ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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10 de setembro de 2011

o cisco e a trave [2]

Volto a comentar o Evangelho de ontem (leia a primeira parte desta reflexão aqui). A advertência de Jesus: Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Lc 6,41-42) parece contradizer todo o seu (tão detalhado) ensinamento sobre a correção fraterna, proclamado no último domingo (Mt 18, 15-20) [leia essa reflexão]. À primeira vista, a frase: Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! (Mt 18, 15), não combina com a outra: Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? (Lc 6, 41). Uma leitura atenta, porém, leva-nos a compreender esses dois textos como complementares. Mais uma vez, essencial é o amor, como a única motivação de cada atitude. Quem quer tirar o cisco do olho de alguém, permanece numa postura de falso e soberbo juiz. Provavelmente, a sua iniciativa de apontar o erro do outro, tenha sido uma tentativa de se apresentar como o melhor. Com outras palavras, quem pretende tirar o cisco do olho de alguém, diz: "Você está errado". Quem abraça o delicado desafio, chamado "correção fraterna", diz: "Eu me preocupo com você".

Ao comparar estes dois textos do Evangelho, veio-me na memória um livro que tinha lido, há muitos anos. O título é: "Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar" de Adele Faber e Elaine Mazlish ([Editora Summus, 2003] - um best seller nos Estados Unidos, com mais de dois milhões de exemplares vendidos. As autoras desenvolvem um método efetivo e respeitoso para o diálogo com as crianças. O livro é ilustrado com divertidos quadrinhos que demonstram situações concretas e oferecem soluções inovadoras para problemas comuns em famílias, como lidar com sentimentos negativos, expressar emoções, conseguir a cooperação das crianças e resolver conflitos). Resumindo, o livro mostra (entre outras coisas) a grande diferença entre a sentença: "você está errado!" e uma descrição de seus próprios sentimentos: "Fiquei triste ao ver você fazendo isso. Não sei se entendi bem. Vamos conversar sobre isso?". A primeira opção não supõe a presença de amor. A segunda, pelo contrário, revela-o. Acredito que, justamente aqui, está toda a diferença.

9 de setembro de 2011

o cisco e a trave [1]

Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho? Como podes dizer a teu irmão: "Irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho", quando tu não vês a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco do olho do teu irmão. (Lc 6,41-42)  [O texto do Evangelho de hoje: Lc 6, 39-42]

Fiquei pensando (de novo) sobre aquela interminável sinfonia de acusações mútuas entre dois mundos: o "mundo GLBTS" e o "mundo das Igrejas". Não adianta negar: o preconceito está de ambos os lados. Será que existe alguma saída?

São Paulo, na primeira leitura de hoje (1Tm 1,1-2.12-14) propõe uma pista. Infalível: Agradeço àquele que me deu força, Cristo Jesus, nosso Senhor, pela confiança que teve em mim ao designar-me para o seu serviço, a mim, que antes blasfemava, perseguia e insultava. Mas encontrei misericórdia, porque agia com a ignorância de quem não tem fé. Transbordou a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus. (vv. 12-14)

Com outras palavras: somente quem experimentou a misericórdia de Deus, é capaz de ter misericórdia para com os outros. Quem experimentou a misericórdia de Deus, torna-se humilde. Pensemos nisso.

5 de setembro de 2011

corrigir o irmão

Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas. Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como um pagão ou um pecador público. (Mt 18, 15-17)

É uma sábia e detalhada lição sobre a estratégia chamada "correção fraterna". Em nossa reflexão pessoal podemos nos colocar de um e de outro lado da questão: como aquele que corrige e aquele que está sendo corrigido. Em minha opinião, a palavra chave é o termo "irmão". Em nenhuma das situações descritas Jesus desiste deste termo. É o ponto de partida. Ou, o ponto de vista. Enquanto vejo o irmão, a minha atitude de corrigi-lo será motivada pelo amor fraterno. No momento em que o irmão se torne "adversário" ou "inimigo", melhor parar com esse negócio de querer corrigi-lo. As duas últimas fases requerem bastante atenção. Quando Jesus recomenda "Dize-o à Igreja", não se trata, certamente, de fazer fofoca, mas de recorrer à autoridade (o primeiro significado de "Igreja") e/ou de envolver a comunidade intercessora (o significado de "Igreja-comunidade"). Diante da resistência máxima daquele irmão vem o último passo: "tratá-lo como se fosse um pagão ou um pecador público". Embora, na nossa mente poluída, isso pode significar atos de rejeição ou, quem sabe, agressividade, basta perguntar: como é que Jesus tratava os pagãos e os pecadores públicos. Notemos que o Senhor continua falando de um irmão que, no caso extremo de "cabeça dura" deve ser tratado como se fosse o pagão ou o pecador público. Com outras palavras: devemos recomeçar (da estaca zero) uma amorosa evangelização daquele irmão.

A mensagem de Jesus fica ainda mais evidente com o texto da segunda leitura de hoje (Rm 13, 8-10): Irmãos! Não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei. De fato, os mandamentos: “Não cometerás adultério”, “Não matarás”, “Não roubarás”, “Não cobiçarás” e qualquer outro mandamento se resumem neste: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei.

31 de agosto de 2011

via da beleza

Em sua tradicional catequese, nesta quarta-feira, o Papa Bento XVI falou sobre um desses canais que podem nos conduzir a Deus e ser também auxílio para o encontro com Ele: a "via da beleza". (Leia aqui o texto na íntegra).

Talvez já tenhais experimentado algumas vezes diante de uma escultura, de um quadro, de alguns versos de uma poesia, ou de um trecho musical, o provar de uma íntima emoção, um sentimento de alegria, de perceber, isto é, claramente que, em frente a vós, não há somente matéria, um pedaço de mármore ou de bronze, uma tela pintada, um conjunto de letras ou um cúmulo de sons, mas sim qualquer coisa de maior, algo que "fala", capaz de tocar o coração, de comunicar uma mensagem, de elevar a alma. Uma obra de arte é fruto da capacidade criativa do ser humano, que se interroga diante da realidade visível, busca descobrir o seu sentido profundo e comunicá-lo através da linguagem das formas, das cores, dos sons. A arte é capaz de expressar e tornar visível a necessidade do homem de ir além do que se vê, manifesta a sede e a busca pelo infinito. Na verdade, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e uma verdade que vão para além do cotidiano. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, direcionando-os para o alto.

Pois bem, os gostos não se discute e os padrões de beleza não obedecem aos critérios de quem quer que seja. Concordo, porém, com o Papa. A beleza leva a Deus...

30 de agosto de 2011

os dedos que apontam

Acabei de ler um artigo no portal católico GaudiumPress (aqui) sobre a Missa celebrada pelo Papa Bento XVI no encerramento de um encontro com os seus ex-alunos. O título deste artigo cita (ou, melhor: interpreta) uma das frases do Pontífice: "A nossa época sofre a ausência de Deus". As palavras originais de Bento XVI afirmam, de fato, algo semelhante: "Neste tempo da ausência de Deus, quando a terra das almas está árida e seca e as pessoas ainda não sabem de onde brota a água viva, peçamos ao Senhor que se mostre. Queremos rezar a fim de que àqueles que alhures buscam a água viva, Deus mostre que Ele é a água viva e a fim de que não permita que a vida dos homens e a sua sede de grandeza se afoguem e sejam sufocadas no efêmero".

Por coincidência (existe isso?) ouvi recentemente a conversa de um idoso sacerdote com o Dom Orani (o Arcebispo do Rio de Janeiro). O padre dizia que já estava na hora de fazer algo sério com um problema que tem aumentado e causado - particularmente no seu coração - a enorme angústia (para não dizer revolta). Trata-se de noivos que aparecem para marcar o casamento em sua paróquia, mas apresentam tragicamente baixo nível de vida religiosa. No desabafo daquele padre havia um tom de cobrança direcionada ao Arcebispo (como se falasse "O senhor tem que fazer alguma coisa com isso! Por exemplo exigir mais ou então proibir tal cerimônia às pessoas ignorantes!"). Dom Orani respondeu com umas perguntas: "E o que você, padre, fez com que aquela pessoas não fossem ignorantes? Como cuidou de sua religiosidade quando, ainda eram crianças ou adolescentes? Você percebe que ao acusar não se sabe quem, acusa-se a si mesmo?" É como naquele ditado: "Enquanto eu aponto o dedo para o outro, há quatro dedos apontando para mim".

"Voltando às palavras do Papa sobre a "ausência de Deus". Em vez de dizer: "Peçamos ao Senhor que se mostre. Queremos rezar a fim de que àqueles que alhures buscam a água viva, Deus mostre que Ele é a água viva", podia ter declarado: "O Senhor quer se mostrar através de nós. Rezemos por nós mesmos para que sejamos sinais vivos da presença de Deus no mundo de hoje".

25 de agosto de 2011

Orações para Bobby

Acabei de assistir (finalmente!) o filme "Prayers for Bobby" ["Orações para Bobby"]. Profundo, emocionante e, principalmente, real. Quem dera que todos os pais assistissem também! Aliás, as famílias inteiras. E, de modo especial, os jovens homossexuais que enfrentam duras batalhas (internas e externas! Recomendo a todos (inclusive aos padres, pastores e demais agentes de pastoral em qualquer Igreja cristã). O filme pode ser encontrado, por exemplo, no site "Gay Load" (aqui). A frase de Mary Griffith: "A Bíblia diz que as pessoas podem mudar", torna-se realidade, mas de maneira totalmente diferente daquela em que tinha sido pronunciada no início da história.

Vigiar

A palavra vigiar aparece com frequência no Evangelho. No contexto histórico daqueles tempos (e de muitos séculos seguintes) o termo evoca a função de vigias ou sentinelas. Hoje (no Brasil é o Dia do Soldado) imaginamos aqueles guardas que fazem patrulhamento em torno dos quartéis. De qualquer maneira, a função do vigia é ficar atento, evitar distração, concentrar toda sua atenção em questões de segurança. No Evangelho (Mt 24, 42-51), as advertências do Senhor: "Ficai atentos" e "ficai preparados", referem-se ao fim dos tempos e à vinda gloriosa de Jesus.

A comparação dessa "postura escatológica" com o comportamento dos guardas de hoje (ou das épocas passadas) pode nos levar às conclusões equivocadas. No sentido mais ou menos literal o vigilante pode justificar a sua indiferença perante, por exemplo, qualquer necessidade alheia, dizendo "não posso atendê-lo, pois tenho que vigiar". É como naquela estória contada pelos pregadores. Uma senhora havia tido um sonho no qual o próprio Jesus prometia visitá-la em casa no dia seguinte. A mulher levantou cedo e logo começou os preparativos. Arrumou a casa, trocou a toalha de mesa e até as cortinas da sala. Sempre atenta a qualquer barulho próximo à porta de entrada, dedicou grande parte do dia aos trabalhos na cozinha, preparando o que sabia fazer melhor. Por três vezes, naquele dia, alguém batia à sua porta. Mas sempre era alguém que precisava ser despedido logo para não atrapalhar. Primeiro foi um mendigo pedindo comida, depois uma vizinha querendo um pouco de sal e, finalmente, um vendedor ambulante oferecendo alguns produtos. Com a dose reduzida de paciência a mulher mandou embora cada uma daquelas pessoas dizendo que não podia dar-lhes a devida atenção porque estava esperando alguém muito importante. Assim passou o dia inteiro. Ao anoitecer, a mulher, cansada e decepcionada, foi dormir. No sonho apareceu-lhe Jesus, mas ela nem deixou o Senhor falar. Foi ela que passou o sonho inteirinho reclamando e chamando Jesus de inconsequente, incompetente, furão e malandro. Quando cansou, o Senhor lhe disse apenas: "Minha filha, eu vim, mas, por três vezes, você não permitiu que entrasse na sua casa e me mandou embora". Quando acordou, a mulher tinha compreendido que o próprio Jesus estava presente na pessoa do mendigo, da vizinha e do vendedor ambulante.

Os textos litúrgicos de hoje sugerem a mesma interpretação da palavra "vigiar". Paulo Apóstolo, na primeira leitura (1 Tes 3,7-13) fala sobre a enriquecedora convivência fraterna e a edificação mútua na fé e no amor. Jesus no Evangelho aponta a responsabilidade de uns pelos outros e denuncia à soberba, à agressividade e à falta de caridade como graves pecados contra a vigilância cristã. Em vez de dizer: "Não posso te atender, aceitar e amar porque estou esperando a vinda do Senhor!", devemos aprender a pensar e viver o contrário: "Justamente porque estou esperando a vinda do Senhor, quero te atender, aceitar e amar".