ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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13 de outubro de 2013

O antidepressivo chamado gratidão

 
A palavra "depressão" tem vários significados. Além de ser o nome de um distúrbio mental, altamente debilitante, a ponto de ser considerado por muitos como o “mal do século”, o termo é usado no estudo de geografia (uma região da superfície da Terra cuja altitude é mais baixa que a região à sua volta. Quando esta região situa-se numa altitude abaixo do nível do mar, ela é chamada de depressão absoluta), meteorologia (uma zona da atmosfera onde a pressão atmosférica é mais baixa que à sua volta) e economia (longo período de estagnação econômica mais prolongado e severa do que uma recessão). Para quem não é um perito em psicologia/psiquiatria, em geografia, nem meteorologia/climatologia (tipo: eu), a imaginação leva a visualizar uma linha que marca o "nível zero". Logo, aquilo que estiver abaixo dessa linha, está em depressão.
 
Acredito na existência de uma depressão espiritual/intelectual/social que talvez não seja uma doença, mas consiste em uma séria limitação do horizonte existencial, ou seja, da percepção que temos de nós mesmos e do mundo em nossa volta. Uma das áreas mais prejudicadas é a dimensão espiritual (ou religiosa) e a outra, sem dúvida, é a nossa convivência com os demais seres humanos. Basicamente, trata-se de uma espécie de "deslocamento" dos valores para baixo. A nossa cultura/mentalidade é, de modo geral, malcontente. A nossa mídia é negativista. As nossas conversas revelam, em sua maior parte, a grande insatisfação com tudo e com todos. Perdemos a capacidade de enxergar o bem, porque o bem passou a ser visto como o "nível zero". E o zero não merece atenção, é apenas normal. É como o ar com o qual respiramos, mesmo sem percebê-lo. A consequência imediata dessa situação é uma falta de gratidão, quase absoluta. Provavelmente, até a palavra usada para expressar a gratidão, tenha sido contestada, por se associar à obrigação que, por sua vez, é a maior inimiga do relativismo vigente.
 
Atenção! Eu não estou pregando um "lulismo-paz-e-amor" barato, nem pretendo anestesiar a sensibilidade para com os males que assolam o nosso mundo. Denunciar o mal, lutar contra as injustiças, apontar os problemas... não tem nada a ver com a depressão cultural. É, antes, um ato de coragem, um sinal de boa vontade, enfim... é tudo de bom. O que estou tentando dizer é que, talvez devido à epidemia do mal e à sua ampla divulgação, tenhamos perdido a noção daquilo que é positivo, precioso, enriquecedor, o que torna a nossa vida melhor, o que nos faz crescer e, finalmente, desperta(ria) em nós a gratidão.
 
Os textos bíblicos da liturgia de hoje falam sobre isso. A questão de gratidão/ingratidão está mais nítida no Evangelho (Lc 17, 11-19): Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. Então Jesus lhe perguntou: “Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão?". O mesmo tema, frisando mais a gratidão (sem mencionar o lado oposto), apresenta o texto da I leitura (2Rs 5, 14-17). O sírio Naamã, já surpreendido pela simplicidade da graça de Deus, desdobra-se ao procurar a melhor maneira para agradecer pela cura. Descobre, finalmente, que a melhor forma de agradecer a Deus é o culto prestado a Ele. A ideia continua no Salmo (Sl 97): O Senhor fez conhecer a salvação e às nações, sua justiça; recordou o seu amor sempre fiel pela casa de Israel. Paulo, na segunda leitura (2Tm 2, 8-13), conclui com um conselho e um desabafo: Lembra-te de Jesus Cristo (...), suporto qualquer coisa.
 
Confesso que me entristece o fato de ver/ler/ouvir tantas declarações de agnosticismo e ateísmo (explícitos), de menor ou maior distanciamento dessa ou daquela religião, feitas pelos representantes do "mundo GLBTTS". Tudo bem, a ação gera a reação. Sinto, porém, por trás dessa contestação, aquela lógica da depressão cultural.  Por mais que alguém diga que tenha abandonado a instituição religiosa e não o próprio Deus, a direção continua a mesma. É possível pensar assim: "Eu abandono um «deus» que me foi transmitido pela Igreja e vou procurar o Deus verdadeiro". Se for realmente isso, tudo bem, mas na prática, abandona-se a religião e se esquece de Deus, ou não se acredita mais nem na sua existência.
 
Lembro-me de uma senhora que, em certa época, era a minha vizinha. Ela, desde a infância, tinha um grave defeito nos pés que não lhe permitia andar. A mulher vivia acamada, mas não me lembro de ter conhecido a pessoa que fosse mais alegre e otimista. Ela vivia louvando e agradecendo a Deus. Várias pessoas iam lá, na casa dela, para receber (não para dar!) o conforto em seus problemas e ela levava todo mundo à oração, à leitura da Bíblia e ao louvor. Muita gente saía de lá com a motivação renovada para agradecer a Deus.
 
Consciente de toda intolerância, homofobia, rejeição familiar e social e de tudo o mais que afeta a vida das pessoas GLBTT, pergunto: nós, de fato, não temos nenhum motivo para agradecer a Deus? O que somos e temos, consideramos - simplesmente - como o "nível zero" e o resto como "abaixo de zero"? Será que não podemos descobrir a gratidão (a Deus, às pessoas), como o antídoto para depressão? Eu sou capaz de dizer: "Agradeço a Deus pelo fato de eu ser gay"?

O casório

 
Estou de volta, depois de participar de um momento histórico: a cerimônia de assinatura de declaração de pacto de união estável, entre A. e V. Não houve a pergunta sobre os possíveis impedimentos ao casamento (com aquela famosa frase: "Diga agora ou cale-se para sempre!"), aliás, não houve qualquer pergunta, nem a presença de um juiz. Enfim, não se trata de um casamento, no sentido literal da palavra, ainda que os efeitos tenham sido os mesmos - pelo menos, no coração dos noivos (que o documento define com a palavra feia "contratantes") e, certamente, de todos os convidados, visivelmente emocionados. Um dos noivos fez o seu breve pronunciamento, os dois assinaram o documento, trocaram as alianças e a festa continuou, em forma de um esplêndido jantar.
 
O que mais chamou a minha atenção, foi a sensação de maior naturalidade na face da terra. Ninguém ficou cochichando pelos cantos, não houve um comentário sequer, sobre o fato de dois homens declararem o início de uma nova fase de suas vidas que, desde agora, tornam-se uma vida só. O grupo de convidados contou com a presença de umas 40 pessoas, entre os familiares (não todos compareceram e alguns nem ficaram sabendo da cerimônia), os amigos e a equipe do bufê. Ninguém estranhou a presença de algumas crianças na festa...
 
Eu perco a minha timidez, depois do segundo copo de caipirinha... Puxei o assunto da diferença de idade dos noivos (24 - 50 e poucos), em algumas conversas particulares, tentei fazer - em vão - as intervenções relacionadas ao beijo dos dois e da leitura - em voz alta - do texto daquele documento que tinha sido assinado. A única coisa que consegui, foi convencer os noivos (contratantes, nubentes, enfim...) a brindarem com o champanhe, cruzando os braços, mais ou menos assim, como os alemães e outros europeus, bebem o "brüderschaft" (um brinde à amizade que resulta em abandonar as formalidades e começar a chamar determinada pessoa pelo nome).
 
Depois do 4° copo de caipirinha, comecei as minhas investidas em relação a um jovem convidado, segundo o meu amigo (o noivo), um gay declarado. Consegui conversar um pouco com ele, descobri que mora no bairro vizinho e tal. Queria mais, mas como ele faz parte do grupo de amigos do outro noivo, provavelmente surgirão novas ocasiões para prosseguir o contato. Só para encerrar esse assunto, os 4 copos (relativamente pequenos) de caipirinha, não me deixam embriagado. Antes, ajudam-me a sair do casulo de timidez exagerada (e quase sair do armário). Falando nisso, descobri que a minha amiga que também estava presente ali, simplesmente sabe que eu sou gay, mesmo sem termos conversado sobre isso...
 
Enfim, foi uma noite feliz, marcada pelas gargalhadas saudáveis e mesas fartas. E, o que mais importante, o espírito de amor pairava sobre todos. Talvez tenha faltado um buquê de flores, jogado pelos noivos na minha direção (também reclamei!), mas o momento não deixou de ser contagiante de verdade. O namorado da minha amiga fez a ela o pedido de casamento. E ainda tem gente dizendo que "as uniões de pessoas do mesmo sexo ameaçam a família, enquanto célula fundamental da sociedade". Quem pensa assim, deveria participar de cerimônias como essa.
 
Parabéns aos pombinhos que, nesta altura, devem ter desembrulhado todos os presentes...

12 de outubro de 2013

O ser humano agredido

 
As redes sociais, especialmente o facebook, é uma espécie de mídia popular, onde cada um se torna jornalista, sociólogo, filósofo, político, juiz esportivo etc. Muita gente compartilha, multiplica, curte e comenta. Revela-se assim o nível intelectual das pessoas, bem como os seus (pre)conceitos, medos e preocupações. Sai, escondido sob a fachada do cotidiano, o caráter. Acabo de ler um texto bastante característico:
 
Um homossexual agredido é manchete de qualquer jornal brasileiro. Já a morte de dezenas de cristãos, em virtude de atos de violência planejados, como expressão de anticristianismo, é solenemente ignorada pela imprensa.
 
A polêmica entre os cristãos (de várias denominações) e os componentes do mundo GLBTTS continua. O que foi dito em tom de reclamação, só pode ter a seguinte resposta:
 
A cada minuto acontece o ato de violência contra o ser humano. Estão sendo agredidos os cristãos, os muçulmanos, os espíritas, os budistas, os hinduístas, os ateus, os heterossexuais, os homossexuais, os bissexuais, os travestís, os transgêneros, os idosos, as mulheres, os jovens, as crianças, os pobres, os ricos, os motoristas, os pedestres, os negros, os asiáticos, os nordestinos, os europeus... os seres humanos.
 
Os autores de comentários daquele tipo não se dão conta de que a maneira de expor as suas ideias em nada contribui para com a diminuição de violência. Bem pelo contrário. Sustentar a ideologia de "nós e eles" é um método eficaz de alimentar as antipatias que desabrocham em atos de violência.
 
Denunciar os atos de violência contra os cristãos é importante, afinal o cristianismo está na base de nossa sociedade ocidental e muitos se identificam com ele. Qual é, então, o propósito de fazer esse tipo de comparação? Será o espírito do Dia das Crianças que se espalhou hoje um pouco mais do que em outros dias? Alguém já viu um grupo de crianças brincando, onde acontecem as cenas de alta inveja, só pelo fato de que aquele coleguinha pegou um brinquedo abandonado que - de repente - outra criança resolveu pegar também, justamente, na mesma hora?

Ser criança

 
O Dia das Crianças, celebrado no Brasil hoje (enquanto alguns outros países têm outras datas para tal comemoração), inspira várias reflexões. De um lado, é claro, a realidade das crianças de hoje - algo que desperta a ternura adormecida, traz preocupações e, até assusta de vez em quando. É o famoso e eterno: "Na minha época, a infância era diferente". Por outro lado, os pensamentos de um adulto, gay, solteiro... Uma parte das ideias gira em torno do passado e daquilo que sobrou em mim dos tempos de criança. Outra parte, em tom um tanto melancólico, afirma: as crianças sempre serão dos outros, pois nunca serei um pai natural e a adoção - pelo menos no momento - está fora de cogitação.
 
Assim, tenho a admiração pela beleza, inteligência e sinceridade das crianças, misturada com a profunda indignação, diante dos atos de violência, cometidos tão frequentemente, tanto de maneira individual, quanto em forma de injustiça social. Cada criança merece respeito, cuidado, segurança e um futuro feliz que coincide com a felicidade preservada desde já.
 
Quanto à recordação da minha própria infância, sinto a gratidão e a saudade, ainda que tenha sido um período regado de lágrimas. Considero a minha infância feliz, mas naquele tempo eu era muito chorão. Não fazia ideia de que tinha sido um gay. Sempre achei que olhar com admiração em direção aos meninos, era algo perfeitamente natural. Na verdade, não se falava de homossexuais e a homofobia - pelo menos em forma conhecida hoje - nem fazia parte da realidade. Lembro-me apenas de uma ou duas piadas sobre homens efeminados. Eu ria também, porque era engraçado. Como que atrás de uma neblina, vejo-me brincando com as bonecas que, depois, misteriosamente foram substituídas pelos ursinhos. Cedo aprendi algumas tarefas "femininas", tais como alguns simples truques de costura e de tricô (sem saber que, algumas décadas mais tarde, "tricotar" seria o sinônimo de "conversa entre duas bichas", como afirma um dicionário), bem como de me sentir bem na cozinha. A curiosidade daquele tempo é que eu sempre era um "namorador de meninas" - desde o jardim de infância (acredite quem quiser). Até briguei por uma menina com um grandalhão na escola. Hoje vejo isso - assim como a total ausência de "trejeitos efeminados" - como o fruto de alguma intuição de autodefesa - tudo de forma totalmente inconsciente. Nunca rolou um beijinho sequer com uma menina. Era algo que hoje pode ser chamado de fachada, só que sem ser um propósito, ou uma "estratégia". Desde cedo senti atração pelos meninos. Nunca gostei de jogar bola, mas adorava assistir os outros jogando. Confesso que, nem na infância, nem na adolescência, experimentei a "angústia de ser diferente", pois, como falei, sempre achava tudo isso absolutamente natural.
 
Leio hoje em dia os relatos de meninos com 12-14 anos que descobrem a própria homossexualidade e já sabem defini-la como tal. Provavelmente estamos diante de uma época diferente. A mentalidade mudou, a mídia também. A visibilidade GLBTT é infinitamente maior, a autoconsciência também. Lamentavelmente, a homofobia ganhou também muito mais espaço. De um lado, fico espantado com uma criança de seis anos que foi autorizada a mudar de nome e de gênero no registro de identidade argentino. Ao mesmo tempo, assusta a quantidade de atos de bullying homofóbico, inclusive nas escolas primárias. 
 
Só me resta agradecer a Deus, aos meus pais e demais familiares, pela infância que tive e tentar preservar a "eterna criança" dentro de mim. E, parabéns a todas as crianças pelo dia de hoje. Que seja protegida a sua dignidade e cumpram-se as leis, principalmente aquela que é fundamental: de amar e de ser amado(a).

11 de outubro de 2013

Visitação

 
A vida continua, acontecem coisas importantes (e envolventes) e eu, aqui, continuo com o meu tercinho. A oração pode acompanhar todas as coisas, embora eu nunca tenha visto pessoas rezando o terço em uma Parada Gay (é uma das coisas que vai acontecer nestes dias). Bem... nunca vi, porque nunca fui nesse evento. Obviamente, o clima da Parada não contribui para com uma oração sequer, mas não me surpreenderia se alguém conseguisse essa arte (até me vem na mente um nome que começa com a letra "L" - é o rapaz que não renuncia, nem esconde, a sua identidade gay na Igreja e a sua fé cristã no meio GLBTTS... aliás, nem sei se ele costuma ir às paradas). É claro, o assunto não ia ser esse. Mas, como já comecei a falar das coisas que acontecem nesses dias (enquanto eu rezo o meu tercinho), devo lembrar de que amanhã estarei - pela primeira vez na minha vida - no casamento homoafetivo. Já estou ansioso e emocionado antecipadamente e - curiosamente - essa ocasião se inscreve na minha meditação do 2° mistério gozoso do rosário (não fui eu quem inventou esse termo!).
 
Além de toda riqueza bíblico-teológica (cf. Lc 1, 39-56) da visita que Maria foi fazer na casa de sua parenta Isabel, trata-se de um encontro - por que não dizer isso? - afetivo. O afeto é tão profundo que envolve o menino no ventre da mulher mais velha: apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1, 41). Vale acrescentar aqui o dado importantíssimo da doutrina cristã: Maria já carregava no seu seio imaculado o Filho de Deus, tendo-se passado um curto período de alguns dias, após o seu sim dado a Deus, representado pelo Anjo. Deu-se, portanto, o duplo encontro: de Maria com Isabel e de Jesus com João Batista. Este encontro, porém, ainda que o mais importante, permanece na esfera do mistério da fé. O que temos, diante dos nossos olhos, é o profundo afeto de duas mulheres, unidas no amor indescritível e "separadas" por uma grande diferença de idade.
 
É por isso disse antes que o casamento, ao qual fui convidado, me vem na mente neste momento. Como falei há um tempo, o meu amigo (um dos noivos) tem 24 anos e o seu futuro marido... mais de 50. Deixando de lado todos aqueles que consideram a união homoafetiva um absurdo em si, detenho-me em outra opinião, talvez ainda mais difundida, inclusive em referência aos casamentos heteroafetivos. São muitíssimas as pessoas que descartam a possibilidade de "dar certo" entre as pessoas que, em outras circunstâncias, poderiam ser, por exemplo, o pai e o filho, ou - quem sabe - o vovô e o neto. No próprio "universo GLBTTS" a crítica de tal configuração é muito frequente, a ponto de se manifestar como um preconceito. Em geral, "o velhote não presta" e "o jovem é louco" (quando não é um frio aproveitador). Porém, o amor é um dos maiores mistérios do coração humano. Não pretendo repetir aqui os inúmeros argumentos a favor de uma união semelhante, construída apesar de (ou, graças a) uma grande diferença de idade. Apenas acrescento: eu mesmo espero que algo assim possa acontecer, um dia, na minha própria vida.
 
Falando nisso, tenho sonhado recentemente com um jovem coreano [sic!], com quem me caso e para essa ocasião estamos juntos visitando a minha família (que o adora!) e já planejamos a nossa lua de mel, na Coréia. É esse tipo de sonho que não apenas se repete por várias noites em seguida, mas continua, mesmo depois de acordar. Enfim... esse já é o outro assunto.
 
Para concluir este texto que, a princípio, seria uma meditação de mais um mistério do rosário (e, na forma em que está, pode deixar alguém escandalizado), digo o seguinte: tudo aquilo que muita gente consideraria uma distração na hora de rezar, eu, simplesmente, incluo à oração. Assim, a vida se faz presente diante de Deus e a oração envolve a vida. Não sou um mestre de oração, mas rezo assim...
 
Outro texto sobre a Visitação de Nossa Senhora encontra-se, neste blog, aqui.

10 de outubro de 2013

Anunciação

Fonte: deviantART
 
Como falei recentemente, o rosário faz parte da minha experiência da fé e por isso decidi compartilhar aqui alguns pensamentos, seguindo o esquema proposto pela própria estrutura desta devoção. São os mistérios que nos ajudam a percorrer os momentos fundamentais da história da Salvação, ou melhor, do seu ponto mais alto - afinal, a história da salvação começou com a criação e só vai terminar com o fim dos tempos. Ainda que acreditemos na vida eterna, seria difícil aplicar o termo "história" a uma realidade que, pelo que parece, não se submeterá mais às dimensões (limites?) do tempo e de sua passagem. O conteúdo das meditações do rosário visam o ápice da história da salvação, que São Paulo chamou de "plenitude dos tempos": (...) quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher (Ga 4, 4).
 
Embora o título mais usado para descrever o momento inicial tenha sido "Anunciação", um pouco de reflexão leva a crer que o essencial no encontro do Anjo com Maria foi o "SIM" dela e, consequentemente, a encarnação do Verbo, isto é, a concepção do Menino no seio de Maria que, curiosamente, o próprio texto bíblico não menciona naquela altura. O que mesmo chama a minha atenção é a série de situações e acontecimentos tão diferentes daquilo que pode ter sido chamado de "padrão", inclusive na própria lei de Deus e nos costumes do povo, baseados naquela mesma lei. E o que dizer da "lei natural"? Se não se tratasse dos desígnios de Deus, o mais adequado seria dizer que tudo deu errado. A gravidez fora do casamento, o casamento sem a transmissão de vida (reprodução), a paternidade "putativa" (olha, não é isso o que o termo sugere!), a "família-modelo" (a Sagrada), tão diferente de todas as famílias anteriores e posteriores... A primeira ideia que vem à cabeça é que Deus, certamente, queria quebrar na mentalidade humana o conceito de "padrão".
 
O "SIM" de Maria - literalmente: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38) - foi precedido pela perturbação interior daquela que era a cheia de graça (cf. Lc 1, 28) e bendita entre as mulheres (cf. Lc 1, 48), pela incapacidade de entender e pela pergunta "como?" que, sem dúvida, contém o "por que?" (talvez, até: "por que eu?") e tantas outras interrogações. Mais uma ideia: Deus admite a nossa limitação e acolhe as nossas perguntas, ainda que quisesse deixa-las sem resposta suficientemente esclarecedora.
 
Por mais que me sinta distante da santidade, pureza e glória de Maria Santíssima, entro aqui com a minha analogia. Como um homossexual, vejo a parte essencial da minha realidade como aquela que não se encaixa nos "padrões" descritos pela lei natural, lei de Deus (pelo menos essa que me foi transmitida pela Igreja) e pelos costumes vigentes. Faço aqui uma observação: será que agindo exatamente desta forma incomum, o próprio Deus não quer ampliar o nosso entendimento de sua lei?
 
Quantas vezes brotaram no meu coração as mais existenciais perguntas, tais como: "Por que?", "Por que eu?", "Com viver?", "Como amar?". Por que seria uma blasfêmia, ou, ao menos, uma ousadia, considerar Maria como alguém que o próprio Deus colocou bem ao meu lado? Será um abuso pensar que Maria diz a cada um de nós: "Eu te compreendo"?
 
Deixo essas ideias aqui e vou me entregar à oração serena e confiante...
 
Outra meditação sobre a Anunciação está aqui.

9 de outubro de 2013

Em parte, sou um conservador

 
O conservadorismo e o progressismo são dois conceitos que preenchem a cena política, revelam-se nas conversas à mesa do boteco e detectam-se em todos os níveis da vida eclesial. A regra que diz: "Os opostos se atraem", muitas vezes precisa de uma vírgula, para constatar: "atraem-se, para a guerra". Paradoxalmente, porém, com certa frequência, descobrimos que os mesmos opostos conseguem coexistir - sem entrar em guerra - dentro da mesma pessoa. Entre os famosos, o excelente exemplo, é o Beato João Paulo II, de quem se diz que era um progressista em questões da doutrina social e o conservador, em relação à doutrina moral. Mas, talvez, o paradoxo tenha sido apenas aparente. Se olharmos a um dos princípios fundamentais que, além do Evangelho, movia a atuação desta Papa - e este principio é o personalismo ético - ali mesmo iremos encontrar a luta pelos direitos trabalhistas, o combate à fome, o apelo pala paz, bem ao lado de absoluta proibição de preservativos, a veemente condenação das práticas (e uniões) homossexuais, do aborto e do divórcio.
 
É neste sentido que eu mesmo me defino como um conservador parcial. De um lado, penso sobre a releitura das passagens bíblicas sobre a criação do ser humano, a redefinição do conceito de castidade e o reconhecimento de homossexualidade como planejada (e não apenas admitida) por Deus. Por outro lado, porém, defendo a monogamia (mesmo em uniões homoafetivas) e questiono a parte mais radical da "ideologia trans".
 
Acho muito precioso e construtivo o livro de Klecius Borges, "Muito além do arco-íris - amor, sexo e relacionamentos na terapia homoafetiva". A obra reúne os questionamentos, trazidos pelos gays ao consultório de psicoterapia e apresenta os conselhos de um profissional (o próprio autor, psicoterapeuta, analista junguiano e mestre em psicologia clínica). Várias ideias sobre a estratégia de superação de traumas e problemas de relacionamento, são ótimas e, sem dúvida, muito úteis. O ponto de partida para todo este trabalho é o questionamento da heteronormatividade. Pergunto-me, entretanto, se a monogamia faz parte da (rejeitada) heteronormatividade, ou antes, é um princípio de "antroponormatividade", ou seja, define a forma de um laço afetivo fundamental que faz parte da natureza humana.
 
A proposta de experimentar o relacionamento poliamoroso (que permite ter um envolvimento sexual e emocional com mais de um parceiro), aparece várias vezes nas páginas do livro. Clecius escreve, por exemplo: Criados numa cultura homocentrada, na qual o casamento monogâmico representa o modelo saudável de relacionamento, e a não exclusividade sexual é tratada como traição, passível de várias penalidades, inclusive o divórcio, é natural que os homens gays (assim como os héteros) internalizem esse modelo a ser respeitado (p. 26-27). Relatando o caso de Samuel e Léo, o autor escreve: O que Samuel, e certamente também Léo, não sabe é que essa maneira de amar tem hoje um nome, poliamorosidade - isto é, o desejo e a capacidade de amar e de se relacionar amorosa e sexualmente com mais de um parceiro sem alimentar os sentimentos de posse e de exclusividade comuns nos relacionamentos tradicionais -, e é cada vez mais aceita e praticada por grupos de vanguarda comportamental. (...) compreendê-la e aceitá-la como uma forma legítima e saudável (...) me parece muito promissor, pois nela está plantada a semente de uma transformação criativa dos modelos tradicionais que, como sabemos, podem ser profundamente aprisionadores (p 72 e 74).
 
A minha opinião negativa sobre tal proposta, baseia-se na experiência própria e diz respeito apenas da minha perspectiva existencial. Enquanto não critico, nem condeno, as pessoas que vivem assim por opção livre e consciente, eu mesmo não consigo me ver nessa situação. Ainda que eu ame (de certa forma) e considere amigos, todos os meus 3 ex-namorados, não consigo imaginar a vida em formação de um triângulo (neste caso: um quadrado) como a união poliamorosa (poligâmica). Confesso que a cena de intimidade entre nós 4, até me parece possível (e interessante), mas apenas como travessura e não um estado permanente de "namoro". Acredito que o desejo primordial de poder chamar alguém de "(só) meu", faça parte na natureza do ser humano e não seja o atributo da heteronormatividade.
 
Mencionada acima, a minha contestação de algumas ideias mais extremas da "ideologia trans" é ainda mais firme. Tenho consciência de estar diante de um profundo, delicado e complexo mistério do ser humano, em busca de adequação da própria corporeidade com a afetividade e a identidade sexual. Estou totalmente a favor de todos os esforços possíveis que possam trazer a paz e a felicidade a uma pessoa. Reconheço, também, o enorme sacrifício com que as pessoas transgêneras pagam por isso. Não sou capaz, porem, de compreender aquela parte da teoria do gênero que propõe a livre e frequente mudança de sexo. Para mim, isso é a falta de identidade. Essa sugestão podemos observar na enquete "Teste a sua dependência de gênero", proposta pelo site da Letícia Lanz.
 
É possível perceber aqui que, em certas coisas, sou tradicionalista e conservador. Já era mais do que isso. Demorei mais de 30 anos para admitir a minha própria homossexualidade. Talvez, daqui a outros 30 anos (caso esteja vivo), aceite as ideias apresentadas aqui. Vou ter que admitir, também, que - devido à minha idade - tudo isso permanecera, realmente, apenas no nível das ideias.