ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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25 de setembro de 2013

Morder a língua

 
Mais uma vez, a cultura do encontro, o diálogo e o esforço pessoal em busca de unidade na diversidade, foram os tópicos da catequese do Papa Francisco, nesta quarta-feira, dia 25. 09. Já li em alguns lugares (que nem vou me dar trabalho de citar as fontes) alguns comentários críticos sobre o estilo do discurso papal, considerado "frívolo". Entretanto, é a linguagem que o povo entende, ainda que irrite os teólogos, cheios de frescura e acostumados com o estilo refinado de Bento XVI. Pois é, desta vez o Papa falou assim: Cada um se pergunte: faço crescer a unidade em família, na paróquia, na comunidade, ou sou um fofoqueiro, uma fofoqueira. Sou motivo de divisão, de desconforto? Mas vocês não sabem o mal que fazem à Igreja, às paróquias, às comunidades, as fofocas! Fazem mal! As fofocas ferem. Um cristão antes de fofocar deve morder a língua! Sim ou não? Morder a língua: isto nos fará bem, para que a língua inche e não possa falar e não possa fofocar.
 
Achei muito curioso o fato de ter sido, mais ou menos, esse o assunto da conversa que tive com o meu melhor amigo (e o último "ex"), durante o almoço de hoje, quer dizer, antes de eu ter lido o texto do Papa. Não foi sobre a fofoca que conversamos, mas sobre a capacidade de morder a língua, quando for necessário. O meu amigo vive em um relacionamento há vários meses. Diz que os dois nunca chegaram a brigar, porque o namorado dele tem uma capacidade de se calar na hora certa. Fiquei fascinado, quando o meu amigo disse: "No nosso relacionamento, o problema - se existe - sou eu e o meu temperamento, mas ele é quem salva a situação". Sim, bem me lembro as nossas brigas, pois eu não sabia me calar. Ele também não. Aliás, calamos, mas só quando ficávamos "de mal". O namorado do meu amigo interrompe a argumentação, por mais que tenha razão e propõe recomeçar a conversa de outra maneira, ou voltar ao assunto mais tarde. Realmente, saber morder a língua na hora certa, é uma grande arte.
 
Voltando, porém, ao discurso do Papa, fiquei pensando (de novo) sobre a presença de homossexuais na Igreja. Entre outras coisas, o Santo Padre disse: Aonde quer que vamos, mesmo na menor paróquia, na esquina mais perdida desta terra, há a única Igreja; nós estamos em casa, estamos em família, estamos entre irmãos e irmãs. E este é um grande dom de Deus! A Igreja é uma só para todos. Não há uma Igreja para os europeus, uma para os africanos, uma para os americanos, uma para os asiáticos, uma para os que vivem na Oceania, não, é a mesma em qualquer lugar.
 
Acrescento: não há uma Igreja para os heterossexuais e outra para os homossexuais. Ainda que existam, na experiência evangélica-pentecostal, as Igrejas "inclusivas", elas se tornam, de fato, exclusivas, como se fossem guetos. Eu sei que é uma espécie de protesto contra a exclusão e uma tentativa de criar espaços, onde as pessoas homossexuais pudessem se sentir em casa e louvar a Deus livremente, sem precisar esconder a sua identidade. Esta - de esconder a identidade homossexual - é (queria poder dizer "era, até há pouco") a proposta "oficial" da Igreja Católica:  A tendência sexual de uma pessoa individualmente não é, de modo geral, conhecida pelos outros, a não ser que ela se identifique em público como alguém que tem esta tendência ou com a manifestação de comportamento exterior. Geralmente, a maioria das pessoas com tendências homossexuais, que procuram viver uma vida casta, não tornam pública a sua tendência sexual. Por conseguinte, o problema da discriminação, em termos de trabalho, de habitação, etc., normalmente não se apresenta (n. 14). Quer dizer: a Igreja encoraja os homossexuais a permanecerem "no armário"...
 
Parece contrastar com esta ideia o discurso (de hoje) do Papa Francisco:  Penso, por exemplo, na experiência da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro: naquela vasta multidão de jovens na praia de Copacabana, ouvia-se falar tantas línguas, viam-se traços da face muito diversificada deles, encontravam-se culturas diferentes, no entanto havia uma profunda unidade, se formava a única Igreja, estava-se unido e se sentia isso. Perguntemo-nos todos: eu, como católico, sinto esta unidade? Eu como católico vivo esta unidade da Igreja? Ou não me interessa, porque estou fechado no meu pequeno grupo ou em mim mesmo? Sou daqueles que “privatizam” a Igreja pelo próprio grupo, a própria nação, os próprios amigos? É triste encontrar uma Igreja “privatizada” pelo egoísmo e pela falta de fé. É triste! Quando ouço que tantos cristãos no mundo sofrem, sou indiferente ou é como se sofresse um da minha família? (...)
 
Demos um outro passo e perguntemo-nos: há feridas a esta unidade? Podemos ferir esta unidade? Infelizmente, nós vemos que no caminho da história, mesmo agora, nem sempre vivemos a unidade. Às vezes surgem incompreensões, conflitos, tensões, divisões, que a ferem, e então a Igreja não tem a face que queremos, não manifesta a caridade, aquilo que Deus quer. Somos nós que criamos lacerações! E se olhamos para as divisões que ainda existem entre os cristãos, católicos, ortodoxos, protestantes… sentimos o esforço de tornar plenamente visível esta unidade. Deus nos doa a unidade, mas nós mesmos façamos esforço para vivê-la. É preciso procurar, construir a comunhão, educar-nos à comunhão, a superar incompreensões e divisões, começando pela família, pela realidade eclesial, no diálogo ecumênico também. O nosso mundo precisa de unidade, está em uma época na qual todos temos necessidade de unidade, precisamos de reconciliação, de comunhão e a Igreja é Casa de comunhão. (...)
 
Enfim, o último passo mais em profundidade. E esta é uma bela pergunta: quem é o motor desta unidade da Igreja? É o Espírito Santo que todos nós recebemos no Batismo e também no Sacramento da Crisma. É o Espírito Santo. A nossa unidade não é primeiramente fruto do nosso consenso, ou da democracia dentro da Igreja, ou do nosso esforço de concordar, mas vem Dele que faz a unidade na diversidade, porque o Espírito Santo é harmonia, sempre faz a harmonia na Igreja. É uma unidade harmônica em tanta diversidade de culturas, de línguas e de pensamentos. É o Espírito Santo o motor. Por isto é importante a oração, que é a alma do nosso compromisso de homens e mulheres de comunhão, de unidade. A oração ao Espírito Santo, para que venha e faça a unidade na Igreja.
 
Peçamos ao Senhor: Senhor, dai-nos sermos sempre mais unidos, não sermos nunca instrumentos de divisão; faz com que nos empenhemos, como diz uma bela oração franciscana, a levar o amor onde há o ódio, a levar o perdão onde há ofensa, a levar a união onde há a discórdia. Assim seja.

24 de setembro de 2013

Luta livre ou vale-tudo?

 
No estilo de luta livre esportiva nem tudo é permitido e a aplicação de golpes proibidos por um dos atletas resulta em desclassificação. Por sua vez, a luta livre vale-tudo, ainda que parecida com o estilo do combate livre, permite socos, golpes, cotoveladas e joelhadas. Mesmo assim, continuam proibidas as condutas consideradas antiesportivas: cabeçada, dedo no olho, mordida, puxão de cabelo, além de utilizar linguagem imprópria ou abusiva no ringue. Enfim, não é permitido o golpe baixo intencional.
 
Podemos fazer aqui uma analogia com as regras que regem, até o combate militar. Todos nós acompanhamos a situação na Síria e o assunto mais falado é, justamente, o uso de armas químicas. Neste contexto, está sendo lembrada uma lista de ações militares que estão fora do conceito de uma guerra justa, ou seja: diferentemente do que diz o pensamento popular "tudo vale no amor e na guerra", não é tudo que vale. Entre as formas ilegítimas de guerra (portanto, proibidas), definidas em acordos internacionais, destacam-se: ataques contra civis não engajados nas batalhas, incluindo qualquer violência sexual, recrutar ou utilizar crianças menores de 15 anos nas forças armadas, matar ou ferir militares que tenham deposto suas armas ou não estejam em condição de se defender, o tratamento desumano de prisioneiros, incluindo torturas físicas ou psicológicas, usar gases tóxicos e outros tipos de armas químicas, ou utilizar armamentos capazes de causar ferimentos desumanos e muitas outras ações. Ainda que o termo "guerra justa" esteja presente no pensamento da Igreja, pelo menos, desde Santo Agostinho, até os dias de hoje (cf. CIC 2307-2317), a opinião sobre a guerra que representa o meio mais bárbaro e mais ineficaz para resolver os conflitos (João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1982, n. 12), está muito clara: Entre os sinais de esperança, há que incluir ainda o crescimento, em muitos estratos da opinião pública, de uma nova sensibilidade cada vez mais contrária à guerra como instrumento de solução dos conflitos entre os povos, e sempre mais inclinada à busca de instrumentos eficazes, mas « não violentos », para bloquear o agressor armado. João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae, n. 27).
 
Feitas essas ressalvas, vou ao assunto principal. A impressão que tenho é que existe uma área, na qual não funcionam as mínimas regras de conduta, análogas às leis de guerra ou de luta livre. É a mídia, inclusive, a mídia católica. Vale lembrar aqui uma definição clara, fornecida pela própria Igreja: É necessário, sobretudo, que todos os interessados na utilização destes meios de comunicação formem retamente a consciência acerca de tal uso, em especial no que se refere a algumas questões agudamente debatidas nos nossos dias. A primeira questão refere-se à chamada informação, ou obtenção e divulgação das notícias. É evidente que tal informação, em virtude do progresso atual da sociedade humana e dos vínculos mais estreitos entre os seus membros, resulta muito útil e, na maioria das vezes, necessária, pois a comunicação pública e oportuna de notícias sobre acontecimentos e coisas facilita aos homens um conhecimento mais amplo e contínuo dos fatos, de tal modo que pode contribuir eficazmente para o bem comum e maior progresso de toda a sociedade humana. Existe, pois, no seio da sociedade humana, o direito à informação sobre aquelas coisas que convêm aos homens, segundo as circunstâncias de cada um, tanto particularmente como constituídos em sociedade. No entanto, o uso reto deste direito exige que a informação seja sempre objetivamente verdadeira e, salvas a justiça e a caridade, íntegra. Quanto ao modo, tem de ser, além disso, honesto e conveniente, isto é, que respeite as leis morais do homem, os seus legítimos direitos e dignidade, tanto na obtenção da notícia como na sua divulgação (Decreto Inter Mirifica do Concílio Vaticano II, n. 5).
 
O espaço virtual está repleto de entidades (sites, páginas, blogs), ditas "católicas" que, apesar dessa pretensão em (ab-)usar o adjetivo "católico", ferem gravemente os legítimos direitos e a dignidade das pessoas, sempre quando lhes convém. O exemplo de hoje é o caso de um padre australiano, Greg Reynolds que foi destituído e excomungado pelo Papa Francisco. Um destes "católicos" meios de comunicação, o portal "Logos - apologética cristã" escreve em tom de vitória: Papa Francisco excomunga padre pró-casamento gay. Ele não é o liberal que a mídia quer. E acrescenta: A mídia secularista, golpista e desonesta, junto com os famigerados militantes e ativistas gays e abortistas tiveram sua alegria de curta duração: o papa é fiel e ardente defensor da moral tradicional. No mesmo texto desta "notícia do dia", o próprio portal se contradiz. Depois de comemorar a derrota dos inimigos, diz: O documento de excomunhão – escrito em latim e não dando o motivo – e de 31 de maio, o que significa que está sob a autoridade do papa Francisco, que ganhou as manchetes na quinta-feira pedindo uma Igreja menos obcecada por regras. Percebendo, talvez, a própria contradição, acrescenta: O documento pode não dar nenhuma razão explícita, mas a razão é implícita e bem compreendida: Reynolds ofendeu a Igreja Mãe com sua política (opiniões radicais sobre mulheres no clero e “casamento” gay).
 
Pesquisando, porém, mais um pouco, podemos chegar facilmente a outras informações que, convenientemente, o portal "Logos" omite. O portal "Ecclesia", informa que na manhã desta terça-feira, 24, agências de notícias internacionais divulgaram o decreto de excomunhão contra o padre australiano Greg Reynolds que se manifestou em reiteradas ocasiões a favor do casamento homossexual e a ordenação de mulheres. (...) Há dois anos o ex-padre havia sido afastado da paróquia a que pertencia em Melbourne e agora recebeu oficialmente o parecer da Igreja quanto ao seu futuro. Segundo Reynolds, o documento de excomunhão, escrito em latim, foi emitido sobre a autorização do próprio Papa Francisco. Após ter sido suspenso em 2011 das funções sacerdotais dedicou os últimos meses a fundação de um grupo chamado "Inclusive Catholics", dedicado a promover o ativismo gay dentro da Igreja.
 
Outro portal católico, "Fratres in unum", citando as testemunhas oculares, diz que em 5 de agosto [de 2012] um cão recebeu a comunhão em uma celebração de “católicos inclusivos”, um movimento de Melbourne lançado pelo Padre Greg Reynolds, um padre suspenso da arquidiocese. Após defender a ordenação de mulheres em uma homilia de 2010, o Padre Reynolds teve as suas faculdades suspensas pelo Arcebispo Denis Hart e renunciou ao seu pastoreio. Atualmente ele organiza celebrações para um grupo variado de católicos desafetos. O periódico The Age noticiou que uma mulher conduziu a celebração, enquanto o Padre Reynolds “desempenhava um pequeno papel da maneira que podia.” Parece improvável, portanto, que a cerimônia tenha sido uma Missa válida ou que o pão fosse realmente consagrado. Contudo, The Ager relatou que a congregação suspirou quando um participante administrou a comunhão ao cão. O Arcebispo Hart emitiu uma declaração dizendo “que é uma abominação qualquer pessoa alimentar um cão com a Eucaristia.” Em um protesto ao The Age, o Arcebispo disse que o relato do jornal sobre a cerimônia “somente pode ser entendido como uma tentativa de ridicularizar o catolicismo”.
 
A conclusão é simples: antes de uivar a "derrota dos gayzistas", os usuários da mídia (principalmente católica), teriam que cumprir o seu dever de consciência para com a virtude de honestidade e renunciar à tentação de manipular a informação.
 

Padre Pio e a natureza

 
Hoje é o dia que a Igreja dedica à celebração da memória de um dos mais famosos Santos dos tempos recentes: o Padre Pio de Pietrelcina. A sua fama refere-se, principalmente, aos estigmas (as chagas de Cristo, carregadas pelo Padre Pio durante 50 anos), mas também a outros dons extraordinários, como a bilocação (o dom sobrenatural de estar em dois lugares simultaneamente), a leitura da mente/consciência dos penitentes e aos milagres que ele realizava. O que surpreende na história deste santo é que ele tinha sido perseguido pela Igreja, inclusive pelo Santo Ofício (antes chamado Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal  e, atualmente, Congregação para a Doutrina da Fé) e, mais tarde, pela mesma Igreja, foi canonizado. Longe de ter sido um pedido de perdão em nome da Igreja, o rito de canonização do Padre Pio, em 2002, contou com esta observação de João Paulo II: A imagem evangélica do "jugo" recorda as numerosas provas que o humilde capuchinho de San Giovanni Rotondo teve que enfrentar. Hoje contemplamos nele como é suave o "jugo" de Cristo e verdadeiramente leve o seu fardo quando é carregado com amor fiel. A vida e a missão do Padre Pio testemunham que as dificuldades e os sofrimentos, se forem aceitos por amor, transformam-se num caminho privilegiado de santidade, que abre perspectivas de um bem maior, que só Deus conhece. Na cerimônia da beatificação, em 1999, as palavras do Papa foram um pouco mais diretas: Não menos dolorosas, e humanamente talvez ainda mais fortes, foram as provações que teve de suportar como consequência, dir-se-ia, dos seus singulares carismas. Na história da santidade às vezes acontece que o escolhido, por especial permissão de Deus, é objeto de incompreensões.
 
Aqui fica um pouco mais claro o título deste texto. A Igreja tem algum tipo de obsessão em relação à natureza. Uma instituição que se apresenta ao mundo como "guardiã do sobrenatural", tem dificuldade de reconhecer os fenômenos que não se encaixam no conceito de "natureza". A Congregação para as Causas dos Santos, declara: O mundo muda, mas os santos, embora também mudem com o mundo que se transforma, representam sempre o mesmo rosto vivo de Cristo. Não existe nisto, porventura, um indício inconfundível da vitalidade peculiar, metacultural e meta-histórica para nós, católicos, "sobrenatural" é a palavra justa do anúncio e da Graça cristã?
 
Pois é, Deus não se submete às leis da natureza. Ou, talvez, Ele mesmo tenha revelado as dimensões desconhecidas dessa mesma natureza. Já o rei Salomão, considerado um dos maiores sábios na história da humanidade, assim expressou a sua pequenez: Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa no céu? E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo? (Sb 9, 16-17). Façamos aqui uma conexão direta com a promessa que Jesus deu aos seus discípulos, depois de ter constatado a limitação deles: Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade (Jo 16, 12-13). É importante notar aqui que, mesmo depois de terem sido revestidos com o poder do alto (cf. Lc 24, 49), os Apóstolos apresentavam grandes dificuldades em compreender os desígnios de Deus. Não foi e não está sendo diferente na Igreja, até o dia de hoje. Com outras palavras, a ação do Espírito Santo que consiste em conduzir a Igreja à plena verdade, continua e continuará até o fim dos tempos. As palavras de Jesus "Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?" não perderam a sua atualidade.
 
Vejamos agora, qual é a maior razão das dificuldades que a Igreja tem em relação ao reconhecimento dos direitos de pessoas homossexuais:
 
- Os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados. São contrários à lei natural. Fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. Em caso algum podem ser aprovados. (CIC, 2357)
- O Catecismo distingue entre os atos homossexuais e as tendências homossexuais. Quanto aos atos, ensina que, na Sagrada Escritura, esses são apresentados como pecados graves. A Tradição considerou-os constantemente como intrinsecamente imorais e contrários à lei natural. Por conseguinte, não podem ser aprovados em caso algum. (Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais..., n. 2)
- Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimónio e a família. O matrimónio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. (Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, n. 4)
 
Um site "ultracatólico" (Veritatis splendor), tenta explicar as coisas assim:
O homossexualismo pertence à primeira classe dos pecados de luxúria. Ele não se contenta em usar da natureza contra a reta razão: viola a própria natureza. Entre os vícios contra a natureza, ele ocupa o segundo lugar, perdendo apenas para a bestialidade. Talvez seja por sua especial gravidade que esse pecado tenha sido escolhido como motivo de "orgulho", com marchas, campanhas e ameaça de perseguição aos discordantes ("homofóbicos"). Quem exalta o homossexualismo deve fazê-lo com a intenção de afrontar a Deus ao máximo.
Os que não entendem que o homossexualismo seja antinatural, talvez usem "natural" no sentido de "habitual". O hábito, porém, não se confunde com a natureza. Um hábito acrescentado à natureza produz uma inclinação que a natureza, por si só, não tem. Um hábito contrário à natureza é capaz de inclinar a faculdade a agir contra a natureza. Tal inclinação habitual, não é, porém, natural.
Como se diz em algumas ocasiões, será necessário começar por Adão e Eva, mas isso só na próxima vez. Apenas vou adiantar que é, justamente, o contrário do que "explica" o site acima. Por exemplo, por mais que seja habitual, voar de avião, é totalmente antinatural.
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Fica comigo, Senhor,
pois é só a Ti que procuro,
Teu amor, Tua graça, Tua vontade,
Teu coração, Teu Espírito, porque Te amo,
e a única recompensa que Te peço
é poder amar-te sempre mais.
Como este amor resoluto desejo
amar-Te de todo o coração
enquanto estiver na terra,
para continuar a te amar perfeitamente
por toda a eternidade.
Amém.
(S. Padre Pio)

22 de setembro de 2013

Ser Igreja

 
Quantos cristãos recordam a data do próprio Batismo? Gostaria de fazer esta pergunta aqui pra vocês, mas cada um responda no seu coração: quantos de vocês recordam a data do próprio Batismo? Alguns levantam a mão, mas quantos não lembram! Mas a data do Batismo é a data do nosso nascimento na Igreja, a data na qual a nossa mãe Igreja nos deu à luz! E agora eu lhes deixo uma tarefa para fazerem em casa. Quando voltarem para casa hoje, procurem bem qual é a data do Batismo de vocês, e isto para festejá-la, para agradecer ao Senhor por este dom. Vocês farão isso?
 
Estas perguntas dirigiu aos ouvintes o Papa Francisco, no dia 11 de setembro deste ano (na íntegra, com pequenas diferenças: no site do Vaticano; no site da Canção Nova).
 
Então... é hoje - 22. 09 - a data do meu Batismo. Alguns cálculos simples mostram que demorei mais de 10 meses para ser batizado e conheço os porquês dessa demora, mas não vou falar sobre isso hoje... O que me vem à mente é o assunto com o qual procuro me ocupar um pouco neste blog: a Pastoral das Pessoas Homossexuais. Na verdade, fiquei na dúvida em relação a esse projeto, principalmente depois de algumas pesquisas sobre a natureza, ou definição de uma pastoral. Não vou citar nenhuma das fontes que consultei, mas em quase todas elas repete-se a expressão: As pastorais são trabalhos desenvolvidos pela Igreja, numa ação organizada e dirigida pela Diocese e Paróquia para atender determinada situação em uma realidade específica. Já o movimento nasce e se forma em um contexto externo à igreja local, é uma ação dos leigos que pode envolver várias pastorais/serviços ao mesmo tempo. Está mais ligado à vida pessoal dos participantes e, em geral, tem um caráter de espiritualidade e segue um carisma próprio, envolvendo mais ou menos as mesmas pessoas que vivenciaram um encontro, um retiro ou uma catequese.
 
A Igreja fala sobre o "atendimento pastoral" das pessoas homossexuais e encoraja os Bispos a promoverem, nas suas dioceses, uma pastoral para as pessoas homossexuais, plenamente concorde com o ensinamento da Igreja. Uma dinâmica semelhante aparece na proposta de Pe. Antônio Transferetti (mencionado aqui). Eu mesmo criei neste blog o tag "pastoral para homossexuais", mas agora estou pensando, se não seria mais correto dizer "pastoral de homossexuais". O que parece ser apenas uma diferença gramática, na realidade é um convite às pessoas homossexuais a se tornarem agentes e não meros objetos da ação pastoral. Por isso a definição do movimento (acima) me parece mais adequado. Quem sabe, um "movimento pastoral"...
 
O Papa João Paulo II, em sua Exortação Apostólica Christifideles laici, (n. 29), diz: Antes de mais, é necessário reconhecer-se a liberdade associativa dos fiéis leigos na Igreja. Essa liberdade constitui um verdadeiro e próprio direito que não deriva de uma espécie de « concessão » da autoridade, mas que promana do Batismo, qual sacramento que chama os fiéis leigos para participarem ativamente na comunhão e na missão da Igreja. O Concílio é muito explícito a este propósito: « Respeitada a devida relação com a autoridade eclesiástica, os leigos têm o direito de fundar associações, dirigi-las e dar nome às já existentes » [LG, 37]. E o recente Código textualmente diz: « Os fiéis podem livremente fundar e dirigir associações para fins de caridade ou de piedade, ou para fomentar a vocação cristã no mundo, e reunir-se para alcançar em comum esses mesmos fins » [CDC, cân. 215].
 
Agradeço a Deus pelo dom do Batismo. Eu creio - com a Igreja - que a graça não tira a natureza, mas a supõe e a aperfeiçoa (cf. S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I, 1, 8 ad 2). Creio, também, que a minha natureza é homossexual e essa sua característica não impediu a ação da graça batismal, tampouco é a negação dessa mesma graça. As duas - a natureza e a graça - convivem em mim e ambas constituem a base de toda a minha relação com Deus e com as pessoas. Sim, no meu íntimo, eu amo a lei de Deus, mas percebo em meus membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo da lei do pecado que está nos meus membros. (Rm 7, 22-23) É a batalha de todo o batizado, seja ele hetero- ou homossexual. É do ser humano...

Mês da Bíblia (8) - Celebração final


[A introdução baseada no texto da Editora Paulinas] A celebração final é o resumo dos 4 encontros e é baseada no texto de Lc 24,13-35 - o relato exclusivo de Lucas, marcado pelo escutar e reler as Escrituras, à luz do Mistério Pascal de Jesus na certeza de que é no partir o pão, que o encontro com o Ressuscitado se faz sempre presente. É por meio desse encontro que somos chamados a anunciar a Alegre Notícia: Jesus ressuscitou e vive em nosso meio.

Uma celebração que imagino, requer a presença de algumas pessoas... Bem, pelo menos de mais uma pessoa. Seria ótimo poder celebrar o dom da Palavra de Deus, ao lado de uma pessoa amada. Algumas propostas do "Desafio de amar" falam, justamente, sobre isso. No meu caso, isso é uma lembrança do passado e faz parte de sonho sobre o futuro. Na verdade, já cogitei a possibilidade de namorar uma pessoa de outra religião, porém, a realidade da vida em comum, na qual se compartilha tudo, inclusive a espiritualidade, é um ideal.

Deixando de lado essas divagações, vamos ao que interessa. Temos o material de reflexão, dividido em 4 partes (estão aqui os encontros: , , , ). Por mais que uma parte pareça diferente da outra, podemos encontrar um "fio condutor", um caminho, como aquele que percorreram dois discípulos, rumo a Emaús, acompanhados por Jesus Ressuscitado.

O ponto de referência pode ser a "mentalidade do descartável", sobre a qual o Papa Francisco tem falado ultimamente com frequência.

Em sua carta, dirigida ao Primeiro-Ministro britânico, David Cameron, o Santo Padre escreveu: Quer as medidas de longo alcance para assegurar uma adequada instância de legalidade que oriente todas as decisões econômicas, quer as urgentes medidas comuns para resolver a crise econômica mundial devem ser norteadas pela ética da verdade que inclui, antes de tudo, o respeito pela verdade acerca do homem, que não é um elemento adicional da economia, nem um bem descartável, mas algo dotado de uma natureza e de uma dignidade que não podem ser reduzidas a um simples cálculo econômico. (15. 06. 2013)

Aos jornalistas, durante o voo ao Brasil, o Papa declarou: Temos de acabar com esse hábito de descartar. Ao contrário, cultura da inclusão, cultura do encontro, fazer um esforço para integrar a todos na sociedade. (22. 07. 2013)

Na Comunidade de Varginha, no Rio, ouvimos a advertência: Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável! Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável, porque nós somos irmãos. Ninguém é descartável! (25. 07. 2013)

Durante uma breve entrevista, no estúdio da Rádio Catedral, o Papa voltou a este assunto: Que todos trabalhemos por esta palavra que hoje em dia não é bem aceita: solidariedade. É uma palavra que procuram deixar de lado, sempre, porquê incômoda. Todavia, é uma palavra que reflete os valores humanos e cristãos que hoje nos pedem para ir contra; da cultura do descartável, de que tudo é descartável. Uma cultura que sempre deixa as pessoas de fora: deixa à margem as crianças, deixa à margem os jovens, deixa à margem os idosos, deixa a fora aos que não servem, aos que não produzem, e isso não pode acontecer. (27. 07. 2013)

Na Catedral do Rio, durante a Missa com os bispos e padres da JMJ, o Papa disse: Em muitos ambientes, e de maneira geral neste humanismo economicista que impôs-se no mundo, ganhou espaço a cultura da exclusão, a “cultura do descartável”. (27. 07. 2013)

Pensando bem, os dois discípulos do Senhor que estavam caminhando a Emaús, haviam descartado a pessoa de Jesus e, também, os sonhos que, eles mesmos, associavam a Ele:  Perguntou-lhes ele: Que foi? Disseram: A respeito de Jesus de Nazaré... Era um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo. Os nossos sumos sacerdotes e os nossos magistrados o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam. (Lc 24, 19-21)

Nós, os gays, temos uma experiência a mais que nos ajuda a compreender melhor esta passagem do Evangelho. Muitos de nós já viveu, ou ainda vive, a sua "caminhada a dois" que, exatamente por causa de sua dimensão gay, está sendo descartada pela Igreja, pela família e pela sociedade em geral. Não poucos, gays e lésbicas, que alcançaram a meta de tantos esforços e, finalmente, formam casais, sentem-se em obrigação de descartar Jesus, a fé e a Igreja de sua vida. A eles - a todos nós - Jesus dirige as mesmas palavras: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! (Lc 24, 25). É incomparável o momento, quando, um ao outro, podemos dizer: Não se nos abrasava o coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? (Lc 24, 32). Afinal, Ele não nos descarta!

Jesus foi descartado, também, pelos habitantes de Nazaré, após a revelação de sua identidade messiânica. Como meditamos no 1° encontro (também aqui), de certa maneira, Jesus "saiu do armário" e encontrou-se com uma reação violenta: a estas palavras, encheram-se todos de cólera na sinagoga. Levantaram-se e lançaram-no fora da cidade; e conduziram-no até o alto do monte sobre o qual era construída a sua cidade, e queriam precipitá-lo dali abaixo. Ele, porém, passou por entre eles e retirou-se (Lc 4, 28-30).

Vimos no 2° encontro que o ato de descartar, no sentido mais profundo do Evangelho, refere-se a todas aquelas coisas que não nos permitem seguir a Jesus. Em primeiro lugar, evidentemente, está o pecado. Destaca-se, porém, um tipo específico de pecado, frequentemente difícil a ser admitido e que consiste no apego às coisas ou às ideias. É, especialmente, aquela maneira de avaliar as coisas e as pessoas - inclusive a si mesmo - de acordo com alguns rótulos que a mentalidade vigente entrega, já prontos, em nossas mãos. Ainda que o texto bíblico, proposto para este encontro, consista em apenas um versículo (Lc 5, 11), temos ali o contexto mais amplo:  (...) apanharam peixes em tanta quantidade, que a rede se lhes rompia. (...)  Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador. (...) Então Jesus disse a Simão: Não temas; doravante serás pescador de homens. (Lc 5, 6. 8. 10). Simão Pedro descartava a si mesmo, mas Jesus o resgatou. O Mestre não pronunciou qualquer tipo de julgamento. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem. (Jo 2, 25). Apenas disse a Simão e repete a cada um de nós: Não temas! O eco destas palavras de Cristo, encontramos na expressão que o Papa Francisco usou recentemente, referindo-se às pessoas homossexuais: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a? É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. A verdade é que muitos homossexuais, oprimidos pela mentalidade reinante, incorporam a cultura do descartável, a partir de si próprios. Sentem-se indignos, até mesmo de existir, o que tem a sua mais trágica manifestação em tantos suicídios.

O 3° encontro nos levou a contemplar as (mais descartadas pela cultura do seu tempo) mulheres, no seguimento de Jesus. Podemos acrescentar aqui mais um trecho da Carta Apostólica de João Paulo II "Mulieris dignitatem", já citada no próprio encontro: Admite-se universalmente — e até por parte de quem se posiciona criticamente diante da mensagem cristã — que Cristo se constituiu, perante os seus contemporâneos, promotor da verdadeira dignidade da mulher e da vocação correspondente a tal dignidade. Às vezes, isso provocava estupor, surpresa, muitas vezes raiando o escândalo: « ficaram admirados por estar ele a conversar com uma mulher » (Jo 4, 27), porque este comportamento se distinguia daquele dos seus contemporâneos. « Ficaram admirados » até os próprios discípulos de Cristo. O fariseu, a cuja casa se dirigiu a mulher pecadora para ungir os pés de Jesus com óleo perfumado, « disse consigo: "Se este homem fosse um profeta, saberia quem é e de que espécie é a mulher que o toca: é uma pecadora" » (Lc 7, 39). Estranheza ainda maior ou até « santa indignação » deviam provocar nos ouvintes satisfeitos de si as palavras de Cristo: « Os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus » (Mt 21, 31) [n. 12]. A mesma "santa indignação" - como ironicamente comenta João Paulo II - está sendo provocada, ainda hoje, no coração piedoso dos discípulos de Jesus, diante da profissão de fé cristã, feita pelas pessoas homossexuais.

Chegamos, finalmente, ao 4° encontro, no qual detectamos a mesma "cultura do descartável", como o maior desafio e problema no seguimento de Jesus, de acordo com o capítulo 15 do Evangelho de Lucas. Recentemente, tive a ocasião de ouvir a pregação de um padre que analisava esta passagem bíblica. Dizia, logo no início, que existe uma conexão direta entre as duas pequenas parábolas de Jesus (sobre a ovelha perdida e sobre a mulher que perdeu uma moeda) com a grande história do pai e de seus dois filhos. O padre dizia que, assim como a ovelha, o filho mais novo, perdeu-se longe de casa, mas, com o filho mais velho, aconteceu o mesmo, só que dentro de casa - assim, como a moeda que foi perdida dentro de casa. E acrescentava: toda essa parábola foi contada por causa do filho que se perdeu por perto. Nunca saiu de casa, mesmo assim, conseguiu se perder. E pior, diferentemente do seu irmão mais novo, ele não foi capaz de admitir isso. Assim chegamos à conclusão, respondendo ao questionamento proposto, de que os desafios e os problemas no seguimento de Jesus, associam-se, também, à mentalidade do descartável. O irmão mais velho descartou o seu irmão (a ponto de não conseguir mais chamá-lo de irmão), descartou o pai e o seu amor. É muito provável que tenha descartado, também, a chance de reencontro, de inclusão, de diálogo e de reconciliação.

Jesus - tantas vezes descartado - aposta nos descartados (e, até naqueles que se autodescartam) e não descarta ninguém. Aqueles que aceitam o chamado do Senhor e se tornam discípulos-missionários, seguem o mesmo caminho. Por mais que tenham sido descartados, não descartam a esperança de um mundo melhor e, na eternidade, a plenitude da vida feliz.

Como dizia a introdução, estamos percorrendo o caminho catequético-litúrgico, marcado pelo escutar e reler as Escrituras, à luz do Mistério Pascal de Jesus e o reavivar, na certeza de que é no partir o pão, que o encontro com o Ressuscitado se faz sempre presente. É por meio desse encontro que somos chamados a anunciar a Alegre Notícia: Jesus ressuscitou e vive em nosso meio.

Não descartemos essa alegria!

21 de setembro de 2013

As curiosidades do fundamentalismo

 
Recebo, via e-mail, os anúncios de novas edições do programa de Padre Paulo Ricardo e de seus artigos, através de assinatura que fiz, há algum tempo. O nome do site é "Christo nihil praeponere". Nestes dias aconteceu algo curioso: recebi o anúncio de um novo artigo, abri, dei uma olhada e deixei para ler melhor, mais tarde. Aconteceu, porém, o misterioso sumiço da matéria (veja aqui) e a página não está mais disponível. Ainda bem que estamos lidando com o pessoal fervoroso e muito ágil. Há, no espaço cibernético, muitos seguidores desta "doutrina". Encontrei o artigo, assinado pela "Equipe Christo nihil praepondere", na página "Amor mariano", mas, como se trata da mesma linha de pensamento, provavelmente, em breve, o texto também não estará mais disponível.
 
O título do artigo é: "Alguém deixou as janelas abertas" e faz referência muito clara às ideias e atitudes do Beato Papa João XXIII, especialmente à sua decisão de convocar o Concílio Vaticano II. O texto cita o famoso trecho da homilia de Paulo VI de 1972 (original, em italiano, no site do Vaticano), especialmente a afirmação: “por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus”. Em seguida, os autores (?) citam a constatação de seu mestre maior, Olavo de Carvalho: "Ao confessar que (…) ‘a fumaça de satanás entrara pelas janelas do Vaticano’, o papa Paulo VI esqueceu de observar que isso só podia ter acontecido porque alguém, de dentro, deixara as janelas abertas". Diga-se de passagem que, talvez esteja na hora de definir quem é o mestre do Padre Paulo Ricardo: Olavo de Carvalho, ou Jesus Cristo...
 
Vale a pena confrontar aquela frase do "filósofo", com as palavras do próprio Papa Paulo VI: "Para algumas categorias de pessoas olha a Igreja com particular interesse, da janela do Concílio aberta sobre o mundo: para os pobres, para os necessitados, para os aflitos, para os famintos, os que sofrem, os encarcerados, os que têm fome; isto é, olha para toda a humanidade que sofre e chora, pois a Igreja sabe que esta lhe pertence, por direito evangélico; e gosta de repetir a quantos a compõem: «Venite ad me omnes»: vinde a mim todos. (Paulo VI, Discurso na Inauguração da 2a Sessão do Concílio Vaticano II, 29. 09. 1963).
 
O texto do site de Padre Paulo Ricardo, especializado em lançar as mais diversas teorias de conspiração e em criar (ou reproduzir do seu mestre) os neologismos, cheios de amor fraterno (por exemplo "gayzismo"), prossegue: Pensou-se estar inaugurando na Igreja um “novo Pentecostes”. A perspectiva de muitas pessoas na década de 1960 e também nas gerações seguintes era que se vivia uma “primavera” na Igreja. Ao contrário, hoje se experimenta o que o Cardeal Walter Kasper chamou de “uma Igreja com aspecto de inverno”, com “claros sinais de crise”.
 
Façamos mais uma acareação. O Papa Bento XVI, durante a sua viagem a Portugal em 2010, disse no encontro com os bispos: "confesso-vos a agradável surpresa que tive ao contatar com os movimentos e novas comunidades eclesiais. Observando-os, tive a alegria e a graça de ver como, num momento de fadiga da Igreja, num momento em que se falava de «inverno da Igreja», o Espírito Santo criava uma nova primavera, fazendo despertar nos jovens e adultos a alegria de serem cristãos, de viverem na Igreja que é o Corpo vivo de Cristo. Graças aos carismas, a radicalidade do Evangelho, o conteúdo objetivo da fé, o fluxo vivo da sua tradição comunicam-se persuasivamente e são acolhidos como experiência pessoal, como adesão da liberdade ao evento presente de Cristo."
 
A constatação que o texto desaparecido, originalmente publicado na página do Padre Paulo Ricardo, que, talvez, precisasse de uma modificação do nome, para "Ego nihil praepondere", é seguinte: "Não é preciso ir muito além para perceber que inúmeras ovelhas, ao redor do mundo, ao invés de serem apascentadas por bons pastores – exemplos do Pastor supremo das almas, Jesus Cristo –, eram conduzidas e ameaçadas por lobos vorazes. Estes lobos vestidos em pele de cordeiro, ao invés de oferecer aos filhos da Igreja o seu ensinamento de dois mil anos, o seu riquíssimo patrimônio espiritual e o valoroso exemplo dos santos, deixavam perdidas as ovelhas com um falso evangelho que eles mesmos tinham inventado." Ainda que não diga claramente, o "autor" faz alusão às expressões de São Paulo: Estou admirado de que tão depressa passeis daquele que vos chamou à graça de Cristo para um evangelho diferente. De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado! (Ga 1, 6-9).
 
Tudo bem, vejamos como é que se cria um "evangelho diferente", fazendo com que a boa nova deixa de ser tão boa. Quando não é possível ocultar aquilo que já foi dito (o exemplo é o mencionado artigo, publicado e retirado do site), trata-se de desvirtuar o sentido das palavras - algo que, inclusive, os mesmos "donos da verdade" atribuem aos seus adversários. Podemos lembrar aqui mais uma expressão de Paulo que diz, logo depois de ter abordado os assuntos ligados aos "homens [que] arderam em desejos uns para com os outros" (Rm 1, 27): Assim, és inescusável, ó homem, quem quer que sejas, que te arvoras em juiz. Naquilo que julgas a outrem, a ti mesmo te condenas; pois tu, que julgas, fazes as mesmas coisas que eles. (Rm 2, 1).
 
Vamos ao que interessa. Nestes dias, as palavras do Papa Francisco, pronunciadas em uma entrevista, repercutiram bastante na mídia. Algumas afirmações foram recebidos com entusiasmo por muitos que identificaram nelas a boa nova de esperança. As palavras do Papa são claras. Como fazer, então, para que perdessem essa clareza? Vejamos em outro blog, ainda mais radical do que aquele do Padre Paulo Ricardo.
 
Chama-se "Deus lo vult" (de Jorge Ferraz de Recife que apresenta a sua obra assim: "Deus lo vult", é a versão latina do “Dieu le veut!” francês, que significa “Deus o quer!” e que foi o grito dado pelos soldados franceses em resposta à convocação das Cruzadas feita pelo Papa – brado que se tornou daí em diante o grito de guerra dos cruzados) e fala, inclusive, no tom tão característico e conhecido, por exemplo, nas ruas do Brasil e do mundo, sobre os homossexuais e, de modo particular, sobre os homossexuais católicos e as suas associações, tais como "Diversidade Católica" (se quiser, leia aqui: Deus lo vult).
 
Mas, não é sobre isso que pretendo falar hoje. Volto às repercussões da entrevista do Papa. O blog (por que não mudar, para "Deus non lo vult", ou "Ego lo vult"?) - visivelmente assustado com a clareza das expressões do Santo Padre - "ajuda" a interpretar o pensamento do Pontífice, para que se possam evitar perturbações provocadas pela situação atual e por outras idênticas a ela que já apareceram e sem dúvidas ainda haverão de aparecer enquanto houver jornalismo medíocre no mundo [sic!]. Qual é o método? É o mesmo que tentou argumentar a respeito de pequeno (ou nenhum) valor das declarações do Papa sobre os gays, só por terem sido dadas em um avião e não em forma de algum documento pontifício. Desta vez, a alegação é seguinte: Como se trata de uma entrevista, o Papa Francisco está dando uma resposta para uma pergunta específica, e portanto é óbvio que o alcance de suas palavras deve estar circunscrito ao contexto dela. É evidente que elas não servem para guiar toda e qualquer ação dos católicos, pela simples razão de não ter sido isso o que foi perguntado a Sua Santidade.
 
Deu para perceber? Resposta do Papa a uma pergunta específica, não serve para guiar toda e qualquer ação dos católicos. Vejamos, qual foi uma dessas perguntas específicas (notemos que o próprio Papa facilita aqui a reflexão, até de gente pouco inteligente, ou cega no seu fundamentalismo):  Uma vez uma pessoa, de modo provocatório, perguntou-me se aprovava a homossexualidade. Eu, então, respondi-lhe com uma outra pergunta: “Diz-me: Deus, quando olha para uma pessoa homossexual, aprova a sua existência com afeto ou rejeita-a, condenando-a?” É necessário sempre considerar a pessoa. Aqui entramos no mistério do homem. Na vida, Deus acompanha as pessoas e nós devemos acompanhá-las a partir da sua condição. É preciso acompanhar com misericórdia. Um pouco antes, no mesmo texto, o Santo Padre faz referência às pessoas homossexuais que se sentem rejeitadas pela Igreja: Em Buenos Aires recebia cartas de pessoas homossexuais, que são “feridos sociais”, porque me dizem que sentem como a Igreja sempre os condenou. Mas a Igreja não quer fazer isto.
 
Estas são as (tristes e perigosas) curiosidades do fundamentalismo. 
 
Jesus quer outra coisa:

Boa noite!

 
Na verdade verdadeira,
todo mundo tem
suas diferencices...
 
[ Saramandaia ]