ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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30 de setembro de 2013

A coragem do diálogo

 
Mais uma vez, as palavras do Papa Francisco. Mais uma vez, o receio de que a sua voz tenha sido aquela que grita no deserto, portanto, ouvida por... ninguém. Ou, mesmo ouvida, ignorada por todos. Pior: ouvida e entendida, mas "traduzida", isto é, distorcida, para que não alcance o seu objetivo.
 
O Papa discursou hoje aos participantes do encontro internacional para a paz, promovido pela Comunidade de Santo Egídio. O encontro, chamado “A coragem da esperança - religiões e culturas em diálogo”, reuniu em Roma 400 representantes das principais religiões e representantes da vida política e cultural da Europa e do mundo vindos de 60 países. Entre as palavras do Santo Padre, destaco:
 
No mundo, na sociedade, há pouca paz também porque falta o diálogo, é difícil sair do estreito horizonte dos próprios interesses para abrir-se a uma verdadeira e sincera comparação. Pela paz é necessário um diálogo determinado, paciente, forte, inteligente, para o qual nada está perdido.  O diálogo pode vencer a guerra. O diálogo faz viver junto pessoas de diferentes gerações, que muitas vezes se ignoram; faz viver junto cidadãos de diversas proveniências étnicas, de diversas convicções. O diálogo é o caminho da paz. Porque o diálogo favorece o entendimento, a harmonia, a concórdia, a paz. Por isto é vital que cresça, que se alargue entre os povos de toda condição e convicção como uma rede de paz que protege o mundo e, sobretudo, protege os mais frágeis.
 
De modo especial, digamos com força, todos, continuamente, que não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência. Não pode haver alguma justificativa religiosa para a violência, de nenhum modo que essa se manifeste. (...) Os líderes religiosos são chamados a ser verdadeiros “dialogantes”, a agir na construção da paz não como intermediários, mas como autênticos mediadores. (...) Cada um de nós é chamado a ser um artesão da paz, unindo e não dividindo, eliminando o ódio e não o conservando, abrindo os caminhos do diálogo e não levantando novos muros! Dialogar, encontrar-nos para instaurar no mundo a cultura do diálogo, a cultura do encontro.
 
Para que um diálogo seja possível, é necessário remover os principais obstáculos, inclusive alguns conceitos ultrapassados. Foi isso que aconteceu no início de uma nova fase de diálogo entre católicos e judeus. Em 1963, por ocasião da Sexta-Feira Santa, João XXIII mandou suspender a oração da liturgia que se referia aos judeus por “pérfidos” (leia mais aqui). Naquela mesma época foi dado um passo para frente no diálogo entre católicos e ortodoxos: em 1965, mediante um ato conjunto, o Patriarca Ecumênico Atenágoras e o Papa Paulo VI eliminaram e cancelaram da memória e da vida da Igreja a sentença da excomunhão entre Roma e Constantinopla. Recentemente o Conselho Pontifício da Cultura, inspirado nas palavras do Papa Bento XVI, criou  um projeto chamado "Átrio dos gentios", como lugar de encontro e de diálogo, espaço de expressão para os que não creem e para os que se colocam questões sobre a própria fé, uma janela sobre o mundo, sobre a cultura contemporânea e uma escuta das vozes que aí ressoam.
 
Será possível o diálogo entre as pessoas homossexuais e a Igreja? Quais são os (pre)conceitos que deveriam ser repensados, antes de sentar à "mesa redonda" e conversar?
 
A Igreja, mesmo tendo declarado ser de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam, continua insistindo que a necessária reação diante das injustiças cometidas contra as pessoas homossexuais não pode levar, de forma alguma, à afirmação de que a condição homossexual não seja desordenada. Em outro documento, a Igreja afirma: A homossexualidade, que impede à pessoa de alcançar  a sua maturidade sexual, seja do ponto de vista individual, como interpessoal, é um problema que deve ser assumido pelo sujeito e pelo educador, quando se apresentar o caso, com toda a objetividade. A ideia de definir a homossexualidade como falta de maturidade, aparece em outros textos e parece ser a base de toda a doutrina da Igreja sobre este assunto.
 
A consequência direta de considerar as pessoas homossexuais como imaturas é a categórica negação de quaisquer direitos, inclusive civis, a essas pessoas. O texto de "Algumas reflexões acerca da resposta a propostas legislativas sobre a não-discriminação das pessoas homossexuais", assinado em 1992 pela Congregação para a Doutrina da Fé, diz, por exemplo:  As pessoas homossexuais, como seres humanos, têm os mesmos direitos de todas as pessoas, inclusivamente o direito de não serem tratadas de maneira que ofenda a sua dignidade pessoal. Entre outros direitos, todas as pessoas têm o direito de trabalhar, de ter uma habitação, etc. Todavia, estes direitos não são absolutos. Podem ser legitimamente limitados por motivos de conduta externa desordenada. Isto, às vezes, é não só lícito, mas obrigatório. (...) Incluir a «tendência homossexual» entre as reflexões, na base das quais é ilegal discriminar, pode facilmente levar a afirmar que a homossexualidade é uma fonte positiva de direitos humanos, por exemplo, no que se refere aos chamados direitos de ação afirmativa ou ao tratamento preferencial no que se refere à admissão ao trabalho. Isto é ainda mais deletério se considerarmos que não existe um direito à homossexualidade, o que não deveria, portanto, constituir a base para reivindicações jurídicas. A passagem do reconhecimento da homossexualidade como fator, na base do qual é ilegal discriminar, pode facilmente levar, se não de modo automático, à proteção legislativa e à promoção da homossexualidade. A homossexualidade de uma pessoa seria invocada em oposição a uma discriminação declarada e, assim, o exercício dos direitos seria defendido exatamente mediante a afirmação da condição homossexual, em vez de em termos de uma violação dos direitos humanos básicos. (...) Além disso, existe o perigo de a legislação, que faz da homossexualidade uma base para certos direitos, encorajar deveras uma pessoa tendencialmente homossexual a declarar a sua homossexualidade ou até mesmo a procurar um parceiro, aproveitando-se assim das disposições da lei.
 
Se não fosse tão triste, mereceria uma boa gargalhada. O problema consiste na postura da Igreja que nega às pessoas homossexuais (por serem imaturas) os mais básicos direitos humanos. Muito provavelmente, o direito ao diálogo, encontra-se no meio da lista de "direitos inexistentes", declarada pela Igreja. A minha esperança está nos exemplos da história recente. Os inexistentes (pérfidos) judeus foram, finalmente, considerados dignos de diálogo, assim como os inexistentes (excomungados) ortodoxos, sem falar dos gentios que, apesar desse nome, nitidamente pejorativo, foram admitidos ao "átrio" da Igreja...
 
Quanto à imaturidade, vale a pena citar aqui a opinião de A. W. Richard Sipe, da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins (o texto reproduzido no livro "Abuso espiritual & vício religioso" de Matthew Linn, Sheila Fabricant Linn e Dennis Linn; Ed. Verus, Campinas, SP; 2000):
 
É evidente que a Igreja instituída está num estágio pré-adolescente de desenvolvimento psicossexual. Este é um período tipicamente anterior aos 11 anos de idade. (...) Em geral o sexo é exteriormente rejeitado com rigor, mas é secretamente explorado. A severidade se estende a regras rigorosas de inclusão e de exclusão. Controle e anulação são de extrema importância. Essa estrutura instituída, apesar de incluir os indivíduos que a superaram em maturidade, está dominada e entrincheirada num nível de funcionamento que não pode enfrentar as realidades sexuais da adolescência, muito menos a igualdade e sexualidade de homens e mulheres maduros (p. 50).
 
Os autores do livro desenvolvem este pensamento: Uma Igreja estagnada, presa no estágio pré-adolescente de desenvolvimento, é limitada em sua habilidade de lidar com questões sexuais e ditar normas sexuais (...). Assim sendo, muitos católicos questionam as normas da Igreja em assuntos da sexualidade, tais como divórcio, novo casamento, controle de natalidade, aborto, homossexualidade, celibato obrigatório para os padres, ordenação de mulheres e limitações, para os homens, do poder de tomar decisões importantes. Muitas dessas pessoas apreciam os bons valores da Igreja, tais como a sacralidade em todas as circunstâncias da vida humana, a intuição de que a reprodução é um elo sagrado com a criatividade de Deus e o valor sacramental do amor conjugal. Contudo esses valores se perdem nas discussões sobre questões sexuais. Uma das razões por que isso acontece pode ser o fato de a Igreja instituída, que interpreta e promove esses valores, estar frequentemente presa no estágio pré-adolescente do desenvolvimento psicossexual. Assim, a mensagem principal que muitas pessoas recebem não é a dos bons valores da Igreja, mas o medo fundamental das mulheres e da sexualidade. É essa atitude negativa e medrosa que muitas pessoas rejeitam quando questionam os ensinamentos da Igreja sobre sexualidade (p. 50-51).
 
Sem dúvida, a coragem de dialogar, é um dos elementos fundamentais de maturidade.

29 de setembro de 2013

Lázaro ou o rico?

 
Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. (Lc 16, 19-21)
 
A reflexão sobre o Evangelho de hoje (Lc 16, 19-31) pode ser feita de várias maneiras. Uma delas é aquela que publiquei neste blog em 2011. A riqueza da Palavra de Deus, porém, permite-nos novas descobertas, principalmente, quando fazemos uma "leitura existencial": Observe, conforme a situação que você está vivendo, que personagem se encaixa melhor em você. Coloque-se no lugar de cada um deles (Pe. Léo). "Com quem nos identificamos?". A razão para o uso de tal abordagem é afinar a nossa inteligência, para que possamos, então, começar a levantar certas questões... (Pe. James Alison). Partindo destes princípios, proponho hoje três pontos de vista diferentes, lembrando de que quem está lendo o texto é um homossexual que recebeu o dom da fé cristã e procura cultivá-la, dentro do contexto de sua específica identidade.
 
1. A primeira, mais imediata e mais nítida interpretação, leva-me a identificar a pessoa homossexual na figura de Lázaro e... a Igreja, sendo representada pelo rico. Por que assim? Se olharmos bem à sociedade de hoje, ainda que não seja no sentido popular da palavra, mas quem se veste com roupas finas e elegantes e faz festas esplêndidas todos os dias, é a Igreja. No chão (e, muitas vezes, sem chão), à porta da igreja, sem poder (ou querer) entrar, está o/a homossexual, cheio de feridas. Recordo aqui as palavras do Papa, de sua recente entrevista, que dizia: Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Por sua vez, a Igreja, faz as suas festas esplêndidas, dedicando-as (pelo menos, este é o propósito) a Deus que é Amor. Além disso, a Igreja declara ter o monopólio do amor e é ela quem decide qual forma de amor é correta e permitida. O pobre Lázaro quer matar a fome com as sobras que caem da mesa do rico e, provavelmente, fica na mesma situação do filho pródigo: O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam (Lc 15, 16). A pessoa homossexual tem fome e sede da graça de Deus e do amor humano. Enquanto "o rico" não lhe der a sua permissão, vêm os cachorros lamber as feridas de Lázaro. Sem o acesso à graça e sem a permissão para amar, o Lázaro deixa-se lamber pelos cachorros do sexo casual, da prostituição, da promiscuidade. Uma lambida de cachorro pode, até, trazer o alívio momentâneo, mas, em consequência, agrava o sofrimento. Lázaro, sujo e lambido pelos cachorros, é nojento aos olhos do rico, por isso, cria-se no coração dele uma particular indiferença. O detalhe da parábola de Jesus fala de festas diárias. Imagino aquele rico, saindo e entrando, todos os dias, por aquela mesma porta, diante da qual, no chão, estava o pobre Lázaro. Afinal, o rico precisava resolver muita coisa em relação às festas, mas, certamente, Lázaro tenha se tronado mais um elemento da paisagem ao qual não se presta mais atenção.
 
2. A primeira leitura do Evangelho pode conservar em nós o "coitadismo". Olhar ao mundo e à Igreja, exclusivamente da posição de vítima, certamente não vai fazer bem a ninguém. Eu sei que existe a homofobia e que a luta contra ela é importante. Entretanto, a minha vida não pode se reduzir ao ponto de vista de Lázaro. Como escrevi em 2011, o "mundo gay" estende-se por todas as camadas da sociedade, mas a mídia (inclusive a do próprio "mundo gay") apresenta, mais frequentemente, os homossexuais que se vestem com roupas finas e elegantes e fazem (ou participam de) festas esplêndidas todos os dias. Por sua vez, é conhecida a sensibilidade dos homossexuais em relação a "roupas finas e elegantes", bem maior que dos heterossexuais. Seria possível, então, ler a mesma parábola de Jesus, identificando o/a homossexual com o rico? E, com o rico que fica insensível em relação ao pobre Lázaro? Quem, então, seria representado por Lázaro? Vamos inverter os papeis. Para muitos homossexuais é, justamente, a Igreja que não merece qualquer atenção. Quantos, entre nós, deixam de lado a Igreja, permitindo que seja lambida pelos cachorros (por exemplo, aqueles que só sabem falar mal dela). E da nossa riqueza não cedemos coisa alguma: nem a mera presença, nem os talentos que temos, nem a nossa fé e, menos ainda, a experiência do nosso amor. Talvez a Igreja queira se alimentar com as sobras que caem de nossas mesas, mas ela é, simplesmente, desprezada.
 
3. Talvez uma terceira tentativa de leitura possa ser mais útil. Independentemente do fato de eu ser gay, ou um "ativista" da Igreja, sou chamado à caridade. As periferias, mencionadas tanto pelo Papa, muitas vezes encontram-se diante da minha porta. Jesus disse: Pobres vós tereis sempre convosco (Mt 26 11) e o Apóstolo Pedro, lembra o antigo provérbio: a caridade cobre a multidão dos pecados (1 P 4, 8; cf. Pr 10, 12). O que importa, é a caridade, a sensibilidade, a partilha. É a questão de imitar o Senhor que faz justiça aos que são oprimidos, dá alimento aos famintos, faz erguer-se o caído, protege o estrangeiro e ampara a viúva e o órfão, como dizia o Salmo de hoje (Sl 145). Faz bem fazer o bem. E não apenas para uma satisfação momentânea, mas em vista à eternidade. Além disso, a experiência de Lázaro, assemelha-nos a Jesus, tanto em sua cruz, quanto na glória.
 
Termino com os votos que, tanto aqui, quanto na eternidade, desapareça aquele grande abismo, do qual fala Abraão na parábola: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós (Lc 16, 26).

28 de setembro de 2013

Medo de perguntar


Os discípulos não compreenderam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto. (Lc 9, 45)

É o último versículo do pequeno trecho do Evangelho deste sábado. As perguntas, mas também o medo de fazê-las, acompanham-nos durante a vida inteira. Bem, pelo menos, depois de encerrarmos a nossa infância. É próprio de toda criança fazer perguntas de todo tipo, inclusive aquelas que deixam os adultos embaraçados. Talvez esta tenha sido uma das razões de Jesus afirmar: quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele (Mc 10, 15).

Entretanto, o próprio Jesus não respondia a todas as perguntas: Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se e perguntaram-lhe: Com que direito fazes isso? Quem te deu esta autoridade? Respondeu-lhes Jesus: Eu vos proporei também uma questão. Se responderdes, eu vos direi com que direito o faço. Donde procedia o batismo de João: do céu ou dos homens? Ora, eles raciocinavam entre si: Se respondermos: Do céu, ele nos dirá: Por que não crestes nele? E se dissermos: Dos homens, é de temer-se a multidão, porque todo o mundo considera João como profeta. Responderam a Jesus: Não sabemos. Pois eu tampouco vos digo, retorquiu Jesus, com que direito faço estas coisas (Mt 21, 23-27). Algo parecido acontecia, quando se tratava de outras perguntas, feitas de má fé, por exemplo, sobre o imposto a ser pago - ou não - ao César (Mt 22, 15, 21), mas, principalmente, na hora do julgamento, diante do Sumo Sacerdote, de Herodes e de Pilatos. Pilatos perguntou-lhe outra vez: Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam! (Mc 15, 4).

Quais são as conclusões práticas para nós? Pelo menos duas... A principal maneira de seguir a Jesus, consiste em imitá-lo. Logo, não temos a obrigação de responder a todas as perguntas. Por outro lado, Jesus nem sempre responde aos nossos questionamentos, ainda que Ele próprio tenha sido a resposta a todas as interrogações do ser humano. Ou, então, Ele responde, sim só que somos nós que não sabemos ouvir...

Algumas perguntas existenciais sem resposta, levam muita gente a perder o sentido da vida, a ponto de acabar com ela com suas próprias mãos. "Por que eu?", "Por que nasci assim?", "Por que sinto isso?" - são as mais frequentes interrogações que fazem as pessoas homossexuais, pelo menos na hora da descoberta e, as vezas, pelo resto de sua vida. Muitos pais se perguntam "Onde nós erramos?", "Quem fez isso com o nosso filho/a nossa filha?", "O que fazer para livrá-lo(a) dessa desgraça?", além de todas aquelas, no estilo "O que irão dizer os vizinhos sobre a nossa família?". Há perguntas que não devem ser feitas, como aquela que fez, em público, o doutor César a seu filho Félix (na novela da Globo "Amor à vida"): "Quem é quem na cama? Quem é mulher e quem é homem?". Sem dúvida, alguns pais ficam curiosos e, sinceramente, não tenho certeza se eu mesmo negaria a resposta, caso a minha mãe me perguntasse. É, porque conheço a minha mãe e sei que ela faria (caso fizesse!) esta pergunta sem maldade e não para julgar, condenar, humilhar, etc. Não se trata de entrar em detalhes anatômicos, mas de querer saber como vai a vida amorosa do filho. Justamente, sem entrar em detalhes, a minha mãe conversa com o meu irmão (casado com uma mulher, com quem tem três filhos), sobre a vida conjugal dele. São as conversas cheias de tato, respeitosas, mesmo assim, tocam nos assuntos de intimidade. Acredito que, se eu vivesse em um relacionamento, as conversas com a minha mãe incluiriam tais assuntos.

Ah, quem nunca fez, no seu íntimo, aquela pergunta angustiante "Será que ele/ela é...?". As biblio- e videotecas estão repletas de obras que tentam descrever o arrependimento das pessoas que não tiveram coragem de dar aquele primeiro passo. As vezes funciona o "gaydar", cria-se aquele clima, surge a química. Comigo já funcionou... Ou, funcionava, antigamente. Mas, também, já fiz aquela pergunta, porém, eu acho que a forma, ou a hora, não tenham sido adequadas. Perdi o contato com alguns amigos por causa de algumas perguntas ousadas, ou entendidas mal...

Outra coisa, para muitos bastante polêmica, é a conversa entre os homossexuais, a respeito de sua "opção na cama". Aquele famoso: "ATV/PAS?". Vários comentários nas redes sociais expressam indignação com este tipo de pergunta. Eu diria o seguinte: exatamente assim, como em uma conversa respeitosa em família, o assunto não deve ser escancarado, nem colocado em primeiro lugar. Entretanto, penso que deve aparecer em algum momento e bem antes de duas pessoas decidirem ir para cama e antes de se apaixonar, um pelo outro. Por mais que se diga que "não existe 100% isso ou aquilo", não seria legal descobrir a eventual incompatibilidade, somente na hora "H".

Para terminar, deixo aqui uma pergunta aberta. Todos se lembram da revelação bíblica sobre a criação do ser humano. É o texto citado em quase todos os documentos da Igreja que descrevem a homossexualidade como profundamente desordenada e condenam os atos homossexuais. A parte principal dos argumentos não é a afirmação de que Deus tenha criado o homem a sua imagem e semelhança, mas que Ele "os fez homem e mulher", ordenando, logo depois, que fossem fecundos. A própria narração do Livro Sagrado, usando a sua predileta linguagem alegórica, diz o seguinte:

O Senhor Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada.” Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais dos campos, e todas as aves dos céus, levou-os ao homem, para ver como ele os havia de chamar; e todo o nome que o homem pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome. O homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos céus e a todos os animais dos campos; mas não se achava para ele uma ajuda que lhe fosse adequada. Então o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou-a para junto do homem. "Eis agora aqui, disse o homem, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem. Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne (Gn 2, 18-24).
 
A minha pergunta é: o que teria dito o homem, se Deus, em vez de mulher, levasse para junto dele... o outro homem? Não daria a mesma resposta: "Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne"?

João Paulo I

 
Neste 35° aniversário da morte de João Paulo I (28. 09. 1978), não pretendo falar de teorias de conspiração, intrigas no Vaticano e coisas parecidas. Quero agradecer a Deus por este raio de luz que iluminou a Igreja durante 33 dias. O "Papa do sorriso" deixou poucas palavras, mas vale a pena recordar algumas, pois não perderam a sua atualidade e, sem dúvida, podemos identificar nelas uma espécie de testamento espiritual daquele que, desde então, acompanha-nos como intercessor.
 
O site oficial da Santa Sé disponibiliza 29 textos, escritos ou pronunciados pelo Papa João Paulo I, entre homilias, discursos, cartas e mensagens. Vale a pena recordar aqui algumas de suas palavras:
 
  • Na aula de filosofia dizia-me o professor: — Tu conheces a torre de São Marcos? — Conheço. — Isso significa que ela entrou dalgum modo na tua mente: fisicamente ficou onde estava, mas no teu íntimo ela imprimiu quase um retrato seu, intelectual. Mas tu, por tua vez, amas a torre de São Marcos? Significa isto que aquele retrato te impele de dentro e te inclina, quase te leva e te faz ir, com o espírito, até à torre que está fora. Numa palavra: amar significa viajar, correr com o coração para o objeto amado. Diz a Imitação de Cristo: quem ama "currit, volat, laetatur": corre, voa e alegra-se (Imitação de Cristo, 1. III, c. V, n. 4). [Audiência, 27. 09. 1978]
  • As vezes diz-se: "estamos numa sociedade toda estragada, toda sem moral". Mas tal afirmação não é verdade. Há ainda tanta gente boa, tanta gente honesta. Pergunte-se antes: Que fazer para melhorar a sociedade? Eu responderia: Procure cada um de nós ser bom e contagiar os outros com uma bondade toda penetrada pela mansidão e pelo amor ensinado por Cristo. A regra de ouro de Cristo foi: "Não fazeres aos outros aquilo que não queres te seja feito a ti. Fazeres aos outros o que queres te seja feito a ti. Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração". (...) Não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode. Peçamos ao Senhor a graça de que uma nova onda de amor para com o próximo invada este pobre mundo. [Angelus, 24. 09. 1978]
  • Uma alvorada de esperança paira sobre o mundo, mesmo se, de vez em quando, trevas densíssimas — que se distinguem pelos sinistros fulgores do ódio, do sangue e da guerra — parecem obscurecê-la. O humilde Vigário de Cristo, que, de ânimo tímido mas cheio de confiança, inicia a sua missão, está inteiramente pronto a servir a Igreja e a sociedade civil, sem qualquer discriminação de raças ou de ideologias, com o objetivo de que para o mundo nasça um dia mais claro e mais suave. [Radiomensagem, 27. 08. 1978]

27 de setembro de 2013

Impressionismo cinematográfico

Procurei uma palavra que retratasse a minha impressão, depois de assistir o filme coreano "Hello my love" e me veio à mente, justamente, o impressionismo. O termo, obviamente, pertence ao mundo da arte de pintura (é um movimento artístico surgido na França no século XIX que criou uma nova visão conceitual da natureza utilizando pinceladas soltas dando ênfase na luz e no movimento - leia mais aqui). As cores frequentemente são empregadas puras na tela, em pinceladas desassociadas. Os impressionistas retratam em suas telas os reflexos e efeitos que a luz do sol produz nas cores da natureza. A fonte das cores está nos raios do sol. Uma mudança no ângulo destes raios implica na alteração de cores e tons. É comum um mesmo motivo ser retratado diversas vezes no mesmo local, porém com as variações causadas pela mudanças nas horas do dia e nas estações ao longo do ano. O estilo artístico que hoje fascina tanta gente, nem sempre foi acolhido com tanto entusiasmo. As maiores críticas recebeu logo no início. O pintor e crítico de Arte, Louis Leroy disse: “Selvagens obstinados, não querem por preguiça ou incapacidade terminar seus quadros. Contentam-se com uns borrões que representam suas impressões. Que farsantes! Impressionistas!”
 
Eu sei que o filme em questão pode despertar diversas emoções e muitos podem, simplesmente, não compartilhar o meu entusiasmo. Afinal, estamos diante de uma cultura oriental, tão distante da nossa. O tema principal gira em torno da homoafetividade, mas, o que posso dizer é que - como um soldado que põe tudo que tem dentro de um saco - o diretor, junto com toda a equipe do filme (que está longe de ser um saco) conseguiu, dentro de um pouco mais de 90 minutos, misturar - sem confundir - tanta coisa: amor e ódio, absurdo e mais pura lógica, fidelidade e traição, comédia e tragédia, covardia e coragem, religião, superstições e homofobia, sensualidade que não escandaliza, belíssimas paisagens e música, profundo mergulho na antiquíssima tradição oriental com o toque da moderna cultura ocidental, canalhice e nobreza, muita, muita chuva e realmente muita bebida, lágrimas e gargalhadas, homo- e hetroafetividade, família e amizade, sangue e morte, violência e ternura... e milhares de outras coisas. Vale acrescentar que o filme envolve, a ponto de você rir, chorar, xingar e torcer pelo final feliz. E tem mais: o elemento-surpresa, até o último minuto da história. E tudo isso protagonizado pelos lindos atores e atrizes!
 
É um filme a ser saboreado, como (e com) um bom vinho (que faz parte integral da trama). Recomendo especialmente aos casais (inclusive heterossexuais).
 
 

Causar


 
De uns tempos pra cá observo o surgimento de novas expressões linguísticas, principalmente entre os jovens e no ambiente das redes sociais. Eu sei que o fenômeno em si é tão antigo quanto a própria humanidade e os idiomas continuam evoluindo, sendo esse o sinal de sua vitalidade. Pois é... Um dos termos que conseguiu se instalar fora das conversas na net, é "causar" (recentemente ouvi isso da boca de uma funcionária - não tão jovem assim - no supermercado). Antigamente as pessoas causavam escândalos, revoluções, comoção, comentários, etc. Hoje em dia, estão apenas... causando. Pode ser até boa essa falta de um substantivo, após o verbo, pois deixa a avaliação da coisa por conta do espectador. Por outro lado, se o "causar" for o único objetivo, eu fico na dúvida em relação aos motivos desse tipo de ação. Como naquele antigo ditado "mal ou bem, mas falem de mim". Enfim, os fenômenos surgem e desaparecem e, talvez, a sobrevivência do "causar" esteja, justamente no... causar.
 
No último dia 25, o artista e fotógrafo espanhol, residente na Itália, Gonzalo Orquín, "causou", exibindo em uma galeria de Roma, 16 fotografias de casais homossexuais, tiradas no interior das igrejas da cidade, sugerindo aquele momento da cerimônia de casamento em que o padre diz: "agora pode beijar a noiva" (veja aqui e aqui).
 
 
De acordo com a mídia internacional (aqui, em inglês), o Vaticano "causou", logo em seguida: "Chegou uma carta do Vicariato de Roma, informando que a Igreja se posiciona contra a exposição. Conversei com os advogados e por razões de segurança decidimos não mostrar as fotos" - disse Orquín à imprensa. O porta-voz do Vicariato de Roma, Claudio Tanturri, disse que as fotos violam a Constituição italiana. "A Constituição italiana garante o respeito pelos sentimentos religiosos das pessoas e o papel dos lugares de culto. Portanto, as fotos não são adequados e não se conformam com a espiritualidade do lugar, ofendem um lugar para a expressão da fé ". O Vicariato de Roma confirmou o envio da carta e ameaçou tomar medidas legais, caso as fotos (que "poderiam ferir os sentimentos religiosos dos fiéis") não fossem retiradas. Gonzalo Orquin disse que todas as dezesseis fotos da exposição foram tiradas em igrejas da cidade, com as pessoas, tanto gays e heterossexuais que se ofereceram para aparecer nas imagens.

Anteriormente - na ocasião do "beijaço para Bento XVI" em Barcelona (2010) - escrevi aqui sobre a minha opinião (negativa) a respeito de certas formas de manifestações que, a princípio, seriam realizadas em prol da visibilidade e dos direitos de pessoas homossexuais. Houve, depois, o "beijaço para o Papa Francisco", aqui no Rio, durante a JMJ. Mais tarde "explodiu a bomba" com o beijo de duas mulheres, durante um culto evangélico, presidido pelo pastor (e deputado federal) Marco Feliciano.
 
Confesso que hoje a minha opinião já não é mais tão negativa. Acho interessante o fato de que a arma do protesto tenha sido o beijo, ou seja, algo totalmente oposto à violência . Podemos começar a discutir aqui sobre essa expressão de carinho e intimidade que o citado pastor tenha definido como "ato de vilipendiação ou de baderna" e o Vicariato de Roma, como algo que viola a Constituição do país, ofende um lugar para a expressão da fé e pode ferir os sentimentos religiosos dos fiéis. Aos mais ofendidos em seus sentimentos religiosos fundamentalistas que quiserem logo trazer a comparação com o beijo de Judas ("Judas, com um beijo trais o Filho do Homem" Lc 22, 48), quero citar outra frase de Jesus (de sua conversa com o fariseu Simão): "Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. (...) Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor." (Lc 7, 45. 47).  Antes, vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: “Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora” (Lc 7, 39-40). A mulher "causou" - o fariseu ficou escandalizado, Jesus, por sua vez, comovido e admirado.
 
A conclusão, portanto, pode ser essa: o "causar" pode ser uma ótima ocasião para avaliarmos os nossos pontos de vista. Certamente é isso que os "causadores" têm em mente, ao tomarem as suas atitudes. Afinal, o maior "causador" na história é o próprio Jesus...

Casamento homoafetivo - longo cminho

 
São inquestionáveis as conquistas no campo dos direitos humanos. A comunidade GLBTTS está comemorando hoje mais um passo: O Tribunal Superior do Trabalho decidiu que que uniões heteroafetivas e homoafetivas tenham o tratamento igualitário pelas empresas. O reconhecimento legal de união estável entre as pessoas do mesmo sexo foi grande vitória. Mais tarde, o Conselho Nacional de Justiça proibiu cartórios de recusar a celebração de casamento civil de pessoas do mesmo sexo ou de negar a conversão de união estável de homossexuais em casamento.
 
Quase todos os dias de manhã escuto a Band News FM e foi um dia desses que ouvi a expressão, usada por Ricardo Boechat: "o efeito educativo da lei". Uma rápida busca me levou ao resumo de uma matéria de estudo, chamada Sociologia Jurídica (Autor: Prof. Rogério José de Almeida da PUC - Goiás), falando especificamente sobre a eficácia das normas jurídicas e seus efeitos sociais. Um dos tópicos chamou mais a minha atenção: quando se faz necessário educar o comportamento, tendo em vista modificações que se quer introduzir na cultura, a questão é de um efeito educativo do Direito com função transformadora. Entretanto, a simples edição de uma norma jurídica, mesmo armada de punição, é insuficiente para corresponder a uma efetiva aplicação.
 
Conclusão: é preciso comemorar, sim, mas, ao mesmo tempo, não se pode baixar a guarda e deixar de trabalhar, principalmente, em função de mudança da mentalidade vigente. No recente debate sobre a homofobia, voltava, com frequência, a questão dos cidadãos que precisam conhecer as leis e aprender a recorrer a elas para defender a sua dignidade. Dizia-se: "agora, pelo menos, temos os instrumentos em nossas mãos". No triste contexto da homofobia, isso é muito importante.
 
A minha pergunta, porém, vai mais longe. Queria saber (infelizmente só na teoria, pois continuo solteiro!), qual é o efeito de todas essas conquistas legais (repito: inquestionáveis) na vida real dos casais homoafetivos? Sem dúvida, é uma satisfação, poder exibir a certidão de casamento, diante dos familiares, amigos, empregadores, etc. É, também, um "escudo", quando a autodefesa se faz necessária, diante das mesmas pessoas...
 
Mas, para o próprio casal? Será que este reconhecimento legal e oficial da união ajuda a consolidar a própria união? Estou dizendo, principalmente, sobre a situação extrema - não muito rara entre os casais heterossexuais - que consiste em permanecer juntos apenas por causa daquele papel, quando todo o resto já tenha acabado. Vale acrescentar aqui o mesmo (ou, ainda mais forte e profundo) efeito educativo da lei religiosa, no caso do Sacramento do Matrimônio, ou, então, a existência dos filhos. Nessas situações extremas, os cônjuges (heterossexuais, casados na igreja e comprometidos com os próprios filhos), podem dizer: "O nosso amor acabou, não há mais nada entre nós, dormimos em quartos diferentes, mas vamos continuar juntos, por causa dos filhos, do Sacramento, dos efeitos civis do casamento e, ainda, por causa da opinião pública". Eu sei que isso, com frequência, torna a vida um absurdo, um inferno, mas o casal continua junto. Em alguns casos, aquele "um só fio" pelo qual o casamento sobreviveu, torna-se a chance de recomeço.
 
Imagino, então, um casal homoafetivo que confirmou a sua união perante a sociedade, no cartório e tem, para provar isso, um papel timbrado, carimbado e assinado. Será que, na hora de uma grave crise de relacionamento, a lei terá algum efeito educativo para o próprio casal? Ou um dos maridos, uma das esposas, dirá: "Isso não significa mais nada para mim! Até, porque significa quase nada, aos olhos da sociedade".
 
Clecius Borges (psicólogo, psicoterapeuta e escritor), em seu livro "Muito além do arco-íris" aborda este assunto (especificamente relacionado aos homens gays; seria interessante conhecer melhor, também, a mesma questão do ponto de vista de mulheres homossexuais):
 
Muitos homens gays, de diferentes idades e estratos sociais, se queixam da dificuldade de manter um relacionamento amoroso sério por um período maior do que alguns meses. (...) A maioria se contenta em apontar os outros, e o "mundo gay" de forma geral, como responsáveis pelo seu infortúnio. (...) Suas falas costumam ser recheadas de afirmações como: "Relacionamentos gays não duram mesmo", ou "Gays só pensam em sexo". Assim justificam seu fracasso, aplacam sua frustração e, sobretudo, se eximem de questionar os verdadeiros motivos pelos quais não conseguem, ou não desejam de fato, estabelecer um relacionamento profundo com outro homem gay.
 
Embora a dificuldade de amar seja relativamente comum entre homens em geral, ela aparece de forma mais intensa e frequente no universo dos homens gays. Isso se dá por uma série de fatores, direta ou indiretamente associados ao que chamamos em geral de homofobia. A homofobia de que falamos aqui é o conjunto de representações simbólicas negativas e degradantes da homossexualidade, em suas diversas manifestações, assim como ações concretas de opressão, discriminação e opressão social a que são submetidos os homossexuais ao longo da vida.
 
Em consequência desse processo contínuo e sistemático de opressão social, homens gays crescem sem espelhos que reflitam positivamente sua qualidade de amor e, portanto, não têm a possibilidade de se imaginar num relacionamento conjugal que lhes ofereça o continente afetivo pelo qual sua alma anseia. Estimulados e, de modo perverso, induzidos pela sociedade a viver uma vida marginalizada, muitas vezes associam sua inclinação homoerótica a uma sexualidade desvinculada, ou seja, sem os vínculos que conduzem à intimidade amorosa. (p. 18-20)
 
É isso... Só me resta desejar, rezar e torcer, para que as recentes conquistas legais tenham, realmente, o efeito educativo, tanto para a sociedade, quanto (ou, ainda mais!) para os próprios casais.