ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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27 de agosto de 2013

Cura gay pelo olhar da mãe de gay


 
Ainda no contexto de Santa Mônica que traz a reflexão sobre a experiência de uma mãe aflita, reproduzo aqui o excelente texto de Maju Giorgi, publicado no site do iG, no dia 23 de junho deste ano (aqui), em sua própria coluna "Mãe pela igualdade" (todos os textos da colunista estão aqui). O título "Não existe cura gay, o que existe é a cura da egodistônia e esse é um direito de qualquer um", fez com que procurasse o significado de um dos termos (a gente aprende a vida toda). Eis o que descobri (aqui - o site de Portugal que se apresenta como destinado aos homossexuais egodistônicos): Egodistônico significa que uma pessoa apresenta uma característica que não desejaria ter, que a torna infeliz, que vai contra os seus desejos e aspirações mais profundas. Por outro lado os homossexuais egosintônicos são aqueles bem adaptados e felizes com a sua condição homossexual. Feito este esclarecimento, vamos ao texto (vale a pena ler na edição original, especialmente por causa das ilustrações que acompanham o texto). Ao transcrever o artigo, mantenho a escrita original...
 
Não existe cura gay, o que existe é a cura da egodistônia e esse é um direito de qualquer um...
Esta é a cura gay pelo viés, olhar da mãe de gay. Hoje, vocês vão ter que ter paciência comigo, porque vou falar muito. Os LGBTT carregam uma carga imensa de estigmas culturais históricos: não nascem em famílias bem constituídas, OPTARAM, são todos ateus e da esquerda radical e fazem parte ou são uma arma da agenda esquerdopata, são mal educados pelos pais que os criam para serem gays, promíscuos, marginais, drogados, doentes, condutores de doenças, transtornados, endemôniados e nem sei mais quantas tarjas e rótulos colocam no povo LGBTT. Me expliquem, de que forma, um pai ou uma mãe hétero, que muitas vezes tem mais de um filho ou muitos filhos e um deles é gay, faz? Escolhemos um aleatoriamente e dizemos: você vai ser “O filho gay”. E aí ensinamos meninos a brincar de boneca ou meninas a jogar futebol? Sorrimos, batemos palmas e gritamos: hora da aula, vem aprender a ser gay? Ou então, resolvi que você vai ser trans, e aí ensinamos meninos a se vestir “de mulher”, se maquiar, ou meninas a ter aversão dos seios e a se vestir “de homem”. Ou ainda… você vai ser Bi, porque hoje eu acordei com raiva dos evangélicos neopentecostais, então resolvi te escolher para ser o pior de todos, os que ficam de cá e de lá carregando os vícios e as doenças.
 
Você consegue imaginar este cenário? Me diga… Você se lembra em qual dia ou a que horas você resolveu ser hétero? Você resolveu sozinho ou foi uma escolha da sua família? Você foi ensinado? Porque com LGBTTs, funciona assim… Eles levam um choque na tomada do ventilador, na quarta feira de tarde, na mesma hora que um raio risca o céu, passa um ônibus para o centro e cai um galho de arvore no chão, e aí, eles resolvem: VOU SER GAY. Tô achando esse negócio muito bacana, tá na moda, deve ser incrível ser torturado, exilado, rejeitado pela família, religião, amigos, sociedade, mercado de trabalho, ser massa de manobra política, cortina de fumaça para os desmandos de certo parlamento proselitista. Tô ansioso para levar a pecha de promíscuo, marginal, doente, transtornado, drogado, vagabundo, condutor de doenças, para ser jogado no gueto, passar fome, ser levado à prostituição, passar pela dolorosa experiência de adequar meu corpo à minha identidade, ser culpado por ser a vítima de crimes hediondos, tô super querendo levar uma lâmpada nos olhos ou um tiro… Nossaaa, não vejo a hora. A-DO-REI esse script, é essa a vida que eu quero.
 
Vamos raciocinar?
A CURA GAY, que os fundamentalistas podem fantasiar do que quiserem, olhar por qualquer prisma ou fazer qualquer discurso numa tentativa de amenizar ou suavizar o ABSURDO, continuará sendo EXATAMENTE isso: “CURA GAY”. A promessa de que profissionais evangélicos de psicologia têm o poder de mudar a CONDIÇÃO SEXUAL de alguém é MENTIRA de qualquer ângulo, lado ou ponto de vista.
Para quem não entendeu qual é a nossa luta: Ao contrario do que querem fazer crer o presidente da CDHM e seus asseclas, nenhum gay é proibido ou privado do direito de fazer terapia, de buscar apoio psicológico, de falar de sua sexualidade com seu psicólogo, ou mesmo de não assumir sua sexualidade. Mesmo porque não temos essa autoridade e, mesmo que tivéssemos, jamais privaríamos alguém de DIREITOS; ou, não estaríamos sendo coerentes com nossa luta. O psicólogo alias, é importantíssimo na função de colocar o ego em sintonia com a sexualidade, trazendo aceitação e conforto, então mais que não proibirmos, como se espalha por aí, incentivamos . Não assumir a sexualidade é um martírio voluntário, mas é inegavelmente um direito que assiste ao ser humano. A luta do movimento LGBTT é única e exclusivamente contra o CHARLATANISMO que promete a CURA ou MUDANÇA de sexualidade, a CURA GAY. E nessa luta temos aliados como a OMS (Organização Mundial da Saúde), o CFP (Conselho Federal de Psicologia), OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) e a SBG (Sociedade Brasileira de Genética). Não existe cura, o que existe é um teatro, o desempenhar eterno de um papel que não é o seu, e, para isso, você não precisa de psicologia. Talvez uma escola de artes cênicas cumprisse melhor esta função e fosse menos contraindicada.
As terapias de CURA GAY desencadeiam a egodistonia e levam à homofobia internalizada, ao suicídio, a depressão, a fobia social e, em casos mais amenos, apenas a infelicidade. Faz com que pessoas se casem e tenham filhos para, de repente, resolverem dar um grito de liberdade abandonando mulher e filhos e desfazendo a família. Tem o direito esses pseudo-curados de envolver mais pessoas nos seus dramas pessoais?
O único intuito da Cura gay é reafirmar o preconceito, desmoralizar homossexuais, taxá-los de doentes, transtornados, aberrações. É uma manobra do oásis da lisura social, dos arautos da moralidade, dos fundamentalistas que teimam em dizer HOMOSSEXUALISMO no ano de 2013, quando a Organização Mundial de Saúde aboliu o termo em 1990.
A EGODISTÔNIA é sim passível de cura, a SEXUALIDADE, não.
Uma das vítimas da CURA GAY é o ex-pastor batista e teólogo Sérgio Viúla, que hoje é um dos maiores militantes da causa LGBTT e que escreveu o livro “Em busca de mim mesmo”, leitura mais que indicada para quem quer saber mais e se informar sobre a CURA GAY.
E, semana passada, ainda tivemos o plus da entidade americana que oferecia a CURA GAY há 37 anos (a maior do mundo) se desculpar com a comunidade LGBTT por todos os anos de pré-julgamento da Igreja, encerrando suas atividades.
Você é um dos que acha que tem direito a OPINIÃO? Você tem OPINIÃO sobre o quê? Sobre um assunto do qual você nada sabe, nunca estudou, nunca leu? Sobre uma realidade que você nunca viveu, nunca sentiu, que nunca foi sua? Você conhece algum gay ou transgenêro? Sabe o que se passa no coração deles? Sabia que qualquer uma das letras LGBTT tem sentimentos, anseios, sente dor, sofre e morre por causa do seu preconceito? Você é daqueles que pensam que se eles se suicidam é porque estão infelizes com sua condição e por isso tem que ser curados, mesmo sendo essa cura um blefe, sem nunca pensar que talvez estejam infelizes com a hostilidade de uma sociedade da qual você faz parte, que por isso se matam e que, talvez, o que precise ser curado seja o seu preconceito? Você já fez alguma coisa para ajudar, acolher ou incluir algum LGBTT… ou até mesmo, já conheceu algum, conversou, viu de perto? Já ofereceu uma oportunidade, um emprego, uma chance? Algum dia você fez alguma coisa para entender esta realidade além de cuspir A PALAVRA que é uma escolha sua, uma OPÇÃO sua e de mais ninguém? Você sabia que seu preconceito na forma de piadinha e opinião é o amolador da faca que ali adiante vai levar pessoas ao suicídio, destruir famílias, empurrar seres humanos para a marginalidade, torturar moralmente, fisicamente e matar? Você sabia que sua crença é opção e sua sexualidade é condição? Não? Não sabia de nada disso? Então me desculpe, mas você não deveria ter direito a “OPINIÃO”. OPINIÃO sobre o quê? Sobre o que você nada sabe? NÃO EXISTE CURA GAY, O QUE EXISTE É CURA DA EGODISTONIA, QUE É UM DIREITO DE QUALQUER UM…
 

As lágrimas de Mônica


 
É famosa a frase do bispo Santo Ambrósio, dirigida à mãe de Santo Agostinho, Santa Mônica. É o próprio Agostinho que, em suas "Confissões", traz esta citação: "Vai-te em paz, mulher, e continua a viver assim, que não é possível que pereça o filho de tantas lágrimas". (Santo Agostinho, "Confissões", L. III, cap. XII). As lágrimas da mãe, por sua vez, aparecem quase sempre no momento daquela revelação feita pelo filho, ou filha: "Mãe, eu sou gay/lésbica". É claro que as lágrimas em si podem ter diversos motivos, tais como a comoção, tristeza, medo, decepção, raiva. Não preciso dizer que as mais esperadas seriam aquelas provocadas pela comoção, misturada com a admiração e até alegria ("Até que enfim! Eu já sabia, mas fico comovida com a coragem e a sinceridade do meu filho!"). Infelizmente, com mais frequência, misturam-se a surpresa, a decepção, a vergonha e a raiva. E não é tanto pela decepção do tipo: "Ah, eu queria tanto ter netos e agora o que eu faço?!". Nessas horas - o que comprovam os testemunhos dos filhos, bem como uma longa lista de livros e filmes - o maior argumento é a opinião dos outros, mais especificamente, a opinião sobre ela, a mãe, sobre ambos os pais e sobre toda família. Não preciso, de novo, dizer que mais aceitável seria a preocupação da mãe com a opinião alheia a respeito de seu filho, tipo: "Ai, meu Deus! Existe tanto preconceito contra os homossexuais! Como o meu filho/a minha filha vai viver neste mundo cruel?!". Na pior - e mais frequente - versão, o filho, ou filha homossexual, torna-se uma mancha na imaculada até então imagem daquela família. É a questão da vizinhança e, no caso de uma família cristã, a convivência na própria comunidade religiosa.
 
O próximo passo, depois de tal descoberta - no caso de uma mãe, ou de um pai, membro de uma comunidade cristã, mais especificamente, católica - será recorrer ao magistério da Igreja. Seja em forma de um aconselhamento feito pelo sacerdote, seja através da busca de documentos oficiais, relacionados ao assunto, muito provavelmente a mãe, ou o pai, irá encontrar as "Orientações educativas sobre o amor humano - linhas gerais para uma educação sexual", emitidas em 1983 pela Sagrada Congregação para a Educação Católica (na íntegra aqui).
 
Uma das afirmações iniciais parece encorajadora: A família, de fato é o melhor ambiente para cumprir a obrigação de garantir uma gradual educação da vida sexual. Ela tem uma carga afetiva capaz de fazer aceitar sem traumas mesmo as realidades mais delicadas e a integrá-las harmonicamente numa personalidade equilibrada e rica (n. 48).  O afeto e a confiança recíproca que se vivem na família são necessários ao desenvolvimento harmónico e equilibrado da criança desde o seu nascimento. Para que os laços afetivos naturais que unem os pais aos filhos sejam positivos no grau máximo, os pais sob a base de um sereno equilíbrio sexual, instaurem uma relação de confiança e de diálogo com os filhos, adequada à idade e desenvolvimento deles (n. 49).
 
Um pouco mais tarde aparece o que nos interessa mais: A homossexualidade, que impede à pessoa de alcançar  a sua maturidade sexual, seja do ponto de vista individual, como interpessoal, é um problema que deve ser assumido pelo sujeito e pelo educador, quando se apresentar o caso, com toda a objetividade. «Na ação pastoral estes homossexuais devem ser acolhidos com compreensão e sustentados na esperança de superar as suas dificuldades pessoais e sua desadaptação social. A sua culpabilidade será julgada com prudência; porém não se pode usar nenhum método pastoral que, julgando estes atos conformes à condição daquelas pessoas, lhes atribua uma justificação moral. Conforme a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos carentes da sua regra essencial e indispensável». Será tarefa da família e do educador procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade: descobrir se se trata de fatores fisiológicos ou psicológicos, se esta será o resultado de uma falsa educação ou da falta de uma evolução sexual normal, se provém de um hábito contraído ou de maus exemplos ou de outros fatores.  Muito particularmente, ao procurar as causas desta desordem, a família e os educadores, deverão ter em conta os elementos de juízo propostos pelo Magistério, e ao mesmo tempo servir-se do contributo que as várias disciplinas podem oferecer. Dever-se-á, de fato, levar em consideração, para avaliar, elementos de diversa índole : falta de afeto, imaturidade, impulsos obsessivos, sedução, isolamento social, depravação de costumes, licenciosidade de espetáculos e de publicações. E além de tudo isto, existe mais no profundo, a congênita fraqueza do homem, como consequência do pecado original; esta fraqueza pode levar à perda do sentido de Deus e do homem e ter suas repercussões na esfera da sexualidade. Descobertas e entendidas as causas, a família e os educadores devem proporcionar uma ajuda eficaz no processo de crescimento integral: acolhendo com compreensão, criando um clima de confiança, encorajando o indivíduo à libertação e domínio de si, promovendo um autêntico esforço moral para a conversão ao amor de Deus e do próximo; sugerindo, se for necessário, a assistência médico-psicológica de uma pessoa que atenda e respeite os ensinamentos da Igreja (n. 101-104).
 
Com outras palavras, o mesmo Magistério que, ao abordar o tema da homossexualidade, afirma que "a sua gênese psíquica continua em grande parte por explicar" (CIC, 2357), recomenda aos pais, como o primeiro passo, "procurar antes de mais nada individualizar os fatores que levam à homossexualidade" e descobrir de que se trata. "Descobertas e entendidas as causas, a família e os educadores devem proporcionar uma ajuda eficaz no processo de crescimento integral (...), encorajando o indivíduo à libertação". De qualquer maneira, o conflito interior parece inevitável. Ou a mãe/o pai seguirá a intuição do seu coração e aceitará a homossexualidade do filho/da filha, mas assim desobedecerá a ordem do Magistério, ou fará o contrário: em obediência ao Magistério deixará morrer o ingênuo amor materno/paterno em seu coração.
 
Como podemos ver, as lágrimas de Mônica podem ser provocadas de várias maneiras. Queira Deus que nenhuma mãe tenha coragem de enxugar as suas lágrimas com as lágrimas do filho, ou da filha...

Dilemas



Ele na minha casa?
Eu na casa dele?
Nós dois em uma casa nova?
...tudo isso, no caso de morarmos juntos...

Cada um independente no sentido profissional e financeiro?
Eu trabalhando e ele estudando?
Ele trabalhando e eu desempregado?

...e no caso de não morarmos juntos...
Encontros no final de semana?
Motel? ...tudo bem: Hotel, pousada?

De qualquer maneira é necessária a estabilidade financeira de, pelo menos, um de nós...

É claro, antes de tudo isso deve existir o Outro
e o amor entre nós.

Escrevi tudo isso como um ensaio.
Mas também para dizer que já estou pronto...

Para não ficar aqui só no nível de sonhos, transcrevo um interessante texto de Dom Aloísio Roque Oppermann, SCJ, Arcebispo de Uberaba, publicado na página da CNBB (aqui) no dia 14 de maio de 2011. Achei simpático...
 
Por que os casais hetero não querem e os gays querem?
 
Nos tempos atuais, sobretudo no meio urbano, moços e moças, não fazem muita força para se casar “de papel passado”. A multidão dos que apenas “ajuntam os trapos”, e vão morar juntos, cresce de ano para ano. Basta percorrer um bairro novo. Parece que os jovens temem assumir compromissos definitivos. O computador que hoje é o último grito, amanhã vai para o aterro sanitário. Os parceiros, convidados para uma “união no Senhor”, parecem preferir a provisoriedade. Ademais, as leis civis embaralharam tanto o direito da família, que ninguém mais precisa casar perante a lei. A legislação não favorece a estabilidade familiar. Caso queiram um documento de união civil, basta dirigir-se ao poder público, que o atestado será fornecido em pouco tempo. E logo em seguida, caso o considerarem necessário, podem obter o “divórcio instantâneo”, sem problema. Por que ainda casar, se a nova geração não sente mais utilidade no reconhecimento público da sociedade? E vejam que ainda nem estou falando do casamento religioso.
Agora vejam a luta dos gays. Querem que suas uniões sejam equiparadas às de uma família tradicional. Querem que existam leis que garantam a herança para o parceiro; que cada qual possa ter acesso ao sistema de saúde; que possam adotar crianças... Eles sabem se mexer. Mas não é este seu objetivo principal. Onde querem chegar, é obter o reconhecimento público da sociedade. É exatamente o que “homem e mulher”, no casamento tradicional, julgam poder dispensar. A aprovação pública de casamentos heterossexuais não é apenas útil, mas uma garantia para a estabilidade da família. A legislação civil não se ocupa em facilitar a perenidade da família. Sua maior preocupação é criar leis que facilitem qualquer veleidade de separação. Agora digo uma coisa. Para quem tem fé cristã, e tem verdadeiro amor ao parceiro, receber a bênção de Deus se torna um imperativo categórico. Isso vem em primeiro lugar. Também casar perante a lei civil é de grande valor. Mas vem em segundo lugar.

25 de agosto de 2013

O Natal fora da época

A "saída do armário" sempre está ligada a fortes emoções e, bem frequentemente, provoca acontecimentos dramáticos, às vezes, até, trágicos. Sem dúvida, este é o motivo principal pelo qual tantos e tantas homossexuais preferem adiar (ou, até, evitar) este momento. A vida e a arte, porém, trazem alguns exemplos positivos e encorajadores. É o caso do filme "Make the Yuletide Gay" (o título, traduzido para o português de Portugal, como "Tornar gay na época natalina"). Seria ótimo assistir este filme, justamente, na época de Natal, mas como o tema é urgente e o filme brilhante (em alguns momentos hilário), decidi divulga-lo aqui agora mesmo. Vale a pena assistir. Espero que existam na vida real as situações como essa...
 
 
 

A porta


 
Nem sempre, ao ouvir as pregações em nossas igrejas, percebemos que o Evangelho é a Boa Nova. Graças a Deus, temos hoje o primeiro entre todos os pregadores - o Papa Francisco - que nos ajuda a resgatar o verdadeiro sentido do Evangelho. Transcrevo aqui uma parte de sua meditação, feita na ocasião da oração do "Ângelus", hoje, no Vaticano. O texto na íntegra pode ser encontrado aqui.
O Papa Francisco disse:

A imagem da porta volta várias vezes no Evangelho e remete àquela da casa, do lar, onde encontramos segurança, amor, calor. Jesus nos diz que há uma porta que nos faz entrar na família de Deus, no calor da casa de Deus, da comunhão com Ele. Esta porta é o próprio Jesus (cf. Jo 10, 9). Ele é a porta. Ele é a passagem para a salvação. Ele nos conduz ao Pai. E a porta que é Jesus não está nunca fechada, esta porta não está nunca fechada, está aberta sempre e a todos, sem distinção, sem exclusão, sem privilégios. Porque, vocês sabem, Jesus não exclui ninguém. Algum de vocês poderia dizer-me: “Mas padre, com certeza eu sou excluído, porque sou um grande pecador: fiz tantas coisas más, fiz tantas, na vida”. Não, você não está excluído! Justamente por isso você é o preferido, porque Jesus prefere o pecador, sempre, para perdoá-lo, para amá-lo. Jesus está esperando você para te abraçar, te perdoar. Não tenha medo: Ele te espera. Animado, tenha coragem para entrar pela sua porta. Todos são convidados a atravessar esta porta, a atravessar a porta da fé, a entrar na sua vida e a fazê-Lo entrar na nossa vida, para que Ele a transforme, a renove, dê a ela alegria plena e duradoura.
Nos dias de hoje, passamos diante de tantas portas que nos convidam a entrar prometendo uma felicidade que depois percebemos que dura somente um instante, que é um fim em si mesma e não tem futuro. Mas eu pergunto a vocês: nós, por qual porta queremos entrar? E quem queremos fazer entrar pela porta da nossa vida? Gostaria de dizer com força: não devemos ter medo de atravessar a porta da fé em Jesus, de deixá-Lo entrar sempre mais na nossa vida, de sair de nossos egoísmos, dos nossos fechamentos, das nossas indiferenças com os outros. Porque Jesus ilumina a nossa vida com uma luz que não se apaga mais. Não é um fogo de artifício, não é um flash! Não, é uma luz tranquila que dura sempre e nos dá paz. Assim é a luz que encontramos se entramos pela porta de Jesus.
Certo, aquela de Jesus é uma porta estreita, não porque seja uma sala de tortura. Não, não por isto! Mas porque nos pede para abrir o nosso coração a Ele, para reconhecer-nos pecadores, necessitados da sua salvação, do seu perdão, do seu amor, de ter humildade para acolher a sua misericórdia e fazer-nos renovar por Ele. Jesus no Evangelho nos diz que ser cristãos não é ter uma “etiqueta”! Eu pergunto a vocês: vocês são cristãos de etiqueta ou de verdade? E cada um responda para si! Não cristãos, nunca cristãos de etiqueta! Cristãos de verdade, de coração. Ser cristão é viver e testemunhar a fé na oração, nas obras de caridade, no promover a justiça, no fazer o bem. Pela porta estreita que é Cristo deve passar toda a nossa vida.

24 de agosto de 2013

Descobrir o essencial


 
 
Lembro-me de um professor da minha faculdade que, em uma das aulas de metodologia, falava sobre o fenômeno de generalização. Há quem acredite - dizia ele - que os anões e as loiras são a causa de todos os males na  história da humanidade. As generalizações, além de comprovarem uma considerável falta de inteligência, costumam ser perigosas, o que nos mostra, justamente, a história da humanidade.
 
Feita essa ressalva e apesar da mesma, vou recorrer a uma generalização. Creio que a falta de reflexão mais profunda e a consequente incapacidade de compreender as coisas, ou até as palavras, são, de fato, a causa de uma enorme parte dos males que atingem a humanidade, inclusive e em particular, a nós, os homossexuais.
 
Vejamos a questão, talvez, mais delicada e dolorosa e que nos incomoda tanto, mas também nos inspira para retomarmos a briga, a luta, ou - melhor entre todas as opções - o diálogo. É um verdadeiro paradoxo. De um lado, aqueles que acreditam em Deus, em particular, os cristãos, têm o acesso à verdade sobre a vida, a natureza do ser humano, a sua origem e a meta de sua existência. Por outro lado, são os mesmos religiosos e, de novo, em particular os cristãos, que nutrem dentro de si o mais autêntico ódio em relação aos seres humanos que possuem uma orientação sexual diferente daquela que é considerada clássica (ou a única correta), isto é, a heterossexual. Aliás, o clássico nesta história é o próprio ódio que até mereceria ser chamado de "ódio cristão".
 
Vamos aos pormenores. Em vários momentos de sua pregação, Jesus usa o exemplo de administração dos bens que pertencem ao patrão, ou rei - no caso, ao próprio Deus. Constatamos com facilidade que um dos principais bens entre todos que nos foram entregues (arrendados) por Deus é a própria vida: em primeiro lugar, a nossa, mas também a vida de outras pessoas, neste caso, em graus diferentes, de acordo com a natureza dos laços que nos unem com aquelas pessoas. Destacam-se aqui, evidentemente, os laços entre pais e filhos, entre irmãos de sangue e outros parentes, entre cônjuges e assim por diante. Até aqui, como parece, não escrevi nada que tenha sido especialmente revelador. Acredito, porém, que seja necessário começar pelos fundamentos, por mais óbvios que pareçam.
 
Na celebração do Sacramento do Matrimônio, os noivos respondem afirmativamente à pergunta (entre outras) sobre os filhos. "Estais dispostos a receber com amor os filhos que Deus vos confiar, educando-os na lei de Cristo e da Igreja?". Com outras palavras: todos os seres humanos pertencem a Deus, são a sua propriedade exclusiva e é Ele quem entrega um, ou mais, a outros seres humanos que se tornam assim os administradores deste grande bem, a vida humana que, entretanto, continua a pertencer a Deus. É neste contexto que vale a pena reler todas as parábolas de Jesus, sobretudo aquelas que falam da vinha e dos agricultores. É claro que os agricultores lucram com a vinha e os seus frutos, mesmo assim, nunca se tornam verdadeiros donos, pois trata-se da propriedade de um senhor. Este, por sua vez, espera e cobra a parte que lhe cabe. Assim, os pais lucram com a vida dos filhos, bem como os esposos, irmãos, parentes, amigos, membros de uma comunidade... É claro que não se trate de um lucro material, mas sim, espiritual. Todos se beneficiam com a presença do outro e todos são responsáveis, diante de Deus, pela vida dos outros, repito: cada qual, no grau que é próprio para cada tipo de laço existente entre as pessoas. Na parábola do Bom Samaritano Jesus afirma que somos responsáveis, até mesmo pelos desconhecidos.
 
Há uma verdade, revelada em forma de pergunta, na parábola que conta a história de trabalhadores da vinha, contratados em diversos horários do dia. Na hora do pagamento e diante da murmuração daqueles que esperavam o prêmio adicional por terem suportado o calor do dia inteiro, porém acabaram sendo igualados a outros que trabalharam apenas uma hora, o patrão responde com simplicidade: "Companheiro, não estou sendo injusto contigo. Não combinamos diária? Toma o que é teu e vai! Eu quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?" (Mt 20, 13-15).
 
Acaso, Deus não tem o direito de fazer o que quer com a vida humana que lhe pertence e é apenas administrada por nós?
 
Com outras palavras: "Amados pais! Não combinamos a sua tarefa de acolher com amor e educar os filhos que me pertencem? Seguindo esta vocação vocês contarão com o meu auxílio e irão receber o prêmio da vida eterna. Tenho, porém, o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence. Posso fazer com que a vida do seu filho dure apenas alguns dias, ou muitos anos, que seja marcada por uma brilhante inteligência, pelos dons e talentos extraordinários, ou carregue algo que vocês chamam de deficiência, mas, aos meus olhos, é um carisma especial. Pode, igualmente, ser definida (ou, se preferirem o termo: permitida) por mim como hetero ou homossexual. Eu posso fazer o que quero com aquilo que me pertence. A vocês cabe acolher, amar e cuidar, para depois devolver a mim".
 
Como é que você, em primeiro momento, pede para ter filhos, fica feliz quando os recebe e, depois de certo tempo, afirma que não os quer mais, que não foi assim que você imaginava e por isso essa, ou aquela pessoa não é mais o seu filho, ou a sua filha? E tudo isso porque o filho é diferente da maioria. Um dos argumentos mais repetidos é: "o que os outros vão dizer de mi?". É tão fácil esquecer de que na prestação de contas, o que vai importar é aquilo que diz a nosso respeito Deus e não os outros. "Muito bem, empregado bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu confiar-te-ei muito mais. Vem participar da minha alegria!" (Mt 25, 21).
 
É como naquela história que contam sobre uma mulher que foi conversar com o padre, pois estava apavorada, ao descobrir que sua filha Catarina era lésbica. O padre ouviu o desabafo da mulher e pediu que ela orasse bastante, repetindo diante de Deus, com frequência e durante vários dias, uma pergunta: "Meu Deus! Quem é Catarina?". A mulher relatou depois que quando tentava ouvir a resposta de Deus nos momentos de silêncio, recomendados pelo padre, durante vários dias ouvia apenas o grito: "Catarina é lésbica, é pecadora, suja e nojenta! Catarina é uma vergonha!". Percebia, porém, que foi o seu coração, a sua mente e as suas emoções que lhe forneciam tal resposta. Depois de certo tempo começou a ouvir, cada vez mais nitidamente, a resposta: "Catarina é a minha filha". A própria memória ajudou-lhe a percorrer pelos momentos mais felizes que ela tinha experimentado com a filha, desde a sua gestação. Inicialmente, esta associação das recordações felizes com a "terrível descoberta", trazia desconforto, mas, finalmente, a mulher enxergou a verdade: "Em sua essência, Catarina é a minha filha. É minha filha amada e nada vai mudar isso!". Esta afirmação libertadora levou a mulher à descoberta ainda mais importante. Catarina, na verdade e antes de tudo, é a filha amada de Deus e foi Ele quem me encarregou a administrar este bem tão precioso que, ainda que sob os meus cuidados, pertence a Ele. Eu fui escolhida para cuidar dela com amor e, depois, devolvê-la nas mãos do Senhor. É isso que, a partir de hoje, vou fazer, em vez de julgar, criticar, condenar, ou rejeitar. Amar significa acolher e cuidar, tentar compreender, fazer de tudo para defender. É isso que vou fazer.
 
É bom acrescentar que esse processo não foi rápido, nem fácil, mas foi possível, porque a mulher não parou na superfície da reflexão. Ela avançou para as águas mais profundas e somente assim foi capaz de descobrir a verdade sobre Deus, sobre si mesma, sobre a sua filha e sobre o mundo em geral. Tornou-se uma mulher nova, foi curada de preconceito, cuja raiz - o egoísmo, reforçado pela soberba - foi arrancada do seu coração. Naquele dia a salvação entrou em sua casa (cf. Lc 19, 9).
 
Há um tempo, a telenovela "Amor à vida", exibida pela TV Globo, aborda, entre outros, o assunto da relação de um pai para com o seu filho gay. As cenas e as conversas chegam a ser irritantes. Provavelmente por terem sido muito reais...

22 de agosto de 2013

Os poloneses LGBT escrevem ao Papa

 
 
O grupo ecumênico polonês de cristãos LGBTQ  (lesbians, gays, bisexuals, transsexuals, queers)  "Wiara i Tęcza" (em português: "Fé e Arco-íris"), no último dia 20 de agosto, enviou ao Papa Francisco uma carta. No site do grupo (aqui), além da versão original em polonês, encontra-se, também, o texto em inglês. Pode ser localizada, também, a versão em inglês de um resumo sobre o Grupo (aqui).
 
Publico aqui uma tradução livre desta carta:
 
 
Varsóvia, 20 de agosto de 2013
Sua Santidade
Santo Padre Francisco
Papa
Segrataria di Stato
Palazzo Apostolico
00120 Città del Vaticano
 
"O Reino do Céu é ainda como uma rede lançada ao mar.
Ela apanha peixes de todo tipo".
Mt 13,47
 
 
Querido Santo Padre,
recebemos uma notícia feliz de que, ao retornar do encontro com a juventude no Brasil, o Senhor referiu-se com compreensão e simpatia às pessoas de orientação sexual diferente da heterossexual. Gostaríamos de lhe assegurar que existem na Igreja e diante das suas portas muitas pessoas que, há muito tempo, estavam esperando por estas palavras. Essas pessoas viviam, por muito tempo, com a sensação de injustiça, opressão, solidão e rejeição que experimentavam por parte da querida para elas  comunidade de sua própria Igreja. O exemplo de suas palavras, com certeza, irá ajudar a superar na Igreja tão dolorosa para nós desconfiança, o até aberta hostilidade, por parte dos nossos irmãos na fé.
 
Somos um grupo ecumênico polonês de cristãos LGBT, na maioria católicos romanos. Escolhemos o nome de "Fé e Arco-íris", para expressar as irredutíveis características de nossa identidade. Desejamos permanecer fiéis à comunidade da Igreja, porém não vemos a possibilidade de renunciar à específica da vida amorosa que nos foi concedida para compartilhar.
 
Acreditamos que com essa especial natureza da vida amorosa agraciou-nos, de acordo com a sua vontade, o próprio Deus, para que pudéssemos descobrir a sua misteriosa presença nos caminhos diferentes do que a maioria das pessoas. Cremos, também e nisso apoia-nos a convicção baseada no atual conhecimento científico sobre o ser humano, de que esse caminho da vida amorosa é de um direito igual ao do caminho das pessoas heterossexuais. Enxergamos a esperança no cumprimento dos ensinamentos revelados a nós por nosso Senhor Jesus Cristo, com os quais inspiram-se, geralmente, as pessoas de boa vontade que esperam a vinda do Seu Reino. Esses ensinamentos são: a amizade, o respeito mútuo, o cuidado, a fidelidade, a sinceridade e todas as outras regras, pelas quais os cristãos põem em destaque a dignidade humana em cada pessoa, as mesmas que menosprezaram em seu comportamento os habitantes da antiga Sodoma.
 
Há muito tempo aguardávamos as palavras de conforto e consolação - hoje agradecemos por elas a Deus, pois despertam em nós a esperança para o futuro. Continuaremos esperando, até passarem os tempos difíceis, assim como baixaram outrora as águas do dilúvio bíblico. Cansados com a inundação de intolerância, buscamos no horizonte o arco-íris de reconciliação e ternura, que encerrará os tempos, em que obriga-se nos a viver em isolamento e clandestinidade, com medo dos nossos próximos. Confiamos que chegarão dias, nos quais, em uma igualdade com os outros, poderemos, de maneira que nos é própria, experimentar o grande dom e sinal da presença de Deus no mundo - o insondável mistério do amor.
 
Pedimos, Santo Padre, a sua recordação e a oração - ao nosso Deus que é o próprio Amor.
Garantimos-lhe, também, a nossa oração na intenção de Vossa Santidade e de toda a Igreja.
 
Cristãos poloneses LGBT do Grupo "Fé e Arco-íris".
 
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OBS: A foto (uma montagem que inclui o logotipo do Grupo "Fé i Arco-íris") tem a finalidade de ilustrar a esperança de uma resposta. Afinal, o Papa Francisco - pelo que contam - costuma responder às cartas recebidas, inclusive de pessoas simples e pobres...