ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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12 de outubro de 2013

Ser criança

 
O Dia das Crianças, celebrado no Brasil hoje (enquanto alguns outros países têm outras datas para tal comemoração), inspira várias reflexões. De um lado, é claro, a realidade das crianças de hoje - algo que desperta a ternura adormecida, traz preocupações e, até assusta de vez em quando. É o famoso e eterno: "Na minha época, a infância era diferente". Por outro lado, os pensamentos de um adulto, gay, solteiro... Uma parte das ideias gira em torno do passado e daquilo que sobrou em mim dos tempos de criança. Outra parte, em tom um tanto melancólico, afirma: as crianças sempre serão dos outros, pois nunca serei um pai natural e a adoção - pelo menos no momento - está fora de cogitação.
 
Assim, tenho a admiração pela beleza, inteligência e sinceridade das crianças, misturada com a profunda indignação, diante dos atos de violência, cometidos tão frequentemente, tanto de maneira individual, quanto em forma de injustiça social. Cada criança merece respeito, cuidado, segurança e um futuro feliz que coincide com a felicidade preservada desde já.
 
Quanto à recordação da minha própria infância, sinto a gratidão e a saudade, ainda que tenha sido um período regado de lágrimas. Considero a minha infância feliz, mas naquele tempo eu era muito chorão. Não fazia ideia de que tinha sido um gay. Sempre achei que olhar com admiração em direção aos meninos, era algo perfeitamente natural. Na verdade, não se falava de homossexuais e a homofobia - pelo menos em forma conhecida hoje - nem fazia parte da realidade. Lembro-me apenas de uma ou duas piadas sobre homens efeminados. Eu ria também, porque era engraçado. Como que atrás de uma neblina, vejo-me brincando com as bonecas que, depois, misteriosamente foram substituídas pelos ursinhos. Cedo aprendi algumas tarefas "femininas", tais como alguns simples truques de costura e de tricô (sem saber que, algumas décadas mais tarde, "tricotar" seria o sinônimo de "conversa entre duas bichas", como afirma um dicionário), bem como de me sentir bem na cozinha. A curiosidade daquele tempo é que eu sempre era um "namorador de meninas" - desde o jardim de infância (acredite quem quiser). Até briguei por uma menina com um grandalhão na escola. Hoje vejo isso - assim como a total ausência de "trejeitos efeminados" - como o fruto de alguma intuição de autodefesa - tudo de forma totalmente inconsciente. Nunca rolou um beijinho sequer com uma menina. Era algo que hoje pode ser chamado de fachada, só que sem ser um propósito, ou uma "estratégia". Desde cedo senti atração pelos meninos. Nunca gostei de jogar bola, mas adorava assistir os outros jogando. Confesso que, nem na infância, nem na adolescência, experimentei a "angústia de ser diferente", pois, como falei, sempre achava tudo isso absolutamente natural.
 
Leio hoje em dia os relatos de meninos com 12-14 anos que descobrem a própria homossexualidade e já sabem defini-la como tal. Provavelmente estamos diante de uma época diferente. A mentalidade mudou, a mídia também. A visibilidade GLBTT é infinitamente maior, a autoconsciência também. Lamentavelmente, a homofobia ganhou também muito mais espaço. De um lado, fico espantado com uma criança de seis anos que foi autorizada a mudar de nome e de gênero no registro de identidade argentino. Ao mesmo tempo, assusta a quantidade de atos de bullying homofóbico, inclusive nas escolas primárias. 
 
Só me resta agradecer a Deus, aos meus pais e demais familiares, pela infância que tive e tentar preservar a "eterna criança" dentro de mim. E, parabéns a todas as crianças pelo dia de hoje. Que seja protegida a sua dignidade e cumpram-se as leis, principalmente aquela que é fundamental: de amar e de ser amado(a).

11 de outubro de 2013

Visitação

 
A vida continua, acontecem coisas importantes (e envolventes) e eu, aqui, continuo com o meu tercinho. A oração pode acompanhar todas as coisas, embora eu nunca tenha visto pessoas rezando o terço em uma Parada Gay (é uma das coisas que vai acontecer nestes dias). Bem... nunca vi, porque nunca fui nesse evento. Obviamente, o clima da Parada não contribui para com uma oração sequer, mas não me surpreenderia se alguém conseguisse essa arte (até me vem na mente um nome que começa com a letra "L" - é o rapaz que não renuncia, nem esconde, a sua identidade gay na Igreja e a sua fé cristã no meio GLBTTS... aliás, nem sei se ele costuma ir às paradas). É claro, o assunto não ia ser esse. Mas, como já comecei a falar das coisas que acontecem nesses dias (enquanto eu rezo o meu tercinho), devo lembrar de que amanhã estarei - pela primeira vez na minha vida - no casamento homoafetivo. Já estou ansioso e emocionado antecipadamente e - curiosamente - essa ocasião se inscreve na minha meditação do 2° mistério gozoso do rosário (não fui eu quem inventou esse termo!).
 
Além de toda riqueza bíblico-teológica (cf. Lc 1, 39-56) da visita que Maria foi fazer na casa de sua parenta Isabel, trata-se de um encontro - por que não dizer isso? - afetivo. O afeto é tão profundo que envolve o menino no ventre da mulher mais velha: apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1, 41). Vale acrescentar aqui o dado importantíssimo da doutrina cristã: Maria já carregava no seu seio imaculado o Filho de Deus, tendo-se passado um curto período de alguns dias, após o seu sim dado a Deus, representado pelo Anjo. Deu-se, portanto, o duplo encontro: de Maria com Isabel e de Jesus com João Batista. Este encontro, porém, ainda que o mais importante, permanece na esfera do mistério da fé. O que temos, diante dos nossos olhos, é o profundo afeto de duas mulheres, unidas no amor indescritível e "separadas" por uma grande diferença de idade.
 
É por isso disse antes que o casamento, ao qual fui convidado, me vem na mente neste momento. Como falei há um tempo, o meu amigo (um dos noivos) tem 24 anos e o seu futuro marido... mais de 50. Deixando de lado todos aqueles que consideram a união homoafetiva um absurdo em si, detenho-me em outra opinião, talvez ainda mais difundida, inclusive em referência aos casamentos heteroafetivos. São muitíssimas as pessoas que descartam a possibilidade de "dar certo" entre as pessoas que, em outras circunstâncias, poderiam ser, por exemplo, o pai e o filho, ou - quem sabe - o vovô e o neto. No próprio "universo GLBTTS" a crítica de tal configuração é muito frequente, a ponto de se manifestar como um preconceito. Em geral, "o velhote não presta" e "o jovem é louco" (quando não é um frio aproveitador). Porém, o amor é um dos maiores mistérios do coração humano. Não pretendo repetir aqui os inúmeros argumentos a favor de uma união semelhante, construída apesar de (ou, graças a) uma grande diferença de idade. Apenas acrescento: eu mesmo espero que algo assim possa acontecer, um dia, na minha própria vida.
 
Falando nisso, tenho sonhado recentemente com um jovem coreano [sic!], com quem me caso e para essa ocasião estamos juntos visitando a minha família (que o adora!) e já planejamos a nossa lua de mel, na Coréia. É esse tipo de sonho que não apenas se repete por várias noites em seguida, mas continua, mesmo depois de acordar. Enfim... esse já é o outro assunto.
 
Para concluir este texto que, a princípio, seria uma meditação de mais um mistério do rosário (e, na forma em que está, pode deixar alguém escandalizado), digo o seguinte: tudo aquilo que muita gente consideraria uma distração na hora de rezar, eu, simplesmente, incluo à oração. Assim, a vida se faz presente diante de Deus e a oração envolve a vida. Não sou um mestre de oração, mas rezo assim...
 
Outro texto sobre a Visitação de Nossa Senhora encontra-se, neste blog, aqui.

10 de outubro de 2013

Anunciação

Fonte: deviantART
 
Como falei recentemente, o rosário faz parte da minha experiência da fé e por isso decidi compartilhar aqui alguns pensamentos, seguindo o esquema proposto pela própria estrutura desta devoção. São os mistérios que nos ajudam a percorrer os momentos fundamentais da história da Salvação, ou melhor, do seu ponto mais alto - afinal, a história da salvação começou com a criação e só vai terminar com o fim dos tempos. Ainda que acreditemos na vida eterna, seria difícil aplicar o termo "história" a uma realidade que, pelo que parece, não se submeterá mais às dimensões (limites?) do tempo e de sua passagem. O conteúdo das meditações do rosário visam o ápice da história da salvação, que São Paulo chamou de "plenitude dos tempos": (...) quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher (Ga 4, 4).
 
Embora o título mais usado para descrever o momento inicial tenha sido "Anunciação", um pouco de reflexão leva a crer que o essencial no encontro do Anjo com Maria foi o "SIM" dela e, consequentemente, a encarnação do Verbo, isto é, a concepção do Menino no seio de Maria que, curiosamente, o próprio texto bíblico não menciona naquela altura. O que mesmo chama a minha atenção é a série de situações e acontecimentos tão diferentes daquilo que pode ter sido chamado de "padrão", inclusive na própria lei de Deus e nos costumes do povo, baseados naquela mesma lei. E o que dizer da "lei natural"? Se não se tratasse dos desígnios de Deus, o mais adequado seria dizer que tudo deu errado. A gravidez fora do casamento, o casamento sem a transmissão de vida (reprodução), a paternidade "putativa" (olha, não é isso o que o termo sugere!), a "família-modelo" (a Sagrada), tão diferente de todas as famílias anteriores e posteriores... A primeira ideia que vem à cabeça é que Deus, certamente, queria quebrar na mentalidade humana o conceito de "padrão".
 
O "SIM" de Maria - literalmente: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38) - foi precedido pela perturbação interior daquela que era a cheia de graça (cf. Lc 1, 28) e bendita entre as mulheres (cf. Lc 1, 48), pela incapacidade de entender e pela pergunta "como?" que, sem dúvida, contém o "por que?" (talvez, até: "por que eu?") e tantas outras interrogações. Mais uma ideia: Deus admite a nossa limitação e acolhe as nossas perguntas, ainda que quisesse deixa-las sem resposta suficientemente esclarecedora.
 
Por mais que me sinta distante da santidade, pureza e glória de Maria Santíssima, entro aqui com a minha analogia. Como um homossexual, vejo a parte essencial da minha realidade como aquela que não se encaixa nos "padrões" descritos pela lei natural, lei de Deus (pelo menos essa que me foi transmitida pela Igreja) e pelos costumes vigentes. Faço aqui uma observação: será que agindo exatamente desta forma incomum, o próprio Deus não quer ampliar o nosso entendimento de sua lei?
 
Quantas vezes brotaram no meu coração as mais existenciais perguntas, tais como: "Por que?", "Por que eu?", "Com viver?", "Como amar?". Por que seria uma blasfêmia, ou, ao menos, uma ousadia, considerar Maria como alguém que o próprio Deus colocou bem ao meu lado? Será um abuso pensar que Maria diz a cada um de nós: "Eu te compreendo"?
 
Deixo essas ideias aqui e vou me entregar à oração serena e confiante...
 
Outra meditação sobre a Anunciação está aqui.

9 de outubro de 2013

Em parte, sou um conservador

 
O conservadorismo e o progressismo são dois conceitos que preenchem a cena política, revelam-se nas conversas à mesa do boteco e detectam-se em todos os níveis da vida eclesial. A regra que diz: "Os opostos se atraem", muitas vezes precisa de uma vírgula, para constatar: "atraem-se, para a guerra". Paradoxalmente, porém, com certa frequência, descobrimos que os mesmos opostos conseguem coexistir - sem entrar em guerra - dentro da mesma pessoa. Entre os famosos, o excelente exemplo, é o Beato João Paulo II, de quem se diz que era um progressista em questões da doutrina social e o conservador, em relação à doutrina moral. Mas, talvez, o paradoxo tenha sido apenas aparente. Se olharmos a um dos princípios fundamentais que, além do Evangelho, movia a atuação desta Papa - e este principio é o personalismo ético - ali mesmo iremos encontrar a luta pelos direitos trabalhistas, o combate à fome, o apelo pala paz, bem ao lado de absoluta proibição de preservativos, a veemente condenação das práticas (e uniões) homossexuais, do aborto e do divórcio.
 
É neste sentido que eu mesmo me defino como um conservador parcial. De um lado, penso sobre a releitura das passagens bíblicas sobre a criação do ser humano, a redefinição do conceito de castidade e o reconhecimento de homossexualidade como planejada (e não apenas admitida) por Deus. Por outro lado, porém, defendo a monogamia (mesmo em uniões homoafetivas) e questiono a parte mais radical da "ideologia trans".
 
Acho muito precioso e construtivo o livro de Klecius Borges, "Muito além do arco-íris - amor, sexo e relacionamentos na terapia homoafetiva". A obra reúne os questionamentos, trazidos pelos gays ao consultório de psicoterapia e apresenta os conselhos de um profissional (o próprio autor, psicoterapeuta, analista junguiano e mestre em psicologia clínica). Várias ideias sobre a estratégia de superação de traumas e problemas de relacionamento, são ótimas e, sem dúvida, muito úteis. O ponto de partida para todo este trabalho é o questionamento da heteronormatividade. Pergunto-me, entretanto, se a monogamia faz parte da (rejeitada) heteronormatividade, ou antes, é um princípio de "antroponormatividade", ou seja, define a forma de um laço afetivo fundamental que faz parte da natureza humana.
 
A proposta de experimentar o relacionamento poliamoroso (que permite ter um envolvimento sexual e emocional com mais de um parceiro), aparece várias vezes nas páginas do livro. Clecius escreve, por exemplo: Criados numa cultura homocentrada, na qual o casamento monogâmico representa o modelo saudável de relacionamento, e a não exclusividade sexual é tratada como traição, passível de várias penalidades, inclusive o divórcio, é natural que os homens gays (assim como os héteros) internalizem esse modelo a ser respeitado (p. 26-27). Relatando o caso de Samuel e Léo, o autor escreve: O que Samuel, e certamente também Léo, não sabe é que essa maneira de amar tem hoje um nome, poliamorosidade - isto é, o desejo e a capacidade de amar e de se relacionar amorosa e sexualmente com mais de um parceiro sem alimentar os sentimentos de posse e de exclusividade comuns nos relacionamentos tradicionais -, e é cada vez mais aceita e praticada por grupos de vanguarda comportamental. (...) compreendê-la e aceitá-la como uma forma legítima e saudável (...) me parece muito promissor, pois nela está plantada a semente de uma transformação criativa dos modelos tradicionais que, como sabemos, podem ser profundamente aprisionadores (p 72 e 74).
 
A minha opinião negativa sobre tal proposta, baseia-se na experiência própria e diz respeito apenas da minha perspectiva existencial. Enquanto não critico, nem condeno, as pessoas que vivem assim por opção livre e consciente, eu mesmo não consigo me ver nessa situação. Ainda que eu ame (de certa forma) e considere amigos, todos os meus 3 ex-namorados, não consigo imaginar a vida em formação de um triângulo (neste caso: um quadrado) como a união poliamorosa (poligâmica). Confesso que a cena de intimidade entre nós 4, até me parece possível (e interessante), mas apenas como travessura e não um estado permanente de "namoro". Acredito que o desejo primordial de poder chamar alguém de "(só) meu", faça parte na natureza do ser humano e não seja o atributo da heteronormatividade.
 
Mencionada acima, a minha contestação de algumas ideias mais extremas da "ideologia trans" é ainda mais firme. Tenho consciência de estar diante de um profundo, delicado e complexo mistério do ser humano, em busca de adequação da própria corporeidade com a afetividade e a identidade sexual. Estou totalmente a favor de todos os esforços possíveis que possam trazer a paz e a felicidade a uma pessoa. Reconheço, também, o enorme sacrifício com que as pessoas transgêneras pagam por isso. Não sou capaz, porem, de compreender aquela parte da teoria do gênero que propõe a livre e frequente mudança de sexo. Para mim, isso é a falta de identidade. Essa sugestão podemos observar na enquete "Teste a sua dependência de gênero", proposta pelo site da Letícia Lanz.
 
É possível perceber aqui que, em certas coisas, sou tradicionalista e conservador. Já era mais do que isso. Demorei mais de 30 anos para admitir a minha própria homossexualidade. Talvez, daqui a outros 30 anos (caso esteja vivo), aceite as ideias apresentadas aqui. Vou ter que admitir, também, que - devido à minha idade - tudo isso permanecera, realmente, apenas no nível das ideias. 

8 de outubro de 2013

Quando um gay é padre

 
Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. (Papa Francisco, entrevista).
 
O título deste texto parece estar "deslocado". Seria mais lógico escrever "quando um padre é gay". Mas, escrevi de propósito. Eu sei que muitos homossexuais "se descobriram" ainda na adolescência, mas pode acontecer o contrário, ou seja - neste caso - o cara sentiu a vocação, entrou no seminário, tornou-se padre e só depois se deu conta que era gay. Conto de fadas? De fato, a figura de sacerdote católico, não é das mais simpáticas hoje em dia. A postura de muitos padres que conhecíamos, o "tsunami" de notícias sobre a pedofilia (comprovada, ou não) de muitos, a nossa própria percepção da Igreja, enquanto uma instituição hipócrita e homofóbica... tudo isso contribuiu para com essa antipatia generalizada em relação aos clérigos (o que chamamos de anticlericalismo). Quando, então, surge uma história como essa (de um padre que demorou em reconhecer a sua própria homossexualidade), logo questionamos tudo e nem temos mais vontade de prosseguir a leitura.
 
Pode ser, entretanto, que as palavras do Papa, produzam em nós um pouco de paciente atenção. Pois, entramos no mistério do homem e devemos (podemos?) acompanha-lo a partir da sua condição. É necessário sempre considerar a pessoa.
 
Como - certamente - seria difícil escutar um desabafo desses, fica mais fácil ler. O blog Engasgay informa sobre um ex-padre argentino (Andrés Gioeni) que tinha escrito uma carta ao Papa Francisco. A carta (na íntegra, em espanhol) pode ser encontrada no facebook. Existe, na mesma rede social, um grupo, chamado "Para que el Papa Francisco responda la carta de Andrés" - tudo indica, então, que a história é verídica.
 
 
O que chama a minha atenção, é a parte em que o ex-padre conta a sua história:
 
Fiquei oito anos no seminário. Não me sentia sozinho, tinha uma família lá. Foi mais difícil quando virei sacerdote, aos 27. Vi que não era tão fácil, tinha muitas responsabilidades, ficava sozinho. Mas gostava de celebrar a missa. Aí comecei a me dar conta do que estava acontecendo: algo que não era, para mim, natural. Eu me condenava. No seminário, a questão da homossexualidade só era tratada em algumas aulas. No dia a dia, era um tabu. Olhando agora para trás, vejo que no seminário já sabia [que era gay], mas eu negava. Se percebia que estava gostando de algum companheiro, logo me reprimia, falava a mim mesmo: "O que está acontecendo? Está louco?". Dois seminaristas fizeram insinuações pra mim, queriam me namorar. Eu achava que fosse loucura, negava aquilo. Eles saíram do seminário, eu fiquei. Me dei conta de que era gay mesmo quando já era sacerdote. (...) E passei a me perguntar se era algo transitório ou para a vida. Quando me dei conta que era para a vida, cortei laços com a igreja. Vim para Buenos Aires começar uma nova vida.
 
O texto acima parece não fazer parte da carta em si. No texto enviado ao Papa, consta: Eu era uma vez um padre, pastor, compartilhava o zelo missionário e a necessidade de afirmar a abertura eclesial. Então eu decidi me abrir a um outro lado, quando descobri a minha própria tendência homossexual e admiti a minha incapacidade de exercer o ministério pastoral em celibato. Hoje os meus caminhos vão em outras direções e a minha vocação é tingida com outros tons. Um pouco antes, na mesma carta, Andrés usa a expressão "meu agnosticismo atual".
 
Deixando de lado as condenações apressadas, quase automáticas e os rótulos do tipo "hipócrita", "safado", "perverso", etc., faço algumas perguntas. O que deveria fazer um padre com a própria experiência, parecida com a do Andrés? Qual é a postura mais correta, em relação à própria consciência, ao ministério, à Igreja, à fé?
 
Sondando as opiniões de alguns amigos, católicos praticantes e (a princípio) livres da homofobia que ofusca a objetividade, o que mais ouvi era a opinião de que tal padre deveria deixar o ministério. Na linguagem oficial da Igreja, isso se chama "o pedido de demissão do estado clerical" e acontece por meio de um processo canônico que pode incluir, também, a dispensa do celibato. Na prática, isso significa que o ex-padre continua sendo um membro da Igreja, podendo levar a vida sacramental (Confissão, Comunhão), inclusive casar na igreja (com uma mulher). Sim, alguns detalhes mudam de figura quando ele se decide viver na prática a sua homossexualidade. Aí, como cada pessoa que opta pela prática de atos homossexuais como um estilo de vida, tal indivíduo (ex-padre em questão) não receberá a absolvição, nem poderá comungar. Vale acrescentar que, mesmo assim, ainda não se trata de excomunhão. Essa última sentença ocorre (entre vários outros casos), quando um padre abandona o ministério, sem mencionado processo canônico, ou é expulso pela própria Igreja. Enfim, nenhuma dessas situações, até a própria excomunhão, não precisa levar ninguém ao agnosticismo...
 
Será que existe alguma saída diferente? Imagino um padre que tenha admitido a própria homossexualidade, só depois da ordenação sacerdotal. Tendo passado por todas as etapas de negação, revolta, depressão, acusação de Deus e dos outros - finalmente reconcilia-se consigo mesmo e, ainda que desafiando as leis da Igreja, considera correto o exercício de seu ministério com a própria sexualidade, inclusive com a prática de atos homossexuais. É claro que, mesmo definindo a homossexualidade como algo permitido (ou, até, concedido) por Deus, o maior questionamento refere-se ao celibato. Eu já ouvi um padre que disse: "O celibato impede que eu me case, mas como a Igreja não considera válida a união homoafetiva, então, mesmo vivendo com outro homem, não estou quebrando o celibato". Bem... parece uma desculpa esfarrapada e aquela das mais grossas. Afinal, o celibato não é apenas um sinônimo de "solteirice consagrada por causa do Reino de Deus", mas também a castidade. Talvez seja, então, uma definição diferente da própria castidade? Tipo: "Eu pecaria contra castidade, caso traísse o meu namorado". Evidentemente, isso já está a um milhão de anos-luz da doutrina da Igreja...
 
Concluindo: a questão é mais que complexa. Não deve ser tão rara, como parece (algo desse tipo conta o filme polonês "Em nome..."). Porém, a verdadeira conclusão é a mesma que a introdução a este texto:
 
É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. (Papa Francisco, entrevista). 

7 de outubro de 2013

Homossexual pode rezar o rosário?

O terço não é um colar? Veja no final do texto...
 
A Igreja dedica o dia 07 de outubro e, consequentemente, todo este mês, à Nossa Senhora do Rosário. Queria, nesta ocasião, fazer uma pergunta: eu, sendo um homossexual que professa a fé católica, posso rezar o rosário? Ou, pelo menos, o terço do rosário (que, de fato, é um quarto, lembrando a criação dos Mistérios Luminosos pelo Beato João Paulo II)?
 
As respostas serão, sem dúvida, diversas, de acordo com a sua autoria. Os que não acreditam em Deus, irão considerar inútil toda essa questão. Os seguidores de religiões não cristãs, podem não entender o sentido de tal pergunta. Os cristãos não católicos, julgarão a minha proposta como duplamente errada, considerando uma blasfêmia o fato de dirigir a prece a Maria e outra, fazer oração, sendo um pérfido pecador. A maioria dos católicos, especialmente os tradicionalistas, certamente farão uma elaborada analogia entre a história da festa de hoje e a "abominação do homossexualismo" que pode ser combatida com o auxílio de Nossa Senhora do Rosário. Assim como em 1572, os turcos otomanos (muçulmanos) que queriam invadir a Europa, foram derrotados no estreito de Lepanto e a vitória do exército cristão se deu graças à intervenção de Nossa Senhora do Rosário, do mesmo jeito, é necessário hoje que a avalanche do homossexualismo seja interrompida. As palavras do comandante cristão, servem também para o combate de hoje: "Este é o dia em que a Cristandade deve mostrar seu poder, para aniquilar esta seita maldita e obter uma vitória sem precedentes".
 
Aprendi a rezar o rosário com a minha avó. Mais tarde, descobri que - de acordo com a expressão de João Paulo II - ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor.  Quem contempla a Cristo, percorrendo as etapas da sua vida, não pode deixar de aprender d'Ele a verdade sobre o homemUma oração tão fácil e ao mesmo tempo tão rica merece verdadeiramente ser descoberta de novo pela comunidade cristã.
 
É verdade que, neste ponto, pode surgir o questionamento: um homossexual pode ser considerado cristão? A resposta surge por meio de outras perguntas:
 
1. O (a) homossexual tem o direito de viver?
 
- A vida humana é sagrada e inviolável em cada momento da sua existência (João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae, n. 61);
 
2. O (a) homossexual tem o direito de crer em Deus?
 
- A fé é um dom, porque é Deus que toma a iniciativa e vem até nós; e assim a fé é uma resposta com a qual nós O acolhemos como fundamento estável da nossa vida. É um dom que transforma a existência, porque nos faz entrar na mesma visão de Jesus, o qual age em nós e nos abre ao amor a Deus e aos outros. (Bento XVI);
 
3. O (a) homossexual tem o direito de orar?
 
- O Deus vivo e verdadeiro chama incessantemente cada pessoa ao encontro misterioso da oração. Essa atitude de amor fiel vem sempre em primeiro lugar na oração; a atitude do homem é sempre resposta a esse amor fiel. À medida que Deus se revela e revela o homem a si mesmo, a oração aparece como um recíproco apelo, um drama de Aliança. (CIC, 2567);
 
4. O (a) homossexual tem o direito de rezar o rosário?
 
- Penso em vós todos, irmãos e irmãs de qualquer condição, em vós, famílias cristãs, em vós, doentes e idosos, em vós, jovens: retomai confiadamente nas mãos o terço do Rosário, fazendo a sua descoberta à luz da Escritura, de harmonia com a Liturgia, no contexto da vida quotidiana. (João Paulo II).
 
A observação final refere-se à foto que acompanha o texto. Já tinha visto umas frases do tipo "Terço não é colar! Aprenda a usá-lo corretamente!". Encontrei, porém, os argumentos do grande "Doutor Mariano", São Luís Maria Grignion de Montfort que, em seu livro "O Segredo do Rosário", afirma: Aqueles que usam o Rosário no corpo (pescoço ou cintura) em público por devoção e como bom exemplo poderão ganhar cem dias de indulgência.
 
Vou continuar, então, rezando o meu rosário. Talvez publique aqui algumas reflexões sobre isso...

6 de outubro de 2013

O passinho e o silêncio

O rapaz desta foto se parece um pouco com o G.
 
Estava pensando em interromper aquela série (meio pesada) de polêmicas, publicadas aqui, envolvendo os assuntos do Papa, dos fundamentalistas católicos, da superficialidade da mídia (inclusive, católica) - e tudo isso, em relação ao mundo GLBTTS que não é uma massa sem rosto, não se compõe apenas de movimentos militantes, mas é o mistério do ser humano. Sim, o tema é importante, urgente, necessário. Pensei, porém, em dar uma pausa.
 
Já tinha visto no facebook o vídeo encantador de um grupo de dançarinos, fazendo o seu performance no cruzamento do centro do Rio e na plataforma da Central do Brasil. Hoje encontrei (finalmente!) o vídeo no YouTube, divulgado pelo portal Pheeno, junto com a "Versão Bafo", na qual um dos dançarinos, Rene, usa o vestido (que coxas! - diga-se de passagem). Então, a ideia da postagem deste domingo, foi essa: apertar o play, deliciar-se, por exemplo, com o corpito do Pablinho Fantástico (o rapaz de cabelo cor-de-fogo que fica geralmente como o primeiro do lado direito) e deixar-se levar pelo funk-estilo-soft... No entanto, há mais coisas. Não posso deixar de mencionar aqui uma visita que fiz hoje, na casa de uma família. Daqui a pouco falo sobre isso. Primeiro, os dois vídeos:
 
 
 
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O título desta postagem é "O passinho e o silêncio". O que tem uma coisa com a outra? Talvez... a paixonite. Confesso que me encanto facilmente por certas coisas. Assim, fiquei encantado com a turma do passinho - eu que não curto o funk, em geral (já morei nos lugares, onde o funk-da-pesada, dominava todas as noites de sábado para domingo). Cheguei a declarar, naquela época, que "o funk não é música", mas depois de assistir uma obra de arte como essa, mudo a opinião.
 
A coisa (da paixonite) torna-se mais complexa, quando entra, não apenas em um vídeo, mas em cena real, uma pessoa encantadora. Já tive várias paixonites, outras ainda tenho.. Algumas agudas. Algumas adormeceram, com o tempo, dentro de mim. O mal da paixonite consiste em não conseguir avaliar a realidade com precisão. A gente começa a "imaginar coisas". Tive e tenho essas paixonites em relação aos "gays declarados", mas também, àqueles que se encaixam na famosa e clássica pergunta: "será que ele é?". É o caso do G. Sou amigo dessa família, mas - evidentemente - tudo isso trabalha em função da minha aproximação ao G. Hoje fui almoçar na casa deles. Deve ter sido por causa das minhas pesquisas de últimos dias e das coisas que tenho escrito neste blog recentemente que comecei a comentar os assuntos ligados à homossexualidade, à teoria do gênero, às reações dos fundamentalistas católicos ao que disse o Papa, etc. Preciso acrescentar que aquela família é católica e engajada na vida pastoral da comunidade paroquial. Inclusive, o próprio G...
 
Primeiro, a conversa fluiu de maneira bastante solta, isto é, sobre a escola e os planos do G. para o futuro. "Pesquei", em uma das falas dele, que o casamento não faz parte desses planos. Aí entra, ou o "gaydar", ou a paixonite: "Não pensa em casar, por que?"... Acendeu uma lampadazinha dentro da minha cabeça e me deu vontade de... compartilhar os resultados das minhas pesquisas. Falei do Papa e de suas declarações de respeito para com os homossexuais, também sobre a cabeça dura dos fundamentalistas. Toquei no assunto do "casamento gay", lembrei das palavras de Jesus, sobre os três tipos daqueles que não se casam (cf. Mt 19, 12), com o destaque na primeira situação, "dos que nasceram assim" e tal. Fiquei o tempo todo sentado no sofá, ao lado do G, mas nesta (longa) parte da conversa, não ousei olhar para ele. Tive medo de revelar mais do que deveria ou, talvez, de deixar me lavar pelo impulso e, por exemplo, declarar a minha paixonite por ele (para quem não sabe: sou gay quarentão e permaneço no armário). Todo mundo tinha algo para perguntar e opinar. Mas, o G. ficou em silêncio absoluto, enquanto abordávamos esses assuntos. Eu sei que posso estar totalmente enganado, afinal, a paixonite traz esse efeito, mas o silêncio dele falou, para mim, mais do que mil palavras. Ele que gosta de perguntar, levantar questões, dar opinião - dessa vez ficou quieto. Ao meu ver, quieto demais. Repito: posso estar enganado e, até, seria interessante saber a opinião dos (eventuais) leitores. Digo uma coisa: esse silêncio me levou a pensar que "tem alguma coisa aí"... e fiquei mais esperançoso com isso. Quem sabe, na próxima vez e, certamente, sem os familiares em volta, a gente volte ao assunto?
 
Esse foi o meu domingo do passinho e do silêncio. A paixonite aumentou...