ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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20 de outubro de 2013

잘 지내요 ?


A minha epopeia de sonhos/delírios que envolvem a misteriosa figura de um jovem coreano continua. Outras partes da história estão aqui e aqui. Na quinta-feira passada fui procurar dois dos três restaurantes coreanos, localizados pela internet. O restaurante no centro da cidade, perto da estação de metrô Cinelândia, oferece alguns tipos de comida oriental, mas quem trabalha lá, são as mulheres brasileiras. Acabei tomando uma sopinha por R$ 6,00 e fui embora. Segui até a praça Afonso Pena e percorri a rua Mariz e Barros inteira, à procura do restaurante “China” que, segundo à propaganda, serve a comida coreana. Ninguém nessa rua ouviu falar do restaurante “China”. Decidi voltar para casa e, pelo caminho, encontrei um restaurante japonês (afinal, o meu sonho pode não estar tão exato assim). Conferi o horário com um japonês de meia-idade e resolvi voltar lá mais tarde, no mesmo dia, imaginando encontrar muita gente. À noite, porém, o restaurante contou apenas com a presença de uma mulher e uma criança. Na sexta-feira fui conhecer mais uma restaurante, na Rua do Bispo (esquina com Haddock Lobo). Esqueci de dizer que adorei tudo que comi, principalmente o sashimi. Até consegui usar os pauzinhos de madeira. Neste restaurante vi um grupo de jovens asiáticos, três rapazes e duas meninas. Por pouco não parei para contar a eles a minha história de sonhos, mas imaginei como seria a conversa. O texto em seguida conta o que eu não fiz, por falta de coragem. Pode ser entendido, simplesmente, como a continuação da estória “À procura do meu coreano”. Só que apenas na minha imaginação...


Aproximei-me daquela mesa e pedi licença:
 
- Me desculpem pela invasão, mas queria contar para vocês uma coisa que me preocupa ultimamente e talvez vocês possam me ajudar. Eu sei que a coisa é bastante esquisita, por isso nem vou sentar e prometo ocupar, no máximo, uns dois minutos de sua atenção. Quando terminar, vocês poderão, simplesmente, dizer: “Você é um maluco”. Eu vou embora e a gente nunca mais vai se ver. Pode ser?
 
O rapaz de óculos, sentado à ponta da mesa, fez uma cara de desprezo, mas antes de abrir a boca, uma menina, com aparência de líder do grupo, aceitou a minha proposta e com um gesto pediu ao dono do restaurante uma cadeira para mim. Sentei-me ao lado do rapaz de cabelo ondulado que tinha a cara de mais jovem do grupo. Comecei a minha história.
 
- Primeiro, queria dizer que, com os meus quase 48 anos, nunca tinha me acontecido uma coisa semelhante e, também, que – embora eu acredite em coisas sobrenaturais – não sou um cara voltado à premonição ou adivinhação. Mas, como a coisa está insistindo, há mais de uma semana e trata-se de alguém que talvez tenha passado por momentos difíceis, prefiro me expor ao ridículo, do que cometer algum tipo de omissão. Tudo começou com um sonho que, mais tarde, continuou na minha cabeça, mesmo quando estou acordado, sempre tratando da mesma situação e só acrescentando novos detalhes. Trata-se de um rapaz com as feições de asiático. Não sei se isso veio a mim, ou se fui eu que inventei, mas algo me diz que ele é um coreano. Olha, eu sou europeu e para nós europeus – eu acho que também para a maioria dos brasileiros – é praticamente impossível distinguir, apenas pela aparência, se a pessoa com esses traços, é da Coreia, do Japão, da China, ou de algum outro país da Ásia. Fico, então, com a intuição de que tenha sido um coreano. Pode ser que ele tenha nascido lá e vindo ao Brasil com a família, ainda pequeno, ou nasceu aqui, sendo os seus pais que vieram de lá. Parece-me que ele tem alguns familiares na Coreia. De outras características dele que se repetem é que ele ou trabalha na cozinha, ou gosta de cozinhar, além de ter bastante talento com a informática. O essencial da história é que ele teria sofrido recentemente uma grande desilusão amorosa, em relação a uma pessoa mais velha, pela qual tinha se apaixonado perdidamente. O caso durou, mais ou menos um mês e tudo indicava que essa pessoa correspondia ao sentimento do rapaz. Como, porém, essa pessoa não é daqui, mas da Europa (muito provavelmente da Alemanha), depois de um mês, tinha que voltar para casa. Os dois combinaram que, quando for possível, o rapaz viajaria para passar um tempo na Alemanha, para dar a continuidade ao relacionamento. Agora, finalmente, surgiu a oportunidade e o jovem coreano apaixonado decidiu viajar, na primeira quinzena de novembro, para passar um mês na Alemanha. Ele comprou a passagem e continuou mantendo o contato com aquela pessoa via internet. Começou, entretanto, a sentir uma mudança de comportamento da pessoa, até o dia em que recebeu um e-mail que o deixou totalmente arrasado. A pessoa tinha escrito que tudo isso que os dois viviam, não passou de uma aventura de férias e que, na verdade, ela tem um companheiro, lá na Alemanha e que não quer mais saber do rapaz, nem de sua visita por lá. Como vocês podem imaginar, o mundo do rapaz caiu. Ele perdeu o interesse por todo do que gostava, fechou-se em si, ficou tão triste que os seus familiares e amigos estão com medo de que ele possa cometer alguma loucura... Aí, não sei bem como, mas essa situação veio a mim, como se eu pudesse ajudar esse rapaz de alguma maneira.
 
O rapaz de óculos continuou com aquela cara de indiferença, mas não me interrompeu. A menina (a líder) ouviu tudo com bastante atenção. Quando terminei, ela disse, simplesmente:
 
- Você, por acaso, não esqueceu de um detalhe importante? Ou omitiu de propósito?
 
- Sim, omiti, porque achei que teria atrapalhado a história, ou criado a impressão distorcida sobre as minhas intenções. O fato é que aquela pessoa da Alemanha, é um homem e o rapaz é um homossexual. Inclusive, pelo que me parece, a família dele sabe disso e aceita a condição dele.
 
O rapaz de óculos, nessa hora, ficou mais atento. A menina pediu que eu contasse tudo que tinha omitido e explicasse melhor, como é que essas informações chegam a mim.
 
- Então, como falei, tudo começou com um sonho mesmo que tive – eu acho – na semana passada. Normalmente, a gente sonha algo e logo esquece. Esse sonho ficou na minha cabeça e, mesmo acordado, tenho, desde então, um tipo de continuação da história, pelo menos em parte, independente da minha vontade. Vejo as cenas muito nítidas que se complementam. A maior parte dessas cenas ocorre na casa da minha mãe que mora na Europa. É uma viagem que a gente está fazendo junto. De outros detalhes posso dizer que ele é muito carinhoso, sempre muito sereno e sorridente, tem a enorme facilidade de se comunicar com as pessoas. Dorme no chão porque quer, mas, as vezes, acorda no meio da noite com medo de estar sozinho. Por isso, quando adormece, pede para segurar a sua mão, ou ao menos, deixar ele sentir a proximidade do corpo de outra pessoa.
 
A menina me interrompeu, perguntando:
 
- E o rosto dele, o cabelo... Você sabe o nome dele? A idade?
 
- Quanto à idade, vi a seguinte cena. A minha mãe disse que ele parecia muito novo (realmente, ele tem a cara de menino). Nisso, ele trouxe o passaporte dele e mostrou a data de nascimento: 21 de agosto de 1987, o que deixou a minha mãe fascinada. Como eles se comunicam meio que por intuição, pois falam idiomas diferentes, a minha mãe pediu que eu trouxesse a bolsa dela. Ela tirou da bolsa a identidade dela e mostrou a data de seu nascimento: 21 de agosto de 1937, quer dizer, exatamente 50 anos antes do nascimento dele... Eu nunca tive certeza do nome dele, mas hoje mesmo (sexta-feira) à tarde, fui tirar uma soneca e sonhei com ele. Bem, eu acho que era ele. Ele estava muito aflito, carente, a gente acabou se beijando, aí eu pedi que ele me dissesse o nome dele. Ele não disse, mas me mostrou – como se fosse na tela do computador – o nome composto de três palavras, das quais ele foi apagando a primeira, mais longa, que eu não tive tempo de decorar e que era um nome comprido, nunca visto por mim. O que sobrou – e que ele me mostrou – foi “Robert inn”. Ele ainda confirmou que são dois “enes” mesmo... Com isso acordei. Ah, esqueci dizer que, desta vez, ele tinha a cor de cabelo meio diferente: enquanto sempre aparecia com o cabelo preto, nesse sonho parecia que ele tinha pintado de leve o cabelo que ficou agora mais claro. Mas é o mesmo cabelo, liso e com aquele corte "yaoi", cobrindo na testa e caindo na nuca [mais ou menos, como na foto acima].
 
Quando falei do cabelo, o menino de óculos deixou cair o copo que tinha segurado na mão. Todos ficaram muito quietos, olhando um ao o outro.
 
Eu fiquei sem graça e disse:
 
- Terminei. Agora todos vocês podem me chamar de maluco...
 
A menina respondeu:
 
- Não vou te chamar de maluco. Quero te mostrar uma coisa.
 
Pegou o celular dela e, depois de manipular um pouco com ele, passou para mim. Estava aberto na caixa de entrada de mensagem de texto. O que li na tela do celular me deixou curioso:
 
“Onde você está?”
“Robert inn”
Algo me diz que você vai sofrer por causa desse cara”
 
Não sabia o que seria esse “Robert inn”. A menina adivinhou e disse:
 
- “Robert inn” é uma pousada no bairro Santa Teresa, onde ficou hospedado um estrangeiro. O meu primo ia lá todos os dias, durante quase um mês. Ele estava perdidamente apaixonado. O resto você mesmo já contou. Agora vamos conferir outras coisas.
 
Menina pegou o telefone da minha mão e digitou um número. Alguém atendeu do outro lado. A menina disse:

- Oi, sou eu. Tudo bem? Você me disse mais cedo que confiava em mim, certo? Então peço que agora você preste bem atenção e não me interrompa. Vou passar para o viva voz.
 
Logo ouvi uma meiga voz masculina:
 
- Tudo bem, confio mesmo em você. Você é a bruxa da minha vida. Das boas e poderosas.
 
A menina sorriu e perguntou:
 
- O que você tá fazendo?
 
A voz linda respondeu:
 
- Olha, pintei cabelo mais cedo e agora estou tentando cancelar a minha viagem à Alemanha, mas o site diz que cancelando vou perder praticamente 50% do dinheiro. Liguei para lá do fixo e tô com o telefone na mão, mas o atendente me deixou com uma musiquinha, enquanto ele procura resolver o meu problema. Você acredita que ele me deu a proposta de não cancelar a viagem, mas em forma de promoção, acrescentar um acompanhante pela metade do preço? É um absurdo o que eles fazem para roubar o dinheiro da gente.
 
A menina:
 
- Escuta agora com muita atenção. Quando o atendente voltar a falar contigo, diga a ele que você não só aceita a promoção, mas quer ampliar um pouco a rota. Agora anote o número do meu cartão. Vai pagar o que for necessário e depois a gente resolve isso. Se precisar do nome completo do seu acompanhante, passo para você pelo face do Lucas (depois descobri que era aquele rapaz de óculos, na ponta da mesa).
 
Mais tarde fiquei sabendo que esse é o grupo de amigos do rapaz, liderado pela prima dele. Todo mundo sabe que ele é gay e conhece a história com o alemão safado. Essa parte do sonho/delírio termina com a questão: é ele que vem para cá, ou a gente pega a comida e vai à casa dele? Parece que, finalmente, vou descobrir o nome dele..
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Dicionário:
 
잘 지내요? - Jar jine yo? - Tudo bom?

18 de outubro de 2013

Shawn Thomas

Shawn Thomas une em suas músicas o testemunho cristão e a própria identidade homossexual. Vale a pena conhecer melhor e apreciar a sua arte.

I see the Christ in you.
I know that there is truth.
And deep inside your heart
resides a grace that's shining through.
I see the Christ in you,
in everything you do.
And when the world yells, 'Crucify!'
that part of you will rise...
and they will see the Christ in you."
 
Eu vejo o Cristo em você.
Não sei qual é a sua verdade.
Mas no fundo do seu coração
reside a graça que está brilhando.
Eu vejo o Cristo em você,
e em tudo que você faz.
E quando o mundo grita: "Crucifica-o!"
essa parte de você vai aparecer...
e eles vão ver o Cristo em você.
 
 

O conceito da castidade

 
Insisto apontando o problema de linguagem como o principal (ou, pelo menos, inicial) obstáculo em qualquer tentativa de diálogo/aproximação entre os GLBTT e todos os seus oponentes, especialmente, os religiosos (e, mais especificamente: os cristãos). Já citei, em outras ocasiões, a expressão do Papa Bento XVI, de sua encíclica "Deus caritas est" (n. 2): O amor de Deus por nós é questão fundamental para a vida e coloca questões decisivas sobre quem é Deus e quem somos nós. A tal propósito, o primeiro obstáculo que encontramos é um problema de linguagem. O termo « amor » tornou-se hoje uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual associamos significados completamente diferentes.
 
O mesmo acontece com vários outros termos e, justamente por isso, toda tentativa de comunicação, torna-se parecida com o som de um instrumento desafinado. Além da palavra "amor", entendida diversamente, aparece também o termo "castidade" que exerce a função igual ao ponto final de qualquer discurso. Mesmo que alguém consiga argumentar sobre o amor existente no coração de uma pessoa homossexual, a conversa termina, quando entra em cena a falta de castidade, em qualquer relação íntima entre as pessoas do mesmo sexo.
 
Lembro-me aqui de um casal de portugueses, velhinhos, piedosos e de sua história sobre a viagem que fizeram à Aparecida do Norte, para comemorar o aniversário do Sacramento do Matrimônio. Foi uma romaria de uns 3 dias, repleta de momentos comoventes e de muita devoção. Como que de passagem, o marido tinha me informado que todas as noites, os dois, dormiram em camas separadas, "pois estavam no lugar sagrado". Coitado do homem, não ousou tocar em sua esposa. Imagino que nem o beijinho tinha ocorrido nessa circunstância, "para não pecar contra a castidade". Na verdade, o exemplo retrata a associação direta da virtude da castidade, com a total ausência de sexo (inclusive, em qualquer forma preliminar), mesmo aquele que é considerado legítimo por mais ortodoxa e rigorosa das Igrejas.
 
Afinal, o que é a castidade? O Catecismo da Igreja Católica diz que é uma virtude moral, um dom de Deus, uma graça, um fruto da obra espiritual. O Espírito Santo concede o dom de imitar a pureza de Cristo àquele que foi regenerado pela água do Batismo (n. 2345). Portanto, a castidade é a pureza e a pureza é o fruto de purificação. Este último termo podemos encontrar nas páginas da Bíblia com bastante frequência. É claro: quem purifica é o próprio Deus.
 
Podemos aqui recordar uma cena misteriosa que encontramos nos Atos dos Apóstolos. Pedro viu o céu aberto e descer uma coisa parecida com uma grande toalha que baixava do céu à terra, segura pelas quatro pontas. Nela havia de todos os quadrúpedes, dos répteis da terra e das aves do céu. Uma voz lhe falou: Levanta-te, Pedro! Mata e come. Disse Pedro: De modo algum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma profana e impura. Esta voz lhe falou pela segunda vez: O que Deus purificou não chames tu de impuro (At 10, 11-15). Certamente, neste momento, podem aparecer os argumentos do tipo: "uma coisa é a pureza ritual e a outra, a pureza moral". Porém, o texto diz: "O que Deus purificou não chames tu de impuro", sem especificar a abrangência da coisa. Pelo que entendo de português, a expressão "o que", corresponde ao "tudo (que)". Será, então, que Deus tenha purificado, também, o ato íntimo entre as pessoas do mesmo sexo?
 
O curioso é que em todas as explicações sobre a virtude da castidade, fornecidas pelo Catecismo, não aparece a palavra "amor". Não é o amor que purifica? Deus é amor e onde há amor, Deus está presente. Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela demonstrou muito amor - disse Jesus sobre a mulher na casa de um fariseu (Lc 7, 47).
 
Evidentemente, neste exato momento, muitos irão afirmar que não existe o amor verdadeiro entre as pessoas do mesmo sexo, ou então, aquilo que acontece na intimidade de um casal homossexual, pode ser chamado de qualquer coisa, menos de amor. Queria perguntar aqui ao "filósofo" Olavo de Carvalho, ao "pastor" Marco Feliciano (e aos seus respectivos seguidores), se algum deles já sentou para ouvir o que tem para dizer um(a) homossexual? Com certeza, nunca fizeram isso, porque - conforme às suas doutrinas - "tais pessoas" não são dignas de diálogo. Valeria a pena observar o homem que passa, noites e mais noites à beira da cama de hospital, onde agoniza o seu amado. Alguém ainda vai dizer que é apenas desejo carnal que os une? Ali já não existe desejo carnal. É o amor. E aqueles homossexuais que estão prontos para dar a própria vida pela pessoa amada (ou já o fizeram), não expressam, por acaso, um amor que Jesus chama de maior (cf. Jo 15, 13)?
 
Eu sei que existem muitos homossexuais que procuram e vivem o "sexo por sexo" e detestam "todo aquele papo sobre o amor". Certamente, não irão gostar dessa minha opinião. O que, então, acontece, de fato, naquele ato sexual, movido apenas por tesão, pelo desejo da carne? É como se alguém se masturbasse, usando um objeto, neste caso, uma outra pessoa. Quem costuma assistir os filmes pornô, repara-se muito com esse tipo de comportamento. Permita-me perguntar: você tem nojo de zoofilia? Ou acha bizarro, alguém enfiar o seu pênis no buraco, feito em uma melancia? Entretanto, quem transa para sentir apenas o seu próprio prazer, sem se importar com a sensação do outro, está reduzindo outra pessoa ao nível de um animal, ou de uma melancia. Isso, sim, é o amor impuro, porque o amor está ausente. Estou falando de amor recíproco que só é possível entre dois seres humanos (não me venha dizer aqui que você e o seu cachorro se amam!). O amor recíproco, por sua vez, requer a consciência e a liberdade. Por isso, nunca será puro o ato sexual entre um adulto e uma criança. A pedofilia é crime e gravíssimo pecado! Quando falo de amor impuro que apenas usa outra pessoa, como se ela fosse um brinquedo para masturbação, refiro-me a muitos (muitos mesmo!) casos que acontecem na vida de casais heterossexuais. Agora virou piada, mas a famosa frase de uma minissérie nacional, retrata perfeitamente essa realidade (inclusive, aprovadíssima pela Igreja durante muitos séculos): "Prepara-te! Hoje vou te usar!". Alguém vai me dizer que só pelo fato de ter acontecido entre homem e mulher (casados na igreja), tal sexo é casto? A castidade é o amor. E amar, nunca significará usar. O sexo é casto, portanto, quando existe o amor. Não tem nada a ver com a orientação sexual.
 
Será que, a partir deste princípio, podemos começar a conversar?

17 de outubro de 2013

O porquê do(s) Feliciano(s)

 
Quando tudo parecia ser o fim da tempestade, eis que está de volta o personagem que, há pouco, ocupava as manchetes da mídia e, em particular, da mídia GLBTTS: o Deputado Marco Feliciano. Ainda que o mais recente projeto não tenha sido, literalmente, de sua autoria, inevitavelmente todos fazem a associação direta com o dito cujo. A notícia diz o seguinte: A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), aprovou um projeto de lei nesta quarta-feira que livra templos religiosos de punição por preconceito ao recusar a permanência de pessoas “em desacordo com suas crenças”. O texto impede que igrejas sejam criminalizadas ao não permitir casamentos entre homossexuais, por exemplo. O texto propõe a alteração da Lei 7.716, de 5 de janeiro de 1989, que define crimes resultantes do preconceito de raça e cor. O autor do projeto, o deputado Washington Reis (PMDB-RJ), sugeriu a inclusão de uma ressalva no artigo que trata sobre a incitação de preconceito. Apesar de o texto sugerido não falar em gays, o autor da proposta cita na justificativa que crenças religiosas não estão de acordo com a “prática homossexual”. O texto ainda precisa passar pela Comissão de Constituição de Justiça (CCJ). Atualmente, incitar o preconceito pode levar a uma pena de um a três anos de reclusão, além de multa.
 
Complementando, de outra fonte: A Lei livra os templos religiosos da lei de discriminação e os autoriza de vetar casamento gay, batizado de filhos de casais homossexuais e outras cerimônias religiosas. A proposta permite ainda que padres e pastores não aceitem a presença de gays em seus cultos. O objetivo do projeto é evitar que os religiosos sejam criminalizados caso se recusem a aceitar homossexuais em seus templos.
 
Li nestes dias o ótimo texto, escrito por Vinícius, no seu blog "...E Sempre Há Muito A Ser Dito". É a Carta a Feliciano. Entre outras coisas importantes (por isso vale a pena ler o texto inteiro), Vinícius escreve:
 
Infelizmente sei que esta carta jamais chegará até você, embora eu sonhe que um dia você digite seu lindo e gracioso nome no Google e ache mais uma de suas estripulias por lá. Infelizmente, devem haver vários resultados. Possivelmente nenhum relevante para a raça humana, mas é o seu papel, certo? Você deve ter sido destinado a isso: a ser alguém que veio trazer a tempestade. A bonança ainda ficaremos aguardando.
 
Voltando aos seus sentimentos em relação a nós, não heterossexuais, fico me perguntando: "Por que será que somos pauta principal em tudo o que ele faz? Será que isso é coisa da mídia?". Fico pensando se você é algo fabricado para nos espantar das outras atrocidades políticas que acontecem no Brasil. Acho essa uma possibilidade bastante válida. Mas não creio que é somente isso: você tem sentimentos muito fortes além disso.
 
Como acontece na blogosfera, deixei o meu comentário, vinculado ao texto de Vinícius: Excelente texto, pelo menos para nós, porque, como você mesmo diz, o destinatário da carta, muito provavelmente, não terá a mesma cultura para responder (ainda que tenha lido). Eu mesmo procuro refletir sobre as questões que envolvem a homossexualidade e a doutrina cristã. Cada vez mais me convenço de que o diálogo seja muitíssimo difícil (e para muitos, impossível) e o obstáculo já está no início de qualquer tentativa, pois consiste em profundas diferenças linguísticas. É, justamente, a questão de orientação/opção, natural/antinatural, homossexualidade/homossexualismo e assim por diante. O curioso é que muitos religiosos, de um lado negam a nossa existência enquanto seres humanos e, por outro lado - como você aponta - dedicam muito tempo e muita atenção à nossa vida. Pode parecer uma conclusão pessimista, mas acredito que as reflexões - como a sua - tenham uma enorme importância para (lenta, mas eficaz) formação da mentalidade de muita gente. Obrigado por isso!

Aí veio uma dica de um outro blogueiro, Rubens, que disse: Para que vocês entendam o motivo do Feliciano e do Malafaia não largarem do nosso pé:


16 de outubro de 2013

감사합니다 엄마

 
Continua o meu sonho conto sobre o namoro com um rapaz coreano. Acabamos de chegar na casa da minha mãe e ela, muito rapidamente, passou a adorá-lo. O sentimento é, também, nitidamente recíproco. Essa afinidade começou logo no primeiro dia, no final do almoço. A minha mãe estava inicialmente muito preocupada com as diferenças culturais, especialmente no que se refere aos costumes culinários e à etiqueta à mesa. A minha declaração de que o rapaz era moderno, tranquilizou a minha mãe, até o susto que ela levou, por um delicioso instante, depois da refeição. Como de costume, a minha mãe tirou os pratos da mesa e foi à cozinha para fazer o café (sagrado, lá em casa). Ela toma um café solúvel com leite, no copo e sabe que eu gosto de acompanha-la da mesma maneira. O meu café é sempre um pouco mais forte e cada um coloca a sua dose de açúcar no copo (ou seja, o café não é adoçado na hora de ser feito). Como, porém, tratava-se de uma visita e ainda tão exótica, a minha mãe, educadamente, perguntou da cozinha se ele também queria o café ou, por exemplo, um chá. Agora não sei se foi de um propósito minuciosamente elaborado, mas o fato é que ele pediu um chá preto. Dentro de alguns instantes, a minha mãe chegou, carregando três copos em uma bandeja. Estávamos sentados no mesmo sofá, eu no meio, o rapaz e a minha mãe nas pontas. Ele me pediu para trocar de lugar e se sentou mais perto da minha mãe. A cena em seguir merece uma atenção redobrada...
 
Ele tem este costume com as pessoas que considera amigas: quando fala, segura com as duas mãos a mão do outro. A minha mãe contou-me depois que "ele tem alguma coisa no toque que dá uma sensação de ternura e de paz" ("Mãe! Eu que o diga!"). Segurando, portanto, a mão da minha mãe e olhando bem nos seus olhos, ele começou a falar pausadamente...
 
"Mãe! [sic!] Eu conheço muito bem os costumes e as tradições milenares da minha pátria. Sei também cumpri-los todos, com muita reverência, pois reconheço o seu valor. Entre as regras tradicionais da Coréia está a forma de servir o chá. É uma bebida nobre que requer o recipiente igualmente nobre, isto é, a porcelana. Para os coreanos, servir o chá em um copo de vidro, configura o grave insulto. (Nessa hora, a minha mãe tinha a mistura de susto e vergonha, estampada no rosto). Ele continuou, segurando as mãos dela e disse: Eu sou um coreano moderno, aprendi no Brasil muitas coisas novas i boas. Uma delas é a capacidade de respeitar profundamente os costumes antigos, sem estar aprisionado neles. Para mim, o modo tradicional de servir o chá, é um entre outros. Nem melhor, nem pior. É apenas um dos modos. Por isso vou tomar com muito gosto o chá que senhora fez para mim, pois o que importa, é o seu carinho e a sua gentileza ao fazê-lo e não a embalagem no qual ele veio. Com a mesma gratidão, eu tomaria o seu chá, servido em qualquer recipiente."
 
Quando tudo parecia bem resolvido e a sensação de alívio tinha aparecido no rosto da minha mãe, ele prosseguiu: "Aproveitando este exemplo, queria lhe falar sobre outra coisa. Tanto na tradição coreana, quanto na cultura de todas as nações, o casamento entre homem e mulher é mais frequente e considerado normal, a ponto de todas as outras formas serem vistas, pela maioria, como um insulto, ou absurdo. Eu, porém, compreendo este modo como um entre outros. Respeito, reconheço o seu valor milenar e majoritário. Porém, para mim, é apenas um dos modos. É por isso que gostaria de declarar à senhora o meu desejo e pedir o seu consentimento para que eu possa me casar com o seu filho. Na verdade, foi ele que me pediu em casamento, mas é o mesmo sentimento e a mesma vontade que eu trago no meu coração."
 
Não sei se foi a força da comparação, ou as suas mãos "mágicas", mas o que importa é que a minha mãe ficou emocionada e deu a ele um demorado abraço regado de lágrimas. Depois disse simplesmente: "Vocês têm o meu apoio para sempre. Cuidem bem um do outro e se amem muito!"
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Dicionário:
감사합니다  엄마 - (kam-sa-ham-ni-da, oem-ma) Muito obrigado, mamãe!

Teresa e a solidão

 
Quem já leu alguns escritos de Santa Teresa d'Ávila (Doutora da Igreja; 1515-1582), por exemplo, "Livro da vida", "Caminho de perfeição", "Castelo interior", ou outros, percebe facilmente a profunda analogia que existe entre as experiências místicas e... eróticas. Afinal, o essencial, em ambas as dimensões, é a experiência de amor. Por mais que alguém se espante com tal comparação, para mim vale a frase do Evangelho de hoje (Lc 11, 37-41): Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? O mesmo Criador que se revela na infinita riqueza dos fenômenos da alma, manifesta o seu amor em - também infinita - riqueza dos fenômenos do corpo. É claro que trata-se de uma enorme desproporção, pois - como nós, cristãos, acreditamos - a alma é imortal e o corpo (pelo menos em sua forma atual) não é. A desproporção não é, entretanto, uma oposição. Ainda que a Palavra de Deus tenha revelado a rivalidade que existe entre essas duas dimensões do ser humano, a espiritual e a carnal, não há necessidade de demonizar o corpo e, particularmente, a sua experiência sexual, como costumam fazer muitos cristãos.
 
Anselm Grün, monge beneditino e escritor (mais um dos autores, criticados por causa da originalidade de suas ideias), em seu livro "Mística e eros" (Ed. Lyra; Curitiba, 2002), escreve: Eu sei que, a partir da minha história de vida, sempre tenho estado em dificuldades com a minha própria sexualidade, principalmente quando quero padronizá-la ou perco a relação com ela, separando-a, reprimindo-a, ou quando, coisa maximamente preferível, quero elevar-me acima dela. Quando eu a acolho com reconhecimento, como força que me faz sentir vivo, que quer me conduzir para além de mim mesmo, que me faz ser completamente homem, então há instantes nos quais a minha sexualidade se transforma em energia espiritual. Então percebo em mim mesmo uma profunda paz (p. 119).
 
Voltando à Santa Teresa, devo dizer que ao ler os seus textos, sobretudo os autobiográficos, percebo aquela analogia da qual falei acima. Ainda que ela tenha falado de coisas muito mais sublimes e místicas, sinto-me tocado e compreendo, um pouco melhor, as coisas que sinto. Digamos que a "alta mística" de uma Santa Doutora, ajuda a desvendar a "baixa mística" de um homossexual... Vejamos, por exemplo, este texto:
 
Se alguma coisa pudesse dar consolo, seria conversar com quem tivesse passado por esse tormento. (...) É como alguém que está com a corda no pescoço e está sufocando, que procura tomar fôlego. Assim me parece que esse desejo de companhia é nossa fraqueza, pois, como a dor nos põe em perigo de morte, assim o desejo que a alma e o corpo têm de não se separar é o que pede socorro para tomar fôlego. E falando, queixando-se e divertindo-se, busca remédio para viver (Santa Teresa, Livro da vida, Ed. Penguin Classics Companhia das Letras, São Paulo, 2010; p. 183).
 
Ou este trecho, que parece tão familiar para nós, os GLBTT:
 
Era esta visão: vi-me em oração sozinha num campo grande, ao redor de mim pessoas de diferentes tipos me cercavam. Todas, parecia-me, tinham armas nas mãos para ferir-me: umas, lanças; outras, espadas; outras, adagas; e outras, estoques muito grandes. Enfim, eu não podia sair por nenhum lado sem que me pusesse em perigo de morte. E sozinha, sem achar uma pessoa do meu lado. Estando meu espírito nessa aflição, pois não sabia o que fazer de mim, ergui os olhos ao céu e vi Cristo, não no céu, mas acima de mim bem alto no ar. E estendia a mão em minha direção e dali me favorecia de um modo que eu não temia mais todas as outras pessoas, nem elas, ainda que quisessem, podiam me causar dano. (...) falo de amigos e parentes e, o que mais me espanta, pessoas muito boas. Por todos me vi tão pressionada, pensando eles que faziam um bem, que não sabia como me defender nem o que fazer (idem, p. 381-382).
 
Mais um texto. Lindo!
 
Via um anjo junto de mim do lado esquerdo em forma corporal, o que não costumo ver, a não ser por maravilha. (...) Não era grande, mas pequeno, muito bonito, o rosto tão aceso que parecia dos anjos muito elevados que parecem que se abrasam inteiros. (...) Via em suas mãos um dardo de ouro grande e no final da ponta me parecia haver um pouco de fogo. Ele parecia enfiá-lo algumas vezes em meu coração e chagava às entranhas. Ao tirá-lo me parecia que as levava consigo e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão grande a dor que me fazia dar aqueles gemidos, e tão excessiva suavidade que põe em mim essa enorme dor que não há como desejar que se tire nem se contenta a alma com menos do que Deus. Não é uma dor corporal, mas espiritual, ainda que não deixe o corpo de participar em alguma coisa e até bastante (idem, p. 267-268).
 
 

14 de outubro de 2013

동생 사랑해요


Nunca tentei escrever um conto com a temática gay, menos ainda, um conto erótico (embora a erótica em si, esteja presente, já em um simples olhar ou um aperto de mão). Tenho tido, porém, há vários dias, um sonho que - se é que eu consiga raciocinar - está passando na minha mente, sem que eu esteja dormindo. Não sei se a inspiração tenha sido, simplesmente, o fruto de vários filmes que assisti recentemente, ou trata-se de outra fonte (???). O curioso é que eu não estou elaborando as cenas (lugares, personagens e episódios), mas tudo isso vem à minha cabeça pronto e muito detalhado. A coisa, as vezes, está tomando uma dimensão tão intensa que começo a me preocupar com a minha saúde mental. Pode ser, também, o sinal de avanço da minha idade que, como sempre ouvia dizer, em certa altura faz a gente retornar à infância. Não consigo (nem tento) esquecer de longos períodos da época de meus 10-13 anos (apenas suponho essa idade), em que vivia numa espécie de mundos paralelos, em companhia de amigos imaginários, com os quais conversava mais do que com as pessoas reais. Fazíamos passeios fascinantes e sempre tínhamos assuntos para conversar. Depois... cresci e a coisa se dissipou. Até agora...
 
No meu sonho atual, estou vivendo o intenso namoro, com um jovem... coreano (alguém consegue me explicar, de onde veio esse detalhe?). Ele nasceu na Coréia do Sul, embora a sua família tinha conseguido fugir do regime norte-coreano, ainda na época dos avós dele. Com alguns anos de idade, os pais dele mudaram-se para o Brasil, concretamente, para o Rio de Janeiro, onde abriram um restaurante de comida coreana. Ainda não passou na minha cabeça o capítulo que contasse o momento e a maneira de nos conhecermos, mas - muito provavelmente - tenha sido, justamente, naquele restaurante, onde o rapaz já trabalhava, revelando o seu grande talento na cozinha. Há história sobre o  fim de namoro dele com um europeu, talvez alemão, que ajudava, também, no mesmo restaurante. Pelo que consta, eu apareço naquela hora (aqui faltam alguns detalhes). O que está se desenvolvendo é o nosso projeto de casamento (é sério!). Isso inclui a viagem que fazemos juntos, para que ele conheça a minha família. Grandes cenas acontecem na casa da minha mãe que, inclusive, está adorando o seu futuro genro. Embora o meu irmão tenha sido mais lento nessa aceitação, o rapaz torna-se grande amigo das minhas sobrinhas. O próximo passo será a outra viagem, desta vez, à Coréia, mas essa já faz parte da nossa lua de mel, depois do casamento, aqui no Rio. Por enquanto, estamos na casa da minha mãe. Ele arrasa na cozinha, revela um dom de apaziguar os cachorros, quer dormir no chão e tem ótima comunicação com a minha mãe. Os mais impressionantes são os detalhes, gestos, conversas. Não há cenas eróticas (como falei antes). Estamos perdidamente apaixonados e o plano é de abrirmos juntos um outro restaurante. O trabalho paralelo seria de um pequeno centro de cultura coreana, além do escritório de tradução (obviamente, coreano-português e vice-versa). Ele, além de coreano e português, conhece bem o inglês. Enfim, o rapaz é lindo, meigo, inteligente e algo me diz que ainda vou encontra-lo na vida real. Ou é apenas um delírio?

Traduzindo o título:

동생 ( dong-seng ) : Quando um(a) menino(a) chama um(a) menino(a) mais novo(a)
사랑해요 (sarang-heyo) - eu amo você