também, uma série de especialistas em causas impossíveis. Para conseguir um marido (não sei se vale para uniões de pessoas do mesmo sexo), aconselha-se colocar o Santo de cabeça para baixo em um copo d'água, ou tirar o Menino Jesus do colo da imagem, e só devolver depois que se consegue um marido (ou, pelo menos, namorado). Vale muito, também, uma promessa, por exemplo, de comparecer nas 13 novenas, ininterruptamente, durante um ano. Sem falar das coisas mais modernas e bastante simples, como mandar imprimir alguns milhares de "santinhos", certamente com alguma "oração milagrosa" no verso. Não falta, nessas horas, a presença generosa da soberana mídia, que faz questão de dedicar a esse assunto seus preciosos minutos. E como sabemos, uma grande parte do "povo católico" costuma basear as suas convicções, inclusive religiosas, naquilo que vê e ouve na telinha. Não é de estranhar que os evangélicos zombam da Igreja católica. Culpados somos também nós, os "devotos".

Achei interessante como a liturgia de hoje parece trazer a resposta clara a este tipo de equívocos. Vale lembrar que trata-se, simplesmente, de segunda-feira da XI semana do tempo comum e não de um formulário próprio, dedicado a Santo Antônio.  

Na primeira leitura (2Cor 6,1-10) temos a exortação e uma espécie de autodefesa de Paulo: Nós vos exortamos a não receberdes em vão a graça de Deus (v. 1). Em tudo nos recomendamos como ministros de Deus, com muita paciência, em tribulações, em necessidades, em angústias, em açoites, em prisões, em tumultos, em fadigas, em insônias, em jejuns, em castidade, em compreensão, em longanimidade, em bondade, no Espírito Santo, em amor sincero, em palavras verdadeiras, no poder de Deus, em armas de justiça, ofensivas e defensivas, em honra e desonra, em má ou boa fama; considerados sedutores, sendo, porém, verazes; como desconhecidos, sendo porém, bem conhecidos; como moribundos, embora vivamos; como castigados, mas não mortos; como aflitos, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo muitos; como quem nada possui, mas tendo tudo. (vv. 4-10) Parece que Santo Antônio (o ministro de Deus, como conhecido, sendo porém, bastante desconhecido), também quer se defender de todo exagero e distorção. Mas, ele não precisa de defesa, porque está na glória do céu e nada o pode atingir. Ele, de fato, gostaria de defender o próprio povo. E, certamente, conta com os pregadores e catequistas (que o têm por padroeiro), que teriam coragem de repetir a expressão de Jesus do Evangelho de hoje (Mt 5,38-42), também no contexto das devoções, ou melhor, da espiritualidade: Ouvistes o que foi dito...? Eu, porém, vos digo... (cf. vv. 38-39). Ou seja, não é bem assim...

O mesmo serve para muitos outros assuntos. Também para o tema da homossexualidade. Ouvistes o que foi dito? Eu, porém, vos digo...

3 de junho de 2011

O Cenáculo



“Sim, escrevo-vos do Cenáculo, relembrando o que aqui se passou”. Com a frase de Beato João Paulo II, da Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa de 2000, inicio a reflexão, no contexto da Novena de Pentecostes. O Papa, naquela linda carta (aqui), refere-se, evidentemente, à instituição da Eucaristia e do Sacerdócio ministerial, mas sabemos que, neste mesmo lugar, aconteceram outras coisas importantes, inclusive a própria efusão do Espírito Santo, no dia de Pentecostes. O nome “Cenáculo” vem da palavra latina cena, quer dizer, ceia. Os evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) fornecem detalhes interessantes sobre a misteriosa escolha do local da última ceia (cf. Mt 26, 17-19; Mc 14, 12-16; Lc 22, 8-13). A primeira conclusão, sempre atual e bastante prática, é que os lugares têm sua importância nos planos de Deus. Nada acontece por acaso. Cada um de nós nasceu em um lugar determinado. Nós, cristãos, temos gravado na alma o local em que fomos batizados, recebemos Jesus na Eucaristia pela primeira vez, fomos crismados, alguns casaram, outros sepultaram o pai e/ou a mãe... Quem de nós, que porventura tenha se deslocado ao longo de sua vida, não gostaria de visitar o lugar onde passou a sua infância, ou o local que marcou a sua primeira paixão, o primeiro beijo, e assim por diante? Os lugares especiais trazem à tona o conteúdo que marcou a nossa vida, renovam os sentimentos, refrescam a memória. Eu tenho alguns lugares assim. Ninguém ergueu monumentos ali e, para todo o resto da humanidade, são – provavelmente – lugares insignificantes. Lembro-me, por exemplo, o lugar onde, pela primeira vez, admiti a minha homossexualidade e aquele outro, marcado pelo primeiro beijo. A partir dali, começou uma nova fase da minha vida. Também da minha vida espiritual. Eu sei que há quem considere isso uma blasfêmia, mas, desde o momento em que descobri que estava apaixonado e que essa paixão era homossexual, a minha compreensão do amor de Deus deixou de ser uma teoria. É claro que, se eu fosse um heterossexual, o fruto seria o mesmo. O essencial é experimentar o amor. Uma coisa é ler sobre o amor e talvez até se emocionar com os textos e imagens que mostram essa realidade. Amar, entretanto, é diferente. A experiência engloba vários elementos: palavras, sentimentos, o toque e, principalmente, aquela luz extraordinária que invade nossa mente, nossa alma, enfim, todo o nosso ser.

No Cenáculo de Jerusalém aconteceu tudo isso. O evangelista João dedica cinco capítulos inteiros (13-17) ao que aconteceu ali durante a última ceia, deixando aos sinóticos a descrição da instituição da Eucaristia. Este texto de João está cheio de emoção, pois descreve, justamente, a intimidade de Jesus com seus discípulos. São palavras densas, dramáticas, apaixonadas. Foi ali que Jesus disse: um de vós me entregará (Jo 13, 21); Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros (Jo 13, 34); não cantará o galo antes que me tenhas negado três vezes (Jo 13, 38). Sem dúvida, foi essa experiência única que “prendeu” os apóstolos ao Cenáculo. Na manhã de domingo da Ressurreição, quase todos estiveram ali. Tomé que, como único, estava ausente, teve a sua “Páscoa da Ressurreição”, uma semana depois, no mesmo local. E quando, na ocasião da Ascensão do Senhor, o evangelista Lucas, no seu segundo livro (Atos dos Apóstolos) diz que os apóstolos voltaram para Jerusalém, acrescenta: Entraram na cidade e subiram para a sala de cima onde costumavam ficar. (At 1, 13). Mais tarde diz: Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. (At 2, 1)

O mapa dos meus “cenáculos” ultrapassa limites de um só continente. Hoje percorro todos eles, cheio de gratidão. Tenho consciência de que o cenáculo é, também, o lugar em que acontece o envio. Renovo o meu compromisso da missão recebida. É uma tarefa doce e amarga ao mesmo tempo. É a missão de amar.