ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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5 de fevereiro de 2014

Bonança após a tempestade?


O título faz alusão ao texto do Livro de Tobias: Porque vós não vos comprazeis em nossa perda: após a tempestade, mandais a bonança; depois das lágrimas e dos gemidos, derramais a alegria (Tb 3, 22). Preciso acrescentar aqui que a frase acima localizei apenas na Bíblia "Ave Maria" e constatei a ausência desta e de várias outras frases nas demais edições da Bíblia (CNBB, Jerusalém etc.), além de não encontrar - evidentemente - o próprio Livro de Tobias nas edições não-católicas. Não é este, entretanto, o assunto de hoje. Seja qual for a fonte dessa intuição sobre os fenômenos da natureza (transferidos de certa forma à convivência humana), parece óbvio que depois de algum tempo de agitação, venha um pouco de paz. É assim que tudo funciona, desde os microscópicos organismos, até às galáxias mais distantes. Ou melhor, desde o palpitar do nosso coração, através da respiração, até ao sexo, tudo tem que ter o ritmo, tem que ser um ciclo, uma onda, com altos e baixos. Nós temos isso no sangue. Está gravado na nossa natureza. É muito provável que seja por isso que sentimos, intuímos, as pulsações da terra, do mar e do ar. E da história, por que não? Sabemos que após a tempestade vem a bonança. Ou, pelo menos, deveria vir.

Desde a última sexta-feira vivemos uma espécie de tempestade, causada pelo "beijo gay" que tenha sido exibido no último capítulo da telenovela da Globo, o "Amor à vida". Estou falando, principalmente, sobre a tempestade que explodiu no microcosmo (ou, talvez, macro-), chamado pomposamente de "redes sociais" que, como todo mundo sabe, se concentram sobretudo no facebook. Temos, é claro, os reflexos no twitter, nos blog's e nos portais que representam este ou aquele lado do palco ideológico-doutrinal da comunicação social. Muitos comemoraram. Muitos se lamentaram. Não tive a menor vontade de calcular as proporções...

Juro que não vou reproduzir aqui, nem em parte, aquelas grandiosas batalhas cibernéticas ou os tratados teológico-pedagógico-jurídicas, contra ou a favor do beijo gay em si, ou da novela, ou da própria Rede Globo em geral. Já escrevi, já fui criticado, já excluí gente da minha lista de contatos, enfim... A tempestade está dando a impressão de querer ir embora, ainda que com alguns trovões e relâmpagos em forma de um "até logo!". O sossego vai durar até a próxima oportunidade. Exatamente assim, como acontece na própria natureza. Digamos, em nosso contexto (LGBT), tivemos a tempestade do Bolsonaro, mais tarde aquela do Feliciano e agora essa do casal Félix e Niko. Os meteorólogos também dão nomes aos tufões e ciclones. Nada original... 

O que me trouxe aqui é a pergunta: será que depois de uma tempestade, realmente vem a bonança?

As redes sociais têm a sua dinâmica própria que em parte demonstra a evolução da mentalidade humana. Tirando uma margem que a tela de um computador proporciona, isto é, aquela diferença entre as coisas que se tem a coragem de escrever, mas nunca se diria na cara do outro, em sua grande parte, a discussão tão acalorada como essa, mostrou o crescimento vertiginoso de posicionamentos radicais. O que mais chamou a minha atenção foi o fato de observar isso principalmente entre os jovens. Eu sei que a juventude é radical (OK, digamos: idealista) por natureza e que a moderação (no bom e no mau sentido) ocorre com o tempo, através de choques com a realidade, de decepções, de cansaço e de comodismo, bem como através de estudo e de um amadurecimento em geral. 

A humanidade apresenta a mesma dinâmica de forma ainda mais clara. É uma interminável conquista, é a descoberta, é o avanço constante. Sem dúvida, como em cada caminhada, houve tropeços, capazes até de travar por algum tempo o natural progresso da civilização. Tais tropeços tornaram-se, no entanto, uma fonte de sabedoria e enriqueceram a consciência coletiva do gênero humano, passando de uma geração para outra. E é, justamente, neste fluxo de gerações que a gente deposita a expectativa dos tempos melhores. Repete-se, de certa forma, a experiência do povo de Israel que, no final de sua longa peregrinação rumo à terra prometida, constatou que era preciso que morresse aquela geração e surgisse a outra, para obter a vitória definitiva (cf. Jos 5, 6-7). É tão natural a suposição - quase automática - de que cada nova geração supere em suas qualidades a geração anterior.

A impressão que tenho, após a leitura das berrantes declarações homofóbicas daqueles que representam a Igreja Católica Apostólica Furiosa, é que as coisas irão piorar. Essas pessoas, ainda que confusas em sua argumentação e apresentando as falhas graves na compreensão e no uso da língua portuguesa, estão profundamente convencidas quanto à razão exclusiva e absoluta daqueles princípios que nós tão bem conhecemos e que tanto mal já nos fizeram. É como a "Fúria Jovem" da torcida de um clube esportivo. Pior... É como a "Juventude Hitlerista" (Hitlerjugend). Esta analogia pode parecer drástica demais, porém, trata-se de uma lógica semelhante: ainda que por motivos diferentes, o braço jovem de cada uma dessas instituições conhece bem o atalho que reduz ao mínimo a distância entre a ideia e o ato. A crueldade das declarações verbais anuncia uma nova, maior onda da homofobia, com a base no cego fundamentalismo cristão. Lamentavelmente...

29 de janeiro de 2014

Vox populi...


(A foto de um dos participantes das manifestações em Kiev, capital da Ucrânia.
O texto, em ucraniano, diz: "Pela voz do povo fala Deus".
Pouco tempo depois, o mesmo manifestante foi encontrado morto
nas imediações da Praça da Independência.)

"A voz do povo é a voz de Deus", diziam os antigos. Ainda que a Igreja nunca tenha-se declarado democrática (e sim, "teocrática"), tal conceito já possuía o espaço maior ao longo de sua história. Basta lembrar das canonizações feitas antigamente pela aclamação (o que não teve vez no funeral de João Paulo II, acompanhado pelo grito popular "Santo subito!"), bem como em algumas eleições papais, ocorridas (também antigamente) através da mesma dinâmica. 

A Igreja, enquanto instituição, ao longo dos séculos, elaborou uma linguagem (palavras, gestos, símbolos, rituais etc.) que, além de pretender transmitir a doutrina, serviu para instalar e expandir o seu sistema monárquico (que, aliás, tornou-se parte integral da própria doutrina). Os pastores distanciaram-se do rebanho o que podemos alegoricamente expressar com a frase: "Preferiram megafone em vez de telefone". Optaram por falar e não por ouvir, mas, para qualquer eventualidade, tinham na ponta da língua a resposta pronta: "Nós escutamos o povo! Até fizemos uma lei que define isso como uma obrigação!". É claro que escutavam, enquanto o povo ficava de joelhos. Os príncipes ouviam a sua confissão de culpa para, logo depois, repreender o povo e sentenciar a sua penitência. Tinham, igualmente (e ainda têm!), o outro argumento "teológico": se a voz do povo realmente fosse a voz de Deus, Jesus não seria crucificado, pois foi o povo que gritava "Crucifica-o!". A interpretação de algumas passagens bíblicas, cuidadosamente escolhidas, sempre foi o trunfo na manga do clero.

Foi, no entanto, o próprio Jesus que disse aos fariseus que queriam calar a voz do povo: "Se eles se calarem, as pedras gritarão" (cf. Lc 19, 40). Entendeu isso muito bem o Papa João XXIII que nunca tinha perdido (nem negado) a sua alma de camponês. Com a intenção de aproximar a Igreja ao mundo, ou melhor, unir a Igreja-instituição (leia-se "o clero") à Igreja-povo, o Papa Roncalli convocou o Concílio Ecumênico Vaticano II. Como diz o monge beneditino espanhol Hilari Raguer Suñer: Seu projeto se deparou com a resistência cerrada da maioria do entorno curial, mas o mantiveram firme a certeza de que Deus o queria e também o entusiasmo que o anúncio do Concílio suscitou no povo de Deus (vox populi- vox Dei) e até mesmo, além das fronteiras da Igreja, em todos os "homens de boa vontade".

Foi o Concílio Vaticano II que declarou, entre outras coisas: Nenhuma ambição terrestre move a Igreja. Com efeito, guiada pelo Espírito Santo ela pretende somente uma coisa: continuar a obra do próprio Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para condenar, para servir e não para ser servido. Para desempenhar tal missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática (Gaudium et Spes, 3-4).

Vivemos, há quase um ano, uma nova esperança. É a era do Papa Francisco. No último domingo ouvimos as suas afirmações (vale muito a pena ler o texto na íntegra!): O Evangelho deste domingo conta o início da vida pública de Jesus nas cidades e nos vilarejos da Galileia. A sua missão não parte de Jerusalém, isto é, do centro religioso, centro também social e político, mas parte de uma zona periférica, uma zona desprezada pelos judeus mais observadores [ortodoxos], por motivo da presença naquela região de diversas populações estrangeiras (...). Partindo da Galileia, Jesus nos ensina que ninguém é excluído da salvação de Deus, antes, que Deus prefere partir da periferia, dos últimos, para alcançar todos. (...) Jesus começa a sua missão não somente de um lugar descentralizado, mas por homens que se diriam, assim, "de baixo perfil". Para escolher os seus primeiros discípulos e futuros apóstolos, não se dirige às escolas dos escribas e dos doutores da Lei, mas às pessoas humildes e simples (...).

Embora o adágio "vox populi-vox Dei" não esteja (de forma literal) na Bíblia, o mesmo sentido podemos detectar na advertência de Jesus sobre os "sinais dos tempos" (mencionados acima, no texto do Concílio). Os nossos tempos têm mostrado muitos sinais, entre os quais, em diversas dimensões, destaca-se a voz do povo. Queira Deus que ela seja ouvida! 

Leia também a reflexão de Pe. Vitor Gonçalves "Da periferia ao centro", no blog Diversidade Católica ou no blog Rumos Novos.

27 de janeiro de 2014

Paixonite


Limerência é um estado cognitivo e emocional involuntário que resulta de um desejo romântico por outra pessoa (objeto da limerência) combinado por uma intensa, avassaladora e obsessiva necessidade de se ter o sentimento correspondido. O termo foi cunhado em 1979 pela psicóloga e escritora norte-americana Dorothy Tennov para descrever o conceito que havia surgido em suas pesquisas em meados dos anos 60, quando entrevistou mais de 500 pessoas sobre o amor. A palavra, que apareceu pela primeira vez no ano de 1979 livro "Love and Limerence: The Experience of Being in Love" (Amor e Limerência: A Experiência de Estar Apaixonado, em tradução livre).
Mais recentemente, a limerência foi definida em relação ao transtorno obsessivo-compulsivo como “um estado interpessoal involuntário que envolve pensamentos, sentimentos e comportamentos intrusivos, obsessivos e compulsivos que são contingentes e dependem da percepção de reciprocidade emocional da parte do objeto de interesse”.
Limerência também foi definida em termos de seus efeitos potencialmente inspiradoras e de sua relação com a teoria do apego, que não é exclusivamente sexual, como sendo "um estado involuntário potencialmente inspirador de adoração e de apego a um objeto da limerência envolvendo pensamentos, sentimentos e comportamentos intrusivos e obsessivos que vão da euforia ao desespero, a depender da reciprocidade emocional percebida”.
A teoria do apego enfatiza que "muitas das mais intensas emoções surgem durante a formação, manutenção, interrupção e renovação dos primeiros laços afetivos". Sugere-se que "o estado de limerência é a experiência consciente da motivação do incentivo sexual" durante a formação de um vínculo: "uma espécie de experiência subjetiva da motivação do incentivo sexual" durante o "intensivo... estágio de formação de pares" do vínculo afetivo humano.
A limerência pode durar dias, meses, anos, ou até mesmo pelo resto da vida da pessoa afetada. Na linguagem popular, é conhecida como Síndrome de Paixonite Aguda. (Wikipédia)

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Na prática, as coisas acontecem da seguinte maneira: ele está ao meu lado quase o tempo todo. Juntos assistimos e comentamos os programas da televisão, rimos das mesmas burrices e nos emocionamos com as mesmas cenas. Passeamos, fazemos compras, tomamos sorvete. Conversamos longamente sobre vários assuntos, contamos os nossos segredos do passado, relatamos aquilo que marcou a nossa vida e descrevemos os nossos familiares. Sim, dormimos juntos, mas (ainda ) não fizemos sexo. No momento, o mais importante é dormir "de conchinha". Já nos tornamos muito íntimos, o nosso olhar é apaixonado. Quando tomamos coragem para revelar algum defeito particular, uma mania ou vício, o carinho mútuo cresce ainda mais. Na presença de outras pessoas comunicamo-nos com caretas e olhares que só nós entendemos. Fazemos planos para o futuro e o que mais desejamos é viajar. Sonhamos em nos casar um dia (no futuro não muito distante) e morar junto pelo resto da vida. Não há ciumes, desentendimentos, neuroses. Também não ficamos exageradamente grudados. Eu gosto de ver quando ele escreve, passa a roupa ou faz qualquer outra coisa. As vezes ele sai e eu fico esperando pelo seu retorno. Quando isso acontece, percebo que ele sentiu saudade, assim como eu. Enfim, estamos muito felizes...

Um detalhe: tudo isso acontece dentro da minha cabeça. Se eu, um dia, tivesse a ocasião de encontrá-lo pessoalmente (sim, sim, ele é real), muito provavelmente eu confundiria o real com o imaginário. Ficaria decepcionado se ele não atendesse ao meu carinho ou não compreendesse as minhas piadas. O rapaz, certamente, ficaria espantado com o meu entusiasmo e - por me considerar um maluco - nunca mais teria vontade de me ver. Digo isso, porque já experimentei essas situações. A minha paixonite não é apenas aguda, mas se repete com bastante frequência. A única solução seria encontrar uma pessoa real, antes que surja o seu "substituto" imaginário...

Tive três namorados reais, cinco ficantes  e, talvez, uns cinquenta casos de paixonite. Quase sempre separadamente, ou seja, uma pessoa de cada vez. Em sua grande maioria, essas paixonites não saíram da minha cabeça. E, em poucos casos, ao saírem, as minhas tentativas (de me aproximar, de "abrir o jogo" ou até de "dar em cima") tinham sido frustradas. Algumas pessoas, diga-se de passagem, deixaram de falar comigo. Tudo isso parece ser suficiente para nunca mais me deixar levar por esse tipo de coisa. Acredite quem quiser... Estou, no momento, de uma paixonite nova...

Eu sei que as desilusões fazem parte da vida e por mais dolorosas que sejam, são saudáveis. Até agora, tirando os três relacionamentos felizes [enquanto duravam], todo o resto não passou de ilusão. Seria querer  e pedir demais, que a desilusão se limite apenas às qualidades da pessoa (afinal, só Deus é perfeito) e não à possibilidade real de tal pessoa namorar comigo?

25 de janeiro de 2014

Café com leite


Queridos ouvintes, dentro de alguns instantes vai começar a cerimônia do casamento. O clima é festivo, mas também sente-se no ar um pouco de tensão. Afinal, não é todo dia que acontece uma coisa dessas. Os noivos são muito diferentes e há quem diga que esta união não vai dar certo. Entre os convidados as opiniões se dividem entre a comoção e a indignação. Para entendermos melhor as razões que levaram esses dois a tomarem uma decisão tão radical e definitiva, vamos conversar com os próprios noivos que não escondem a felicidade tão esperada. Vou começar pelo senhor Leite que acaba de conversar com seus familiares que, aliás, são a maioria dos convidados à festa, em comparação com um número visivelmente menor de parentes do outro noivo.

- Bom dia! Em primeiro lugar, os meus parabéns antecipados! Os nossos ouvintes gostariam de saber o que levou o senhor a decisão tão corajosa que, segundo alguns dos seus convidados, é uma renúncia da própria identidade, quase uma traição dos milenares costumes da tribo?

- Bem, eu poderia responder com apenas uma palavra: o amor. No entanto, gostaria de acrescentar mais algumas coisas. A mais importante tradição da nossa família e a mais autêntica identidade é a entrega, a generosidade, a doação. Nós existimos para dar a vida.

- Ah, que bonito! Mas, numa união dessas que paradoxalmente chama-se indissolúvel, não acontece justamente o contrário, quer dizer, o senhor fica diluído? Muita gente, aqui mesmo, diz que o senhor vai perder a sua pureza, a sua brancura, o seu sabor e o aroma? Para ser mais exato, o senhor vai perder até o seu nome que passará a funcionar como secundário...

- Na verdade, tudo depende da ótica. Dizem que vou perder tudo isso, enquanto, de fato, eu estou entregando o que tenho de melhor. Ao mesmo tempo vou ganhar uma cor nova, um sabor e aroma também novos. Não concordo quando as pessoas dizem que o branco é a mesma coisa que incolor, mas a nova cor que irei ganhar acho mais interessante. Pelo menos vou perder a minha palidez que, para mim, é o sinônimo da solidão. Mal posso esperar!

- O senhor tem uma família muito grande, mas fiquei sabendo que nem todos compareceram no seu casamento...

- É verdade. Uma irmã minha não veio porque, como disse, ela se derrete no calor das emoções. A outra irmã minha, a mais velha, ela é meio esnobe e se acha nobre demais para se misturar com os pobres [risos]. É a nata da família, muito conservadora, coitada. Mas, olha aqui os meus primos coloridos. Todos já se casaram: um ficou vermelho, outro cor-de-rosa e assim por diante. Para eles, o meu casamento é a coisa mais normal na face da terra. Alguns parentes vieram até do exterior. Já viu aquele esquisitão que parece estragado? O cheiro dele também não é dos melhores, mas dizem que ele é muito caro lá, onde mora. Enfim, a questão de cor não é mais um problema na nossa família, acabamos com este preconceito. E tem outra coisa, inclusive confirmada pelos cientistas. Sim, sim, eu li muito sobre isso. Nesta nova união, nenhuma das minhas propriedades se perde, além das coisas exteriores. Pelo contrário! Além de ganhar algumas novas, aquelas que tenho ficam ainda mais refinadas, agradáveis e até assimilam-se melhor. Com outras palavras, será uma fusão, mas não confusão. Eu entrego e não perco a minha vida para ganhar outra, nova, diferente. Alguns dizem que vou sofrer alterações. Mas, para que usar o termo "sofrer" em vez de "conquistar"? Sofre-se uma derrota e aquilo que estou vivendo não é uma derrota. É uma vitória e a vitória se conquista. Ah, sim, o sofrimento também faz parte do processo, é inevitável, porém, não essencial. Vou deixar de ser apenas eu para me tornar a metade de um "nós" que, neste caso, é mais um singular do que um plural. Como dizem os jovens: "É nós". Se quiser saber, isso vem da Bíblia que diz que "não serão mais dois, mas uma só carne". Não é maravilhoso?

- Bem, só posso agradecer pela sua atenção e desejar muita felicidade. E aproveito aqui a presença do outro noivo que ouviu toda a nossa conversa, sem esconder a emoção. Reitero as minhas felicitações também para o senhor e gostaria de perguntar se a sua opinião é semelhante. Não posso deixar de notar o fato de serem pouquíssimos os seus familiares, presentes no casamento...

- Ah, sim, é verdade. A minha família é bem menor do que a do meu noivo. E também tem gente reclamando, mas eu não ligo. Um irmão meu, o Expresso, me chamou de vacilão, mas ele é assim mesmo, tem um temperamento forte e esquenta com cada coisa. Eu, porém, prefiro a ideia do meu noivo e concordo com cada palavra dele, embora a nossa história tenha sido diferente. Por exemplo, aquilo que ele falou sobre a cor. Nossa! Eu já passei por tanta coisa! Nasci verde, virei vermelho e agora estou marrom quase preto. Primeiro me regaram, depois arrancaram, descascaram, queimaram, trituraram... enfim. Tive uma vida cheia de contradições. A água me deu a vida, mas fiquei desidratado, sequinho mesmo e ainda trancado hermeticamente, só para não pegar a umidade. Depois me afogaram na água fervente para que ficasse assim como está me vendo agora. Falando verdade, fiquei muito amargurado com tudo isso, mas agora isso vai mudar, graças a Deus e graças ao meu noivo. Para quem fala sobre as perdas, respondo: já pensou que, para mim, a escuridão é o mesmo que a solidão? O resto é a mesma coisa que ele disse: não perco nada e ganho tudo, torno-me mais suave. Estou muito feliz com esta mudança e se quiser saber, é por todo o resto da minha vida. Aliás, da nossa vida. Ah, lembrei! Em relação ao nome... Foi ele que pediu para colocar o meu na frente...

- Ai, que bonitinho! Parabéns então, de coração mesmo. E uma última palavra: vocês têm planos para a lua de mel e para depois?

- Temos sim, inclusive a sua dica sobre o mel é interessante. Por enquanto pensávamos apenas no açúcar, mas podemos testar outros adoçantes. Além de umas pitadas de canela e de sal. É sério! Muita gente não sabe, mas uma pitada de sal faz com que o sabor fique ainda mais refinado, só não se pode exagerar [risos]. E vamos viajar pelo mundo inteiro, de caneca, de copo e de xícara... Temos tantas possibilidades! E vamos testar novas proporções, novas cores e novos sabores. Vai ser um espetáculo! Agora precisamos pedir licença, porque a cerimônia vai começar...

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Obs.: O vídeo não é exatamente sobre a história relatada acima, mas não deixa de ter algo a ver com ela.

24 de janeiro de 2014

Reencontros e desencontros


Pelo menos umas 2-3 vezes por ano participo de um encontro que para muita gente pode parecer algo impossível, ou uma loucura. Para mim não é... Para ser mais exato, trata-se de um reencontro que, desta vez, foi ainda mais especial. Acredite ou não, mas mantenho o contato frequente com o meu último ex-namorado (vou chamá-lo aqui de "L.") e mesmo tendo encerrado o relacionamento que durou uns três anos, hoje em dia somos melhores amigos. O penúltimo namorado meu (vou chamá-lo aqui de "M"), também é um bom amigo, embora os nossos encontros sejam menos frequentes por ele estar morando atualmente em São Paulo. Ele não é amigo apenas meu, mas também daquele que ocupou o seu lugar. Resumindo: nós três (eu e os meus dois últimos ex-namorados) cultivamos a amizade recíproca e sempre quando o "paulistano" vem ao Rio, procuramos nos encontrar e passamos pelo menos uma ótima tarde juntos. Em meados deste mês almoçamos juntos (na casa do "L") e o resto foi uma deliciosa tarde de altos papos e muitas gargalhadas. Houve, também, alguns desabafos particulares "nos bastidores". O "L" continua, há mais de um ano, em seu lindo e sereno relacionamento (se não me engano, o terceiro depois do nosso), está super feliz e eu compartilho a sua felicidade, torcendo que dure para sempre. Tive a oportunidade de conhecer o namorado dele e tenho certeza de que os dois formam um belíssimo casal. Quem me surpreendeu e deixou preocupado foi o "M". Primeiro, ele me lembrou que já se passaram 10 anos desde o momento em que terminamos (eu sempre fui péssimo em lembrar de datas e quaisquer números em geral). Ao me lembrar daquele tempo em que ele tinha sido trocado pelo "L" (sim, sim, o mesmo), ele me disse (com uma cara que eu não conhecia): "Você quer comemorar?". Entendi imediatamente, mas a surpresa me fez perguntar: "Comemorar, comemorar? Como assim?". - "Ah, não me diga que você se esqueceu de como se faz isso!". Confesso que fiquei sem resposta, tentei fazer piada e acabei mudando de assunto. Mais tarde ele me disse apenas: "Então... Entendi que a sua resposta é 'não', certo?". Certo. Não que eu tenha perdido a atração que sentia por ele. É que eu compreendo o sexo de outra maneira. Para mim é a consequência e a expressão de um relacionamento amoroso (pois é, sou careta mesmo). E eu não acredito muito no "relacionamento à distância" (como disse antes, ele mora atualmente em São Paulo). O que me preocupou, porém, foi a outra declaração dele: "Pense em sexo casual... Sou eu!". O "M", depois de terminarmos, ficou algum tempo sozinho e depois viveu um relacionamento de três anos (acho interessante essa sequência de triênios, diga-se de passagem), em seguida, passou um tempo fora do país e ao retornar, começou a "caça". Disse que já perdeu a conta, mas trata-de de "uns 30 caras", na maioria desconhecidos (alguns até de nome), de lugares inusitados e situações perigosas. Enfim... fiquei bastante preocupado e confesso que me senti um tanto culpado (afinal, mais que provavelmente, fui eu quem o introduziu a "essa vida"). Conversei depois com o "L" que discordou da minha sensação de culpa e decidiu dar uma bronca ao "M". O nível da nossa amizade atual permitiu que tal bronca não se baseasse na minha "fofoca". O próprio "M" contou a mesma história ao "L" e só depois levou a prometida bronca que, de fato, expressava a mais autêntica preocupação e um conselho: "Vê se arruma um namorado! É muito melhor e mais seguro".

Existe uma analogia entre os pais e os ex-namorados (pelo menos no nosso caso). Assim como muitos pais têm dificuldade de admitir que os filhos, um dia, deixam de ser crianças, assim eu pensei que o rapaz com quem terminei há 10 anos, fosse o mesmo também hoje. As pessoas evoluem. As vezes na direção previsível e outras vezes não...

Os nossos relacionamentos fazem parte do passado, mas o amor continua. Não é mais o amor de intimidade sexual, mas o mais sincero desejo de felicidade para cada um, junto com o respeito pelo espaço particular do outro, não deixam de significar um amor verdadeiro. Há coisas que só compartilho com eles e não conheço ninguém que consiga me compreender como eles. Por isso mesmo detesto os slogans do tipo: "Se ex-namorado fosse bom, não seria ex", "Ex-namorados são como vestidos velhos. Você vê um retrato antigo e diz: como um dia tive coragem de sair com aquilo?", "Não derrame lágrimas pelo 'ex'! Derrama logo gasolina e taca fogo". As frases desse gênero, criadas por uma mente mesquinha e retardada, mostram a total ausência de amor. E não apenas depois de um relacionamento rompido, mas principalmente enquanto ele durava. É o mesmo nível de idiotice que ouvimos todos os dias no insistente e irritante lançamento de um CD na TV globo: Tá duvidando, é? Cuidado que eu te esqueço e você cai do cavalo. Tá se achando, é? Aproveita que um dia eu te esqueço na gaveta! (Fernando e Sorocaba, "Gaveta").
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Obs.: A foto acima remete a dois fenômenos da atualidade televisiva (o seriado "Looking", estreado recentemente na HBO e a novela da globo "Amor à vida"). Nenhuma dessas histórias retrata a nossa, embora existam alguns elementos um tanto parecidos... 

22 de janeiro de 2014

Jurisprudência divina



A jurisprudência é o conjunto das soluções dadas pelos tribunais às questões de Direito. A sua função principal é a adaptação da lei às ideias e aos costumes contemporâneos. A jurisprudência nasceu com o Common law inglês, no qual o direito é criado e aperfeiçoado pelos juízes. Uma decisão a ser tomada num caso depende das decisões adotadas nos casos anteriores e afeta o direito que será aplicado em casos futuros. A cinematografia norte-americana, com certa frequência, ajuda-nos a compreender melhor como funciona o Common law. São aqueles advogados que desesperadamente estudam os processos antigos para encontrar a solução de um caso de outrora que seja útil aos seus clientes. O argumento que diz "uma vez, o caso semelhante, foi resolvido assim", é capaz de convencer o juiz.

Será que o Rei dos reis e Juiz dos juízes segue, também, algum tipo de jurisprudência? Segue, sim e podemos dizer que ela é, no mínimo, bastante curiosa. As leituras litúrgicas de ontem fornecem para nós alguns dos inúmeros exemplos bíblicos. Refiro-me aos textos da terça-feira da 2ª semana do tempo comum (1Sm 16, 1-13; Sl 88; Mc 2, 23-28). No primeiro texto temos o profeta Samuel que vem transmitir a voz de Deus, portanto, a sua ordem e a sua lei. Um detalhe chamou a minha atenção. Antes de tudo, Deus orientou assim o seu servo: Eu te mostrarei o que deves fazer e tu ungirás a quem eu te designar (v. 2). Depois Samuel purificou Jessé e seus filhos e convidou-os para o sacrifício (v. 5). Como se sabe, o ritual de mais diversas purificações e associado a ele conceito da impureza fazem parte da cultura e da mentalidade do povo de Israel, inclusive de sua legislação. Uma sociedade teocrática não distingue muito claramente a origem das leis vigentes e, para facilitar as coisas, justifica os seus comportamentos com a ideia da obediência a Deus, ainda que nem sempre tenha acertado o seu discernimento. Mostram isso as precipitações mentais de Samuel que, como um escolhido do Senhor, vivia ouvindo a voz de Deus. Percebemos, porém, que ele escutava igualmente as dicas de sua lógica humana. Em alguns momentos parecia até um duelo de vozes: Certamente é este o ungido do Senhor! - Não! Não é este! Quando acabou a fila dos candidatos, surgiu uma questão óbvia: Estão aqui todos os teus filhos? Pois é, havia mais um, mas quem teria a ideia de imaginar o caçula como o futuro rei de Israel? E o Senhor que acabava de dizer a Samuel para não se deixar enganar pela aparência, desta vez faz questão de notar que Davi era ruivo, de belos olhos e formosa aparência. Quando chegou, então, o bonitinho, Deus disse ao profeta: Levanta-te, unge-o: é este! Samuel, é claro, obedeceu na mesma hora e nem teve a ousadia de questionar: Uê, Senhor, e a purificação? Ele teria que ser purificado antes, porque é assim que manda a Tua lei! Se tivesse tal coragem, certamente teria recebido a mesma resposta que ouviu, séculos mais tarde, não menos ungido Apóstolo Pedro: Não chames de impuro o que Deus tornou puro! (At 10, 15).

O mesmo elemento da jurisprudência de Deus, isto é, a exceção (ou a suspensão), percebemos ainda mais nitidamente no texto do Evangelho proposto para o mesmo dia. É o típico exemplo do Common law, aplicado pelo próprio Jesus. Caminhando por uns campos de trigo, os discípulos de Jesus arrancaram algumas espigas para comer, o que não seria tão grave se não fosse o dia de sábado. De um lado, a lei de Deus obrigava os camponeses a deixarem um feixe de trigo "esquecido" no campo durante a colheita, para que os transeuntes necessitados pudessem comer (cf. Dt 24, 19). Afinal, Deus é Amor e se preocupa com os pobres. Por outro lado, no sábado não se podia fazer trabalho algum. Os fariseus, membros ilustres da elite religiosa do povo, lembraram-se, obviamente, da proibição e não do amor, o que observamos igualmente em todas as discussões travadas por eles com Jesus: Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido? (Mc 2, 24). Jesus recorre a um precedente (exatamente como os advogados que usam a lógica do Common law): Por acaso, nunca lestes o que Davi e seus companheiros fizeram quando passaram a necessidade e tiveram fome? Como ele entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu os pães oferecidos a Deus e os deu também aos seus companheiros? No entanto, só aos sacerdotes é permitido comer esses pães. (v. 25-26)

Mais ou menos neste sentido podemos dizer: Por acaso nunca lestes o que Jesus fez quando um centurião romano o pediu para curar seu servo que muito provavelmente era, também, o seu amante? Como o Senhor não somente curou o doente sem questionar a relação dos dois, mas ainda elogiou a fé daquele centurião? (cf. Mt 8, 5-13 e Lc 7, 1-10). Ou, quando Filipe, um dos sete diáconos, anunciou a fé ao eunuco etíope e, sem questionar a sua condição de esterilidade (ou, quem sabe, homossexualidade, o que era bastante comum nos haréns da época e nos palácios de rainhas), ministrou-lhe o Sacramento do Batismo? (cf. At 8, 29-39). Ou, então, quando já mencionado aqui Pedro, o primeiro Papa (talvez ante-Papa, sem confundir com qualquer anti-Papa, mas tendo em vista que os Papas são seus sucessores), chegou à conclusão definitiva: Deus me mostrou que não se deve dizer que algum homem é profano ou impuro. (At 10, 28)

A "jurisprudência" de Deus baseia-se no amor. Os teólogos e a doutrina oficial da Igreja afirmam que Deus é imutável, mas também que é insondável. Quando, então, alguém afirma que isso ou aquilo é assim e não pode ser diferente, pois provém da lei de Deus, nem sempre tem razão. Não valeu a pena brigar (em nome de Deus) com os cientistas (e queimar alguns deles na fogueira), só porque afirmavam que a Terra é redonda. Em um contexto mais amplo resume esta verdade a jornalista e escritora Martha Medeiros:

Somos vigorosamente contra ou a favor, como se de nossas posições dependesse nossa vida. E chegam a ser inocentes nossas tentativas de compreender a nós mesmos e ao mundo. Particularmente, gosto muito dessa busca, mas sem perder a consciência de que, onde quer que eu chegue, ainda estarei a milhões de anos-luz da compreensão absoluta. Ainda bem. O que viria depois da compreensão absoluta? ("Causa e efeito" em Revista O Globo, 22. 12. 2013; p. 14).

21 de janeiro de 2014

Ações essenciais


Há um ano, o Governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral sancionou a Lei N° 6394 de autoria da deputada estadual do Rio, Myrian Rios (PSD). A lei institui o "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" no âmbito do Estado do Rio de Janeiro. O texto parece um conto de fadas e certamente tem como anexo (?) a regulamentação bem precisa por parte da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. Afinal, alguns termos carecem de uma definição mais detalhada, por exemplo:

Parágrafo Único - O Programa deverá envolver diretamente a comunidade escolar, a família, lideranças comunitárias, empresas públicas e privadas, meios de comunicação, autoridades locais e estaduais e as organizações não governamentais e comunidades religiosas, por meio de atividades culturais, esportivas, literárias, mídia, entre outras, que visem a reflexão sobre a necessidade da revisão sobre os valores morais, sociais, éticos e espirituais (Deixando de lado as imperfeições gramáticas, pergunto: “a reflexão sobre a necessidade da revisão dos valores morais, sociais, éticos e espirituais” precisa de uma lei? E se alguém não quiser refletir? Será multado ou preso? Isso, sem dúvida precisa ser regulamentado...)

Art. 2º- O Poder Executivo deverá firmar convênios e parcerias articuladas e significativas, com prefeituras municipais e sociedade civil, no sentido de possibilitar a execução do cumprimento ao disposto nesta Lei, com os seguintes objetivos: I – promover o resgate da cidadania; II – fortalecer as relações humanas; III – valorizar a família, a escola e a comunidade como um todo. (Qual é o conceito da família? A legislação estadual obedece a nacional que define a família como “comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; independentemente de orientação sexual” [Lei nº 11.340; art. 5º, inciso II, e parágrafo único]?)

Parágrafo Único - Serão desenvolvidas ações essenciais que contribuam para uma convivência saudável entre pessoas, estabelecendo relações de confiança e respeito mutuo, alicerçada em valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais, como instrumento capaz de prevenir e combater diversas formas de violência. (Qual é o significado do termo “ações essenciais”? O "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" prevê, também, as ações essenciais para combater a homofobia, estabelecendo relações de confiança e respeito mútuo entre as pessoas heterossexuais e homossexuais? Ou os valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais não permitem isso? Em que baseiam-se esses valores? Na doutrina católica? A deputada, em outro momento, descreve-se assim: Em 2003, cheguei à Comunidade Canção Nova e lá eu me restaurei. Encontrei na fé um alicerce e recebi forças de Deus para me tornar uma nova mulher. Naquele momento, o meu maior desejo era ser totalmente de Deus e, por Ele, eu mudei.)

Justificativa - Infelizmente, a sociedade de uma maneira geral vem cada dia mais se desvencilhando dos valores morais, sociais, éticos e espirituais. Valores esses que são de extrema importância para que nossa sociedade caminhe para o crescimento. Sem esse tipo de valor, tudo é permitido, se perde o conceito do bom e ruim, do certo e errado. Perde-se o critério do que se pode e deve fazer ou o que não se pode. Estamos vivendo em um mundo onde o egoísmo e a ganância são predominantes. (É uma impressão minha, ou as afirmações acima realmente fazem alusão aos costumes e comportamentos, vistos como errados pelos católicos fundamentalistas?)

Justificativa [continuação] - Na busca de um mundo melhor o programa, descrito nesse projeto, objetiva formular proposta de ações educativas e sugestivas, direcionadas a criança, jovens e adultos despertando uma grande mudança na sociedade fluminense.Diante dessa realidade, a criação do programa supracitado, que tem como objetivo principal conscientizar e reinserir valores de suma importância para que possamos construir um futuro melhor, onde haja principalmente respeito pelo próximo. (Como neste contexto fica, por exemplo, a manifestação pública de afeto entre as pessoas do mesmo sexo, tal como o beijo, considerado por muitos católicos e evangélicos uma falta de respeito?)

A deputada mantêm um blog (ou mantinha, pois as últimas postagens são do ano passado). Lá mesmo, além de publicar a lei em questão, divulgou uma nota esclarecedora:

Gostaria de conversar com vocês sobre algumas polêmicas que vêm sendo questionadas a respeito da aprovação do Projeto de Lei de minha autoria, que institui o Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais.
Para esclarecer algumas informações erradas que estão circulando na mídia, eu não sou ex-atriz, sou e sempre serei atriz, pois sou apaixonada pela arte da interpretação.
Também gostaria de corrigir a matéria que divulgou que faço parte da bancada evangélica da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Respeito todas as religiões, mas sou missionária consagrada da comunidade católica Canção Nova.
Esse projeto foi feito com a intenção de fazer mudanças positivas na nossa sociedade, e não tem como propósito atacar ninguém por motivo algum.

Jacques Gruman procura respostas ao questionamento parecido com o meu: Afinal de contas, existirá definição universal para valorização da família ? E para alicerces espirituais? Quem vai fazer a lista dos “valores morais” sugeridos pela lei? E acrescenta: A autora do projeto de lei, que vive às custas dos nossos impostos, é a senhora Myrian Rios, ex-atriz, missionária católica conservadora. Como muitos de seus pares, faz carreira confundindo púlpito com tribuna, defendendo propostas “cristãs” arcaicas e destilando um preconceito raivoso contra os homossexuais. Chegou a fazer campanha contra o sexo anal (!). Não compreende e se revolta com as profundas mudanças comportamentais das últimas décadas, que se refletem em indivíduos e famílias, regurgita conceitos que não se sustentam nas mais elementares evidências científicas e, presa a um maniqueísmo pueril, nos ameaça com leis absurdas.

Repito: a Lei Estadual N° 6394 vigora no Estado do Rio de Janeiro há um ano. Em lugar algum consegui encontrar as notícias sobre a regulamentação e a execução desta lei...