ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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29 de outubro de 2013

A mentalidade débil

 
Vou começar pela definição. "Débil: adj. Que não tem força, fraco, frágil, pusilânime; pouco forte, pouco perceptível; diminuto, pequeno, insignificante; debilitado (-a)". A mentalidade humana é débil, é lerda, é medrosa, é preconceituosa, é... assustadora.
 
O capítulo da novela "Amor à vida", exibido ontem pela TV Globo, deu continuação ao complicadíssimo caso que envolve o casal homossexual, Niko & Eron e a "mãe alugada", Amarilys. Tudo indica que o Heron vai ficar com a Amarilys, formando uma "família exemplar", confirmada pala presença do filho desses dois, o Fabrício. O Niko, ainda que tenha ficado arrasado, logo vai encontrar o outro parceiro (supõe-se), para voltar a ser feliz. Com tudo isso, fica comprometida a adoção do pequeno Jayme pelo casal gay. No mesmo capítulo, Félix se despede definitivamente do Anjinho, para ficar com a esposa Edith. E o que surge na mente da maioria de telespectadores? Uma sensação de alívio: "Finalmente tudo se encaixa e volta ao normal". Assim fica comprovado que, tanto o casamento, ou mesmo o relacionamento, entre as pessoas do mesmo sexo, quanto a adoção de crianças pelos casais homoafetivos, são situações erradas, anormais e nunca têm chance de darem certo. Por outro lado, estão super normais as intrigas de Aline, o preconceito de César, a mesquinhez de Leila e a confusão generalizada de - praticamente - todos os personagens. A hipocrisia, a mentira, o egoísmo, a traição, a ganância, a vingança e todas as outras coisas parecidas doem menos do que um relacionamento gay. A telenovela é interativa. A emissora faz questão de entrevistar as pessoas na rua e reproduzir depois aqueles gritos de "Bem feito!". Na minha opinião, existem duas explicações: ou os dirigentes da emissora são tão burros que não têm a noção do poder (anti-) educativo de suas obras, ou então são tão perversos que fazem tudo com a mais fina premeditação. Muitos ativistas LGBT, há pouco, proclamaram mais uma vitória, só pelo fato de que os personagens gays tenham sido inseridos na trama dessa ou daquela novela. Será, porém uma vitória de fato? Será que ainda precisamos permanecer naquela fase que requer a comprovação de nossa existência? Ou, pelo contrário, a nossa presença já foi admitida e agora chegou a hora de nos mostrar como seres humanos normais, com pleno uso da razão, com equilíbrio emocional e com boa vontade?
 
Hoje em dia temos mais uma fonte de conhecimento dessa débil mentalidade humana. São as redes sociais, principalmente, o facebook. É ali que pode ser encontrada uma enquete, proposta pela página "Félix, bicha má":
 
Beijo gay na televisão: Você é a favor ou contra? 
(a) A favor
(b) Contra
 
Como sempre, ambas as respostas, trazem os mais curiosos argumentos. Vou citar aqui alguns (de um total de 1.669) comentários:
 
(a) A favor: 
  • A favor, todos nós queremos direitos iguais. Então temos que aceitar as diferenças e o gosto das pessoas.
  • tbm sou a favor! Coisa muito pior a TV mostra. Um beijo gay não é o fim do mundo
  • Criança pode ver tudo, assassinatos, traição, tiros, sexo na novela. Agora beijo gay não pode ? Seus hipócritas
  •  Não entendo a galera que diz que é contra beijo gay por causa das crianças, mas grande parte dos pais deixam ver cenas de sexo, beijo e outras coisas com casal heterossexual. Agora se for gay é desrespeito, uma afronta... Já rolou vários beijos gays em programas internacionais e nem por isso o mundo virou gay da noite pro dia. Voto pelos direitos iguais. o/
  • Hahaha engraçado, tem gente aqui que deixa seus filhos assistirem a novela, onde cenas de sexo entre heteros é gritante (e é o que mais se mostra hj em dia)...e bjo entre gays não pode? Bjo não pode e sexo pode? Hahah vai entender
  •  Vivemos em um país onde algumas pessoas ainda são preconceituosas. A televisão passa coisas piores e ninguém questiona sobre isso. Sou totalmente A do beijo gay sim.
  •  Prefiro beijo gay na tv, do que meus vizinhos hetero brigando e espancando o filho...o que é melhor para uma criança demonstrações de amor, ou ódio????
  • Totalmente a favor temos q lutar contra o Preconceito \o/
  • A favor, meus pais estão esperando esse beijo. 
(b) Contra: 
  • Não sou hipócrita.... mais acho que tudo tem limite. acredito que dentro de um quarto, motel, hotel, é um problema de cada um... Pela moral e bons costumes, sou contra !!!!!
  • Sou homossexual e não concordo...
  • Quando vcs estudarem a BIBLIA vcs vão saber o que falo. Deus fez o homem para acasalar com a mulher não com outro homem.. Ou mulher com mulher
  • Sou contra... acho um horror, um desrespeito para com a população
  • Tem criança assistindo esse horário.. fica chato p os pais explicarem sou contra
  • Contra. Foge da verdadeira vontade de Deus, só existe homem e mulher, coluna do meio não existe. Grande falta de respeito
  • a globo quer impor na sociedade uma realidade fora dos padrões de uma verdadeira família! e por causa disso ninguém mais pode expressar suas ideias...
  • Sou totalmente contra, ñ por preconceito pois tenho um irmão gay, mais não gostaria de ver e nem que meus filhos vessem ele beijando outro cara, quanto as crianças verem cenas de filmes, novelas acho normal se for entre homem e mulher pelo menos qndo vc for explicar vc estará explicando a verdade bíblica, Deus não fez um homem pra viver ao lado de outro homem, se fosse pra ser assim Ele com sua imensa sabedoria teria feito+um homem ser companheiro de Adão e não Eva....e sem essa de direitos iguais, Isso é abominável aos olhos de Deus agora quem aceita, concorda, aplaude, é a favor, problemas deles lá com Deus, eu sou CONTRA!
  • Deus fez o homem e a mulher
  • não sou contra o homossexualismo em si mas a falta de respeito seja qual opção sexual que tenha ate mesmo um bj forte e forçando como a globo tem mostrado nas novelas tem horas que temos que mudar o canal por ter criança na sala assistindo acho que opção é de cada um mas não somos obrigados a compartilhar isso ate mesmo um casal de heteros são errados em ficar se expondo na frente de outras pessoas
  •  contra... Por questão de respeito a família que tem crianças..
  • Por favor gente. O bom senso acabou. Isso não é uma coisa natural. Sou totalmente contra.
  • Contra! Sinceramente não tem como querer achar o que não é normal natural nê???
  • B  -naum tem nada á ver com preconceito, mas sim com respeito...
  • B . contra lógico, não sou obrigada.
  • Contra, não sou preconceituosa, respeito os homossexuais, mas não é o normal, a família hetero é o valor que temos que passar aos nossos filhos, banalizar através da mídia este contexto cria uma geração de adolescentes que acham normal experimentar tudo, ser homossexual é uma escolha que deve ser madura e com total conhecimento de seus desejos, a pessoa tem que ter certeza desta opção!
  • Essa banalização pode trazer futuros transtornos psicológicos sem precedentes.
  • Se fosse algo natural a vida humana não dependeria da relação de um homem com uma mulher, dois homens seriam capazes do dom da vida.
  • N sou preconceituosa, só tenho minha própria opinião. Respeito os casais gays pq são seres humanos como nós. Mas n podem obrigar a sociedade engolir, aceitar essa poka vergonha! Se fosse p existir gay Deus n teria o trabalho de criar o macho e a fêmea. Totalmente contra!
  • Ninguém nasce mal por isso acho q ninguém nasce gay ser gay é uma escolha!!!!!
  • Não tenho preconceito, mas é falta de respeito com o telespectador «B »
  • Totalmente contra isso é um mau exemplo para as crianças
  • Com certeza sou contra sou mãe e ñ gostaria que meus filhos vise esse tipo de coisa ñ tenho preconceito com nada mais eles ñ tem mentalidade pra entender esse tipo de coisa

27 de outubro de 2013

A família em foco

 
Termina hoje em Roma a Jornada das Famílias em ocasião do Ano da Fé. Entre os textos que se destacam, estão dois discursos do Papa (aos participantes da Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para as Famílias, no dia 25 e às próprias famílias reunidas em Roma, no dia 26) e a sua homilia de hoje.
 
É uma oportunidade para esclarecer alguns pontos que, até agora, geram várias polêmicas e referem-se ao lugar de pessoas homossexuais no contexto da família. A maioria das pessoas não heterossexuais reconhece o valor e a importância do Sacramento do Matrimônio, designado aos casais formados pelo homem e pela mulher. Afinal, todos nós nascemos em família, ainda que - em vários casos - imperfeita, incompleta e não necessariamente construída na base do Sacramento. O que, porém, precisa ser dito uma vez por todas, nenhum homossexual é contra o Sacramento do Matrimônio, nem contra a família baseada no casal heterossexual. Ainda mais claramente devemos declarar a nossa absoluta contestação das opiniões que apontam as pessoas LGBT (e a sua luta pelos direitos humanos, inclusive pelo reconhecimento da união estável) como "grave ameaça à família tradicional enquanto instituição fundamental da sociedade". É pelo contrário. Nós reconhecemos o papel da família tradicional e a sua função majoritária na construção da sociedade. A família tradicional é, sim, o fundamento, porém, nenhuma construção limita-se apenas ao fundamento. É inevitável e verdadeiramente preciosa a inspiração que os casais homossexuais recebem dessas famílias. Ainda que muitos autores e militantes dos movimentos LGBT critiquem a "heteronormatividade", não temos como (e a maioria realmente não quer) ignorar esse papel fundamental, exercido pela família composta de papai, mamãe e demais familiares. Por isso não vamos enxergar como retrocesso, aquilo tudo que o Papa Francisco tem dito sobre o Sacramento do Matrimônio. Notamos, ao mesmo tempo, que as suas palavras sobre as coisas essenciais na vida de um casal heterossexual, aplicam-se perfeitamente aos casais homossexuais. Por exemplo:
 
Cada um de nós constrói a sua própria personalidade na família, crescendo com a mãe e o pai, irmãos e irmãs, respirando o calor da casa. A família é o lugar onde nós recebemos o nome, é o lugar dos afetos, o espaço de intimidade, onde se aprende a arte do diálogo e da comunicação interpessoal. Na família, a pessoa torna-se consciente de sua própria dignidade e, especialmente, se a educação é cristã, reconhece a dignidade de cada pessoa humana, especialmente dos doentes, dos fracos e marginalizados. [1]
 
Muitas vezes a vida é gravosa, frequentemente mesmo trágica! Ainda recentemente o ouvíamos… Trabalhar é fatigante; procurar trabalho é fatigante. E encontrar emprego hoje pede-nos tanta fadiga! Mas, aquilo que mais pesa na vida não é isto: aquilo que pesa mais do que tudo isso é a falta de amor. Pesa não receber um sorriso, não ser benquisto. Pesam certos silêncios, às vezes mesmo em família, entre marido e esposa, entre pais e filhos, entre irmãos. Sem amor, a fadiga torna-se mais pesada, intolerável. Penso nos idosos sozinhos, nas famílias em dificuldade porque sem ajuda para sustentarem quem em casa precisa de especiais atenções e cuidados. «Vinde a Mim todos os que estais cansados e oprimidos», diz Jesus. [2]
 
Queridas famílias, como bem sabeis, a verdadeira alegria que se experimenta na família não é algo superficial, não vem das coisas, das circunstâncias favoráveis... A alegria verdadeira vem da harmonia profunda entre as pessoas, que todos sentem no coração, e que nos faz sentir a beleza de estarmos juntos, de nos apoiarmos uns aos outros no caminho da vida. Mas, na base deste sentimento de alegria profunda está a presença de Deus, a presença de Deus na família, está o seu amor acolhedor, misericordioso, cheio de respeito por todos. E, acima de tudo, um amor paciente: a paciência é uma virtude de Deus e nos ensina, na família, a ter este amor paciente, um com o outro. Ter paciência entre nós. Amor paciente. Só Deus sabe criar a harmonia a partir das diferenças. Se falta o amor de Deus, a família também perde a harmonia, prevalecem os individualismos, se apaga a alegria. Pelo contrário, a família que vive a alegria da fé, comunica-a espontaneamente, é sal da terra e luz do mundo, é fermento para toda a sociedade. [3]
 
Certamente, o caminho para o reconhecimento pleno e oficial - principalmente por parte da Igreja - de famílias construídas com a base em casais homossexuais, é ainda muito longo. O primeiro passo consiste em parar de considerar tal fenômeno uma ameaça. Depois, sem dúvida, é preciso conhecer de perto a experiência dessas novas famílias. Talvez nunca se chegue a admitir o Sacramento do Matrimônio (e nem esse mesmo termo) aos casais homossexuais. Mas, reconhecer o seu direito de existir, inclusive dentro da comunidade eclesial, é possível. O que se faz necessário, é a remoção de preconceitos (de ambos os lados) e um diálogo sereno, sempre pautado pela fé e boa vontade.

Perda e reencontro

 
Termino aqui o ciclo de meditações inspiradas nos primeiros cinco mistérios do Rosário. Confesso que já tive períodos de maior fidelidade a essa oração que aprendi ainda no tempo da minha adolescência. Descobri, com o passar do tempo, que o essencial nessa "reza" não é a repetição das "Ave-marias", mas a meditação bíblica, ou melhor, bíblico-existencial. A minha avó que rezava o Rosário todos os dias, uma vez me disse que o anjo tira do abismo do inferno as almas, usando - como se fosse uma corrente - o terço e que, portanto, eu deveria me agarrar a ele. Inicialmente levei isso meio que pelo lado de superstição. Agora sei que o que nos mantém ligados a Deus não é um objeto qualquer, mas sim, a oração confiante e, justamente, existencial, ou seja, aquela que traz na presença de Deus a nossa vida do jeito como ela está. Como falei em outra oportunidade, a minha oração é homossexual, porque em mim tudo é assim e eu não me vejo em condição de ir ao encontro com o Senhor apenas de maneira fragmentada. A homossexualidade não é uma característica, digamos, genital, mas envolve a razão e os afetos, o corpo e a alma. Ela ultrapassa todas as dimensões do meu ser...
 
O quinto mistério gozoso do Rosário me leva diretamente à adolescência. Para muitos adultos o termo em si é visto como pejorativo. Adolescente é "aborrescente". Lembra-se logo de rebeldia, imaturidade e esquisitice. Algo assim aparece, até, na cena bíblica em questão (Lc 2, 41-52). Podemos imaginar, com toda simplicidade, o momento em que Maria e José, tendo cumprido todas as prescrições da Lei, disseram a Jesus: "Agora vamos embora". Jesus, porém, ficou naquele lugar e não foi embora. Aquilo que, no olhar apressado e superficial, parece ser rebeldia ou desobediência é, de fato, a manifestação de uma nova autonomia. A pessoa começa a seguir os seus próprios caminhos. Lembro-me de uma meditação sobre esse mistério do Rosário que dizia: "Na verdade não foi Jesus que se perdeu dos pais, mas foram eles que se perderam em relação a ele". Na maioria dos casos, os pais têm dificuldade de admitir aquela autonomia (autossuficiência) nascente do(a) filho(a). E ainda mais, quando se trata de sexualidade, principalmente quando esta não se encaixa nos padrões gravados na mentalidade deles. Ainda que existam os testemunhos dos pais que dizem: "Nós sabíamos (desconfiávamos) disso desde a sua infância", a maioria dos adolescentes que descobrem e revelam a sua homossexualidade, são forçados a enfrentar batalhas pesadas que - não raramente - terminam em tragédia. É porque, para maioria dos adultos, o adolescente "não sabe o que quer". Na vida de muitos adolescentes repete-se, neste sentido, a resposta de Jesus: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?" (Lc 2, 49). Repete-se, também, a reação dos pais: "Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele lhes falou" (Lc 2, 50).
 
O que me vem mais à memória em relação à adolescência, é a timidez, acompanhada (paradoxalmente) pela teimosia. Houve alguns conflitos com o meu irmão e com os meus pais. Era o tempo de várias descobertas e experiências. Um período precioso, porém não valorizado por mim mesmo como tal. Não sei se todo adolescente sonha em ser logo um adulto, mas algum tipo de insatisfação - eu acho - faz parte dessa fase da vida. Curiosamente, o nome desse mistério do Rosário: "A perda e o reencontro", retrata, de maneira bastante exata, a experiência de cada adolescente.
 
Acrescento aqui mais uma observação pessoal. Ainda que as ciências forneçam algumas definições sobre a adolescência, inclusive os limites de idade, no meu caso, alguma parte de adolescência durou até uns 30 anos. Foi então que, definitivamente, admiti a minha própria homossexualidade. Antes, simplesmente, procurava evitar essa definição. Não queria ou não precisava me definir. De certa forma fui poupado, tanto de grandes traumas dessa descoberta, quanto de ocasiões ou necessidades de colocar em prática os meus desejos.
 
Rezando e meditando hoje "A perda e o reencontro de Jesus no Templo de Jerusalém", quero interceder por todos os adolescentes que enfrentam conflitos internos e externos, principalmente em relação a sua descoberta de homossexualidade.

24 de outubro de 2013

Apresentação no Templo


A cena do Evangelho de Lucas (2, 22-40) é o conteúdo do quarto mistério gozoso do Rosário. Ainda que o ritual pertença à tradição judaica do Antigo Testamento, o texto leva-nos, por analogia, ao momento em que nós mesmos fomos apresentados ao Senhor, através do Batismo. Existe, sim, um ritual devocional à parte, também chamado de "apresentação" que os pais católicos realizam na igreja, ainda antes da cerimônia sacramental do Batismo. Não quero entrar aqui na polêmica católico-protestante a respeito do costume de batizar as crianças recém-nascidas. Meditando a apresentação do Menino Jesus no Templo em Jerusalém, recorro ao dia em que eu mesmo tinha sido admitido à comunidade cristã. Os contos familiares trazem a revelação sobre a ausência do meu pai naquele momento. Ele se dizia ateu e a minha mãe, com a minha avó e um casal de padrinhos, tomaram todos os cuidados para que ele não ficasse sabendo. Sendo assim, cresci  - até uns 15 anos - com a lenda de eu não ter sido batizado. Quando tomei a decisão de me preparar para a I Comunhão, o tema do Batismo veio à tona. O padre que me dava umas aulas particulares (sim, nunca completei uma catequese regular), descobriu nos livros da paróquia de que, na verdade, fui batizado, com quase 1 ano de idade. Enfim... Todas essas coisas fizeram com que sempre me sentisse um tanto diferente em relação aos colegas da rua, da escola e, até mesmo, em relação ao meu irmão mais velho. De certa forma, o "ser diferente" sempre fez parte da minha (auto-) consciência e hoje vejo isso como algo providencial. Quando, finalmente, admiti a minha homossexualidade, não demorei tanto em questão de aceitá-la, como mais uma coisa na lista de componentes que me faziam - desde sempre - um ser diferente. Usei aqui os termos "admitir" e "aceitar", tentando apontar a diferença entre esses dois passos. Houve mais um passo, mais demorado e anterior aos dois que chamaria, talvez, de "intuição". Realmente (usando a expressão popular), desde que me entendo por gente, senti atração pelos rapazes. Passei (entre 13-15 anos) por uma fase de fetiche masoquista (sim, senhor) e - bem mais tarde - tive excelentes experiências de amor, vivido em forma de relacionamentos de até 3 anos. O fato de estar hoje solteiro, talvez se inscreva no conjunto de elementos do "ser diferente". É bom acrescentar aqui que a sensação de ser diferente, não se direciona necessariamente ao orgulho ("sou melhor do que os outros"), nem à baixa autoestima ("sou pior do que os outros"). Talvez - pelo menos nessa altura do campeonato - isso me ajude a olhar, com mais compreensão, a todos aqueles que, por qualquer motivo, estejam sendo tratados (ou se sintam) como diferentes. É quase como naquele slogan da Globo: "Ser diferente é normal".

E o que tudo isso tem a ver com a "Apresentação do Senhor", enquanto um mistério do Rosário? É assim que eu faço essa oração. Partindo de um texto, de uma cena, entro logo em reflexão sobe a vida, principalmente a minha. Os misteriosos personagens de Simeão e Ana, o amor de Maria e José, a sombra de Herodes e, sobretudo, a constante presença amorosa de Deus, repetiram se e ainda se repetem na minha vida. Aquilo que, nos olhos humanos, possa parecer apenas uma coincidência, na verdade revela-se como a sábia e terna providência de Deus. E como a apresentação - tanto no contexto judaico, quanto cristão - de fato é o ato de entrega e de consagração, recordo constantemente a verdade mais importante de toda a minha vida: Eu pertenço ao Senhor. Tudo o que sou, pertence a Ele. A minha homossexualidade pertence a Ele e nenhum padre, pastor ou quem quer que seja, vai me convencer do contrário. Nos períodos em que tive a graça (sim, a graça de Deus) de experimentar o mais profundo e verdadeiro amor - mesmo compartilhado com a pessoa do mesmo sexo - vivi a mais intensa e palpável revelação da divindade que, em sua essência, é o amor perfeito. Descobri na própria pele (e na própria alma) o que quer dizer que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Por mais que alguém chame isso de blasfêmia ou heresia, foi naquele tempo em que vivi o amor que realizei a minha mais plena consagração batismal a Deus.

Não posso deixar de mencionar a espada que - anunciada pelo velho Simeão - traspassou a alma de Maria. A mesma espada, em suas proporções próprias, fere a alma da minha mãe, assim como de todas as mães na face da terra. Sem dúvida, as mães de homossexuais, têm experimentado as dimensões dessa dor, desconhecidas por outras mães, embora a separação, a distância, o próprio momento em que o filho (-a) deixa a casa - tudo isso tenha sido a expressão desse misterioso desígnio de Deus, chamado "a espada", compartilhada por todas. As mães, por sua vez, são dotadas de uma incrível intuição, especialmente em relação aos filhos. Já devo ter falado sobre isso neste blog: embora nunca tenha realizado "aquela conversa" com a minha mãe, estou convencido de que ela sabe a respeito da minha homossexualidade. E me aceita, alás, ama, do jeito como sou. Louvado seja Deus por tudo isso!

Sobre a Apresentação do Senhor, leia também aqui.