ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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11 de setembro de 2013

Mês da Bíblia (4) - 1° encontro

 
Como já mencionei (aqui), a Comissão Bíblico-Catequética da CNBB propõe, para o Mês da Bíblia deste ano,  4 encontros e a celebração final, com os seguintes temas:

1° Lc 4,14-30 (o início da missão pública de Jesus na Galileia que tem como centro a proclamação do cumprimento do texto do profeta Isaías [Is 61,1-2] sobre a missão do Messias e a salvação que é anunciada a todos).

2° Temas da vocação, missão e as exigências do discipulado (de acordo com o tema deste ano: "O discipulado-missionário em Lucas"; objetiva mostrar a radicalidade, na resposta dos chamados ao discipulado [Lc 5,11] e o desprendimento - uma atitude própria de todo discípulo, no seguimento de Jesus).

3° O papel das mulheres, no seguimento de Jesus.

4° Os desafios e problemas no seguimento (Lc 15).

A celebração final: o resumo dos encontros baseado no texto de Lc 24,13-35 (o caminho catequético-litúrgico, marcado pelo escutar e reler as Escrituras, à luz do Mistério Pascal de Jesus e o reavivar a certeza de que é no partir o pão, que o encontro com o Ressuscitado se faz sempre presente. É por meio desse encontro que somos chamados a anunciar a Alegre Notícia: Jesus ressuscitou e vive em nosso meio.
 
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Escrevi (em 2011) uma reflexão sobre os acontecimentos na sinagoga de Nazaré à luz da experiência de "coming out", que se aplica, de forma nítida, à atitude de Jesus naquela época. Seguindo o método de "leitura existencial", procuro me identificar com um, ou outro personagem do texto. Como na mencionada reflexão tentei olhar da perspectiva daquele que sai do armário (embora eu, particularmente, ainda tenha adiado esse ato, em seu sentido pleno e público). Talvez seja interessante colocar-me, agora, no meio daquela gente que recebe a notícia: "Vejam, eu sou o que sou", pelo menos em dois aspectos. Como reajo quando alguém (de quem eu nem desconfiava) diz: "Eu sou gay"? Realmente, a primeira ideia é: "Eu não desconfiava!". Há quem diga que existe tal de "gaydar" (um "radar" interior, uma intuição, para reconhecer os gays). No meu caso funciona raramente. Não sou muito atento, eu acho, embora já tenha tido alguns, pouquíssimos, acertos. Outra ideia é - penso eu - associada a um tipo de inveja (olha, não é tão fácil admitir os próprios medos e outros erros). Mas, de fato, a minha admiração pela coragem daquela pessoa que revela publicamente a sua homossexualidade, mistura-se com uma espécie de autocobrança: "por que eu ainda não tive essa coragem?". Vem, ainda, o julgamento, do tipo: "Pelo qual motivo ele/ela está fazendo isso?" - indiretamente surge outra pergunta por trás: "Por que eu ainda não fiz isso?"... Aí, é claro, começa aquela interminável discussão interior, baseada sobretudo nas comparações (eu me comparo com os outros) e na série de justificativas: "Ah, para ele/ela é muito fácil!" (não sei o que estou dizendo!), ou "Ah, hoje em dia está na moda assumir a homossexualidade" (ideia bastante superficial)... Enfim, de qualquer maneira, a minha postura não está muito diferente daquelas mostradas no Evangelho (anda que apenas dentro da minha cabeça). Pode parecer estranho, mas, apesar de toda essa tempestade mental, ainda sou capaz de ficar feliz com o "coming out" de quem quer que seja e - com toda sinceridade - dou o meu total apoio. Voltando, ainda, ao assunto da minha própria e definitiva saída do armário, posso dizer que - ainda que parcialmente - fiz isso em alguns ambientes e/ou círculos de pessoas (incluindo aqueles nos quais fui tirado do armário forçadamente). Pode ser que os meus receios nesta questão tenham a ver com o tipo desastrado que sou. Algumas vezes, ao tentar me revelar como gay, deixei a pessoa assustada e com a impressão de ter "dado em cima" dela (a pessoa, mas, neste caso, seria "dele" rs). Em alguns casos, os velhos e novos amigos, deixaram de falar comigo a partir daquele momento. E eu não quero mais perder amigos. Quero fazer amigos, mas não é sempre que consigo...
 
Lembro-me de um livro que fala sobre a necessidade de comunicação. É o "Arrancar máscaras! Abandonar papéis" de John Powell e Loretta Brady (tenho a edição da Loyola-SP de 1985). Entre outras coisas importantes, os autores fazem as seguintes perguntas: "A comunicação é importante para mim?", "Quero realmente conhecer e ser conhecido?",  "Se eu fosse me revelar honestamente a alguém, o que receio pudesse acontecer?" (p. 25). Em um dos primeiros capítulos colocam, também, essa regra: "Somente quando estamos dispostos a partilhar todo o nosso eu, imperfeições e tudo, estamos realmente nos comunicando. Mas, mais do que isso, minha franqueza terá um efeito definitivo nos outros. A honestidade, como tudo o que é humano, é contagiante. O fato de eu sair de trás de muros protetores para encontrá-lo frente a frente vai inspirá-lo a fazer o mesmo. Quando somos verdadeiros e honestos a respeito de nossa vulnerabilidade, os outros ficam aliviados" (p. 65-66).
 
Bem... Não sei se isso funciona, exatamente assim, no caso de homossexuais.
 
Existe, porém, um outro "coming out", não menos complicado do que o "clássico". Estou pensando naquela situação em que um(-a) homossexual, dentro da "comunidade GLBT", revela-se como pessoa religiosa, principalmente cristã (acho que existe maior tolerância neste ambiente para quem se declara um espírita, ou budista, ou seguidor de alguma outra "doutrina exótica"... e, quanto mais exótica, melhor). Eu sei que a intolerância gera intolerância e a antipatia em relação às Igrejas cristãs é bastante comum no meio GLBT, tendo sua razão em mágoas e injustiças, sofridas na própria pele. Para um gay católico, ou protestante, a carga do preconceito sofrido, tem dose dupla. Assim, muita gente, na minha opinião, permanece em dois armários ao mesmo tempo...
 
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Retomando a leitura da passagem do Evangelho de Lucas (4, 16-30), proposta para este primeiro encontro do Mês da Bíblia, há mais uma coisa que chama a minha atenção. O texto diz:
 
Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor." E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Ele começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu este oráculo que vós acabais de ouvir. (Lc 4, 17-21)
 
É claro que Jesus tem a total autoridade e liberdade para ler a passagem bíblica que quiser. Entretanto, se olhássemos com atenção à citação de Isaías, notaríamos uma curiosidade. O texto faz parte do capítulo 61 da profecia de Isaías e, em sua versão original, a última frase tem uma continuação lógica: depois de falar "para publicar o ano da graça do Senhor", acrescenta "e um dia de vingança de nosso Deus". Pode não ter tanta importância, mas acho interessante a maneira de pregar que Jesus escolheu, evitando tudo que tenha qualquer conotação de violência, ou de castigo (neste caso, a vingança). Quem sabe, os pregadores de hoje, possam aprender algo com este detalhe...

10 de setembro de 2013

Not All Like That

 
Dan Savage, colunista e escritor americano e o seu companheiro, Terry Miller, lançaram em setembro de 2010, nos Estados Unidos, a campanha "It Gets Better Project" (a maioria das fontes em português traduz como "Tudo vai melhorar" - veja aqui o material de Portugal) que divulgou vários vídeos de esperança no YouTube, destinados aos jovens LGBT, vítimas de violência física e psicológica. Surgiu como resposta ao elevado número de estudantes que vinham atentando contra as próprias vidas após terem sido vítimas de bullying na escola e em casa. A intenção foi criar um núcleo pessoal de apoiantes que, em todo o mundo, pudessem dizer aos jovens LGBT que sim, TUDO VAI MELHORAR. Entre os vídeos encontra-se o apelo do presidente Barack Obama, além de Hilary Clinton, do consultor de moda e apresentador Tim Gunn, do pessoal dos Estúdios Pixar Animation, da popstar Kesha, das estrelas do Broadway, da atriz ("Glee") Lea Michele, dos funcionários do facebook, de estudantes do Brigham Young University, universidade privada mantida pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e de muitos outros.
 
 
 
Agora chegou a vez de abrir o espaço aos cristãos que apoiam as pessoas GLBT. O nome do novo projeto é "Not all like that" que pode ser entendido como "Não todos somos assim" (talvez "Não Todos Gostamos Disso") e faz alusão à agressão e ao desprezo que caracterizam a postura de muitos cristãos em relação às pessoas GLBT. A ideia do projeto nasceu no coração de Dan Savage, durante as conversas com os cristãos que diziam: "Nós não somos assim, como tantos cristãos que usurpam para si o dirito de falar em nome de todos os crentes e, na base desta usurpação, condenam os gays, lésbicas e tantos outros". O idealizador do projeto, Dan Savage, diz: "Agora vocês terão um instrumento para dizer abertamente que sendo cristãos, vocês não são assim. Vocês têm que fazer barulho, porque o silêncio só vai ajudar àqueles que prejudicam não só às pessoas GLBT, mas ao próprio cristianismo".
 
No momento, o site oficial do projeto e todos os vídeos, estão em inglês, mas acredito que em breve, graças ao empenho dos cristãos GLBT do Brasil, ou de Portugal, haverá algo semelhante em português.

O amigo do noivo

 
(...)  o amigo, que está aí esperando, se enche de alegria quando ouve a voz do noivo. Esta é a minha alegria, e ela é muito grande (Jo 3, 29).
 
Recebi recentemente o convite para um casamento. O meu amigo vai se casar com o seu namorado no mês que vem. OK... na verdade é o seguinte: só o termo "amigo" está exato nas afirmações acima. Na verdade, o meu amigo não veio para me fazer um convite, mas para saber o que eu penso a respeito... Também fiquei na dúvida se trata-se de um casamento civil mesmo, ou apenas de um ato de formalizar a união estável, através da certidão e da escritura registrada no cartório. Tentei, mais tarde, tirar essa dúvida, mas, até o momento presente, não obtive resposta. Pelo que descobri, a união estável registrada no cartório não altera o estado civil – ou seja, os dois continuam solteiros. Já o casamento, registrado no cartório de registros públicos, altera o estado civil e faz do cônjuge um “herdeiro necessário”, que não pode ficar sem ao menos parte da herança. Assim como no casamento convencional, os noivos podem escolher o regime de bens (comunhão parcial, comunhão total ou separação total) e mudar o sobrenome (veja o esclarecimento no portal do governo brasileiro). Por outro lado, desde o mês de abril deste ano, aqui no Estado do Rio (e em vários outros), todo casal homoafetivo pode solicitar junto ao cartório, a habilitação direta para o casamento civil... (leia a matéria no JB).
 
Entretanto, lembro-me de que o meu amigo tinha dito sobre o pedido de casamento que recebeu do seu namorado. Tratava-se, de fato (entre outras coisas, é claro), das questões de herança. O meu amigo é relativamente jovem (sim, maior de idade) e o seu amado tem uns 50 anos... Enfim, perante à questão principal, esses são apenas detalhes e a questão é o que é que eu penso sobre isso...
 
Confesso que fiquei, por um (demorado) momento, simplesmente calado. O que é que eu deveria responder? Já percebi que o povo tem, entre as suas mais (con)sagradas frases, aquela que é capaz de extrair lágrimas, até do mais macho entre os machos e que diz, simplesmente: "Eu estou realizando o meu sonho". Diante desta afirmação, até o mais chato e perspicaz jornalista, fica calado (quem não se lembra dessas mesmas palavras na boca do Neymar, ao afirmar a sua transferência para o "Barça"?). Enfim, isso encerraria a nossa conversa: "Vai lá e realiza o teu sonho", mas confesso que fiquei na dúvida. Afinal, mesmo sendo homossexual, ainda me considero um católico (e o meu amigo, também é). Na mesma hora vieram à minha memória todas aquelas frases - praticamente gritos - da doutrina católica (seguem alguns trechos de "Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais" da Congregação para a Doutrina da Fé, de 2003):
 
- Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. O matrimônio é santo, ao passo que as relações homossexuais estão em contraste com a lei moral natural. Os atos homossexuais, de fato, «fecham o ato sexual ao dom da vida. Não são fruto de uma verdadeira complementaridade afetiva e sexual. Não se podem, de maneira nenhuma, aprovar». (n. 4);
- Em presença do reconhecimento legal das uniões homossexuais ou da equiparação legal das mesmas ao matrimônio, com acesso aos direitos próprios deste último, é um dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo. Há que abster-se de qualquer forma de cooperação formal na promulgação ou aplicação de leis tão gravemente injustas e, na medida do possível, abster-se também da cooperação material no plano da aplicação. Nesta matéria, cada qual pode reivindicar o direito à objeção de consciência. (n. 5);
- As uniões homossexuais não desempenham, nem mesmo em sentido analógico remoto, as funções pelas quais o matrimônio e a família merecem um reconhecimento específico e qualificado. Há, pelo contrário, razões válidas para afirmar que tais uniões são nocivas a um reto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efetiva incidência sobre o tecido social. (n. 8);
- (...) todos os fiéis são obrigados a opor-se ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. (n. 10).
- A Igreja ensina que o respeito para com as pessoas homossexuais não pode levar, de modo nenhum, à aprovação do comportamento homossexual ou ao reconhecimento legal das uniões homossexuais. O bem comum exige que as leis reconheçam, favoreçam e protejam a união matrimonial como base da família, célula primária da sociedade. Reconhecer legalmente as uniões homossexuais ou equipará-las ao matrimônio, significaria, não só aprovar um comportamento errado, com a consequência de convertê-lo num modelo para a sociedade atual, mas também ofuscar valores fundamentais que fazem parte do patrimônio comum da humanidade. A Igreja não pode abdicar de defender tais valores, para o bem dos homens e de toda a sociedade. (n. 11).
 
E agora, José? Fiquei pensativo, porque, de um lado acredito em milagres e um deles seria a mudança de opinião da Igreja sobre esse assunto. Por outro lado, há bastante tempo, discuto (inclusive aqui, neste blog) e discordo de certas afirmações, contidas nos textos doutrinais da Igreja. Seria eu, portanto, um "fiel rebelde" (o mesmo que "o infiel")? Seria eu, ainda, um católico?
 
Enfim, comecei depois "enrolar" um pouco o meu amigo, só para adiar a minha resposta definitiva. Perguntei sobre algumas coisas, falei sobre outras, até chegar à conclusão: "Não sei o que dizer". Sei, porém, o que vou fazer: vou ao casamento do meu amigo e darei a ele o meu total apoio. Afinal, sou o amigo do noivo!
 
Confesso que surgiu, na ocasião, um desejo no meu coração de... casar também. Bem... no meu caso é um pouco mais complicado. A princípio, falta um candidato...

8 de setembro de 2013

Vingança diabólica

 
Do ponto de vista bíblico, ou, quem quiser, no plano espiritual, a lógica do Demônio pode ser resumida assim: "Eu sou condenado e vou levar o maior número possível de pessoas à condenação". A revolta tem muitas faces, mas a mais assustadora é aquela que se propõe, de maneira premeditada, a espalhar o mal sofrido a outras pessoas, principalmente àquelas que não tem nada a ver com o problema. É uma versão distorcida, exatamente diabólica, de compaixão. Esta última, em sua origem, constitui o atributo do próprio Deus, revelado em Jesus, como a essência do Mistério Pascal. Sentir compaixão, compadecer-se, compartilhar a dor, encontrou a sua cruel caricatura na atitude de várias pessoas, sobre as quais não se fala muito, a não ser que a sua ação tome uma dimensão midiática. Este é o caso de um homem chamado David Mangum (nas fontes em língua inglesa David Lee Magnum). A notícia no portal do jornal português "A bola" diz:
 
A cidade de Dexter, no Missouri, Estados Unidos, enfrenta um caso de risco de saúde pública depois de um homem ter confessado ter tido mais de 300 parceiros sexuais depois de lhe ter sido detectado  HIV, em 2003, para lá de ter infectado também o ex-companheiro. David Mangum confessou à polícia ter tido sexo desprotegido com pessoas que conheceu online ou em parques públicos. Um porta-voz da polícia disse mesmo que será difícil tentar avisar as pessoas, uma vez que Magnum só conhecia muitas delas pelo primeiro nome, aponta a CNN. Dexter é uma cidade pequena, de cerca de 8 mil habitantes. O suspeito foi detido depois de o ex-companheiro o ter denunciado depois de um teste de HIV positivo. Expor conscientemente outra pessoas à doença configura crime no estado do Missouri e noutros 36 estados e pode significar uma pena de prisão de até 15 anos, que pode ser agravada no caso de confirmada a infecção.

Ao ler esta notícia, lembrei-me de uma comovente entrevista, publicada no "The Dirty Life Blog". O entrevistado, Gabriel (nome fictício), é Autor do Blog "Ninguém por aí - Jovem gay vivendo com HIV/AIDS". Esta é a parte de sua história:
 
- Eu já li em alguns lugares que, geralmente, as PVHA [Pessoas Vivendo com HIV/Aids"] não se lembram a maneira como contraíram o vírus, isso acontece com você, ou você se lembra?
 
- Fiquei durante muitos meses pensando nesta questão. Nada me fazia lembrar... Parecia que de algo em mim queria esquecer. Mas na semana em que iniciei a medicação eu tive um sonho muito terrível. Meu médico já havia alertado que a medicação que tomo poderia causar alterações no sono/sonho nos primeiros dias. No sonho eu relembrei o momento da contaminação: Foi com um cara que retirou a camisinha na hora do sexo e me passou o vírus. Tudo indica que ele sabia da contaminação. Em fevereiro, no bairro de Ipanema. Nos conhecemos nessa noite e levei ele pra casa. Não transamos... Dormimos. No dia seguinte, sem uma gota de álcool na cabeça foi quando tivemos uma relação sexual. Esse pra mim é o momento mais provável da contaminação, pois não me lembro de outros momentos em que transei sem camisinha.
 
- E você tentou agir judicialmente contra ele? Porque é crime previsto na lei! Se eu não me engano, caracteriza lesão corporal grave...
 
- Pensei nessa hipótese, mas eu fiquei muito frágil durante muito tempo. Hoje eu não quero ter nenhuma relação com ele. Nem mesmo judicial. 
 
Bem... Acho difícil acrescentar qualquer coisa. Acredito que a minha introdução ao tema sirva como o comentário.
 
Obs.: Agora vou tentar obter as devidas autorizações. Não tenho certeza se, ao fornecer as fontes, cumpri todas as exigências da lei e de bons costumes...

Sabedoria da renúncia

 
A Liturgia da Palavra neste 23° Domingo do tempo comum traz a mensagem sobre a sabedoria da renúncia. É preciso saber renunciar e ao que renunciar. É preciso renunciar para alcançar a sabedoria. O texto principal, como sempre, é o Evangelho (Lc 14,25-33) e nele destaca-se a frase de Jesus: "Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo." (v. 27) e outra: "(...) qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!" (v. 33).
 
A mais frequente interpretação aponta aqui a renúncia aos bens materiais. Quase sempre, fala-se, também, de renúncia ao pecado. Não tem nada de errado neste ponto de vista, desde que a própria interpretação não se limite apenas nele. Temos, pois, muito mais coisas para renunciar, o que nos sugere o próprio conjunto de textos deste dia. A primeira leitura (Sb 9,13-18) e o Salmo responsorial (Sl 89) falam de sabedoria e da pequenez do homem diante dela. Indiretamente, portanto, apontam a necessidade de renúncia da própria "sabedoria" (ou inteligência) humana e à exagerada confiança depositada nela: "Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus?" (Sb 9, 16). Admitir não ser o "dono da verdade" requer a humildade, a mesma que Sócrates expressou dizendo: "Só sei que nada sei".
 
Na segunda leitura, o Apóstolo Paulo, recorre, exatamente, a este argumento, ao solicitar ao seu amigo e irmão na fé, a renúncia aos critérios de costumes da época, além de todos os argumentos emocionais, intelectuais e legais (Fm 9b-10.12-17). Renunciar a si mesmo e a tudo que se possui, neste contexto, significa abrir mão de seu próprio ponto de vista, por mais que ele tenha sido apoiado pelos costumes e leis em vigência. Olhar a Onésimo não mais como a um escravo culpado, mas sim, como a um irmão em Cristo e um irmão querido, é a verdadeira revolução.
 
Para nós, o "povo GLBTTS", é uma mensagem de esperança, desde que alguém queira seguir esta orientação da Palavra de Deus. Por que enxergar em cada um de nós apenas esta ou aquela orientação sexual? Inclusive, o próprio termo, leva à associação direta ao ato sexual, embora a palavra "sexo" não se limite apenas a isso. Se eu disser que a criança que nasceu é de sexo masculino, isso não vai significar que um bebê esteja realizando um ato sexual. Todos os "donos da verdade" que abominam até a própria existência das pessoas diferentes em relação ao "padrão" heterossexual, esquecem da verdade revelada por Deus: "Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus?" 
 
Um pouco mais humildade encontramos na afirmação da Igreja que diz: "A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atração sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar" (CIC 2357). Em outro "texto fundamental", a Igreja diz: "A Igreja, guardiã do depósito da palavra de Deus do qual tira os princípios para a ordem religiosa e moral, ainda que não tenha sempre resposta imediata para todos os problemas, deseja unir a luz da revelação com a perícia de todos, para que se ilumine o caminho no qual a humanidade entrou recentemente." (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral "Gaudium et Spes", n. 33) O mesmo documento, um pouco antes, afirma também: "Dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos os homens têm a mesma natureza e mesma origem; redimidos por Cristo, todos gozam da mesma vocação e destinação divina; deve-se portanto reconhecer cada vez mais a igualdade fundamental entre todos. Na verdade nem todos os homens não se equiparam na capacidade física, que é variada, e nas forças intelectuais e morais, que são diversas. Contudo qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa, seja ela social ou cultural, ou funde-se no  sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião deve ser superada e eliminada,  porque contrária ao plano de Deus. É de lamentar realmente que  aqueles direitos fundamentais da pessoa não sejam ainda garantidos por toda a parte. É o caso quando se nega à mulher a faculdade de escolher livremente o seu esposo, de abraçar seu estado de vida ou o acesso à mesma cultura e educação que se admitem para o homem. Além disso, ainda que haja entre os homens justas diferenças, a igual dignidade das pessoas postula que se chegue a uma condição de vida mais humana e mais equitativa. Pois as excessivas desigualdades econômicas e sociais entre os membros e povos da única família humana, provocam escândalo e são  contrárias à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e à paz social e internacional. As instituições humanas, particulares ou públicas, se esforcem por servir à dignidade e ao  fim do homem. Ao mesmo tempo lutem denodamente contra qualquer espécie  de servidão tanto social quanto política e respeitem os direitos fundamentais do homem sob qualquer regime político. Além disso, é necessário que estas instituições pouco a pouco se adaptem às exigências espirituais, superiores a tudo, ainda que às vezes seja necessário um tempo bastante longo para chegarem ao fim desejado" (n. 29).

7 de setembro de 2013

Preciosas palavras

 
Seria melhor, simplesmente, transcrever na íntegra a homilia do Papa Francisco, feita hoje na Praça de São Pedro, durante a Vigília de Oração pela Paz. Para isso, porém, basta acessar o site oficial do Vaticano, ou a página da Canção Nova. Não posso, entretanto, deixar de destacar alguns trechos e mencionar certas características do discurso.
 
Primeira coisa que chamou a minha atenção foi a frequência com a qual o Papa usou o termo "todos". Parece ser algo muito óbvio, mas o Santo Padre deixa a impressão de querer lembrar disso à humanidade e à Igreja, pois, enquanto não se vê todos, é possível criar uma visão fragmentada da humanidade e começar a "classificar" as pessoas.
 
O Papa Francisco, logo no início, afirma que o nosso mundo, no coração e na mente de Deus, é “casa de harmonia e de paz” e espaço onde todos podem encontrar o seu lugar e sentir-se “em casa”, porque é “isso é bom”. Toda a criação constitui um conjunto harmonioso, bom, mas os seres humanos em particular, criados à imagem e semelhança de Deus, formam uma única família, em que as relações estão marcadas por uma fraternidade real e não simplesmente de palavra: o outro e a outra são o irmão e a irmã que devemos amar, e a relação com Deus, que é amor, fidelidade, bondade, se reflete em todas as relações humanas e dá harmonia para toda a criação. O mundo de Deus é um mundo onde cada um se sente responsável pelo outro, pelo bem do outro.
 
O que seriam "todas as relações humanas"? Todas mesmo? E antes, o nosso mundo é, realmente, o espaço onde todos podem encontrar o seu lugar? Bem, o Papa diz que assim é o mundo no coração e na mente de Deus. Bem sabemos que no coração e na mente de muitas pessoas, simplesmente não é. Pergunto, como já fiz várias vezes neste blog, será que, pelo menos os católicos, prestam atenção a tudo o que Santo Padre diz? Ou, então, prestam atenção, mas interpretam de seu jeito e "todos", na verdade, são "quase todos". Vi em algum lugar uma charge que mostrava a multidão segurando duas faixas. Em uma estava escrito: "Jesus te ama" e na outra "a não ser que você seja homossexual".
 
Logo em seguida, fazendo referência à história de Caim e Abel, o Papa continuou:  Deus pergunta à consciência do homem: «Onde está o teu irmão Abel?». E Caim responde «Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Esta pergunta também se dirige a nós, assim que também a nós fará bem perguntar: - Acaso sou o guarda do meu irmão? Sim, tu és o guarda do teu irmão! Ser pessoa significa sermos guardas uns dos outros! Contudo, quando se quebra a harmonia, se produz uma metamorfose: o irmão que devíamos guardar e amar se transforma em adversário a combater, a suprimir. Quanta violência surge a partir deste momento, quantos conflitos, quantas guerras marcaram a nossa história! Basta ver o sofrimento de tantos irmãos e irmãs. Não se trata de algo conjuntural, mas a verdade é esta: em toda violência e em toda guerra fazemos Caim renascer. Todos nós! E ainda hoje prolongamos esta história de confronto entre os irmãos, ainda hoje levantamos a mão contra quem é nosso irmão. Ainda hoje nos deixamos guiar pelos ídolos, pelo egoísmo, pelos nossos interesses; e esta atitude se faz mais aguda: aperfeiçoamos nossas armas, nossa consciência adormeceu, tornamos mais sutis as nossas razões para nos justificar. Como fosse uma coisa normal, continuamos a semear destruição, dor, morte! A violência e a guerra trazem somente morte, falam de morte! A violência e a guerra têm a linguagem da morte!
 
O Papa Francisco conclui essa parte, dizendo: Depois do Dilúvio, cessou a chuva, surge o arco-íris e a pomba traz um ramo de oliveira.
 
O movimento GLBTTS, justamente por isso, escolheu o arco-íris como a sua marca. É o sinal da paz e da fraternidade. Pelo menos, da esperança de ambas...
 
O ponto seguinte foi feito em forma de um diálogo: E neste ponto, me pergunto: É possível percorrer o caminho da paz? Podemos sair desta espiral de dor e de morte? Podemos aprender de novo a caminhar e percorrer o caminho da paz? Invocando a ajuda de Deus, sob o olhar materno da Salus Populi romani, Rainha da paz, quero responder: Sim, é possível para todos! Esta noite queria que de todos os cantos da terra gritássemos: Sim, é possível para todos! E mais ainda, queria que cada um de nós, desde o menor até o maior, inclusive aqueles que estão chamados a governar as nações, respondesse: - Sim queremos! (...) Queria pedir ao Senhor, nesta noite, que nós cristãos e os irmãos de outras religiões, todos os homens e mulheres de boa vontade gritassem com força: a violência e a guerra nunca são o caminho da paz! Que cada um olhe dentro da própria consciência e escute a palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o teu coração, supera a indiferença para com o outro que torna o teu coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação.
 
A pregação do Papa Francisco termina com o apelo: Rezemos, nesta noite, pela reconciliação e pela paz, e nos tornemos todos, em todos os ambientes, em homens e mulheres de reconciliação e de paz.

A prece pela PAZ

Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. (Mt 5, 9)
A tua fé te salvou. Vai em paz! (Mc 5, 34; cf. Lc 7, 50; 8, 48;) 
Tende sal em vós e vivei em paz uns com os outros. (Mc 9, 50)
Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa! (Lc 10, 5)
Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!... Mas não, isso está oculto aos teus olhos. (Lc 19, 42)
A paz esteja convosco! (Lc 24, 36)
Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. (Jo 14, 27)
Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo. (Jo 16, 33)
Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. (At 10, 36)
A vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da parte do Senhor Jesus Cristo! (Rm 1, 7)
A aspiração do espírito é a vida e a paz. (Rm 8, 6)
Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens. (Rm 12, 18)
O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e gozo no Espírito Santo. (Rm 14, 17)
Apliquemo-nos ao que contribui para a paz e para a mútua edificação. (Rm 14, 19)
O Deus da paz esteja com todos vós. (Rm 15, 33)
Deus vos chamou a viver em paz. (1Cor 7, 15)
Deus não é Deus de confusão, mas de paz. (1Cor 14, 33)
Vivei em paz, e o Deus de amor e paz estará convosco. (2Cor 13, 11)
O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade. (Ga 5, 22-23)
Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava. (Ef 2, 14)
Veio para anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz também àqueles que estavam perto. (Ef 2, 17)
Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. (Ef 4, 3)
A paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus. (Flp 4, 7)
Ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus. (Col 1, 20)
Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. (Col 3, 15)
Conservai a paz entre vós. (1Tes 5, 13)
O Senhor da paz vos conceda a paz em todo o tempo e em todas as circunstâncias. (2Tes 3, 16)
Procurai a paz com todos. (Hbr 12, 14)
O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz. (Tg 3, 18)
Busque a paz e siga-a. (1P 3, 11)
A paz esteja com todos vós que estais em Cristo. (1P 5, 14)
A paz esteja contigo! (3J 1, 15)



Senhor Jesus, Príncipe da Paz! Confesso que nem sempre fui amigo da paz. Agredi pessoas, senti raiva, guardei mágoa. Menti. Fui egoísta. Julguei pelas aparências. Falei mal dos outros... Com tudo isso que carrego nas minha costas, venho hoje para Vos pedir o dom da PAZ. A paz para Síria e para o mundo inteiro. Não peço, invocando os meus méritos, pois não tenho nada, além de confiança e arrependimento. Escutai o grito de tantos filhos e filhas de Deus que desejam a paz. Especialmente aqueles que vivem nos lugares atingidos pela violência e pela guerra. Inspirai o mesmo desejo de paz nos corações daqueles que têm o poder sobre as nações. Protegei cada pessoa que tem a sua paz ameaçada. Impedi atitudes de discriminação por qualquer motivo. Despertai no coração de cada ser humano a boa vontade. Dai a cada um de nós a compreensão de que somos todos irmãos, filhos do mesmo Pai celeste. Acolhei as preces da Vossa Igreja e de cada ser humano que clama pela paz. Acolhei o pedido de Maria, Rainha da Paz, Vossa Mãe. Senhor Jesus, Príncipe da Paz!