ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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10 de janeiro de 2014

No polêmico mundo da verdade


A Palavra de Deus (a mesma que se fez carne e habitou entre nós) é a luz para guiar os nossos passos. Nem sempre, porém, o homem, a quem o próprio Deus dirigiu a sua mensagem, é capaz de compreendê-la. Muitas vezes, ao longo da história do cristianismo, a voz divina era utilizada como a arma contra alguém, apesar de uma advertência muito clara, fornecida pela própria Bilblia: Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares. (Ef 6, 12)

O ditado popular afirma que o amor é cego. Na prática, o coração apaixonado deposita a confiança infinita (e - porque não dizer - ingênua) no ser amado. Assim acontece em nossa dimensão humana. É impossível conhecer por completo as profundezas do amor divino. Entretanto, a minha impressão é essa: Deus se arriscou demais, tendo confiado a sua Palavra ao homem. Por outro lado, Ele é perfeito e onisciente, isto é, sabe tudo. Deve ter, então, o seu propósito divino neste ato tão arriscado. Tudo isso, espero, Ele mesmo vai revelar para nós um dia. Com outras palavras, não preciso me preocupar com a "ingenuidade" de Deus. O que me atormenta, é a mediocridade, a soberba e a estupidez daqueles que são considerados (ou se autodenominam) "homens de Deus". Tal título, muito provavelmente, gera neles a sensação de serem verdadeiros donos da verdade, únicos intérpretes da Palavra, monopolistas do divino. Eles se sentem confirmados em todas essas prerrogativas principalmente na hora de condenar alguém...

Acabo de ler um texto, escrito por José Victorino de Andrade, EP (aqui apresentado como diácono, embora, em outras matérias, citado como padre, de qualquer maneira é o membro do "ramo sacerdotal dos Arautos do Evangelho - Virgo Flos Carmeli") e publicado hoje pelo portal católico de notícias "Gaudium Press". O autor começa a sua reflexão como aquele homem da parábola de Jesus: construindo a sua casa sobre a areia, isto é, usando uma tese, no mínimo, duvidosa:

O homem hodierno julgar-se-ia menos moderno se não criticasse os antigos. Para ele, as verdades passaram a possuir uma validade. As descobertas do passado foram ultrapassadas pelo presente, e sofrerão reparos no futuro. Tudo é transitório. Apenas a opinião alheia se enche de brios, pouco disposta a dialogar, ou pelo menos, a reconhecer uma verdade exterior.

Consequentemente, muitos autores contemporâneos, ao pretenderem apoderar-se da verdade, sentam-se em sua cátedra embevecida de pretensões infalíveis, cujos escritos destilam os seus próprios dogmas, muito distantes, por vezes, do mundo real. E quanto mais escandalosos, provavelmente, mais publicitados e comentados.

Bem... se pensarmos em todos os tormentos, pelos quais passaram os gênios da humanidade, tais como Giordano Bruno, Galileu, Copérnico, Maquiavel, Erasmo de Roterdão, Espinosa, Pascal, Descartes, Voltaire, Victor Hugo, Balzac e tantos outros, o ponto de vista apresentado pelo autor do texto não será uma novidade no "mundo eclesiástico". Lembro-me de uma carta, se não me engano, escrita por São Francisco Xavier (ou um dos outros grandes missionários daquela época), na qual sobressai o espanto, diante da "descoberta" de que os nativos também possuíam a alma... Enfim, o que o autor do artigo descreve em tom de ironia, é um fato, uma lei da civilização. Algumas "verdades" foram, de fato, ultrapassadas, por meio de novas descobertas e confirmadas pela ciência. Assim, um dia o homem deixou de caminhar pela terra plana, pois descobriu que o planeta é redondo. Um dia, também, os homossexuais deixaram de ser considerados doentes (alo menos pela ciência) e estão prestes a ser admitidos como seres humanos, portadores de direitos iguais ao resto da humanidade. E, exatamente assim como nos tempos da "revolução cosmológica", hoje também são os eclesiásticos (graças a Deus, não todos) que, usando as palavras do artigo, sentam-se em sua cátedra embevecida de pretensões infalíveis, cujos escritos destilam os seus próprios dogmas, muito distantes, por vezes, do mundo real, para detonar a "revolução moral"...

José Victorino descreve a sociedade moderna dessa maneira: Numa cultura hedonista, na qual a igreja foi substituída pelo shopping, a beleza da virtude pela estética corporal, o jejum e a penitência pela dieta e o suor no ginásio, uma religião de dogmas e prescrições morais só poderia surgir ao pensamento contemporâneo como algo ultrapassado, impositivo, que asfixia a própria pretensão de verdade.

Em vez de debater cada ponto desta crítica, faço uma pergunta. O que fez a Igreja, ou melhor, os seus teólogos, pregadores, dignitários, catequistas, pais e mães católicos, para convencer as novas gerações sobre o valor incomparável da igreja (templo), sobre a citada beleza da virtude, a preciosidade de jejum e penitência, e a veracidade de dogmas e prescrições morais? Talvez não lhes tenha sobrado o tempo para essa formação positiva, pois dedicaram-se exclusivamente à obra de censurar os pecadores. Mais ou menos assim, como no caso da formação no seminário sobre o celibato que - de acordo com os relatos de um padre, meu amigo - baseava-se na imagem infernal da tragédia que seria a traição daquele voto. Ou seja, nada de "teologia positiva do celibato"...

O autor do artigo também faz perguntas. E ele mesmo responde. Vejamos:

Como convidar o homem a sair de si, e dos seus preconceitos recentemente criados, a esmo, conforme o cardápio apresentado por verdades relativizadas, engolidas sem mastigar, que o empanturram de critérios pouco judiciosos, assimilados com a mesma rapidez com que muda o canal da TV?

A resposta não é uma verdade abstrata, mas uma pessoa concreta: Jesus Cristo, a "Palavra eterna que se exprime na criação e comunica na história da salvação" (Verbum Domini n. 11). Para o cristão, a Verdade absoluta, Deus, encarnou e fez-se homem (Cf. Jo 1, 14), possui um rosto - "Quem me vê, vê o Pai" (Jo 14, 9) - e um nome, não havendo debaixo do céu salvação em nenhum outro (Cf. At. 4, 12). Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (Cf. Jo 14, 6). Esta é a grande novidade do cristianismo, um Deus pessoal, não distante, que entra na História.

Deu para entender? E o que dizer das pessoas que não saem de si mesmas, dos seus preconceitos e das verdades relativizadas, engolidas sem mastigar, EM NOME DE JESUS, ou pelo menos, em nome da doutrina da Igreja (que nem sempre é a mesma coisa)???

O autor conclui: Descobrimos assim que a verdade não é abstrata, variável, limitada, mas que é o próprio Deus encarnado, que entrando na história concreta dos homens, com Palavras de vida eterna, orienta-os na sua peregrinação terrena, convidando-os a conformar a sua vida à luz da Revelação.

A única questão é aprender a ler com humildade a Palavra de Deus. Ele que é Amor infinito e assim se revela, convida-nos a conformarmos (que quer dizer também "corrigirmos") a nossa vida à luz desta revelação.

9 de janeiro de 2014

Cidadania ou gueto


A luta pelos direitos da "Comunidade LGBT" tem várias faces e isso não seria tão surpreendente, afinal - como simbolicamente mostra a nossa bandeira - a diversidade é a palavra-chave. Podemos, no entanto, pensar na diversidade de objetivos, ou concentrar a nossa atenção em um só: a cidadania plena? Provavelmente sem nos darmos conta, acabamos copiando algumas iniciativas equivocadas, presentes na sociedade moderna.

Li recentemente no facebook a notícia sobre um colégio em Londrina (PR) que, a partir deste ano, terá um banheiro exclusivo para os alunos homossexuais. Como sempre acontece nas redes sociais, depois da publicação da notícia, surgiram os mais diversos comentários. Um deles parece aprovar a ideia:

Aqui em Brasília não foram poucos os casos de constrangimento de homossexuais e pessoas trans no uso do banheiro que chegaram até a Coordenação de Diversidade da Secretaria de Educação. Na maior parte das vezes, a escola não tem a menor ideia de como tratar desse assunto. A saída, geralmente é oferecer o banheiro da sala de professores/as para esses alunos e alunas o que acaba sendo aceito tanto pelas famílias como pelos/as estudantes. No caso da escola do Paraná, a decisão talvez tenha seguido o caminho mais fácil para a direção e principalmente para os estudantes gays, mas não sei se é a mais acertada. O banheiro, lugar de intimidade, como não poderia deixar de ser, é um espaço (um dos poucos) para se expressar a sexualidade na escola. É lá que acontece (ao menos no banheiro dos meninos), as disputas de quem tem o pau maior, de quem goza primeiro. É lá que meninos desenham seus órgãos sexuais e os das meninas além de deixar recados cheios de erotismo, tesão e machismo nas portas e paredes. Não deixa de ser assim, um espaço pedagógico. Não deixa de ser assim, um espaço de construção do "macho". Acontece que gays e trans não são bem-vindos nesse clube. Se ousarem frequentar, serão vítimas no mínimo, de algum tipo de agressão física ou verbal. Quantos de nós pensou duas vezes antes de entrar no banheiro da escola? Apesar do fetiche que um banheiro masculino nos provoca, a possibilidade de levar uma porrada ou ser xingado de viado fazia, ao menos em mim, criar a habilidade de segurar o xixi por horas. Criar um banheiro exclusivo ou compartilhar o banheiro da sala de professores/as pode ser um paliativo,às vezes até necessário, para a própria segurança dos estudantes gays, lésbicas ou trans, mas para além disso, é importante que a escola discuta a sexodiversidade na escola. O problema é que quando a discussão acontece, ela é permeada pelo mesmo conservadorismo e fundamentalismo que tanto combatemos no campo da política. Nós, professores/as, não somos imunes à homofobia e muito menos às condicionalidades da cultura. Aliás,não esqueçamos que a escola é (re) produtora dessas mesmas condicionalidades. Se não reconhecer isso, se a escola decidir não fazer o debate democrático, corremos o risco de continuarmos excluindo uma parcela da população do pétreo direito à educação. 

Outro participante da conversa apresenta a opinião diferente:

Eu sou um defensor ferrenho do banheiro sem distinção de gênero. Banheiro público serve para necessidades fisiológicas que são comuns a todas as pessoas. É óbvio que separar é a solução mais fácil, mas, definitivamente, não resolve problemas que venham a surgir. Até porque, admitindo que essa separação seja uma boa ideia, como é que se vai fiscalizar se os gays usarão banheiros para gays? Vão fazer os gays usarem marcas no uniforme para identificá-los? Dizer que um banheiro exclusivo protege os gays é um absurdo sem tamanho. Com isso, estão dizendo que, para não correrem risco de serem violentados, os gays precisam estar separados dos demais, em guetos. Vai na contramão de todos os esforços que existem no sentido de fazer com que nos apoderemos dos espaços que são nossos da mesma maneira que são de todas as outras pessoas. É o mesmo que criar vagões exclusivos para mulheres em trens e metrôs para evitar o assédio. 

Certamente, no caso de pessoas homossexuais, toda essa questão parece ser mais fácil. Ser gay não me torna menos homem (como muitos acham), assim mesmo como uma lésbica não deixa de ser mulher, só pelo fato de ser homossexual. A situação se torna bem mais delicada quando pensamos no transexual e transênero. Neste sentido, acho eu, a conversa deve continuar...

Essa polêmica me levou, mais uma vez, a uma analogia. Nestes dias li uma matéria no portal católico de notícias (Agência Fides), sobre a situação dos cristãos na Síria. O Arcebispo sírio-católico Jacques Behnan Hindo disse: Os cristãos da Síria esperam que a Conferência de Genebra 2 abra para a Síria perspectivas de democracia, liberdade e igualdade. Justamente por isso, são contrários a toda tendência islâmica que pretenda impor na Síria uma Xariá [conjunto dos preceitos morais islâmicos que compõem o Corão e que orientam a vida civil e religiosa dos muçulmanos] como fonte da atual jurisdição, reduzindo a comunidade cristã à categoria de "minoria protegida". Os cristãos não podem aceitar esta involução que os reduziria ao gueto das minorias toleradas e representaria também um retrocesso no percurso histórico da nação. Na Síria, os cristãos sempre foram parte integrante da Pátria comum, cidadãos a pleno título e não "minoria". O povo sírio não quer a barbárie e a tirania fantasiadas com palavras religiosas. E entre dois males, é humano escolher sempre o menor.

No texto acima, basta substituir a palavra "cristãos" por "homossexuais" (ou "não heterossexuais") e ficará clara a nossa batalha pelos direitos. É a luta pela cidadania e não pelo gueto.

5 de janeiro de 2014

Um sonho da Epifania


Os sonhos sempre têm algo de louco. Umas misturas sinistras e cenas esquisitas. Foi assim também desta vez...

Eu estava numa fila enorme de gente que aguardava o atendimento em um guichê. Tratava-se de pegar uma senha para entrar no imponente portão que se encontrava no centro daquele lugar misterioso. O guichê com aquela fila estava ao lado direito do portão. Ao lado esquerdo havia mais 5 ou 6 guichês semelhantes, mas por lá passavam apenas algumas pessoas e só de vez em quando. Parecia-me uma divisão entre os privilegiados e os "comuns", assim como no banco ou, melhor, nos aeroportos europeus, onde há uma entrada especial para os cidadãos-membros da UE e outra para o resto do mundo. Neste sentido, eu estava na fila dos comuns, ou do "resto do mundo" - essa foi a minha impressão inicial. Não me senti, entretanto, tão incomodado assim, pois o ambiente todo tinha o aspecto, digamos, místico. Um ser misterioso (que depois identifiquei como o próprio Arcanjo Miguel), portando a espada brilhante, sobrevoava a nossa fila. Um outro parecido (certamente Gabriel), circulava por toda a extensão da fila e conversava com os mais impacientes. O terceiro (Rafael) tinha o aspecto de enfermeiro e tentava distribuir alguns remédios às pessoas na fila. No próprio guichê estava sentado um senhor de idade mais ou menos avançada. Se não fosse a sua aparência de certo cansaço, diria que tratava os clientes com a incansável paciência, explicando vagarosamente algumas coisas a cada pessoa. Ele ficava visivelmente triste ao mandar alguém até o final da fila o que acontecia com bastante frequência.

Fiquei meio confuso, então decidi conversar com alguém da fila. Bem ao meu lado estava um senhor vestido de batina preta, enfeitada com os botões vermelhos e outros detalhes da mesma cor. Apesar de sua aparência, digamos, pomposa e um tanto antipática (o seu rosto avermelhado estava coberto de suor e ele todo exalava um cheiro de incenso), decidi puxar o assunto com ele...

- "Esta aqui é a fila dos cristãos" - disse ele. - "Quem vai nos atender e o próprio São Pedro. O Arcanjo Miguel sobrevoa a fila, porque toda hora surge uma briga entre católicos e protestantes, ortodoxos e católicos gregos, entre católicos tradicionalistas e carismáticos, dizimistas e agentes de pastoral, sem falar dos lefebvristas, sedevacantistas e aqueles da teologia da libertação, além dos pentecostais, veterocatólicos, anglicanos, maronitas, metodistas, testemunhas de Jeová e assim por diante.."

O meu interlocutor (monsenhor e capelão de Sua Santidade) teve que interromper a sua explicação porque logo atrás da gente começou uma discussão entre dois clérigos. O primeiro, de batina preta, dirigindo-se ao companheiro à esquerda, barbudo e vestido de um hábito marrom, disse: - "Ó, irmão capuchinho! Você sabia que Judas também usava a barba?". O outro replicou: - "Meu amado irmão jesuíta! Se Judas usava a barba, eu não sei dizer, mas com certeza ele pertencia à companhia de Jesus..."

O religioso ainda estava falando quando um pequeno grupo de mulheres entrou na sala e dirigiu-se aos guichês à esquerda, totalmente vazios. Todas elas pareciam ter saído de um incêndio: as suas roupas estavam rasgadas e sentiu-se em toda parte um forte cheiro de queimado. As mulheres foram atendidas rapidamente e na mesma hora entraram pelo portão. - "São as bruxas queimadas por ordem da Inquisição" - disse o monsenhor. - "Você tinha que ver as bichinhas e os travecos, as drag-queens e as sapatonas" - continuou. - "Entraram ainda mais rápido! Olha lá, tá vendo? O homem-bomba no maior bate-papo com o kamikaze japonês da II Guerra Mundial! Eles tem o atendimento vip." Na mesma hora passaram por nós uns monges tibetanos murmurando algumas mantras, judeus ortodoxos, hindus e animistas. Depois apareceram os seguidores de candomblé, as pessoas com o barquinho azul e a imagem de Iemanjá, umas ciganas com as cartas de taró... Todo mundo seguiu aos guichês à esquerda e entrou pelo portão.

- "Mas quem são os atendentes de lá?" - perguntei. - "E por que é que nós temos só um e eles têm tantos?"
O monsenhor disse: - "Lá atendem os magos do Oriente. Olha isso: vem o cracudo, o tatuado, vem gente que acredita nos signos, os divorciados e recasados, comunistas e ateus... e todos entram! Vê se pode isso! Quando reclamei de uns viadinhos suicidas, São Gabriel me repreendeu e disse que eram mártires do preconceito."

- "Uê, sempre pensei que foram três reis do Oriente" - repliquei. - "O Evangelho não diz que eram três, nem que tenham sido reis. Diz que alguns magos vieram do Oriente... logo os magos, poxa" - desabafou o monsenhor...

O mais impressionante (e irritante) era o fato de que a nossa fila estava parada, havia muito tempo, enquanto ao lado esquerdo tudo corria muito rápido e sempre com o ar de alegre leveza. Mas nem pude observar aquilo por muito tempo, porque, de repente, o Arcanjo Miguel passou de voo rasante logo acima de nossas cabeças, dirigindo-se ao final da fila, onde as freiras vestidas de hábito começaram a briga com outras freiras que não usam mais o hábito...

- "Que loucura!" - pensei.
- "Não é loucura" - sussurrou no meu ouvido o Arcanjo Gabriel - "é a Epifania!"... 

2 de janeiro de 2014

Ano novo de novo


Começo com um texto de Carlos Drummond de Andrade, "Desejos de Ano Novo":

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente.

A contagem do tempo faz parte da nossa cultura. Aliás, tem a origem eterna (que paradoxo!). Deus inspirou o homem a orar, pedindo o dom da sabedoria, assim: Ensinai-nos a contar os nossos dias, e dai ao nosso coração sabedoria! (Sl 89[90], 12). Contamos, então, os dias, as semanas, os meses e os anos. Como é diferente essa contagem quando se trata de tempo compartilhado com uma pessoa amada. "Hoje completamos o primeiro mês do nosso namoro..." e assim por diante. Quando não se conta mais os meses, mas sim, os anos e as décadas, a sensação é de uma vida realizada...

A Igreja proclama com certa frequência os anos comemorativos e os jubileus. Ainda que não se tratasse de datas muito precisas, tivemos a maior celebração jubilar dos nossos tempos, comemorando os 2 mil anos do nascimento de Jesus. Na proximidade dessa data, antes e depois, tivemos o Ano Mariano, Ano Paulino, Ano do Rosário, Ano Eucarístico, Ano da Fé etc. Tudo isso com o objetivo de aprofundar o conhecimento de cada mistério da fé e de aprender a vivê-lo mais intensamente (é claro, não apenas no período indicado, mas a partir dele). A curiosidade desses "calendários" especiais na Igreja é que nunca coincidem com a agenda civil, isto é, começam e terminam em datas diferentes e até distantes do dia 01 de janeiro ou 31 de dezembro (assim como o ano litúrgico que começa no 1° domingo do Advento e termina mais ou menos um mês antes do fim do ano civil). Talvez seja uma questão de mostrar a independência "deste mundo", embora, por exemplo, o Papa João Paulo II, tendo abraçado algumas ideias da ONU, proclamava os anos temáticos (ou, pelo menos escrevia as mensagens especiais) de acordo com a iniciativa dessa instituição (assim foi com o Ano da Juventude em 1985 e o Ano dos Idosos em 1999).

A Arquidiocese do Rio promove agora o Ano da Caridade, com o início no dia 20 de janeiro (a festa de São Sebastião) e o encerramento no dia de Cristo Rei (23 de novembro).

Finalmente, para alguns autores, entre eles o blogueiro Gunter Zibell (um dos membros do "GGN - o Jornal de todos os Brasis"), o ano 2013 pode ter sido considerado como o "Ano da globalização da discussão de direitos LGBT" (leia aqui). Vale a pena ler a matéria e seguir também os links indicados pelo autor para ter uma visão mais completa.

Nesta altura só me resta desejar um feliz 2014 a todos os meus Amigos Leitores e não menos amados Leitores casuais. Faço isso dando a continuação ao belíssimo texto do Poeta, com o qual comecei essa reflexão.


Para você, desejo o sonho realizado.
O amor esperado. 
A esperança renovada. 

Para você, desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar. 

Para você neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família esteja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente para repassar
o que realmente desejo a você.
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes
e que eles possam te mover a cada minuto,
rumo à sua felicidade!

Carlos Drummond de Andrade, "Desejos de Ano Novo"

29 de dezembro de 2013

Sagrada Família


O domingo dentro da Oitava do Natal (e quando não há um domingo nesse período, é no dia 30 de dezembro), a Igreja celebra a festa da Sagrada Família. Os pregadores, em sua grande maioria, dedicam seus discursos à família contemporânea e destacam "as ameaças" sofridas por essa instituição que em si - sem dúvida - é um belíssimo projeto de Deus. Um dos equívocos mais frequentes é - digamos - a invertida direção do pensamento, ou seja: partindo do modelo (de família) considerado hoje "moralmente correto", tentam esticar a interpretação do mistério da criação, mencionando de passagem a Sagrada Família de Jesus Maria e José. É muito fácil deixar-se levar pelo tal discurso, porque os pregadores - além de tocarem no assunto que "mexe com qualquer um", misturam as afirmações certas com erradas e montam uma imagem que parece ser absolutamente perfeita. E de fato a visão é admirável... Mais ou menos como a de uma árvore de Natal. Ela nos comove e fascina, a ponto de esquecermos de que tanto a própria árvore, quanto o seu brilho, é tudo artificial. Estamos assim, igualmente, colocados diante de uma imagem artificial da família.

Vamos aos detalhes. O ponto de partida (do discurso) é uma família "perfeita" (dentro dos padrões ideológicos de hoje), isto é, formada pelo casal heterossexual, seus (não poucos) filhos e, talvez, os avós e alguns demais personagens. O casal, obrigatoriamente unido através do Sacramento do Matrimônio, permanece em maior fidelidade conjugal, aplica apenas os métodos naturais durante cada ato sexual e, quando chegar a hora, educa rigorosamente os filhos, inclusive sobre a "autêntica" sexualidade humana.

Esse ponto de partida para uma viagem bíblico-histórica ignora o fato de que ainda algumas décadas atrás, sob a bênção apostólica da Igreja, os pais escolhiam os maridos para suas filhas e os homens tratavam as suas mulheres como escravas (aliás, a própria escravidão, em seu sentido cruelmente literal, também possuía a mesma bênção). As pregações frisam a lei natural, da qual a única exceção é algum fato sobrenatural, bem como no caso de Maria Santíssima que ficou grávida antes de se casar com o seu castíssimo esposo, São José. O mesmo caso sobrenatural justifica a total ausência de procriação na Sagrada Família. Ainda assim, é exatamente essa Família de Nazaré (e de Belém) que está sendo apresentada como modelo de todas as famílias. Ou seja, as famílias que começam a sua existência no momento das núpcias e somente assim autorizadas por Deus para iniciarem a sua colaboração com Ele na geração de novas vidas, têm o seu modelo no (Santo) casal que teve a história particularmente diferente...

Talvez os próprios pregadores tenham percebido os pontos fracos dessa argumentação e por isso recorrem imediatamente ao fundamento de todas as coisas, isto e, à criação do ser humano, ou melhor, à formação do primeiro casal e à ordem de "povoarem a terra" através da procriação (literalmente, a "multiplicação"). Aí começa a "matança dos coelhos". E não são apenas dois com uma só cajadada. Na verdade, são muitos. O texto bíblico sobre Adão e Eva serve tanto para condenar o divórcio, quanto a monogamia e, principalmente "o homossexualismo" (sic!). Afinal, como diz a "sabedoria" popular, Deus criou Adão e Eva e não Adão e Ivo (sic! sic!)... Enfim, o discurso termina com a conclusão de que a ordem da criação, ferida pelo pecado, foi restaurada pelo fato do nascimento do Filho de Deus no seio de uma família...

Espero que, ao menos alguns pregadores, tenham o tempo de mencionar que Deus é amor e que - principalmente neste sentido - todos fomos criados à sua imagem e semelhança.

Quanto à criação, eu particularmente, vejo ali um princípio diferente que não tem nada a ver com a heterossexualidade. Basta ler o texto com atenção e sem "esticá-lo" ao tamanho do próprio preconceito. Vale lembrar de que não estamos diante de uma reportagem, mas recebemos de Deus, em forma alegórica (ou poética) a revelação sobre o mistério da nossa existência. Refiro-me, neste caso, ao texto do Livro do Gênesis, capítulo 2, versículos de 18 a 24, tendo como o "texto auxiliar" o Gn 1, 24-31, ou melhor, os dois primeiros capítulos inteiros. 

Em primeiro lugar, Deus revela que criou o ser humano à sua imagem e semelhança (Gn 1, 26-27). Em seguida (eu diria, em consequência disso), Ele mesmo afirma que "não é bom que o homem esteja só" e logo encontra a solução: "vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada" (Gn 2, 18). Os detalhes a seguir considero muito importantes para ter uma conclusão correta e não criar as ideologias baseadas em qualquer tipo de fobias...

Acho belíssima a cena em que Deus leva ao homem todos os animais e este lhes dá o nome. De um lado parece ser um tribunal no qual o homem é o juiz, mas ao mesmo tempo, sem perceber, o próprio homem está sendo avaliado por Deus. Desde o início o ser humano é convidado para ser um parceiro ou colaborador de Deus. Desde então, o homem tem a prerrogativa de dar o nome a todas as coisas. Isso é magnífico. Pelo menos no início (sabemos quanto mal pode fazer o ato de atribuir o nome, ou o rótulo, às coisas e às pessoas!).

O próximo passo do Criador é misterioso. Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem” (Gn 2, 21-22). A reação do homem, desta vez, é diferente: Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem.” (Gn 2, 23), o que o autor bíblico conclui com a frase, citada inclusive por Jesus no Evangelho: "Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne." (Gn 2, 24). Tudo parece óbvio. É o homem e a mulher. O que vem além disso, não pode ser de Deus... Será?

O contexto de toda aquela situação sugere que o homem se reconhece como tal e percebe a diferença entre a sua natureza e a dos animais. Ele é superior, é a questão de níveis diferentes. É nítido aqui o princípio do personalismo e não da heterossexualidade. Se Deus decidisse tomar a costela do homem para formar um outro homem, a resposta de Adão seria a mesma: Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne". Digo mais: essa resposta seria ainda mais rápida e com firmeza ainda maior. É como se Adão dissesse: "A minha solidão só pode ser preenchida por um outro ser humano, mas qualquer animal, por mais simpático que seja e me faça companhia, não é capaz de me complementar por inteiro". O sentido da criação de seres humanos com sexos diferentes está, evidentemente, em uma das principais tarefas confiadas a eles pelo Criador, isto e, de povoar a terra (cf. Gn 1, 28). Porém, essa não é a única maneira de dar o sentido a existência do ser humano. Se fosse a única, as pessoas não fariam mais nada, além de procriar. Aliás, não existiria, também, o celibato...

Terminando a minha reflexão neste dia da Sagrada Família, quero repetir mais uma vez: nós, os homossexuais, somos imensamente gratos às nossas famílias (e à instituição familiar como tal). Afinal, sem a família (por mais imperfeita que tenha sido) nenhum de nós existiria. Outra coisa importante: pelo fato de não procriarmos em nossos relacionamentos homossexuais, não pretendemos destruir a família, enquanto a célula fundamental da sociedade e da Igreja. Muito pelo contrário. Desejamos acrescentar a nossa própria experiência de amor e com ela enriquecer a convivência pacífica e fraterna de toda sociedade e da Igreja. Além disso, o glorioso exemplo da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, ensina-nos e inspira para não desanimarmos diante das incompreensões, ameaças e perigos que o mundo atual, cheio de fobias e fundamentalismos, nos oferece...

22 de dezembro de 2013

Natal quer dizer nascimento


Parece uma burrice declarar (no título deste texto) algo tão óbvio, mas a minha impressão constante é que muitas coisas óbvias perderam, há décadas, o seu significado original e por isso acho válida a tentativa de resgatar um pouco daquilo que é essencial. Não sei se é a pressa de fazer as coisas ou a quantidade delas, mas o fato é que acabamos estacionando na superfície. É uma pena. Mas quem se importa com isso? Aqueles que se importam vivem na solidão e frequentemente caem em depressão. A superficialidade apavora-os e a própria impotência ainda reforça aquele pavor. Uma das prováveis saídas (ainda que ilusórias) é cavar na essência das coisas e tentar descrevê-las daquela perspectiva, se é que existem palavras suficientes para tal descrição. E, se existirem, serão compreendidas ou, novamente, irão cair no abismo da superficialidade e do mal-entendido? Seja o que for, ainda creio na importância da palavra - dita e, ainda mais, escrita. Talvez alguém leia e seja tocado. Algumas palavras salvam vidas ou, pelo menos, prorrogam o prazo de partida voluntária. Algumas palavras são como o combustível para levantar o voo. Até a próxima queda. Ou, até a próxima palavra salvadora. É a Palavra que se fez carne e habitou entre nós. É o Nascimento que gera novos nascimentos...

É neste sentido leio e transcrevo aqui as palavras de Murilo, publicadas originalmente no Portal Todavia e disponibilizadas, também, no Blog do Grupo Diversidade Católica. Vale a pena ler o texto inteiro. Destaco aqui a parte que mais chamou a minha atenção.

Murilo diz: "Eu digo que eu sou até mais cristão por ser gay - e mais gay por ser cristão. Se tem uma experiência na minha trajetória que associou tudo isso, foi o dia em que eu saí do meu próprio armário: me senti vivo como nunca antes, deixando pra trás um Murilo que era uma mentira, e me sentindo mais livre, sem amarras. Se não foi Deus quem me proporcionou esse bem, essa bênção e essa liberdade, eu não sei mais quem foi". 

Recorro, de novo, ao conceito do óbvio. Será que só para mim ficou nítida a analogia entre o Natal (nascimento, parto) e a saída do armário? Ainda que, como em Belém, logo tenha aparecido um monte de Herodes, querendo matar o menino? Quantos cristãos-Herodes irão considerar tal associação uma blasfêmia? Evidentemente, só aqueles com o espírito de humildade, como os pastores dos arredores da Cidade de Davi, serão admitidos à contemplação daquela Luz.

Que não falte, então, a coragem e a fé de Maria e de José, àqueles que querem reviver (ou viver pela primeira vez) o verdadeiro Nascimento do Salvador.

Feliz Natal a todos!

14 de dezembro de 2013

Adote um cachorro

Fonte: Deviantart

Retorno ao "Retorno (GAY)" (é o nome deste blog), após um período de férias. Mais uma vez fui à Europa, desliguei o celular e raramente abri qualquer página virtual. Uma pausa dessas, ainda que traga alguns problemas próprios, deve fazer a gente descansar, pensar e respirar em um ritmo diferente. O efeito colateral, ao menos no meu caso, é a demora em voltar à rotina. Ainda acordo antes da hora (deve ter sido o efeito do fuso horário diferente), ainda procuro palavras certas para falar e escrever e surpreendo-me com a camisa que me incomoda dentro de casa, recordando as 3-4 camadas de roupa usadas obrigatoriamente naquelas terras congeladas. Algumas ideias que, por lá, pareciam tão claras e fáceis em sua realização, aqui revelam-se, de novo, distantes e bem menos simples. Trata-se de umas mudanças bastante radicais, como a busca de um novo emprego (na verdade um novo estilo - ou status - de vida). Isso inclui a busca mais séria de mudança do meu estado civil (sério!). Falando nisso, sempre me reparo com as declarações daquele desejo fundamental (e bíblico) de não estar mais sozinho (pois não é bom: cf. Gn 2, 18), entretanto são pouquíssimas as pessoas que se decidem dar o próximo passo (inclusive eu). Será que já sonhamos tanto e acabamos criando um namorado imaginário tão perfeito que ninguém mais é capaz de corresponder àquele ideal? Eu sei que muita gente, simplesmente, não acredita no sucesso de um relacionamento estável, por outro lado, porém, não aceito a ideia de que os gays só procuram o sexo por aventura.
 
Foi neste contexto que, ao longo das minhas férias, inventei uma "cantada" esquisita. A lógica é seguinte: quantos anos, em média, vive um cachorro? Isso, é claro, depende da raça e de outros fatores, tais como a saúde, o modo de ser tratado, a alimentação e um monte de outras coisas. Afinal, assim acontece com qualquer ser vivo. Tendo em vista a minha idade atual (completei recentemente 48!) e - digamos - as estatísticas familiares, o tempo que me restou compara-se, de alguma maneira, à vida de um cão. Excluo aqui toda e qualquer conotação pejorativa e discriminatória que tal analogia possa evocar ("vida de cão", "quem nasce para cão, há de morrer latindo", "quem com cães se deita, com pulgas se levanta", "qão chupando manga", etc.). Refiro-me, antes, aos melhores exemplos de uma amizade que dura a vida toda e que pode ser chamada de relacionamento afetivo. Para ser ainda mais claro: não tem nada a ver com a zoofilia.
 
A estratégia seria essa: assistir com um candidato (ao namorado-marido-parceiro) um filme temático, por exemplo "Marley & eu", "Sempre ao seu lado", "Lassie", "K-9, um policial bom pra cachorro", "Iron Will", "Fluke: lembranças de outra vida", "Uma dupla quase perfeita", ou outro desse gênero e, no final, fazer o pedido: "[me] adote [como] um cachorro!". Eu sei que a ideia em si é um tanto bizarra, mas talvez a proposta de ficar junto "por resto da vida" possa assustar, enquanto não se tem a clareza quanto à duração daquele "resto". Faria sentido, então, dizer: fique comigo por até 15 anos, ou pelo menos 10?
 
...não sei, mas são essas coisas que trouxe das minhas férias...