ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



_____________________________________________________________________________



17 de outubro de 2013

O porquê do(s) Feliciano(s)

 
Quando tudo parecia ser o fim da tempestade, eis que está de volta o personagem que, há pouco, ocupava as manchetes da mídia e, em particular, da mídia GLBTTS: o Deputado Marco Feliciano. Ainda que o mais recente projeto não tenha sido, literalmente, de sua autoria, inevitavelmente todos fazem a associação direta com o dito cujo. A notícia diz o seguinte: A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, presidida pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), aprovou um projeto de lei nesta quarta-feira que livra templos religiosos de punição por preconceito ao recusar a permanência de pessoas “em desacordo com suas crenças”. O texto impede que igrejas sejam criminalizadas ao não permitir casamentos entre homossexuais, por exemplo. O texto propõe a alteração da Lei 7.716, de 5 de janeiro de 1989, que define crimes resultantes do preconceito de raça e cor. O autor do projeto, o deputado Washington Reis (PMDB-RJ), sugeriu a inclusão de uma ressalva no artigo que trata sobre a incitação de preconceito. Apesar de o texto sugerido não falar em gays, o autor da proposta cita na justificativa que crenças religiosas não estão de acordo com a “prática homossexual”. O texto ainda precisa passar pela Comissão de Constituição de Justiça (CCJ). Atualmente, incitar o preconceito pode levar a uma pena de um a três anos de reclusão, além de multa.
 
Complementando, de outra fonte: A Lei livra os templos religiosos da lei de discriminação e os autoriza de vetar casamento gay, batizado de filhos de casais homossexuais e outras cerimônias religiosas. A proposta permite ainda que padres e pastores não aceitem a presença de gays em seus cultos. O objetivo do projeto é evitar que os religiosos sejam criminalizados caso se recusem a aceitar homossexuais em seus templos.
 
Li nestes dias o ótimo texto, escrito por Vinícius, no seu blog "...E Sempre Há Muito A Ser Dito". É a Carta a Feliciano. Entre outras coisas importantes (por isso vale a pena ler o texto inteiro), Vinícius escreve:
 
Infelizmente sei que esta carta jamais chegará até você, embora eu sonhe que um dia você digite seu lindo e gracioso nome no Google e ache mais uma de suas estripulias por lá. Infelizmente, devem haver vários resultados. Possivelmente nenhum relevante para a raça humana, mas é o seu papel, certo? Você deve ter sido destinado a isso: a ser alguém que veio trazer a tempestade. A bonança ainda ficaremos aguardando.
 
Voltando aos seus sentimentos em relação a nós, não heterossexuais, fico me perguntando: "Por que será que somos pauta principal em tudo o que ele faz? Será que isso é coisa da mídia?". Fico pensando se você é algo fabricado para nos espantar das outras atrocidades políticas que acontecem no Brasil. Acho essa uma possibilidade bastante válida. Mas não creio que é somente isso: você tem sentimentos muito fortes além disso.
 
Como acontece na blogosfera, deixei o meu comentário, vinculado ao texto de Vinícius: Excelente texto, pelo menos para nós, porque, como você mesmo diz, o destinatário da carta, muito provavelmente, não terá a mesma cultura para responder (ainda que tenha lido). Eu mesmo procuro refletir sobre as questões que envolvem a homossexualidade e a doutrina cristã. Cada vez mais me convenço de que o diálogo seja muitíssimo difícil (e para muitos, impossível) e o obstáculo já está no início de qualquer tentativa, pois consiste em profundas diferenças linguísticas. É, justamente, a questão de orientação/opção, natural/antinatural, homossexualidade/homossexualismo e assim por diante. O curioso é que muitos religiosos, de um lado negam a nossa existência enquanto seres humanos e, por outro lado - como você aponta - dedicam muito tempo e muita atenção à nossa vida. Pode parecer uma conclusão pessimista, mas acredito que as reflexões - como a sua - tenham uma enorme importância para (lenta, mas eficaz) formação da mentalidade de muita gente. Obrigado por isso!

Aí veio uma dica de um outro blogueiro, Rubens, que disse: Para que vocês entendam o motivo do Feliciano e do Malafaia não largarem do nosso pé:


16 de outubro de 2013

감사합니다 엄마

 
Continua o meu sonho conto sobre o namoro com um rapaz coreano. Acabamos de chegar na casa da minha mãe e ela, muito rapidamente, passou a adorá-lo. O sentimento é, também, nitidamente recíproco. Essa afinidade começou logo no primeiro dia, no final do almoço. A minha mãe estava inicialmente muito preocupada com as diferenças culturais, especialmente no que se refere aos costumes culinários e à etiqueta à mesa. A minha declaração de que o rapaz era moderno, tranquilizou a minha mãe, até o susto que ela levou, por um delicioso instante, depois da refeição. Como de costume, a minha mãe tirou os pratos da mesa e foi à cozinha para fazer o café (sagrado, lá em casa). Ela toma um café solúvel com leite, no copo e sabe que eu gosto de acompanha-la da mesma maneira. O meu café é sempre um pouco mais forte e cada um coloca a sua dose de açúcar no copo (ou seja, o café não é adoçado na hora de ser feito). Como, porém, tratava-se de uma visita e ainda tão exótica, a minha mãe, educadamente, perguntou da cozinha se ele também queria o café ou, por exemplo, um chá. Agora não sei se foi de um propósito minuciosamente elaborado, mas o fato é que ele pediu um chá preto. Dentro de alguns instantes, a minha mãe chegou, carregando três copos em uma bandeja. Estávamos sentados no mesmo sofá, eu no meio, o rapaz e a minha mãe nas pontas. Ele me pediu para trocar de lugar e se sentou mais perto da minha mãe. A cena em seguir merece uma atenção redobrada...
 
Ele tem este costume com as pessoas que considera amigas: quando fala, segura com as duas mãos a mão do outro. A minha mãe contou-me depois que "ele tem alguma coisa no toque que dá uma sensação de ternura e de paz" ("Mãe! Eu que o diga!"). Segurando, portanto, a mão da minha mãe e olhando bem nos seus olhos, ele começou a falar pausadamente...
 
"Mãe! [sic!] Eu conheço muito bem os costumes e as tradições milenares da minha pátria. Sei também cumpri-los todos, com muita reverência, pois reconheço o seu valor. Entre as regras tradicionais da Coréia está a forma de servir o chá. É uma bebida nobre que requer o recipiente igualmente nobre, isto é, a porcelana. Para os coreanos, servir o chá em um copo de vidro, configura o grave insulto. (Nessa hora, a minha mãe tinha a mistura de susto e vergonha, estampada no rosto). Ele continuou, segurando as mãos dela e disse: Eu sou um coreano moderno, aprendi no Brasil muitas coisas novas i boas. Uma delas é a capacidade de respeitar profundamente os costumes antigos, sem estar aprisionado neles. Para mim, o modo tradicional de servir o chá, é um entre outros. Nem melhor, nem pior. É apenas um dos modos. Por isso vou tomar com muito gosto o chá que senhora fez para mim, pois o que importa, é o seu carinho e a sua gentileza ao fazê-lo e não a embalagem no qual ele veio. Com a mesma gratidão, eu tomaria o seu chá, servido em qualquer recipiente."
 
Quando tudo parecia bem resolvido e a sensação de alívio tinha aparecido no rosto da minha mãe, ele prosseguiu: "Aproveitando este exemplo, queria lhe falar sobre outra coisa. Tanto na tradição coreana, quanto na cultura de todas as nações, o casamento entre homem e mulher é mais frequente e considerado normal, a ponto de todas as outras formas serem vistas, pela maioria, como um insulto, ou absurdo. Eu, porém, compreendo este modo como um entre outros. Respeito, reconheço o seu valor milenar e majoritário. Porém, para mim, é apenas um dos modos. É por isso que gostaria de declarar à senhora o meu desejo e pedir o seu consentimento para que eu possa me casar com o seu filho. Na verdade, foi ele que me pediu em casamento, mas é o mesmo sentimento e a mesma vontade que eu trago no meu coração."
 
Não sei se foi a força da comparação, ou as suas mãos "mágicas", mas o que importa é que a minha mãe ficou emocionada e deu a ele um demorado abraço regado de lágrimas. Depois disse simplesmente: "Vocês têm o meu apoio para sempre. Cuidem bem um do outro e se amem muito!"
---------------------------------------------------------------
 
Dicionário:
감사합니다  엄마 - (kam-sa-ham-ni-da, oem-ma) Muito obrigado, mamãe!

Teresa e a solidão

 
Quem já leu alguns escritos de Santa Teresa d'Ávila (Doutora da Igreja; 1515-1582), por exemplo, "Livro da vida", "Caminho de perfeição", "Castelo interior", ou outros, percebe facilmente a profunda analogia que existe entre as experiências místicas e... eróticas. Afinal, o essencial, em ambas as dimensões, é a experiência de amor. Por mais que alguém se espante com tal comparação, para mim vale a frase do Evangelho de hoje (Lc 11, 37-41): Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? O mesmo Criador que se revela na infinita riqueza dos fenômenos da alma, manifesta o seu amor em - também infinita - riqueza dos fenômenos do corpo. É claro que trata-se de uma enorme desproporção, pois - como nós, cristãos, acreditamos - a alma é imortal e o corpo (pelo menos em sua forma atual) não é. A desproporção não é, entretanto, uma oposição. Ainda que a Palavra de Deus tenha revelado a rivalidade que existe entre essas duas dimensões do ser humano, a espiritual e a carnal, não há necessidade de demonizar o corpo e, particularmente, a sua experiência sexual, como costumam fazer muitos cristãos.
 
Anselm Grün, monge beneditino e escritor (mais um dos autores, criticados por causa da originalidade de suas ideias), em seu livro "Mística e eros" (Ed. Lyra; Curitiba, 2002), escreve: Eu sei que, a partir da minha história de vida, sempre tenho estado em dificuldades com a minha própria sexualidade, principalmente quando quero padronizá-la ou perco a relação com ela, separando-a, reprimindo-a, ou quando, coisa maximamente preferível, quero elevar-me acima dela. Quando eu a acolho com reconhecimento, como força que me faz sentir vivo, que quer me conduzir para além de mim mesmo, que me faz ser completamente homem, então há instantes nos quais a minha sexualidade se transforma em energia espiritual. Então percebo em mim mesmo uma profunda paz (p. 119).
 
Voltando à Santa Teresa, devo dizer que ao ler os seus textos, sobretudo os autobiográficos, percebo aquela analogia da qual falei acima. Ainda que ela tenha falado de coisas muito mais sublimes e místicas, sinto-me tocado e compreendo, um pouco melhor, as coisas que sinto. Digamos que a "alta mística" de uma Santa Doutora, ajuda a desvendar a "baixa mística" de um homossexual... Vejamos, por exemplo, este texto:
 
Se alguma coisa pudesse dar consolo, seria conversar com quem tivesse passado por esse tormento. (...) É como alguém que está com a corda no pescoço e está sufocando, que procura tomar fôlego. Assim me parece que esse desejo de companhia é nossa fraqueza, pois, como a dor nos põe em perigo de morte, assim o desejo que a alma e o corpo têm de não se separar é o que pede socorro para tomar fôlego. E falando, queixando-se e divertindo-se, busca remédio para viver (Santa Teresa, Livro da vida, Ed. Penguin Classics Companhia das Letras, São Paulo, 2010; p. 183).
 
Ou este trecho, que parece tão familiar para nós, os GLBTT:
 
Era esta visão: vi-me em oração sozinha num campo grande, ao redor de mim pessoas de diferentes tipos me cercavam. Todas, parecia-me, tinham armas nas mãos para ferir-me: umas, lanças; outras, espadas; outras, adagas; e outras, estoques muito grandes. Enfim, eu não podia sair por nenhum lado sem que me pusesse em perigo de morte. E sozinha, sem achar uma pessoa do meu lado. Estando meu espírito nessa aflição, pois não sabia o que fazer de mim, ergui os olhos ao céu e vi Cristo, não no céu, mas acima de mim bem alto no ar. E estendia a mão em minha direção e dali me favorecia de um modo que eu não temia mais todas as outras pessoas, nem elas, ainda que quisessem, podiam me causar dano. (...) falo de amigos e parentes e, o que mais me espanta, pessoas muito boas. Por todos me vi tão pressionada, pensando eles que faziam um bem, que não sabia como me defender nem o que fazer (idem, p. 381-382).
 
Mais um texto. Lindo!
 
Via um anjo junto de mim do lado esquerdo em forma corporal, o que não costumo ver, a não ser por maravilha. (...) Não era grande, mas pequeno, muito bonito, o rosto tão aceso que parecia dos anjos muito elevados que parecem que se abrasam inteiros. (...) Via em suas mãos um dardo de ouro grande e no final da ponta me parecia haver um pouco de fogo. Ele parecia enfiá-lo algumas vezes em meu coração e chagava às entranhas. Ao tirá-lo me parecia que as levava consigo e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão grande a dor que me fazia dar aqueles gemidos, e tão excessiva suavidade que põe em mim essa enorme dor que não há como desejar que se tire nem se contenta a alma com menos do que Deus. Não é uma dor corporal, mas espiritual, ainda que não deixe o corpo de participar em alguma coisa e até bastante (idem, p. 267-268).
 
 

14 de outubro de 2013

동생 사랑해요


Nunca tentei escrever um conto com a temática gay, menos ainda, um conto erótico (embora a erótica em si, esteja presente, já em um simples olhar ou um aperto de mão). Tenho tido, porém, há vários dias, um sonho que - se é que eu consiga raciocinar - está passando na minha mente, sem que eu esteja dormindo. Não sei se a inspiração tenha sido, simplesmente, o fruto de vários filmes que assisti recentemente, ou trata-se de outra fonte (???). O curioso é que eu não estou elaborando as cenas (lugares, personagens e episódios), mas tudo isso vem à minha cabeça pronto e muito detalhado. A coisa, as vezes, está tomando uma dimensão tão intensa que começo a me preocupar com a minha saúde mental. Pode ser, também, o sinal de avanço da minha idade que, como sempre ouvia dizer, em certa altura faz a gente retornar à infância. Não consigo (nem tento) esquecer de longos períodos da época de meus 10-13 anos (apenas suponho essa idade), em que vivia numa espécie de mundos paralelos, em companhia de amigos imaginários, com os quais conversava mais do que com as pessoas reais. Fazíamos passeios fascinantes e sempre tínhamos assuntos para conversar. Depois... cresci e a coisa se dissipou. Até agora...
 
No meu sonho atual, estou vivendo o intenso namoro, com um jovem... coreano (alguém consegue me explicar, de onde veio esse detalhe?). Ele nasceu na Coréia do Sul, embora a sua família tinha conseguido fugir do regime norte-coreano, ainda na época dos avós dele. Com alguns anos de idade, os pais dele mudaram-se para o Brasil, concretamente, para o Rio de Janeiro, onde abriram um restaurante de comida coreana. Ainda não passou na minha cabeça o capítulo que contasse o momento e a maneira de nos conhecermos, mas - muito provavelmente - tenha sido, justamente, naquele restaurante, onde o rapaz já trabalhava, revelando o seu grande talento na cozinha. Há história sobre o  fim de namoro dele com um europeu, talvez alemão, que ajudava, também, no mesmo restaurante. Pelo que consta, eu apareço naquela hora (aqui faltam alguns detalhes). O que está se desenvolvendo é o nosso projeto de casamento (é sério!). Isso inclui a viagem que fazemos juntos, para que ele conheça a minha família. Grandes cenas acontecem na casa da minha mãe que, inclusive, está adorando o seu futuro genro. Embora o meu irmão tenha sido mais lento nessa aceitação, o rapaz torna-se grande amigo das minhas sobrinhas. O próximo passo será a outra viagem, desta vez, à Coréia, mas essa já faz parte da nossa lua de mel, depois do casamento, aqui no Rio. Por enquanto, estamos na casa da minha mãe. Ele arrasa na cozinha, revela um dom de apaziguar os cachorros, quer dormir no chão e tem ótima comunicação com a minha mãe. Os mais impressionantes são os detalhes, gestos, conversas. Não há cenas eróticas (como falei antes). Estamos perdidamente apaixonados e o plano é de abrirmos juntos um outro restaurante. O trabalho paralelo seria de um pequeno centro de cultura coreana, além do escritório de tradução (obviamente, coreano-português e vice-versa). Ele, além de coreano e português, conhece bem o inglês. Enfim, o rapaz é lindo, meigo, inteligente e algo me diz que ainda vou encontra-lo na vida real. Ou é apenas um delírio?

Traduzindo o título:

동생 ( dong-seng ) : Quando um(a) menino(a) chama um(a) menino(a) mais novo(a)
사랑해요 (sarang-heyo) - eu amo você

13 de outubro de 2013

O antidepressivo chamado gratidão

 
A palavra "depressão" tem vários significados. Além de ser o nome de um distúrbio mental, altamente debilitante, a ponto de ser considerado por muitos como o “mal do século”, o termo é usado no estudo de geografia (uma região da superfície da Terra cuja altitude é mais baixa que a região à sua volta. Quando esta região situa-se numa altitude abaixo do nível do mar, ela é chamada de depressão absoluta), meteorologia (uma zona da atmosfera onde a pressão atmosférica é mais baixa que à sua volta) e economia (longo período de estagnação econômica mais prolongado e severa do que uma recessão). Para quem não é um perito em psicologia/psiquiatria, em geografia, nem meteorologia/climatologia (tipo: eu), a imaginação leva a visualizar uma linha que marca o "nível zero". Logo, aquilo que estiver abaixo dessa linha, está em depressão.
 
Acredito na existência de uma depressão espiritual/intelectual/social que talvez não seja uma doença, mas consiste em uma séria limitação do horizonte existencial, ou seja, da percepção que temos de nós mesmos e do mundo em nossa volta. Uma das áreas mais prejudicadas é a dimensão espiritual (ou religiosa) e a outra, sem dúvida, é a nossa convivência com os demais seres humanos. Basicamente, trata-se de uma espécie de "deslocamento" dos valores para baixo. A nossa cultura/mentalidade é, de modo geral, malcontente. A nossa mídia é negativista. As nossas conversas revelam, em sua maior parte, a grande insatisfação com tudo e com todos. Perdemos a capacidade de enxergar o bem, porque o bem passou a ser visto como o "nível zero". E o zero não merece atenção, é apenas normal. É como o ar com o qual respiramos, mesmo sem percebê-lo. A consequência imediata dessa situação é uma falta de gratidão, quase absoluta. Provavelmente, até a palavra usada para expressar a gratidão, tenha sido contestada, por se associar à obrigação que, por sua vez, é a maior inimiga do relativismo vigente.
 
Atenção! Eu não estou pregando um "lulismo-paz-e-amor" barato, nem pretendo anestesiar a sensibilidade para com os males que assolam o nosso mundo. Denunciar o mal, lutar contra as injustiças, apontar os problemas... não tem nada a ver com a depressão cultural. É, antes, um ato de coragem, um sinal de boa vontade, enfim... é tudo de bom. O que estou tentando dizer é que, talvez devido à epidemia do mal e à sua ampla divulgação, tenhamos perdido a noção daquilo que é positivo, precioso, enriquecedor, o que torna a nossa vida melhor, o que nos faz crescer e, finalmente, desperta(ria) em nós a gratidão.
 
Os textos bíblicos da liturgia de hoje falam sobre isso. A questão de gratidão/ingratidão está mais nítida no Evangelho (Lc 17, 11-19): Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. Então Jesus lhe perguntou: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?". O mesmo tema, frisando mais a gratidão (sem mencionar o lado oposto), apresenta o texto da I leitura (2Rs 5, 14-17). O sírio Naamã, já surpreendido pela simplicidade da graça de Deus, desdobra-se ao procurar a melhor maneira para agradecer pela cura. Descobre, finalmente, que a melhor forma de agradecer a Deus é o culto prestado a Ele. A ideia continua no Salmo (Sl 97): O Senhor fez conhecer a salvação e às nações, sua justiça; recordou o seu amor sempre fiel pela casa de Israel. Paulo, na segunda leitura (2Tm 2, 8-13), conclui com um conselho e um desabafo: Lembra-te de Jesus Cristo (...), suporto qualquer coisa.
 
Confesso que me entristece o fato de ver/ler/ouvir tantas declarações de agnosticismo e ateísmo (explícitos), de menor ou maior distanciamento dessa ou daquela religião, feitas pelos representantes do "mundo GLBTTS". Tudo bem, a ação gera a reação. Sinto, porém, por trás dessa contestação, aquela lógica da depressão cultural.  Por mais que alguém diga que tenha abandonado a instituição religiosa e não o próprio Deus, a direção continua a mesma. É possível pensar assim: "Eu abandono um «deus» que me foi transmitido pela Igreja e vou procurar o Deus verdadeiro". Se for realmente isso, tudo bem, mas na prática, abandona-se a religião e se esquece de Deus, ou não se acredita mais nem na sua existência.
 
Lembro-me de uma senhora que, em certa época, era a minha vizinha. Ela, desde a infância, tinha um grave defeito nos pés que não lhe permitia andar. A mulher vivia acamada, mas não me lembro de ter conhecido a pessoa que fosse mais alegre e otimista. Ela vivia louvando e agradecendo a Deus. Várias pessoas iam lá, na casa dela, para receber (não para dar!) o conforto em seus problemas e ela levava todo mundo à oração, à leitura da Bíblia e ao louvor. Muita gente saía de lá com a motivação renovada para agradecer a Deus.
 
Consciente de toda intolerância, homofobia, rejeição familiar e social e de tudo o mais que afeta a vida das pessoas GLBTT, pergunto: nós, de fato, não temos nenhum motivo para agradecer a Deus? O que somos e temos, consideramos - simplesmente - como o "nível zero" e o resto como "abaixo de zero"? Será que não podemos descobrir a gratidão (a Deus, às pessoas), como o antídoto para depressão? Eu sou capaz de dizer: "Agradeço a Deus pelo fato de eu ser gay"?

O casório

 
Estou de volta, depois de participar de um momento histórico: a cerimônia de assinatura de declaração de pacto de união estável, entre A. e V. Não houve a pergunta sobre os possíveis impedimentos ao casamento (com aquela famosa frase: "Diga agora ou cale-se para sempre!"), aliás, não houve qualquer pergunta, nem a presença de um juiz. Enfim, não se trata de um casamento, no sentido literal da palavra, ainda que os efeitos tenham sido os mesmos - pelo menos, no coração dos noivos (que o documento define com a palavra feia "contratantes") e, certamente, de todos os convidados, visivelmente emocionados. Um dos noivos fez o seu breve pronunciamento, os dois assinaram o documento, trocaram as alianças e a festa continuou, em forma de um esplêndido jantar.
 
O que mais chamou a minha atenção, foi a sensação de maior naturalidade na face da terra. Ninguém ficou cochichando pelos cantos, não houve um comentário sequer, sobre o fato de dois homens declararem o início de uma nova fase de suas vidas que, desde agora, tornam-se uma vida só. O grupo de convidados contou com a presença de umas 40 pessoas, entre os familiares (não todos compareceram e alguns nem ficaram sabendo da cerimônia), os amigos e a equipe do bufê. Ninguém estranhou a presença de algumas crianças na festa...
 
Eu perco a minha timidez, depois do segundo copo de caipirinha... Puxei o assunto da diferença de idade dos noivos (24 - 50 e poucos), em algumas conversas particulares, tentei fazer - em vão - as intervenções relacionadas ao beijo dos dois e da leitura - em voz alta - do texto daquele documento que tinha sido assinado. A única coisa que consegui, foi convencer os noivos (contratantes, nubentes, enfim...) a brindarem com o champanhe, cruzando os braços, mais ou menos assim, como os alemães e outros europeus, bebem o "brüderschaft" (um brinde à amizade que resulta em abandonar as formalidades e começar a chamar determinada pessoa pelo nome).
 
Depois do 4° copo de caipirinha, comecei as minhas investidas em relação a um jovem convidado, segundo o meu amigo (o noivo), um gay declarado. Consegui conversar um pouco com ele, descobri que mora no bairro vizinho e tal. Queria mais, mas como ele faz parte do grupo de amigos do outro noivo, provavelmente surgirão novas ocasiões para prosseguir o contato. Só para encerrar esse assunto, os 4 copos (relativamente pequenos) de caipirinha, não me deixam embriagado. Antes, ajudam-me a sair do casulo de timidez exagerada (e quase sair do armário). Falando nisso, descobri que a minha amiga que também estava presente ali, simplesmente sabe que eu sou gay, mesmo sem termos conversado sobre isso...
 
Enfim, foi uma noite feliz, marcada pelas gargalhadas saudáveis e mesas fartas. E, o que mais importante, o espírito de amor pairava sobre todos. Talvez tenha faltado um buquê de flores, jogado pelos noivos na minha direção (também reclamei!), mas o momento não deixou de ser contagiante de verdade. O namorado da minha amiga fez a ela o pedido de casamento. E ainda tem gente dizendo que "as uniões de pessoas do mesmo sexo ameaçam a família, enquanto célula fundamental da sociedade". Quem pensa assim, deveria participar de cerimônias como essa.
 
Parabéns aos pombinhos que, nesta altura, devem ter desembrulhado todos os presentes...

12 de outubro de 2013

O ser humano agredido

 
As redes sociais, especialmente o facebook, é uma espécie de mídia popular, onde cada um se torna jornalista, sociólogo, filósofo, político, juiz esportivo etc. Muita gente compartilha, multiplica, curte e comenta. Revela-se assim o nível intelectual das pessoas, bem como os seus (pre)conceitos, medos e preocupações. Sai, escondido sob a fachada do cotidiano, o caráter. Acabo de ler um texto bastante característico:
 
Um homossexual agredido é manchete de qualquer jornal brasileiro. Já a morte de dezenas de cristãos, em virtude de atos de violência planejados, como expressão de anticristianismo, é solenemente ignorada pela imprensa.
 
A polêmica entre os cristãos (de várias denominações) e os componentes do mundo GLBTTS continua. O que foi dito em tom de reclamação, só pode ter a seguinte resposta:
 
A cada minuto acontece o ato de violência contra o ser humano. Estão sendo agredidos os cristãos, os muçulmanos, os espíritas, os budistas, os hinduístas, os ateus, os heterossexuais, os homossexuais, os bissexuais, os travestís, os transgêneros, os idosos, as mulheres, os jovens, as crianças, os pobres, os ricos, os motoristas, os pedestres, os negros, os asiáticos, os nordestinos, os europeus... os seres humanos.
 
Os autores de comentários daquele tipo não se dão conta de que a maneira de expor as suas ideias em nada contribui para com a diminuição de violência. Bem pelo contrário. Sustentar a ideologia de "nós e eles" é um método eficaz de alimentar as antipatias que desabrocham em atos de violência.
 
Denunciar os atos de violência contra os cristãos é importante, afinal o cristianismo está na base de nossa sociedade ocidental e muitos se identificam com ele. Qual é, então, o propósito de fazer esse tipo de comparação? Será o espírito do Dia das Crianças que se espalhou hoje um pouco mais do que em outros dias? Alguém já viu um grupo de crianças brincando, onde acontecem as cenas de alta inveja, só pelo fato de que aquele coleguinha pegou um brinquedo abandonado que - de repente - outra criança resolveu pegar também, justamente, na mesma hora?