ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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6 de julho de 2011

Férias


Caros Amigos, Leitores, Visitantes!

Estou entrando (finalmente!) em férias. Não pretendo abandonar este espaço virtual, mas, certamente, haverá menos postagens por aqui nas próximas semanas. Desejo a todos muita paz e perseverança nas lutas diárias. E que o amor infinito de Deus se manifeste, cada vez mais, em nosso amor humano.

Levo comigo as recomendações do Papa Bento XVI: Neste momento do ano no qual muitos de vocês farão férias, rezo para que vocês possam verdadeiramente repousar o espírito e o corpo e possam encontrar em Deus uma ocasião de repouso. Dêem espaço à leitura da Palavra de Deus, em particular do Evangelho que espero vocês não deixarão de colocar na sua bagagem para as férias.

Pedro e as portas

No domingo passado a Igreja celebrou a Solenidade de São Pedro e São Paulo. A primeira leitura (At 12, 1-11) contou sobre a milagrosa libertação de Pedro da prisão. Além do carinho e simplicidade de Deus (Põe o cinto e calça tuas sandálias! Veste tua capa e vem comigo! vv. 7-8), impressiona o poder sobrenatural que se manifesta na própria saída da cadeia (As correntes caíram-lhe das mãos. Depois de passarem pela primeira e pela segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. vv. 7. 10). Entretanto, o mais curioso e inspirador é o texto deste mesmo capítulo de Atos dos Apóstolos, não incluído na própria leitura. A passagem lida na Missa termina com Pedro, sozinho, na rua, pois o anjo já o tinha deixado. Ao continuarmos a leitura, vemos Pedro dirigindo-se à casa de Maria, mãe de Marcos (é o próprio Cenáculo). [Pedro] Bateu no portão de entrada, e uma criada, chamada Rosa, foi atender. Ela reconheceu a voz de Pedro, e tanta foi sua alegria que, em vez de abrir a porta, entrou correndo para contar que Pedro estava ali diante da porta. “Estás louca!”, disseram-lhe. Mas ela insistia. Opinaram então: “Deve ser o seu anjo”. Pedro entretanto continuava a bater. Finalmente abriram a porta. Viram então que era ele; e ficaram atônitos. (At 12, 13-16)

Enquanto Deus abre todas as portas aos seus amados e escolhidos, a porta da Igreja demora para abir. Enquanto os amados de Deus continuam batendo e chamando, há, dentro da comunidade, quem diga: "Estás louco(a). Não abre! Toma cuidado!". Entre tanta gente, também nós, homossexuais, ainda estamos diante da porta e continuamos a bater...

4 de julho de 2011

Identidade revelada

Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro... (Mt 16, 15, 18a)

Esta conversa de Jesus com Pedro entra ao contexto de várias outras passagens do Evangelho que tratam sobre a identidade do Filho de Deus revelada pelo Pai. Uma delas é a misteriosa experiência que tiveram três discípulos de Jesus (entre eles Pedro) no monte da transfiguração (cf. Mt 17, 1-9; Mc 9, 2-9; Lc 9, 28-36). Ali, a voz do Pai afirmou (assim como na hora do batismo de Jesus no rio Jordão: Este é o meu Filho amado! (cf. Mt 3, 16-17; Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22 e, com detalhes diferentes e o mesmo sentido, Jo 1, 33) Em outra ocasião, Jesus disse: Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. (Lc 10, 22; cf. Mt 11, 27) Ou seja, o Pai revela o Filho e o Filho revela o Pai (a quem quiser). O texto do Evangelho de hoje sugere mais um elemento, resumido sabiamente por duas frases da Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II, Gaudium et spes: Na realidade o mistério do homem só se torna claro verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. (...) Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação. (n° 22) É neste sentido que leio aquela passagem: não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro... Da mesma maneira que as opiniões sobre a identidade de Jesus, citadas pelos discípulos (Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas. Mt 16, 14), são parciais e não alcançam a essência do seu ser, assim mesmo, o conhecimento do homem (por si mesmo e pelos outros), baseado apenas nos recursos de inteligência própria, ainda que contando com o apoio da ciência, não é capaz de responder à pergunta "quem é você?". Criam-se rótulos e alimentam preconceitos. Somente Deus sabe quem sou eu e só Ele pode (se quiser) revelar isso aos outros. Na prática, isso significa que a única maneira de enxergar um ser humano, sem cair na cilada de "classificação", é olhá-lo sob a luz de Deus, quer dizer, admitir que a minha visão seja parcial e, por isso, é necessário deixar aberta a questão de "como Deus está vendo essa ou aquela pessoa". A resposta é sempre a mesma: Deus está olhando com amor.

Falou sobre isso hoje o Papa Bento XVI, interpretando o texto do Evangelho previsto para 14° domingo do tempo comum (Mt 11, 25-30 - o texto omitido no Brasil, devido à comemoração de São Pedro e São Paulo): Quando Jesus percorria as estradas da Galiléia, proclamando o Reino de Deus e curando muitos doentes, sentia compaixão pelas multidões porque estavam cansadas e oprimidas, como ovelhas sem pastor. Ainda hoje [o olhar de Jesus] pousa sobre tantas pessoas oprimidas por condições de vida difíceis, mas também privadas de válidos pontos de referência para encontrar um significado e uma meta para sua existência. Multidões estão oprimidas nos países mais pobres, provadas pela indigência; e até mesmo nos países mais ricos são tantos os homens e mulheres insatisfeitos, até mesmo pessoas com depressão. Pensamos então nos numerosos deslocados e refugiados, naqueles que imigram arriscando suas vidas. O olhar de Cristo pousa sobre todas essas pessoas, ou melhor, sobre cada um desses filhos do Pai que está no céu, e repete: "Vinde a mim, vós todos..." O verdadeiro remédio para as feridas da humanidade, sejam aquelas materiais, como a fome e as injustiças, sejam aquelas psicológicas e morais causadas por um falso bem-estar, é uma regra de vida baseada no amor fraterno, e que tem a sua fonte no amor de Deus. Por isso devemos abandonar o caminho da arrogância, da violência usada para obter posições de maior poder, para garantir o sucesso a qualquer custo. (Leia o resumo do pronunciamento de Bento XVI aqui e aguarde a publicação do texto na íntegra em português, no site do Vaticano - aqui).

3 de julho de 2011

Coração de Maria

Tendo celebrado a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus (leia outra reflexão aqui), a Igreja comemora, no dia seguinte, o Coração Imaculado de Maria Santíssima. E não podia ser de outra maneira, pois estes dois corações, desde o início, agora e por toda a eternidade, permanecem em mais perfeita e profunda comunhão. É o modelo maior e a referência mais sublime de todas as relações de amor. O amor entre Deus e o homem, entre o Criador e a criatura, entre o Senhor e o servo (a serva), entre o Mestre e o discípulo (a discípula), entre a mãe/o pai e o filho(a). E mesmo que possamos usar o termo "sintonia" para definir tal relação entre os corações, devemos saber que as surpresas e os desafios fazem parte integral dessa experiência. O Evangelho escolhido para a liturgia de hoje (Lc 2, 41-51) traz uma revelação importante: o coração imaculado de Maria, este coração eleito desde toda a eternidade e amado por Deus de maneira especialíssima, não foi poupado em nada. O texto de Lucas mostra Maria e José cheios de angústia. Para a Mãe de Jesus era apenas o prenúncio de uma provação incomparavelmente maior, daquela vivida por ela ao pé da cruz. A conclusão é muito prática e dolorosamente palpável para todos que se decidem mergulhar no mistério existencial chamado amor. Seja num ato formal (casamento), seja no informal (e não menos real), as pessoas que se amam, declaram permanecer nessa união "na alegria e na tristeza". Nem todas elas têm a consciência de que as tristezas (angústias) constituem um dos elementos intrínsecos (indispensáveis e inevitáveis) do próprio amor. Mais! Provêm do amor e são a prova vital da autenticidade desse amor. Por isso, ao ouvirmos aquela pergunta (maravilhosa!): "Você me ama?", devemos ter coragem de traduzi-la para vários outros termos, entre os quais está: "você está pronto(a) de sofrer, ficar angustiado(a) por mim, ou, até, por minha causa?". Infelizmente, muitos acham que declarar o amor (e receber tal declaração), significa navegar num mar de rosas. Pode até ser, desde que não se esqueçam de que as rosas, além de lindas pétalas, possuem também os espinhos. Sem eles não seriam rosas. Sem angústias o amor não seria verdadeiro...

2 de julho de 2011

Sagrado Coração de Jesus

Neste ano foi no dia 01 de julho que a Igreja celebrou a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. De acordo com as palavras do Papa Bento XVI, na linguagem bíblica o "coração" indica o centro da pessoa, a sede dos seus sentimentos e das suas intenções. No coração do Redentor nós adoramos o amor de Deus pela humanidade, a sua vontade de salvação universal, a sua misericórdia infinita (leia aqui). Em outra ocasião (aqui), Bento XVI explicou: As raízes desta devoção aprofundam-se no mistério da Encarnação; foi precisamente através do Coração de Jesus que se manifestou de modo sublime o Amor de Deus pela humanidade. Por isso, o culto autêntico do Sagrado Coração conserva o seu valor e atrai sobretudo as almas sequiosas da misericórdia de Deus, que nele encontram a fonte inexaurível da qual haurir a água da Vida, capaz de irrigar os desertos da alma e fazer florescer a esperança.

Por sua vez, Beato João Paulo II, disse: Convido, pois, todos os fiéis a prosseguirem com piedade na sua devoção ao culto do Sagrado Coração de Jesus, adaptando-a ao nosso tempo, a fim de que não cessem de acolher as suas insondáveis riquezas, às quais respondem com alegria no amor a Deus e aos seus irmãos, encontrando assim a paz, entrando num caminho de reconciliação e afirmando a sua esperança de um dia viver em plenitude junto de Deus, na companhia de todos os santos. É também oportuno transmitir às gerações futuras o desejo de encontrarem o Senhor, de n'Ele fixarem o olhar, a fim de responderem ao apelo à santidade e descobrirem a sua missão específica na Igreja e no mundo, realizando assim a própria vocação batismal (o texto na íntegra está aqui).

Acolhamos estes convites e incentivos e procuremos mergulhar nesse oceano infinito do amor de Deus. Repitamos aquela antiga invocação, ao orarmos: "Jesus manso e humilde de coração, fazei o nosso coração semelhante ao vosso". Ter o coração manso e humilde não tem nada a ver com timidez ou medo de amar. É, antes, preservar o coração apaixonado, liberto de ódio e rancor. Um coração sincero, sensível, atento, generoso, acolhedor. Isso vale tanto para o coração heterossexual quanto homossexual.

1 de julho de 2011

A serenidade de Dunand

O site português "Rumos Novos" (aqui) publicou a entrevista com Jean-Michel Dunand, autor do livro De la honte à la lumière ("Da vergonha à luz"). Para facilitar a leitura aqui no Brasil, a mesma entrevista foi adaptada e publicada pelo IHU (Instituto Humanitas Unisinos - aqui). Agora resta-nos esperar a edição do próprio livro por aqui.

O que chama a minha atenção é a serenidade de Dunand. Sua resposta à pergunta "O que você está pedindo à Igreja hoje?" revela um coração livre de revolta:

Eu não reivindico nada, exceto o direito de viver sem ser amputado de uma parte perdida de mim mesmo. Como católico, eu quero poder viver a minha fé e o desenvolvimento da minha sexualidade e da minha ternura partilhadas com alguém do mesmo sexo. Eu não sou um ativista que lança a bandeira da causa gay. Mas eu não posso aderir a estas certezas segundo as quais "a homossexualidade é contra a natureza e fora do plano de Deus". Isto leva a um impasse. Se eu reivindico algo é uma mudança e uma humildade do olhar. Com as pessoas “homossensíveis” – prefiro falar assim, pois não nos reduz à sexualidade – estamos muitas vezes diante de percursos fraturados, de vidas acidentadas. Mas também de verdadeiras sensibilidades em relação à beleza, à arte, à espiritualidade. Veja o número de homossexuais entre os grandes artistas, designers de moda... Estes são, em todos os casos, vidas singulares que não se pode julgar sem conhecer, nem vasculhar sua intimidade. Diante da mulher adúltera do Evangelho, o que Jesus faz? Ele não a questiona, mas afasta os olhos, inclinando-se ao chão para escrever; ele afasta também os acusadores, pois todos vão se retirando na medida em que ele os faz perceber seu próprio pecado. Não encerremos as pessoas em nossas normas e em nossos olhares inflexíveis.

Jean-Michel Dunand deixa uma mensagem importante para todos os cristãos: Antes de arriscar uma palavra, ter tempo para ouvir as pessoas homossexuais. Antes de discutir sobre ideias, conhecer vidas. Foi poder falar e ser ouvido que, pessoalmente, me salvou. No meu trabalho eu sou discreto sobre a minha vida pessoal, mas eu sei que eu tenho a confiança do meu bispo, do meu diretor diocesano, do meu diretor da escola, eu sou franco com eles. Foi Freud quem disse: “Quando alguém fala, é dia!” É talvez justamente por que faça dia que eu escrevi e publiquei este livro.
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Jean-Michel Dunand

30 de junho de 2011

Cardeal insiste

É impressionante a insistência do arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, quanto ao caráter ofensivo das imagens de santos usadas na recente Parada do Orgulho GLBT em São Paulo. Vale citar aqui as palavras do Evangelho: Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: “Por que tendes esses maus pensamentos em vossos corações? (Mt 9, 4). Será que Dom Odilo tem, também, o poder de conhecer os pensamentos dos outros? Em mais um artigo, publicado no site de sua arquidiocese (aqui), o cardeal diz: Eu não queria escrever sobre esse assunto; mas diante das provocações e ofensas ostensivas à comunidade católica e cristã, durante a Parada Gay deste último domingo, não posso deixar de me manifestar em defesa das pessoas que tiveram seus sentimentos e convicções religiosas, seus símbolos e convicções de fé ultrajados. Ficamos entristecidos quando vemos usados com deboche imagens de santos, deliberadamente associados a práticas que a moral cristã desaprova e que os próprios santos desaprovariam também. (...) O uso desrespeitoso da imagem dos santos populares é uma ofensa aos próprios santos, que viveram dignamente; e ofende também os sentimentos religiosos do povo. Ninguém gosta de ver vilipendiados os símbolos e imagens de sua fé e seus sentimentos e convicções religiosas. Da mesma forma, também é lamentável o uso desrespeitoso da Sagrada Escritura e das palavras de Jesus – “amai-vos uns aos outros” – como se ele justificasse, aprovasse e incentivasse qualquer forma de “amor”; o “mandamento novo” foi instrumentalizado para justificar práticas contrárias ao ensinamento do próprio Jesus.

Interrompo aqui a transcrição das palavras de Dom Odilo, para abrir o espaço ao autor das imagens, o fotógrafo Ronaldo Gutierrez (a entrevista com ele pode ser lida aqui). Não é bom ouvir na TV e ler nos jornais pessoas dizendo que você as está ofendendo, quando minha única intenção era ajudar. Venho recebendo algumas mensagens pesadas, que machucam. Mas já esperava por essa reação negativa. Não é com a religião que estou mexendo, é com as pessoas que dizem que mandam nela. (...) Acho a vida dos santos um exemplo de bondade e amor ao próximo, mas não é isso que vejo naqueles que comandam. Sei que a grande maioria dos católicos é formada por gente muito boa e que quer ajudar. Outros, infelizmente, aqueles que detêm os meios de comunicação, são preconceituosos e ignorantes.

Voltando ao texto do cardeal, lemos: A Igreja católica refuta a acusação de “homofóbica”. Investiguem-se os fatos de violência contra homossexuais, para ver se estão relacionados com grupos religiosos católicos. A Igreja Católica desaprova a violência contra quem quer que seja; não apoia, não incentiva e não justifica a violência contra homossexuais.

Após essa contradição (um tanto velada), o autor comete outras. Ao dizer sobre o atendimento aos portadores do vírus HIV, lemos que a Igreja a Igreja foi pioneira no acolhimento e tratamento de soro-positivos, sem questionar suas opções sexuais. Logo em seguida o cardeal (visivelmente indeciso) afirma que a sexualidade não depende de “opção”, mas é um fato de natureza e dom de Deus, com um significado próprio, que precisa ser reconhecido, acolhido e vivido coerentemente pelo homem e pela mulher.

Ainda mais curiosa é a frase que diz: Embora respeitando as pessoas homossexuais e procurando acolhê-las e tratá-las com respeito, compreensão e caridade, ela [a Igreja] afirma que as práticas homossexuais vão contra a natureza; essa não errou ao moldar o ser humano como homem e mulher. Essa coisa de acolher as pessoas homossexuais pela Igreja e tratá-las com respeito, nem vou comentar...

O fragmento a seguir requer uma reflexão especial. Antes, responda quem quiser, a duas perguntas: [1] Qual é a organização interessada em impor a todos um determinado pensamento sobre a identidade do ser humano? [2] Será que colocar no mesmo saco a homossexualidade, o descontrole nos ecossistemas, doenças e desastres ambientais, não induz o leitor (e o fiel católico) à homofobia?

Dom Odilo continua: Causa preocupação a crescente ambiguidade e confusão em relação à identidade sexual, que vai tomando conta da cultura. Antes de ser um problema moral, é um problema antropológico, que merece uma séria reflexão, em vez de um tratamento superficial e debochado, sob a pressão de organizações interessadas em impor a todos um determinado pensamento sobre a identidade do ser humano. Mais do que nunca, hoje todos concordam que o desrespeito às leis da natureza biológica dos seres introduz neles a desordem e o descontrole nos ecossistemas; produz doenças e desastres ambientais e compromete o futuro e a sustentabilidade da vida. Ora, não seria o caso de fazer semelhante raciocínio, quando se trata das leis inerentes à natureza e à identidade do ser humano? Ignorar e desrespeitar o significado profundo da condição humana não terá consequências? Será sustentável para o futuro da civilização e da humanidade?

O final do texto revela mais um equívoco: As ofensas dirigidas não só à Igreja Católica, mas a tantos outros grupos cristãos e tradições religiosas não são construtivas e não fazem bem aos próprios homossexuais, criando condições para aumentar o fosso da incompreensão e do preconceito contra eles. E não é isso que a Igreja Católica deseja para eles, pois também os ama e tem uma boa nova para eles; e são filhos muito amados pelo Pai do céu, que os chama a viver com dignidade e em paz consigo mesmos e com os outros.

Falando de ofensas à Igreja católica e a tantos outros grupos cristãos, no contexto das imagens usadas na Parada, o cardeal, provavelmente, esqueceu-se de um fato, conhecido por todos e não apenas pelos teólogos. É, justamente, o uso das imagens pela própria Igreja católica, que tantos outros grupos cristãos (sobretudo evangélicos) consideram ofensivo em si. Quanto à última frase, só posso dizer que, exatamente, é com dignidade, em paz conosco mesmos e com os outros que queremos viver. Mas, por enquanto, a Igreja (que o cardeal representa) não deixa!