ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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20 de setembro de 2011

Bento XVI aos namorados

No dia 11 de setembro deste ano o Papa Bento XVI realizou a sua viagem apostólica à cidade italiana de Ancona. No final da tarde o Papa teve o encontro com os namorados. O assunto principal, evidentemente, era a preparação ao matrimônio (heterossexual, entende-se). Ao ler o seu discurso, pensei: ele não tem como não falar sobre este tema, até porque dirige-se a todos e o namoro heterossexual é uma experiência vivida pela maioria daqueles jovens, reunidos lá, na Praça do Plebiscito. Aliás, seria super-curioso promover por lá um plebiscito sobre a união homoafetiva, mas não foi desta vez. Falando sério, o que chamou a minha atenção no texto (aqui), foi uma consoladora ausência daquelas famosas afirmações indiretas (antigamente mais frequentes) que detonam qualquer ideia sobre o amor entre as pessoas do mesmo sexo. Mesmo falando para a maioria heterossexual, o Papa deixou umas dicas preciosas que servem muito bem – na minha opinião – aos que vivem o amor homossexual. Vejamos algumas frases (os grifos são meus):

Nunca percais a esperança. Tende coragem, também nas dificuldades, permanecendo firmes na fé. Tende a certeza de que, em todas as circunstâncias, sois amados e protegidos pelo amor de Deus, que é a nossa força. Deus é bom. Por isso é importante que o encontro com Ele, sobretudo na oração pessoal e comunitária, seja constante, fiel, precisamente como o caminho do vosso amor: amar a Deus e sentir que Ele me ama. Nada nos pode separar do amor de Deus! Depois, tende a certeza de que também a Igreja está próxima de vós, vos ampara, não cessa de olhar para vós com grande confiança.


Como namorados estais a viver uma fase única, que abre para a maravilha do encontro e faz descobrir a beleza de existir e de ser preciosos para alguém, de poder dizer um ao outro: tu és importante para mim. Vivei com intensidade, gradualidade e verdade este caminho. Não renuncieis a perseguir um ideal alto de amor, reflexo e testemunho do amor de Deus!


Gostaria de vos dizer antes de tudo que eviteis fechar-vos em relações intimistas, falsamente animadoras; fazei antes com que a vossa relação se torne fermento de uma presença ativa e responsável na comunidade. Depois, não vos esqueçais de que para ser autêntico, também o amor exige um caminho de amadurecimento: a partir da atração inicial e do «sentir-se bem» com o outro, educai-vos a «amar» o outro, a «querer o bem» do outro. O amor vive de gratuidade, de sacrifício de si, de perdão e de respeito do outro.


Queridos amigos, cada amor humano é sinal do Amor eterno que nos criou, e cuja graça santifica a escolha de um homem e de uma mulher de se entregarem reciprocamente a vida no matrimônio. Vivei este tempo do namoro na expectativa confiante desse dom, que deve ser aceite percorrendo um caminho de conhecimento, de respeito, de atenções que nunca deveis perder: só sob esta condição a linguagem do amor permanecerá significativa também com o passar dos anos.


Gostaria de voltar mais uma vez a falar de um aspecto essencial: a experiência do amor tem no seu interior a propensão para Deus. O verdadeiro amor promete o infinito! Por conseguinte, fazei deste vosso tempo de preparação para o matrimônio um percurso de fé: redescobri para a vossa vida de casal a centralidade de Jesus Cristo e do caminhar na Igreja.


Também eu gostaria de vos dizer que estou próximo de vós e de todos os que, como vós, vivem este maravilhoso caminho de amor. Abençoo-vos de coração!

12 de setembro de 2011

o nome de Maria

Hoje a Igreja celebra a memória do Santíssimo Nome de Maria. O beneditino, Anselm Grün, em seu livro "Festas de Maria" [Ed. Santuário, Aparecida-SP, 2009], explica:

"Nomen est omen" (o nome é um presságio), diziam os latinos. O nome já diz alguma coisa do seu usuário. (...) O nome Maria deriva de duas raízes, uma egípcia e outra hebraica. Myr no Egito significa amada, enquanto em hebraico é uma abreviação de Javé. Assim, Maria ou Myrjam significa "amada de Javé" ou "muito amada de Deus". (...) Deus a escolheu para ser Vaso do Espírito Santo e Mãe de Deus.

Conforme outra etimologia, Maria pode significar "a exaltada e sublime". Na Tradição o termo "Maria" foi derivado de outras palavras. A palavra hebraica "mar" quer dizer amargo; "jam" significa mar. Maria seria chamada então "mar de amargura". Seria uma alusão à "Mãe dolorosa" que participa do sofrimento de Cristo.

Outros derivam Maria de "mir", que significa "iluminador". Então Maria seria a iluminadora do mar ou, como foi chamada pela tradição, "Estrela do mar". Bernardo de Claraval diz desta Estrela do Mar: "Experimenta tirar Maria, esta Estrela do mar, do grande e vasto mar! O que sobra além da treva avassaladora que tudo envolve nas sombras da morte e da escuridão cerrada". [p. 97-98]

10 de setembro de 2011

o cisco e a trave [2]

Volto a comentar o Evangelho de ontem (leia a primeira parte desta reflexão aqui). A advertência de Jesus: Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Lc 6,41-42) parece contradizer todo o seu (tão detalhado) ensinamento sobre a correção fraterna, proclamado no último domingo (Mt 18, 15-20) [leia essa reflexão]. À primeira vista, a frase: Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! (Mt 18, 15), não combina com a outra: Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? (Lc 6, 41). Uma leitura atenta, porém, leva-nos a compreender esses dois textos como complementares. Mais uma vez, essencial é o amor, como a única motivação de cada atitude. Quem quer tirar o cisco do olho de alguém, permanece numa postura de falso e soberbo juiz. Provavelmente, a sua iniciativa de apontar o erro do outro, tenha sido uma tentativa de se apresentar como o melhor. Com outras palavras, quem pretende tirar o cisco do olho de alguém, diz: "Você está errado". Quem abraça o delicado desafio, chamado "correção fraterna", diz: "Eu me preocupo com você".

Ao comparar estes dois textos do Evangelho, veio-me na memória um livro que tinha lido, há muitos anos. O título é: "Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar" de Adele Faber e Elaine Mazlish ([Editora Summus, 2003] - um best seller nos Estados Unidos, com mais de dois milhões de exemplares vendidos. As autoras desenvolvem um método efetivo e respeitoso para o diálogo com as crianças. O livro é ilustrado com divertidos quadrinhos que demonstram situações concretas e oferecem soluções inovadoras para problemas comuns em famílias, como lidar com sentimentos negativos, expressar emoções, conseguir a cooperação das crianças e resolver conflitos). Resumindo, o livro mostra (entre outras coisas) a grande diferença entre a sentença: "você está errado!" e uma descrição de seus próprios sentimentos: "Fiquei triste ao ver você fazendo isso. Não sei se entendi bem. Vamos conversar sobre isso?". A primeira opção não supõe a presença de amor. A segunda, pelo contrário, revela-o. Acredito que, justamente aqui, está toda a diferença.

9 de setembro de 2011

o cisco e a trave [1]

Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho? Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Lc 6,41-42)  [O texto do Evangelho de hoje: Lc 6, 39-42]

Fiquei pensando (de novo) sobre aquela interminável sinfonia de acusações mútuas entre dois mundos: o "mundo GLBTS" e o "mundo das Igrejas". Não adianta negar: o preconceito está de ambos os lados. Será que existe alguma saída?

São Paulo, na primeira leitura de hoje (1Tm 1,1-2.12-14) propõe uma pista. Infalível: Agradeço àquele que me deu força, Cristo Jesus, nosso Senhor, pela confiança que teve em mim ao designar-me para o seu serviço, a mim, que antes blasfemava, perseguia e insultava. Mas encontrei misericórdia, porque agia com a ignorância de quem não tem fé. Transbordou a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus. (vv. 12-14)

Com outras palavras: somente quem experimentou a misericórdia de Deus, é capaz de ter misericórdia para com os outros. Quem experimentou a misericórdia de Deus, torna-se humilde. Pensemos nisso.

5 de setembro de 2011

corrigir o irmão

Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como um pagão ou um pecador público. (Mt 18, 15-17)

É uma sábia e detalhada lição sobre a estratégia chamada "correção fraterna". Em nossa reflexão pessoal podemos nos colocar de um e de outro lado da questão: como aquele que corrige e aquele que está sendo corrigido. Em minha opinião, a palavra chave é o termo "irmão". Em nenhuma das situações descritas Jesus desiste deste termo. É o ponto de partida. Ou, o ponto de vista. Enquanto vejo o irmão, a minha atitude de corrigi-lo será motivada pelo amor fraterno. No momento em que o irmão se torne "adversário" ou "inimigo", melhor parar com esse negócio de querer corrigi-lo. As duas últimas fases requerem bastante atenção. Quando Jesus recomenda "Dize-o à Igreja", não se trata, certamente, de fazer fofoca, mas de recorrer à autoridade (o primeiro significado de "Igreja") e/ou de envolver a comunidade intercessora (o significado de "Igreja-comunidade"). Diante da resistência máxima daquele irmão vem o último passo: "tratá-lo como se fosse um pagão ou um pecador público". Embora, na nossa mente poluída, isso pode significar atos de rejeição ou, quem sabe, agressividade, basta perguntar: como é que Jesus tratava os pagãos e os pecadores públicos. Notemos que o Senhor continua falando de um irmão que, no caso extremo de "cabeça dura" deve ser tratado como se fosse o pagão ou o pecador público. Com outras palavras: devemos recomeçar (da estaca zero) uma amorosa evangelização daquele irmão.

A mensagem de Jesus fica ainda mais evidente com o texto da segunda leitura de hoje (Rm 13, 8-10): Irmãos! Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. De fato, os mandamentos: “Não cometerás adultério”, “Não matarás”, “Não roubarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento se resumem neste: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei.

31 de agosto de 2011

via da beleza

Em sua tradicional catequese, nesta quarta-feira, o Papa Bento XVI falou sobre um desses canais que podem nos conduzir a Deus e ser também auxílio para o encontro com Ele: a "via da beleza". (Leia aqui o texto na íntegra).

Talvez já tenhais experimentado algumas vezes diante de uma escultura, de um quadro, de alguns versos de uma poesia, ou de um trecho musical, o provar de uma íntima emoção, um sentimento de alegria, de perceber, isto é, claramente que, em frente a vós, não há somente matéria, um pedaço de mármore ou de bronze, uma tela pintada, um conjunto de letras ou um cúmulo de sons, mas sim qualquer coisa de maior, algo que "fala", capaz de tocar o coração, de comunicar uma mensagem, de elevar a alma. Uma obra de arte é fruto da capacidade criativa do ser humano, que se interroga diante da realidade visível, busca descobrir o seu sentido profundo e comunicá-lo através da linguagem das formas, das cores, dos sons. A arte é capaz de expressar e tornar visível a necessidade do homem de ir além do que se vê, manifesta a sede e a busca pelo infinito. Na verdade, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão para além do cotidiano. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, direcionando-os para o alto.

Pois bem, os gostos não se discute e os padrões de beleza não obedecem aos critérios de quem quer que seja. Concordo, porém, com o Papa. A beleza leva a Deus...

30 de agosto de 2011

os dedos que apontam

Acabei de ler um artigo no portal católico GaudiumPress (aqui) sobre a Missa celebrada pelo Papa Bento XVI no encerramento de um encontro com os seus ex-alunos. O título deste artigo cita (ou, melhor: interpreta) uma das frases do Pontífice: "A nossa época sofre a ausência de Deus". As palavras originais de Bento XVI afirmam, de fato, algo semelhante: "Neste tempo da ausência de Deus, quando a terra das almas está árida e seca e as pessoas ainda não sabem de onde brota a água viva, peçamos ao Senhor que se mostre. Queremos rezar a fim de que àqueles que alhures buscam a água viva, Deus mostre que Ele é a água viva e a fim de que não permita que a vida dos homens e a sua sede de grandeza se afoguem e sejam sufocadas no efêmero".

Por coincidência (existe isso?) ouvi recentemente a conversa de um idoso sacerdote com o Dom Orani (o Arcebispo do Rio de Janeiro). O padre dizia que já estava na hora de fazer algo sério com um problema que tem aumentado e causado - particularmente no seu coração - a enorme angústia (para não dizer revolta). Trata-se de noivos que aparecem para marcar o casamento em sua paróquia, mas apresentam tragicamente baixo nível de vida religiosa. No desabafo daquele padre havia um tom de cobrança direcionada ao Arcebispo (como se falasse "O senhor tem que fazer alguma coisa com isso! Por exemplo exigir mais ou então proibir tal cerimônia às pessoas ignorantes!"). Dom Orani respondeu com umas perguntas: "E o que você, padre, fez com que aquela pessoas não fossem ignorantes? Como cuidou de sua religiosidade quando, ainda eram crianças ou adolescentes? Você percebe que ao acusar não se sabe quem, acusa-se a si mesmo?" É como naquele ditado: "Enquanto eu aponto o dedo para o outro, há quatro dedos apontando para mim".

"Voltando às palavras do Papa sobre a "ausência de Deus". Em vez de dizer: "Peçamos ao Senhor que se mostre. Queremos rezar a fim de que àqueles que alhures buscam a água viva, Deus mostre que Ele é a água viva", podia ter declarado: "O Senhor quer se mostrar através de nós. Rezemos por nós mesmos para que sejamos sinais vivos da presença de Deus no mundo de hoje".