ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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24 de janeiro de 2014

Reencontros e desencontros


Pelo menos umas 2-3 vezes por ano participo de um encontro que para muita gente pode parecer algo impossível, ou uma loucura. Para mim não é... Para ser mais exato, trata-se de um reencontro que, desta vez, foi ainda mais especial. Acredite ou não, mas mantenho o contato frequente com o meu último ex-namorado (vou chamá-lo aqui de "L.") e mesmo tendo encerrado o relacionamento que durou uns três anos, hoje em dia somos melhores amigos. O penúltimo namorado meu (vou chamá-lo aqui de "M"), também é um bom amigo, embora os nossos encontros sejam menos frequentes por ele estar morando atualmente em São Paulo. Ele não é amigo apenas meu, mas também daquele que ocupou o seu lugar. Resumindo: nós três (eu e os meus dois últimos ex-namorados) cultivamos a amizade recíproca e sempre quando o "paulistano" vem ao Rio, procuramos nos encontrar e passamos pelo menos uma ótima tarde juntos. Em meados deste mês almoçamos juntos (na casa do "L") e o resto foi uma deliciosa tarde de altos papos e muitas gargalhadas. Houve, também, alguns desabafos particulares "nos bastidores". O "L" continua, há mais de um ano, em seu lindo e sereno relacionamento (se não me engano, o terceiro depois do nosso), está super feliz e eu compartilho a sua felicidade, torcendo que dure para sempre. Tive a oportunidade de conhecer o namorado dele e tenho certeza de que os dois formam um belíssimo casal. Quem me surpreendeu e deixou preocupado foi o "M". Primeiro, ele me lembrou que já se passaram 10 anos desde o momento em que terminamos (eu sempre fui péssimo em lembrar de datas e quaisquer números em geral). Ao me lembrar daquele tempo em que ele tinha sido trocado pelo "L" (sim, sim, o mesmo), ele me disse (com uma cara que eu não conhecia): "Você quer comemorar?". Entendi imediatamente, mas a surpresa me fez perguntar: "Comemorar, comemorar? Como assim?". - "Ah, não me diga que você se esqueceu de como se faz isso!". Confesso que fiquei sem resposta, tentei fazer piada e acabei mudando de assunto. Mais tarde ele me disse apenas: "Então... Entendi que a sua resposta é 'não', certo?". Certo. Não que eu tenha perdido a atração que sentia por ele. É que eu compreendo o sexo de outra maneira. Para mim é a consequência e a expressão de um relacionamento amoroso (pois é, sou careta mesmo). E eu não acredito muito no "relacionamento à distância" (como disse antes, ele mora atualmente em São Paulo). O que me preocupou, porém, foi a outra declaração dele: "Pense em sexo casual... Sou eu!". O "M", depois de terminarmos, ficou algum tempo sozinho e depois viveu um relacionamento de três anos (acho interessante essa sequência de triênios, diga-se de passagem), em seguida, passou um tempo fora do país e ao retornar, começou a "caça". Disse que já perdeu a conta, mas trata-de de "uns 30 caras", na maioria desconhecidos (alguns até de nome), de lugares inusitados e situações perigosas. Enfim... fiquei bastante preocupado e confesso que me senti um tanto culpado (afinal, mais que provavelmente, fui eu quem o introduziu a "essa vida"). Conversei depois com o "L" que discordou da minha sensação de culpa e decidiu dar uma bronca ao "M". O nível da nossa amizade atual permitiu que tal bronca não se baseasse na minha "fofoca". O próprio "M" contou a mesma história ao "L" e só depois levou a prometida bronca que, de fato, expressava a mais autêntica preocupação e um conselho: "Vê se arruma um namorado! É muito melhor e mais seguro".

Existe uma analogia entre os pais e os ex-namorados (pelo menos no nosso caso). Assim como muitos pais têm dificuldade de admitir que os filhos, um dia, deixam de ser crianças, assim eu pensei que o rapaz com quem terminei há 10 anos, fosse o mesmo também hoje. As pessoas evoluem. As vezes na direção previsível e outras vezes não...

Os nossos relacionamentos fazem parte do passado, mas o amor continua. Não é mais o amor de intimidade sexual, mas o mais sincero desejo de felicidade para cada um, junto com o respeito pelo espaço particular do outro, não deixam de significar um amor verdadeiro. Há coisas que só compartilho com eles e não conheço ninguém que consiga me compreender como eles. Por isso mesmo detesto os slogans do tipo: "Se ex-namorado fosse bom, não seria ex", "Ex-namorados são como vestidos velhos. Você vê um retrato antigo e diz: como um dia tive coragem de sair com aquilo?", "Não derrame lágrimas pelo 'ex'! Derrama logo gasolina e taca fogo". As frases desse gênero, criadas por uma mente mesquinha e retardada, mostram a total ausência de amor. E não apenas depois de um relacionamento rompido, mas principalmente enquanto ele durava. É o mesmo nível de idiotice que ouvimos todos os dias no insistente e irritante lançamento de um CD na TV globo: Tá duvidando, é? Cuidado que eu te esqueço e você cai do cavalo. Tá se achando, é? Aproveita que um dia eu te esqueço na gaveta! (Fernando e Sorocaba, "Gaveta").
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Obs.: A foto acima remete a dois fenômenos da atualidade televisiva (o seriado "Looking", estreado recentemente na HBO e a novela da globo "Amor à vida"). Nenhuma dessas histórias retrata a nossa, embora existam alguns elementos um tanto parecidos... 

22 de janeiro de 2014

Jurisprudência divina



A jurisprudência é o conjunto das soluções dadas pelos tribunais às questões de Direito. A sua função principal é a adaptação da lei às ideias e aos costumes contemporâneos. A jurisprudência nasceu com o Common law inglês, no qual o direito é criado e aperfeiçoado pelos juízes. Uma decisão a ser tomada num caso depende das decisões adotadas nos casos anteriores e afeta o direito que será aplicado em casos futuros. A cinematografia norte-americana, com certa frequência, ajuda-nos a compreender melhor como funciona o Common law. São aqueles advogados que desesperadamente estudam os processos antigos para encontrar a solução de um caso de outrora que seja útil aos seus clientes. O argumento que diz "uma vez, o caso semelhante, foi resolvido assim", é capaz de convencer o juiz.

Será que o Rei dos reis e Juiz dos juízes segue, também, algum tipo de jurisprudência? Segue, sim e podemos dizer que ela é, no mínimo, bastante curiosa. As leituras litúrgicas de ontem fornecem para nós alguns dos inúmeros exemplos bíblicos. Refiro-me aos textos da terça-feira da 2ª semana do tempo comum (1Sm 16, 1-13; Sl 88; Mc 2, 23-28). No primeiro texto temos o profeta Samuel que vem transmitir a voz de Deus, portanto, a sua ordem e a sua lei. Um detalhe chamou a minha atenção. Antes de tudo, Deus orientou assim o seu servo: Eu te mostrarei o que deves fazer e tu ungirás a quem eu te designar (v. 2). Depois Samuel purificou Jessé e seus filhos e convidou-os para o sacrifício (v. 5). Como se sabe, o ritual de mais diversas purificações e associado a ele conceito da impureza fazem parte da cultura e da mentalidade do povo de Israel, inclusive de sua legislação. Uma sociedade teocrática não distingue muito claramente a origem das leis vigentes e, para facilitar as coisas, justifica os seus comportamentos com a ideia da obediência a Deus, ainda que nem sempre tenha acertado o seu discernimento. Mostram isso as precipitações mentais de Samuel que, como um escolhido do Senhor, vivia ouvindo a voz de Deus. Percebemos, porém, que ele escutava igualmente as dicas de sua lógica humana. Em alguns momentos parecia até um duelo de vozes: Certamente é este o ungido do Senhor! - Não! Não é este! Quando acabou a fila dos candidatos, surgiu uma questão óbvia: Estão aqui todos os teus filhos? Pois é, havia mais um, mas quem teria a ideia de imaginar o caçula como o futuro rei de Israel? E o Senhor que acabava de dizer a Samuel para não se deixar enganar pela aparência, desta vez faz questão de notar que Davi era ruivo, de belos olhos e formosa aparência. Quando chegou, então, o bonitinho, Deus disse ao profeta: Levanta-te, unge-o: é este! Samuel, é claro, obedeceu na mesma hora e nem teve a ousadia de questionar: Uê, Senhor, e a purificação? Ele teria que ser purificado antes, porque é assim que manda a Tua lei! Se tivesse tal coragem, certamente teria recebido a mesma resposta que ouviu, séculos mais tarde, não menos ungido Apóstolo Pedro: Não chames de impuro o que Deus tornou puro! (At 10, 15).

O mesmo elemento da jurisprudência de Deus, isto é, a exceção (ou a suspensão), percebemos ainda mais nitidamente no texto do Evangelho proposto para o mesmo dia. É o típico exemplo do Common law, aplicado pelo próprio Jesus. Caminhando por uns campos de trigo, os discípulos de Jesus arrancaram algumas espigas para comer, o que não seria tão grave se não fosse o dia de sábado. De um lado, a lei de Deus obrigava os camponeses a deixarem um feixe de trigo "esquecido" no campo durante a colheita, para que os transeuntes necessitados pudessem comer (cf. Dt 24, 19). Afinal, Deus é Amor e se preocupa com os pobres. Por outro lado, no sábado não se podia fazer trabalho algum. Os fariseus, membros ilustres da elite religiosa do povo, lembraram-se, obviamente, da proibição e não do amor, o que observamos igualmente em todas as discussões travadas por eles com Jesus: Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido? (Mc 2, 24). Jesus recorre a um precedente (exatamente como os advogados que usam a lógica do Common law): Por acaso, nunca lestes o que Davi e seus companheiros fizeram quando passaram a necessidade e tiveram fome? Como ele entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu os pães oferecidos a Deus e os deu também aos seus companheiros? No entanto, só aos sacerdotes é permitido comer esses pães. (v. 25-26)

Mais ou menos neste sentido podemos dizer: Por acaso nunca lestes o que Jesus fez quando um centurião romano o pediu para curar seu servo que muito provavelmente era, também, o seu amante? Como o Senhor não somente curou o doente sem questionar a relação dos dois, mas ainda elogiou a fé daquele centurião? (cf. Mt 8, 5-13 e Lc 7, 1-10). Ou, quando Filipe, um dos sete diáconos, anunciou a fé ao eunuco etíope e, sem questionar a sua condição de esterilidade (ou, quem sabe, homossexualidade, o que era bastante comum nos haréns da época e nos palácios de rainhas), ministrou-lhe o Sacramento do Batismo? (cf. At 8, 29-39). Ou, então, quando já mencionado aqui Pedro, o primeiro Papa (talvez ante-Papa, sem confundir com qualquer anti-Papa, mas tendo em vista que os Papas são seus sucessores), chegou à conclusão definitiva: Deus me mostrou que não se deve dizer que algum homem é profano ou impuro. (At 10, 28)

A "jurisprudência" de Deus baseia-se no amor. Os teólogos e a doutrina oficial da Igreja afirmam que Deus é imutável, mas também que é insondável. Quando, então, alguém afirma que isso ou aquilo é assim e não pode ser diferente, pois provém da lei de Deus, nem sempre tem razão. Não valeu a pena brigar (em nome de Deus) com os cientistas (e queimar alguns deles na fogueira), só porque afirmavam que a Terra é redonda. Em um contexto mais amplo resume esta verdade a jornalista e escritora Martha Medeiros:

Somos vigorosamente contra ou a favor, como se de nossas posições dependesse nossa vida. E chegam a ser inocentes nossas tentativas de compreender a nós mesmos e ao mundo. Particularmente, gosto muito dessa busca, mas sem perder a consciência de que, onde quer que eu chegue, ainda estarei a milhões de anos-luz da compreensão absoluta. Ainda bem. O que viria depois da compreensão absoluta? ("Causa e efeito" em Revista O Globo, 22. 12. 2013; p. 14).

21 de janeiro de 2014

Ações essenciais


Há um ano, o Governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral sancionou a Lei N° 6394 de autoria da deputada estadual do Rio, Myrian Rios (PSD). A lei institui o "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" no âmbito do Estado do Rio de Janeiro. O texto parece um conto de fadas e certamente tem como anexo (?) a regulamentação bem precisa por parte da Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. Afinal, alguns termos carecem de uma definição mais detalhada, por exemplo:

Parágrafo Único - O Programa deverá envolver diretamente a comunidade escolar, a família, lideranças comunitárias, empresas públicas e privadas, meios de comunicação, autoridades locais e estaduais e as organizações não governamentais e comunidades religiosas, por meio de atividades culturais, esportivas, literárias, mídia, entre outras, que visem a reflexão sobre a necessidade da revisão sobre os valores morais, sociais, éticos e espirituais (Deixando de lado as imperfeições gramáticas, pergunto: “a reflexão sobre a necessidade da revisão dos valores morais, sociais, éticos e espirituais” precisa de uma lei? E se alguém não quiser refletir? Será multado ou preso? Isso, sem dúvida precisa ser regulamentado...)

Art. 2º- O Poder Executivo deverá firmar convênios e parcerias articuladas e significativas, com prefeituras municipais e sociedade civil, no sentido de possibilitar a execução do cumprimento ao disposto nesta Lei, com os seguintes objetivos: I – promover o resgate da cidadania; II – fortalecer as relações humanas; III – valorizar a família, a escola e a comunidade como um todo. (Qual é o conceito da família? A legislação estadual obedece a nacional que define a família como “comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; independentemente de orientação sexual” [Lei nº 11.340; art. 5º, inciso II, e parágrafo único]?)

Parágrafo Único - Serão desenvolvidas ações essenciais que contribuam para uma convivência saudável entre pessoas, estabelecendo relações de confiança e respeito mutuo, alicerçada em valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais, como instrumento capaz de prevenir e combater diversas formas de violência. (Qual é o significado do termo “ações essenciais”? O "Programa de resgate de valores morais, sociais, éticos e espirituais" prevê, também, as ações essenciais para combater a homofobia, estabelecendo relações de confiança e respeito mútuo entre as pessoas heterossexuais e homossexuais? Ou os valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais não permitem isso? Em que baseiam-se esses valores? Na doutrina católica? A deputada, em outro momento, descreve-se assim: Em 2003, cheguei à Comunidade Canção Nova e lá eu me restaurei. Encontrei na fé um alicerce e recebi forças de Deus para me tornar uma nova mulher. Naquele momento, o meu maior desejo era ser totalmente de Deus e, por Ele, eu mudei.)

Justificativa - Infelizmente, a sociedade de uma maneira geral vem cada dia mais se desvencilhando dos valores morais, sociais, éticos e espirituais. Valores esses que são de extrema importância para que nossa sociedade caminhe para o crescimento. Sem esse tipo de valor, tudo é permitido, se perde o conceito do bom e ruim, do certo e errado. Perde-se o critério do que se pode e deve fazer ou o que não se pode. Estamos vivendo em um mundo onde o egoísmo e a ganância são predominantes. (É uma impressão minha, ou as afirmações acima realmente fazem alusão aos costumes e comportamentos, vistos como errados pelos católicos fundamentalistas?)

Justificativa [continuação] - Na busca de um mundo melhor o programa, descrito nesse projeto, objetiva formular proposta de ações educativas e sugestivas, direcionadas a criança, jovens e adultos despertando uma grande mudança na sociedade fluminense.Diante dessa realidade, a criação do programa supracitado, que tem como objetivo principal conscientizar e reinserir valores de suma importância para que possamos construir um futuro melhor, onde haja principalmente respeito pelo próximo. (Como neste contexto fica, por exemplo, a manifestação pública de afeto entre as pessoas do mesmo sexo, tal como o beijo, considerado por muitos católicos e evangélicos uma falta de respeito?)

A deputada mantêm um blog (ou mantinha, pois as últimas postagens são do ano passado). Lá mesmo, além de publicar a lei em questão, divulgou uma nota esclarecedora:

Gostaria de conversar com vocês sobre algumas polêmicas que vêm sendo questionadas a respeito da aprovação do Projeto de Lei de minha autoria, que institui o Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais.
Para esclarecer algumas informações erradas que estão circulando na mídia, eu não sou ex-atriz, sou e sempre serei atriz, pois sou apaixonada pela arte da interpretação.
Também gostaria de corrigir a matéria que divulgou que faço parte da bancada evangélica da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Respeito todas as religiões, mas sou missionária consagrada da comunidade católica Canção Nova.
Esse projeto foi feito com a intenção de fazer mudanças positivas na nossa sociedade, e não tem como propósito atacar ninguém por motivo algum.

Jacques Gruman procura respostas ao questionamento parecido com o meu: Afinal de contas, existirá definição universal para valorização da família ? E para alicerces espirituais? Quem vai fazer a lista dos “valores morais” sugeridos pela lei? E acrescenta: A autora do projeto de lei, que vive às custas dos nossos impostos, é a senhora Myrian Rios, ex-atriz, missionária católica conservadora. Como muitos de seus pares, faz carreira confundindo púlpito com tribuna, defendendo propostas “cristãs” arcaicas e destilando um preconceito raivoso contra os homossexuais. Chegou a fazer campanha contra o sexo anal (!). Não compreende e se revolta com as profundas mudanças comportamentais das últimas décadas, que se refletem em indivíduos e famílias, regurgita conceitos que não se sustentam nas mais elementares evidências científicas e, presa a um maniqueísmo pueril, nos ameaça com leis absurdas.

Repito: a Lei Estadual N° 6394 vigora no Estado do Rio de Janeiro há um ano. Em lugar algum consegui encontrar as notícias sobre a regulamentação e a execução desta lei...

20 de janeiro de 2014

Homofobia - palavra estranha


Escrevi recentemente que - em certo sentido - concordo com aafirmação usada pelo padre Paulo Ricardo: "Não existe nenhuma homofobia". Para ser mais exato, o padre disse: "Não existe nenhuma homofobia em considerarmos a estrutura do mundo real". De fato, a polêmica mais importante seria sobre o conceito do "mundo real", mas o início daquela frase despertou na minha memória o questionamento de outro tipo. Quando usei a expressão "em certo sentido", fiz referência, de fato, a um e único sentido. Enquanto a homofobia - como a entendemos - lamentavelmente continua existindo e até parece aumentar, o próprio termo não me deixa sossegado. O que quero dizer é que não existe a homofobia do ponto de vista linguístico (etimológico, fraseológico etc.). O que, de fato, existe e tanto nos atormenta é uma "heterofobia".

Analisemos um pouco a história:

A palavra homossexual é um híbrido do grego e do latim com o primeiro elemento derivado do grego homos'mesmo' e o segundo elemento derivado do latim sexus'sexo', conotando portanto, atos sexuais e afetivos entre pessoas do mesmo sexo. Especialistas em literatura psiquiátrica concordam em posicionar o surgimento do termo homossexualismo no século XIX, por volta da década de 1860 ou 1870, criado pelo discurso médico para identificar o sujeito homossexual. A primeira aparição conhecida do termo homossexual na impressão foi encontrada em um panfleto de 1869, publicado anonimamente, pelo romancista alemão nascido na Áustria, Karl-Maria Kertbeny. [fonte]

palavra homofobia é um neologismo criado pelo psicólogo George Weinberg, em 1971, numa obra impressa, combinando a palavra grega phobos ("fobia"), com o prefixo homo-, como remissão à palavra "homossexual". O problema é que tal prefixo ('homo') é também uma palavra completa (como vimos acima) e a mencionada remissão à palavra 'homossexual' não parece tão óbvia. Se, portanto, a palavra 'fobia' - "medo, aversão irreprimível" (do grego antigo φόβος) associarmos ao termo 'homo' (também do grego antigo ὁμός - 'mesmo, igual'), vamos descrever o "medo do igual" o que não é o caso da homofobia real, cujos tristes efeitos sofremos diariamente na própria pele. O medo, a aversão irreprimível, a agressão irracional... tudo isso dirige-se a nós, justamente por sermos diferentes. Na língua grega existe o termo 'heteros' (ετερός) que quer dizer 'diferente'. Por analogia (e, segundo os estudiosos, como a resposta à criação do termo "homossexual") surgiu a palavra "heterossexual", com a mesma lógica de associar um elemento derivado do grego ('heteros' - 'outro, diferente') e o outro, derivado do latim ('sexus' - 'sexo'), para indicar atos sexuais e afetivos entre pessoas de sexos opostos. Logo, o mencionado acima "medo causado pelas pessoas diferentes (no contexto sexual)" seria 'heterofobia' e não 'homofobia'.

Vale mencionar aqui mais um termo, desta vez composto de duas palavras gregas e que descreve a realidade muito próxima à homofobia. É a xenofobia (do grego ξένοςxénos -'estrangeiro' φόβοςphóbos - 'medo') é o medo, aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, a desconfiança em relação a pessoas estranhas ao meio daquele que as julga ou que vêm de fora do seu país. A xenofobia pode manifestar-se de várias formas, incluindo o medo de perda de identidade, suspeição acerca de suas atividades, agressão e desejo de eliminar a sua presença para assegurar uma suposta pureza.
A xenofobia pode ter como alvo não apenas pessoas de outros países, mas de outras culturas, subculturas ou sistemas de crenças. O medo do desconhecido pode ser mascarado no indivíduo como aversão ou ódio, gerando preconceitos. Em senso mais restrito, xenofobia é o medo excessivo e descontrolado do desconhecido. Neste sentido, é umadoença e insere-se no grupo das perturbações fóbicas,caracterizadas por ansiedade clinicamente significativa, provocada pela exposição a uma situação ou objeto temido. Para o tratamento da xenofobia são normalmente utilizados os métodos da terapia comportamental. Em alguns casos mais graves é habitual a administração de medicamentos que tenham por objetivo principal a diminuição da ansiedade extrema, uma vez que esta impede que se realizem as sessões terapêuticas de uma forma eficaz. Em outros casos, pode-se desenvolver crenças irracionais (geralmente preconceituosas), pelo que também é recomendado que se busquem estratégias cognitivas que trabalhem tais crenças.[fonte]

Bem... Não pretendo promover aqui uma revolução linguística ou a nova reforma ortográfica/etimológica etc. Procuro apenas analisar os termos que usamos.

O verdadeiro problema começa quando alguém insiste em negar a existência de algo real. É o caso de "homoafetividade" que, enquanto um termo, não deixa tantas dúvidas, porém é questionada como a mais autêntica experiência vivida pelas pessoas homossexuais. O "filósofo" Olavo de Carvalho, em um dos seus discursos, exibidos no YouTube, disse literalmente: Vamos falar o português claro: no que consiste a homoafetividade masculina, né? Consiste um comer o cu do outro, meu filho. Consiste na boa e velha sodomia, você tá entendendo? (Leia aqui e, se realmente quiser, assista os vídeos no mesmo link).

Terminando as minhas divagações sobre os termos e as expressões (com seus respectivos significados), gostaria de afirmar com a mais triste veemência: a homofobia existe, sim... A página virtual "Homofobia mata" é um dos veículos que comprovam i documentam esse trágico fenômeno.

Para finalizar, recorro ao texto do Deputado Federal Jean Wyllys, publicado na "Carta Capital":

Eu já disse uma vez e vou repetir. Cada uma dessas vítimas tem um algoz material — o assassino, aquele que enfia a faca, que puxa o gatilho, que "desce o pau", como o pastor Malafaia pediu numa de suas famosas declarações televisivas. Mas há outros algozes, que também têm sangue nas mãos. São aqueles que, no Congresso, no governo e nas igrejas fundamentalistas, promovem, festejam, incitam ou fecham os olhos, por conveniência, oportunismo, poder e dinheiro, cada vez que mais um Kaique é morto. Eles também são assassinos.

Como deputado federal, mas também como cidadão gay desse país, e antes disso tudo, como ser humano não consegue conviver com a violência e o ódio como se fossem naturais, ficarei à disposição da família e dos amigos de Kaique e farei tudo o que puder para que esse e outros crimes sejam esclarecidos e não fiquem impunes. Como dizia o poeta Pablo Neruda, chileno como Daniel Zamudio, "por esses mortos, nossos mortos, eu peço castigo".

18 de janeiro de 2014

Ser homossexual ou gay?


Escrevi várias vezes aqui sobre a dificuldade de promover o diálogo construtivo entre o dois "universos": o católico (ou cristão em geral) e o "LGBT". Os obstáculos começam bem antes do preconceito mútuo em si. Na verdade, tais obstáculos originam-se na incapacidade de usar as palavras com a devida compreensão. Isso começa na escola primária, as consegue se infiltrar até nas faculdades de teologia. Vale observar aqui que cada um desses "universos" possui a sua linguagem própria, sempre com uma margem de incompatibilidade que pode ser superada com uma dose de boa vontade e um pouco de esforço. Observo esse esforço, por exemplo, na assim chamada "grande mídia" que, aos poucos, vai modificando a sua terminologia, ao transmitir as notícias ligadas à Igreja. Agora conseguimos ouvir, com mais frequência, que o fulano de tal vai ser canonizado (e não santificado) pela Igreja etc. A Igreja, por sua vez e pelo menos em seus documentos oficiais, também consegue rever a sua linguagem, relacionada à homossexualidade. Um texto de 2002, assinado pelo Prefeito do Pontifício Conselho para a Família, traz uma distinção bastante curiosa: É inadmissível que se queira fazer passar como uma união legítima, e inclusivamente como "matrimônio", as uniões de pessoas homossexuais e lésbicas, até mesmo com a reivindicação do direito a adotar filhos. Nos documentos mais recentes esse equívoco já não aparece. O próprio conceito das uniões de pessoas do mesmo sexo parece ganhar, também, cada vez mais espaço, passando de algo "inadmissível" a um fato existente e digno de atenção. A evolução linguística, entretanto, parece não ter alcançado a mente de outros autores que, ainda que de maneira não tão oficial, também falam em nome da Igreja. Este é o caso do padre Paulo Ricardo, que em uma entrevista ao portal "Destrave", vinculado à "Canção Nova", afirma:

É preciso antes distinguir a pessoa homossexual do movimento gay. Homossexual é a pessoa que tem atração por outra do mesmo sexo. O gay é uma pessoa que assumiu uma postura política, ele é um militante. Nós católicos queremos acolher todos os homossexuais que estejam dispostos a renunciar ao gayzismo, porque este sim é incompatível com a moral cristã. 

Sem entrar na polêmica sobre o neologismo (copiado pelo padre do "filósofo" Olavo de Carvalho), pergunto: por que a postura política do movimento gay é incompatível com a moral cristã? Lutar contra o preconceito, defender a dignidade humana e zelar pela segurança das pessoas, não se encaixa aos deveres de um cristão? Ou a perseguição dos cristãos é ruim, enquanto a perseguição das pessoas homossexuais é boa e legítima? A militância católica fundamentalista está OK, mas a militância LGBT não está? Onde começa uma postura política? Não seria no momento em que, nas eleições de qualquer tipo, nego o meu voto ao candidato homofóbico? Ou quando mantenho e atualizo um blog, publicando as opiniões favoráveis às pessoas homossexuais?

Realmente, neste contexto, qualquer diálogo torna-se praticamente impossível...

Na mesma entrevista, o padre diz mais uma coisa: Não existe nenhuma homofobia em considerarmos a estrutura do mundo real. A estrutura do mundo real diz o seguinte: não existe nenhum modo de haver uma união genital entre duas pessoas do mesmo sexo. O cardeal Ratzinger, quando ainda prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, assinou um documento no qual dizia que nenhuma ideologia – no caso aqui a ideologia gay – será capaz de mudar a estrutura da realidade. Então eles podem repetir quanto quiserem, mas da união entre duas pessoas do mesmo sexo não sai vida e a união entre um homem e uma mulher gera vida. Esta é a estrutura do mundo real.

Quer dizer, eu sou irreal... É claro que ninguém vai aceitar dialogar comigo, afinal, eu não existo. Com todo respeito ao Papa emérito (citado acima cardeal Ratzinger), a "ideologia gay" não só é capaz de mudar a estrutura da realidade, mas já está fazendo isso há muito tempo. A antiga estrutura da "realidade", hermética e unânime em rejeitar as pessoas diferentes, está se abrindo, cada vez mais, à "ideologia do Evangelho" que consiste em atitudes de acolhimento, compreensão e, justamente, nas tentativas de diálogo.

Quanto à expressão do autor: "Não existe nenhuma homofobia", quero surpreender os meus (eventuais) Leitores e afirmar que - em certo sentido - concordo com isso. Prometo explicar melhor esta questão na próxima vez...

16 de janeiro de 2014

Só eu sei as esquinas...

Se compararmos a vida com uma caminhada, a esquina pode ser o sinônimo de uma virada, ou de um marco que fica gravado na história pessoal. É neste sentido que escuto a música de Djavan que inspirou o título desta postagem. Graças aos meus pais, eu sou desde criança, um homem apaixonado pelos livros, ou melhor, pelos escritos em geral. Alguns textos ficaram impregnados na minha alma, por terem causado as mais autênticas e profundas reviravoltas interiores. A minha juventude ficou marcada por alguns conjuntos de texto, digamos, paradoxais, pois misturaram suavemente, por exemplo, as reflexões filosófico-teológicas de Karol Wojtyla (João Paulo II) e a ficção infantil de Tove Jansson (sem saber naquela altura da homossexualidade dela). Os impactos existenciais que formaram a minha trajetória começam pelos textos, mas estendem-se, também, aos filmes, à música e as obras de arte. Em todo este universo de expressão humana, o que mais me fascina é o ato (ou o processo) de criar. Sou um homem apaixonado pelo mistério que envolve a concepção, a mais real gestação e, por fim, o nascimento das ideias que tomam forma, seja de um texto, de uma sinfonia, ou de um desenho. É algo que retratam, por exemplo, os filmes: “Amadeus” ou “O som do coração” (com o fantástico FreddieHighmore)

É incomparável a sensação de encontrar um texto, uma cena, uma pintura, enfim, uma obra que expresse, com a fascinante exatidão, aquilo que você está sentindo, mas nunca teve a capacidade de descrever. É com essa fascinação que transcrevo aqui, com a devida autorização, um dos textos de Matheus Gabry. É um jovem estudante de Design de Interiores, apaixonado por arquitetura, livros, fotos, músicas e tudo aquilo que o faz manter contato com sua própria alma (a a alma do universo). Os belíssimos textos de sua autoria estão vinculados às fotos no seu perfil do facebook. 

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Quando encontrei o amor

Sabe, tem um trecho de uma música que gosto muito:

If God had a name what would it be?
And would you call it to his face?
If you were faced with Him in all His glory
What would you ask if you had just one question?”
– One of Us - Joan Osborne

A tradução dela é essa:

“Se Deus tivesse um nome, qual seria?

E como você o chamaria na sua frente?
Se você se encontrasse com Ele em toda sua glória
O que você perguntaria se tivesse apenas uma pergunta?”

Acho que tenho encontrado o amor, mas quando digo isso não digo em relação ao amor físico ou humano, acho que tenho encontrado um tipo único de amor desde que me permiti deixar ser amado. Quando penso em como poder ser o amor de Deus eu logo penso em algo que não posso definir e nem tampouco medir ou descrever, nem mil linhas seriam capazes de expressar o que possa ser esse Amor.

Quando eu era criança e já sabia que eu possuía entendimento sobre certas coisas e sabia que eu tinha uma diferença que ainda é muito mal vista hoje em dia, quando eu me maltratava com apenas 6 ou 7 anos perguntando para mim mesmo se Deus me amava mesmo eu sendo um menininho que gostava de outros meninos. Eu simplesmente achava que Deus nunca iria me olhar com bons olhos, que eu era muito diferente e mal por ser assim, e que eu causava vergonha em Deus.

O tempo foi passando e eu tive que lidar sozinho com essa minha “diferença”, durante a escola, ainda que não soubessem de mim e dessa minha diferença - talvez até soubessem, mas não perguntassem ou tocassem no assunto por medo de como eu iria reagir -. O fato é que desde essa fase de crescimento eu achei que tinha perdido a companhia Dele, eu achava que Ele me protegia e ainda se importava comigo porque eu era um fruto de sua criação, mas não porque eu trazia tanta alegria como um outro menino que gostasse de meninas trazia para Ele. E por muitas vezes eu me sentia com um único destino pelo qual a “sociedade” e a comunidade religiosa achava que seria o correto para mim: o inferno. E eu temia muito isso, eu temia muito com todas as minhas forças que esse fosse o meu destino intransmutável.

Foi quando então eu comecei a me tornar um pouco mais pensante e menos fanático por leis, dogmas ou “conceitos divinos” com os quais eu cresci aprendendo. Foi quando eu finalmente tive a coragem de pensar em Deus como um ser que poderia ser negro ao invés de branco e de barba branca grande, foi quando eu comecei a pensar em Deus como um ser que não tem definição de gênero, etnia ou classe social. Foi quando eu comecei a ver Deus como a formiga que está caminhando sobre os meus pés carregando uma folha pesada até o formigueiro, como o passarinho que faz o seu ninho, como a abelha que está a toda hora buscando pólen. Como a perfeita combinação de cores do pôr-do-sol. Quando eu finalmente tentei ver a grandeza de Deus no minimalismo de sua criação que percebi que Deus é um ser muito além do que meus olhos ou sentidos captam ou podem captar. Deus… uma entidade regida de luz e amor, um ser incapaz de renegar a sua criação, pelo contrário, doar uma parte sua em sacrifício humano para demonstrar para alguém tão desacreditado como eu de que Ele me amava acima de tudo aquilo que eu fui, sou e ainda posso ser. Deus e essa mania de nos olhar como crianças indefesas que muitas das vezes fazem as coisas sem pensar, brincam e se machucam, ralam os joelhos, ferem o coração. E Ele?! Bem, Ele sempre foi o papai protetor que esteve por perto observando cada movimento meu e me levantando de todos os tombos e tropeços da vida, sempre me acalmando e me prometendo que independente de qualquer coisa Ele me amou, me ama e me amará para todo o sempre.

Posso não ser um portador de uma necessidade especial, posso não ter um tumor ou outra limitação física, posso não ser uma pessoa portadora de depressão ou qualquer outra doença da alma, mas eu fui por muito tempo uma pessoa que recusava o maior desejo de Deus para mim: ser livre para ser o que sou e se sentir amado. Hoje eu descobri o quanto importa para Ele que eu seja aquilo que meu coração pede, por mais que eu erre, por mais que eu fique na pior, por mais que eu esteja num balanço suspenso em que a qualquer momento eu possa cair, Ele nunca soltará minha mão e muito menos soltará a sua. Ele te ama, e isso te basta, ainda que você não entenda o quanto isso é grandioso, por mais que você ache que não tenha nada, você tem tudo desde que nasceu. Você tem vida, você tem o amor verdadeiro de Alguém especial e mesmo que você não queria ter esse amor, isso nunca irá mudar. Isso é o mais perfeito. Você tem amor. - Matheus Gabry


14 de janeiro de 2014

O retrato de um conceito


"A imagem (muitas vezes) mala mais do que mil palavras (por exemplo, de um sermão)" - foi isso que pensei, ao compartilhar esta foto, publicada originalmente no perfil oficial da Arquidiocese do Rio no facebook.

Se você quiser, antes mesmo de ler o texto a seguir, veja - com atenção e sem pressa - a fotografia e tente responder a essa questão: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

Como sempre acontece nas redes sociais, recebi imediatamente alguns comentários, relacionados à legenda com a qual publiquei a foto. Os comentários apareceram tanto de forma pública, quanto particular, via "bate-papo". Confesso ter ficado surpreso com aquilo que escreveram os meus amigos, a saber: um estudante de teologia, uma jovem católica "contestadora" e duas católicas de meia-idade, praticantes e piedosas.

O estudante de teologia (quase formado) respondeu: A meu ver a foto mostra que quem sustenta a vida da Igreja com as orações e a perseverança são as mulheres que a exemplo de São Sebastião não se cansam de dar testemunho...

Uma das mulheres piedosas escreveu: Para mim demonstra a simplicidade q deve existir em nossa Igreja.

Outra mulher piedosa me deixou um pouco mais preocupado: Vi a foto da trezena de Sto Antonio [como assim?] mas não entendi, ou não percebi oque lhe chamou atenção. O q teria sido?

Pensei em fugir da resposta, por isso disse: Ah, eu acho que cada um pode interpretar a vontade.

Tentei provocar um pouco o teólogo, então escrevi: Uma foto e mil interpretações... quando olho aqui, tenho na mente uma frase de Jesus, mas não me peça para citar... Na mesma hora, o rapaz tentou acertar: O maior dentre vós seja aquele que serve! (cf. Lc 22, 26). Não foi exatamente essa passagem que pensei, mas achei a conversa interessante. Só achei uma pena o fato de que as pessoas não conseguem associar bem o texto e uma imagem. Repito aqui, então: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

A mulher piedosa que havia confundido São Sebastião com Santo Antônio insistiu mais: O pensamento é livre mas a partir de que? Não vi, não notei nada estranho na foto. Qdo o senhor diz "de forma simbólica, retrata certo conceito da Igreja". Qual seria esse conceito?

A jovem católica "contestadora" seguiu uma estratégia diferente e não quis mais saber da passagem bíblica (ainda que estivesse bem próxima dela em sua intuição): uma mulher carregando a imagem... e o clero ao lado... não vou com o focinho desses dois ai...

Finalmente respondi a todos, citando o texto do Evangelho de Lucas (Lc 23, 2-8, com o destaque no v. 4):

Jesus falou às multidões e aos seus discípulos: "Os doutores da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Vejam como eles usam faixas largas na testa e nos braços, e como põem na roupa longas franjas, com trechos da Escritura. Gostam dos lugares de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas; gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, e de que as pessoas os chamem mestre. Quanto a vocês, nunca se deixem chamar mestre, pois um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos.

Enquanto o estudante de teologia acrescentava outra passagem, bem no contexto da primeira (Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Mt 11, 25), a mulher piedosa continuou com as suas dúvidas: Está querendo dizer q a mulher não deveria estar carregando a imagem? Pelo que li na passagem...

Conclusão: As conversas que acontecem nas redes sociais têm uma dinâmica particular e nada é tão óbvio como parece.

Se quiser, escreva a sua reflexão a partir desta foto e da legenda: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"