ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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17 de junho de 2011

olho doente

O olho é a lâmpada do corpo. Se o teu olho é sadio, todo o teu corpo ficará iluminado. Se o teu olho está doente, todo o corpo ficará na escuridão. Ora, se a luz que existe em ti é escuridão, como será grande a escuridão. (Mt 6, 22-23)

Depois da última postagem (aqui) fiquei inquieto por não ter comentado mais sobre aquele artigo do cardeal Scherer (aqui). A primeira ideia que me vinha era a respeito da arte de escrever. O texto pode estar dentro dos padrões de gramática/linguística, teologia e até - quem sabe - lógica. Mas, ao mesmo tempo, pode ser altamente antipedagógico. Os professores de língua portuguesa, os teólogos e os profissionais em direito, podem se debruçar sobre tal redação e dizer que tudo está em ordem. Quando, porém, um "leitor comum" lê aquilo, as coisas ficam diferentes. Um redator sábio e respeitador da pessoa do leitor, pensa nos efeitos de sua própria erudição e não usa truques baratos de lavagem cerebral (leia sobre isso aqui). O que dizer sobre a frase na qual Dom Odilo põe na mesma linha (equipara): amor possessivo, ciumento, irresponsável diante das consequências, anárquico, promíscuo, violento, sádico, devasso, egoísta, comprado ou vendido, contrário à natureza? Um dos truques que revelam má fé é colocar o termo mais importante no final da frase. Acrescente ainda o contexto geral do artigo - a condenação da Parada Gay de São Paulo pelo uso das palavras de Jesus "Amai-vos uns aos outros" - e você terá o perfil completo do autor e a intenção real para escrever tais coisas. O problema é o mesmo que Jesus aponta no Evangelho de hoje: Se o teu olho está doente, todo o corpo ficará na escuridão. Ora, se a luz que existe em ti é escuridão, como será grande a escuridão. Ninguém duvida que, ao falar do "amor contrario à natureza", o cardeal tenha se referido aos homossexuais. Ainda que não concordemos com tal conceito (debatido veementemente pela ciência), vamos tolerá-lo por um instante, para perceber o pecado ainda mais grave. Apresentar a lista que comporta - e tem intenção de igualar - o amor homossexual com amor possessivo, ciumento, irresponsável diante das consequências, anárquico, promíscuo, violento, sádico, devasso, egoísta, comprado ou vendido, é um ato anticristão e desumano. Os bajuladores do cardeal, juntamente com os católicos ingênuos de um lado e, de outro, os preconceituosos homofóbicos, acabam de receber mais uma arma para odiar e agredir os homossexuais. A esperteza do autor do texto consiste em falar muito mais nas entrelinhas do que literalmente. Já imagino aquele sorriso cínico e a resposta: "mas eu nem usei a palavra homossexual!".

Não sei até quando vamos suportar as autoridades (religiosas, políticas, etc.) que nos acham idiotas. Pior que, enquanto tenhamos como dar (ou não) o voto de confiança a um representante político do povo, não podemos fazer o mesmo em relação às autoridades eclesiásticas. Por isso temos prelados que, não raramente, mostram-se possessivos, ciumentos, irresponsáveis diante das consequências, anárquicos, promíscuos, violentos, sádicos, devassos, egoístas - pelo menos seus sermões e artigos, pois é Deus (e só Ele) quem julga a sua vida pessoal e a sua consciência. E se alguém usurpa para si o direito de julgar o meu amor, é porque os seus olhos estão doentes (cf. Mt 6, 22).

16 de junho de 2011

amai-vos

A 15ª Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, marcada para o próximo dia 26 de junho (veja a programação completa aqui), tem como o lema as palavras de Jesus "Amai-vos uns aos outros", complementadas pelo apelo "Basta de homofobia!". Como era de se esperar, os representantes de Igrejas cristãs, não deixam de reagir. No site da CNBB (aqui) e na "Folha de São Paulo" foi publicado o artigo do Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo. Entre outras coisas, Dom Odilo escreve: Jesus não excluiu a ninguém do seu amor. Amou pessoas concretas, defendendo e restituindo a dignidade aos humilhados; amou os doentes, os pobres, as crianças, os homens, as mulheres. Em cada pessoa viu e amou um filho de Deus. Acolheu e perdoou os pecadores, mesmo não aprovando todos os seus comportamentos e atitudes, recomendando-lhes que não voltassem a pecar. Ensinou a amar também os inimigos e, ainda no momento extremo de seu suplício na cruz, ele próprio perdoou aos algozes: “Pai, perdoai-lhes; não sabem o que fazem”. Amou com amor puro, genuíno, transparente, sem apossar-se das pessoas como se fossem objetos de desejo; amou como Deus ama. Sim, amadas por Jesus, as pessoas sentiam-se amadas por Deus, dignificadas, profundamente valorizadas, restituídas à vida, felizes.


Logo em seguida, porém, manda um recado para os organizadores e participantes da Parada: “Amai-vos uns aos outros”, é apenas uma parte do mandamento novo de Jesus; sem a outra parte – “como eu vos amei” -, as belas palavras de Jesus ficam genéricas, ambíguas, expostas à instrumentalização subjetiva e ao deboche desrespeitoso. De fato, várias supostas maneiras de amar não são recomendadas por Jesus: amor possessivo, ciumento, irresponsável diante das consequências, anárquico, promíscuo, violento, sádico, devasso, egoísta, comprado ou vendido, contrário à natureza... Não são expressões de autêntico amor e, no mínimo, não podem pretender-se legitimadas pela recomendação de Jesus – “amai-vos uns aos outros”.

E encerra o seu artigo com a seguinte conclusão: Instrumentalizar essas palavras sagradas para justificar o contrário do que elas significam é profundamente desrespeitoso e ofensivo, em relação àquilo que os cristãos têm como muito sagrado e verdadeiro.

A eloquência do discurso não é capaz de substituir a razão, mas, infelizmente, mostra a enorme dificuldade (ou mesmo inviabilidade) de qualquer diálogo. Ainda bem que haja alguém que discorde com essa (minha) opinião desanimadora sobre a (impossível) comunicação entre a Igreja e o mundo GLBTS.

No último sábado (11/06), o 9º. Ciclo de Debates (que faz parte da programação oficial do 15º Mês do Orgulho LGBT de São Paulo) discutiu as relações entre religião, Estado e movimento LGBT. A pesquisadora associada do Núcleo de Estudos para Prevenção da AIDS (NEPAIDS/USP), Cristiane Gonçalves da Silva, disse que é possível dialogar com a base de religiosos, independente do reacionarismo que têm manifestado suas lideranças parlamentares e clericais (leia matéria sobre isso aqui). Para Cristiane, há uma falta de espaços reais de diálogo sobre o assunto. Por isso, uma parcela grande dos religiosos ficam restritos ao acesso às informações de seus pastores, que por interesses particulares, distorcem os fatos e as argumentações para seu público. “Ainda que alguns achem utópico, considero o diálogo com estes setores um caminho possível, pois a maioria dos crentes só recebe a mensagem de que têm que ser contra os direitos LGBT para não serem presos, conforme prevê a lei em discussão”, apostou ela, ressaltando que as autoridades religiosas representam o dogma muito mais do que as vivências religiosas individuais. A escola se constitui o lugar privilegiado para o diálogo com comunidades religiosas mais fechadas, já que na mídia a maioria dos debates se dá entre radicais. Para ela, é possível, também, utilizar da internet como ferramenta para esse diálogo possível e necessário.

É aqui que entramos nós, blogueiros, apesar de toda a modéstia de meios que temos...

nossa oração




Ouvimos na liturgia destes dias o ensinamento de Jesus sobre a oração. É importante não tirarmos conclusões equivocadas que poderiam colocar em dúvida a nossa vida espiritual e, portanto, a nossa fé. Os textos do Evangelho de hoje (Mt 6, 7-15) e de ontem (Mt 6, 1-6. 16-18) trazem algumas afirmações enigmáticas de Jesus: [ontem] Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens. (...) Quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai que está oculto. (Mt 6, 5-6); [hoje] Quando orardes, não useis muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. (Mt 6, 7) Diante deste ensinamento, parece que a maior parte da prática devocional da Igreja está errada. A própria Missa, as procissões (como na festa de Corpus Christi) e tudo o mais que contém a oração pública por um lado e, por outro, os terços, ladainhas e até a liturgia das horas, entre outros - tudo parece contradizer a orientação do Senhor sobre a oração discreta, individual e com poucas palavras. Na prática, as conclusões rápidas, levam-nos a contestar e abandonar a Igreja ou, pelo menos, alimentam o fervor de nossas criticas. Qual é a solução?

A leitura mais atenta permite-nos perceber as referências que Jesus faz para ilustrar os erros de postura de quem ora: os hipócritas e os pagãos. A primeira “categoria” é constituída, sem dúvida, pelos religiosos judaicos da época (fariseus, doutores da Lei, etc.), o que podemos constatar em outras passagens (cf. Mt 23, 1- 36; Mc 12, 38-40; Lc 11, 37-54. 20, 45-47). A segunda engloba os pagãos (isto é, todos os não-judeus). Em ambos os casos, o que desqualifica a oração, não é a sua forma (pública/privada, muitas/poucas palavras), mas, sim, a motivação. Os hipócritas oram e fazem várias outras coisas para serem vistos pelos homens. Os pagãos acreditam no poder de suas próprias palavras, mais do que no poder de Deus, aproximando-se assim de um conceito mágico da prece.

No contexto, digamos, máximo da revelação bíblica, a oração nada é senão o colóquio amoroso do homem com Deus. O Catecismo da Igreja Católica fala que a fé (expressa, entre outras formas, em oração), é a resposta ao amor revelado de Deus. Todo mundo sabe perfeitamente que quem ama, embora consiga expressar os sentimentos sem palavras, vive multiplicando, e até inventando, as palavras dirigidas ao amado. Se analisarmos, por exemplo, a ladainha ao Sagrado Coração de Jesus (ou qualquer outra), vamos notar uma analogia nítida com aquela linguagem de apaixonados que substituem o nome da pessoa amada por “lindo(a)”, “fofo(a)”, “bem”, “amor”, entre milhares de outros termos. Ao tratar-se de uma resposta amorosa, percebemos que Deus que nos amou primeiro (cf. 1Jo 4, 19), também fala de maneiras mais variadas, entre as quais, destaca-se a Sagrada Escritura. Ali, o próprio Deus, multiplica as palavras. O interessante é que essa multiplicidade, paradoxalmente, chama-se a Palavra de Deus (em singular). Aí percebemos o segredo. Deus nos dirige uma única palavra: “eu te amo” de muitíssimas maneiras, sem alterar a mensagem, a ponto de a própria mensagem tornar-se o Verbo Encarnado, Jesus Cristo. Podemos dizer, portanto, que Deus espera de nós, também, uma única palavra de resposta: “eu te amo”, ainda que falada de milhares de formas. Assim Jesus corrige a postura de quem, ao orar, mistura a declaração de amor com, por exemplo, barganha ou chantagem (o famoso “toma lá dá cá”). Quanto à oração pública, esta também não está proibida pelo fato de ser pública, desde que tenha a motivação correta, isto é, o amor. Desta maneira, a oração inscreve-se na lista das formas de testemunhar a fé. O próprio Jesus que passava noites inteiras em oração pessoal, não evitava as ocasiões para orar em público. O exemplo clássico é a súplica diante do túmulo de Lázaro: Pai, eu te dou graças porque me ouviste! Eu sei que sempre me ouves, mas digo isto por causa da multidão em torno de mim, para que creia que tu me enviaste. (Jo 11, 41-42) Ou, um pouco mais tarde: Pai, glorifica o teu nome! Veio, então, uma voz do céu: “Eu já o glorifiquei, e o glorificarei de novo”. A multidão que ali estava e ouviu, dizia que tinha sido um trovão. Outros afirmavam: “Foi um anjo que falou com ele”. Jesus respondeu: “Esta voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por vossa causa. (Jo 12, 28-30)

Percebemos que a essência da oração consiste no amor e a coerência da postura de quem ora, chama-se sinceridade. Ser autêntico na oração e na vida descarta qualquer tipo de fingimento. Isso é importante também para nós homossexuais. A identidade sexual, por mais que leve esse nome, não diz respeito apenas ao sexo, mas a tudo que somos e fazemos. Não será, portanto, exagero dizer que a nossa oração é homossexual.

15 de junho de 2011

verdadeira adoração

O Papa Bento XVI dedicou a sua catequese de hoje ao profeta Elias (leia na íntegra aqui). Já é o sexto discurso nessa série de catequeses sobre a oração, proferidas pelo Papa no Vaticano às quartas-feiras. Ao concluir o resumo da história bíblica sobre Elias, Bento XVI disse: Os Padres dizem-nos que também essa história de um profeta é profética, está – dizem – à sombra do futuro, do futuro Cristo; é um passo no caminho rumo a Cristo. E dizem-nos que aqui vemos o verdadeiro fogo de Deus: o amor que guia o Senhor até a cruz, até o dom total de si. A verdadeira adoração de Deus, portanto, é dar a si mesmo a Deus e aos homens, a verdadeira adoração é o amor. E a verdadeira adoração a Deus não destrói, mas renova, transforma. Certamente, o fogo de Deus, o fogo do amor queima, transforma, purifica, mas mesmo assim não destrói, mas sim cria a verdade do nosso ser, recria o nosso coração. E, assim, realmente vivos pela graça do fogo do Espírito Santo, do amor de Deus, somos adoradores em espírito e em verdade.

Em nossa realidade de pessoas homossexuais, muitas vezes ouvimos - e acabamos acreditando - que amar (de um determinado jeito) é errado, portanto, proibido. Entretanto, amamos de maneira que nos foi dada pelo Criador. Como disse o Papa, o amor cria a verdade do nosso ser. Quanto mais nos damos conta do nosso amor, descobrimos melhor quem somos. É interessante, também, olhar ao amor do ponto de vista proposto pelo Papa. A verdadeira adoração é o amor. Será um equívoco dizer: o amor é a verdadeira adoração?

Bento XVI falou sobre o significado da palavra "adoração" aos jovens reunidos na Esplanada de Marienfeld em Colônia, durante XX Jornada Mundial da Juventude (2005): A palavra grega ressoa proskynesis. Ela significa o gesto da submissão, o reconhecimento de Deus como a nossa verdadeira medida, cuja norma aceitamos seguir. Significa que liberdade não quer dizer gozar a vida, considerar-se absolutamente autônomos, mas orientar-se segundo a medida da verdade e do bem, para, desta forma, nos tornarmos nós próprios verdadeiros e bons. Este gesto é necessário, mesmo se a nossa ambição de liberdade num primeiro momento resiste a esta perspectiva. Fazê-la completamente nossa só será possível na segunda passagem que a Última Ceia nos apresenta. A palavra latina para adoração é ad-oratio - contato boca a boca, beijo, abraço e, por conseguinte, fundamentalmente amor. A submissão torna-se união, porque Aquele ao qual nos submetemos é Amor. Assim, submissão adquire um sentido, porque não nos impõe coisas alheias, mas liberta-nos em função da verdade mais íntima do nosso ser. (Leia a homilia do Papa aqui).

Quando você estiver experimentando o amor e, por exemplo, beijando a boca da pessoa amada, não-se esqueça que está adorando a Deus.

Prêmio Ratzinger




De acordo com o Portal GaudiumPress (aqui), um patrólogo italiano (leigo), um sacerdote espanhol e um jovem cisterciense alemão são os primeiros vencedores do "Prêmio Ratzinger", instituído pela "Fundação Vaticana Joseph Ratzinger - Bento XVI". A cerimônia de entrega será na Sala Clementina do Palácio Apostólico, no Vaticano, no próximo dia 30 de junho, e contará com a presença do próprio Papa, que entregará pessoalmente os prêmios. Cada um dos vencedores receberá um diploma do Papa com um cheque de 50 mil euros. Os fundos provêm dos direitos de autoria dos livros do Papa, mas também de doadores particulares. A escolha dos três ganhadores foi feita pelo comitê científico da Fundação e confirmada pelo Santo Padre. Os critérios para a escolha, segundo os organizadores, são três: a excelência do estudo; pessoas pouco conhecidas e premiadas até agora, e/ou jovens teólogos; não exclusão de teólogos de outras profissões cristãs, não se restringindo a católicos somente. A Fundação Vaticana Joseph Ratzinger - Bento XVI, com sede na Via della Conciliazione, em Roma, pretende promover o pensamento teológico através de diversas iniciativas culturais e científicas. A primeira delas é o "Prêmio Ratzinger", entregue uma vez por ano.

Não sei bem como fazer isso na prática, mas gostaria que fosse inserido na lista de candidatos para este prêmio, quem sabe, no ano que vem, o jovem teólogo, ainda pouco conhecido e premiado até agora que, entretanto, apresenta a excelência do estudo em uma área pouco explorada pela teologia católica. O candidato, JAMES ALISON, nascido em 1959 em Londeres, é sacerdote jesuíta, teólogo e escritor. Estudou, viveu e trabalhou no México, Brasil, Bolívia, Chile e Estados Unidos, bem como sua terra natal, a Inglaterra. Obteve o doutorado em Teologia pelas Faculdades Jesuítas de Belo Horizonte. Na introdução ao livro de James Alison "Fé Além do Ressentimento: Fragmentos católicos em voz gay" (São Paulo: É Realizações, 2010), o seu professor de Belo Horizonte, Pe. João Batista Libanio escreveu: Conheci Alison quando fez teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte, tendo-o como aluno. (...) Já naqueles idos percebia que ali jazia enorme potencial cultural, que se desabrochou em teologia tão criativa como aparece no livro. Vale dele naquele tempo o provérbio latino: ex digito gigans. Pelo dedo se conhece o gigante. (...) Alison trabalha com imensa originalidade textos e contextos bíblicos do Primeiro e do Segundo Testamento. Consegue, sem forçar a exegese, conduzir o leitor à profunda compreensão da passagem bíblica. Logo no primeiro capítulo, nos surpreende com releitura extremamente original e fecunda da cura do cego de nascimento. Escapa das interpretações comuns e conhecidas, introduzindo o leitor, com sutileza, em novo campo hermenêutico. (...) Não se trata de clássica obra acadêmica, mas de ensaio com toques geniais e originais. Esse tipo de escrito não necessita de carregar-se de outras autoridades. Vale por ele mesmo. Isso o autor passa com modéstia no livro.

Enfim... Em outra postagem (aqui) deixei mais algumas informações, além das dicas sobre como adquirir o livro. Agora é só promover uma campanha para levar James Alison ao "Prêmio Ratzinger". Alguém tem ideia como fazer isso?


14 de junho de 2011

A Igreja



O "Portal Um" publicou (aqui) a homilia de Bento XVI proferida no dia de Pentecostes. Além das belas frases sobre Jesus [que] tem dignidade divina e Deus [que] tem o rosto humano de Jesus, o Papa fala bastante sobre a Igreja. Esperamos, cada vez mais, que essas palavras não fiquem, simplesmente, no ar, mas que se tornem realidade:

Recitando o Credo, nós entramos no mistério do primeiro Pentecostes: da confusão de Babel, daquelas vozes que clamam uma contra a outra, acontece uma transformação radical: a multiplicidade torna-se unidade multiforme, do poder unificador da Verdade cresce a compreensão. No Credo que nos une de todos os cantos da Terra, que, através do Espírito Santo, faz com que nos compreendamos mesmo na diversidade de línguas, através da fé, esperança e amor, se forma a nova comunidade da Igreja de Deus.

O Espírito Santo vivifica a Igreja. Ela não deriva da vontade humana, da reflexão, da habilidade do homem e da sua capacidade de organização, porque se assim fosse há muito tempo ela teria morrido, conforme passam todas as coisas humanas. Ela é o Corpo de Cristo, animada pelo Espírito Santo.

A Igreja é Católica desde o primeiro momento, que a sua universalidade não é fruto da inclusão sucessiva de várias comunidades. Desde o primeiro instante, o Espírito Santo a criou como a Igreja de todos os povos; ela abraça o mundo inteiro, supera todas as fronteiras de raça, classe e nação; derruba todas as barreiras e une as pessoas na profissão do Deus Uno e Trino. Desde o início, a Igreja é una, católica e apostólica: esta é a sua verdadeira natureza e como tal deve ser reconhecida. Ela é santa, não por causa da capacidade de seus membros, mas porque o próprio Deus, com o seu Espírito, a cria e santifica para sempre.

Eu já li (ou ouvi), em algum lugar que, em muitos ambientes e por várias autoridades, os termos "raça" e "classe" são considerados ultrapassados. Por outro lado, nunca me reparei com a expressão "raça/classe" homossexual (ou, mais aplamente: GLBTT), mas - tirando qualquer impressão pejorativa - acredito que, tal (pelo menos) "classe" exista mesmo e, apesar de algumas dificuldades, aos poucos, esteja tomando consciência disso. E não é a "classe" no sentido marxista, quer dizer, não é um grupo de pessoas que procura apenas estar contra outras classes, mas é - como se costuma dizer às vezes - uma comunidade. Como seria bom e bonito, se os gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e transgêneros, construíssem uma "classe", baseada no respeito mútuo, no intercâmbio de seus conhecimentos e experiências e não apenas numa luta contra alguém (muitas vezes, contra o "resto do mundo"). E, seria ainda melhor e mais bonito se essa comunidade/classe fosse reconhecida e acolhida pela Igreja, como sugere - ainda que indiretamente - o discurso do Papa.


mitologia católica


São muito de recomendar os exercícios piedosos do povo cristão, desde que estejam em conformidade com as leis e as normas da Igreja, e especialmente quando se fazem por mandato da Sé Apostólica. (Concílio Vaticano II, Constituição Sacrosanctum concilium sobre a Sagrada Liturgia, n° 13)

Na ocasião da memória litúrgica de Santo Antônio, aparecem os problemas antigos e nunca resolvidos que podemos chamar de "mitologia católica". Justamente como na religiosidade da Grécia Antiga havia Afrodite - deusa do amor e da beleza, Ares - deus da guerra, Hades - deus da morte, e Atena - deusa da sabedoria e da coragem (e muitos outros personagens), assim nós temos Santo Antônio casamenteiro, São Pedro que cuida (ou não) da meteorologia e, também, uma série de especialistas em causas impossíveis. Para conseguir um marido (não sei se vale para uniões de pessoas do mesmo sexo), aconselha-se colocar o Santo de cabeça para baixo em um copo d'água, ou tirar o Menino Jesus do colo da imagem, e só devolver depois que se consegue um marido (ou, pelo menos, namorado). Vale muito, também, uma promessa, por exemplo, de comparecer nas 13 novenas, ininterruptamente, durante um ano. Sem falar das coisas mais modernas e bastante simples, como mandar imprimir alguns milhares de "santinhos", certamente com alguma "oração milagrosa" no verso. Não falta, nessas horas, a presença generosa da soberana mídia, que faz questão de dedicar a esse assunto seus preciosos minutos. E como sabemos, uma grande parte do "povo católico" costuma basear as suas convicções, inclusive religiosas, naquilo que vê e ouve na telinha. Não é de estranhar que os evangélicos zombam da Igreja católica. Culpados somos também nós, os "devotos".

Achei interessante como a liturgia de hoje parece trazer a resposta clara a este tipo de equívocos. Vale lembrar que trata-se, simplesmente, de segunda-feira da XI semana do tempo comum e não de um formulário próprio, dedicado a Santo Antônio.  

Na primeira leitura (2Cor 6,1-10) temos a exortação e uma espécie de autodefesa de Paulo: Nós vos exortamos a não receberdes em vão a graça de Deus (v. 1). Em tudo nos recomendamos como ministros de Deus, com muita paciência, em tribulações, em necessidades, em angústias, em açoites, em prisões, em tumultos, em fadigas, em insônias, em jejuns, em castidade, em compreensão, em longanimidade, em bondade, no Espírito Santo, em amor sincero, em palavras verdadeiras, no poder de Deus, em armas de justiça, ofensivas e defensivas, em honra e desonra, em má ou boa fama; considerados sedutores, sendo, porém, verazes; como desconhecidos, sendo porém, bem conhecidos; como moribundos, embora vivamos; como castigados, mas não mortos; como aflitos, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo muitos; como quem nada possui, mas tendo tudo. (vv. 4-10) Parece que Santo Antônio (o ministro de Deus, como conhecido, sendo porém, bastante desconhecido), também quer se defender de todo exagero e distorção. Mas, ele não precisa de defesa, porque está na glória do céu e nada o pode atingir. Ele, de fato, gostaria de defender o próprio povo. E, certamente, conta com os pregadores e catequistas (que o têm por padroeiro), que teriam coragem de repetir a expressão de Jesus do Evangelho de hoje (Mt 5,38-42), também no contexto das devoções, ou melhor, da espiritualidade: Ouvistes o que foi dito...? Eu, porém, vos digo... (cf. vv. 38-39). Ou seja, não é bem assim...

O mesmo serve para muitos outros assuntos. Também para o tema da homossexualidade. Ouvistes o que foi dito? Eu, porém, vos digo...