ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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20 de janeiro de 2014

Homofobia - palavra estranha


Escrevi recentemente que - em certo sentido - concordo com aafirmação usada pelo padre Paulo Ricardo: "Não existe nenhuma homofobia". Para ser mais exato, o padre disse: "Não existe nenhuma homofobia em considerarmos a estrutura do mundo real". De fato, a polêmica mais importante seria sobre o conceito do "mundo real", mas o início daquela frase despertou na minha memória o questionamento de outro tipo. Quando usei a expressão "em certo sentido", fiz referência, de fato, a um e único sentido. Enquanto a homofobia - como a entendemos - lamentavelmente continua existindo e até parece aumentar, o próprio termo não me deixa sossegado. O que quero dizer é que não existe a homofobia do ponto de vista linguístico (etimológico, fraseológico etc.). O que, de fato, existe e tanto nos atormenta é uma "heterofobia".

Analisemos um pouco a história:

A palavra homossexual é um híbrido do grego e do latim com o primeiro elemento derivado do grego homos'mesmo' e o segundo elemento derivado do latim sexus'sexo', conotando portanto, atos sexuais e afetivos entre pessoas do mesmo sexo. Especialistas em literatura psiquiátrica concordam em posicionar o surgimento do termo homossexualismo no século XIX, por volta da década de 1860 ou 1870, criado pelo discurso médico para identificar o sujeito homossexual. A primeira aparição conhecida do termo homossexual na impressão foi encontrada em um panfleto de 1869, publicado anonimamente, pelo romancista alemão nascido na Áustria, Karl-Maria Kertbeny. [fonte]

palavra homofobia é um neologismo criado pelo psicólogo George Weinberg, em 1971, numa obra impressa, combinando a palavra grega phobos ("fobia"), com o prefixo homo-, como remissão à palavra "homossexual". O problema é que tal prefixo ('homo') é também uma palavra completa (como vimos acima) e a mencionada remissão à palavra 'homossexual' não parece tão óbvia. Se, portanto, a palavra 'fobia' - "medo, aversão irreprimível" (do grego antigo φόβος) associarmos ao termo 'homo' (também do grego antigo ὁμός - 'mesmo, igual'), vamos descrever o "medo do igual" o que não é o caso da homofobia real, cujos tristes efeitos sofremos diariamente na própria pele. O medo, a aversão irreprimível, a agressão irracional... tudo isso dirige-se a nós, justamente por sermos diferentes. Na língua grega existe o termo 'heteros' (ετερός) que quer dizer 'diferente'. Por analogia (e, segundo os estudiosos, como a resposta à criação do termo "homossexual") surgiu a palavra "heterossexual", com a mesma lógica de associar um elemento derivado do grego ('heteros' - 'outro, diferente') e o outro, derivado do latim ('sexus' - 'sexo'), para indicar atos sexuais e afetivos entre pessoas de sexos opostos. Logo, o mencionado acima "medo causado pelas pessoas diferentes (no contexto sexual)" seria 'heterofobia' e não 'homofobia'.

Vale mencionar aqui mais um termo, desta vez composto de duas palavras gregas e que descreve a realidade muito próxima à homofobia. É a xenofobia (do grego ξένοςxénos -'estrangeiro' φόβοςphóbos - 'medo') é o medo, aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, a desconfiança em relação a pessoas estranhas ao meio daquele que as julga ou que vêm de fora do seu país. A xenofobia pode manifestar-se de várias formas, incluindo o medo de perda de identidade, suspeição acerca de suas atividades, agressão e desejo de eliminar a sua presença para assegurar uma suposta pureza.
A xenofobia pode ter como alvo não apenas pessoas de outros países, mas de outras culturas, subculturas ou sistemas de crenças. O medo do desconhecido pode ser mascarado no indivíduo como aversão ou ódio, gerando preconceitos. Em senso mais restrito, xenofobia é o medo excessivo e descontrolado do desconhecido. Neste sentido, é umadoença e insere-se no grupo das perturbações fóbicas,caracterizadas por ansiedade clinicamente significativa, provocada pela exposição a uma situação ou objeto temido. Para o tratamento da xenofobia são normalmente utilizados os métodos da terapia comportamental. Em alguns casos mais graves é habitual a administração de medicamentos que tenham por objetivo principal a diminuição da ansiedade extrema, uma vez que esta impede que se realizem as sessões terapêuticas de uma forma eficaz. Em outros casos, pode-se desenvolver crenças irracionais (geralmente preconceituosas), pelo que também é recomendado que se busquem estratégias cognitivas que trabalhem tais crenças.[fonte]

Bem... Não pretendo promover aqui uma revolução linguística ou a nova reforma ortográfica/etimológica etc. Procuro apenas analisar os termos que usamos.

O verdadeiro problema começa quando alguém insiste em negar a existência de algo real. É o caso de "homoafetividade" que, enquanto um termo, não deixa tantas dúvidas, porém é questionada como a mais autêntica experiência vivida pelas pessoas homossexuais. O "filósofo" Olavo de Carvalho, em um dos seus discursos, exibidos no YouTube, disse literalmente: Vamos falar o português claro: no que consiste a homoafetividade masculina, né? Consiste um comer o cu do outro, meu filho. Consiste na boa e velha sodomia, você tá entendendo? (Leia aqui e, se realmente quiser, assista os vídeos no mesmo link).

Terminando as minhas divagações sobre os termos e as expressões (com seus respectivos significados), gostaria de afirmar com a mais triste veemência: a homofobia existe, sim... A página virtual "Homofobia mata" é um dos veículos que comprovam i documentam esse trágico fenômeno.

Para finalizar, recorro ao texto do Deputado Federal Jean Wyllys, publicado na "Carta Capital":

Eu já disse uma vez e vou repetir. Cada uma dessas vítimas tem um algoz material — o assassino, aquele que enfia a faca, que puxa o gatilho, que "desce o pau", como o pastor Malafaia pediu numa de suas famosas declarações televisivas. Mas há outros algozes, que também têm sangue nas mãos. São aqueles que, no Congresso, no governo e nas igrejas fundamentalistas, promovem, festejam, incitam ou fecham os olhos, por conveniência, oportunismo, poder e dinheiro, cada vez que mais um Kaique é morto. Eles também são assassinos.

Como deputado federal, mas também como cidadão gay desse país, e antes disso tudo, como ser humano não consegue conviver com a violência e o ódio como se fossem naturais, ficarei à disposição da família e dos amigos de Kaique e farei tudo o que puder para que esse e outros crimes sejam esclarecidos e não fiquem impunes. Como dizia o poeta Pablo Neruda, chileno como Daniel Zamudio, "por esses mortos, nossos mortos, eu peço castigo".

18 de janeiro de 2014

Ser homossexual ou gay?


Escrevi várias vezes aqui sobre a dificuldade de promover o diálogo construtivo entre o dois "universos": o católico (ou cristão em geral) e o "LGBT". Os obstáculos começam bem antes do preconceito mútuo em si. Na verdade, tais obstáculos originam-se na incapacidade de usar as palavras com a devida compreensão. Isso começa na escola primária, as consegue se infiltrar até nas faculdades de teologia. Vale observar aqui que cada um desses "universos" possui a sua linguagem própria, sempre com uma margem de incompatibilidade que pode ser superada com uma dose de boa vontade e um pouco de esforço. Observo esse esforço, por exemplo, na assim chamada "grande mídia" que, aos poucos, vai modificando a sua terminologia, ao transmitir as notícias ligadas à Igreja. Agora conseguimos ouvir, com mais frequência, que o fulano de tal vai ser canonizado (e não santificado) pela Igreja etc. A Igreja, por sua vez e pelo menos em seus documentos oficiais, também consegue rever a sua linguagem, relacionada à homossexualidade. Um texto de 2002, assinado pelo Prefeito do Pontifício Conselho para a Família, traz uma distinção bastante curiosa: É inadmissível que se queira fazer passar como uma união legítima, e inclusivamente como "matrimônio", as uniões de pessoas homossexuais e lésbicas, até mesmo com a reivindicação do direito a adotar filhos. Nos documentos mais recentes esse equívoco já não aparece. O próprio conceito das uniões de pessoas do mesmo sexo parece ganhar, também, cada vez mais espaço, passando de algo "inadmissível" a um fato existente e digno de atenção. A evolução linguística, entretanto, parece não ter alcançado a mente de outros autores que, ainda que de maneira não tão oficial, também falam em nome da Igreja. Este é o caso do padre Paulo Ricardo, que em uma entrevista ao portal "Destrave", vinculado à "Canção Nova", afirma:

É preciso antes distinguir a pessoa homossexual do movimento gay. Homossexual é a pessoa que tem atração por outra do mesmo sexo. O gay é uma pessoa que assumiu uma postura política, ele é um militante. Nós católicos queremos acolher todos os homossexuais que estejam dispostos a renunciar ao gayzismo, porque este sim é incompatível com a moral cristã. 

Sem entrar na polêmica sobre o neologismo (copiado pelo padre do "filósofo" Olavo de Carvalho), pergunto: por que a postura política do movimento gay é incompatível com a moral cristã? Lutar contra o preconceito, defender a dignidade humana e zelar pela segurança das pessoas, não se encaixa aos deveres de um cristão? Ou a perseguição dos cristãos é ruim, enquanto a perseguição das pessoas homossexuais é boa e legítima? A militância católica fundamentalista está OK, mas a militância LGBT não está? Onde começa uma postura política? Não seria no momento em que, nas eleições de qualquer tipo, nego o meu voto ao candidato homofóbico? Ou quando mantenho e atualizo um blog, publicando as opiniões favoráveis às pessoas homossexuais?

Realmente, neste contexto, qualquer diálogo torna-se praticamente impossível...

Na mesma entrevista, o padre diz mais uma coisa: Não existe nenhuma homofobia em considerarmos a estrutura do mundo real. A estrutura do mundo real diz o seguinte: não existe nenhum modo de haver uma união genital entre duas pessoas do mesmo sexo. O cardeal Ratzinger, quando ainda prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, assinou um documento no qual dizia que nenhuma ideologia – no caso aqui a ideologia gay – será capaz de mudar a estrutura da realidade. Então eles podem repetir quanto quiserem, mas da união entre duas pessoas do mesmo sexo não sai vida e a união entre um homem e uma mulher gera vida. Esta é a estrutura do mundo real.

Quer dizer, eu sou irreal... É claro que ninguém vai aceitar dialogar comigo, afinal, eu não existo. Com todo respeito ao Papa emérito (citado acima cardeal Ratzinger), a "ideologia gay" não só é capaz de mudar a estrutura da realidade, mas já está fazendo isso há muito tempo. A antiga estrutura da "realidade", hermética e unânime em rejeitar as pessoas diferentes, está se abrindo, cada vez mais, à "ideologia do Evangelho" que consiste em atitudes de acolhimento, compreensão e, justamente, nas tentativas de diálogo.

Quanto à expressão do autor: "Não existe nenhuma homofobia", quero surpreender os meus (eventuais) Leitores e afirmar que - em certo sentido - concordo com isso. Prometo explicar melhor esta questão na próxima vez...

16 de janeiro de 2014

Só eu sei as esquinas...

Se compararmos a vida com uma caminhada, a esquina pode ser o sinônimo de uma virada, ou de um marco que fica gravado na história pessoal. É neste sentido que escuto a música de Djavan que inspirou o título desta postagem. Graças aos meus pais, eu sou desde criança, um homem apaixonado pelos livros, ou melhor, pelos escritos em geral. Alguns textos ficaram impregnados na minha alma, por terem causado as mais autênticas e profundas reviravoltas interiores. A minha juventude ficou marcada por alguns conjuntos de texto, digamos, paradoxais, pois misturaram suavemente, por exemplo, as reflexões filosófico-teológicas de Karol Wojtyla (João Paulo II) e a ficção infantil de Tove Jansson (sem saber naquela altura da homossexualidade dela). Os impactos existenciais que formaram a minha trajetória começam pelos textos, mas estendem-se, também, aos filmes, à música e as obras de arte. Em todo este universo de expressão humana, o que mais me fascina é o ato (ou o processo) de criar. Sou um homem apaixonado pelo mistério que envolve a concepção, a mais real gestação e, por fim, o nascimento das ideias que tomam forma, seja de um texto, de uma sinfonia, ou de um desenho. É algo que retratam, por exemplo, os filmes: “Amadeus” ou “O som do coração” (com o fantástico FreddieHighmore)

É incomparável a sensação de encontrar um texto, uma cena, uma pintura, enfim, uma obra que expresse, com a fascinante exatidão, aquilo que você está sentindo, mas nunca teve a capacidade de descrever. É com essa fascinação que transcrevo aqui, com a devida autorização, um dos textos de Matheus Gabry. É um jovem estudante de Design de Interiores, apaixonado por arquitetura, livros, fotos, músicas e tudo aquilo que o faz manter contato com sua própria alma (a a alma do universo). Os belíssimos textos de sua autoria estão vinculados às fotos no seu perfil do facebook. 

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Quando encontrei o amor

Sabe, tem um trecho de uma música que gosto muito:

If God had a name what would it be?
And would you call it to his face?
If you were faced with Him in all His glory
What would you ask if you had just one question?”
– One of Us - Joan Osborne

A tradução dela é essa:

“Se Deus tivesse um nome, qual seria?

E como você o chamaria na sua frente?
Se você se encontrasse com Ele em toda sua glória
O que você perguntaria se tivesse apenas uma pergunta?”

Acho que tenho encontrado o amor, mas quando digo isso não digo em relação ao amor físico ou humano, acho que tenho encontrado um tipo único de amor desde que me permiti deixar ser amado. Quando penso em como poder ser o amor de Deus eu logo penso em algo que não posso definir e nem tampouco medir ou descrever, nem mil linhas seriam capazes de expressar o que possa ser esse Amor.

Quando eu era criança e já sabia que eu possuía entendimento sobre certas coisas e sabia que eu tinha uma diferença que ainda é muito mal vista hoje em dia, quando eu me maltratava com apenas 6 ou 7 anos perguntando para mim mesmo se Deus me amava mesmo eu sendo um menininho que gostava de outros meninos. Eu simplesmente achava que Deus nunca iria me olhar com bons olhos, que eu era muito diferente e mal por ser assim, e que eu causava vergonha em Deus.

O tempo foi passando e eu tive que lidar sozinho com essa minha “diferença”, durante a escola, ainda que não soubessem de mim e dessa minha diferença - talvez até soubessem, mas não perguntassem ou tocassem no assunto por medo de como eu iria reagir -. O fato é que desde essa fase de crescimento eu achei que tinha perdido a companhia Dele, eu achava que Ele me protegia e ainda se importava comigo porque eu era um fruto de sua criação, mas não porque eu trazia tanta alegria como um outro menino que gostasse de meninas trazia para Ele. E por muitas vezes eu me sentia com um único destino pelo qual a “sociedade” e a comunidade religiosa achava que seria o correto para mim: o inferno. E eu temia muito isso, eu temia muito com todas as minhas forças que esse fosse o meu destino intransmutável.

Foi quando então eu comecei a me tornar um pouco mais pensante e menos fanático por leis, dogmas ou “conceitos divinos” com os quais eu cresci aprendendo. Foi quando eu finalmente tive a coragem de pensar em Deus como um ser que poderia ser negro ao invés de branco e de barba branca grande, foi quando eu comecei a pensar em Deus como um ser que não tem definição de gênero, etnia ou classe social. Foi quando eu comecei a ver Deus como a formiga que está caminhando sobre os meus pés carregando uma folha pesada até o formigueiro, como o passarinho que faz o seu ninho, como a abelha que está a toda hora buscando pólen. Como a perfeita combinação de cores do pôr-do-sol. Quando eu finalmente tentei ver a grandeza de Deus no minimalismo de sua criação que percebi que Deus é um ser muito além do que meus olhos ou sentidos captam ou podem captar. Deus… uma entidade regida de luz e amor, um ser incapaz de renegar a sua criação, pelo contrário, doar uma parte sua em sacrifício humano para demonstrar para alguém tão desacreditado como eu de que Ele me amava acima de tudo aquilo que eu fui, sou e ainda posso ser. Deus e essa mania de nos olhar como crianças indefesas que muitas das vezes fazem as coisas sem pensar, brincam e se machucam, ralam os joelhos, ferem o coração. E Ele?! Bem, Ele sempre foi o papai protetor que esteve por perto observando cada movimento meu e me levantando de todos os tombos e tropeços da vida, sempre me acalmando e me prometendo que independente de qualquer coisa Ele me amou, me ama e me amará para todo o sempre.

Posso não ser um portador de uma necessidade especial, posso não ter um tumor ou outra limitação física, posso não ser uma pessoa portadora de depressão ou qualquer outra doença da alma, mas eu fui por muito tempo uma pessoa que recusava o maior desejo de Deus para mim: ser livre para ser o que sou e se sentir amado. Hoje eu descobri o quanto importa para Ele que eu seja aquilo que meu coração pede, por mais que eu erre, por mais que eu fique na pior, por mais que eu esteja num balanço suspenso em que a qualquer momento eu possa cair, Ele nunca soltará minha mão e muito menos soltará a sua. Ele te ama, e isso te basta, ainda que você não entenda o quanto isso é grandioso, por mais que você ache que não tenha nada, você tem tudo desde que nasceu. Você tem vida, você tem o amor verdadeiro de Alguém especial e mesmo que você não queria ter esse amor, isso nunca irá mudar. Isso é o mais perfeito. Você tem amor. - Matheus Gabry


14 de janeiro de 2014

O retrato de um conceito


"A imagem (muitas vezes) mala mais do que mil palavras (por exemplo, de um sermão)" - foi isso que pensei, ao compartilhar esta foto, publicada originalmente no perfil oficial da Arquidiocese do Rio no facebook.

Se você quiser, antes mesmo de ler o texto a seguir, veja - com atenção e sem pressa - a fotografia e tente responder a essa questão: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

Como sempre acontece nas redes sociais, recebi imediatamente alguns comentários, relacionados à legenda com a qual publiquei a foto. Os comentários apareceram tanto de forma pública, quanto particular, via "bate-papo". Confesso ter ficado surpreso com aquilo que escreveram os meus amigos, a saber: um estudante de teologia, uma jovem católica "contestadora" e duas católicas de meia-idade, praticantes e piedosas.

O estudante de teologia (quase formado) respondeu: A meu ver a foto mostra que quem sustenta a vida da Igreja com as orações e a perseverança são as mulheres que a exemplo de São Sebastião não se cansam de dar testemunho...

Uma das mulheres piedosas escreveu: Para mim demonstra a simplicidade q deve existir em nossa Igreja.

Outra mulher piedosa me deixou um pouco mais preocupado: Vi a foto da trezena de Sto Antonio [como assim?] mas não entendi, ou não percebi oque lhe chamou atenção. O q teria sido?

Pensei em fugir da resposta, por isso disse: Ah, eu acho que cada um pode interpretar a vontade.

Tentei provocar um pouco o teólogo, então escrevi: Uma foto e mil interpretações... quando olho aqui, tenho na mente uma frase de Jesus, mas não me peça para citar... Na mesma hora, o rapaz tentou acertar: O maior dentre vós seja aquele que serve! (cf. Lc 22, 26). Não foi exatamente essa passagem que pensei, mas achei a conversa interessante. Só achei uma pena o fato de que as pessoas não conseguem associar bem o texto e uma imagem. Repito aqui, então: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

A mulher piedosa que havia confundido São Sebastião com Santo Antônio insistiu mais: O pensamento é livre mas a partir de que? Não vi, não notei nada estranho na foto. Qdo o senhor diz "de forma simbólica, retrata certo conceito da Igreja". Qual seria esse conceito?

A jovem católica "contestadora" seguiu uma estratégia diferente e não quis mais saber da passagem bíblica (ainda que estivesse bem próxima dela em sua intuição): uma mulher carregando a imagem... e o clero ao lado... não vou com o focinho desses dois ai...

Finalmente respondi a todos, citando o texto do Evangelho de Lucas (Lc 23, 2-8, com o destaque no v. 4):

Jesus falou às multidões e aos seus discípulos: "Os doutores da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Vejam como eles usam faixas largas na testa e nos braços, e como põem na roupa longas franjas, com trechos da Escritura. Gostam dos lugares de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas; gostam de ser cumprimentados nas praças públicas, e de que as pessoas os chamem mestre. Quanto a vocês, nunca se deixem chamar mestre, pois um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos.

Enquanto o estudante de teologia acrescentava outra passagem, bem no contexto da primeira (Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Mt 11, 25), a mulher piedosa continuou com as suas dúvidas: Está querendo dizer q a mulher não deveria estar carregando a imagem? Pelo que li na passagem...

Conclusão: As conversas que acontecem nas redes sociais têm uma dinâmica particular e nada é tão óbvio como parece.

Se quiser, escreva a sua reflexão a partir desta foto e da legenda: "Uma fotografia que, de forma simbólica (e provavelmente involuntária), retrata certo conceito da Igreja. Alguma coisa chama a sua atenção?"

13 de janeiro de 2014

Travando a Igreja


Citei ontem a frase de D. João Carlos Petrini, o Presidente da Comissão Vida e Família da CNBB que disse que "o Papa Francisco está destravando a Igreja". O esforço do Pontífice é visível a cada momento. Ao mesmo tempo, parecendo uns vermes que saem de baixo da terra, surgem textos e atitudes que, sem sombra de dúvida, procuram o contrário, isto é, travar a Igreja. É isso mesmo, pois a mais prejudicada fica, exatamente, a Igreja, cujo nome usam os pretensiosos teólogos e moralistas do fundo do quintal. O prejuízo é tanto maior, quanto mais os mesmos recorrem aos poderosos meios de comunicação social, em particular, à internet. Eu sei que a Igreja, enquanto instituição, é (e quase sempre foi) uma máquina enorme e, portanto, lenta em suas reações. O indevido uso de seu nome, porém, merece ser detectado e repudiado de forma exemplar. É o caso do portal "Pro Ecclesia Catholica ~ Lutar pela Verdade, Mesmo Que Seja Preciso Morrer Por Ela" (detesto quando alguém escreve assim, abusando das maiúsculas) que venho apontar como merecedor de todo repúdio. Em nome de Jesus!

Em uma de suas publicações recentes, o portal pergunta (e responde): "Por que dizer não à adoção de crianças por casais homossexuais?". O autor, Pedro Henrique Alves (quem quiser, pode localizá-lo no facebook), começa a sua brilhante argumentação com a tese: "Vivemos um dilema social que é o problema dos órfãos". Ainda bem que ele não tenha optado pelo caminho mais curto, a exemplo do cientista "apocalíptico" do romance de Dan Brown "Inferno". No livro, "o dilema" foi o crescimento avassalador da população mundial que precisava ser desacelerado de maneira tanto rápida, quanto radical. Mesmo que o autor do texto sobre a adoção de crianças por casais homossexuais não tenha chegado à conclusão tão drástica, há um passo apenas, entre a propaganda fanática e o aumento do preconceito e da violência homofóbica. Sinceramente, eu fico tranquilo em relação aos estudiosos e atentos, mas preocupo-me com todos aqueles que a palavra "católico" priva de qualquer reflexão inteligente e objetiva. Estes, sim, facilmente caem nas ciladas do discurso fundamentalista.

Os leitores sensíveis às regras da língua portuguesa rapidamente ficam com uma pulga atrás da orelha, diante da seguinte introdução do autor: "Para uma maior compreensão do artigo seguiremos a linha das minhas 4 linhas argumentações [sic! - talvez tenha sido um erro de digitação e o certo seria "lindas"] sendo que elas serão colocada [sic!] em tópicos para maior visualização". Vejamos, portanto, essas linhas, ou lindas argumentações:

1- Problema: Imposição cultural
Hoje vemos que não curamos esta ferida social (o problema dos órfãos), mas avançamos. Porém não é difícil constatar que alguns grupos com a intenção de se consolidar, e estruturar suas opiniões [sic!] usam de assuntos terminantemente sérios para se impor como solução. Isso se dá claramente na adoção de crianças por "casais" homossexuais. Não estou dizendo que estes casais tenham a intenção de impor os seus dilemas sexuais aos outros, porém aqueles militantes que estão por trás das leis de legalização das adoções por parte dos homossexuais, que assim se fazem de anjos guardiões que pouco estão se importando com estas crianças e sim, usando deste meio para conseguir se infiltrar na sociedade cristã [sic!] a fim de (talvez "afim") de satisfazer as organizações internacionais que pressionam o governo para uma nova moral mundial.  

A teoria (o a obsessão) de uma grande e misteriosa conspiração mundial sempre faz muito sucesso. Olavo de Carvalho que o diga. O autor do artigo em questão, sem dúvida, tem aquele ex-mago filósofo por mestre. Basta ver os termos que usa (por exemplo "gayzismo")...

2- Problema: Imposição [da] homossexualidade como uma nova vertente sexual
Sabemos por estudos e principalmente pelo DR. Gerard Van den Aardweg (...) que o homossexualismo não é genético (...) e sim da esfera comportamental ou traumática [sic!]. Sendo assim o Dr. Gerard explica que a criança até atingir sua fase adulta de maturidade emocional, ela é totalmente influenciável e as condições de onde ela vive e com quem vive a influenciará (influenciarão) a tomar para si suas características futuras [sic!] na parte emocional, intelectual e sexual. Através dessa influência a militância gay vê a oportunidade de se consolidar na sociedade, fazendo das crianças presas fáceis e moldáveis para seus planos [sic! sic!]. Esta mesma estratégia é utilizada por exemplo através da cartilha Gay.

Agora vem a parte mais impressionante. Merece um prêmio, quem conseguir acompanhar o raciocínio a seguir. E uma reprovação, quem não perceber uma contradição mais que grosseira:

Não estou aqui colocando um ponto final sobre a sincera vontade de um ou dois homossexuais de ajudar sinceramente uma criança órfã, mas sim explicitar que uma criação de uma criança por um casal homossexual não é benéfica e sim traumática para a criança que se verá em um ambiente que lhe trará confusão e questionamentos sobre si e sua sexualidade, questões que não são abertas a interpretações ou argumentações, como se houvesse uma escolha a qual sexo seguir, sendo sexo é uma característica inerente a vontade e não está no âmbito da faculdade de escolha. Todos nós se nos colocarmos nus em frente (aqui fiquei na dúvida se é para nos colocarmos uns em frente dos outros, o que seria talvez um pouco indecente, ou, por exemplo, em frente de um espelho) veremos que temos o órgão sexual feminino ou masculino, temos útero e vagina ou pênis e testículos (independentemente de cirurgias), e não que alguém esteja impedido de escolher ser hétero ou não, pois isso é uma escolha que esta no campo ideológico, afinal isso é a liberdade de escolha, porém, não se pode igualizar a heterossexualidade com a homossexualidade como se ambas fossem biológica e geneticamente comprovada ser inerente ao ser humano; não há como apresentar o homossexual como um 3º sexo, e sim uma opção de vida e não um gênero sexual.


Bem... talvez isso já seja suficiente para formar uma opinião clara sobre o autor e as suas divagações. Nos dois pontos restantes do texto temos algo sobre os "traumas psicológicos" da criança adotada pelos homossexuais (uma difusão do “gayzismo” como uma vertente da sexualidade; conceitos totalmente confusos que na cabeça de uma criança causa grande tempestade de ideias imaturas quanto a si mesma; muitas dificuldades no desenvolvimento emocional etc.) e, finalmente, sobre a "política fútil" (Enquanto houver interesses de grupos minoritários sendo colocados acima dos interesses do Povo, aquela parte da constituição que diz “Todo poder emana do povo” é apenas uma grande “tertúlia flácida para dormitar bovino”. O povo brasileiro em sua maioria é terminantemente Cristão e contra a adoção de crianças por parte de homossexuais, ou será que irão negar isto também?)...


O antídoto está, simplesmente, no bom senso. Quem quiser, entretanto, desintoxicar a mente, pode recorrer ao texto "Contribuições da psicologia em relação à adoção de crianças por casais homoafetivos: uma revisão de literatura", publicado por Revistas Unijorge. O artigo sério, objetivo, baseado realmente nas pesquisas científicas e assinado por nomes de peso e autoridade muito maiores do que o nome de um estudante de teologia disléxico, portador de um cérebro bem lavado. No texto vamos encontrar as respostas para todas as (eventuais) dúvidas causadas pela desastrosa argumentação citada acima. Escolhi apenas duas frases que podem servir como resumo de toda reflexão sensata e serena:

Foi percebido que, para a criança, conviver com o homoafetivo se constitui em uma maior possibilidade de desenvolvimento do respeito e tolerância às diferenças individuais, características estas muito valiosas para vida em sociedade.

A adoção de crianças por casais homoafetivos não se apresenta como fator prejudicial ao desenvolvimento saudável da criança, pois assim como os casais heteroafetivos, os homoafetivos possuem condições de cuidar, educar e fornecer o que preciso for ao filho.

12 de janeiro de 2014

As novidades do Batismo


O título resume o conteúdo do texto a seguir, embora a sua expressão possa sugerir uma direção diferente da reflexão. Sim, o Batismo, enquanto Sacramento, traz uma novidade total para quem o recebe. É uma nova identidade, é a filhação divina, é a marca de Deus que não se apaga por toda a eternidade...

Queria, entretanto, falar hoje de outras coisas. Se não existir a regra que manda inventar um título curto, o mais correto seria: "As novidades anunciadas na Festa do Batismo do Senhor 2014". Todos os anos, nesta ocasião, a Igreja inicia o tempo litúrgico chamado "comum" (que, cá entre nós, não é o nome dos mais bonitos). É para destacar o encerramento das festividades natalinas e dar um tempo para o novo período forte na liturgia que é, sem dúvida, a quaresma e a Páscoa. Podemos dizer que o Batismo do Senhor é o último domingo do ciclo de Natal e, ao mesmo temo, o primeiro do tempo comum. É bastante curiosa a analogia que aparece aqui com a figura de João Batista que pertence, ao mesmo tempo, ao Antigo e ao Novo Testamento.

A notícia do Batismo do Senhor de 2014 é o anúncio de novos cardeais. Entre eles está o Arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta. Ele mesmo, em março do ano passado, em uma entrevista à revista ISTOÉ, foi interrogado sobre esse assunto:

ISTOÉ: O sr. almeja ser cardeal?

D. Orani - Não coloco como preocupação minha, mas da cidade. Todo dia eu escuto essa cobrança. Mas estou muito tranquilo. Se o novo papa decidir que o Rio não vai ter mais cardeal, não será problema para mim, mas talvez para a cidade.

Na mesma entrevista o futuro cardeal respondeu às perguntas referentes às pessoas homossexuais:

ISTOÉ - O sr. é a favor da união civil ou do casamento entre pessoas do mesmo sexo?

D. Orani - São coisas diferentes. Uma coisa é a família, o casamento, que tem a ver com a natureza humana. Outra coisa são essas uniões, que envolvem direitos civis, de herança, por exemplo. A gente não entra nessa história. Eu creio que essas questões começaram a surgir por falta de respeito ao outro, perseguições e mortes. Não podemos ter um mundo intolerante dessa forma, nem de um lado nem de outro. O outro tem sua liberdade de opção, sabendo até que eu não posso concordar com ele.

ISTOÉ - Um homossexual é bem recebido na Igreja?

D. Orani - A Igreja é a que mais procura respeitar as pessoas, acolher e ajudar nos conflitos que cada um possa ter no coração. Tenha a opção sexual que tiver, a Igreja deve acolher. Porque Cristo quando veio foi a todos e falou com todo mundo. Ninguém está sendo expulso da Igreja por uma coisa ou outra.

Ainda que a expressão "opção sexual", usada pelo D. Orani, sugira - digamos - certa insegurança dele no assunto, a resposta em si mostra a sua abertura para com o mundo real. No mesmo sentido e no tom ainda mais acolhedor, D. Orani teria respondido a um rapaz, Rafael, durante a JMJ 2011 em Madri. Rafael relata assim a resposta do Arcebispo:

[D. Orani] disse que não podemos negar que há homoafetivos em nossa Igreja, até porque nossa Igreja é um grande corpo, e Cristo como autor da fé chama a todos a viver essa sua diversidade e pluralidade, e que ele, como bispo, não podia negar a vivência de Igreja, a comunhão de fé a ninguém. E acrescentou que todos aqueles que proclamam o Credo e têm suas experiências com o Cristo, e O reconhecem como Senhor têm espaço e lugar em nossa Igreja. Segundo ele, essa é uma pequena expressão do que é o Reino de Deus, a Nova Jerusalém, e sublinhou que Cristo convida a todos; aqueles que se sentem cativados respondem a esse chamado, seja gay ou hétero. "A Igreja está aqui para todos", concluiu. 

O portal terra, em julho do ano passado divulgou a seguinte notícia: O Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta e seus auxiliares tiveram que repercutir as duas entrevistas dada pelo Papa Francisco antes de deixar o Brasil, nas quais tocou em assuntos polêmicos, como a aceitação de homossexuais na igreja. “A igreja nunca rejeitou essas pessoas. Temos pessoas trabalhando na direção de nos aproximarmos mais”, disse o Arcebispo.

Enfim, o que muda com a indicação e a próxima nomeação de D. Orani como cardeal, é o peso de suas palavras. Esperamos apenas uma continuação em sua abertura a este assunto e que ele faça o contaste em relação ao seu colega, D. Odilo Pedro Scherer de São Paulo.

Retomando a expressão (um tanto discutível) de D. Orani: "A Igreja nunca rejeitou essas pessoas", aproveito o gancho para citar a declaração de um outro bispo, D. João Carlos Petrini, Presidente da Comissão para Vida e Família da CNBB. Em sua entrevista, concedida ao portal Estadão (e publicada ontem), D. Petrini responde, em primeiro lugar, a uma pergunta geral [os grifes são meus]:

Estadão: Do ponto de vista das famílias, que mudanças podem ocorrer na Igreja diante do discurso de acolhimento do papa Francisco?

D. Petrini: Eu diria que o papa Francisco está destravando a Igreja. Pela linguagem, pelo gesto. Está abrindo para o essencial, a misericórdia de Deus que acolhe, que perdoa, que abraça. Multidões inéditas vão à Praça São Pedro. A família talvez seja o ponto mais sensível da vida da Igreja. A transmissão da fé não se recebe dos padres, mas da avó, da mãe, do pai. Essa transmissão está em crise. Os recasados, os divorciados não são poucos. Vejo muitos que têm sincero sofrimento por não chegar ao sacramento. O papa quer consultar o mundo inteiro sobre as práticas, a realidade, em busca de um caminho.

No final da conversa ouvimos o tom da esperança:

Estadão: O que significa na prática o acolhimento de casais homossexuais?

D. Petrini: O acolhimento de homossexuais na Igreja não é novidade, quando ainda os homossexuais não levantavam a bandeira forte, ideologicamente poderosa, a Igreja acolhia, ouvia, orientava.

Estadão: Qual é sua orientação para batismo de crianças filhas de casais do mesmo sexo?

D. Petrini: A orientação que temos conversado entre os bispos é que acima de tudo o batismo é bom para a criança. Quem vai educar essa criança na fé católica? Tem alguém que vai cuidar seriamente disso? Tem. Então está bem, vamos batizar. Se for só para fazer fotografia, chamar a imprensa, a resistência é maior. Mas se for sincero, o acolhimento é direto.

Estas são, ao meu ver, as novidades da Festa do Batismo do Senhor 2014.

11 de janeiro de 2014

Canção nova ou velha?


A "Canção Nova" (para quem não sabe) é uma comunidade católica (carismática), dedicada à evangelização, principalmente através dos meios de comunicação social. A mais conhecida, obviamente, é a TV Canção Nova. A sede da comunidade está na cidade de Cachoeira Paulista (SP) e lá acontecem os maiores eventos promovidos por ela e transmitidos ao vivo pela própria emissora. Durante os famosos acampamentos e retiros da Canção Nova discursam vários pregadores que, para tal privilégio, precisam ser reconhecidos pela sua fidelidade à determinada linha doutrinal da Igreja. Com outras palavras, não é qualquer um, mesmo sendo bispo, padre, ou diácono (isto é, pregador autorizado pela Igreja para esse ofício) que pode ser admitido ao púlpito (e às câmeras) da Canção Nova. Não encontraremos por lá, por exemplo, os padres: José Trasferetti, James Alison, Luis Corrêa Lima, José Lisboa Moreira de Oliveira e muitos outros. É mais fácil contar com a presença do midiático padre Reginaldo Manzotti ou do ferrenho defensor da doutrina e da tradição, padre Paulo Ricardo. Este último está presente, agora mesmo, no acampamento "Revolução Jesus - Livres para amar" (08-12/01/2014). O portal da Canção Nova publicou a transcrição de sua palestra. Entre outras coisas, padre Paulo Ricardo, fala sobre os homossexuais [os grifes são meus]:

Você pode repetir quantas vezes quiser que a união entre dois homens e que a união de duas mulheres são a mesma coisa que a união de um homem com uma mulher. Você pode repetir várias vezes isso, mas isso é artificial, pois o mundo real grita que, quando um homem se une com uma mulher, acontece o milagre da vida. Quando dois homens se unem não acontece nada; e quando duas mulheres se unem também não acontece nada; e este é o mundo real. Desculpem-me, não estou discriminando ninguém. A Igreja não quer discriminar os homossexuais como se eles fossem inferiores. A Igreja quer somente dizer: Existe uma obra inscrita na criação, se nós obedecermos ao nosso Criador, ao ''Fabricante'', vai ser melhor para todos. As pessoas dizem que ficamos castrando os homossexuais ao afirmarmos que eles não podem usar o sexo como querem. Mas ninguém pode usar o sexo como quiser. A Igreja não discrimina ninguém, ela pede a castidade para todos. Os casais [homem e mulher] também são chamados à castidade.

Para explicar melhor a minha resposta, recorro a outro trecho da mesma pregação:

O sexo só pode ser realizado em um projeto de família, em queum homem e uma mulher se unem de forma permanente para gerar filhos, não estou dizendo que ele é feito só para isso, mas ele tem a ver com esta obra linda de gerar crianças. Este é o projeto de Deus e é, porque perdemos a noção disso, que a moral sexual se tornou tão complicada para nós.

E mais um trecho:

(…) temos dois caminhos, temos que escolher entre eles. O primeiro caminho é o mais comum, a aliança de amor, chamada de "matrimônio" e o outro caminho chamado é o "celibato", que também é uma aliança de amor, uma oferenda da sua sexualidade para Deus. (…) Quem é solteiro, está solto, disponível. Um padre, como eu, não é solteiro. O padre é comprometido em uma aliança de amor com Deus e deve viver assim. Nós precisamos entender isso, ninguém tem vocação para ser solto, para ser solteiro, no entanto, hoje, nossa sociedade acha que liberdade é você ser solteiro, mas não é assim. A liberdade do amor acontece quando selamos uma aliança de amor, quando celebramos uma aliança de amor nós somos livres para amar.

1. Um homem e uma mulher se unem de forma permanente para gerar filhos - sem dúvida, padre! Nenhuma das pessoas homossexuais pretende negar isso, afinal todos nós viemos a este mundo por meio de uma união desse tipo (bem, nem sempre tenha sido uma união permanente, mas sem dúvida alguma, trata-se de união entre um homem e uma mulher).

2. O senhor padre diz que esse projeto de família (que une um homem e uma mulher) não é feito só para gerar filhos, mas tem a ver com essa obra linda de gerar crianças. Eu sempre pensei que o projeto de Deus em relação ao ser humano tem a ver com o amor e não necessariamente com essa obra linda de gerar crianças. O celibato que - usando as suas palavras – é uma oferenda da sexualidade para Deus - não tem nada a ver com essa obra linda de gerar crianças. Além disso, a Igreja reconhece como válido o matrimônio entre um homem e uma mulher que, por algum motivo independente de sua vontade, não podem ter filhos.

3. O senhor, padre Paulo Ricardo, diz que ninguém tem vocação para ser solto, para ser solteiro, no entanto, hoje, nossa sociedade acha que liberdade é você ser solteiro, mas não é assim. Por que, então, o Beato João Paulo II afirmouEstou também contente por encontrar pessoas que pertencem aos vários setores da Igreja: diáconos e seminaristas, religiosos e religiosas, maridos e esposas, mães e pais, solteiros, noivos, viúvas, jovens e crianças. Todos juntos podemos assim celebrar a nossa união eclesial em Cristo?

4. Em sua palestra, o senhor disse: Quando dois homens se unem não acontece nada; e quando duas mulheres se unem também não acontece nada; e este é o mundo real. O senhor já conversou, alguma vez, com um casal homossexual? Já tentou ouvir, com calma, o que é que acontece entre essas pessoas? O que é que as une? Senhor seria capaz de compreender que as suas próprias palavras aplicam-se na experiência de muitos casais homoafetivos: a liberdade do amor acontece quando selamos uma aliança de amor, quando celebramos uma aliança de amor nós somos livres para amar. Este, padre Paulo Ricardo, é o mundo real.

5. Para terminar, senhor padre, recorro de novo às suas palavras:As pessoas dizem que ficamos castrando os homossexuais ao afirmarmos que eles não podem usar o sexo como querem. Mas ninguém pode usar o sexo como quiser. Pois é, Padre! Eu acho que aqui está o "x" da questão. Ninguém pode usar o sexo como quiser. Por mais que eu quisesse fazer sexo com uma mulher, simplesmente não posso, não consigo. Quem pretende nos "transformar" ("converter", se quiser esse termo) em heterossexuais, está de fato tentando nos castrar. O próprio Catecismo, ao qual o senhor es refere tanto, diz: Cabe a cada um, homem e mulher, reconhecer e aceitar sua identidade sexual(CIC, 2333) Por isso não é questão de "usar o sexo como quiser", mas de acordo com a própria identidade sexual.

6. A última coisa. O padre afirma: Desculpem-me, não estou discriminando ninguém. A Igreja não quer discriminar os homossexuais como se eles fossem inferiores. (…) A Igreja não discrimina ninguém (...). NÃO ME DIGA!