ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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27 de outubro de 2013

A família em foco

 
Termina hoje em Roma a Jornada das Famílias em ocasião do Ano da Fé. Entre os textos que se destacam, estão dois discursos do Papa (aos participantes da Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para as Famílias, no dia 25 e às próprias famílias reunidas em Roma, no dia 26) e a sua homilia de hoje.
 
É uma oportunidade para esclarecer alguns pontos que, até agora, geram várias polêmicas e referem-se ao lugar de pessoas homossexuais no contexto da família. A maioria das pessoas não heterossexuais reconhece o valor e a importância do Sacramento do Matrimônio, designado aos casais formados pelo homem e pela mulher. Afinal, todos nós nascemos em família, ainda que - em vários casos - imperfeita, incompleta e não necessariamente construída na base do Sacramento. O que, porém, precisa ser dito uma vez por todas, nenhum homossexual é contra o Sacramento do Matrimônio, nem contra a família baseada no casal heterossexual. Ainda mais claramente devemos declarar a nossa absoluta contestação das opiniões que apontam as pessoas LGBT (e a sua luta pelos direitos humanos, inclusive pelo reconhecimento da união estável) como "grave ameaça à família tradicional enquanto instituição fundamental da sociedade". É pelo contrário. Nós reconhecemos o papel da família tradicional e a sua função majoritária na construção da sociedade. A família tradicional é, sim, o fundamento, porém, nenhuma construção limita-se apenas ao fundamento. É inevitável e verdadeiramente preciosa a inspiração que os casais homossexuais recebem dessas famílias. Ainda que muitos autores e militantes dos movimentos LGBT critiquem a "heteronormatividade", não temos como (e a maioria realmente não quer) ignorar esse papel fundamental, exercido pela família composta de papai, mamãe e demais familiares. Por isso não vamos enxergar como retrocesso, aquilo tudo que o Papa Francisco tem dito sobre o Sacramento do Matrimônio. Notamos, ao mesmo tempo, que as suas palavras sobre as coisas essenciais na vida de um casal heterossexual, aplicam-se perfeitamente aos casais homossexuais. Por exemplo:
 
Cada um de nós constrói a sua própria personalidade na família, crescendo com a mãe e o pai, irmãos e irmãs, respirando o calor da casa. A família é o lugar onde nós recebemos o nome, é o lugar dos afetos, o espaço de intimidade, onde se aprende a arte do diálogo e da comunicação interpessoal. Na família, a pessoa torna-se consciente de sua própria dignidade e, especialmente, se a educação é cristã, reconhece a dignidade de cada pessoa humana, especialmente dos doentes, dos fracos e marginalizados. [1]
 
Muitas vezes a vida é gravosa, frequentemente mesmo trágica! Ainda recentemente o ouvíamos… Trabalhar é fatigante; procurar trabalho é fatigante. E encontrar emprego hoje pede-nos tanta fadiga! Mas, aquilo que mais pesa na vida não é isto: aquilo que pesa mais do que tudo isso é a falta de amor. Pesa não receber um sorriso, não ser benquisto. Pesam certos silêncios, às vezes mesmo em família, entre marido e esposa, entre pais e filhos, entre irmãos. Sem amor, a fadiga torna-se mais pesada, intolerável. Penso nos idosos sozinhos, nas famílias em dificuldade porque sem ajuda para sustentarem quem em casa precisa de especiais atenções e cuidados. «Vinde a Mim todos os que estais cansados e oprimidos», diz Jesus. [2]
 
Queridas famílias, como bem sabeis, a verdadeira alegria que se experimenta na família não é algo superficial, não vem das coisas, das circunstâncias favoráveis... A alegria verdadeira vem da harmonia profunda entre as pessoas, que todos sentem no coração, e que nos faz sentir a beleza de estarmos juntos, de nos apoiarmos uns aos outros no caminho da vida. Mas, na base deste sentimento de alegria profunda está a presença de Deus, a presença de Deus na família, está o seu amor acolhedor, misericordioso, cheio de respeito por todos. E, acima de tudo, um amor paciente: a paciência é uma virtude de Deus e nos ensina, na família, a ter este amor paciente, um com o outro. Ter paciência entre nós. Amor paciente. Só Deus sabe criar a harmonia a partir das diferenças. Se falta o amor de Deus, a família também perde a harmonia, prevalecem os individualismos, se apaga a alegria. Pelo contrário, a família que vive a alegria da fé, comunica-a espontaneamente, é sal da terra e luz do mundo, é fermento para toda a sociedade. [3]
 
Certamente, o caminho para o reconhecimento pleno e oficial - principalmente por parte da Igreja - de famílias construídas com a base em casais homossexuais, é ainda muito longo. O primeiro passo consiste em parar de considerar tal fenômeno uma ameaça. Depois, sem dúvida, é preciso conhecer de perto a experiência dessas novas famílias. Talvez nunca se chegue a admitir o Sacramento do Matrimônio (e nem esse mesmo termo) aos casais homossexuais. Mas, reconhecer o seu direito de existir, inclusive dentro da comunidade eclesial, é possível. O que se faz necessário, é a remoção de preconceitos (de ambos os lados) e um diálogo sereno, sempre pautado pela fé e boa vontade.

Perda e reencontro

 
Termino aqui o ciclo de meditações inspiradas nos primeiros cinco mistérios do Rosário. Confesso que já tive períodos de maior fidelidade a essa oração que aprendi ainda no tempo da minha adolescência. Descobri, com o passar do tempo, que o essencial nessa "reza" não é a repetição das "Ave-marias", mas a meditação bíblica, ou melhor, bíblico-existencial. A minha avó que rezava o Rosário todos os dias, uma vez me disse que o anjo tira do abismo do inferno as almas, usando - como se fosse uma corrente - o terço e que, portanto, eu deveria me agarrar a ele. Inicialmente levei isso meio que pelo lado de superstição. Agora sei que o que nos mantém ligados a Deus não é um objeto qualquer, mas sim, a oração confiante e, justamente, existencial, ou seja, aquela que traz na presença de Deus a nossa vida do jeito como ela está. Como falei em outra oportunidade, a minha oração é homossexual, porque em mim tudo é assim e eu não me vejo em condição de ir ao encontro com o Senhor apenas de maneira fragmentada. A homossexualidade não é uma característica, digamos, genital, mas envolve a razão e os afetos, o corpo e a alma. Ela ultrapassa todas as dimensões do meu ser...
 
O quinto mistério gozoso do Rosário me leva diretamente à adolescência. Para muitos adultos o termo em si é visto como pejorativo. Adolescente é "aborrescente". Lembra-se logo de rebeldia, imaturidade e esquisitice. Algo assim aparece, até, na cena bíblica em questão (Lc 2, 41-52). Podemos imaginar, com toda simplicidade, o momento em que Maria e José, tendo cumprido todas as prescrições da Lei, disseram a Jesus: "Agora vamos embora". Jesus, porém, ficou naquele lugar e não foi embora. Aquilo que, no olhar apressado e superficial, parece ser rebeldia ou desobediência é, de fato, a manifestação de uma nova autonomia. A pessoa começa a seguir os seus próprios caminhos. Lembro-me de uma meditação sobre esse mistério do Rosário que dizia: "Na verdade não foi Jesus que se perdeu dos pais, mas foram eles que se perderam em relação a ele". Na maioria dos casos, os pais têm dificuldade de admitir aquela autonomia (autossuficiência) nascente do(a) filho(a). E ainda mais, quando se trata de sexualidade, principalmente quando esta não se encaixa nos padrões gravados na mentalidade deles. Ainda que existam os testemunhos dos pais que dizem: "Nós sabíamos (desconfiávamos) disso desde a sua infância", a maioria dos adolescentes que descobrem e revelam a sua homossexualidade, são forçados a enfrentar batalhas pesadas que - não raramente - terminam em tragédia. É porque, para maioria dos adultos, o adolescente "não sabe o que quer". Na vida de muitos adolescentes repete-se, neste sentido, a resposta de Jesus: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?" (Lc 2, 49). Repete-se, também, a reação dos pais: "Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele lhes falou" (Lc 2, 50).
 
O que me vem mais à memória em relação à adolescência, é a timidez, acompanhada (paradoxalmente) pela teimosia. Houve alguns conflitos com o meu irmão e com os meus pais. Era o tempo de várias descobertas e experiências. Um período precioso, porém não valorizado por mim mesmo como tal. Não sei se todo adolescente sonha em ser logo um adulto, mas algum tipo de insatisfação - eu acho - faz parte dessa fase da vida. Curiosamente, o nome desse mistério do Rosário: "A perda e o reencontro", retrata, de maneira bastante exata, a experiência de cada adolescente.
 
Acrescento aqui mais uma observação pessoal. Ainda que as ciências forneçam algumas definições sobre a adolescência, inclusive os limites de idade, no meu caso, alguma parte de adolescência durou até uns 30 anos. Foi então que, definitivamente, admiti a minha própria homossexualidade. Antes, simplesmente, procurava evitar essa definição. Não queria ou não precisava me definir. De certa forma fui poupado, tanto de grandes traumas dessa descoberta, quanto de ocasiões ou necessidades de colocar em prática os meus desejos.
 
Rezando e meditando hoje "A perda e o reencontro de Jesus no Templo de Jerusalém", quero interceder por todos os adolescentes que enfrentam conflitos internos e externos, principalmente em relação a sua descoberta de homossexualidade.

24 de outubro de 2013

Apresentação no Templo


A cena do Evangelho de Lucas (2, 22-40) é o conteúdo do quarto mistério gozoso do Rosário. Ainda que o ritual pertença à tradição judaica do Antigo Testamento, o texto leva-nos, por analogia, ao momento em que nós mesmos fomos apresentados ao Senhor, através do Batismo. Existe, sim, um ritual devocional à parte, também chamado de "apresentação" que os pais católicos realizam na igreja, ainda antes da cerimônia sacramental do Batismo. Não quero entrar aqui na polêmica católico-protestante a respeito do costume de batizar as crianças recém-nascidas. Meditando a apresentação do Menino Jesus no Templo em Jerusalém, recorro ao dia em que eu mesmo tinha sido admitido à comunidade cristã. Os contos familiares trazem a revelação sobre a ausência do meu pai naquele momento. Ele se dizia ateu e a minha mãe, com a minha avó e um casal de padrinhos, tomaram todos os cuidados para que ele não ficasse sabendo. Sendo assim, cresci  - até uns 15 anos - com a lenda de eu não ter sido batizado. Quando tomei a decisão de me preparar para a I Comunhão, o tema do Batismo veio à tona. O padre que me dava umas aulas particulares (sim, nunca completei uma catequese regular), descobriu nos livros da paróquia de que, na verdade, fui batizado, com quase 1 ano de idade. Enfim... Todas essas coisas fizeram com que sempre me sentisse um tanto diferente em relação aos colegas da rua, da escola e, até mesmo, em relação ao meu irmão mais velho. De certa forma, o "ser diferente" sempre fez parte da minha (auto-) consciência e hoje vejo isso como algo providencial. Quando, finalmente, admiti a minha homossexualidade, não demorei tanto em questão de aceitá-la, como mais uma coisa na lista de componentes que me faziam - desde sempre - um ser diferente. Usei aqui os termos "admitir" e "aceitar", tentando apontar a diferença entre esses dois passos. Houve mais um passo, mais demorado e anterior aos dois que chamaria, talvez, de "intuição". Realmente (usando a expressão popular), desde que me entendo por gente, senti atração pelos rapazes. Passei (entre 13-15 anos) por uma fase de fetiche masoquista (sim, senhor) e - bem mais tarde - tive excelentes experiências de amor, vivido em forma de relacionamentos de até 3 anos. O fato de estar hoje solteiro, talvez se inscreva no conjunto de elementos do "ser diferente". É bom acrescentar aqui que a sensação de ser diferente, não se direciona necessariamente ao orgulho ("sou melhor do que os outros"), nem à baixa autoestima ("sou pior do que os outros"). Talvez - pelo menos nessa altura do campeonato - isso me ajude a olhar, com mais compreensão, a todos aqueles que, por qualquer motivo, estejam sendo tratados (ou se sintam) como diferentes. É quase como naquele slogan da Globo: "Ser diferente é normal".

E o que tudo isso tem a ver com a "Apresentação do Senhor", enquanto um mistério do Rosário? É assim que eu faço essa oração. Partindo de um texto, de uma cena, entro logo em reflexão sobe a vida, principalmente a minha. Os misteriosos personagens de Simeão e Ana, o amor de Maria e José, a sombra de Herodes e, sobretudo, a constante presença amorosa de Deus, repetiram se e ainda se repetem na minha vida. Aquilo que, nos olhos humanos, possa parecer apenas uma coincidência, na verdade revela-se como a sábia e terna providência de Deus. E como a apresentação - tanto no contexto judaico, quanto cristão - de fato é o ato de entrega e de consagração, recordo constantemente a verdade mais importante de toda a minha vida: Eu pertenço ao Senhor. Tudo o que sou, pertence a Ele. A minha homossexualidade pertence a Ele e nenhum padre, pastor ou quem quer que seja, vai me convencer do contrário. Nos períodos em que tive a graça (sim, a graça de Deus) de experimentar o mais profundo e verdadeiro amor - mesmo compartilhado com a pessoa do mesmo sexo - vivi a mais intensa e palpável revelação da divindade que, em sua essência, é o amor perfeito. Descobri na própria pele (e na própria alma) o que quer dizer que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Por mais que alguém chame isso de blasfêmia ou heresia, foi naquele tempo em que vivi o amor que realizei a minha mais plena consagração batismal a Deus.

Não posso deixar de mencionar a espada que - anunciada pelo velho Simeão - traspassou a alma de Maria. A mesma espada, em suas proporções próprias, fere a alma da minha mãe, assim como de todas as mães na face da terra. Sem dúvida, as mães de homossexuais, têm experimentado as dimensões dessa dor, desconhecidas por outras mães, embora a separação, a distância, o próprio momento em que o filho (-a) deixa a casa - tudo isso tenha sido a expressão desse misterioso desígnio de Deus, chamado "a espada", compartilhada por todas. As mães, por sua vez, são dotadas de uma incrível intuição, especialmente em relação aos filhos. Já devo ter falado sobre isso neste blog: embora nunca tenha realizado "aquela conversa" com a minha mãe, estou convencido de que ela sabe a respeito da minha homossexualidade. E me aceita, alás, ama, do jeito como sou. Louvado seja Deus por tudo isso!

Sobre a Apresentação do Senhor, leia também aqui.

23 de outubro de 2013

O padre e a sua buzina


O Portal Pheeno trouxe a notícia direto das redes sociais: "GO: padre faz buzinaço após ver beijo gay no semáforo". Trata-se de um dos padres-cantores/pregadores, conhecidos, por exemplo, através da TV Canção Nova e, evidentemente, seguido pelos milhares de fiéis. O padre chama-se Cleidimar Moreira e pode ser localizado no facebook aqui. Ele mesmo descreveu, da seguinte maneira, o que tinha acontecido (a postagem é de 17 de outubro):

Não tome decisões erradas!
Muitos estão se entregando a sentimentos falsos e acaba tomando decisões erradas, contrariando a vontade de Deus. Alguns dias atrás eu estava parado em um semáforo. Ao olhar de lado, estavam dois rapazes jovens se beijando. Eu buzinei e esbravejei, pois não concordo com isto. Os dois saíram rindo de mim, creio que também riem de Deus. O que acho incrível é que nem casal... heterossexual fica se beijando nas ruas por aí. Parece que fazem isto para afrontar a sociedade. Deus criou homem e mulher, qualquer outra realidade é patológica e para mim pode ser tratado. Não te entregue a sentimentos falsos, peça a Deus para lhe revelar o que é verdade do que é falso e sempre escolha pelo verdadeiro, por Deus.
Deus lhe abençoe!
 
A publicação foi "curtida", até o momento presente, por 3192 pessoas e compartilhada por 604. Haja paciência para ler todos os comentários e as respostas direcionadas a alguns deles. A maioria esmagadora, resume-se em curtas frases do tipo:
  • "Parabéns Padre. O mundo esta virando Sodoma/Gomorra. Deus o abençoe"
  • "Parabéns Pe. por defender as nossas famílias. Deus abençoe !!!"
  • "concordo Padre, mais temos que aceitar calados, isto é fim do mundo"
  • "parabéns pela posição clara.."
  • "Precisamos de padres assim, que falem a verdade, e não passam a mão na cabeça de ninguém."
  • "isso mesmo...temos q ter convicção naquilo q acreditamos...isso em nome de Jesus..!!!!!"
  • "Concordo plenamente! Corrigir o erro é obra de misericórdia!"
  • "Amo muito suas palavras, suas testemunhas da verdade. Serve de aprendizado para todos nós! A sua bênção!"
  • "O Sr. está certo! Tenho nojo disso! Isso não é de Deus!!!!"
Alguns comentários são um pouco mais longos (mantenho a versão original): 
  • "Que suas palavras cheguem aos ouvidos de mts que estão deixando se levar por esta mentira, que casais do mesmo sexo tem a liberdade de escolha, de serem felizes com seus parceiros. Muitos dls não tem o mńimo respeito pelas famílias, com suas atitudes!"
  • "Tem razão padre,. O mundo está a um passo de cair em um abismo infernal pelos pecados da humanidade, infelizmente, mas a Mãezinha é intercessora pelos que creem nela e em Jesus. Que a paz de Jesus e o amor de nossa Senhora esteja contigo hoje e sempre. Amém!"
  • "Essas pessoas que fazem estas cenas obscenas em pleno dia e locais públicos, temos que rezar 1.000.000.000 de Ave Maria para que se convertam. Ave Maria,...(1.000.000.000 x 1.000.000.000.000). E assim caminha a humanidade."
  • "E engracado,pra nao dizer ironico,e qe eles exigem respeito,mas eles nao respeitam ninguem,e muito menos respeitam as crencas religiosas,isto e o cumulo do absurdo,eu penso qe se qerem ser respeitado,entao respeitem"
  • "Trata-se de um Atentado Violento ao Pudor Pe Cleidimar Moreira. o Senhor tem toda a razão em esbraveja!"; "Concordo com o senhor padre, Jesus abomina essas praticas e a sociedade deveria fazer o mesmo. Nao tenho preconceito, apenas nao aceito isso."...
Nessa avalanche de baboseiras, aparecem umas três vozes sensatas, naturalmente contestadas pela maioria:
  • "2 em cada 3 suicídios de pessoas até 25 anos no Brasil são de gays. Parabéns, Padre, por contribuir com o desespero dos homossexuais. Jesus estará te julgando no dia certo, tenha certeza!"
  • [em resposta a um comentário]: "Não é escolha, se ser gay fosse escolha, ninguém iria escolher isso.... Respeite..."
  • "Tudo o que incomoda no outro é o que carregamos dentro da gente, Padre, Freud já dizia..."
  • [em resposta a mais um comentário]: "Sua família está ameaçada pelos gays? Será q vc é hetero mesmo? Um hetero nunca tem problema com a sexualidade alheia."
  • "O sr. Pe. Cleidimar precisa aprender que estamos em uma democracia, onde as pessoas não são obrigadas a terem a mesma crença, valores e etc. que nós cristãos católicos e cristãos em geral! Em um país livre, o sr. pode professar a sua fé e precisa respeitar quem professa um outro crer diferente do nosso!!! O sr. se sentiu no direito de esbravejar e eles no direito de rirem! Isto é Democracia!!! Ore por eles!!! Como psicólogo em potencial eu digo para o sr., que não é deste saber, que a ciência psicológica não trata a homossexualidade como doença e, por tanto, não oferece cura para o que não se considera doença! Porém, esta não impede aquele que deseja busca-la por qualquer meio que seja! Estude um pouco mais! Irá fazer bem para o sr.!! E melhor, se proponha a trabalhar evangelizando estes a quem o sr. parece abominar, mas, a quem Deus ama!!!!!"
  • "homens de DEUS não julgam deixam isto pra DEUS...e o sr como padre devia da o exemplo... é por isto que sua igreja ta cada vez mais em decadência...fazem e acontecem e acham q estão certos, tu deve ter aprendido muito bem que vc esta aqui para conduzir o rebanho e não julga-lo por que quando vc se for será julgado como todo mundo e ate onde sei os pesos são iguais. não fala bobagem sr padre mostre que é mesmo um homem de DEUS e respeite os iguais e o que não são iguais a ti....faz um favor e deixa o julgamento nas mão de DEUS....pue que não é por que vc é padre que é melhor que nos e pelo que vi ali no comentário a cima é bem pior que os que tens julgado...obrigado..." ...
Acredito que as conclusões muito elaboradas não sejam necessárias. Enquanto alguns proclamam: "Precisamos de padres assim!", há quem reconheça o equívoco desse representante da Igreja Católica, ainda que o padre em questão, sem dúvida, se sinta bajulado apoiado pelos seus "filhos espirituais". Talvez a citação de uma fonte diferente consiga apelar ao bom senso do cidadão e motorista, Claudemir Moreira:
 
O artigo 41 do Código de Trânsito Brasileiro define o uso da buzina. O condutor de veículo só poderá fazer uso de buzina, desde que em toque breve, nas seguintes situações:
I - para fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes;
II - fora das áreas urbanas, quando for conveniente advertir a um condutor que se tem o propósito de ultrapassá-lo.

Love of Siam - LINDO !

 
"The Love of Siam" é um comovente filme tailandês, lançado em 2007, que mistura drama e romance com belíssima música. Um dos adolescentes protagonistas, lindo Mew (Witwit Hiranyawongkul, popularmente apelidado de "Phit"), é acompanhado pelo Dong (Mario Maurer) e a história deles baseia-se no crescente e conturbado romance gay. Vale a pena assistir o FILME COMPLETO (legendado em português). De acordo com a Wikipédia, o fato de possuir um enredo gay inicialmente causou polêmica, mas o filme foi recebido com aclamação da crítica e provou ser bem sucedido financeiramente. Ele dominou a temporada de premiações na Tailândia em 2007, vencendo a categoria de Melhor Filme em quase todos os grandes eventos de cinema do país.
 
O filme traz uma das mais lindas declarações de amor, eu diria, uma cantada (em todos os sentidos):
 
Se eu disser
que escrevi essa música pra você,
você acreditaria?
 
Pode não ser tão bem escrita ou bela
como as outras músicas, mas...
Eu quero que você saiba
que uma música de amor
não pode ser escrita
quando não estamos apaixonados.
 
Mas por você eu posso escrever
essa música tão facilmente.
 
Você deve ter ouvido centenas
ou milhares de canções de amor.
Elas podem ser significativas,
mas seus significados
são para qualquer um.
 
Se você ouvir essa música
que foi escrita apenas pra você...
Se você compreender o significado,
nossos corações ficarão juntos.
 
Existem muitas verdades no amor.
No passado, eu perdi muito tempo
procurando pelo significado disso.
 
Mas agora eu descobri,
em todos os momentos
em que você está perto de mim.
 
Eu apenas descobri
que se a vida é uma melodia,
você é a letra que a torna significativa
e a transforma em uma linda música.
 
Deixe a música tocar pelo caminho,
juntamente com a sua e a minha voz...
Que estaremos juntos por muito tempo.
 
Assim como a frase de uma poesia:
"Enquanto você amar, você ainda tem esperança".
 
Todas as vezes que eu vejo seu amor
brilhando em meu coração,
eu posso ver o meu destino. 



22 de outubro de 2013

O nascimento

 
Daqui a pouco vai terminar o mês de outubro e eu aqui estou demorando com as prometidas (?) meditações dos mistérios do Rosário (as anteriores estão aqui e aqui). Ainda estamos no primeiro terço, chamado gozoso, mas - para evitar eventuais piadinhas de mau gosto - podemos dizer que se trata de mistérios de alegria. O momento central, evidentemente, é o nascimento de Jesus que nos leva diretamente ao nosso próprio nascimento e, logo em seguida, à figura da mãe. Foi a minha mãe que me ensinou a associar o dia do aniversário natalício à pessoa da mãe. Ela própria fazia assim, enquanto a minha avó estava viva: completando mais um ano de vida, homenageava a sua mãe com as flores. É como se fosse o segundo Dia das Mães, ainda mais particular, porque pessoal. E não é a questão de esquecer do pai, mas na hora do parto, o meu pai deve ter bebido umas doses, enquanto a minha mãe estava naquela sublime fronteira que separa a vida e a morte. Ela sobreviveu e eu apareci. Rezando o terceiro mistério de alegria, imagino as cenas de Belém, mas, ao mesmo tempo, imagino o meu próprio nascimento. O que já sei, nasci antes do tempo previsto, o que foi definido como "de 7 meses" (sinceramente, não faço ideia sobre essa contagem, nem como calcular a data, digamos, "certa" que seria o dia do meu nascimento, caso corresse tudo no esquema). O que importa é o fato de eu ter nascido e vivido até o momento presente. O resto está nas mãos de Deus. Assim, como o passado. Por isso, nesta ocasião, lembro com muita gratidão, de algumas passagens bíblicas:
  • A mulher, quando vai dar à luz, fica angustiada, porque chegou a sua hora. Mas depois que a criança nasceu, já não se lembra mais das dores, na alegria de um ser humano ter vindo ao mundo. (Jo 16, 21)
  • Todos os que ouviram a notícia ficavam pensando: "Que vai ser este menino?" De fato, a mão do Senhor estava com ele. (Lc 1, 66)
  • Nem todos são capazes de entender, mas só aqueles a quem é concedido. De fato, existem eunucos que nasceram assim do ventre materno (...). (Mt 19, 12)
  • Foste Tu que criaste minhas entranhas e me teceste no seio de minha mãe. Eu Te louvo porque me fizeste maravilhoso; são admiráveis as Tuas obras; Tu me conheces por inteiro. Não Te eram ocultos os meus ossos quando eu estava sendo formado em segredo, e era tecido nas profundezas da terra. Ainda embrião, Teus olhos me viram e tudo estava escrito no Teu livro; meus dias estavam marcados antes que chegasse o primeiro. (Sl 139[138], 13-16)
O que me foi contado inúmeras vezes, desde à infância, é que os meus pais desejavam e esperavam uma menina. Talvez por isso, tenham comprado, antes do tempo, algumas bonecas, com as quais cheguei a brincar, antes de desaparecerem. Ora, não escrevo isso para acusar os meus pais, afinal tudo o que fizeram, foi por um amor ingênuo e sincero. Se foi isso que contribuiu para minha orientação sexual - entre muitos outros fatores - louvado seja Deus.
 
A mina avó costumava me contar em segredo que, quando nasci, o médico chamou o meu pai e lhe disse: "Você tem um filho, mas ele não vai sobreviver". Ainda bem que - neste caso - os médicos às vezes se enganam. A vontade de viver é a força principal na luta contra todos os argumentos que procuram fazer com que a gente desista. Inclusive a homofobia e qualquer outro preconceito. Estou falando apenas sobre o meu caso. Não pretendo de maneira alguma julgar aqueles que, justamente por causa da discriminação, atentaram contra a própria vida. A minha vontade de viver, desafiada já na hora do nascimento, foi se fortalecendo ao longo dos anos e, quando chegou a hora, ajudou-me no processo de reconciliação comigo mesmo, ou seja, na minha autoaceitação.
 
Eu sei que me espera ainda um novo nascimento - para a eternidade. De certa forma, sinto uma ansiedade, em relação a esse momento. Enquanto ele não chega, desejo viver.
 
Outras meditações sobre o nascimento de Jesus podem ser encontradas neste blog, no final do ano 2010 e no início de 2011 (Novena e Oitava de Natal).

21 de outubro de 2013

Aos confins

 
Dá para perceber que deixei de lado os assuntos que envolvem a Igreja, o Papa e afins. Deve ter sido por causa do "meu coreano imaginário" [1, 2, 3] que me faz sair mais de casa e focar atenção nos transeuntes. Sair, foi uma ideia que trouxe do casamento do meu amigo. Ele disse que conheceu o seu amado na rua, através de um olhar. Nestes dias tive vontade de abordar um ou outro cidadão na rua. Por enquanto, a timidez impede uma atitude mais louca corajosa da minha parte, mas, ao menos, não tenho medo de olhar...
 
Entretanto, não abandonei a minha Igreja, ainda que esteja pensando em mudar um pouco (ou bastante) a minha maneira de participar nela (isso, talvez, seja - mais tarde - o assunto de postagem neste blog).
 
Tivemos ontem o Dia Mundial das Missões, lembrando de que todo este mês é, tradicionalmente, dedicado a essa dimensão fundamental da Igreja. Como era de se esperar, o Papa Francisco presenteou-nos com um bela reflexão, confirmando os seus pensamentos anteriores que alguns fundamentalistas tradicionalistas católicas procuravam relativizar, por serem transmitidos em forma de entrevistas. Agora, sim, é uma mensagem pontifícia.
 
O Santo Padre repete, por exemplo, que a missionariedade da Igreja não é proselitismo, mas testemunho de vida que ilumina o caminho, que traz esperança e amor. A mesma expressão, usada pelo Papa na entrevista com o jornalista Eugenio Scalfari, causou o espanto entre os mencionados acima católicos tradicionalistas.
 
Outro termo que volta no ensinamento do Papa Francisco, é a periferia. Achei muito feliz e importante, a explicação dada por ele, no texto em questão:
 
Toda a comunidade é «adulta», quando professa a fé, celebra-a com alegria na liturgia, vive a caridade e anuncia sem cessar a Palavra de Deus, saindo do próprio recinto para levá-la até às «periferias», sobretudo a quem ainda não teve a oportunidade de conhecer Cristo. A solidez da nossa fé, a nível pessoal e comunitário, mede-se também pela capacidade de a comunicarmos a outros, de a espalharmos, de a vivermos na caridade, de a testemunharmos a quantos nos encontram e partilham conosco o caminho da vida. (...) A missionariedade não é questão apenas de territórios geográficos, mas de povos, culturas e indivíduos, precisamente porque os «confins» da fé não atravessam apenas lugares e tradições humanas, mas o coração de cada homem e mulher.
 
Mais uma orientação, digamos, metodológica, chamou a minha atenção:
 
Com frequência, os obstáculos à obra de evangelização encontram-se, não no exterior, mas dentro da própria comunidade eclesial. Às vezes, estão relaxados o fervor, a alegria, a coragem, a esperança de anunciar a todos a Mensagem de Cristo e ajudar os homens do nosso tempo a encontrá-Lo. Por vezes há ainda quem pense que levar a verdade do Evangelho seja uma violência à liberdade. A propósito, são iluminantes estas palavras de Paulo VI: «Seria certamente um erro impor qualquer coisa à consciência dos nossos irmãos. Mas propor a essa consciência a verdade evangélica e a salvação em Jesus Cristo, com absoluta clareza e com todo o respeito pelas opções livres que essa consciência fará (...), é uma homenagem a essa liberdade» (Exort. ap. Evangelii nuntiandi, 80). Devemos sempre ter a coragem e a alegria de propor, com respeito, o encontro com Cristo e de nos fazermos portadores do seu Evangelho; Jesus veio ao nosso meio para nos indicar o caminho da salvação e confiou, também a nós, a missão de a fazer conhecer a todos, até aos confins do mundo.
 
Os homossexuais (e todos os outros não heterossexuais), também são uma periferia existencial que a Igreja é chamada a descobrir. A evangelização, sem imposição, é capaz de convencer, até os mais rejeitados, desprezados e marginalizados, de que - como escreveu o Papa:
 
A fé é um dom precioso de Deus, que abre a nossa mente para O podermos conhecer e amar. Ele quer entrar em relação conosco, para nos fazer participantes da sua própria vida e encher plenamente a nossa vida de significado, tornando-a melhor e mais bela. Deus nos ama! Mas a fé pede para ser acolhida, ou seja, pede a nossa resposta pessoal, a coragem de nos confiarmos a Deus e vivermos o seu amor, agradecidos pela sua infinita misericórdia. Trata-se de um dom que não está reservado a poucos, mas é oferecido a todos com generosidade: todos deveriam poder experimentar a alegria de se sentirem amados por Deus, a alegria da salvação.