ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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24 de agosto de 2013

Descobrir o essencial


 
 
Lembro-me de um professor da minha faculdade que, em uma das aulas de metodologia, falava sobre o fenômeno de generalização. Há quem acredite - dizia ele - que os anões e as loiras são a causa de todos os males na  história da humanidade. As generalizações, além de comprovarem uma considerável falta de inteligência, costumam ser perigosas, o que nos mostra, justamente, a história da humanidade.
 
Feita essa ressalva e apesar da mesma, vou recorrer a uma generalização. Creio que a falta de reflexão mais profunda e a consequente incapacidade de compreender as coisas, ou até as palavras, são, de fato, a causa de uma enorme parte dos males que atingem a humanidade, inclusive e em particular, a nós, os homossexuais.
 
Vejamos a questão, talvez, mais delicada e dolorosa e que nos incomoda tanto, mas também nos inspira para retomarmos a briga, a luta, ou - melhor entre todas as opções - o diálogo. É um verdadeiro paradoxo. De um lado, aqueles que acreditam em Deus, em particular, os cristãos, têm o acesso à verdade sobre a vida, a natureza do ser humano, a sua origem e a meta de sua existência. Por outro lado, são os mesmos religiosos e, de novo, em particular os cristãos, que nutrem dentro de si o mais autêntico ódio em relação aos seres humanos que possuem uma orientação sexual diferente daquela que é considerada clássica (ou a única correta), isto é, a heterossexual. Aliás, o clássico nesta história é o próprio ódio que até mereceria ser chamado de "ódio cristão".
 
Vamos aos pormenores. Em vários momentos de sua pregação, Jesus usa o exemplo de administração dos bens que pertencem ao patrão, ou rei - no caso, ao próprio Deus. Constatamos com facilidade que um dos principais bens entre todos que nos foram entregues (arrendados) por Deus é a própria vida: em primeiro lugar, a nossa, mas também a vida de outras pessoas, neste caso, em graus diferentes, de acordo com a natureza dos laços que nos unem com aquelas pessoas. Destacam-se aqui, evidentemente, os laços entre pais e filhos, entre irmãos de sangue e outros parentes, entre cônjuges e assim por diante. Até aqui, como parece, não escrevi nada que tenha sido especialmente revelador. Acredito, porém, que seja necessário começar pelos fundamentos, por mais óbvios que pareçam.
 
Na celebração do Sacramento do Matrimônio, os noivos respondem afirmativamente à pergunta (entre outras) sobre os filhos. "Estais dispostos a receber com amor os filhos que Deus vos confiar, educando-os na lei de Cristo e da Igreja?". Com outras palavras: todos os seres humanos pertencem a Deus, são a sua propriedade exclusiva e é Ele quem entrega um, ou mais, a outros seres humanos que se tornam assim os administradores deste grande bem, a vida humana que, entretanto, continua a pertencer a Deus. É neste contexto que vale a pena reler todas as parábolas de Jesus, sobretudo aquelas que falam da vinha e dos agricultores. É claro que os agricultores lucram com a vinha e os seus frutos, mesmo assim, nunca se tornam verdadeiros donos, pois trata-se da propriedade de um senhor. Este, por sua vez, espera e cobra a parte que lhe cabe. Assim, os pais lucram com a vida dos filhos, bem como os esposos, irmãos, parentes, amigos, membros de uma comunidade... É claro que não se trate de um lucro material, mas sim, espiritual. Todos se beneficiam com a presença do outro e todos são responsáveis, diante de Deus, pela vida dos outros, repito: cada qual, no grau que é próprio para cada tipo de laço existente entre as pessoas. Na parábola do Bom Samaritano Jesus afirma que somos responsáveis, até mesmo pelos desconhecidos.
 
Há uma verdade, revelada em forma de pergunta, na parábola que conta a história de trabalhadores da vinha, contratados em diversos horários do dia. Na hora do pagamento e diante da murmuração daqueles que esperavam o prêmio adicional por terem suportado o calor do dia inteiro, porém acabaram sendo igualados a outros que trabalharam apenas uma hora, o patrão responde com simplicidade: "Companheiro, não estou sendo injusto contigo. Não combinamos diária? Toma o que é teu e vai! Eu quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?" (Mt 20, 13-15).
 
Acaso, Deus não tem o direito de fazer o que quer com a vida humana que lhe pertence e é apenas administrada por nós?
 
Com outras palavras: "Amados pais! Não combinamos a sua tarefa de acolher com amor e educar os filhos que me pertencem? Seguindo esta vocação vocês contarão com o meu auxílio e irão receber o prêmio da vida eterna. Tenho, porém, o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence. Posso fazer com que a vida do seu filho dure apenas alguns dias, ou muitos anos, que seja marcada por uma brilhante inteligência, pelos dons e talentos extraordinários, ou carregue algo que vocês chamam de deficiência, mas, aos meus olhos, é um carisma especial. Pode, igualmente, ser definida (ou, se preferirem o termo: permitida) por mim como hetero ou homossexual. Eu posso fazer o que quero com aquilo que me pertence. A vocês cabe acolher, amar e cuidar, para depois devolver a mim".
 
Como é que você, em primeiro momento, pede para ter filhos, fica feliz quando os recebe e, depois de certo tempo, afirma que não os quer mais, que não foi assim que você imaginava e por isso essa, ou aquela pessoa não é mais o seu filho, ou a sua filha? E tudo isso porque o filho é diferente da maioria. Um dos argumentos mais repetidos é: "o que os outros vão dizer de mi?". É tão fácil esquecer de que na prestação de contas, o que vai importar é aquilo que diz a nosso respeito Deus e não os outros. "Muito bem, empregado bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu confiar-te-ei muito mais. Vem participar da minha alegria!" (Mt 25, 21).
 
É como naquela história que contam sobre uma mulher que foi conversar com o padre, pois estava apavorada, ao descobrir que sua filha Catarina era lésbica. O padre ouviu o desabafo da mulher e pediu que ela orasse bastante, repetindo diante de Deus, com frequência e durante vários dias, uma pergunta: "Meu Deus! Quem é Catarina?". A mulher relatou depois que quando tentava ouvir a resposta de Deus nos momentos de silêncio, recomendados pelo padre, durante vários dias ouvia apenas o grito: "Catarina é lésbica, é pecadora, suja e nojenta! Catarina é uma vergonha!". Percebia, porém, que foi o seu coração, a sua mente e as suas emoções que lhe forneciam tal resposta. Depois de certo tempo começou a ouvir, cada vez mais nitidamente, a resposta: "Catarina é a minha filha". A própria memória ajudou-lhe a percorrer pelos momentos mais felizes que ela tinha experimentado com a filha, desde a sua gestação. Inicialmente, esta associação das recordações felizes com a "terrível descoberta", trazia desconforto, mas, finalmente, a mulher enxergou a verdade: "Em sua essência, Catarina é a minha filha. É minha filha amada e nada vai mudar isso!". Esta afirmação libertadora levou a mulher à descoberta ainda mais importante. Catarina, na verdade e antes de tudo, é a filha amada de Deus e foi Ele quem me encarregou a administrar este bem tão precioso que, ainda que sob os meus cuidados, pertence a Ele. Eu fui escolhida para cuidar dela com amor e, depois, devolvê-la nas mãos do Senhor. É isso que, a partir de hoje, vou fazer, em vez de julgar, criticar, condenar, ou rejeitar. Amar significa acolher e cuidar, tentar compreender, fazer de tudo para defender. É isso que vou fazer.
 
É bom acrescentar que esse processo não foi rápido, nem fácil, mas foi possível, porque a mulher não parou na superfície da reflexão. Ela avançou para as águas mais profundas e somente assim foi capaz de descobrir a verdade sobre Deus, sobre si mesma, sobre a sua filha e sobre o mundo em geral. Tornou-se uma mulher nova, foi curada de preconceito, cuja raiz - o egoísmo, reforçado pela soberba - foi arrancada do seu coração. Naquele dia a salvação entrou em sua casa (cf. Lc 19, 9).
 
Há um tempo, a telenovela "Amor à vida", exibida pela TV Globo, aborda, entre outros, o assunto da relação de um pai para com o seu filho gay. As cenas e as conversas chegam a ser irritantes. Provavelmente por terem sido muito reais...

22 de agosto de 2013

Os poloneses LGBT escrevem ao Papa

 
 
O grupo ecumênico polonês de cristãos LGBTQ  (lesbians, gays, bisexuals, transsexuals, queers)  "Wiara i Tęcza" (em português: "Fé e Arco-íris"), no último dia 20 de agosto, enviou ao Papa Francisco uma carta. No site do grupo (aqui), além da versão original em polonês, encontra-se, também, o texto em inglês. Pode ser localizada, também, a versão em inglês de um resumo sobre o Grupo (aqui).
 
Publico aqui uma tradução livre desta carta:
 
 
Varsóvia, 20 de agosto de 2013
Sua Santidade
Santo Padre Francisco
Papa
Segrataria di Stato
Palazzo Apostolico
00120 Città del Vaticano
 
"O Reino do Céu é ainda como uma rede lançada ao mar.
Ela apanha peixes de todo tipo".
Mt 13,47
 
 
Querido Santo Padre,
recebemos uma notícia feliz de que, ao retornar do encontro com a juventude no Brasil, o Senhor referiu-se com compreensão e simpatia às pessoas de orientação sexual diferente da heterossexual. Gostaríamos de lhe assegurar que existem na Igreja e diante das suas portas muitas pessoas que, há muito tempo, estavam esperando por estas palavras. Essas pessoas viviam, por muito tempo, com a sensação de injustiça, opressão, solidão e rejeição que experimentavam por parte da querida para elas  comunidade de sua própria Igreja. O exemplo de suas palavras, com certeza, irá ajudar a superar na Igreja tão dolorosa para nós desconfiança, o até aberta hostilidade, por parte dos nossos irmãos na fé.
 
Somos um grupo ecumênico polonês de cristãos LGBT, na maioria católicos romanos. Escolhemos o nome de "Fé e Arco-íris", para expressar as irredutíveis características de nossa identidade. Desejamos permanecer fiéis à comunidade da Igreja, porém não vemos a possibilidade de renunciar à específica da vida amorosa que nos foi concedida para compartilhar.
 
Acreditamos que com essa especial natureza da vida amorosa agraciou-nos, de acordo com a sua vontade, o próprio Deus, para que pudéssemos descobrir a sua misteriosa presença nos caminhos diferentes do que a maioria das pessoas. Cremos, também e nisso apoia-nos a convicção baseada no atual conhecimento científico sobre o ser humano, de que esse caminho da vida amorosa é de um direito igual ao do caminho das pessoas heterossexuais. Enxergamos a esperança no cumprimento dos ensinamentos revelados a nós por nosso Senhor Jesus Cristo, com os quais inspiram-se, geralmente, as pessoas de boa vontade que esperam a vinda do Seu Reino. Esses ensinamentos são: a amizade, o respeito mútuo, o cuidado, a fidelidade, a sinceridade e todas as outras regras, pelas quais os cristãos põem em destaque a dignidade humana em cada pessoa, as mesmas que menosprezaram em seu comportamento os habitantes da antiga Sodoma.
 
Há muito tempo aguardávamos as palavras de conforto e consolação - hoje agradecemos por elas a Deus, pois despertam em nós a esperança para o futuro. Continuaremos esperando, até passarem os tempos difíceis, assim como baixaram outrora as águas do dilúvio bíblico. Cansados com a inundação de intolerância, buscamos no horizonte o arco-íris de reconciliação e ternura, que encerrará os tempos, em que obriga-se nos a viver em isolamento e clandestinidade, com medo dos nossos próximos. Confiamos que chegarão dias, nos quais, em uma igualdade com os outros, poderemos, de maneira que nos é própria, experimentar o grande dom e sinal da presença de Deus no mundo - o insondável mistério do amor.
 
Pedimos, Santo Padre, a sua recordação e a oração - ao nosso Deus que é o próprio Amor.
Garantimos-lhe, também, a nossa oração na intenção de Vossa Santidade e de toda a Igreja.
 
Cristãos poloneses LGBT do Grupo "Fé e Arco-íris".
 
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OBS: A foto (uma montagem que inclui o logotipo do Grupo "Fé i Arco-íris") tem a finalidade de ilustrar a esperança de uma resposta. Afinal, o Papa Francisco - pelo que contam - costuma responder às cartas recebidas, inclusive de pessoas simples e pobres...


27 de julho de 2013

Conversa com o Fulano

Fulano: É verdade que você participou de um encontro de gays?
Eu: Verdade! Foi o 1º Encontro de Relatos e Experiências “O jovem homossexual na Igreja”, promovido pelo Grupo “Diversidade Católica”, no contexto da JMJ Rio2013. Foi ótimo, por sinal!
Fulano: Hm, sei, encontro de gays. Então, qual é a sua opção sexual?
Eu: A minha opção sexual? No momento, é o celibato, quer dizer, não estou com ninguém...
Fulano: Ah, você sabe do que estou falando! Qual é a sua opção na cama?
Eu: Opção na cama? Geralmente adormeço de lado. Esquerdo...
Fulano: Você não entende! Estou perguntando se você é homem, ou mulher!
Eu: Vi uma reportagem sobre o censo realizado, há um tempo, na Rússia. Filmaram uma jovem agente que foi entrevistar o presidente Putin. Ela simplesmente leu as perguntas e a primeira foi: qual é o seu sexo. É homem, ou mulher? A matéria dizia que aquela jovem só não foi presa porque o presidente achou muito engraçado tudo isso. Ora, sou homem, quer ver a prova?
Fulano: Que isso? Que prova?
Eu: Olha, eu faço barba, tenho a voz grossa e tenho também outras coisas que só o homem tem. Você não lê a Bíblia? Deus fez o homem e a mulher. Bem, em grande parte são homens e mulheres heterossexuais. Mas alguns não são...
Fulano: Você quer dizer, são homossexuais e lésbicas?
Eu: Não. As lésbicas também são homossexuais. O termo vem da antiga língua grega. “Homos” quer dizer “igual” e “sexus” é o sexo. As pessoas homossexuais sentem atração física, emocional, estética, afetiva, em relação aos indivíduos do mesmo sexo. E isso acontece tanto entre homens, quanto entre as mulheres.
Fulano: Ah, é? Não sabia... Então, é isso que eu estou perguntando, desde o início.
Eu: Você quer saber, então, qual é a minha orientação sexual? Ou, melhor, a minha identidade sexual?
Fulano: Opção, orientação, identidade... Tudo mesma coisa!
Eu: Não é! De acordo com o Aurélio, opção é a faculdade, o direito, ou a ação de optar, escolher entre duas, ou várias coisas. Eu li, recentemente, um discurso do Papa Bento XVI que critica uma “filosofia da sexualidade, sob o vocábulo «gender - gênero». Ele diz: “De acordo com tal filosofia, o sexo já não é um dado originário da natureza que o homem deve aceitar e preencher pessoalmente de significado, mas uma função social que cada qual decide autonomamente, enquanto até agora era a sociedade quem a decidia. (...) O homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um fato pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria”. E prossegue: “Onde a liberdade do fazer se torna liberdade de fazer-se por si mesmo, chega-se necessariamente a negar o próprio Criador; e, consequentemente, o próprio homem como criatura de Deus, como imagem de Deus, é degradado na essência do seu ser”. Logo, não existe tal de “opção sexual”. Eu usaria o termo “orientação”, mas não no sentido de que eu teria me orientado. Não sou eu que orienta a sexualidade. É ela que me orienta, fazendo com que eu me volte para uma, ou outra direção. E quanto à identidade, em certo sentido, é quando eu me identifico com a minha sexualidade. Para muita gente é um processo longo e, muitas vezes, bastante difícil e doloroso. Com bastante frequência as pessoas dizem de um ato de “assumir” a (homo)sexualidade, seja perante si mesmo, seja diante dos outros. E quando eu fizer essa opção de me assumir perante as pessoas, aí sim, você vai saber, se eu sou gay, ou não. Pois, é isso que você quer saber, não é?
Fulano: Quer dizer, há possibilidade de você virar gay?
Eu: Sim, existe essa possibilidade. Só precisaria de ser um gay, no máximo, do meu tamanho, porque se for maior, eu poderia não conseguir virar.
Fulano: Hã?
Eu: E também depende da posição em que ele estaria. Se estiver deitado, é sempre mais fácil virar um magrinho, do que um do tipo Jô Soares, já imaginou? Agora, em pé...
Fulano: Poxa, é tão difícil conversar com você!
Eu: Você acha difícil? Vou citar, de novo, o Papa Bento XVI: “o primeiro obstáculo que encontramos é um problema de linguagem”... É da Encíclica “Deus caritas est”...

A cultura do encontro

Escuto as palavras do Papa Francisco nesta manhã de sábado, penúltimo dia de sua visita ao Brasil. Vem à minha mente um ditado, repetido, na época, por alguns jornais europeus, em relação ao Papa João Paulo II: “Gostamos do cantor, mas não escutamos as suas canções”. Será que o mesmo acontecerá com Francisco? Existem várias maneiras de atingir o profeta: “Vinde, disseram então, e tramemos uma conspiração contra Jeremias! Por falta de um sacerdote não perecerá a lei, nem pela falta de um sábio, o conselho, ou pela falta de um profeta, a palavra divina. Vinde e firamo-lo com a língua, não lhe demos ouvidos às palavras (Jer 18 , 18).

Aos bispos, sacerdotes e outros religiosos, reunidos hoje pela manhã na Catedral do Rio, o Papa disse, entre outras coisas (na íntegra aqui):

Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não freqüentam a paróquia. Também eles são convidados para a Mesa do Senhor.

Em muitos ambientes, infelizmente, ganhou espaço a cultura da exclusão, a “cultura do descartável”. Não há lugar para o idoso, nem para o filho indesejado; não há tempo para se deter com o pobre caído à margem da estrada. Às vezes parece que, para alguns, as relações humanas sejam regidas por dois “dogmas” modernos: eficiência e pragmatismo. Queridos Bispos, sacerdotes, religiosos e também vocês, seminaristas, que se preparam para o ministério, tenham a coragem de ir contra a corrente. Não renunciemos a este dom de Deus: a única família dos seus filhos. O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade e a fraternidade são os elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana.

Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Permitam-me dizer: deveríamos ser quase obsessivos neste aspecto! Não queremos ser presunçosos, impondo as “nossas verdades”. O que nos guia é a certeza humilde e feliz de quem foi encontrado, alcançado e transformado pela Verdade que é Cristo, e não pode deixar de anunciá-la (cf. Lc 24, 13-35).

Mais tarde, no Teatro Municipal do Rio, o Santo Padre reforçou, ainda mais, a ideia da “cultura do encontro”, dirigindo-se à Classe Dirigente do Brasil (na íntegra aqui):

É importante, antes de tudo, valorizar a originalidade dinâmica que caracteriza a cultura brasileira, com a sua extraordinária capacidade para integrar elementos diversos. (...)

O futuro exige de nós uma visão humanista da economia e uma política que realize cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evitando elitismos e erradicando a pobreza. Que ninguém fique privado do necessário, e que a todos sejam asseguradas dignidade, fraternidade e solidariedade: esta é a via a seguir. (...)

Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo. (...)

A única maneira para uma pessoa, uma família, uma sociedade crescer, a única maneira para fazer avançar a vida dos povos é a cultura do encontro; uma cultura segundo a qual todos têm algo de bom para dar, e todos podem receber em troca algo de bom. O outro tem sempre algo para nos dar, desde que saibamos nos aproximar dele com uma atitude aberta e disponível, sem preconceitos. Só assim pode crescer o bom entendimento entre as culturas e as religiões, a estima de umas pelas outras, livre de suposições gratuitas e no respeito pelos direitos de cada uma. Hoje, ou se aposta na cultura do encontro, ou todos perdem; percorrer a estrada justa torna o caminho fecundo e seguro. (...)

A fraternidade entre os homens e a colaboração para construir uma sociedade mais justa não constituem uma utopia, mas são o resultado de um esforço harmônico de todos em favor do bem comum.

Só nos resta ouvir com atenção, passar adiante, sem nunca deixar de pôr em prática...

26 de julho de 2013

VI estação da Via Sacra JMJ Rio2013

Está acontecendo, neste exato momento, a Via Sacra com os jovens, acompanhados pelo Papa Francisco. Durante esta tarde acompanhei a programação da TV Canção Nova e um dos entrevistados foi o padre Joãozinho (João Carlos Almeida, scj), que admitiu ter sido um dos autores das meditaçãoes da Via Sacra, junto com o padre Zezinho (José Fernandes de Oliveira, scj). Disse ele, entre outras coisas, que divulgaria no seu blog (aqui) os textos, no tempo real, ao serem pronunciados na celebração. Tal procedimento teria sido tomado, devido um "segredo", pedido pelos organizadores da JMJ. O padre não sabia, talvez, que todos os textos da Via Sacra (e muito mais) já foram publicados pelo site do Vaticano (aqui - é um arquivo em pdf). O que chamou a minha atenção, foi a diferença entre os textos da VI Estação ("Verônica enxuga o rosto de Jesus"). O padre Joãozinho divulga no seu blog a seguinte meditação (aqui):

6ª ESTAÇÃO - Verônica enxuga o rosto de Jesus
(Is 53, 2-3)
A mulher que não se calou
Meditação (CONSAGRADA QUE LUTA PELA VIDA):
Senhor Jesus, Cristo Redentor, eis-me aqui! Sou consagrada ao teu divino Coração no serviço ao meu irmão. Não posso me calar quando encontro nas vias-sacras da vida tantas vítimas de uma “cultura de morte”: mulheres prostituídas e famílias na miséria, enfermos sem atendimento e idosos desprezados, migrantes sem terra e jovens desempregados. Ao enxugar as lágrimas, o suor e o sangue do rosto destes irmãos e irmãs vejo maravilhada que a tua face fica estampada no lenço da minha solidariedade (Cf. Mt 25,31-46).

O texto publicado pelo Vaticano (e, se prestei atenção, também lido há pouco na praia de Copacabana), diz (aqui - p. 89):

ESTAÇÃO - Verônica enxuga o rosto de Jesus

A mulher que não se calou.
Tinha um rosto de homem do povo.
Tinha marcas de luto e de dor.
Tanto sofreu que de escarros e sangue se desfigurou.
Mas alguém o seu rosto enxugou.

Meditação:

Senhor Jesus, Cristo Redentor, eis-me aqui! Sou consagrada ao teu divino Coração no serviço ao meu irmão. Não posso me calar quando encontro nas vias-sacras da vida tantas vítimas de uma « cultura de morte »: mulheres prostituídas e famílias na miséria, enfermos sem atendimento e idosos desprezados, migrantes sem terra e jovens desempregados, pessoas excluídas da cultura digital e minorias tratadas com preconceito... a lista é grande, meu Senhor. Ao enxugar as lágrimas, o suor e o sangue do rosto destes irmãos e irmãs vejo maravilhada que a tua face fica estampada no lenço da minha solidariedade (Cf. Mt 25, 31-46). Ensina-me a sempre unir mística e militância, fé e vida, céu e terra, porque o Pai é nosso e somos irmãos, mas o pão também é nosso e somos cristãos, ou seja, gente que acredita no milagre de repartir.

Será um caso de censura? Ou de autocensura?

25 de julho de 2013

Andorinha é indispensável



Acabo de chegar do 1° Encontro de Relatos e Experiências: "O JOVEM HOMOSSEXUAL NA IGREJA", promovido pelo Grupo Diversidade Católica, no contexto da Jornada Mundial da Juventude Rio 2013. É impossível descrever tudo em poucas palavras. A primeira coisa que me vem à mente é uma cena do filme "Karate Kid", em que o mestre Sr. Han leva o garoto Dre a um monastério Shaolin, subindo as longas escadas. Ao entrarem numa das salas do templo o Sr. Han lhe apresenta uma mesa de pedra, com a fonte de água jorrando por dentro dela e diz: ''Essa é a água mágica do Kung Fu, se você beber dela, nada pode te derrotar''. Mais detalhadamente, é o jeito de beber aquela água, mergulhando a cara inteira, que me vem à mente, ao tentar resumir as minhas sensações, depois do encontro de hoje. A realidade é tão profunda e rica que seriam necessárias horas e mais horas, para poder conversar mais e compartilhar relatos e experiências com maior atenção. Sou - muito provavelmente - um sonhador obstinado, mas logo imaginei as próximas JMJ, com esse Encontro, incluído em sua programação oficial. Impossível? Algum tempo atrás, a visão de uma mulher de calça, também considerava-se impossível. Sim, passou pela fase de ser um escândalo (de origem diabólica), até chegar a ser algo considerado, simplesmente, normal. Tudo bem, o processo da aceitação de um "mundo GLBTS" na Igreja (e vice-versa) é muito mais complexo e demorado, mas a dinâmica é a mesma. Sobre essa dinâmica conversei com um dos participantes do encontro, já no caminho para o lanche. Fiquei com o desejo de muitos outros encontros desse tipo. Foi ótimo rencontrar "velhos" amigos e amigas e, finalmente, ver alguns outros que, conhecidos em uma dimensão virtual, tornaram-se reais.

Dizem que uma andorinha não faz verão. Talvez não o faça, mas é indispensável!

Parabéns, Diversidade Católica e todos que estiveram presentes! Obrigado!

7 de junho de 2013

Muito além do arco-íris

O tamanho, sem dúvida, não é documento! Quando recebi a encomenda, enviada pelo Grupo Summus [Edições GLS], antes de abrir o pacote, pensei que tivesse sido enganado. A coisa não pesava quase nada e ao rasgar camadas e mais camadas de papelão, encontrei... um fino livreto de capa colorida:



Ah, como me enganei! A inicial decepção logo deu lugar à fascinação. Em pouco mais de um total de 100 páginas, mergulhei profundamente nos mais graves e reais dilemas da vida em dois e encontrei muitas pistas e soluções. O texto de Klecius Borges é baseado em sua prática clínica de psicólogo, dedicado ao atendimento de gays, lésbicas, bissexuais e seus familiares de acordo com a visão afirmativa. A principal tese, repetida em todos os capítulos, de maneira altamente objetiva, na abordagem de historias de vida real, é que não se pode tratar os problemas e desafios vividos nos relacionametos homoafetivos a partir de uma perspectiva heteronormativa. “Por mais que certas questões relacionais sejam comuns a todos os indivíduos, afirmar que casais são casais, não importando sua orientação e identidade sexual, é no mínimo um reducionismo. Para mim, essa atitude é inaceitável” - diz o Autor.

Digo mais: além de toda ajuda direta em questões que são também minhas, encontrei um argumento, ou melhor, uma analogia [ou lógica] que confirma todo o objetivo dos meus esforços relacionados à Pastoral para Homossexuais. Klecius escreve: Em minha prática clínica, predominantemente voltada para gays, lésbicas, bissexuais e seua familiares, as questões sobre relacionamentos são talvez as mais frequentes. Acredito não ser muito diferente em outras clínicas, mas no meu caso há uma particularidade: gays, lésbicas e bissexuais, ao contrário dos heterossexuais, não encontram nas livrarias, no cinema ou na televisão muitas referências ou representações sobre a natureza de seus relacionamentos - que, por razões óbvias, têm catacterísticas e desafios bastante diferentes daqueles que seguem heteronormatividade. Exatamente o mesmo pode ser dito sobre a falta de referências na assistência espiritual e pastoral da Igreja em relação às pessoas homo- e bissexuais. Por mais que se queira negar tal coisa, existe na Igreja (usando os termos do Autor) uma cultura não apenas heteronormativa, mas muitas vezes opressora e dominada, ainda hoje, por práticas e atitudes fortemente discriminatórias.

A Pastoral para Homossexuais não pretende substituir o trabalho de psicólogos e outros profissionais. Ela vem para somar e ocupar o seu lugar próprio. Basta ler a seguinte frase de Klecius Borges, com o devido "enxerto" da minha parte: Questões como autoaceitação, [espiritualidade, oração, vida sacramental, dilemas de consciência], visibilidade social, homofobia, visão patológica da sexualidade e preconceito em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à homopaternalidade, entre outras, além de específicas desse grupo, carregam em si um elevado teor emocional que requer, a meu ver, uma escuta distinta.

Enfim, recomendo a leiura do livro "Muito além do arco-íris: amor, sexo e relacionamentos na terapia homoafetiva" de Klecius Borges (Edições GLS, São Paulo, 2013). Compre aqui.