ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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1 de março de 2014

Meu carnaval permanente


Os dias de carnaval, pelo menos aqui, no Brasil, criam uma sensação de estarmos em algum tipo de universo paralelo. As leis, os costumes e... os problemas, em sua maioria, ficam suspensos. Nada mais é estranho, ou melhor, o mais estranho é normal. É fácil despir-se de pudores para se revestir de fantasias. É a fantasia que reina e ninguém quer saber quem é quem. Não importa. É o teatro popular, um fenômeno vivido pela humanidade desde as suas origens, com a edição talvez mais clássica, lá na Grécia antiga. A hipocrisia perde a sua conotação pejorativa, retornando aos primórdios em que colocar uma máscara era apenas a nobreza da arte, ou seja, era uma mentira autorizada e consagrada. Por aqui, depois de alguns dias, irão sobrar as toneladas de lixo, as fantasias serão guardadas para o ano que vem e a vida, aos poucos, voltará à seriedade de sempre. As pessoas voltarão a mostrar as suas caras e as suas identidades...

O meu carnaval, entretanto, não termina na quarta-feira de cinzas. Eu continuarei usando a minha fantasia. É uma máscara do homem politicamente correto, talvez um pouquinho rebelde, tipo pirracento, mesmo assim, gentil e educado, bom (ou, pelo menos, médio) cristão, um cara que se veste sem extravagância, um tanto caladão, tímido, rotineiro, previsível. E, principalmente, um sujeito assexuado, supostamente heterossexual, por ser mais óbvio e porque ninguém toca nesse assunto. Até mesmo por não ter motivo para tocar. Sim, a minha fantasia de um carnaval permanente, pode ser chamada de... armário. 

Bem, falando com sinceridade, eu já tirei a minha fantasia. Foi diante de algumas pessoas e entre elas, umas quatro, que me viram não somente sem a fantasia, mas também sem a roupa (e não estou falando de médicos). Algumas outras pessoas conseguiram enxergar através da minha fantasia e, de alguma maneira, descobriram que sou gay. Mas também não tocamos muito nesse assunto. Tipo: "sabe-se, mas não se fala".

Sinceramente, não sei até quando vou viver este carnaval. Algumas vezes já tive vontade de "chutar o pau da barraca". Outras vezes fiz ou falei coisas para provocar, mas foi como brincar com a própria máscara, fingindo querer tirá-la. E não tirei e ninguém conseguiu arrancá-la de mim.

Mas o carnaval é uma ótima oportunidade para esse tipo de reflexão.

27 de janeiro de 2014

Paixonite


Limerência é um estado cognitivo e emocional involuntário que resulta de um desejo romântico por outra pessoa (objeto da limerência) combinado por uma intensa, avassaladora e obsessiva necessidade de se ter o sentimento correspondido. O termo foi cunhado em 1979 pela psicóloga e escritora norte-americana Dorothy Tennov para descrever o conceito que havia surgido em suas pesquisas em meados dos anos 60, quando entrevistou mais de 500 pessoas sobre o amor. A palavra, que apareceu pela primeira vez no ano de 1979 livro "Love and Limerence: The Experience of Being in Love" (Amor e Limerência: A Experiência de Estar Apaixonado, em tradução livre).
Mais recentemente, a limerência foi definida em relação ao transtorno obsessivo-compulsivo como “um estado interpessoal involuntário que envolve pensamentos, sentimentos e comportamentos intrusivos, obsessivos e compulsivos que são contingentes e dependem da percepção de reciprocidade emocional da parte do objeto de interesse”.
Limerência também foi definida em termos de seus efeitos potencialmente inspiradoras e de sua relação com a teoria do apego, que não é exclusivamente sexual, como sendo "um estado involuntário potencialmente inspirador de adoração e de apego a um objeto da limerência envolvendo pensamentos, sentimentos e comportamentos intrusivos e obsessivos que vão da euforia ao desespero, a depender da reciprocidade emocional percebida”.
A teoria do apego enfatiza que "muitas das mais intensas emoções surgem durante a formação, manutenção, interrupção e renovação dos primeiros laços afetivos". Sugere-se que "o estado de limerência é a experiência consciente da motivação do incentivo sexual" durante a formação de um vínculo: "uma espécie de experiência subjetiva da motivação do incentivo sexual" durante o "intensivo... estágio de formação de pares" do vínculo afetivo humano.
A limerência pode durar dias, meses, anos, ou até mesmo pelo resto da vida da pessoa afetada. Na linguagem popular, é conhecida como Síndrome de Paixonite Aguda. (Wikipédia)

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Na prática, as coisas acontecem da seguinte maneira: ele está ao meu lado quase o tempo todo. Juntos assistimos e comentamos os programas da televisão, rimos das mesmas burrices e nos emocionamos com as mesmas cenas. Passeamos, fazemos compras, tomamos sorvete. Conversamos longamente sobre vários assuntos, contamos os nossos segredos do passado, relatamos aquilo que marcou a nossa vida e descrevemos os nossos familiares. Sim, dormimos juntos, mas (ainda ) não fizemos sexo. No momento, o mais importante é dormir "de conchinha". Já nos tornamos muito íntimos, o nosso olhar é apaixonado. Quando tomamos coragem para revelar algum defeito particular, uma mania ou vício, o carinho mútuo cresce ainda mais. Na presença de outras pessoas comunicamo-nos com caretas e olhares que só nós entendemos. Fazemos planos para o futuro e o que mais desejamos é viajar. Sonhamos em nos casar um dia (no futuro não muito distante) e morar junto pelo resto da vida. Não há ciumes, desentendimentos, neuroses. Também não ficamos exageradamente grudados. Eu gosto de ver quando ele escreve, passa a roupa ou faz qualquer outra coisa. As vezes ele sai e eu fico esperando pelo seu retorno. Quando isso acontece, percebo que ele sentiu saudade, assim como eu. Enfim, estamos muito felizes...

Um detalhe: tudo isso acontece dentro da minha cabeça. Se eu, um dia, tivesse a ocasião de encontrá-lo pessoalmente (sim, sim, ele é real), muito provavelmente eu confundiria o real com o imaginário. Ficaria decepcionado se ele não atendesse ao meu carinho ou não compreendesse as minhas piadas. O rapaz, certamente, ficaria espantado com o meu entusiasmo e - por me considerar um maluco - nunca mais teria vontade de me ver. Digo isso, porque já experimentei essas situações. A minha paixonite não é apenas aguda, mas se repete com bastante frequência. A única solução seria encontrar uma pessoa real, antes que surja o seu "substituto" imaginário...

Tive três namorados reais, cinco ficantes  e, talvez, uns cinquenta casos de paixonite. Quase sempre separadamente, ou seja, uma pessoa de cada vez. Em sua grande maioria, essas paixonites não saíram da minha cabeça. E, em poucos casos, ao saírem, as minhas tentativas (de me aproximar, de "abrir o jogo" ou até de "dar em cima") tinham sido frustradas. Algumas pessoas, diga-se de passagem, deixaram de falar comigo. Tudo isso parece ser suficiente para nunca mais me deixar levar por esse tipo de coisa. Acredite quem quiser... Estou, no momento, de uma paixonite nova...

Eu sei que as desilusões fazem parte da vida e por mais dolorosas que sejam, são saudáveis. Até agora, tirando os três relacionamentos felizes [enquanto duravam], todo o resto não passou de ilusão. Seria querer  e pedir demais, que a desilusão se limite apenas às qualidades da pessoa (afinal, só Deus é perfeito) e não à possibilidade real de tal pessoa namorar comigo?

20 de janeiro de 2014

Homofobia - palavra estranha


Escrevi recentemente que - em certo sentido - concordo com aafirmação usada pelo padre Paulo Ricardo: "Não existe nenhuma homofobia". Para ser mais exato, o padre disse: "Não existe nenhuma homofobia em considerarmos a estrutura do mundo real". De fato, a polêmica mais importante seria sobre o conceito do "mundo real", mas o início daquela frase despertou na minha memória o questionamento de outro tipo. Quando usei a expressão "em certo sentido", fiz referência, de fato, a um e único sentido. Enquanto a homofobia - como a entendemos - lamentavelmente continua existindo e até parece aumentar, o próprio termo não me deixa sossegado. O que quero dizer é que não existe a homofobia do ponto de vista linguístico (etimológico, fraseológico etc.). O que, de fato, existe e tanto nos atormenta é uma "heterofobia".

Analisemos um pouco a história:

A palavra homossexual é um híbrido do grego e do latim com o primeiro elemento derivado do grego homos'mesmo' e o segundo elemento derivado do latim sexus'sexo', conotando portanto, atos sexuais e afetivos entre pessoas do mesmo sexo. Especialistas em literatura psiquiátrica concordam em posicionar o surgimento do termo homossexualismo no século XIX, por volta da década de 1860 ou 1870, criado pelo discurso médico para identificar o sujeito homossexual. A primeira aparição conhecida do termo homossexual na impressão foi encontrada em um panfleto de 1869, publicado anonimamente, pelo romancista alemão nascido na Áustria, Karl-Maria Kertbeny. [fonte]

palavra homofobia é um neologismo criado pelo psicólogo George Weinberg, em 1971, numa obra impressa, combinando a palavra grega phobos ("fobia"), com o prefixo homo-, como remissão à palavra "homossexual". O problema é que tal prefixo ('homo') é também uma palavra completa (como vimos acima) e a mencionada remissão à palavra 'homossexual' não parece tão óbvia. Se, portanto, a palavra 'fobia' - "medo, aversão irreprimível" (do grego antigo φόβος) associarmos ao termo 'homo' (também do grego antigo ὁμός - 'mesmo, igual'), vamos descrever o "medo do igual" o que não é o caso da homofobia real, cujos tristes efeitos sofremos diariamente na própria pele. O medo, a aversão irreprimível, a agressão irracional... tudo isso dirige-se a nós, justamente por sermos diferentes. Na língua grega existe o termo 'heteros' (ετερός) que quer dizer 'diferente'. Por analogia (e, segundo os estudiosos, como a resposta à criação do termo "homossexual") surgiu a palavra "heterossexual", com a mesma lógica de associar um elemento derivado do grego ('heteros' - 'outro, diferente') e o outro, derivado do latim ('sexus' - 'sexo'), para indicar atos sexuais e afetivos entre pessoas de sexos opostos. Logo, o mencionado acima "medo causado pelas pessoas diferentes (no contexto sexual)" seria 'heterofobia' e não 'homofobia'.

Vale mencionar aqui mais um termo, desta vez composto de duas palavras gregas e que descreve a realidade muito próxima à homofobia. É a xenofobia (do grego ξένοςxénos -'estrangeiro' φόβοςphóbos - 'medo') é o medo, aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, a desconfiança em relação a pessoas estranhas ao meio daquele que as julga ou que vêm de fora do seu país. A xenofobia pode manifestar-se de várias formas, incluindo o medo de perda de identidade, suspeição acerca de suas atividades, agressão e desejo de eliminar a sua presença para assegurar uma suposta pureza.
A xenofobia pode ter como alvo não apenas pessoas de outros países, mas de outras culturas, subculturas ou sistemas de crenças. O medo do desconhecido pode ser mascarado no indivíduo como aversão ou ódio, gerando preconceitos. Em senso mais restrito, xenofobia é o medo excessivo e descontrolado do desconhecido. Neste sentido, é umadoença e insere-se no grupo das perturbações fóbicas,caracterizadas por ansiedade clinicamente significativa, provocada pela exposição a uma situação ou objeto temido. Para o tratamento da xenofobia são normalmente utilizados os métodos da terapia comportamental. Em alguns casos mais graves é habitual a administração de medicamentos que tenham por objetivo principal a diminuição da ansiedade extrema, uma vez que esta impede que se realizem as sessões terapêuticas de uma forma eficaz. Em outros casos, pode-se desenvolver crenças irracionais (geralmente preconceituosas), pelo que também é recomendado que se busquem estratégias cognitivas que trabalhem tais crenças.[fonte]

Bem... Não pretendo promover aqui uma revolução linguística ou a nova reforma ortográfica/etimológica etc. Procuro apenas analisar os termos que usamos.

O verdadeiro problema começa quando alguém insiste em negar a existência de algo real. É o caso de "homoafetividade" que, enquanto um termo, não deixa tantas dúvidas, porém é questionada como a mais autêntica experiência vivida pelas pessoas homossexuais. O "filósofo" Olavo de Carvalho, em um dos seus discursos, exibidos no YouTube, disse literalmente: Vamos falar o português claro: no que consiste a homoafetividade masculina, né? Consiste um comer o cu do outro, meu filho. Consiste na boa e velha sodomia, você tá entendendo? (Leia aqui e, se realmente quiser, assista os vídeos no mesmo link).

Terminando as minhas divagações sobre os termos e as expressões (com seus respectivos significados), gostaria de afirmar com a mais triste veemência: a homofobia existe, sim... A página virtual "Homofobia mata" é um dos veículos que comprovam i documentam esse trágico fenômeno.

Para finalizar, recorro ao texto do Deputado Federal Jean Wyllys, publicado na "Carta Capital":

Eu já disse uma vez e vou repetir. Cada uma dessas vítimas tem um algoz material — o assassino, aquele que enfia a faca, que puxa o gatilho, que "desce o pau", como o pastor Malafaia pediu numa de suas famosas declarações televisivas. Mas há outros algozes, que também têm sangue nas mãos. São aqueles que, no Congresso, no governo e nas igrejas fundamentalistas, promovem, festejam, incitam ou fecham os olhos, por conveniência, oportunismo, poder e dinheiro, cada vez que mais um Kaique é morto. Eles também são assassinos.

Como deputado federal, mas também como cidadão gay desse país, e antes disso tudo, como ser humano não consegue conviver com a violência e o ódio como se fossem naturais, ficarei à disposição da família e dos amigos de Kaique e farei tudo o que puder para que esse e outros crimes sejam esclarecidos e não fiquem impunes. Como dizia o poeta Pablo Neruda, chileno como Daniel Zamudio, "por esses mortos, nossos mortos, eu peço castigo".

14 de janeiro de 2014

O retrato de um conceito


"A imagem (muitas vezes) mala mais do que mil palavras (por exemplo, de um sermão)" - foi isso que pensei, ao compartilhar esta foto, publicada originalmente no perfil oficial da Arquidiocese do Rio no facebook.

Se você quiser, antes mesmo de ler o texto a seguir, veja - com atenção e sem pressa - a fotografia e tente responder a essa questão: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

Como sempre acontece nas redes sociais, recebi imediatamente alguns comentários, relacionados à legenda com a qual publiquei a foto. Os comentários apareceram tanto de forma pública, quanto particular, via "bate-papo". Confesso ter ficado surpreso com aquilo que escreveram os meus amigos, a saber: um estudante de teologia, uma jovem católica "contestadora" e duas católicas de meia-idade, praticantes e piedosas.

O estudante de teologia (quase formado) respondeu: A meu ver a foto mostra que quem sustenta a vida da Igreja com as orações e a perseverança são as mulheres que a exemplo de São Sebastião não se cansam de dar testemunho...

Uma das mulheres piedosas escreveu: Para mim demonstra a simplicidade q deve existir em nossa Igreja.

Outra mulher piedosa me deixou um pouco mais preocupado: Vi a foto da trezena de Sto Antonio [como assim?] mas não entendi, ou não percebi oque lhe chamou atenção. O q teria sido?

Pensei em fugir da resposta, por isso disse: Ah, eu acho que cada um pode interpretar a vontade.

Tentei provocar um pouco o teólogo, então escrevi: Uma foto e mil interpretações... quando olho aqui, tenho na mente uma frase de Jesus, mas não me peça para citar... Na mesma hora, o rapaz tentou acertar: O maior dentre vós seja aquele que serve! (cf. Lc 22, 26). Não foi exatamente essa passagem que pensei, mas achei a conversa interessante. Só achei uma pena o fato de que as pessoas não conseguem associar bem o texto e uma imagem. Repito aqui, então: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

A mulher piedosa que havia confundido São Sebastião com Santo Antônio insistiu mais: O pensamento é livre mas a partir de que? Não vi, não notei nada estranho na foto. Qdo o senhor diz "de forma simbólica, retrata certo conceito da Igreja". Qual seria esse conceito?

A jovem católica "contestadora" seguiu uma estratégia diferente e não quis mais saber da passagem bíblica (ainda que estivesse bem próxima dela em sua intuição): uma mulher carregando a imagem... e o clero ao lado... não vou com o focinho desses dois ai...

Finalmente respondi a todos, citando o texto do Evangelho de Lucas (Lc 23, 2-8, com o destaque no v. 4):

Jesus falou às multidões e aos seus discípulos: "Os doutores da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Vejam como eles usam faixas largas na testa e nos braços, e como põem na roupa longas franjas, com trechos da Escritura. Gostam dos lugares de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas; gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, e de que as pessoas os chamem mestre. Quanto a vocês, nunca se deixem chamar mestre, pois um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos.

Enquanto o estudante de teologia acrescentava outra passagem, bem no contexto da primeira (Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Mt 11, 25), a mulher piedosa continuou com as suas dúvidas: Está querendo dizer q a mulher não deveria estar carregando a imagem? Pelo que li na passagem...

Conclusão: As conversas que acontecem nas redes sociais têm uma dinâmica particular e nada é tão óbvio como parece.

Se quiser, escreva a sua reflexão a partir desta foto e da legenda: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

5 de janeiro de 2014

Um sonho da Epifania


Os sonhos sempre têm algo de louco. Umas misturas sinistras e cenas esquisitas. Foi assim também desta vez...

Eu estava numa fila enorme de gente que aguardava o atendimento em um guichê. Tratava-se de pegar uma senha para entrar no imponente portão que se encontrava no centro daquele lugar misterioso. O guichê com aquela fila estava ao lado direito do portão. Ao lado esquerdo havia mais 5 ou 6 guichês semelhantes, mas por lá passavam apenas algumas pessoas e só de vez em quando. Parecia-me uma divisão entre os privilegiados e os "comuns", assim como no banco ou, melhor, nos aeroportos europeus, onde há uma entrada especial para os cidadãos-membros da UE e outra para o resto do mundo. Neste sentido, eu estava na fila dos comuns, ou do "resto do mundo" - essa foi a minha impressão inicial. Não me senti, entretanto, tão incomodado assim, pois o ambiente todo tinha o aspecto, digamos, místico. Um ser misterioso (que depois identifiquei como o próprio Arcanjo Miguel), portando a espada brilhante, sobrevoava a nossa fila. Um outro parecido (certamente Gabriel), circulava por toda a extensão da fila e conversava com os mais impacientes. O terceiro (Rafael) tinha o aspecto de enfermeiro e tentava distribuir alguns remédios às pessoas na fila. No próprio guichê estava sentado um senhor de idade mais ou menos avançada. Se não fosse a sua aparência de certo cansaço, diria que tratava os clientes com a incansável paciência, explicando vagarosamente algumas coisas a cada pessoa. Ele ficava visivelmente triste ao mandar alguém até o final da fila o que acontecia com bastante frequência.

Fiquei meio confuso, então decidi conversar com alguém da fila. Bem ao meu lado estava um senhor vestido de batina preta, enfeitada com os botões vermelhos e outros detalhes da mesma cor. Apesar de sua aparência, digamos, pomposa e um tanto antipática (o seu rosto avermelhado estava coberto de suor e ele todo exalava um cheiro de incenso), decidi puxar o assunto com ele...

- "Esta aqui é a fila dos cristãos" - disse ele. - "Quem vai nos atender e o próprio São Pedro. O Arcanjo Miguel sobrevoa a fila, porque toda hora surge uma briga entre católicos e protestantes, ortodoxos e católicos gregos, entre católicos tradicionalistas e carismáticos, dizimistas e agentes de pastoral, sem falar dos lefebvristas, sedevacantistas e aqueles da teologia da libertação, além dos pentecostais, veterocatólicos, anglicanos, maronitas, metodistas, testemunhas de Jeová e assim por diante.."

O meu interlocutor (monsenhor e capelão de Sua Santidade) teve que interromper a sua explicação porque logo atrás da gente começou uma discussão entre dois clérigos. O primeiro, de batina preta, dirigindo-se ao companheiro à esquerda, barbudo e vestido de um hábito marrom, disse: - "Ó, irmão capuchinho! Você sabia que Judas também usava a barba?". O outro replicou: - "Meu amado irmão jesuíta! Se Judas usava a barba, eu não sei dizer, mas com certeza ele pertencia à companhia de Jesus..."

O religioso ainda estava falando quando um pequeno grupo de mulheres entrou na sala e dirigiu-se aos guichês à esquerda, totalmente vazios. Todas elas pareciam ter saído de um incêndio: as suas roupas estavam rasgadas e sentiu-se em toda parte um forte cheiro de queimado. As mulheres foram atendidas rapidamente e na mesma hora entraram pelo portão. - "São as bruxas queimadas por ordem da Inquisição" - disse o monsenhor. - "Você tinha que ver as bichinhas e os travecos, as drag-queens e as sapatonas" - continuou. - "Entraram ainda mais rápido! Olha lá, tá vendo? O homem-bomba no maior bate-papo com o kamikaze japonês da II Guerra Mundial! Eles tem o atendimento vip." Na mesma hora passaram por nós uns monges tibetanos murmurando algumas mantras, judeus ortodoxos, hindus e animistas. Depois apareceram os seguidores de candomblé, as pessoas com o barquinho azul e a imagem de Iemanjá, umas ciganas com as cartas de taró... Todo mundo seguiu aos guichês à esquerda e entrou pelo portão.

- "Mas quem são os atendentes de lá?" - perguntei. - "E por que é que nós temos só um e eles têm tantos?"
O monsenhor disse: - "Lá atendem os magos do Oriente. Olha isso: vem o cracudo, o tatuado, vem gente que acredita nos signos, os divorciados e recasados, comunistas e ateus... e todos entram! Vê se pode isso! Quando reclamei de uns viadinhos suicidas, São Gabriel me repreendeu e disse que eram mártires do preconceito."

- "Uê, sempre pensei que foram três reis do Oriente" - repliquei. - "O Evangelho não diz que eram três, nem que tenham sido reis. Diz que alguns magos vieram do Oriente... logo os magos, poxa" - desabafou o monsenhor...

O mais impressionante (e irritante) era o fato de que a nossa fila estava parada, havia muito tempo, enquanto ao lado esquerdo tudo corria muito rápido e sempre com o ar de alegre leveza. Mas nem pude observar aquilo por muito tempo, porque, de repente, o Arcanjo Miguel passou de voo rasante logo acima de nossas cabeças, dirigindo-se ao final da fila, onde as freiras vestidas de hábito começaram a briga com outras freiras que não usam mais o hábito...

- "Que loucura!" - pensei.
- "Não é loucura" - sussurrou no meu ouvido o Arcanjo Gabriel - "é a Epifania!"... 

22 de dezembro de 2013

Natal quer dizer nascimento


Parece uma burrice declarar (no título deste texto) algo tão óbvio, mas a minha impressão constante é que muitas coisas óbvias perderam, há décadas, o seu significado original e por isso acho válida a tentativa de resgatar um pouco daquilo que é essencial. Não sei se é a pressa de fazer as coisas ou a quantidade delas, mas o fato é que acabamos estacionando na superfície. É uma pena. Mas quem se importa com isso? Aqueles que se importam vivem na solidão e frequentemente caem em depressão. A superficialidade apavora-os e a própria impotência ainda reforça aquele pavor. Uma das prováveis saídas (ainda que ilusórias) é cavar na essência das coisas e tentar descrevê-las daquela perspectiva, se é que existem palavras suficientes para tal descrição. E, se existirem, serão compreendidas ou, novamente, irão cair no abismo da superficialidade e do mal-entendido? Seja o que for, ainda creio na importância da palavra - dita e, ainda mais, escrita. Talvez alguém leia e seja tocado. Algumas palavras salvam vidas ou, pelo menos, prorrogam o prazo de partida voluntária. Algumas palavras são como o combustível para levantar o voo. Até a próxima queda. Ou, até a próxima palavra salvadora. É a Palavra que se fez carne e habitou entre nós. É o Nascimento que gera novos nascimentos...

É neste sentido leio e transcrevo aqui as palavras de Murilo, publicadas originalmente no Portal Todavia e disponibilizadas, também, no Blog do Grupo Diversidade Católica. Vale a pena ler o texto inteiro. Destaco aqui a parte que mais chamou a minha atenção.

Murilo diz: "Eu digo que eu sou até mais cristão por ser gay - e mais gay por ser cristão. Se tem uma experiência na minha trajetória que associou tudo isso, foi o dia em que eu saí do meu próprio armário: me senti vivo como nunca antes, deixando pra trás um Murilo que era uma mentira, e me sentindo mais livre, sem amarras. Se não foi Deus quem me proporcionou esse bem, essa bênção e essa liberdade, eu não sei mais quem foi". 

Recorro, de novo, ao conceito do óbvio. Será que só para mim ficou nítida a analogia entre o Natal (nascimento, parto) e a saída do armário? Ainda que, como em Belém, logo tenha aparecido um monte de Herodes, querendo matar o menino? Quantos cristãos-Herodes irão considerar tal associação uma blasfêmia? Evidentemente, só aqueles com o espírito de humildade, como os pastores dos arredores da Cidade de Davi, serão admitidos à contemplação daquela Luz.

Que não falte, então, a coragem e a fé de Maria e de José, àqueles que querem reviver (ou viver pela primeira vez) o verdadeiro Nascimento do Salvador.

Feliz Natal a todos!

14 de dezembro de 2013

Adote um cachorro

Fonte: Deviantart

Retorno ao "Retorno (GAY)" (é o nome deste blog), após um período de férias. Mais uma vez fui à Europa, desliguei o celular e raramente abri qualquer página virtual. Uma pausa dessas, ainda que traga alguns problemas próprios, deve fazer a gente descansar, pensar e respirar em um ritmo diferente. O efeito colateral, ao menos no meu caso, é a demora em voltar à rotina. Ainda acordo antes da hora (deve ter sido o efeito do fuso horário diferente), ainda procuro palavras certas para falar e escrever e surpreendo-me com a camisa que me incomoda dentro de casa, recordando as 3-4 camadas de roupa usadas obrigatoriamente naquelas terras congeladas. Algumas ideias que, por lá, pareciam tão claras e fáceis em sua realização, aqui revelam-se, de novo, distantes e bem menos simples. Trata-se de umas mudanças bastante radicais, como a busca de um novo emprego (na verdade um novo estilo - ou status - de vida). Isso inclui a busca mais séria de mudança do meu estado civil (sério!). Falando nisso, sempre me reparo com as declarações daquele desejo fundamental (e bíblico) de não estar mais sozinho (pois não é bom: cf. Gn 2, 18), entretanto são pouquíssimas as pessoas que se decidem dar o próximo passo (inclusive eu). Será que já sonhamos tanto e acabamos criando um namorado imaginário tão perfeito que ninguém mais é capaz de corresponder àquele ideal? Eu sei que muita gente, simplesmente, não acredita no sucesso de um relacionamento estável, por outro lado, porém, não aceito a ideia de que os gays só procuram o sexo por aventura.
 
Foi neste contexto que, ao longo das minhas férias, inventei uma "cantada" esquisita. A lógica é seguinte: quantos anos, em média, vive um cachorro? Isso, é claro, depende da raça e de outros fatores, tais como a saúde, o modo de ser tratado, a alimentação e um monte de outras coisas. Afinal, assim acontece com qualquer ser vivo. Tendo em vista a minha idade atual (completei recentemente 48!) e - digamos - as estatísticas familiares, o tempo que me restou compara-se, de alguma maneira, à vida de um cão. Excluo aqui toda e qualquer conotação pejorativa e discriminatória que tal analogia possa evocar ("vida de cão", "quem nasce para cão, há de morrer latindo", "quem com cães se deita, com pulgas se levanta", "qão chupando manga", etc.). Refiro-me, antes, aos melhores exemplos de uma amizade que dura a vida toda e que pode ser chamada de relacionamento afetivo. Para ser ainda mais claro: não tem nada a ver com a zoofilia.
 
A estratégia seria essa: assistir com um candidato (ao namorado-marido-parceiro) um filme temático, por exemplo "Marley & eu", "Sempre ao seu lado", "Lassie", "K-9, um policial bom pra cachorro", "Iron Will", "Fluke: lembranças de outra vida", "Uma dupla quase perfeita", ou outro desse gênero e, no final, fazer o pedido: "[me] adote [como] um cachorro!". Eu sei que a ideia em si é um tanto bizarra, mas talvez a proposta de ficar junto "por resto da vida" possa assustar, enquanto não se tem a clareza quanto à duração daquele "resto". Faria sentido, então, dizer: fique comigo por até 15 anos, ou pelo menos 10?
 
...não sei, mas são essas coisas que trouxe das minhas férias...

13 de novembro de 2013

Postagem interativa

No estilo soft (ou light, quem quiser), afinal estou de férias, proponho hoje uma imagem sem comentários, mas para ser comentada, se algum dos meus Ilustres Leitores, assim quiser. É de um humorista polonês Andrzej Mleczko (vejam a sua página no face). Eu apenas alterei o idioma do texto.
 
 

11 de novembro de 2013

Uma pausa

(Foto: fonte)
 
Chegou a hora de descansar um pouco e já estou viajando (esta postagem foi programada para ser publicada nesta data, mas não estou, no momento, em casa). Os lugares que estou visitando são lindos e um tanto afastados da civilização. Não tenho o acesso diário à net, mas prometo, de vez em quando, dar um "olá" aqui, talvez com algumas novidades.
 
Bem... Os meus sonhos ainda não se realizaram. Algumas decisões existenciais foram adiadas um pouco, mas vejo nisso tudo a Providência de Deus. Foi sobre isso que conversei com os meus amigos ontem no bar. Todos estavam de acordo com a ideia de que as decisões desse porte (aquelas existenciais), não fossem o fruto de um impulso. A fé na Providência de Deus não justifica a imprudência. Tipo: "largar tudo", OK... e depois? Deus providenciará? Mas Ele já providenciou a minha inteligência, a experiência de algumas décadas de vida e o exemplo daqueles que quebraram a cara, só porque não se preocuparam com o futuro. Quando Jesus fala sobre isso no Evangelho, usa a expressão "preocupações desmedidas", o que sugere que outras, aquelas "medidas", sejam boas e importantes.
 
Enfim... Queria encontrar o "meu coreano" (que, perfeitamente, pode ser um brasileiro, desde que seja meu). Queria namorar, noivar, casar, viver junto, cuidar (dele), trabalhar, ser feliz (com ele). Aliás, foi essa a pergunta que uma das amigas me fez ontem: "E agora, com tudo o que você faz, você não está feliz?". Lembro-me (apesar de ter sido na hora da terceira caipirinha) que, como resposta, eu tinha feito um gesto com as mãos, como se quisesse pegar algo. Se não me engano, respondi: "Sim, estou feliz, mas estou procurando uma felicidade mais palpável"... Por mais que alguém possa interpretar isso assim, não se trata apenas de "apalpar a carne". É a questão de ter alguém - como diz aquela famosa frase - quem pudesse chamar de meu (e de ser assim chamado também). Sim! De poder tocar também!
 
OK. Espero ter ótimas férias e poder retornar com novas forças e novas ideias, daqui a um mês.
 
Um beijo para todos!

7 de novembro de 2013

Landro Carioca


Finalmente fui conhecer o "Landro Carioca". Eu que não sou muito dado a baladas, gostei do lugar. Até idealizei um pedido de namoro/noivado/casamento (caso encontre um candidato), quem sabe, também por lá. Desta vez foi a primeira visita, um tipo de "espionagem", só para conhecer o ambiente. Em breve pretendo voltar lá. Ainda não sei qual é a situação do Landro Carioca nos fins de semana (fui na quarta - estava praticamente vazio). Os anúncios, publicados pelo próprio bar, advertem: Fiquem ligados! A programação dos fins de semana de Novembro, no Landro Carioca, está fuderosa! A casa vai ficar pequena para tanta gente. Confirme sua participação e chegue cedo pois a casa tem um limite de lotação!
 
Fiquei na dúvida em questão do nome deste bar. Quando falei sobre o local com alguns amigos, todos me perguntavam se não era o "Leandro". É Landro mesmo. O engraçado é que no "dicionário informal", "landro" consta como uma protuberância indicativa de inflamação que surge nas laterais do pescoço (certamente, não tem nada a ver com o bar... ou tem?). A intuição me levou ao outro vocábulo, um tanto parecido e que, talvez, faça mais sentido. O mesmo dicionário fala de landraia que é o termo usado em Portugal para uma mulher de má índole, antipática - evidentemente, tudo no sentido irônico, quanto à inspiração para o nome do bar. Bem... um dia vou descobrir...
 
"Landro Carioca" é, como podemos ler em sua página no facebook: "mais que um bar, é uma experiência". O seu blog, de maneira bem-humorada, afirma: Somos uma bar hetero friendly, isso quer dizer que recebemos todas as pessoas e temos um carinho todo especial com o público LGBT. Como um bar posicionado no mercado GLS, esperamos oferecer aos nossos clientes o melhores serviços com qualidade e total atenção ao atendimento. Por sermos um bar GLS na Lapa oferecemos mais que um bar, mas uma experiência carioca. O portal Gay1 faz a seguinte apresentação: Especializado em drinks de cachaça, Vodka e Pisco, o Landro Carioca tem sido um novo point para uma galera descolada, gays, grupos de amigos, tudo isso bem no coração da Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro.
 
Não é apenas um local de descontração, mas também um importante centro de luta pelos direitos LGBT. Em sua página no facebook encontramos essas declarações:
 
Somos a favor da criminalização da homofobia em todas as suas manifestações (agressões, assassinatos, injúria e qualquer outra ação discriminatória).
 
Denuncie casos de homofobia!!! Não aceite, não tolere nem se cale diante de qualquer situação de discriminação por conta de orientação sexual.
 
Landro Carioca apoia a campanha pelo Casamento Igualitário.
 
Então... Foi uma noite excelente. Valeu muito a pena estar com um grupo (barulhento) de amigos. Entre os gays e hétero, solteiros, casados e recasados, numa verdadeira diversidade. Também com a imensa variedade de bebidas. Pois é, a minha mãe sempre me dizia que não faz bem misturar os drinks...
 
Ah, sim! "Lando Carioca" fica na Avenida Mem de Sá, n° 120, (Lapa) - segundo andar, subindo as escadas coloridas... Funciona de terça a domingo. Durante a semana abre por volta das 20 h. (ou, talvez, um pouco antes, caso não chova).
 
Clique na foto para visualizar melhor (fonte: facebook)
 

20 de outubro de 2013

잘 지내요 ?


A minha epopeia de sonhos/delírios que envolvem a misteriosa figura de um jovem coreano continua. Outras partes da história estão aqui e aqui. Na quinta-feira passada fui procurar dois dos três restaurantes coreanos, localizados pela internet. O restaurante no centro da cidade, perto da estação de metrô Cinelândia, oferece alguns tipos de comida oriental, mas quem trabalha lá, são as mulheres brasileiras. Acabei tomando uma sopinha por R$ 6,00 e fui embora. Segui até a praça Afonso Pena e percorri a rua Mariz e Barros inteira, à procura do restaurante “China” que, segundo à propaganda, serve a comida coreana. Ninguém nessa rua ouviu falar do restaurante “China”. Decidi voltar para casa e, pelo caminho, encontrei um restaurante japonês (afinal, o meu sonho pode não estar tão exato assim). Conferi o horário com um japonês de meia-idade e resolvi voltar lá mais tarde, no mesmo dia, imaginando encontrar muita gente. À noite, porém, o restaurante contou apenas com a presença de uma mulher e uma criança. Na sexta-feira fui conhecer mais uma restaurante, na Rua do Bispo (esquina com Haddock Lobo). Esqueci de dizer que adorei tudo que comi, principalmente o sashimi. Até consegui usar os pauzinhos de madeira. Neste restaurante vi um grupo de jovens asiáticos, três rapazes e duas meninas. Por pouco não parei para contar a eles a minha história de sonhos, mas imaginei como seria a conversa. O texto em seguida conta o que eu não fiz, por falta de coragem. Pode ser entendido, simplesmente, como a continuação da estória “À procura do meu coreano”. Só que apenas na minha imaginação...


Aproximei-me daquela mesa e pedi licença:
 
- Me desculpem pela invasão, mas queria contar para vocês uma coisa que me preocupa ultimamente e talvez vocês possam me ajudar. Eu sei que a coisa é bastante esquisita, por isso nem vou sentar e prometo ocupar, no máximo, uns dois minutos de sua atenção. Quando terminar, vocês poderão, simplesmente, dizer: “Você é um maluco”. Eu vou embora e a gente nunca mais vai se ver. Pode ser?
 
O rapaz de óculos, sentado à ponta da mesa, fez uma cara de desprezo, mas antes de abrir a boca, uma menina, com aparência de líder do grupo, aceitou a minha proposta e com um gesto pediu ao dono do restaurante uma cadeira para mim. Sentei-me ao lado do rapaz de cabelo ondulado que tinha a cara de mais jovem do grupo. Comecei a minha história.
 
- Primeiro, queria dizer que, com os meus quase 48 anos, nunca tinha me acontecido uma coisa semelhante e, também, que – embora eu acredite em coisas sobrenaturais – não sou um cara voltado à premonição ou adivinhação. Mas, como a coisa está insistindo, há mais de uma semana e trata-se de alguém que talvez tenha passado por momentos difíceis, prefiro me expor ao ridículo, do que cometer algum tipo de omissão. Tudo começou com um sonho que, mais tarde, continuou na minha cabeça, mesmo quando estou acordado, sempre tratando da mesma situação e só acrescentando novos detalhes. Trata-se de um rapaz com as feições de asiático. Não sei se isso veio a mim, ou se fui eu que inventei, mas algo me diz que ele é um coreano. Olha, eu sou europeu e para nós europeus – eu acho que também para a maioria dos brasileiros – é praticamente impossível distinguir, apenas pela aparência, se a pessoa com esses traços, é da Coreia, do Japão, da China, ou de algum outro país da Ásia. Fico, então, com a intuição de que tenha sido um coreano. Pode ser que ele tenha nascido lá e vindo ao Brasil com a família, ainda pequeno, ou nasceu aqui, sendo os seus pais que vieram de lá. Parece-me que ele tem alguns familiares na Coreia. De outras características dele que se repetem é que ele ou trabalha na cozinha, ou gosta de cozinhar, além de ter bastante talento com a informática. O essencial da história é que ele teria sofrido recentemente uma grande desilusão amorosa, em relação a uma pessoa mais velha, pela qual tinha se apaixonado perdidamente. O caso durou, mais ou menos um mês e tudo indicava que essa pessoa correspondia ao sentimento do rapaz. Como, porém, essa pessoa não é daqui, mas da Europa (muito provavelmente da Alemanha), depois de um mês, tinha que voltar para casa. Os dois combinaram que, quando for possível, o rapaz viajaria para passar um tempo na Alemanha, para dar a continuidade ao relacionamento. Agora, finalmente, surgiu a oportunidade e o jovem coreano apaixonado decidiu viajar, na primeira quinzena de novembro, para passar um mês na Alemanha. Ele comprou a passagem e continuou mantendo o contato com aquela pessoa via internet. Começou, entretanto, a sentir uma mudança de comportamento da pessoa, até o dia em que recebeu um e-mail que o deixou totalmente arrasado. A pessoa tinha escrito que tudo isso que os dois viviam, não passou de uma aventura de férias e que, na verdade, ela tem um companheiro, lá na Alemanha e que não quer mais saber do rapaz, nem de sua visita por lá. Como vocês podem imaginar, o mundo do rapaz caiu. Ele perdeu o interesse por todo do que gostava, fechou-se em si, ficou tão triste que os seus familiares e amigos estão com medo de que ele possa cometer alguma loucura... Aí, não sei bem como, mas essa situação veio a mim, como se eu pudesse ajudar esse rapaz de alguma maneira.
 
O rapaz de óculos continuou com aquela cara de indiferença, mas não me interrompeu. A menina (a líder) ouviu tudo com bastante atenção. Quando terminei, ela disse, simplesmente:
 
- Você, por acaso, não esqueceu de um detalhe importante? Ou omitiu de propósito?
 
- Sim, omiti, porque achei que teria atrapalhado a história, ou criado a impressão distorcida sobre as minhas intenções. O fato é que aquela pessoa da Alemanha, é um homem e o rapaz é um homossexual. Inclusive, pelo que me parece, a família dele sabe disso e aceita a condição dele.
 
O rapaz de óculos, nessa hora, ficou mais atento. A menina pediu que eu contasse tudo que tinha omitido e explicasse melhor, como é que essas informações chegam a mim.
 
- Então, como falei, tudo começou com um sonho mesmo que tive – eu acho – na semana passada. Normalmente, a gente sonha algo e logo esquece. Esse sonho ficou na minha cabeça e, mesmo acordado, tenho, desde então, um tipo de continuação da história, pelo menos em parte, independente da minha vontade. Vejo as cenas muito nítidas que se complementam. A maior parte dessas cenas ocorre na casa da minha mãe que mora na Europa. É uma viagem que a gente está fazendo junto. De outros detalhes posso dizer que ele é muito carinhoso, sempre muito sereno e sorridente, tem a enorme facilidade de se comunicar com as pessoas. Dorme no chão porque quer, mas, as vezes, acorda no meio da noite com medo de estar sozinho. Por isso, quando adormece, pede para segurar a sua mão, ou ao menos, deixar ele sentir a proximidade do corpo de outra pessoa.
 
A menina me interrompeu, perguntando:
 
- E o rosto dele, o cabelo... Você sabe o nome dele? A idade?
 
- Quanto à idade, vi a seguinte cena. A minha mãe disse que ele parecia muito novo (realmente, ele tem a cara de menino). Nisso, ele trouxe o passaporte dele e mostrou a data de nascimento: 21 de agosto de 1987, o que deixou a minha mãe fascinada. Como eles se comunicam meio que por intuição, pois falam idiomas diferentes, a minha mãe pediu que eu trouxesse a bolsa dela. Ela tirou da bolsa a identidade dela e mostrou a data de seu nascimento: 21 de agosto de 1937, quer dizer, exatamente 50 anos antes do nascimento dele... Eu nunca tive certeza do nome dele, mas hoje mesmo (sexta-feira) à tarde, fui tirar uma soneca e sonhei com ele. Bem, eu acho que era ele. Ele estava muito aflito, carente, a gente acabou se beijando, aí eu pedi que ele me dissesse o nome dele. Ele não disse, mas me mostrou – como se fosse na tela do computador – o nome composto de três palavras, das quais ele foi apagando a primeira, mais longa, que eu não tive tempo de decorar e que era um nome comprido, nunca visto por mim. O que sobrou – e que ele me mostrou – foi “Robert inn”. Ele ainda confirmou que são dois “enes” mesmo... Com isso acordei. Ah, esqueci dizer que, desta vez, ele tinha a cor de cabelo meio diferente: enquanto sempre aparecia com o cabelo preto, nesse sonho parecia que ele tinha pintado de leve o cabelo que ficou agora mais claro. Mas é o mesmo cabelo, liso e com aquele corte "yaoi", cobrindo na testa e caindo na nuca [mais ou menos, como na foto acima].
 
Quando falei do cabelo, o menino de óculos deixou cair o copo que tinha segurado na mão. Todos ficaram muito quietos, olhando um ao o outro.
 
Eu fiquei sem graça e disse:
 
- Terminei. Agora todos vocês podem me chamar de maluco...
 
A menina respondeu:
 
- Não vou te chamar de maluco. Quero te mostrar uma coisa.
 
Pegou o celular dela e, depois de manipular um pouco com ele, passou para mim. Estava aberto na caixa de entrada de mensagem de texto. O que li na tela do celular me deixou curioso:
 
“Onde você está?”
“Robert inn”
Algo me diz que você vai sofrer por causa desse cara”
 
Não sabia o que seria esse “Robert inn”. A menina adivinhou e disse:
 
- “Robert inn” é uma pousada no bairro Santa Teresa, onde ficou hospedado um estrangeiro. O meu primo ia lá todos os dias, durante quase um mês. Ele estava perdidamente apaixonado. O resto você mesmo já contou. Agora vamos conferir outras coisas.
 
Menina pegou o telefone da minha mão e digitou um número. Alguém atendeu do outro lado. A menina disse:

- Oi, sou eu. Tudo bem? Você me disse mais cedo que confiava em mim, certo? Então peço que agora você preste bem atenção e não me interrompa. Vou passar para o viva voz.
 
Logo ouvi uma meiga voz masculina:
 
- Tudo bem, confio mesmo em você. Você é a bruxa da minha vida. Das boas e poderosas.
 
A menina sorriu e perguntou:
 
- O que você tá fazendo?
 
A voz linda respondeu:
 
- Olha, pintei cabelo mais cedo e agora estou tentando cancelar a minha viagem à Alemanha, mas o site diz que cancelando vou perder praticamente 50% do dinheiro. Liguei para lá do fixo e tô com o telefone na mão, mas o atendente me deixou com uma musiquinha, enquanto ele procura resolver o meu problema. Você acredita que ele me deu a proposta de não cancelar a viagem, mas em forma de promoção, acrescentar um acompanhante pela metade do preço? É um absurdo o que eles fazem para roubar o dinheiro da gente.
 
A menina:
 
- Escuta agora com muita atenção. Quando o atendente voltar a falar contigo, diga a ele que você não só aceita a promoção, mas quer ampliar um pouco a rota. Agora anote o número do meu cartão. Vai pagar o que for necessário e depois a gente resolve isso. Se precisar do nome completo do seu acompanhante, passo para você pelo face do Lucas (depois descobri que era aquele rapaz de óculos, na ponta da mesa).
 
Mais tarde fiquei sabendo que esse é o grupo de amigos do rapaz, liderado pela prima dele. Todo mundo sabe que ele é gay e conhece a história com o alemão safado. Essa parte do sonho/delírio termina com a questão: é ele que vem para cá, ou a gente pega a comida e vai à casa dele? Parece que, finalmente, vou descobrir o nome dele..
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Dicionário:
 
잘 지내요? - Jar jine yo? - Tudo bom?

16 de outubro de 2013

감사합니다 엄마

 
Continua o meu sonho conto sobre o namoro com um rapaz coreano. Acabamos de chegar na casa da minha mãe e ela, muito rapidamente, passou a adorá-lo. O sentimento é, também, nitidamente recíproco. Essa afinidade começou logo no primeiro dia, no final do almoço. A minha mãe estava inicialmente muito preocupada com as diferenças culturais, especialmente no que se refere aos costumes culinários e à etiqueta à mesa. A minha declaração de que o rapaz era moderno, tranquilizou a minha mãe, até o susto que ela levou, por um delicioso instante, depois da refeição. Como de costume, a minha mãe tirou os pratos da mesa e foi à cozinha para fazer o café (sagrado, lá em casa). Ela toma um café solúvel com leite, no copo e sabe que eu gosto de acompanha-la da mesma maneira. O meu café é sempre um pouco mais forte e cada um coloca a sua dose de açúcar no copo (ou seja, o café não é adoçado na hora de ser feito). Como, porém, tratava-se de uma visita e ainda tão exótica, a minha mãe, educadamente, perguntou da cozinha se ele também queria o café ou, por exemplo, um chá. Agora não sei se foi de um propósito minuciosamente elaborado, mas o fato é que ele pediu um chá preto. Dentro de alguns instantes, a minha mãe chegou, carregando três copos em uma bandeja. Estávamos sentados no mesmo sofá, eu no meio, o rapaz e a minha mãe nas pontas. Ele me pediu para trocar de lugar e se sentou mais perto da minha mãe. A cena em seguir merece uma atenção redobrada...
 
Ele tem este costume com as pessoas que considera amigas: quando fala, segura com as duas mãos a mão do outro. A minha mãe contou-me depois que "ele tem alguma coisa no toque que dá uma sensação de ternura e de paz" ("Mãe! Eu que o diga!"). Segurando, portanto, a mão da minha mãe e olhando bem nos seus olhos, ele começou a falar pausadamente...
 
"Mãe! [sic!] Eu conheço muito bem os costumes e as tradições milenares da minha pátria. Sei também cumpri-los todos, com muita reverência, pois reconheço o seu valor. Entre as regras tradicionais da Coréia está a forma de servir o chá. É uma bebida nobre que requer o recipiente igualmente nobre, isto é, a porcelana. Para os coreanos, servir o chá em um copo de vidro, configura o grave insulto. (Nessa hora, a minha mãe tinha a mistura de susto e vergonha, estampada no rosto). Ele continuou, segurando as mãos dela e disse: Eu sou um coreano moderno, aprendi no Brasil muitas coisas novas i boas. Uma delas é a capacidade de respeitar profundamente os costumes antigos, sem estar aprisionado neles. Para mim, o modo tradicional de servir o chá, é um entre outros. Nem melhor, nem pior. É apenas um dos modos. Por isso vou tomar com muito gosto o chá que senhora fez para mim, pois o que importa, é o seu carinho e a sua gentileza ao fazê-lo e não a embalagem no qual ele veio. Com a mesma gratidão, eu tomaria o seu chá, servido em qualquer recipiente."
 
Quando tudo parecia bem resolvido e a sensação de alívio tinha aparecido no rosto da minha mãe, ele prosseguiu: "Aproveitando este exemplo, queria lhe falar sobre outra coisa. Tanto na tradição coreana, quanto na cultura de todas as nações, o casamento entre homem e mulher é mais frequente e considerado normal, a ponto de todas as outras formas serem vistas, pela maioria, como um insulto, ou absurdo. Eu, porém, compreendo este modo como um entre outros. Respeito, reconheço o seu valor milenar e majoritário. Porém, para mim, é apenas um dos modos. É por isso que gostaria de declarar à senhora o meu desejo e pedir o seu consentimento para que eu possa me casar com o seu filho. Na verdade, foi ele que me pediu em casamento, mas é o mesmo sentimento e a mesma vontade que eu trago no meu coração."
 
Não sei se foi a força da comparação, ou as suas mãos "mágicas", mas o que importa é que a minha mãe ficou emocionada e deu a ele um demorado abraço regado de lágrimas. Depois disse simplesmente: "Vocês têm o meu apoio para sempre. Cuidem bem um do outro e se amem muito!"
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Dicionário:
감사합니다  엄마 - (kam-sa-ham-ni-da, oem-ma) Muito obrigado, mamãe!

14 de outubro de 2013

동생 사랑해요


Nunca tentei escrever um conto com a temática gay, menos ainda, um conto erótico (embora a erótica em si, esteja presente, já em um simples olhar ou um aperto de mão). Tenho tido, porém, há vários dias, um sonho que - se é que eu consiga raciocinar - está passando na minha mente, sem que eu esteja dormindo. Não sei se a inspiração tenha sido, simplesmente, o fruto de vários filmes que assisti recentemente, ou trata-se de outra fonte (???). O curioso é que eu não estou elaborando as cenas (lugares, personagens e episódios), mas tudo isso vem à minha cabeça pronto e muito detalhado. A coisa, as vezes, está tomando uma dimensão tão intensa que começo a me preocupar com a minha saúde mental. Pode ser, também, o sinal de avanço da minha idade que, como sempre ouvia dizer, em certa altura faz a gente retornar à infância. Não consigo (nem tento) esquecer de longos períodos da época de meus 10-13 anos (apenas suponho essa idade), em que vivia numa espécie de mundos paralelos, em companhia de amigos imaginários, com os quais conversava mais do que com as pessoas reais. Fazíamos passeios fascinantes e sempre tínhamos assuntos para conversar. Depois... cresci e a coisa se dissipou. Até agora...
 
No meu sonho atual, estou vivendo o intenso namoro, com um jovem... coreano (alguém consegue me explicar, de onde veio esse detalhe?). Ele nasceu na Coréia do Sul, embora a sua família tinha conseguido fugir do regime norte-coreano, ainda na época dos avós dele. Com alguns anos de idade, os pais dele mudaram-se para o Brasil, concretamente, para o Rio de Janeiro, onde abriram um restaurante de comida coreana. Ainda não passou na minha cabeça o capítulo que contasse o momento e a maneira de nos conhecermos, mas - muito provavelmente - tenha sido, justamente, naquele restaurante, onde o rapaz já trabalhava, revelando o seu grande talento na cozinha. Há história sobre o  fim de namoro dele com um europeu, talvez alemão, que ajudava, também, no mesmo restaurante. Pelo que consta, eu apareço naquela hora (aqui faltam alguns detalhes). O que está se desenvolvendo é o nosso projeto de casamento (é sério!). Isso inclui a viagem que fazemos juntos, para que ele conheça a minha família. Grandes cenas acontecem na casa da minha mãe que, inclusive, está adorando o seu futuro genro. Embora o meu irmão tenha sido mais lento nessa aceitação, o rapaz torna-se grande amigo das minhas sobrinhas. O próximo passo será a outra viagem, desta vez, à Coréia, mas essa já faz parte da nossa lua de mel, depois do casamento, aqui no Rio. Por enquanto, estamos na casa da minha mãe. Ele arrasa na cozinha, revela um dom de apaziguar os cachorros, quer dormir no chão e tem ótima comunicação com a minha mãe. Os mais impressionantes são os detalhes, gestos, conversas. Não há cenas eróticas (como falei antes). Estamos perdidamente apaixonados e o plano é de abrirmos juntos um outro restaurante. O trabalho paralelo seria de um pequeno centro de cultura coreana, além do escritório de tradução (obviamente, coreano-português e vice-versa). Ele, além de coreano e português, conhece bem o inglês. Enfim, o rapaz é lindo, meigo, inteligente e algo me diz que ainda vou encontra-lo na vida real. Ou é apenas um delírio?

Traduzindo o título:

동생 ( dong-seng ) : Quando um(a) menino(a) chama um(a) menino(a) mais novo(a)
사랑해요 (sarang-heyo) - eu amo você

13 de outubro de 2013

O antidepressivo chamado gratidão

 
A palavra "depressão" tem vários significados. Além de ser o nome de um distúrbio mental, altamente debilitante, a ponto de ser considerado por muitos como o “mal do século”, o termo é usado no estudo de geografia (uma região da superfície da Terra cuja altitude é mais baixa que a região à sua volta. Quando esta região situa-se numa altitude abaixo do nível do mar, ela é chamada de depressão absoluta), meteorologia (uma zona da atmosfera onde a pressão atmosférica é mais baixa que à sua volta) e economia (longo período de estagnação econômica mais prolongado e severa do que uma recessão). Para quem não é um perito em psicologia/psiquiatria, em geografia, nem meteorologia/climatologia (tipo: eu), a imaginação leva a visualizar uma linha que marca o "nível zero". Logo, aquilo que estiver abaixo dessa linha, está em depressão.
 
Acredito na existência de uma depressão espiritual/intelectual/social que talvez não seja uma doença, mas consiste em uma séria limitação do horizonte existencial, ou seja, da percepção que temos de nós mesmos e do mundo em nossa volta. Uma das áreas mais prejudicadas é a dimensão espiritual (ou religiosa) e a outra, sem dúvida, é a nossa convivência com os demais seres humanos. Basicamente, trata-se de uma espécie de "deslocamento" dos valores para baixo. A nossa cultura/mentalidade é, de modo geral, malcontente. A nossa mídia é negativista. As nossas conversas revelam, em sua maior parte, a grande insatisfação com tudo e com todos. Perdemos a capacidade de enxergar o bem, porque o bem passou a ser visto como o "nível zero". E o zero não merece atenção, é apenas normal. É como o ar com o qual respiramos, mesmo sem percebê-lo. A consequência imediata dessa situação é uma falta de gratidão, quase absoluta. Provavelmente, até a palavra usada para expressar a gratidão, tenha sido contestada, por se associar à obrigação que, por sua vez, é a maior inimiga do relativismo vigente.
 
Atenção! Eu não estou pregando um "lulismo-paz-e-amor" barato, nem pretendo anestesiar a sensibilidade para com os males que assolam o nosso mundo. Denunciar o mal, lutar contra as injustiças, apontar os problemas... não tem nada a ver com a depressão cultural. É, antes, um ato de coragem, um sinal de boa vontade, enfim... é tudo de bom. O que estou tentando dizer é que, talvez devido à epidemia do mal e à sua ampla divulgação, tenhamos perdido a noção daquilo que é positivo, precioso, enriquecedor, o que torna a nossa vida melhor, o que nos faz crescer e, finalmente, desperta(ria) em nós a gratidão.
 
Os textos bíblicos da liturgia de hoje falam sobre isso. A questão de gratidão/ingratidão está mais nítida no Evangelho (Lc 17, 11-19): Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. Então Jesus lhe perguntou: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?". O mesmo tema, frisando mais a gratidão (sem mencionar o lado oposto), apresenta o texto da I leitura (2Rs 5, 14-17). O sírio Naamã, já surpreendido pela simplicidade da graça de Deus, desdobra-se ao procurar a melhor maneira para agradecer pela cura. Descobre, finalmente, que a melhor forma de agradecer a Deus é o culto prestado a Ele. A ideia continua no Salmo (Sl 97): O Senhor fez conhecer a salvação e às nações, sua justiça; recordou o seu amor sempre fiel pela casa de Israel. Paulo, na segunda leitura (2Tm 2, 8-13), conclui com um conselho e um desabafo: Lembra-te de Jesus Cristo (...), suporto qualquer coisa.
 
Confesso que me entristece o fato de ver/ler/ouvir tantas declarações de agnosticismo e ateísmo (explícitos), de menor ou maior distanciamento dessa ou daquela religião, feitas pelos representantes do "mundo GLBTTS". Tudo bem, a ação gera a reação. Sinto, porém, por trás dessa contestação, aquela lógica da depressão cultural.  Por mais que alguém diga que tenha abandonado a instituição religiosa e não o próprio Deus, a direção continua a mesma. É possível pensar assim: "Eu abandono um «deus» que me foi transmitido pela Igreja e vou procurar o Deus verdadeiro". Se for realmente isso, tudo bem, mas na prática, abandona-se a religião e se esquece de Deus, ou não se acredita mais nem na sua existência.
 
Lembro-me de uma senhora que, em certa época, era a minha vizinha. Ela, desde a infância, tinha um grave defeito nos pés que não lhe permitia andar. A mulher vivia acamada, mas não me lembro de ter conhecido a pessoa que fosse mais alegre e otimista. Ela vivia louvando e agradecendo a Deus. Várias pessoas iam lá, na casa dela, para receber (não para dar!) o conforto em seus problemas e ela levava todo mundo à oração, à leitura da Bíblia e ao louvor. Muita gente saía de lá com a motivação renovada para agradecer a Deus.
 
Consciente de toda intolerância, homofobia, rejeição familiar e social e de tudo o mais que afeta a vida das pessoas GLBTT, pergunto: nós, de fato, não temos nenhum motivo para agradecer a Deus? O que somos e temos, consideramos - simplesmente - como o "nível zero" e o resto como "abaixo de zero"? Será que não podemos descobrir a gratidão (a Deus, às pessoas), como o antídoto para depressão? Eu sou capaz de dizer: "Agradeço a Deus pelo fato de eu ser gay"?

12 de outubro de 2013

Ser criança

 
O Dia das Crianças, celebrado no Brasil hoje (enquanto alguns outros países têm outras datas para tal comemoração), inspira várias reflexões. De um lado, é claro, a realidade das crianças de hoje - algo que desperta a ternura adormecida, traz preocupações e, até assusta de vez em quando. É o famoso e eterno: "Na minha época, a infância era diferente". Por outro lado, os pensamentos de um adulto, gay, solteiro... Uma parte das ideias gira em torno do passado e daquilo que sobrou em mim dos tempos de criança. Outra parte, em tom um tanto melancólico, afirma: as crianças sempre serão dos outros, pois nunca serei um pai natural e a adoção - pelo menos no momento - está fora de cogitação.
 
Assim, tenho a admiração pela beleza, inteligência e sinceridade das crianças, misturada com a profunda indignação, diante dos atos de violência, cometidos tão frequentemente, tanto de maneira individual, quanto em forma de injustiça social. Cada criança merece respeito, cuidado, segurança e um futuro feliz que coincide com a felicidade preservada desde já.
 
Quanto à recordação da minha própria infância, sinto a gratidão e a saudade, ainda que tenha sido um período regado de lágrimas. Considero a minha infância feliz, mas naquele tempo eu era muito chorão. Não fazia ideia de que tinha sido um gay. Sempre achei que olhar com admiração em direção aos meninos, era algo perfeitamente natural. Na verdade, não se falava de homossexuais e a homofobia - pelo menos em forma conhecida hoje - nem fazia parte da realidade. Lembro-me apenas de uma ou duas piadas sobre homens efeminados. Eu ria também, porque era engraçado. Como que atrás de uma neblina, vejo-me brincando com as bonecas que, depois, misteriosamente foram substituídas pelos ursinhos. Cedo aprendi algumas tarefas "femininas", tais como alguns simples truques de costura e de tricô (sem saber que, algumas décadas mais tarde, "tricotar" seria o sinônimo de "conversa entre duas bichas", como afirma um dicionário), bem como de me sentir bem na cozinha. A curiosidade daquele tempo é que eu sempre era um "namorador de meninas" - desde o jardim de infância (acredite quem quiser). Até briguei por uma menina com um grandalhão na escola. Hoje vejo isso - assim como a total ausência de "trejeitos efeminados" - como o fruto de alguma intuição de autodefesa - tudo de forma totalmente inconsciente. Nunca rolou um beijinho sequer com uma menina. Era algo que hoje pode ser chamado de fachada, só que sem ser um propósito, ou uma "estratégia". Desde cedo senti atração pelos meninos. Nunca gostei de jogar bola, mas adorava assistir os outros jogando. Confesso que, nem na infância, nem na adolescência, experimentei a "angústia de ser diferente", pois, como falei, sempre achava tudo isso absolutamente natural.
 
Leio hoje em dia os relatos de meninos com 12-14 anos que descobrem a própria homossexualidade e já sabem defini-la como tal. Provavelmente estamos diante de uma época diferente. A mentalidade mudou, a mídia também. A visibilidade GLBTT é infinitamente maior, a autoconsciência também. Lamentavelmente, a homofobia ganhou também muito mais espaço. De um lado, fico espantado com uma criança de seis anos que foi autorizada a mudar de nome e de gênero no registro de identidade argentino. Ao mesmo tempo, assusta a quantidade de atos de bullying homofóbico, inclusive nas escolas primárias. 
 
Só me resta agradecer a Deus, aos meus pais e demais familiares, pela infância que tive e tentar preservar a "eterna criança" dentro de mim. E, parabéns a todas as crianças pelo dia de hoje. Que seja protegida a sua dignidade e cumpram-se as leis, principalmente aquela que é fundamental: de amar e de ser amado(a).