ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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2 de outubro de 2013

O Papa entrevistado

 
O Papa Francisco não gosta de dar entrevistas.
Imagine, se ele gostasse!
 
Durante o voo ao Brasil para a JMJ, o Papa disse: Verdadeiramente eu não dou entrevistas, mas é porque não sei, não consigo. Sou assim! Sinto um pouco de dificuldade em fazê-lo, mas agradeço a companhia. Na viagem de volta a Roma, um dos jornalistas franceses, Antoine-Marie Izoard, retrucou: Para um Papa que não quer dar entrevistas, estamos-lhe verdadeiramente gratos. O padre Antonio Spadaro, SJ, assim relata o desabafo do Papa, antes de iniciar "oficialmente" a conversa: Pouco antes da audiência que concedeu aos jesuítas da "Civiltà Cattolica", o Papa tinha-me falado da sua grande dificuldade em dar entrevistas. Tinha-me dito que prefere pensar, mais do que dar respostas imediatas em entrevistas de momento. Sente que as respostas corretas lhe vêm depois de ter dado a primeira resposta.
 
Podemos ler hoje, na íntegra, uma nova entrevista do Papa. Desta vez é o relato de sua conversa com o jornalista italiano Eugenio Scalfari (fundador e primeiro diretor do jornal "la Repubblica", que - de acordo com várias fontes - "se autoidentifica ateu"). Antes de entrar ao mérito da entrevista, gostaria de lembrar que as declarações do tipo "entrevista inédita e histórica" ignoram a existência de entrevistas, inclusive em forma de livros, concedidas aos jornalistas por outros Papas. Os relatos de conversas papais de hoje inserem-se, sem dúvida, em um gênero literário escolhido pelos Papas na segunda metade do século XX: com uma série aberta em 1967 pelos "Diálogos" de Paulo VI com Jean Guitton, continuada por João Paulo II, em suas conversas com André Frossard e Vittorio Messori e pelo Papa Bento XVI, em suas conversas com Peter Seewald (iniciadas anda antes de sua eleição para ocupar a sede petrina). De fato, cada entrevista é única, inédita e exclusiva (o termo adorado pelos jornalistas), mas vale a pena reconhecer o trabalho e os méritos de outros colegas, entrevistadores dos Papas.
 
Em sua nova entrevista, o Papa repete os temas que o acompanham desde o início. Claro, é sempre uma abordagem nova, uma espécie de insistência de quem sente a necessidade de explicar, talvez porque perceba alguma dificuldade de ouvintes em compreender certas ideias. Mais ou menos assim, como você conversa com um estrangeiro e procura, com os gestos, a mímica e o tom de voz, ajuda-lo a entender do que você está falando. Temos, portanto, aqui - de novo - a cultura do diálogo, o amor ao próximo, as injustiças sociais, a necessidade de reformas na Igreja e no mundo.
 
Acho muito importante destacar o estilo da conversa que pouco ou nada tem de uma clássica entrevista jornalística. O tom, os temas, o senso de humor em cutucar o interlocutor e fazer piada, os desabafos muito íntimos sobre as experiências pessoais... tudo isso cria um clima de um bate-papo de velhos amigos, com o direito de um tapinha nas costas, entre um e outro puxão de orelha. Neste caso, a cordialidade não é banalidade, nem diplomacia superficial. Impressionam ripostas rápidas e certeiras, sem violar a profunda reverência de um para o outro. O início e o final da conversa me deixaram esperançoso por uma continuação. O Papa disse no início: Às vezes, após um encontro, desejo marcar outro porque novas ideias surgem e descubro novas necessidade. Isso é importante: conhecer as pessoas, ouvir, expandir nosso círculo de ideias. E termina com uma promessa: Eu lhe direi mais da próxima vez.
 
Recomendo a leitura de texto na íntegra e não apenas em fragmentos, fornecidos pela mídia (de diversas opções ideológicas). Quem quiser, leia também, os comentários de vários "católicos fundamentalistas" a-p-a-v-o-r-a-d-o-s, na mesma página, logo depois da entrevista. Certamente, entre os trechos mais criticados por eles, estão os que eu vou agora citar aqui.
 
  • O proselitismo é uma solene tolice ("nonsense" - outras fontes dizem besteira - "sciochezza" - seria bom verificar o original), não tem sentido. Nós temos que conhecer um ao outro, ouvir um ao outro e melhorar o nosso conhecimento do mundo ao nosso redor. Às vezes, após um encontro, desejo marcar outro porque novas ideias surgem e descubro novas necessidade. Isso é importante: conhecer as pessoas, ouvir, expandir nosso círculo de ideias. O mundo é cruzado por vias que se aproximam e se separam, mas o importante é que elas levem ao Bem.
  • Você sabe o que é ágape? É o amor pelos outros, como Nosso Senhor pregou. Não é fazer proselitismo, é amar. Amar o próximo, aquele fermento que serve ao bem comum.
  • Não gosto da palavra narcisismo. Ela indica um amor excessivo por si mesmo e isso não é bom, pode produzir sérios danos não só à alma do que dele sofre, mas também no relacionamento com outros, com a sociedade na qual se vive. O verdadeiro problema é que aqueles mais afetados por isso — que é, na realidade, um tipo de desordem mental — são pessoas que têm muito poder. Normalmente os chefes são narcisistas. Os líderes na Igreja frequentemente foram narcisistas, bajulados e negativamente influenciados por seus cortesãos. A corte é a lepra do Papado.
  • (...) quando encontro um clericalista, de repente, me torno anticlerical. O clericalismo não deveria ter qualquer coisa a ver com o cristianismo.
  • Pessoalmente, creio que ser uma minoria é realmente um ponto forte. Temos que se um fermento de vida e amor, e o fermento é infinitamente menor do que uma massa de frutas, flores e das árvores que nascem delas. Creio já ter dito que a nossa meta não é fazer proselitismo, mas ouvir às necessidades, desejos e desilusões, desespero, esperança.
  • Precisamos incluir os excluídos e pegar a paz.
  • Demos um passo à frente em nosso diálogo. Observamos que na sociedade e no mundo em que vivemos o egoísmo tem aumentado mais do que o amor pelos outros, e que os homens de boa vontade precisarão trabalhar, cada qual com os seus pontos fortes e experiência, para garantir que o amor aos outros aumente até que seja igual e possivelmente exceda o amor por si mesmo.
  • Pessoalmente creio que o chamado liberalismo irrestrito somente faz do forte mais forte e do fraco mais fraco e exclui os mais excluídos. Precisamos de grande liberdade, não descriminação, não demagogia e muito amor. Precisamos de regras para conduzir e também, se necessário, intervenção direta do estado para corrigir as desigualdades mais intoleráveis.

1 de outubro de 2013

+ Gefferson Ferrer



O Portal Gay1 informou ontem sobre a morte de um jovem, Gefferson Ferrer que se jogou do 3° piso, no shopping Taguatinga (Brasília, DF). Segundo o portal, Gefferson havia anunciado a sua morte no facebook. Nesta madrugada, o seu perfil ainda estava disponível, mas agora não existe mais. A sua despedida,
feita algumas horas antes do suicídio, expressa a profunda angústia e solidão. Uma das últimas postagens exibe o pensamento de Curt Cobain: "Se os meus olhos mostrassem a minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo" e a outra, traz a fase: "Tudo tem conserto menos a morte... a morte conserta tudo". Além dessas citações, havia as palavras do próprio Gefferson: "Obrigado gente pela força e pelo carinho de alguns, mas não tem volta, não... Um dia todos iremos embora e eu vou hoje!!!". Um pouco antes, o rapaz escreveu: "Só merece viver quem tem força pra enfrentar as armadilhas da vida e hoje eu não tenho mais força pra nada! Não tenho direito de amar muito menos de ser Amado. Viver com o coração cheio de dor eu não aguento por isso decidi partir pra nunca mais voltar". A página de notícias "Alto Paraíba" acrescenta a informação que o rapaz estava assistindo o filme "Invocação do mal" e, antes de terminar o filme, saiu e pulou.
 
 
Cada morte nos deixa perturbados, por mais que a cultura modera, justamente, a "cultura da morte", procure banaliza-la. Mais ainda, a morte suicida. Muitos sentem a tentação de julgar, outros de tentar explicar. Na verdade, estamos diante de um mistério, chamado "ser humano". O mistério é tão grande que até a Igreja (católica) que tem tanta dificuldade em modificar os seus pontos de vista e que, antigamente, negava às pessoas que tiraram a própria vida, o lugar na terra "benzida" e reservava um espaço à parte no cemitério para "tais pessoas". Hoje em dia, a Igreja diz: Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou o medo grave da provação, do  sofrimento ou da tortura, podem diminuir a responsabilidade do suicida. Não se deve desesperar da salvação das pessoas que se mataram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, dar-lhes ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida (CIC, 2282-2283). Na prática, admite-se a suposição de que talvez, nos últimos instantes (entre o ato suicida e a morte efetiva), pela infinita misericórdia de Deus, ter-se-á arrependido de seu ato e obtido o perdão. Vale lembrar aqui o fato de que a Igreja que tenha declarado oficialmente a salvação eterna de muita gente (em forma de beatificação ou canonização), nunca se pronunciou a respeito da condenação no inferno de quem quer que seja.
 
Recentemente, o Papa Francisco, disse: Quantas pessoas tristes, quantas pessoas tristes, sem esperança! Pensai também nos muitos jovens que, depois de terem experimentado tantas coisas, não encontram sentido na vida e procuram o suicídio, como solução. Sabeis quantos suicídios de jovens há hoje no mundo? A cifra é alta! Por quê? Não têm esperança. Experimentaram tantas coisas e a sociedade, que é cruel — é cruel! — não nos pode dar esperança. A esperança é como a graça: não se pode comprar, é um dom de Deus. E nós devemos oferecer a esperança cristã com o nosso testemunho, com a nossa liberdade, com a nossa alegria. O dom da graça que Deus nos dá, traz a esperança. Nós, que temos a alegria de nos apercebermos que não somos órfãos, que temos um Pai, podemos permanecer indiferentes a esta cidade que nos pede, talvez também inconscientemente, sem o saber, uma esperança que ajude a olhar para o futuro com maior confiança e serenidade? Nós não podemos ser indiferentes.
 
Não sei como anda, neste sentido, a doutrina das Igrejas evangélicas. A morte de Gefferson trouxe a recordação de um outro jovem, Saulo Assis de Lima que se jogou de uma torre de telefonia em Porto Velho, Rondônia, em abril deste ano. Os relatos de amigos deste jovem de 23 anos não deixam dúvidas. Saulo foi expulso de casa pela família que é evangélica, por ele ter sido aidético e homossexual. De acordo com diversas fontes, o corpo de Saulo permaneceu muitos dias no IML da cidade. Surgiu, até, uma campanha no facebook: "Um funeral digno para Saulo".
 
Repito: não tenho o conhecimento suficiente sobre a doutrina evangélica e os seus "dogmas" sobre o suicídio. Talvez o ponto de partida tenha sido a história de Judas Iscariotes e uma associação inescrupulosa de versículos bíblicos, tais como: "Judas Iscariotes foi o traidor" (Mt 10, 4); "Satanás entrou em Judas" (Lc 22, 3); "Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!" (Mt 26, 24). Por sua vez, é mais que evidente, o discurso homofóbico da maioria dos pastores evangélicos. Voltemos, porém, ao contexto católico...
 
A Igreja católica que usa o termo "tendências homossexuais profundamente radicadas", na verdade revela a sua própria homofobia, profundamente radicada. Por mais que tente escondê-la sob uma veemente condenação de discriminação (injusta - sic!), logo acrescenta que quando é aceita a afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada e, por conseguinte, a atividade homossexual é considerada boa, nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos. A Igreja não se surpreende com os comportamentos irracionais e violentos contra as pessoas homossexuais, mas é incapaz de admitir a sua própria contribuição para tais comportamentos. Vejamos alguns princípios que servem para a pregação da doutrina, nas igrejas e salas de catequese, nos encontros de oração e retiros, em formação de jovens e de todos os outros fiéis católicos. A Igreja afirma e ensina o seguinte:
 
Na "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais"
  • Como acontece com qualquer outra desordem moral, a atividade homossexual impede a autorrealização e a felicidade porque contrária à sabedoria criadora de Deus.
  • Quando se entregam a uma atividade homossexual, elas [as pessoas homossexuais] reforçam dentro delas mesmas uma inclinação sexual desordenada, caracterizada em si mesma pela auto-complacência.
  • Uma pessoa que se comporta de modo homossexual, age imoralmente.
  • São Paulo apresenta o comportamento homossexual como um exemplo da cegueira em que caiu a humanidade.
  • A própria inclinação deve ser considerada como objetivamente desordenada.
  • O Autor [do Livro de Levítico] exclui do povo de Deus os que têm um comportamento homossexual.
  • O  fenômeno do homossexualismo, em suas múltiplas dimensões e com seus efeitos sobre a sociedade e sobre a vida eclesial, é um problema que afeta propriamente a preocupação pastoral da Igreja.
  • A prática do homossexualismo [está] ameaçando seriamente a vida e o bem-estar de grande número de pessoas.
  • A opinião segundo a qual a atividade homossexual seria equivalente à expressão sexual do amor conjugal ou, pelo menos, igualmente aceitável, incide diretamente sobre a concepção que a sociedade tem da natureza e dos direitos da família, pondo-os seriamente em perigo.
  • A catequese poderá ajudar inclusive as famílias em que se encontrem pessoas homossexuais, a enfrentar um problema que as atinge tão profundamente.
 
Outros documentos:
  • Os atos homossexuais não se podem, de maneira nenhuma, aprovar. (...) Na Sagrada Escritura, as relações homossexuais são condenadas como graves depravações. (...) As legislações que favorecem as uniões homossexuais são contrárias à reta razão. A legalização das uniões homossexuais acabaria, portanto, por ofuscar a percepção de alguns valores morais fundamentais e desvalorizar a instituição matrimonial. (...) Há razões válidas para afirmar que tais uniões [homossexuais] são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social. (...) Todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (...) O respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (1)
  • Existem setores onde não se trata de discriminação injusta tomar em consideração a tendência sexual, por exemplo, na adoção ou no cuidado das crianças, nó trabalho dos professores ou dos treinadores atléticos e no recrutamento militar. (...) A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. (...) Existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.(2)
  • Certamente, na atividade pastoral estes homossexuais assim hão de ser acolhidos com compreensão e apoiados na esperança de superar as próprias dificuldades pessoais e a sua inadaptação social. (...) Segundo a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos destituídos da sua regra essencial e indispensável. Elas são condenadas na Sagrada Escritura como graves depravações e apresentadas aí também como uma consequência triste de uma rejeição de Deus. Este juízo exarado na Escritura Sagrada não permite, porém, concluir que todos aqueles que sofrem de tal anomalia são por isso pessoalmente responsáveis; mas atesta que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e que eles não podem, em hipótese nenhuma, receber qualquer aprovação. (3)
  • O caminho formativo [dos candidatos ao sacerdócio] deverá ser interrompido no caso do candidato, apesar do seu empenho, do apoio do psicólogo ou da psicoterapia, continuar a manifestar incapacidade para enfrentar de modo realista, ainda que com o progresso do crescimento humano, as suas graves imaturidades (fortes dependências afetivas, notável falta de liberdade nas relações, excessiva rigidez de carácter, falta de lealdade, identidade sexual incerta, tendências homossexuais fortemente enraizadas, etc.). (4)
  • Será tarefa da família e do educador procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade: descobrir se se trata de fatores fisiológicos ou psicológicos, se esta será o resultado de uma falsa educação ou da falta de uma evolução sexual normal, se provém de um hábito contraído ou de maus exemplos ou de outros fatores. (...) Existe mais no profundo, a congênita fraqueza do homem, como consequência do pecado original; esta fraqueza pode levar à perda do sentido de Deus e do homem e ter suas repercussões na esfera da sexualidade. (5)
  • Uma problemática particular, que se pode manifestar no processo de maturação-identificação sexual, é a da homossexualidade, que, aliás, se difunde cada vez mais nas culturas urbanas. (...) Os jovens precisam de ser ajudados a distinguir os conceitos de normalidade e de anomalia, de culpa sugestiva e de desordem objetiva, evitando induzir hostilidade e, por outro lado, esclarecendo bem a orientação estrutural e complementar da sexualidade em relação à realidade do matrimônio, da procriação e da castidade cristã. (...) Muitos casos, especialmente quando a prática de atos homossexuais não se estruturou, podem ser ajudados positivamente por meio de uma terapia apropriada. (...) Os pais, por seu lado, no caso de advertirem nos filhos, em idade infantil ou adolescente, o aparecimento de tal tendência ou dos comportamentos com ela relacionados, façam-se ajudar por pessoas especializadas e qualificadas para darem todo o auxílio possível. (6)
Se estas afirmações não incentivam os atos violentos de homofobia e não agravam o estado de depressão e angústia em pessoas que não conseguem aceitar a própria homossexualidade, então... eu sou o Papai Noel. A Igreja que se declara, tão firmemente, como a "defensora da vida e dos direitos humanos", precisa fazer um sincero e humilde exame de consciência.

30 de setembro de 2013

A coragem do diálogo

 
Mais uma vez, as palavras do Papa Francisco. Mais uma vez, o receio de que a sua voz tenha sido aquela que grita no deserto, portanto, ouvida por... ninguém. Ou, mesmo ouvida, ignorada por todos. Pior: ouvida e entendida, mas "traduzida", isto é, distorcida, para que não alcance o seu objetivo.
 
O Papa discursou hoje aos participantes do encontro internacional para a paz, promovido pela Comunidade de Santo Egídio. O encontro, chamado “A coragem da esperança - religiões e culturas em diálogo”, reuniu em Roma 400 representantes das principais religiões e representantes da vida política e cultural da Europa e do mundo vindos de 60 países. Entre as palavras do Santo Padre, destaco:
 
No mundo, na sociedade, há pouca paz também porque falta o diálogo, é difícil sair do estreito horizonte dos próprios interesses para abrir-se a uma verdadeira e sincera comparação. Pela paz é necessário um diálogo determinado, paciente, forte, inteligente, para o qual nada está perdido.  O diálogo pode vencer a guerra. O diálogo faz viver junto pessoas de diferentes gerações, que muitas vezes se ignoram; faz viver junto cidadãos de diversas proveniências étnicas, de diversas convicções. O diálogo é o caminho da paz. Porque o diálogo favorece o entendimento, a harmonia, a concórdia, a paz. Por isto é vital que cresça, que se alargue entre os povos de toda condição e convicção como uma rede de paz que protege o mundo e, sobretudo, protege os mais frágeis.
 
De modo especial, digamos com força, todos, continuamente, que não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência. Não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência, de nenhum modo que essa se manifeste. (...) Os líderes religiosos são chamados a ser verdadeiros “dialogantes”, a agir na construção da paz não como intermediários, mas como autênticos mediadores. (...) Cada um de nós é chamado a ser um artesão da paz, unindo e não dividindo, eliminando o ódio e não o conservando, abrindo os caminhos do diálogo e não levantando novos muros! Dialogar, encontrar-nos para instaurar no mundo a cultura do diálogo, a cultura do encontro.
 
Para que um diálogo seja possível, é necessário remover os principais obstáculos, inclusive alguns conceitos ultrapassados. Foi isso que aconteceu no início de uma nova fase de diálogo entre católicos e judeus. Em 1963, por ocasião da Sexta-Feira Santa, João XXIII mandou suspender a oração da liturgia que se referia aos judeus por “pérfidos” (leia mais aqui). Naquela mesma época foi dado um passo para frente no diálogo entre católicos e ortodoxos: em 1965, mediante um ato conjunto, o Patriarca Ecumênico Atenágoras e o Papa Paulo VI eliminaram e cancelaram da memória e da vida da Igreja a sentença da excomunhão entre Roma e Constantinopla. Recentemente o Conselho Pontifício da Cultura, inspirado nas palavras do Papa Bento XVI, criou  um projeto chamado "Átrio dos gentios", como lugar de encontro e de diálogo, espaço de expressão para os que não creem e para os que se colocam questões sobre a própria fé, uma janela sobre o mundo, sobre a cultura contemporânea e uma escuta das vozes que aí ressoam.
 
Será possível o diálogo entre as pessoas homossexuais e a Igreja? Quais são os (pre)conceitos que deveriam ser repensados, antes de sentar à "mesa redonda" e conversar?
 
A Igreja, mesmo tendo declarado ser de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam, continua insistindo que a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Em outro documento, a Igreja afirma: A homossexualidade, que impede à pessoa de alcançar  a sua maturidade sexual, seja do ponto de vista individual, como interpessoal, é um problema que deve ser assumido pelo sujeito e pelo educador, quando se apresentar o caso, com toda a objetividade. A ideia de definir a homossexualidade como falta de maturidade, aparece em outros textos e parece ser a base de toda a doutrina da Igreja sobre este assunto.
 
A consequência direta de considerar as pessoas homossexuais como imaturas é a categórica negação de quaisquer direitos, inclusive civis, a essas pessoas. O texto de "Algumas reflexões acerca da resposta a propostas legislativas sobre a não-discriminação das pessoas homossexuais", assinado em 1992 pela Congregação para a Doutrina da Fé, diz, por exemplo:  As pessoas homossexuais, como seres humanos, têm os mesmos direitos de todas as pessoas, inclusivamente o direito de não serem tratadas de maneira que ofenda a sua dignidade pessoal. Entre outros direitos, todas as pessoas têm o direito de trabalhar, de ter uma habitação, etc. Todavia, estes direitos não são absolutos. Podem ser legitimamente limitados por motivos de conduta externa desordenada. Isto, às vezes, é não só lícito, mas obrigatório. (...) Incluir a «tendência homossexual» entre as reflexões, na base das quais é ilegal discriminar, pode facilmente levar a afirmar que a homossexualidade é uma fonte positiva de direitos humanos, por exemplo, no que se refere aos chamados direitos de ação afirmativa ou ao tratamento preferencial no que se refere à admissão ao trabalho. Isto é ainda mais deletério se considerarmos que não existe um direito à homossexualidade, o que não deveria, portanto, constituir a base para reivindicações jurídicas. A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. A homossexualidade de uma pessoa seria invocada em oposição a uma discriminação declarada e, assim, o exercício dos direitos seria defendido exatamente mediante a afirmação da condição homossexual, em vez de em termos de uma violação dos direitos humanos básicos. (...) Além disso, existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.
 
Se não fosse tão triste, mereceria uma boa gargalhada. O problema consiste na postura da Igreja que nega às pessoas homossexuais (por serem imaturas) os mais básicos direitos humanos. Muito provavelmente, o direito ao diálogo, encontra-se no meio da lista de "direitos inexistentes", declarada pela Igreja. A minha esperança está nos exemplos da história recente. Os inexistentes (pérfidos) judeus foram, finalmente, considerados dignos de diálogo, assim como os inexistentes (excomungados) ortodoxos, sem falar dos gentios que, apesar desse nome, nitidamente pejorativo, foram admitidos ao "átrio" da Igreja...
 
Quanto à imaturidade, vale a pena citar aqui a opinião de A. W. Richard Sipe, da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins (o texto reproduzido no livro "Abuso espiritual & vício religioso" de Matthew Linn, Sheila Fabricant Linn e Dennis Linn; Ed. Verus, Campinas, SP; 2000):
 
É evidente que a Igreja instituída está num estágio pré-adolescente de desenvolvimento psicossexual. Este é um período tipicamente anterior aos 11 anos de idade. (...) Em geral o sexo é exteriormente rejeitado com rigor, mas é secretamente explorado. A severidade se estende a regras rigorosas de inclusão e de exclusão. Controle e anulação são de extrema importância. Essa estrutura instituída, apesar de incluir os indivíduos que a superaram em maturidade, está dominada e entrincheirada num nível de funcionamento que não pode enfrentar as realidades sexuais da adolescência, muito menos a igualdade e sexualidade de homens e mulheres maduros (p. 50).
 
Os autores do livro desenvolvem este pensamento: Uma Igreja estagnada, presa no estágio pré-adolescente de desenvolvimento, é limitada em sua habilidade de lidar com questões sexuais e ditar normas sexuais (...). Assim sendo, muitos católicos questionam as normas da Igreja em assuntos da sexualidade, tais como divórcio, novo casamento, controle de natalidade, aborto, homossexualidade, celibato obrigatório para os padres, ordenação de mulheres e limitações, para os homens, do poder de tomar decisões importantes. Muitas dessas pessoas apreciam os bons valores da Igreja, tais como a sacralidade em todas as circunstâncias da vida humana, a intuição de que a reprodução é um elo sagrado com a criatividade de Deus e o valor sacramental do amor conjugal. Contudo esses valores se perdem nas discussões sobre questões sexuais. Uma das razões por que isso acontece pode ser o fato de a Igreja instituída, que interpreta e promove esses valores, estar frequentemente presa no estágio pré-adolescente do desenvolvimento psicossexual. Assim, a mensagem principal que muitas pessoas recebem não é a dos bons valores da Igreja, mas o medo fundamental das mulheres e da sexualidade. É essa atitude negativa e medrosa que muitas pessoas rejeitam quando questionam os ensinamentos da Igreja sobre sexualidade (p. 50-51).
 
Sem dúvida, a coragem de dialogar, é um dos elementos fundamentais de maturidade.

29 de setembro de 2013

Lázaro ou o rico?

 
Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. (Lc 16, 19-21)
 
A reflexão sobre o Evangelho de hoje (Lc 16, 19-31) pode ser feita de várias maneiras. Uma delas é aquela que publiquei neste blog em 2011. A riqueza da Palavra de Deus, porém, permite-nos novas descobertas, principalmente, quando fazemos uma "leitura existencial": Observe, conforme a situação que você está vivendo, que personagem se encaixa melhor em você. Coloque-se no lugar de cada um deles (Pe. Léo). "Com quem nos identificamos?". A razão para o uso de tal abordagem é afinar a nossa inteligência, para que possamos, então, começar a levantar certas questões... (Pe. James Alison). Partindo destes princípios, proponho hoje três pontos de vista diferentes, lembrando de que quem está lendo o texto é um homossexual que recebeu o dom da fé cristã e procura cultivá-la, dentro do contexto de sua específica identidade.
 
1. A primeira, mais imediata e mais nítida interpretação, leva-me a identificar a pessoa homossexual na figura de Lázaro e... a Igreja, sendo representada pelo rico. Por que assim? Se olharmos bem à sociedade de hoje, ainda que não seja no sentido popular da palavra, mas quem se veste com roupas finas e elegantes e faz festas esplêndidas todos os dias, é a Igreja. No chão (e, muitas vezes, sem chão), à porta da igreja, sem poder (ou querer) entrar, está o/a homossexual, cheio de feridas. Recordo aqui as palavras do Papa, de sua recente entrevista, que dizia: Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Por sua vez, a Igreja, faz as suas festas esplêndidas, dedicando-as (pelo menos, este é o propósito) a Deus que é Amor. Além disso, a Igreja declara ter o monopólio do amor e é ela quem decide qual forma de amor é correta e permitida. O pobre Lázaro quer matar a fome com as sobras que caem da mesa do rico e, provavelmente, fica na mesma situação do filho pródigo: O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam (Lc 15, 16). A pessoa homossexual tem fome e sede da graça de Deus e do amor humano. Enquanto "o rico" não lhe der a sua permissão, vêm os cachorros lamber as feridas de Lázaro. Sem o acesso à graça e sem a permissão para amar, o Lázaro deixa-se lamber pelos cachorros do sexo casual, da prostituição, da promiscuidade. Uma lambida de cachorro pode, até, trazer o alívio momentâneo, mas, em consequência, agrava o sofrimento. Lázaro, sujo e lambido pelos cachorros, é nojento aos olhos do rico, por isso, cria-se no coração dele uma particular indiferença. O detalhe da parábola de Jesus fala de festas diárias. Imagino aquele rico, saindo e entrando, todos os dias, por aquela mesma porta, diante da qual, no chão, estava o pobre Lázaro. Afinal, o rico precisava resolver muita coisa em relação às festas, mas, certamente, Lázaro tenha se tronado mais um elemento da paisagem ao qual não se presta mais atenção.
 
2. A primeira leitura do Evangelho pode conservar em nós o "coitadismo". Olhar ao mundo e à Igreja, exclusivamente da posição de vítima, certamente não vai fazer bem a ninguém. Eu sei que existe a homofobia e que a luta contra ela é importante. Entretanto, a minha vida não pode se reduzir ao ponto de vista de Lázaro. Como escrevi em 2011, o "mundo gay" estende-se por todas as camadas da sociedade, mas a mídia (inclusive a do próprio "mundo gay") apresenta, mais frequentemente, os homossexuais que se vestem com roupas finas e elegantes e fazem (ou participam de) festas esplêndidas todos os dias. Por sua vez, é conhecida a sensibilidade dos homossexuais em relação a "roupas finas e elegantes", bem maior que dos heterossexuais. Seria possível, então, ler a mesma parábola de Jesus, identificando o/a homossexual com o rico? E, com o rico que fica insensível em relação ao pobre Lázaro? Quem, então, seria representado por Lázaro? Vamos inverter os papeis. Para muitos homossexuais é, justamente, a Igreja que não merece qualquer atenção. Quantos, entre nós, deixam de lado a Igreja, permitindo que seja lambida pelos cachorros (por exemplo, aqueles que só sabem falar mal dela). E da nossa riqueza não cedemos coisa alguma: nem a mera presença, nem os talentos que temos, nem a nossa fé e, menos ainda, a experiência do nosso amor. Talvez a Igreja queira se alimentar com as sobras que caem de nossas mesas, mas ela é, simplesmente, desprezada.
 
3. Talvez uma terceira tentativa de leitura possa ser mais útil. Independentemente do fato de eu ser gay, ou um "ativista" da Igreja, sou chamado à caridade. As periferias, mencionadas tanto pelo Papa, muitas vezes encontram-se diante da minha porta. Jesus disse: Pobres vós tereis sempre convosco (Mt 26 11) e o Apóstolo Pedro, lembra o antigo provérbio: a caridade cobre a multidão dos pecados (1 P 4, 8; cf. Pr 10, 12). O que importa, é a caridade, a sensibilidade, a partilha. É a questão de imitar o Senhor que faz justiça aos que são oprimidos, dá alimento aos famintos, faz erguer-se o caído, protege o estrangeiro e ampara a viúva e o órfão, como dizia o Salmo de hoje (Sl 145). Faz bem fazer o bem. E não apenas para uma satisfação momentânea, mas em vista à eternidade. Além disso, a experiência de Lázaro, assemelha-nos a Jesus, tanto em sua cruz, quanto na glória.
 
Termino com os votos que, tanto aqui, quanto na eternidade, desapareça aquele grande abismo, do qual fala Abraão na parábola: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós (Lc 16, 26).

28 de setembro de 2013

Medo de perguntar


Os discípulos não compreenderam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto. (Lc 9, 45)

É o último versículo do pequeno trecho do Evangelho deste sábado. As perguntas, mas também o medo de fazê-las, acompanham-nos durante a vida inteira. Bem, pelo menos, depois de encerrarmos a nossa infância. É próprio de toda criança fazer perguntas de todo tipo, inclusive aquelas que deixam os adultos embaraçados. Talvez esta tenha sido uma das razões de Jesus afirmar: quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele (Mc 10, 15).

Entretanto, o próprio Jesus não respondia a todas as perguntas: Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se e perguntaram-lhe: Com que direito fazes isso? Quem te deu esta autoridade? Respondeu-lhes Jesus: Eu vos proporei também uma questão. Se responderdes, eu vos direi com que direito o faço. Donde procedia o batismo de João: do céu ou dos homens? Ora, eles raciocinavam entre si: Se respondermos: Do céu, ele nos dirá: Por que não crestes nele? E se dissermos: Dos homens, é de temer-se a multidão, porque todo o mundo considera João como profeta. Responderam a Jesus: Não sabemos. Pois eu tampouco vos digo, retorquiu Jesus, com que direito faço estas coisas (Mt 21, 23-27). Algo parecido acontecia, quando se tratava de outras perguntas, feitas de má fé, por exemplo, sobre o imposto a ser pago - ou não - ao César (Mt 22, 15, 21), mas, principalmente, na hora do julgamento, diante do Sumo Sacerdote, de Herodes e de Pilatos. Pilatos perguntou-lhe outra vez: Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam! (Mc 15, 4).

Quais são as conclusões práticas para nós? Pelo menos duas... A principal maneira de seguir a Jesus, consiste em imitá-lo. Logo, não temos a obrigação de responder a todas as perguntas. Por outro lado, Jesus nem sempre responde aos nossos questionamentos, ainda que Ele próprio tenha sido a resposta a todas as interrogações do ser humano. Ou, então, Ele responde, sim só que somos nós que não sabemos ouvir...

Algumas perguntas existenciais sem resposta, levam muita gente a perder o sentido da vida, a ponto de acabar com ela com suas próprias mãos. "Por que eu?", "Por que nasci assim?", "Por que sinto isso?" - são as mais frequentes interrogações que fazem as pessoas homossexuais, pelo menos na hora da descoberta e, as vezas, pelo resto de sua vida. Muitos pais se perguntam "Onde nós erramos?", "Quem fez isso com o nosso filho/a nossa filha?", "O que fazer para livrá-lo(a) dessa desgraça?", além de todas aquelas, no estilo "O que irão dizer os vizinhos sobre a nossa família?". Há perguntas que não devem ser feitas, como aquela que fez, em público, o doutor César a seu filho Félix (na novela da Globo "Amor à vida"): "Quem é quem na cama? Quem é mulher e quem é homem?". Sem dúvida, alguns pais ficam curiosos e, sinceramente, não tenho certeza se eu mesmo negaria a resposta, caso a minha mãe me perguntasse. É, porque conheço a minha mãe e sei que ela faria (caso fizesse!) esta pergunta sem maldade e não para julgar, condenar, humilhar, etc. Não se trata de entrar em detalhes anatômicos, mas de querer saber como vai a vida amorosa do filho. Justamente, sem entrar em detalhes, a minha mãe conversa com o meu irmão (casado com uma mulher, com quem tem três filhos), sobre a vida conjugal dele. São as conversas cheias de tato, respeitosas, mesmo assim, tocam nos assuntos de intimidade. Acredito que, se eu vivesse em um relacionamento, as conversas com a minha mãe incluiriam tais assuntos.

Ah, quem nunca fez, no seu íntimo, aquela pergunta angustiante "Será que ele/ela é...?". As biblio- e videotecas estão repletas de obras que tentam descrever o arrependimento das pessoas que não tiveram coragem de dar aquele primeiro passo. As vezes funciona o "gaydar", cria-se aquele clima, surge a química. Comigo já funcionou... Ou, funcionava, antigamente. Mas, também, já fiz aquela pergunta, porém, eu acho que a forma, ou a hora, não tenham sido adequadas. Perdi o contato com alguns amigos por causa de algumas perguntas ousadas, ou entendidas mal...

Outra coisa, para muitos bastante polêmica, é a conversa entre os homossexuais, a respeito de sua "opção na cama". Aquele famoso: "ATV/PAS?". Vários comentários nas redes sociais expressam indignação com este tipo de pergunta. Eu diria o seguinte: exatamente assim, como em uma conversa respeitosa em família, o assunto não deve ser escancarado, nem colocado em primeiro lugar. Entretanto, penso que deve aparecer em algum momento e bem antes de duas pessoas decidirem ir para cama e antes de se apaixonar, um pelo outro. Por mais que se diga que "não existe 100% isso ou aquilo", não seria legal descobrir a eventual incompatibilidade, somente na hora "H".

Para terminar, deixo aqui uma pergunta aberta. Todos se lembram da revelação bíblica sobre a criação do ser humano. É o texto citado em quase todos os documentos da Igreja que descrevem a homossexualidade como profundamente desordenada e condenam os atos homossexuais. A parte principal dos argumentos não é a afirmação de que Deus tenha criado o homem a sua imagem e semelhança, mas que Ele "os fez homem e mulher", ordenando, logo depois, que fossem fecundos. A própria narração do Livro Sagrado, usando a sua predileta linguagem alegórica, diz o seguinte:

O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.” Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais dos campos, e todas as aves dos céus, levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar; e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome. O homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos céus e a todos os animais dos campos; mas não se achava para ele uma ajuda que lhe fosse adequada. Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. "Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem. Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne (Gn 2, 18-24).
 
A minha pergunta é: o que teria dito o homem, se Deus, em vez de mulher, levasse para junto dele... o outro homem? Não daria a mesma resposta: "Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne"?

João Paulo I

 
Neste 35° aniversário da morte de João Paulo I (28. 09. 1978), não pretendo falar de teorias de conspiração, intrigas no Vaticano e coisas parecidas. Quero agradecer a Deus por este raio de luz que iluminou a Igreja durante 33 dias. O "Papa do sorriso" deixou poucas palavras, mas vale a pena recordar algumas, pois não perderam a sua atualidade e, sem dúvida, podemos identificar nelas uma espécie de testamento espiritual daquele que, desde então, acompanha-nos como intercessor.
 
O site oficial da Santa Sé disponibiliza 29 textos, escritos ou pronunciados pelo Papa João Paulo I, entre homilias, discursos, cartas e mensagens. Vale a pena recordar aqui algumas de suas palavras:
 
  • Na aula de filosofia dizia-me o professor: — Tu conheces a torre de São Marcos? — Conheço. — Isso significa que ela entrou dalgum modo na tua mente: fisicamente ficou onde estava, mas no teu íntimo ela imprimiu quase um retrato seu, intelectual. Mas tu, por tua vez, amas a torre de São Marcos? Significa isto que aquele retrato te impele de dentro e te inclina, quase te leva e te faz ir, com o espírito, até à torre que está fora. Numa palavra: amar significa viajar, correr com o coração para o objeto amado. Diz a Imitação de Cristo: quem ama "currit, volat, laetatur": corre, voa e alegra-se (Imitação de Cristo, 1. III, c. V, n. 4). [Audiência, 27. 09. 1978]
  • As vezes diz-se: "estamos numa sociedade toda estragada, toda sem moral". Mas tal afirmação não é verdade. Há ainda tanta gente boa, tanta gente honesta. Pergunte-se antes: Que fazer para melhorar a sociedade? Eu responderia: Procure cada um de nós ser bom e contagiar os outros com uma bondade toda penetrada pela mansidão e pelo amor ensinado por Cristo. A regra de ouro de Cristo foi: "Não fazeres aos outros aquilo que não queres te seja feito a ti. Fazeres aos outros o que queres te seja feito a ti. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". (...) Não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode. Peçamos ao Senhor a graça de que uma nova onda de amor para com o próximo invada este pobre mundo. [Angelus, 24. 09. 1978]
  • Uma alvorada de esperança paira sobre o mundo, mesmo se, de vez em quando, trevas densíssimas — que se distinguem pelos sinistros fulgores do ódio, do sangue e da guerra — parecem obscurecê-la. O humilde Vigário de Cristo, que, de ânimo tímido mas cheio de confiança, inicia a sua missão, está inteiramente pronto a servir a Igreja e a sociedade civil, sem qualquer discriminação de raças ou de ideologias, com o objetivo de que para o mundo nasça um dia mais claro e mais suave. [Radiomensagem, 27. 08. 1978]

27 de setembro de 2013

Impressionismo cinematográfico

Procurei uma palavra que retratasse a minha impressão, depois de assistir o filme coreano "Hello my love" e me veio à mente, justamente, o impressionismo. O termo, obviamente, pertence ao mundo da arte de pintura (é um movimento artístico surgido na França no século XIX que criou uma nova visão conceitual da natureza utilizando pinceladas soltas dando ênfase na luz e no movimento - leia mais aqui). As cores frequentemente são empregadas puras na tela, em pinceladas desassociadas. Os impressionistas retratam em suas telas os reflexos e efeitos que a luz do sol produz nas cores da natureza. A fonte das cores está nos raios do sol. Uma mudança no ângulo destes raios implica na alteração de cores e tons. É comum um mesmo motivo ser retratado diversas vezes no mesmo local, porém com as variações causadas pela mudanças nas horas do dia e nas estações ao longo do ano. O estilo artístico que hoje fascina tanta gente, nem sempre foi acolhido com tanto entusiasmo. As maiores críticas recebeu logo no início. O pintor e crítico de Arte, Louis Leroy disse: “Selvagens obstinados, não querem por preguiça ou incapacidade terminar seus quadros. Contentam-se com uns borrões que representam suas impressões. Que farsantes! Impressionistas!”
 
Eu sei que o filme em questão pode despertar diversas emoções e muitos podem, simplesmente, não compartilhar o meu entusiasmo. Afinal, estamos diante de uma cultura oriental, tão distante da nossa. O tema principal gira em torno da homoafetividade, mas, o que posso dizer é que - como um soldado que põe tudo que tem dentro de um saco - o diretor, junto com toda a equipe do filme (que está longe de ser um saco) conseguiu, dentro de um pouco mais de 90 minutos, misturar - sem confundir - tanta coisa: amor e ódio, absurdo e mais pura lógica, fidelidade e traição, comédia e tragédia, covardia e coragem, religião, superstições e homofobia, sensualidade que não escandaliza, belíssimas paisagens e música, profundo mergulho na antiquíssima tradição oriental com o toque da moderna cultura ocidental, canalhice e nobreza, muita, muita chuva e realmente muita bebida, lágrimas e gargalhadas, homo- e hetroafetividade, família e amizade, sangue e morte, violência e ternura... e milhares de outras coisas. Vale acrescentar que o filme envolve, a ponto de você rir, chorar, xingar e torcer pelo final feliz. E tem mais: o elemento-surpresa, até o último minuto da história. E tudo isso protagonizado pelos lindos atores e atrizes!
 
É um filme a ser saboreado, como (e com) um bom vinho (que faz parte integral da trama). Recomendo especialmente aos casais (inclusive heterossexuais).