ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



_____________________________________________________________________________



11 de janeiro de 2011

Homossexuais e Eucaristia (1)

Provavelmente a maioria dos homossexuais católicos vive um grave conflito interior em relação à Eucaristia. Muitos, simplesmente, abandonaram a Missa e a Comunhão, desde o momento em que assumiram (ainda que apenas perante si mesmos) a sua identidade homossexual. Outros tiveram experiências traumáticas ao procurarem a Confissão ou aconselhamento junto a um sacerdote. Alguns (talvez graças a uma sensibilidade de sua consciência) recorrem ao Sacramento da Reconciliação, desde que não estejam vivendo num relacionamento "estável", mas procuram a absolvição (e o acesso à Eucaristia) depois de cada "pecado contra castidade". Acredito que, devido à dolorosa ausência de formação espiritual específica, voltada diretamente aos homossexuais (Pastoral para Homossexuais!), existe grande confusão neste assunto. Quem não abandonou definitivamente a Igreja, procura "improvisar". Ou, então, encontra algum meio para "casar" a sua fé com a própria sexualidade. Como não encontrei ainda o texto que fale exatamente sobre esta questão, resolvi recorrer às opiniões mais "genéricas" que podem ser interpretadas, também, no contexto da homossexualidade. Nesta primeira parte da reflexão "Homossexuais e Eucaristia", trago o ponto de vista do Cardeal Joseph Ratzinger (atual Papa Bento XVI). No livro-entrevista com Peter Seewald, "O sal da terra" (Editora Imago; Rio de Janeiro, 1997, p. 163-165), então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, fala sobre os "casais de segunda união" (aqueles que vivem uma vida conjugal sem o Sacramento do Matrimônio, por terem sido casados anteriormente com outras pessoas) e a sua relação com a Comunhão Eucarística. Faço esta citação por considerar bastante próxima a analogia destes casais (heterossexuais, mas não sacramentais) com o relacionamento homoafetivo. Digo logo que a opinião do atual Papa não é muito animadora. Na próxima postagem prometo apresentar um outro ponto de vista...
.....................................................................................................
[Cardeal Joseph Ratzinger sobre as pessoas que vivem num casamento civil não reconhecido pela Igreja]:
Neste caso, devo precisar primeiro, num sentido jurídico, que essas pessoas não estão excomungadas num sentido formal. A excomunhão é um conjunto de medidas punitivas da Igreja, é uma limitação de se ser membro da Igreja. Essa punição da Igreja não lhes foi imposta. Mesmo que, por assim dizer, o que salta logo à vista, o fato de não poderem comungar, se aplique a eles. Mas, como disse, não estão excomungados num sentido jurídico. São membros da Igreja que não podem comungar por causa de determinada situação na vida. Não há nenhuma dúvida de que isso seja um grande peso, precisamente no nosso mundo, em que o número de casamentos desfeitos aumenta cada vez mais. Julgo que esse peso pode ser suportado quando, por um lado, se torna claro que também existem outras pessoas que não podem comungar. O problema só se tornou tão dramático porque a comunhão é, por assim dizer, um rito social, e uma pessoa é realmente marcada quando não participa. Quando se voltar a tornar visível que muitas pessoas têm de dizer a si mesmas que têm alguma coisa na consciência, e que assim não podem ir à comunhão, e quando, como diz São Paulo, desse modo se voltar a fazer a distinção do Corpo de Cristo, logo tudo será diferente. É uma condição. O segundo ponto é que devem sentir que, apesar disso, são aceitas pela Igreja, que a Igreja sofre com elas. [Peter Seewald: "Parece uma ilusão".] Naturalmente, isso deveria poder tornar-se visível na vida de uma comunidade. E, pelo contrário, também se faz alguma coisa pela Igreja e pela humanidade ao tomar essa renúncia sobre si, ao dar, por assim dizer, testemunho do caráter único do casamento. Julgo que disso também faz parte algo que é muito importante: que se reconheça que o sofrimento e a renúncia podem ser algo positivo, e que temos de voltar a encontrar uma nova relação com eles. E, por fim, que voltemos a tomar consciência de que também se pode participar da missa, da Eucaristia, de modo fecundo, sem ir sempre à comunhão. É uma questão difícil, mas julgo que, quando diversos fatores que estão relacionados uns com os outros se resolverem, também isso será mais fácil de suportar. [Peter Seewald: "O padre pronuncia as palavras: “Felizes os convidados para a ceia do Senhor”. Por conseguinte, os outros deveriam sentir-se infelizes.] Infelizmente, a tradução tornou o sentido da frase pouco claro. Essa expressão não se relaciona diretamente com a Eucaristia. É tirada do Apocalipse e refere-se ao convite para o banquete nupcial definitivo, representado na Eucaristia. Quem, portanto, não pode comungar no momento, não tem de estar excluído do banquete nupcial eterno. Trata-se sempre de um exame de consciência, de que se pense ser algum dia capaz desse banquete eterno, e que agora também se comungue. Mesmo quem agora não possa comungar, é admoestado através desse apelo, como também todos os outros, a pensar no seu caminho, que um dia será aceito nesse banquete nupcial eterno. E talvez, porque sofreu, possa ter ainda melhor aceitação. (p. 163-165)
(Cardeal Joseph Ratzinger&Peter Seewald; “O sal da terra”; Editora Imago; Rio de Janeiro, 1997)

10 de janeiro de 2011

Batismo de Jesus

Duas frases chamam minha atenção na leitura do Evangelho neste Domingo, em que a Igreja, encerrando as festividades natalinas, celebra o Batismo do Senhor. Primeira é a reação de João Batista. O Evangelista diz que ele protestou (leia Mt 3, 14) . Protestou, porque não conseguia entender o motivo da presença de Jesus, naquele momento e naquele lugar. João pregava a conversão, chamava os pecadores à penitência e único que não se encaixava nesse apelo e nessa multidão era, exatamente, Jesus. Como se João falasse: "O que é que você está fazendo aqui? Este não é o seu lugar!" O protesto é um dos efeitos princiais da falta de compreensão. Existem coisas que ultrapassam a capacidade da nossa inteligência. E uma das formas mais frequentes de protesto é a rejeição. Mais uma vez voltamos à definição da homofobia. É um protesto, uma rejeição (muitas vezes violenta!) de algo e de alguém que um ser humano (um grupo, uma sociedade) não é capaz de compreender e, portanto, de aceitar, acolher ou, mesmo, tolerar.

A segunda frase é de Jesus. Se entrarmos no sentido exato e profundo daquilo que Jesus disse, vamos ficar espantados: "Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!". Parece nada demais, mas é Deus (que assumiu, em Jesus, a natureza humana, sem deixar ou diminuir a divina) quem diz a um ser humano: "nós devemos". Deus se rebaixa a ponto de tratar o homem como parceiro. E não um parceiro qualquer, mas um "filho muito amado". Mesmo que não tenhamos escutado literalmente, mas foi isso que o Pai do céu disse, no momento em que se realizava o nosso Batismo. É bom lembrarmos disso sempre. Por mais que nos sintamos rejeitados, desprezados e insignificantes, Deus diz: tu és o meu filho(-a) muito amodo(-a).

8 de janeiro de 2011

Homossexuais e defuntos

O que têm em comum os homossexuais e os defuntos, além do fato de que cada um dos seres humanos (hetero-, homo-, bi-, trans- e metrossexual), em algum momento, vai morrer e será, de fato, um defunto? Uma leitura atenta da legislação da Igreja (chamada também “Direito Canônico”) pode nos levar a conclusões interessantes. Os católicos mais velhos ainda se lembram de situações constrangedores e duplamente tristes de uma postura intransigente dos padres em relação ao sepultamento dos suicidas, bem como em questão de cremação do corpo (às vezes determinada previamente, no testamento, pelo próprio falecido). Não bastava a tristeza dos familiares causada pela perda de um ente querido, o ponto de vista da Igreja, enquanto instituição, agravava ainda mais o desespero deles. Vieram, então, as reformas promovidas pelo Concílio Vaticano II. Terminado em 1965, o Concílio foi sendo colocado em prática aos poucos. Entre os mais diversos assuntos, tinha sido revisto o ponto de vista acerca de suicídio e de cremação dos corpos. De fato, o Código de Direito Canônico, não menciona os suicidas e o Catecismo da Igreja Católica afirma: Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida. (n° 2282) E acrescenta: A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida. (n° 2283) Em relação à cremação dos corpos de defuntos o Código de Direito Canônico (Cân. 1176 § 3) afirma: A Igreja recomenda insistentemente que se conserve o costume de sepultar os corpos dos defuntos; mas não proíbe a cremação, a não ser que tenha sido escolhida por motivos contrários à doutrina cristã. O comentário para este parágrafo esclarece: A disciplina da Igreja sobre a cremação de cadáveres, que por razões históricas era totalmente contrária, foi modificada [em 1963]. Com as modificações introduzidas pelo novo Ritual de Exéquias é possível realizar os ritos exequiais inclusive no próprio crematório, evitando porém o escândalo ou o perigo de idiferentismo religioso. (Código de Direito Canônico; Edições Loyola, São Paulo 2001; p. 297).
Voltando à pergunta inicial: o que têm a ver os homossexuais com o sepultamento de suicidas ou com a cremação dos corpos? A chave da resposta está no texto acima: A disciplina da Igreja (...), que por razões históricas era totalmente contrária, foi modificada. Hoje em dia, a disciplina da Igreja é totalmente contrária, por exemplo, à união estável entre as pessoas do mesmo sexo, à Comunhão Eucarística dos homossexuais que vivem um relacionamento homoerótico [em breve voltarei a este assunto], à adoção de filhos pelos casais homossexuais, à admissão dos gays ao sacerdócio, etc.
Sejam razões históricas, culturais, teológicas, morais ou outras, a Igreja – ainda que demoradamente – modifica a sua disciplina. Citei aqui apenas dois exemplos, mas podemos procurar mais: a posição sobre os escravos, negros, mulheres, sobre a Terra que gira em torno do Sol e não o contrário ou, então, a opinião modificada sobre Galileu* ou Giordano Bruno e tantos outros personagens da história. Tendo em vista o fato de serem necessários séculos entre a condenação e a reabilitação de Galileu, podemos ficar moderadamente animados. Talvez não aconteça em nossa geração (embora pareça que agora o ritmo destas “descobertas” esteja um pouco mais acelerado), mas pelo menos não precisamos ter aquela sensação de um colapso total ou de estarmos numa rua sem saída. Sem dúvida, é grande e importante a contribuição da ciência que, unida a uma reflexão séria de mentes abertas, produz algumas modificações.
------------------------------------------------------------------------------
*LEITURA ADICIONAL:
Profundas transformações sociais aconteceram nos últimos quinhentos anos, durante os quais a compreensão da natureza da matéria e da estrutura do universo passou por importantes revisões. Não há dúvida de que mais revisões estão por vir. Tais rupturas podem ser penosas quando se tenta atingir uma síntese confortável entre a ciência e a fé, principalmente se a Igreja se ligar a uma visão anterior das coisas e incorporar isso em seu sistema de crenças fundamentais. A harmonia de hoje pode ser a discórdia de amanhã. Nos séculos XVI e XVII, Copérnico, Kepler e Galileu (que acreditavam em Deus com muita convicção) desenvolveram uma ideia que os foi atraindo aos poucos: a de que o movimento dos planetas só poderia ser compreendido de forma adequada se a Terra se movesse em torno do Sol, em vez de o contrário. (...) Em princípio, muitos da comunidade científica não ficaram convencidos. Entretanto, ao final, os dados e a consistência das previsões da teoria foram aceitos até pelo mais cético dos cientistas. A Igreja Católica, contudo, sustentou sua oposição com firmeza, alegando que tal ponto de vista era incompatível com as Sagradas Escrituras. Olhando em retrospectiva, fica claro que se basear na Bíblia para fazer tais alegações é uma atitude bastante limitada; contudo, esse confronto alastrou-se durante décadas e causou, no fim das contas, danos consideráveis tanto à ciência quanto à Igreja. (Francis S. Collins, “A linguagem de Deus”; Editora Gente; São Paulo, 2007; p. 66-67)

7 de janeiro de 2011

preces natalinas

A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro facilita a participação dos fiéis nas Missas de domingos e solenidades, por meio de folheto que contém todos os textos litúrgicos daquele dia. Nas recentes celebrações, de 1 de janeiro (Santa Mãe de Deus, Maria) e da Epifania (2 de janeiro), as “Preces da Comunidade” trouxeram um destaque interessante. Não sei se é o autor dos textos que mudou ou foi algo que mudou no autor. Todos os católicos da cidade rezaram assim:
Pai Santo, sem o respeito mútuo diante das diferenças entre pessoas e povos. Dai-nos a graça de vencermos todas as formas de preconceito e discriminação (1 de janeiro).
Ainda mais generosas foram as preces do dia da Epifania (“dia dos reis” celebrado, neste ano, no dia 2 de janeiro):
- Pela Santa Igreja de Deus, para que, na fidelidade do Evangelho, anuncie sempre mais um mundo de paz e fraternidade, onde as diferenças sejam acolhidas de modo enriquecedor.
- Pelas comunidades cristãs, para que, através do testemunho e do efetivo empenho, sejam firmes construtoras de um mundo sem preconceito nem discriminação.
- Por todas as pessoas que carregam dentro de si sentimentos de divisão, preconceito e indiferença ao próximo, para que, deles libertadas, acolham a comunhão que brota da gruta de Belém.
- Pelas vítimas da divisão, da violência, preconceito e indiferença ao próximo e de tudo mais que segrega pessoas, para que, unidos a Cristo, perseverem na esperança de fraternidade e união.
- Por nós que, alegremente, celebramos a Epifania do Senhor, para que as alegrias da solenidade de hoje se traduzam em gestos concretos de acolhimento, partilha e sentido do bem comum.

Para completar o sonho que, em parte, tornou-se realidade, imaginei um representante da Pastoral para Homossexuais, vestido numa camisa do grupo, com uma logomarca bem visível, lendo estas preces para toda comunidade paroquial.
Impossível?
Acho que não...

6 de janeiro de 2011

Sinagoga de Nazaré

Que ninguém se escandalize: Jesus "saiu do armário" em grande estilo. Fala sobre isso a liturgia de hoje (leia Lc 4, 14-22a). Aliás, a passagem do Evangelho, lida hoje na Missa, relata apenas a primeira parte deste acontecimento. O termo "sair do armário" entrou de vez na linguagem moderna e está relacionado diretamente com a revelação da identidade homossexual de um indivíduo. Entretanto, no sentido mais amplo, podemos falar aqui de todo tipo de "autorrevelação". A pessoa assume e mostra aquilo que, de fato, é. Neste caso, o "armário" de Jesus era o período de, aproximadamente, 30 anos, chamado "vida oculta". Depois de passar este tempo todo, Jesus vai à sinagoga de Nazaré, faz a leitura da profecia de Isaías (61, 1-2a) e diz: "Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir" (Lc 4, 21). Podemos (nós, os gays) tirar algumas conclusões desta comparação. Primeira delas parece indicar a "saída do armário" como inevitável ou até necessária. Falam sobre isso muitos autores, entre os quais, psicólogos e terapeutas. Muitos homossexuais dão testemunho sobre a sensação de alívio, após este ato de coragem e apesar de vários "efeitos colaterais" do choque inicial. Outra conclusão pode não ser tão clara, mas o fato de Jesus ter aguardado até alcançar a idade adulta para se revelar como Messias, sugere certa precaução ou prudência, em questão do "momento exato", também para assumir publicamente a homossexualidade. Embora muitos adolescentes tenham experimentado fortes pressões (internas e externas), sem dúvida devem ter muita paciência e sabedoria para tal decisão. A leitura da passagem completa, inclusive sobre a reação dos ouvintes, leva-me a uma outra conclusão. Mais uma vez, vem na minha mente a frase de João Paulo II (na verdade, é uma afirmação do Concílio Vaticano II, citada e desenvolvida pelo Papa), mancionada algumas vezes neste blog (p.ex. na "Novena de Natal" - aqui): Pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, se uniu de certo modo a cada homem. (Encíclica Redemptor hominis, n° 13). O Evangelista Lucas conta o que aconteceu depois da declaração de Jesus. No início todos lhe davam testemunho e se admiravam das palavras de graça, que procediam da sua boca (Lc 4, 22a) e diziam: Não é este o filho de José?" (v. 22b). A admiração transforma-se logo em questionamento e este tem uma direção clara: o pai (a mãe, a família). É notável a frequente preocupação dos pais, diante do filho ou filha homossexual que acaba de se revelar. Geralmente dizem: "O que os outros vão pensar e falar sobre nós, sobre nossa família?!". O evangelho de Lucas continua mostrando Jesus na tentativa de uma argumentação, um diálogo. Infelizmente não há diálogo: a estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual era construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se (Lc 4, 28-30). Eu leio este texto como uma declaração de amor e solidariedade de Jesus para com cada pessoa rejeitada e não compreendida, inclusive com cada homossexual que sai do armário e enfrenta uma tempestade. Jesus diz: eu também passei por isso e por outras coisas, ainda piores. Eu te amo, compreendo e acolho. Não temas. Eu estou contigo.

5 de janeiro de 2011

Reflexões da virada 2010/2011

Eu não saí do armário, mas alguém, de repente, abriu a porta e várias pessoas me viram ali, dentro. E agora continuo convivendo com os mesmos amigos e conhecidos e ninguém toca no assunto. Tento captar as “entrelinhas” em nossas conversas. Por enquanto, nada. Não me importo muito com isso. Diria: “Por mim, tanto faz”. Fico rindo comigo, ao lembrar-me de como ficava irritado com esta resposta. Foi na época do meu “caso amoroso” (namoro, relacionamento... não sei a palavra certa) com o Deley. Naquele tempo, ouvir isso (“Por mim...”), soava como: “Não me importo com você”. Talvez esteja exagerando, mas então, foi essa a minha sensação. Anos se passaram, várias coisas aconteceram e hoje somos amigos. Agora não preciso mais “arrancar” as respostas dele nem puxar a conversa. Parece que aquela tensão de antigamente sumiu. Amadurecemos? Talvez. O tempo, ao passar, fez isso por nós? Talvez. Uma coisa sei hoje: o meu olhar a todas essas coisas ficou mais sereno. Estou pronto para um novo relacionamento? Ah, não tenho certeza. E não tenho pressa. Sem dúvida, existe, lá no fundo, uma disposição para isso. Mas, parece, estou mais exigente em relação ao eventual candidato. Surgiu, recentemente, um. Não passou no teste. Antigamente ficaria feliz com qualquer oferta. Hoje já é outra coisa. Talvez fique sozinho por resto da vida? Já não me assusta tanto esta perspectiva. Em algum lugar do meu coração está viva uma esperança de que vai aparecer aquele príncipe encantado (e encantador). Pode ser comodismo. Não sei dizer. Mas estou tranquilo.

Oitava de Natal (8° dia)


OS MAGOS

TEXTO BÍBLICO: Mt 2, 1. 11
Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente. (...) Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.
LEITURA/REFLEXÃO
1)
O último dia da oitava de Natal traz a misteriosa cena com os magos do oriente. Celebra-se, ao mesmo tempo (por uma coincidência, neste ano) a festa da Epifania (em grego: "manifestação"). A tradição e a piedade popular atribuem aos magos a identidade de reis (não mencionada no Evangelho), provavelmente por influência do Salmo 71(72) [Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes; os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. v. 10]. Também o número destes visitantes (três) é fruto da piedosa imaginação sugerida, talvez, pelo número de presentes. O sentido litúrgico e teológico leva-nos a contemplar o caráter universal da salvação que Jesus trouxe. De certo modo, os magos representam “todos os povos”, com suas tradições, culturas e histórias diferentes. Cristo veio a todos. Uma verdade que só aos poucos foi conquistando espaço no coração dos seguidores de Jesus (e, ainda hoje, continua encontrando resistência). E esta afirmação sobre a Igreja surpreende, porque na sua própria constituição está o envio (ou a ordem) de Jesus que, pouco antes de sua Ascensão, disse: Ide, pois, e ensinai a todas as nações (Mt 28, 19). Na versão de Marcos, a ordem do Senhor é ainda mais ampla: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura (Mc 16, 15). Lucas acrescenta: Abriu-lhes então o espírito, para que compreendessem as Escrituras (Lc 24, 45) que era necessário tudo isso que aconteceu com Ele e que se pregasse, em seu nome, a penitência e a remissão dos pecados a todas as nações (cf. Lc 24, 47). Lembramos, entretanto, as dificuldades de Pedro, mesmo depois de ter recebido o Espírito Santo em Pentecostes (leia At 10, 9ss). O Senhor precisou usar de “efeitos especiais” para convencê-lo (Em verdade, reconheço que Deus não faz distinção de pessoas; At 10, 34) e levar os irmãos a esta convicção: Portanto, também aos pagãos concedeu Deus o arrependimento que conduz à vida! (At 11, 18). Também Paulo obteve esta descoberta em circunstâncias dramáticas: Era a vós [judeus] que em primeiro lugar se devia anunciar a palavra de Deus. Mas, porque a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os pagãos (At 13, 46). E, quando abraçou este princípio, tornou-se Apóstolo dos Gentios. E da própria causa. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus. (Gal 3, 28), pois Deus deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2, 4).
2) Quando Paulo fala de “judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher” (Gal 3, 28), usa os termos e conceitos daquela época. Hoje, evidentemente, não seriam mais “escravo e livre”, mas talvez “analfabeto e letrado”, “empregado e desempregado”, “rico e pobre”, “branco e não-branco”, “hetero- e homossexual”. Com outras palavras: as “categorias” de pessoas que, em Cristo, foram “anuladas”, para formar um só povo, uma só família, dependem da mentalidade de cada época e geração. Podemos dizer que Jesus é uma denúncia constante de desigualdades e exclusões. Enquanto, aos olhos humanos, existem sempre alguns “estranhos”, como se apresentam, exatamente, os magos do oriente (os estrangeiros), Deus mostra, através deles que, para Ele, todos são importantes. Importantes porque amados. E a presença de “estranhos” serve para quebrar a rotina, para despertar e sensibilizar.
3) Há séculos, existem interpretações do significado de cada um dos presentes trazidos pelos magos. A mais difundida decifra todos estes dons como uma expressão (ou profissão) de fé. O incenso é visto como o sinal de fé na divindade do recém-nascido, o ouro como o reconhecimento de sua realeza e a mirra (naquela época usada nos procedimentos médicos e nos funerais) expressa a fé na humanidade verdadeira do Messias e alude o desígnio divino de seu sofrimento e morte. Com outras palavras: em nome de toda a humanidade, os magos do oriente, adoraram Jesus e professaram a sua fé, reconhecendo nele verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o rei do universo e salvador do gênero humano, nascido para se oferecer no sacrifício redentor.
4) Animado com a presença dos misteriosos visitantes diante da manjedoura de Jesus, vou também eu, o estranho como eles. Compreendo que eles trouxeram algo que possuíam, dentro das suas condições. Eu não vou levar nem ouro (não tenho), nem mirra (não sei onde encontrar), nem mesmo o incenso (vou deixar aos padres esta tarefa). Simbolicamente, porém, vou apresentar tudo isso. A minha adoração e louvor ao meu Senhor, Deus e Rei. Vou levar, também, a minha homossexualidade, com tudo que ela significa para mim. Com suas sombras, angústias, dúvidas e medos. Mas, sem dúvida, com uma enorme gratidão pela graça de autoconhecimento e auto-aceitação. Com toda sensibilidade, própria desta condição. E, principalmente, com a mais preciosa experiência de amar e ser amado. Vou levar até Jesus, também, toda essa luta pela dignidade, respeito e reconhecimento que uma multidão dos meus irmãos e irmãs, no mundo inteiro, trava incansavelmente, enfrentando incompreensões, zombarias, humilhações, agressões e a própria morte. Entrego tudo isso nas mãos do Menino de Belém, confiante de que nenhum esforço ou sacrifício será em vão. E desejo muito que todos estes meus irmãos e irmãs, os homossexuais, fizessem a mesma visita a Jesus. Pois, quem o encontra, volta para casa por outro caminho, como os magos do oriente (confira Mt 2, 12).
ORAÇÃO
Hoje não podia ser diferente. O louvor e a súplica inspiram-se no trecho do Salmo 71(72), 10-14:

Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes;
os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons.
Todos os reis hão de adorá-lo,
hão de servi-lo todas as nações,
porque ele livrará o infeliz que o invoca,
e o miserável que não tem amparo.
Ele se apiedará do pobre e do indigente,
e salvará a vida dos necessitados.
Ele livrará da injustiça e da opressão,
e preciosa será a sua vida ante seus olhos.