ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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27 de setembro de 2013

Causar


 
De uns tempos pra cá observo o surgimento de novas expressões linguísticas, principalmente entre os jovens e no ambiente das redes sociais. Eu sei que o fenômeno em si é tão antigo quanto a própria humanidade e os idiomas continuam evoluindo, sendo esse o sinal de sua vitalidade. Pois é... Um dos termos que conseguiu se instalar fora das conversas na net, é "causar" (recentemente ouvi isso da boca de uma funcionária - não tão jovem assim - no supermercado). Antigamente as pessoas causavam escândalos, revoluções, comoção, comentários, etc. Hoje em dia, estão apenas... causando. Pode ser até boa essa falta de um substantivo, após o verbo, pois deixa a avaliação da coisa por conta do espectador. Por outro lado, se o "causar" for o único objetivo, eu fico na dúvida em relação aos motivos desse tipo de ação. Como naquele antigo ditado "mal ou bem, mas falem de mim". Enfim, os fenômenos surgem e desaparecem e, talvez, a sobrevivência do "causar" esteja, justamente no... causar.
 
No último dia 25, o artista e fotógrafo espanhol, residente na Itália, Gonzalo Orquín, "causou", exibindo em uma galeria de Roma, 16 fotografias de casais homossexuais, tiradas no interior das igrejas da cidade, sugerindo aquele momento da cerimônia de casamento em que o padre diz: "agora pode beijar a noiva" (veja aqui e aqui).
 
 
De acordo com a mídia internacional (aqui, em inglês), o Vaticano "causou", logo em seguida: "Chegou uma carta do Vicariato de Roma, informando que a Igreja se posiciona contra a exposição. Conversei com os advogados e por razões de segurança decidimos não mostrar as fotos" - disse Orquín à imprensa. O porta-voz do Vicariato de Roma, Claudio Tanturri, disse que as fotos violam a Constituição italiana. "A Constituição italiana garante o respeito pelos sentimentos religiosos das pessoas e o papel dos lugares de culto. Portanto, as fotos não são adequados e não se conformam com a espiritualidade do lugar, ofendem um lugar para a expressão da fé ". O Vicariato de Roma confirmou o envio da carta e ameaçou tomar medidas legais, caso as fotos (que "poderiam ferir os sentimentos religiosos dos fiéis") não fossem retiradas. Gonzalo Orquin disse que todas as dezesseis fotos da exposição foram tiradas em igrejas da cidade, com as pessoas, tanto gays e heterossexuais que se ofereceram para aparecer nas imagens.

Anteriormente - na ocasião do "beijaço para Bento XVI" em Barcelona (2010) - escrevi aqui sobre a minha opinião (negativa) a respeito de certas formas de manifestações que, a princípio, seriam realizadas em prol da visibilidade e dos direitos de pessoas homossexuais. Houve, depois, o "beijaço para o Papa Francisco", aqui no Rio, durante a JMJ. Mais tarde "explodiu a bomba" com o beijo de duas mulheres, durante um culto evangélico, presidido pelo pastor (e deputado federal) Marco Feliciano.
 
Confesso que hoje a minha opinião já não é mais tão negativa. Acho interessante o fato de que a arma do protesto tenha sido o beijo, ou seja, algo totalmente oposto à violência . Podemos começar a discutir aqui sobre essa expressão de carinho e intimidade que o citado pastor tenha definido como "ato de vilipendiação ou de baderna" e o Vicariato de Roma, como algo que viola a Constituição do país, ofende um lugar para a expressão da fé e pode ferir os sentimentos religiosos dos fiéis. Aos mais ofendidos em seus sentimentos religiosos fundamentalistas que quiserem logo trazer a comparação com o beijo de Judas ("Judas, com um beijo trais o Filho do Homem" Lc 22, 48), quero citar outra frase de Jesus (de sua conversa com o fariseu Simão): "Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. (...) Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor." (Lc 7, 45. 47).  Antes, vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: “Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora” (Lc 7, 39-40). A mulher "causou" - o fariseu ficou escandalizado, Jesus, por sua vez, comovido e admirado.
 
A conclusão, portanto, pode ser essa: o "causar" pode ser uma ótima ocasião para avaliarmos os nossos pontos de vista. Certamente é isso que os "causadores" têm em mente, ao tomarem as suas atitudes. Afinal, o maior "causador" na história é o próprio Jesus...

Casamento homoafetivo - longo cminho

 
São inquestionáveis as conquistas no campo dos direitos humanos. A comunidade GLBTTS está comemorando hoje mais um passo: O Tribunal Superior do Trabalho decidiu que que uniões heteroafetivas e homoafetivas tenham o tratamento igualitário pelas empresas. O reconhecimento legal de união estável entre as pessoas do mesmo sexo foi grande vitória. Mais tarde, o Conselho Nacional de Justiça proibiu cartórios de recusar a celebração de casamento civil de pessoas do mesmo sexo ou de negar a conversão de união estável de homossexuais em casamento.
 
Quase todos os dias de manhã escuto a Band News FM e foi um dia desses que ouvi a expressão, usada por Ricardo Boechat: "o efeito educativo da lei". Uma rápida busca me levou ao resumo de uma matéria de estudo, chamada Sociologia Jurídica (Autor: Prof. Rogério José de Almeida da PUC - Goiás), falando especificamente sobre a eficácia das normas jurídicas e seus efeitos sociais. Um dos tópicos chamou mais a minha atenção: quando se faz necessário educar o comportamento, tendo em vista modificações que se quer introduzir na cultura, a questão é de um efeito educativo do Direito com função transformadora. Entretanto, a simples edição de uma norma jurídica, mesmo armada de punição, é insuficiente para corresponder a uma efetiva aplicação.
 
Conclusão: é preciso comemorar, sim, mas, ao mesmo tempo, não se pode baixar a guarda e deixar de trabalhar, principalmente, em função de mudança da mentalidade vigente. No recente debate sobre a homofobia, voltava, com frequência, a questão dos cidadãos que precisam conhecer as leis e aprender a recorrer a elas para defender a sua dignidade. Dizia-se: "agora, pelo menos, temos os instrumentos em nossas mãos". No triste contexto da homofobia, isso é muito importante.
 
A minha pergunta, porém, vai mais longe. Queria saber (infelizmente só na teoria, pois continuo solteiro!), qual é o efeito de todas essas conquistas legais (repito: inquestionáveis) na vida real dos casais homoafetivos? Sem dúvida, é uma satisfação, poder exibir a certidão de casamento, diante dos familiares, amigos, empregadores, etc. É, também, um "escudo", quando a autodefesa se faz necessária, diante das mesmas pessoas...
 
Mas, para o próprio casal? Será que este reconhecimento legal e oficial da união ajuda a consolidar a própria união? Estou dizendo, principalmente, sobre a situação extrema - não muito rara entre os casais heterossexuais - que consiste em permanecer juntos apenas por causa daquele papel, quando todo o resto já tenha acabado. Vale acrescentar aqui o mesmo (ou, ainda mais forte e profundo) efeito educativo da lei religiosa, no caso do Sacramento do Matrimônio, ou, então, a existência dos filhos. Nessas situações extremas, os cônjuges (heterossexuais, casados na igreja e comprometidos com os próprios filhos), podem dizer: "O nosso amor acabou, não há mais nada entre nós, dormimos em quartos diferentes, mas vamos continuar juntos, por causa dos filhos, do Sacramento, dos efeitos civis do casamento e, ainda, por causa da opinião pública". Eu sei que isso, com frequência, torna a vida um absurdo, um inferno, mas o casal continua junto. Em alguns casos, aquele "um só fio" pelo qual o casamento sobreviveu, torna-se a chance de recomeço.
 
Imagino, então, um casal homoafetivo que confirmou a sua união perante a sociedade, no cartório e tem, para provar isso, um papel timbrado, carimbado e assinado. Será que, na hora de uma grave crise de relacionamento, a lei terá algum efeito educativo para o próprio casal? Ou um dos maridos, uma das esposas, dirá: "Isso não significa mais nada para mim! Até, porque significa quase nada, aos olhos da sociedade".
 
Clecius Borges (psicólogo, psicoterapeuta e escritor), em seu livro "Muito além do arco-íris" aborda este assunto (especificamente relacionado aos homens gays; seria interessante conhecer melhor, também, a mesma questão do ponto de vista de mulheres homossexuais):
 
Muitos homens gays, de diferentes idades e estratos sociais, se queixam da dificuldade de manter um relacionamento amoroso sério por um período maior do que alguns meses. (...) A maioria se contenta em apontar os outros, e o "mundo gay" de forma geral, como responsáveis pelo seu infortúnio. (...) Suas falas costumam ser recheadas de afirmações como: "Relacionamentos gays não duram mesmo", ou "Gays só pensam em sexo". Assim justificam seu fracasso, aplacam sua frustração e, sobretudo, se eximem de questionar os verdadeiros motivos pelos quais não conseguem, ou não desejam de fato, estabelecer um relacionamento profundo com outro homem gay.
 
Embora a dificuldade de amar seja relativamente comum entre homens em geral, ela aparece de forma mais intensa e frequente no universo dos homens gays. Isso se dá por uma série de fatores, direta ou indiretamente associados ao que chamamos em geral de homofobia. A homofobia de que falamos aqui é o conjunto de representações simbólicas negativas e degradantes da homossexualidade, em suas diversas manifestações, assim como ações concretas de opressão, discriminação e opressão social a que são submetidos os homossexuais ao longo da vida.
 
Em consequência desse processo contínuo e sistemático de opressão social, homens gays crescem sem espelhos que reflitam positivamente sua qualidade de amor e, portanto, não têm a possibilidade de se imaginar num relacionamento conjugal que lhes ofereça o continente afetivo pelo qual sua alma anseia. Estimulados e, de modo perverso, induzidos pela sociedade a viver uma vida marginalizada, muitas vezes associam sua inclinação homoerótica a uma sexualidade desvinculada, ou seja, sem os vínculos que conduzem à intimidade amorosa. (p. 18-20)
 
É isso... Só me resta desejar, rezar e torcer, para que as recentes conquistas legais tenham, realmente, o efeito educativo, tanto para a sociedade, quanto (ou, ainda mais!) para os próprios casais.

25 de setembro de 2013

Morder a língua

 
Mais uma vez, a cultura do encontro, o diálogo e o esforço pessoal em busca de unidade na diversidade, foram os tópicos da catequese do Papa Francisco, nesta quarta-feira, dia 25. 09. Já li em alguns lugares (que nem vou me dar trabalho de citar as fontes) alguns comentários críticos sobre o estilo do discurso papal, considerado "frívolo". Entretanto, é a linguagem que o povo entende, ainda que irrite os teólogos, cheios de frescura e acostumados com o estilo refinado de Bento XVI. Pois é, desta vez o Papa falou assim: Cada um se pergunte: faço crescer a unidade em família, na paróquia, na comunidade, ou sou um fofoqueiro, uma fofoqueira. Sou motivo de divisão, de desconforto? Mas vocês não sabem o mal que fazem à Igreja, às paróquias, às comunidades, as fofocas! Fazem mal! As fofocas ferem. Um cristão antes de fofocar deve morder a língua! Sim ou não? Morder a língua: isto nos fará bem, para que a língua inche e não possa falar e não possa fofocar.
 
Achei muito curioso o fato de ter sido, mais ou menos, esse o assunto da conversa que tive com o meu melhor amigo (e o último "ex"), durante o almoço de hoje, quer dizer, antes de eu ter lido o texto do Papa. Não foi sobre a fofoca que conversamos, mas sobre a capacidade de morder a língua, quando for necessário. O meu amigo vive em um relacionamento há vários meses. Diz que os dois nunca chegaram a brigar, porque o namorado dele tem uma capacidade de se calar na hora certa. Fiquei fascinado, quando o meu amigo disse: "No nosso relacionamento, o problema - se existe - sou eu e o meu temperamento, mas ele é quem salva a situação". Sim, bem me lembro as nossas brigas, pois eu não sabia me calar. Ele também não. Aliás, calamos, mas só quando ficávamos "de mal". O namorado do meu amigo interrompe a argumentação, por mais que tenha razão e propõe recomeçar a conversa de outra maneira, ou voltar ao assunto mais tarde. Realmente, saber morder a língua na hora certa, é uma grande arte.
 
Voltando, porém, ao discurso do Papa, fiquei pensando (de novo) sobre a presença de homossexuais na Igreja. Entre outras coisas, o Santo Padre disse: Aonde quer que vamos, mesmo na menor paróquia, na esquina mais perdida desta terra, há a única Igreja; nós estamos em casa, estamos em família, estamos entre irmãos e irmãs. E este é um grande dom de Deus! A Igreja é uma só para todos. Não há uma Igreja para os europeus, uma para os africanos, uma para os americanos, uma para os asiáticos, uma para os que vivem na Oceania, não, é a mesma em qualquer lugar.
 
Acrescento: não há uma Igreja para os heterossexuais e outra para os homossexuais. Ainda que existam, na experiência evangélica-pentecostal, as Igrejas "inclusivas", elas se tornam, de fato, exclusivas, como se fossem guetos. Eu sei que é uma espécie de protesto contra a exclusão e uma tentativa de criar espaços, onde as pessoas homossexuais pudessem se sentir em casa e louvar a Deus livremente, sem precisar esconder a sua identidade. Esta - de esconder a identidade homossexual - é (queria poder dizer "era, até há pouco") a proposta "oficial" da Igreja Católica:  A tendência sexual de uma pessoa individualmente não é, de modo geral, conhecida pelos outros, a não ser que ela se identifique em público como alguém que tem esta tendência ou com a manifestação de comportamento exterior. Geralmente, a maioria das pessoas com tendências homossexuais, que procuram viver uma vida casta, não tornam pública a sua tendência sexual. Por conseguinte, o problema da discriminação, em termos de trabalho, de habitação, etc., normalmente não se apresenta (n. 14). Quer dizer: a Igreja encoraja os homossexuais a permanecerem "no armário"...
 
Parece contrastar com esta ideia o discurso (de hoje) do Papa Francisco:  Penso, por exemplo, na experiência da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro: naquela vasta multidão de jovens na praia de Copacabana, ouvia-se falar tantas línguas, viam-se traços da face muito diversificada deles, encontravam-se culturas diferentes, no entanto havia uma profunda unidade, se formava a única Igreja, estava-se unido e se sentia isso. Perguntemo-nos todos: eu, como católico, sinto esta unidade? Eu como católico vivo esta unidade da Igreja? Ou não me interessa, porque estou fechado no meu pequeno grupo ou em mim mesmo? Sou daqueles que “privatizam” a Igreja pelo próprio grupo, a própria nação, os próprios amigos? É triste encontrar uma Igreja “privatizada” pelo egoísmo e pela falta de fé. É triste! Quando ouço que tantos cristãos no mundo sofrem, sou indiferente ou é como se sofresse um da minha família? (...)
 
Demos um outro passo e perguntemo-nos: há feridas a esta unidade? Podemos ferir esta unidade? Infelizmente, nós vemos que no caminho da história, mesmo agora, nem sempre vivemos a unidade. Às vezes surgem incompreensões, conflitos, tensões, divisões, que a ferem, e então a Igreja não tem a face que queremos, não manifesta a caridade, aquilo que Deus quer. Somos nós que criamos lacerações! E se olhamos para as divisões que ainda existem entre os cristãos, católicos, ortodoxos, protestantes… sentimos o esforço de tornar plenamente visível esta unidade. Deus nos doa a unidade, mas nós mesmos façamos esforço para vivê-la. É preciso procurar, construir a comunhão, educar-nos à comunhão, a superar incompreensões e divisões, começando pela família, pela realidade eclesial, no diálogo ecumênico também. O nosso mundo precisa de unidade, está em uma época na qual todos temos necessidade de unidade, precisamos de reconciliação, de comunhão e a Igreja é Casa de comunhão. (...)
 
Enfim, o último passo mais em profundidade. E esta é uma bela pergunta: quem é o motor desta unidade da Igreja? É o Espírito Santo que todos nós recebemos no Batismo e também no Sacramento da Crisma. É o Espírito Santo. A nossa unidade não é primeiramente fruto do nosso consenso, ou da democracia dentro da Igreja, ou do nosso esforço de concordar, mas vem Dele que faz a unidade na diversidade, porque o Espírito Santo é harmonia, sempre faz a harmonia na Igreja. É uma unidade harmônica em tanta diversidade de culturas, de línguas e de pensamentos. É o Espírito Santo o motor. Por isto é importante a oração, que é a alma do nosso compromisso de homens e mulheres de comunhão, de unidade. A oração ao Espírito Santo, para que venha e faça a unidade na Igreja.
 
Peçamos ao Senhor: Senhor, dai-nos sermos sempre mais unidos, não sermos nunca instrumentos de divisão; faz com que nos empenhemos, como diz uma bela oração franciscana, a levar o amor onde há o ódio, a levar o perdão onde há ofensa, a levar a união onde há a discórdia. Assim seja.

24 de setembro de 2013

Luta livre ou vale-tudo?

 
No estilo de luta livre esportiva nem tudo é permitido e a aplicação de golpes proibidos por um dos atletas resulta em desclassificação. Por sua vez, a luta livre vale-tudo, ainda que parecida com o estilo do combate livre, permite socos, golpes, cotoveladas e joelhadas. Mesmo assim, continuam proibidas as condutas consideradas antiesportivas: cabeçada, dedo no olho, mordida, puxão de cabelo, além de utilizar linguagem imprópria ou abusiva no ringue. Enfim, não é permitido o golpe baixo intencional.
 
Podemos fazer aqui uma analogia com as regras que regem, até o combate militar. Todos nós acompanhamos a situação na Síria e o assunto mais falado é, justamente, o uso de armas químicas. Neste contexto, está sendo lembrada uma lista de ações militares que estão fora do conceito de uma guerra justa, ou seja: diferentemente do que diz o pensamento popular "tudo vale no amor e na guerra", não é tudo que vale. Entre as formas ilegítimas de guerra (portanto, proibidas), definidas em acordos internacionais, destacam-se: ataques contra civis não engajados nas batalhas, incluindo qualquer violência sexual, recrutar ou utilizar crianças menores de 15 anos nas forças armadas, matar ou ferir militares que tenham deposto suas armas ou não estejam em condição de se defender, o tratamento desumano de prisioneiros, incluindo torturas físicas ou psicológicas, usar gases tóxicos e outros tipos de armas químicas, ou utilizar armamentos capazes de causar ferimentos desumanos e muitas outras ações. Ainda que o termo "guerra justa" esteja presente no pensamento da Igreja, pelo menos, desde Santo Agostinho, até os dias de hoje (cf. CIC 2307-2317), a opinião sobre a guerra que representa o meio mais bárbaro e mais ineficaz para resolver os conflitos (João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1982, n. 12), está muito clara: Entre os sinais de esperança, há que incluir ainda o crescimento, em muitos estratos da opinião pública, de uma nova sensibilidade cada vez mais contrária à guerra como instrumento de solução dos conflitos entre os povos, e sempre mais inclinada à busca de instrumentos eficazes, mas « não violentos », para bloquear o agressor armado. João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae, n. 27).
 
Feitas essas ressalvas, vou ao assunto principal. A impressão que tenho é que existe uma área, na qual não funcionam as mínimas regras de conduta, análogas às leis de guerra ou de luta livre. É a mídia, inclusive, a mídia católica. Vale lembrar aqui uma definição clara, fornecida pela própria Igreja: É necessário, sobretudo, que todos os interessados na utilização destes meios de comunicação formem retamente a consciência acerca de tal uso, em especial no que se refere a algumas questões agudamente debatidas nos nossos dias. A primeira questão refere-se à chamada informação, ou obtenção e divulgação das notícias. É evidente que tal informação, em virtude do progresso atual da sociedade humana e dos vínculos mais estreitos entre os seus membros, resulta muito útil e, na maioria das vezes, necessária, pois a comunicação pública e oportuna de notícias sobre acontecimentos e coisas facilita aos homens um conhecimento mais amplo e contínuo dos fatos, de tal modo que pode contribuir eficazmente para o bem comum e maior progresso de toda a sociedade humana. Existe, pois, no seio da sociedade humana, o direito à informação sobre aquelas coisas que convêm aos homens, segundo as circunstâncias de cada um, tanto particularmente como constituídos em sociedade. No entanto, o uso reto deste direito exige que a informação seja sempre objetivamente verdadeira e, salvas a justiça e a caridade, íntegra. Quanto ao modo, tem de ser, além disso, honesto e conveniente, isto é, que respeite as leis morais do homem, os seus legítimos direitos e dignidade, tanto na obtenção da notícia como na sua divulgação (Decreto Inter Mirifica do Concílio Vaticano II, n. 5).
 
O espaço virtual está repleto de entidades (sites, páginas, blogs), ditas "católicas" que, apesar dessa pretensão em (ab-)usar o adjetivo "católico", ferem gravemente os legítimos direitos e a dignidade das pessoas, sempre quando lhes convém. O exemplo de hoje é o caso de um padre australiano, Greg Reynolds que foi destituído e excomungado pelo Papa Francisco. Um destes "católicos" meios de comunicação, o portal "Logos - apologética cristã" escreve em tom de vitória: Papa Francisco excomunga padre pró-casamento gay. Ele não é o liberal que a mídia quer. E acrescenta: A mídia secularista, golpista e desonesta, junto com os famigerados militantes e ativistas gays e abortistas tiveram sua alegria de curta duração: o papa é fiel e ardente defensor da moral tradicional. No mesmo texto desta "notícia do dia", o próprio portal se contradiz. Depois de comemorar a derrota dos inimigos, diz: O documento de excomunhão – escrito em latim e não dando o motivo – e de 31 de maio, o que significa que está sob a autoridade do papa Francisco, que ganhou as manchetes na quinta-feira pedindo uma Igreja menos obcecada por regras. Percebendo, talvez, a própria contradição, acrescenta: O documento pode não dar nenhuma razão explícita, mas a razão é implícita e bem compreendida: Reynolds ofendeu a Igreja Mãe com sua política (opiniões radicais sobre mulheres no clero e “casamento” gay).
 
Pesquisando, porém, mais um pouco, podemos chegar facilmente a outras informações que, convenientemente, o portal "Logos" omite. O portal "Ecclesia", informa que na manhã desta terça-feira, 24, agências de notícias internacionais divulgaram o decreto de excomunhão contra o padre australiano Greg Reynolds que se manifestou em reiteradas ocasiões a favor do casamento homossexual e a ordenação de mulheres. (...) Há dois anos o ex-padre havia sido afastado da paróquia a que pertencia em Melbourne e agora recebeu oficialmente o parecer da Igreja quanto ao seu futuro. Segundo Reynolds, o documento de excomunhão, escrito em latim, foi emitido sobre a autorização do próprio Papa Francisco. Após ter sido suspenso em 2011 das funções sacerdotais dedicou os últimos meses a fundação de um grupo chamado "Inclusive Catholics", dedicado a promover o ativismo gay dentro da Igreja.
 
Outro portal católico, "Fratres in unum", citando as testemunhas oculares, diz que em 5 de agosto [de 2012] um cão recebeu a comunhão em uma celebração de “católicos inclusivos”, um movimento de Melbourne lançado pelo Padre Greg Reynolds, um padre suspenso da arquidiocese. Após defender a ordenação de mulheres em uma homilia de 2010, o Padre Reynolds teve as suas faculdades suspensas pelo Arcebispo Denis Hart e renunciou ao seu pastoreio. Atualmente ele organiza celebrações para um grupo variado de católicos desafetos. O periódico The Age noticiou que uma mulher conduziu a celebração, enquanto o Padre Reynolds “desempenhava um pequeno papel da maneira que podia.” Parece improvável, portanto, que a cerimônia tenha sido uma Missa válida ou que o pão fosse realmente consagrado. Contudo, The Ager relatou que a congregação suspirou quando um participante administrou a comunhão ao cão. O Arcebispo Hart emitiu uma declaração dizendo “que é uma abominação qualquer pessoa alimentar um cão com a Eucaristia.” Em um protesto ao The Age, o Arcebispo disse que o relato do jornal sobre a cerimônia “somente pode ser entendido como uma tentativa de ridicularizar o catolicismo”.
 
A conclusão é simples: antes de uivar a "derrota dos gayzistas", os usuários da mídia (principalmente católica), teriam que cumprir o seu dever de consciência para com a virtude de honestidade e renunciar à tentação de manipular a informação.
 

Padre Pio e a natureza

 
Hoje é o dia que a Igreja dedica à celebração da memória de um dos mais famosos Santos dos tempos recentes: o Padre Pio de Pietrelcina. A sua fama refere-se, principalmente, aos estigmas (as chagas de Cristo, carregadas pelo Padre Pio durante 50 anos), mas também a outros dons extraordinários, como a bilocação (o dom sobrenatural de estar em dois lugares simultaneamente), a leitura da mente/consciência dos penitentes e aos milagres que ele realizava. O que surpreende na história deste santo é que ele tinha sido perseguido pela Igreja, inclusive pelo Santo Ofício (antes chamado Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal  e, atualmente, Congregação para a Doutrina da Fé) e, mais tarde, pela mesma Igreja, foi canonizado. Longe de ter sido um pedido de perdão em nome da Igreja, o rito de canonização do Padre Pio, em 2002, contou com esta observação de João Paulo II: A imagem evangélica do "jugo" recorda as numerosas provas que o humilde capuchinho de San Giovanni Rotondo teve que enfrentar. Hoje contemplamos nele como é suave o "jugo" de Cristo e verdadeiramente leve o seu fardo quando é carregado com amor fiel. A vida e a missão do Padre Pio testemunham que as dificuldades e os sofrimentos, se forem aceitos por amor, transformam-se num caminho privilegiado de santidade, que abre perspectivas de um bem maior, que só Deus conhece. Na cerimônia da beatificação, em 1999, as palavras do Papa foram um pouco mais diretas: Não menos dolorosas, e humanamente talvez ainda mais fortes, foram as provações que teve de suportar como consequência, dir-se-ia, dos seus singulares carismas. Na história da santidade às vezes acontece que o escolhido, por especial permissão de Deus, é objeto de incompreensões.
 
Aqui fica um pouco mais claro o título deste texto. A Igreja tem algum tipo de obsessão em relação à natureza. Uma instituição que se apresenta ao mundo como "guardiã do sobrenatural", tem dificuldade de reconhecer os fenômenos que não se encaixam no conceito de "natureza". A Congregação para as Causas dos Santos, declara: O mundo muda, mas os santos, embora também mudem com o mundo que se transforma, representam sempre o mesmo rosto vivo de Cristo. Não existe nisto, porventura, um indício inconfundível da vitalidade peculiar, metacultural e meta-histórica para nós, católicos, "sobrenatural" é a palavra justa do anúncio e da Graça cristã?
 
Pois é, Deus não se submete às leis da natureza. Ou, talvez, Ele mesmo tenha revelado as dimensões desconhecidas dessa mesma natureza. Já o rei Salomão, considerado um dos maiores sábios na história da humanidade, assim expressou a sua pequenez: Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu? E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo? (Sb 9, 16-17). Façamos aqui uma conexão direta com a promessa que Jesus deu aos seus discípulos, depois de ter constatado a limitação deles: Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade (Jo 16, 12-13). É importante notar aqui que, mesmo depois de terem sido revestidos com o poder do alto (cf. Lc 24, 49), os Apóstolos apresentavam grandes dificuldades em compreender os desígnios de Deus. Não foi e não está sendo diferente na Igreja, até o dia de hoje. Com outras palavras, a ação do Espírito Santo que consiste em conduzir a Igreja à plena verdade, continua e continuará até o fim dos tempos. As palavras de Jesus "Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?" não perderam a sua atualidade.
 
Vejamos agora, qual é a maior razão das dificuldades que a Igreja tem em relação ao reconhecimento dos direitos de pessoas homossexuais:
 
- Os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados. (CIC, 2357)
- O Catecismo distingue entre os atos homossexuais e as tendências homossexuais. Quanto aos atos, ensina que, na Sagrada Escritura, esses são apresentados como pecados graves. A Tradição considerou-os constantemente como intrinsecamente imorais e contrários à lei natural. Por conseguinte, não podem ser aprovados em caso algum. (Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais..., n. 2)
- Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimónio e a família. O matrimónio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. (Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n. 4)
 
Um site "ultracatólico" (Veritatis splendor), tenta explicar as coisas assim:
O homossexualismo pertence à primeira classe dos pecados de luxúria. Ele não se contenta em usar da natureza contra a reta razão: viola a própria natureza. Entre os vícios contra a natureza, ele ocupa o segundo lugar, perdendo apenas para a bestialidade. Talvez seja por sua especial gravidade que esse pecado tenha sido escolhido como motivo de "orgulho", com marchas, campanhas e ameaça de perseguição aos discordantes ("homofóbicos"). Quem exalta o homossexualismo deve fazê-lo com a intenção de afrontar a Deus ao máximo.
Os que não entendem que o homossexualismo seja antinatural, talvez usem "natural" no sentido de "habitual". O hábito, porém, não se confunde com a natureza. Um hábito acrescentado à natureza produz uma inclinação que a natureza, por si só, não tem. Um hábito contrário à natureza é capaz de inclinar a faculdade a agir contra a natureza. Tal inclinação habitual, não é, porém, natural.
Como se diz em algumas ocasiões, será necessário começar por Adão e Eva, mas isso só na próxima vez. Apenas vou adiantar que é, justamente, o contrário do que "explica" o site acima. Por exemplo, por mais que seja habitual, voar de avião, é totalmente antinatural.
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Fica comigo, Senhor,
pois é só a Ti que procuro,
Teu amor, Tua graça, Tua vontade,
Teu coração, Teu Espírito, porque Te amo,
e a única recompensa que Te peço
é poder amar-te sempre mais.
Como este amor resoluto desejo
amar-Te de todo o coração
enquanto estiver na terra,
para continuar a te amar perfeitamente
por toda a eternidade.
Amém.
(S. Padre Pio)

22 de setembro de 2013

Ser Igreja

 
Quantos cristãos recordam a data do próprio Batismo? Gostaria de fazer esta pergunta aqui pra vocês, mas cada um responda no seu coração: quantos de vocês recordam a data do próprio Batismo? Alguns levantam a mão, mas quantos não lembram! Mas a data do Batismo é a data do nosso nascimento na Igreja, a data na qual a nossa mãe Igreja nos deu à luz! E agora eu lhes deixo uma tarefa para fazerem em casa. Quando voltarem para casa hoje, procurem bem qual é a data do Batismo de vocês, e isto para festejá-la, para agradecer ao Senhor por este dom. Vocês farão isso?
 
Estas perguntas dirigiu aos ouvintes o Papa Francisco, no dia 11 de setembro deste ano (na íntegra, com pequenas diferenças: no site do Vaticano; no site da Canção Nova).
 
Então... é hoje - 22. 09 - a data do meu Batismo. Alguns cálculos simples mostram que demorei mais de 10 meses para ser batizado e conheço os porquês dessa demora, mas não vou falar sobre isso hoje... O que me vem à mente é o assunto com o qual procuro me ocupar um pouco neste blog: a Pastoral das Pessoas Homossexuais. Na verdade, fiquei na dúvida em relação a esse projeto, principalmente depois de algumas pesquisas sobre a natureza, ou definição de uma pastoral. Não vou citar nenhuma das fontes que consultei, mas em quase todas elas repete-se a expressão: As pastorais são trabalhos desenvolvidos pela Igreja, numa ação organizada e dirigida pela Diocese e Paróquia para atender determinada situação em uma realidade específica. Já o movimento nasce e se forma em um contexto externo à igreja local, é uma ação dos leigos que pode envolver várias pastorais/serviços ao mesmo tempo. Está mais ligado à vida pessoal dos participantes e, em geral, tem um caráter de espiritualidade e segue um carisma próprio, envolvendo mais ou menos as mesmas pessoas que vivenciaram um encontro, um retiro ou uma catequese.
 
A Igreja fala sobre o "atendimento pastoral" das pessoas homossexuais e encoraja os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. Uma dinâmica semelhante aparece na proposta de Pe. Antônio Transferetti (mencionado aqui). Eu mesmo criei neste blog o tag "pastoral para homossexuais", mas agora estou pensando, se não seria mais correto dizer "pastoral de homossexuais". O que parece ser apenas uma diferença gramática, na realidade é um convite às pessoas homossexuais a se tornarem agentes e não meros objetos da ação pastoral. Por isso a definição do movimento (acima) me parece mais adequado. Quem sabe, um "movimento pastoral"...
 
O Papa João Paulo II, em sua Exortação Apostólica Christifideles laici, (n. 29), diz: Antes de mais, é necessário reconhecer-se a liberdade associativa dos fiéis leigos na Igreja. Essa liberdade constitui um verdadeiro e próprio direito que não deriva de uma espécie de « concessão » da autoridade, mas que promana do Batismo, qual sacramento que chama os fiéis leigos para participarem ativamente na comunhão e na missão da Igreja. O Concílio é muito explícito a este propósito: « Respeitada a devida relação com a autoridade eclesiástica, os leigos têm o direito de fundar associações, dirigi-las e dar nome às já existentes » [LG, 37]. E o recente Código textualmente diz: « Os fiéis podem livremente fundar e dirigir associações para fins de caridade ou de piedade, ou para fomentar a vocação cristã no mundo, e reunir-se para alcançar em comum esses mesmos fins » [CDC, cân. 215].
 
Agradeço a Deus pelo dom do Batismo. Eu creio - com a Igreja - que a graça não tira a natureza, mas a supõe e a aperfeiçoa (cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, 1, 8 ad 2). Creio, também, que a minha natureza é homossexual e essa sua característica não impediu a ação da graça batismal, tampouco é a negação dessa mesma graça. As duas - a natureza e a graça - convivem em mim e ambas constituem a base de toda a minha relação com Deus e com as pessoas. Sim, no meu íntimo, eu amo a lei de Deus, mas percebo em meus membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo da lei do pecado que está nos meus membros. (Rm 7, 22-23) É a batalha de todo o batizado, seja ele hetero- ou homossexual. É do ser humano...

Mês da Bíblia (8) - Celebração final


[A introdução baseada no texto da Editora Paulinas] A celebração final é o resumo dos 4 encontros e é baseada no texto de Lc 24,13-35 - o relato exclusivo de Lucas, marcado pelo escutar e reler as Escrituras, à luz do Mistério Pascal de Jesus na certeza de que é no partir o pão, que o encontro com o Ressuscitado se faz sempre presente. É por meio desse encontro que somos chamados a anunciar a Alegre Notícia: Jesus ressuscitou e vive em nosso meio.

Uma celebração que imagino, requer a presença de algumas pessoas... Bem, pelo menos de mais uma pessoa. Seria ótimo poder celebrar o dom da Palavra de Deus, ao lado de uma pessoa amada. Algumas propostas do "Desafio de amar" falam, justamente, sobre isso. No meu caso, isso é uma lembrança do passado e faz parte de sonho sobre o futuro. Na verdade, já cogitei a possibilidade de namorar uma pessoa de outra religião, porém, a realidade da vida em comum, na qual se compartilha tudo, inclusive a espiritualidade, é um ideal.

Deixando de lado essas divagações, vamos ao que interessa. Temos o material de reflexão, dividido em 4 partes (estão aqui os encontros: , , , ). Por mais que uma parte pareça diferente da outra, podemos encontrar um "fio condutor", um caminho, como aquele que percorreram dois discípulos, rumo a Emaús, acompanhados por Jesus Ressuscitado.

O ponto de referência pode ser a "mentalidade do descartável", sobre a qual o Papa Francisco tem falado ultimamente com frequência.

Em sua carta, dirigida ao Primeiro-Ministro britânico, David Cameron, o Santo Padre escreveu: Quer as medidas de longo alcance para assegurar uma adequada instância de legalidade que oriente todas as decisões econômicas, quer as urgentes medidas comuns para resolver a crise econômica mundial devem ser norteadas pela ética da verdade que inclui, antes de tudo, o respeito pela verdade acerca do homem, que não é um elemento adicional da economia, nem um bem descartável, mas algo dotado de uma natureza e de uma dignidade que não podem ser reduzidas a um simples cálculo econômico. (15. 06. 2013)

Aos jornalistas, durante o voo ao Brasil, o Papa declarou: Temos de acabar com esse hábito de descartar. Ao contrário, cultura da inclusão, cultura do encontro, fazer um esforço para integrar a todos na sociedade. (22. 07. 2013)

Na Comunidade de Varginha, no Rio, ouvimos a advertência: Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável! Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável, porque nós somos irmãos. Ninguém é descartável! (25. 07. 2013)

Durante uma breve entrevista, no estúdio da Rádio Catedral, o Papa voltou a este assunto: Que todos trabalhemos por esta palavra que hoje em dia não é bem aceita: solidariedade. É uma palavra que procuram deixar de lado, sempre, porquê incômoda. Todavia, é uma palavra que reflete os valores humanos e cristãos que hoje nos pedem para ir contra; da cultura do descartável, de que tudo é descartável. Uma cultura que sempre deixa as pessoas de fora: deixa à margem as crianças, deixa à margem os jovens, deixa à margem os idosos, deixa a fora aos que não servem, aos que não produzem, e isso não pode acontecer. (27. 07. 2013)

Na Catedral do Rio, durante a Missa com os bispos e padres da JMJ, o Papa disse: Em muitos ambientes, e de maneira geral neste humanismo economicista que impôs-se no mundo, ganhou espaço a cultura da exclusão, a “cultura do descartável”. (27. 07. 2013)

Pensando bem, os dois discípulos do Senhor que estavam caminhando a Emaús, haviam descartado a pessoa de Jesus e, também, os sonhos que, eles mesmos, associavam a Ele:  Perguntou-lhes ele: Que foi? Disseram: A respeito de Jesus de Nazaré... Era um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo. Os nossos sumos sacerdotes e os nossos magistrados o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam. (Lc 24, 19-21)

Nós, os gays, temos uma experiência a mais que nos ajuda a compreender melhor esta passagem do Evangelho. Muitos de nós já viveu, ou ainda vive, a sua "caminhada a dois" que, exatamente por causa de sua dimensão gay, está sendo descartada pela Igreja, pela família e pela sociedade em geral. Não poucos, gays e lésbicas, que alcançaram a meta de tantos esforços e, finalmente, formam casais, sentem-se em obrigação de descartar Jesus, a fé e a Igreja de sua vida. A eles - a todos nós - Jesus dirige as mesmas palavras: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! (Lc 24, 25). É incomparável o momento, quando, um ao outro, podemos dizer: Não se nos abrasava o coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc 24, 32). Afinal, Ele não nos descarta!

Jesus foi descartado, também, pelos habitantes de Nazaré, após a revelação de sua identidade messiânica. Como meditamos no 1° encontro (também aqui), de certa maneira, Jesus "saiu do armário" e encontrou-se com uma reação violenta: a estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual era construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se (Lc 4, 28-30).

Vimos no 2° encontro que o ato de descartar, no sentido mais profundo do Evangelho, refere-se a todas aquelas coisas que não nos permitem seguir a Jesus. Em primeiro lugar, evidentemente, está o pecado. Destaca-se, porém, um tipo específico de pecado, frequentemente difícil a ser admitido e que consiste no apego às coisas ou às ideias. É, especialmente, aquela maneira de avaliar as coisas e as pessoas - inclusive a si mesmo - de acordo com alguns rótulos que a mentalidade vigente entrega, já prontos, em nossas mãos. Ainda que o texto bíblico, proposto para este encontro, consista em apenas um versículo (Lc 5, 11), temos ali o contexto mais amplo:  (...) apanharam peixes em tanta quantidade, que a rede se lhes rompia. (...)  Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. (...) Então Jesus disse a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens. (Lc 5, 6. 8. 10). Simão Pedro descartava a si mesmo, mas Jesus o resgatou. O Mestre não pronunciou qualquer tipo de julgamento. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem. (Jo 2, 25). Apenas disse a Simão e repete a cada um de nós: Não temas! O eco destas palavras de Cristo, encontramos na expressão que o Papa Francisco usou recentemente, referindo-se às pessoas homossexuais: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. A verdade é que muitos homossexuais, oprimidos pela mentalidade reinante, incorporam a cultura do descartável, a partir de si próprios. Sentem-se indignos, até mesmo de existir, o que tem a sua mais trágica manifestação em tantos suicídios.

O 3° encontro nos levou a contemplar as (mais descartadas pela cultura do seu tempo) mulheres, no seguimento de Jesus. Podemos acrescentar aqui mais um trecho da Carta Apostólica de João Paulo II "Mulieris dignitatem", já citada no próprio encontro: Admite-se universalmente — e até por parte de quem se posiciona criticamente diante da mensagem cristã — que Cristo se constituiu, perante os seus contemporâneos, promotor da verdadeira dignidade da mulher e da vocação correspondente a tal dignidade. Às vezes, isso provocava estupor, surpresa, muitas vezes raiando o escândalo: « ficaram admirados por estar ele a conversar com uma mulher » (Jo 4, 27), porque este comportamento se distinguia daquele dos seus contemporâneos. « Ficaram admirados » até os próprios discípulos de Cristo. O fariseu, a cuja casa se dirigiu a mulher pecadora para ungir os pés de Jesus com óleo perfumado, « disse consigo: "Se este homem fosse um profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que o toca: é uma pecadora" » (Lc 7, 39). Estranheza ainda maior ou até « santa indignação » deviam provocar nos ouvintes satisfeitos de si as palavras de Cristo: « Os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus » (Mt 21, 31) [n. 12]. A mesma "santa indignação" - como ironicamente comenta João Paulo II - está sendo provocada, ainda hoje, no coração piedoso dos discípulos de Jesus, diante da profissão de fé cristã, feita pelas pessoas homossexuais.

Chegamos, finalmente, ao 4° encontro, no qual detectamos a mesma "cultura do descartável", como o maior desafio e problema no seguimento de Jesus, de acordo com o capítulo 15 do Evangelho de Lucas. Recentemente, tive a ocasião de ouvir a pregação de um padre que analisava esta passagem bíblica. Dizia, logo no início, que existe uma conexão direta entre as duas pequenas parábolas de Jesus (sobre a ovelha perdida e sobre a mulher que perdeu uma moeda) com a grande história do pai e de seus dois filhos. O padre dizia que, assim como a ovelha, o filho mais novo, perdeu-se longe de casa, mas, com o filho mais velho, aconteceu o mesmo, só que dentro de casa - assim, como a moeda que foi perdida dentro de casa. E acrescentava: toda essa parábola foi contada por causa do filho que se perdeu por perto. Nunca saiu de casa, mesmo assim, conseguiu se perder. E pior, diferentemente do seu irmão mais novo, ele não foi capaz de admitir isso. Assim chegamos à conclusão, respondendo ao questionamento proposto, de que os desafios e os problemas no seguimento de Jesus, associam-se, também, à mentalidade do descartável. O irmão mais velho descartou o seu irmão (a ponto de não conseguir mais chamá-lo de irmão), descartou o pai e o seu amor. É muito provável que tenha descartado, também, a chance de reencontro, de inclusão, de diálogo e de reconciliação.

Jesus - tantas vezes descartado - aposta nos descartados (e, até naqueles que se autodescartam) e não descarta ninguém. Aqueles que aceitam o chamado do Senhor e se tornam discípulos-missionários, seguem o mesmo caminho. Por mais que tenham sido descartados, não descartam a esperança de um mundo melhor e, na eternidade, a plenitude da vida feliz.

Como dizia a introdução, estamos percorrendo o caminho catequético-litúrgico, marcado pelo escutar e reler as Escrituras, à luz do Mistério Pascal de Jesus e o reavivar, na certeza de que é no partir o pão, que o encontro com o Ressuscitado se faz sempre presente. É por meio desse encontro que somos chamados a anunciar a Alegre Notícia: Jesus ressuscitou e vive em nosso meio.

Não descartemos essa alegria!