ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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22 de agosto de 2013

Os poloneses LGBT escrevem ao Papa

 
 
O grupo ecumênico polonês de cristãos LGBTQ  (lesbians, gays, bisexuals, transsexuals, queers)  "Wiara i Tęcza" (em português: "Fé e Arco-íris"), no último dia 20 de agosto, enviou ao Papa Francisco uma carta. No site do grupo (aqui), além da versão original em polonês, encontra-se, também, o texto em inglês. Pode ser localizada, também, a versão em inglês de um resumo sobre o Grupo (aqui).
 
Publico aqui uma tradução livre desta carta:
 
 
Varsóvia, 20 de agosto de 2013
Sua Santidade
Santo Padre Francisco
Papa
Segrataria di Stato
Palazzo Apostolico
00120 Città del Vaticano
 
"O Reino do Céu é ainda como uma rede lançada ao mar.
Ela apanha peixes de todo tipo".
Mt 13,47
 
 
Querido Santo Padre,
recebemos uma notícia feliz de que, ao retornar do encontro com a juventude no Brasil, o Senhor referiu-se com compreensão e simpatia às pessoas de orientação sexual diferente da heterossexual. Gostaríamos de lhe assegurar que existem na Igreja e diante das suas portas muitas pessoas que, há muito tempo, estavam esperando por estas palavras. Essas pessoas viviam, por muito tempo, com a sensação de injustiça, opressão, solidão e rejeição que experimentavam por parte da querida para elas  comunidade de sua própria Igreja. O exemplo de suas palavras, com certeza, irá ajudar a superar na Igreja tão dolorosa para nós desconfiança, o até aberta hostilidade, por parte dos nossos irmãos na fé.
 
Somos um grupo ecumênico polonês de cristãos LGBT, na maioria católicos romanos. Escolhemos o nome de "Fé e Arco-íris", para expressar as irredutíveis características de nossa identidade. Desejamos permanecer fiéis à comunidade da Igreja, porém não vemos a possibilidade de renunciar à específica da vida amorosa que nos foi concedida para compartilhar.
 
Acreditamos que com essa especial natureza da vida amorosa agraciou-nos, de acordo com a sua vontade, o próprio Deus, para que pudéssemos descobrir a sua misteriosa presença nos caminhos diferentes do que a maioria das pessoas. Cremos, também e nisso apoia-nos a convicção baseada no atual conhecimento científico sobre o ser humano, de que esse caminho da vida amorosa é de um direito igual ao do caminho das pessoas heterossexuais. Enxergamos a esperança no cumprimento dos ensinamentos revelados a nós por nosso Senhor Jesus Cristo, com os quais inspiram-se, geralmente, as pessoas de boa vontade que esperam a vinda do Seu Reino. Esses ensinamentos são: a amizade, o respeito mútuo, o cuidado, a fidelidade, a sinceridade e todas as outras regras, pelas quais os cristãos põem em destaque a dignidade humana em cada pessoa, as mesmas que menosprezaram em seu comportamento os habitantes da antiga Sodoma.
 
Há muito tempo aguardávamos as palavras de conforto e consolação - hoje agradecemos por elas a Deus, pois despertam em nós a esperança para o futuro. Continuaremos esperando, até passarem os tempos difíceis, assim como baixaram outrora as águas do dilúvio bíblico. Cansados com a inundação de intolerância, buscamos no horizonte o arco-íris de reconciliação e ternura, que encerrará os tempos, em que obriga-se nos a viver em isolamento e clandestinidade, com medo dos nossos próximos. Confiamos que chegarão dias, nos quais, em uma igualdade com os outros, poderemos, de maneira que nos é própria, experimentar o grande dom e sinal da presença de Deus no mundo - o insondável mistério do amor.
 
Pedimos, Santo Padre, a sua recordação e a oração - ao nosso Deus que é o próprio Amor.
Garantimos-lhe, também, a nossa oração na intenção de Vossa Santidade e de toda a Igreja.
 
Cristãos poloneses LGBT do Grupo "Fé e Arco-íris".
 
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OBS: A foto (uma montagem que inclui o logotipo do Grupo "Fé i Arco-íris") tem a finalidade de ilustrar a esperança de uma resposta. Afinal, o Papa Francisco - pelo que contam - costuma responder às cartas recebidas, inclusive de pessoas simples e pobres...


27 de julho de 2013

A cultura do encontro

Escuto as palavras do Papa Francisco nesta manhã de sábado, penúltimo dia de sua visita ao Brasil. Vem à minha mente um ditado, repetido, na época, por alguns jornais europeus, em relação ao Papa João Paulo II: “Gostamos do cantor, mas não escutamos as suas canções”. Será que o mesmo acontecerá com Francisco? Existem várias maneiras de atingir o profeta: “Vinde, disseram então, e tramemos uma conspiração contra Jeremias! Por falta de um sacerdote não perecerá a lei, nem pela falta de um sábio, o conselho, ou pela falta de um profeta, a palavra divina. Vinde e firamo-lo com a língua, não lhe demos ouvidos às palavras” (Jer 18 , 18).

Aos bispos, sacerdotes e outros religiosos, reunidos hoje pela manhã na Catedral do Rio, o Papa disse, entre outras coisas (na íntegra aqui):

Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não freqüentam a paróquia. Também eles são convidados para a Mesa do Senhor.

Em muitos ambientes, infelizmente, ganhou espaço a cultura da exclusão, a “cultura do descartável”. Não há lugar para o idoso, nem para o filho indesejado; não há tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada. Às vezes parece que, para alguns, as relações humanas sejam regidas por dois “dogmas” modernos: eficiência e pragmatismo. Queridos Bispos, sacerdotes, religiosos e também vocês, seminaristas, que se preparam para o ministério, tenham a coragem de ir contra a corrente. Não renunciemos a este dom de Deus: a única família dos seus filhos. O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade e a fraternidade são os elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana.

Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Permitam-me dizer: deveríamos ser quase obsessivos neste aspecto! Não queremos ser presunçosos, impondo as “nossas verdades”. O que nos guia é a certeza humilde e feliz de quem foi encontrado, alcançado e transformado pela Verdade que é Cristo, e não pode deixar de anunciá-la (cf. Lc 24, 13-35).

Mais tarde, no Teatro Municipal do Rio, o Santo Padre reforçou, ainda mais, a ideia da “cultura do encontro”, dirigindo-se à Classe Dirigente do Brasil (na íntegra aqui):

É importante, antes de tudo, valorizar a originalidade dinâmica que caracteriza a cultura brasileira, com a sua extraordinária capacidade para integrar elementos diversos. (...)

O futuro exige de nós uma visão humanista da economia e uma política que realize cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evitando elitismos e erradicando a pobreza. Que ninguém fique privado do necessário, e que a todos sejam asseguradas dignidade, fraternidade e solidariedade: esta é a via a seguir. (...)

Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo. (...)

A única maneira para uma pessoa, uma família, uma sociedade crescer, a única maneira para fazer avançar a vida dos povos é a cultura do encontro; uma cultura segundo a qual todos têm algo de bom para dar, e todos podem receber em troca algo de bom. O outro tem sempre algo para nos dar, desde que saibamos nos aproximar dele com uma atitude aberta e disponível, sem preconceitos. Só assim pode crescer o bom entendimento entre as culturas e as religiões, a estima de umas pelas outras, livre de suposições gratuitas e no respeito pelos direitos de cada uma. Hoje, ou se aposta na cultura do encontro, ou todos perdem; percorrer a estrada justa torna o caminho fecundo e seguro. (...)

A fraternidade entre os homens e a colaboração para construir uma sociedade mais justa não constituem uma utopia, mas são o resultado de um esforço harmônico de todos em favor do bem comum.

Só nos resta ouvir com atenção, passar adiante, sem nunca deixar de pôr em prática...

26 de julho de 2013

VI estação da Via Sacra JMJ Rio2013

Está acontecendo, neste exato momento, a Via Sacra com os jovens, acompanhados pelo Papa Francisco. Durante esta tarde acompanhei a programação da TV Canção Nova e um dos entrevistados foi o padre Joãozinho (João Carlos Almeida, scj), que admitiu ter sido um dos autores das meditaçãoes da Via Sacra, junto com o padre Zezinho (José Fernandes de Oliveira, scj). Disse ele, entre outras coisas, que divulgaria no seu blog (aqui) os textos, no tempo real, ao serem pronunciados na celebração. Tal procedimento teria sido tomado, devido um "segredo", pedido pelos organizadores da JMJ. O padre não sabia, talvez, que todos os textos da Via Sacra (e muito mais) já foram publicados pelo site do Vaticano (aqui - é um arquivo em pdf). O que chamou a minha atenção, foi a diferença entre os textos da VI Estação ("Verônica enxuga o rosto de Jesus"). O padre Joãozinho divulga no seu blog a seguinte meditação (aqui):

6ª ESTAÇÃO - Verônica enxuga o rosto de Jesus
(Is 53, 2-3)
A mulher que não se calou
Meditação (CONSAGRADA QUE LUTA PELA VIDA):
Senhor Jesus, Cristo Redentor, eis-me aqui! Sou consagrada ao teu divino Coração no serviço ao meu irmão. Não posso me calar quando encontro nas vias-sacras da vida tantas vítimas de uma “cultura de morte”: mulheres prostituídas e famílias na miséria, enfermos sem atendimento e idosos desprezados, migrantes sem terra e jovens desempregados. Ao enxugar as lágrimas, o suor e o sangue do rosto destes irmãos e irmãs vejo maravilhada que a tua face fica estampada no lenço da minha solidariedade (Cf. Mt 25,31-46).

O texto publicado pelo Vaticano (e, se prestei atenção, também lido há pouco na praia de Copacabana), diz (aqui - p. 89):

6ª ESTAÇÃO - Verônica enxuga o rosto de Jesus

A mulher que não se calou.
Tinha um rosto de homem do povo.
Tinha marcas de luto e de dor.
Tanto sofreu que de escarros e sangue se desfigurou.
Mas alguém o seu rosto enxugou.

Meditação:

Senhor Jesus, Cristo Redentor, eis-me aqui! Sou consagrada ao teu divino Coração no serviço ao meu irmão. Não posso me calar quando encontro nas vias-sacras da vida tantas vítimas de uma « cultura de morte »: mulheres prostituídas e famílias na miséria, enfermos sem atendimento e idosos desprezados, migrantes sem terra e jovens desempregados, pessoas excluídas da cultura digital e minorias tratadas com preconceito... a lista é grande, meu Senhor. Ao enxugar as lágrimas, o suor e o sangue do rosto destes irmãos e irmãs vejo maravilhada que a tua face fica estampada no lenço da minha solidariedade (Cf. Mt 25, 31-46). Ensina-me a sempre unir mística e militância, fé e vida, céu e terra, porque o Pai é nosso e somos irmãos, mas o pão também é nosso e somos cristãos, ou seja, gente que acredita no milagre de repartir.

Será um caso de censura? Ou de autocensura?

25 de julho de 2013

Andorinha é indispensável



Acabo de chegar do 1° Encontro de Relatos e Experiências: "O JOVEM HOMOSSEXUAL NA IGREJA", promovido pelo Grupo Diversidade Católica, no contexto da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013. É impossível descrever tudo em poucas palavras. A primeira coisa que me vem à mente é uma cena do filme "Karate Kid", em que o mestre Sr. Han leva o garoto Dre a um monastério Shaolin, subindo as longas escadas. Ao entrarem numa das salas do templo o Sr. Han lhe apresenta uma mesa de pedra, com a fonte de água jorrando por dentro dela e diz: ''Essa é a água mágica do Kung Fu, se você beber dela, nada pode te derrotar''. Mais detalhadamente, é o jeito de beber aquela água, mergulhando a cara inteira, que me vem à mente, ao tentar resumir as minhas sensações, depois do encontro de hoje. A realidade é tão profunda e rica que seriam necessárias horas e mais horas, para poder conversar mais e compartilhar relatos e experiências com maior atenção. Sou - muito provavelmente - um sonhador obstinado, mas logo imaginei as próximas JMJ, com esse Encontro, incluído em sua programação oficial. Impossível? Algum tempo atrás, a visão de uma mulher de calça, também considerava-se impossível. Sim, passou pela fase de ser um escândalo (de origem diabólica), até chegar a ser algo considerado, simplesmente, normal. Tudo bem, o processo da aceitação de um "mundo GLBTS" na Igreja (e vice-versa) é muito mais complexo e demorado, mas a dinâmica é a mesma. Sobre essa dinâmica conversei com um dos participantes do encontro, já no caminho para o lanche. Fiquei com o desejo de muitos outros encontros desse tipo. Foi ótimo rencontrar "velhos" amigos e amigas e, finalmente, ver alguns outros que, conhecidos em uma dimensão virtual, tornaram-se reais.

Dizem que uma andorinha não faz verão. Talvez não o faça, mas é indispensável!

Parabéns, Diversidade Católica e todos que estiveram presentes! Obrigado!

17 de julho de 2012

JMJ RIO2013


É muito natural que a Jornada Mundial da Juventude ocupe o lugar de destaque em todos os meios católicos de comunicação, bem como em nossas paróquias. Temos agora apenas um ano de contagem regressiva. Será que a Igreja (enquanto a instituição e enquanto o povo) saberá aproveitar esta HORA DA GRAÇA? Ou, mais uma vez, deixará tudo escorrer por entre os dedos...? E tudo isso, de novo, pela falta de atenção que, neste contexto, é o sinônimo de arrogância. O Idealizador (Fundador) das Jornadas, Beato João Paulo II, em sua última mensagem designada a tal evento [aqui] - que por isso pode ser lida como um testamento - escreveu:

São tantos os nossos contemporâneos que ainda não conhecem o amor de Deus, ou procuram encher o coração com alternativas insignificantes. É urgente, por conseguinte, ser testemunhas do amor contemplado em Cristo. O convite para participar na Jornada Mundial da Juventude é também para vós, queridos amigos que não sois batizados ou que não vos reconheceis na Igreja. Não é porventura verdade que também vós tendes sede de Absoluto e andais em busca de "algo" que dê significado à vossa existência? Dirigi-vos a Cristo e não sereis desiludidos.


Os homossexuais (entre tantos outros) não somente são ignorados/banalizados/desprezados (etc.) no ambiente eclesial, mas, eles próprios, em grande maioria, não admitem qualquer ligação sua com a Igreja. Há uns meses conversei com um gay assumido, católico, sobre a ideia de encontros para promover uma "Pastoral para homossexuais". Mesmo com todos os dilemas próprios para essa (aparente) dupla identidade, o rapaz definiu tal ideia como improvável.

Posso sonhar? Os grupos organizados de jovens homossexuais católicos, em vez de protagonizar atos do tipo "beijação" (a exemplo de Madri), poderiam formar núcleos da JMJ-GLBTS. Não para protestar, contestar e atrapalhar. Seria para marcar presença (na linguagem cristã: dar testemunho) e, justamente, aproveitar a HORA DA GRAÇA...

EI, VOCÊ QUE FAZ PARTE DA COMUNIDADE GLBTS!
EXERÇA SUA JUVENTUDE
E SEJA UM(A) VOLUNTÁRIO(A) DA JMJ RIO2013!
[AQUI]