ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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8 de setembro de 2013

Vingança diabólica

 
Do ponto de vista bíblico, ou, quem quiser, no plano espiritual, a lógica do Demônio pode ser resumida assim: "Eu sou condenado e vou levar o maior número possível de pessoas à condenação". A revolta tem muitas faces, mas a mais assustadora é aquela que se propõe, de maneira premeditada, a espalhar o mal sofrido a outras pessoas, principalmente àquelas que não tem nada a ver com o problema. É uma versão distorcida, exatamente diabólica, de compaixão. Esta última, em sua origem, constitui o atributo do próprio Deus, revelado em Jesus, como a essência do Mistério Pascal. Sentir compaixão, compadecer-se, compartilhar a dor, encontrou a sua cruel caricatura na atitude de várias pessoas, sobre as quais não se fala muito, a não ser que a sua ação tome uma dimensão midiática. Este é o caso de um homem chamado David Mangum (nas fontes em língua inglesa David Lee Magnum). A notícia no portal do jornal português "A bola" diz:
 
A cidade de Dexter, no Missouri, Estados Unidos, enfrenta um caso de risco de saúde pública depois de um homem ter confessado ter tido mais de 300 parceiros sexuais depois de lhe ter sido detectado  HIV, em 2003, para lá de ter infectado também o ex-companheiro. David Mangum confessou à polícia ter tido sexo desprotegido com pessoas que conheceu online ou em parques públicos. Um porta-voz da polícia disse mesmo que será difícil tentar avisar as pessoas, uma vez que Magnum só conhecia muitas delas pelo primeiro nome, aponta a CNN. Dexter é uma cidade pequena, de cerca de 8 mil habitantes. O suspeito foi detido depois de o ex-companheiro o ter denunciado depois de um teste de HIV positivo. Expor conscientemente outra pessoas à doença configura crime no estado do Missouri e noutros 36 estados e pode significar uma pena de prisão de até 15 anos, que pode ser agravada no caso de confirmada a infecção.

Ao ler esta notícia, lembrei-me de uma comovente entrevista, publicada no "The Dirty Life Blog". O entrevistado, Gabriel (nome fictício), é Autor do Blog "Ninguém por aí - Jovem gay vivendo com HIV/AIDS". Esta é a parte de sua história:
 
- Eu já li em alguns lugares que, geralmente, as PVHA [Pessoas Vivendo com HIV/Aids"] não se lembram a maneira como contraíram o vírus, isso acontece com você, ou você se lembra?
 
- Fiquei durante muitos meses pensando nesta questão. Nada me fazia lembrar... Parecia que de algo em mim queria esquecer. Mas na semana em que iniciei a medicação eu tive um sonho muito terrível. Meu médico já havia alertado que a medicação que tomo poderia causar alterações no sono/sonho nos primeiros dias. No sonho eu relembrei o momento da contaminação: Foi com um cara que retirou a camisinha na hora do sexo e me passou o vírus. Tudo indica que ele sabia da contaminação. Em fevereiro, no bairro de Ipanema. Nos conhecemos nessa noite e levei ele pra casa. Não transamos... Dormimos. No dia seguinte, sem uma gota de álcool na cabeça foi quando tivemos uma relação sexual. Esse pra mim é o momento mais provável da contaminação, pois não me lembro de outros momentos em que transei sem camisinha.
 
- E você tentou agir judicialmente contra ele? Porque é crime previsto na lei! Se eu não me engano, caracteriza lesão corporal grave...
 
- Pensei nessa hipótese, mas eu fiquei muito frágil durante muito tempo. Hoje eu não quero ter nenhuma relação com ele. Nem mesmo judicial. 
 
Bem... Acho difícil acrescentar qualquer coisa. Acredito que a minha introdução ao tema sirva como o comentário.
 
Obs.: Agora vou tentar obter as devidas autorizações. Não tenho certeza se, ao fornecer as fontes, cumpri todas as exigências da lei e de bons costumes...

Sabedoria da renúncia

 
A Liturgia da Palavra neste 23° Domingo do tempo comum traz a mensagem sobre a sabedoria da renúncia. É preciso saber renunciar e ao que renunciar. É preciso renunciar para alcançar a sabedoria. O texto principal, como sempre, é o Evangelho (Lc 14,25-33) e nele destaca-se a frase de Jesus: "Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo." (v. 27) e outra: "(...) qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!" (v. 33).
 
A mais frequente interpretação aponta aqui a renúncia aos bens materiais. Quase sempre, fala-se, também, de renúncia ao pecado. Não tem nada de errado neste ponto de vista, desde que a própria interpretação não se limite apenas nele. Temos, pois, muito mais coisas para renunciar, o que nos sugere o próprio conjunto de textos deste dia. A primeira leitura (Sb 9,13-18) e o Salmo responsorial (Sl 89) falam de sabedoria e da pequenez do homem diante dela. Indiretamente, portanto, apontam a necessidade de renúncia da própria "sabedoria" (ou inteligência) humana e à exagerada confiança depositada nela: "Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus?" (Sb 9, 16). Admitir não ser o "dono da verdade" requer a humildade, a mesma que Sócrates expressou dizendo: "Só sei que nada sei".
 
Na segunda leitura, o Apóstolo Paulo, recorre, exatamente, a este argumento, ao solicitar ao seu amigo e irmão na fé, a renúncia aos critérios de costumes da época, além de todos os argumentos emocionais, intelectuais e legais (Fm 9b-10.12-17). Renunciar a si mesmo e a tudo que se possui, neste contexto, significa abrir mão de seu próprio ponto de vista, por mais que ele tenha sido apoiado pelos costumes e leis em vigência. Olhar a Onésimo não mais como a um escravo culpado, mas sim, como a um irmão em Cristo e um irmão querido, é a verdadeira revolução.
 
Para nós, o "povo GLBTTS", é uma mensagem de esperança, desde que alguém queira seguir esta orientação da Palavra de Deus. Por que enxergar em cada um de nós apenas esta ou aquela orientação sexual? Inclusive, o próprio termo, leva à associação direta ao ato sexual, embora a palavra "sexo" não se limite apenas a isso. Se eu disser que a criança que nasceu é de sexo masculino, isso não vai significar que um bebê esteja realizando um ato sexual. Todos os "donos da verdade" que abominam até a própria existência das pessoas diferentes em relação ao "padrão" heterossexual, esquecem da verdade revelada por Deus: "Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus?" 
 
Um pouco mais humildade encontramos na afirmação da Igreja que diz: "A homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que experimentam uma atração sexual exclusiva ou predominante para pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas, através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica continua em grande parte por explicar" (CIC 2357). Em outro "texto fundamental", a Igreja diz: "A Igreja, guardiã do depósito da palavra de Deus do qual tira os princípios para a ordem religiosa e moral, ainda que não tenha sempre resposta imediata para todos os problemas, deseja unir a luz da revelação com a perícia de todos, para que se ilumine o caminho no qual a humanidade entrou recentemente." (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral "Gaudium et Spes", n. 33) O mesmo documento, um pouco antes, afirma também: "Dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos os homens têm a mesma natureza e mesma origem; redimidos por Cristo, todos gozam da mesma vocação e destinação divina; deve-se portanto reconhecer cada vez mais a igualdade fundamental entre todos. Na verdade nem todos os homens não se equiparam na capacidade física, que é variada, e nas forças intelectuais e morais, que são diversas. Contudo qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa, seja ela social ou cultural, ou funde-se no  sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião deve ser superada e eliminada,  porque contrária ao plano de Deus. É de lamentar realmente que  aqueles direitos fundamentais da pessoa não sejam ainda garantidos por toda a parte. É o caso quando se nega à mulher a faculdade de escolher livremente o seu esposo, de abraçar seu estado de vida ou o acesso à mesma cultura e educação que se admitem para o homem. Além disso, ainda que haja entre os homens justas diferenças, a igual dignidade das pessoas postula que se chegue a uma condição de vida mais humana e mais equitativa. Pois as excessivas desigualdades econômicas e sociais entre os membros e povos da única família humana, provocam escândalo e são  contrárias à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e à paz social e internacional. As instituições humanas, particulares ou públicas, se esforcem por servir à dignidade e ao  fim do homem. Ao mesmo tempo lutem denodamente contra qualquer espécie  de servidão tanto social quanto política e respeitem os direitos fundamentais do homem sob qualquer regime político. Além disso, é necessário que estas instituições pouco a pouco se adaptem às exigências espirituais, superiores a tudo, ainda que às vezes seja necessário um tempo bastante longo para chegarem ao fim desejado" (n. 29).

7 de setembro de 2013

Preciosas palavras

 
Seria melhor, simplesmente, transcrever na íntegra a homilia do Papa Francisco, feita hoje na Praça de São Pedro, durante a Vigília de Oração pela Paz. Para isso, porém, basta acessar o site oficial do Vaticano, ou a página da Canção Nova. Não posso, entretanto, deixar de destacar alguns trechos e mencionar certas características do discurso.
 
Primeira coisa que chamou a minha atenção foi a frequência com a qual o Papa usou o termo "todos". Parece ser algo muito óbvio, mas o Santo Padre deixa a impressão de querer lembrar disso à humanidade e à Igreja, pois, enquanto não se vê todos, é possível criar uma visão fragmentada da humanidade e começar a "classificar" as pessoas.
 
O Papa Francisco, logo no início, afirma que o nosso mundo, no coração e na mente de Deus, é “casa de harmonia e de paz” e espaço onde todos podem encontrar o seu lugar e sentir-se “em casa”, porque é “isso é bom”. Toda a criação constitui um conjunto harmonioso, bom, mas os seres humanos em particular, criados à imagem e semelhança de Deus, formam uma única família, em que as relações estão marcadas por uma fraternidade real e não simplesmente de palavra: o outro e a outra são o irmão e a irmã que devemos amar, e a relação com Deus, que é amor, fidelidade, bondade, se reflete em todas as relações humanas e dá harmonia para toda a criação. O mundo de Deus é um mundo onde cada um se sente responsável pelo outro, pelo bem do outro.
 
O que seriam "todas as relações humanas"? Todas mesmo? E antes, o nosso mundo é, realmente, o espaço onde todos podem encontrar o seu lugar? Bem, o Papa diz que assim é o mundo no coração e na mente de Deus. Bem sabemos que no coração e na mente de muitas pessoas, simplesmente não é. Pergunto, como já fiz várias vezes neste blog, será que, pelo menos os católicos, prestam atenção a tudo o que Santo Padre diz? Ou, então, prestam atenção, mas interpretam de seu jeito e "todos", na verdade, são "quase todos". Vi em algum lugar uma charge que mostrava a multidão segurando duas faixas. Em uma estava escrito: "Jesus te ama" e na outra "a não ser que você seja homossexual".
 
Logo em seguida, fazendo referência à história de Caim e Abel, o Papa continuou:  Deus pergunta à consciência do homem: «Onde está o teu irmão Abel?». E Caim responde «Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). Esta pergunta também se dirige a nós, assim que também a nós fará bem perguntar: - Acaso sou o guarda do meu irmão? Sim, tu és o guarda do teu irmão! Ser pessoa significa sermos guardas uns dos outros! Contudo, quando se quebra a harmonia, se produz uma metamorfose: o irmão que devíamos guardar e amar se transforma em adversário a combater, a suprimir. Quanta violência surge a partir deste momento, quantos conflitos, quantas guerras marcaram a nossa história! Basta ver o sofrimento de tantos irmãos e irmãs. Não se trata de algo conjuntural, mas a verdade é esta: em toda violência e em toda guerra fazemos Caim renascer. Todos nós! E ainda hoje prolongamos esta história de confronto entre os irmãos, ainda hoje levantamos a mão contra quem é nosso irmão. Ainda hoje nos deixamos guiar pelos ídolos, pelo egoísmo, pelos nossos interesses; e esta atitude se faz mais aguda: aperfeiçoamos nossas armas, nossa consciência adormeceu, tornamos mais sutis as nossas razões para nos justificar. Como fosse uma coisa normal, continuamos a semear destruição, dor, morte! A violência e a guerra trazem somente morte, falam de morte! A violência e a guerra têm a linguagem da morte!
 
O Papa Francisco conclui essa parte, dizendo: Depois do Dilúvio, cessou a chuva, surge o arco-íris e a pomba traz um ramo de oliveira.
 
O movimento GLBTTS, justamente por isso, escolheu o arco-íris como a sua marca. É o sinal da paz e da fraternidade. Pelo menos, da esperança de ambas...
 
O ponto seguinte foi feito em forma de um diálogo: E neste ponto, me pergunto: É possível percorrer o caminho da paz? Podemos sair desta espiral de dor e de morte? Podemos aprender de novo a caminhar e percorrer o caminho da paz? Invocando a ajuda de Deus, sob o olhar materno da Salus Populi romani, Rainha da paz, quero responder: Sim, é possível para todos! Esta noite queria que de todos os cantos da terra gritássemos: Sim, é possível para todos! E mais ainda, queria que cada um de nós, desde o menor até o maior, inclusive aqueles que estão chamados a governar as nações, respondesse: - Sim queremos! (...) Queria pedir ao Senhor, nesta noite, que nós cristãos e os irmãos de outras religiões, todos os homens e mulheres de boa vontade gritassem com força: a violência e a guerra nunca são o caminho da paz! Que cada um olhe dentro da própria consciência e escute a palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o teu coração, supera a indiferença para com o outro que torna o teu coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação.
 
A pregação do Papa Francisco termina com o apelo: Rezemos, nesta noite, pela reconciliação e pela paz, e nos tornemos todos, em todos os ambientes, em homens e mulheres de reconciliação e de paz.

A prece pela PAZ

Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. (Mt 5, 9)
A tua fé te salvou. Vai em paz! (Mc 5, 34; cf. Lc 7, 50; 8, 48;) 
Tende sal em vós e vivei em paz uns com os outros. (Mc 9, 50)
Em toda casa em que entrardes, dizei primeiro: Paz a esta casa! (Lc 10, 5)
Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!... Mas não, isso está oculto aos teus olhos. (Lc 19, 42)
A paz esteja convosco! (Lc 24, 36)
Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. (Jo 14, 27)
Referi-vos essas coisas para que tenhais a paz em mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo. (Jo 16, 33)
Deus enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a boa nova da paz, por meio de Jesus Cristo. (At 10, 36)
A vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e da parte do Senhor Jesus Cristo! (Rm 1, 7)
A aspiração do espírito é a vida e a paz. (Rm 8, 6)
Se for possível, quanto depender de vós, vivei em paz com todos os homens. (Rm 12, 18)
O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e gozo no Espírito Santo. (Rm 14, 17)
Apliquemo-nos ao que contribui para a paz e para a mútua edificação. (Rm 14, 19)
O Deus da paz esteja com todos vós. (Rm 15, 33)
Deus vos chamou a viver em paz. (1Cor 7, 15)
Deus não é Deus de confusão, mas de paz. (1Cor 14, 33)
Vivei em paz, e o Deus de amor e paz estará convosco. (2Cor 13, 11)
O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade. (Ga 5, 22-23)
Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava. (Ef 2, 14)
Veio para anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz também àqueles que estavam perto. (Ef 2, 17)
Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. (Ef 4, 3)
A paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus. (Flp 4, 7)
Ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus. (Col 1, 20)
Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo. (Col 3, 15)
Conservai a paz entre vós. (1Tes 5, 13)
O Senhor da paz vos conceda a paz em todo o tempo e em todas as circunstâncias. (2Tes 3, 16)
Procurai a paz com todos. (Hbr 12, 14)
O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz. (Tg 3, 18)
Busque a paz e siga-a. (1P 3, 11)
A paz esteja com todos vós que estais em Cristo. (1P 5, 14)
A paz esteja contigo! (3J 1, 15)



Senhor Jesus, Príncipe da Paz! Confesso que nem sempre fui amigo da paz. Agredi pessoas, senti raiva, guardei mágoa. Menti. Fui egoísta. Julguei pelas aparências. Falei mal dos outros... Com tudo isso que carrego nas minha costas, venho hoje para Vos pedir o dom da PAZ. A paz para Síria e para o mundo inteiro. Não peço, invocando os meus méritos, pois não tenho nada, além de confiança e arrependimento. Escutai o grito de tantos filhos e filhas de Deus que desejam a paz. Especialmente aqueles que vivem nos lugares atingidos pela violência e pela guerra. Inspirai o mesmo desejo de paz nos corações daqueles que têm o poder sobre as nações. Protegei cada pessoa que tem a sua paz ameaçada. Impedi atitudes de discriminação por qualquer motivo. Despertai no coração de cada ser humano a boa vontade. Dai a cada um de nós a compreensão de que somos todos irmãos, filhos do mesmo Pai celeste. Acolhei as preces da Vossa Igreja e de cada ser humano que clama pela paz. Acolhei o pedido de Maria, Rainha da Paz, Vossa Mãe. Senhor Jesus, Príncipe da Paz! 

6 de setembro de 2013

A cúpula do G20 + G

David Cameron, Primeiro Ministro britânico [twitter]: "Às 02 h. da madrugada encontro com o presidente Putin. Uma conversa franca sobre a Síria. Expressei também a preocupação com os direitos dos gays" [tradução livre].
 
Um exemplo de que é possível conversar sobre os assuntos de "menor importância", em meio de um encontro que aborda os assuntos tão urgentes como e eminente guerra na Síria e a crise econômica mundial. Um tapa na cara daqueles que se irritam com as reivindicações das minorias, alegando a existência de "temas mais importantes".

Como lembra o portal Gay1, o presidente russo Vladimir Putin proibiu qualquer reunião ou manifestação durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sóchi (alguns autores preferem Sôtchi), que devem acontecer entre os dias 7 e 23 de fevereiro de 2014, às margens do Mar Negro, segundo um decreto de 19 de agosto e publicado no jornal oficial do governo, "Rossiiskaia Gazeta" (Российская газета), no dia 23 de agosto. A proibição foi determinada em momento delicado para Rússia, que é alvo de críticas e protestos contra a recém-aprovada lei contra a 'propaganda' que promova os direitos LGBT no país.
 
Enquanto isso, a "Gazeta Russa" publica uma notícia de teor oposto: Representantes das autoridades russas confirmaram que está sendo considerada a possibilidade de suspender a lei contra a propaganda gay durante o período dos Jogos Olímpicos de Sôtchi. Governantes garantiram ao Comitê Olímpico Internacional (COI) que a lei não afetará os convidados nem os participantes do evento.
Ao mesmo tempo afirma: Quando aplicada a cidadãos estrangeiros residentes na Rússia, a lei prevê a pena complementar de expulsão do país. Não há muito tempo, um grupo de documentaristas holandeses que estavam produzindo um filme sobre a comunidade LGBT em Murmansk foi detido sob suspeita de “propaganda de relações sexuais não tradicionais” dirigida a menores. Os cineastas ficarão proibidos de entrar no país por três anos.
 
 
De acordo com o portal Christian Post (e outras fontes), o deputado Alexander Mikhailov, vice-presidente da Assembleia Legislativa do Transbaikal (uma região da Rússia oriental, próxima à fronteira com a China e a Mongólia), Alexandre Mikhailov, propôs em junho, uma lei polêmica para legalizar o açoitamento público de homossexuais. Segundo Mikhailov, a intenção é incentivar o senso comum das pessoas sobre essa “vergonha”, referindo-se às relações homossexuais. Em entrevista ao portal Chita.ru, o deputado afirmou que "o Transbaikal precisa de uma lei que permita que as tropas peguem os gays na rua e os arrastem para a praça da cidade, onde lá seriam chicoteados pelos cossacos". Em 11 de junho, a legislação russa aprovou uma medida que proíbe a propaganda gay. O descumprimento da lei pode resultar em uma multa de até 5 mil rublos ou cerca de R$ 340 para pessoas físicas, 50 mil rublos (R$ 3,4 mil) para pessoas públicas. Para entidades jurídicas o valor é de 1 milhão de rublos ou R$ 67,8 mil. Recentemente também, a Rússia legalizou a proibição de marchas de orgulho gay pelos próximos 100 anos.
 
Na Rússia, a homossexualidade foi considerada crime até 1993 e uma doença mental até 1999 (informação do portal sapo.pt),
 
O portal de notícias "terra" informa que o presidente americano, Barack Obama, vai se reunir nesta sexta-feira com defensores dos direitos dos gays na Rússia. Igor Kotchetkov, diretor da associação LGBT Network, indicou que participará do encontro, previsto para a noite de sexta-feira, após o encerramento da cúpula do G20. A associação Coming Out também estará representada pela presidente Anna Anissimova.
“Partilhamos a crença na dignidade e na igualdade de todos os homens. Que os nossos irmãos e irmãs homossexuais devem ser tratados de forma igual perante a lei”, afirmou Obama, durante uma conferência de imprensa em Estocolmo, na Suécia, na véspera de sua viagem a São Petrsburgo na Rússia.
 
Neste contexto vale a pena ler a carta do Papa Francisco, enviada ao presidente Putin. Entre outras coisas, o Santo Padre diz: "A economia mundial poderá se desenvolver realmente, na medida em que for capaz de permitir uma vida digna a todos os seres humanos, desde os idosos às crianças ainda no ventre materno, não somente aos cidadãos dos países membros do G20, mas a todos os habitantes da terra, mesmo aqueles que estão nas situações sociais mais difíceis ou nos lugares mais remotos. (...) Além disso, é um dever moral de todos os governos do mundo encorajar qualquer iniciativa para promover a assistência humanitária aos que sofrem por causa do conflito dentro e fora do país".

 

Valores universais

Quando se trata de valores universais, ainda que anunciados em um determinado contexto - neste caso, relacionados à ameaça de guerra na Síria - devem ser compreendidos, justamente, como universais, válidos sempre e em todos os ambientes e situações.
 
Reforçando o apelo do Papa Francisco e o seu convite para uma oração mais intensa pela paz, com o destaque dado à Vigília de oração, no próximo sábado, dia 07, o cardeal brasileiro, Dom Dom João Braz de Aviz, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, usou os seguintes termos:
 
"(...) a saída é a construção da paz, do diálogo, da capacidade de aproximação das pessoas; da paciência histórica de continuar procurando entender as razões do outro e defender os valores que são os grandes valores da humanidade, como a paz, a justiça, o perdão e a capacidade de diálogo. (...) Nós acreditamos neste caminho e sabemos que o Senhor é capaz de dar a paz à sua Igreja, dar a paz às nações, a todas as culturas, à convivência social no mundo inteiro, sobretudo neste momento em que nós buscamos razões, modos e métodos para poder realizar esta convivência globalizada. Temos os meios necessários, precisamos que estes valores profundos do coração, que constroem a paz, possam sustentar o nosso caminho”.  (Leia aqui a matéria, publicada no site do Rádio Vaticano).
 

No mesmo site encontramos um breve texto sobre o encontro do Papa com o Catholicos Moran Baselios Marthoma Paulose II, a autoridade máxima da Igreja Ortodoxa Sírio-Malankar (também conhecida como a Igreja Indiana, ou  Igreja Ortodoxa do Oriente, membro da família cristã ortodoxa de Igrejas "não calcedonianas", ou antigas Igrejas Ortodoxas = aquelas que se separaram da única Igreja depois do Concílio em Calcedônia, em 451, isto é bem antes da "grande cisma" em 1054. A Igreja Ortodoxa Sírio-Malankar nasceu da pregação do Apóstolo Tomé na Ásia. Radicada na Índia, tem, aproximadamente, 2 milhões e 500 mil membros, espalhados em 30 dioceses).
 
Desta vez, o Papa falou sobre os valores universais:
 
“No caminho ecumênico, é importante olhar para os passos realizados, superando preconceitos e isolamento, que fazem parte daquela 'cultura de colisão', que é fonte de divisão, e deixando espaço para a 'cultura do encontro', que nos educa à compreensão recíproca e a atuar pela unidade.” E acrescentou: “É importante intensificar a oração, porque somente o Espírito Santo com a sua graça, com a sua luz, com o seu calor pode degelar nossa insensibilidade e guiar os nossos passos rumo a uma fraternidade sempre maior.” (o texto original da matéria está aqui, enquanto aguardamos a tradução de todo o discurso do Papa, no site oficial da Santa Sé).
 
Agora me digam: estas expressões servem somente para a situação atual, relacionada ao apelo pela paz na Síria, ou talvez apenas para o diálogo ecumênico? Ou, então, aplicam-se, igualmente, a todas as circunstâncias que envolvem qualquer dificuldade de convivência e aceitação mútua?
 
E o diálogo entre os cristãos e os irmãos e irmãs da Comunidade GLBTT, "superando preconceitos e isolamento que fazem parte daquela cultura de colisão, que é doente de divisão", como diz o Papa? Ou com a "capacidade de aproximação das pessoas, paciência histórica de continuar procurando entender as razões do outro e defender os valores que são os grandes valores da humanidade, como a paz, a justiça, o perdão e a capacidade de diálogo", como diz o Cardeal Braz de Aviz?

5 de setembro de 2013

Dois depoimentos

Publico dois vídeos, cada um com o depoimento sobre a homossexualidade e a possibilidade/necessidade da aceitação pela família. Esta postagem poderia ser intitulada como "em nome do pai e do filho", mas como escrevo aqui sobre os assuntos ligados à religião, tal frase, certamente, teria causado uma confusão (embora, a aceitação de um filho, ou uma filha homossexual, feita "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo", seja a melhor de todas!). Os depoentes aqui apresentados não são, literalmente, pai e filho (quer dizer, um não é o filho do outro), mas, de certa maneira, representam milhares de pais e filhos.

Allex, um jovem gay, fala sobre a dificuldade de "sair do armário". Quem quiser, acesse este vídeo diretamente no YouTube e leia os comentários. A maior polêmica foi causada pelo fato de Allex ter usado o termo "dom" em relação à homossexualidade. Queria contribuir aqui para tal entendimento, citando a opinião de um padre jesuíta, James L. Empereur que, em seu livro "Direção espiritual e homossexualidade" (Edições Loyola; São Paulo, 2006), referindo-se aos homossexuais cristãos (mas que, na minha opinião, pode ser estendido a todos os outros... já citei este livro aqui):
 
Os gays cristãos possuem um carisma análogo ao carisma de uma vocação religiosa. (...) O que diferencia o carisma do homem gay do carisma de um homem membro de uma ordem religiosa é que o do homem gay é um carisma sexual. Assim como Deus ofereceu certo dom aos sacerdotes, irmãos ou irmãs na vida religiosa para que seguissem o evangelho com certo caráter público, assim Ele ofereceu aos homens gays e mulheres lésbicas um dom sexual especial, que exibe de maneira pública a diversidade e a beleza de Deus em nosso mundo. Todas as criaturas de Deus expõem a obra de Deus, mas o mundo também precisa de variação para que a riqueza dessa obra seja inequivocamente evidente. Deus dá a gays e lésbicas a variação um tanto surpreendente de sua sexualidade para ajudar seus irmãos e irmãs a ter uma compreensão maior da realidade de seu Deus.
 
O segundo vídeo transmite belas palavras de um pai que ama o seu filho gay. É o senhor Paulo Próspero que tive a honra de ouvir, ao vivo, no "I Encontro de Relatos e Experiências", promovido pelo Grupo Diversidade Católica, durante a JMJ no Rio, em julho deste ano (veja aqui as impressões do evento). O depoimento dele, publicado aqui, foi exibido no programa da TV Globo "Encontro com Fátima Bernardes", em março deste ano. A frase que se torna um resumo de mensagem de Paulo Próspero para cada pai e cada mãe de filho, ou filha de homossexual, pode ser essa: "O resultado que se tem, quando a gente aceita um filho, é uma coisa espetacular!".  
 
O depoimento de Allex:
 
 
O depoimento de Paulo Próspero: