ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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11 de junho de 2011

Oração de Jesus



Você já ficou com aquela sensação de ter algo martelando na sua cabeça? E quando isso persiste por dias, semanas e até mesmo anos? E quando a questão se refere à Palavra de Deus, portanto, à sua fé e à compreensão da vida em todas as suas dimensões? Pois bem, há gente que prefere, simplesmente, "deixar pra lá" o que, às vezes, é uma solução razoável e significa "dar tempo", permitir que a "coisa" evolua por conta própria para que se possa, um dia, voltar de novo ao assunto. Outros, diante do enigma, "jogam tudo para o alto", porque constatam o abalo em algum dos alicerces do seu sistema de valores e conceitos. Pior que, nesses casos, o que fica, é uma ruína. E a ruína não costuma ser coisa boa. Quando se trata de alguma "pergunta-sem-resposta" relacionada à Bíblia, muitos declaram - com aquela expressão de Einstein ou Cristóvão Colombo e com brilho nos olhos - "Viu? Não falei que a Bíblia é uma mentira?!". Eu, porém, prefiro admitir que o problema não esteja na Sagrada Escritura, mas na pequenez do meu intelecto. Por isso continuo aguardando a resposta e, quando possível, interrogando àqueles que poderiam ter alguma pista. Não foi por acaso que o Senhor disse: Não obstante, a casa de Israel diz: ‘A conduta do Senhor não é correta! É a minha conduta que não é correta, casa de Israel, ou antes, é a vossa que não é correta? (Ez 18, 29)

Depois dessa introdução, vamos ao que interessa. Nesta semana (7ª da Páscoa, dias da novena de Pentecostes e Semana de Oração pela Unidade de Cristãos), ouvimos na liturgia as passagens do Evangelho de João, acompanhadas por trechos dos Atos dos Apóstolos. Na quarta-feira passada, a meu ver, os textos entraram em choque (At 20, 28-38; Sl 67[68], 29-30. 33-36; Jo 17, 11b-19). Vou começar pelo Evangelho: Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que me deste, para que eles sejam um assim como nós somos um. (Jo 17, 11b) A leitura mais ampla deste capítulo mostra Jesus que, várias vezes, suplica ao Pai o mesmo dom para os seus discípulos: que sejam um (cf. Jo 17, 19. 21-23). O Salmo 67 parece reforçar ainda mais essa prece: Suscitai, ó Senhor Deus, suscitai vosso poder, confirmai este poder que por nós ma­nifestastes (v. 29). Como na liturgia é o Evangelho que define o contexto de todas as leituras, permito-me ter essa interpretação do Salmo. Até aqui, tudo bem.

Providencialmente, nessa mesma semana, eu estava lendo o 2° volume do livro "Jesus de Nazaré" de Bento XVI. Isso é dito pelo Senhor muito claramente: a unidade não vem do mundo; é impossível extraí-la das forças próprias dele. Bem vemos como essas forças levam à divisão. (...) A unidade só pode vir do Pai por meio do Filho. (...) Mas a força de Deus age penetrando no meio do mundo, onde vivem os discípulos. Aquela deve ser uma qualidade tal que permita ao mundo reconhecê-la e, desse modo, chegar à fé. O que não deriva dele, pode e deve absolutamente ser algo que seja eficaz no mudo e para o mundo e também para que lhe seja perceptível. É precisamente isto que a oração de Jesus pela unidade tem em vista: que se torne visível aos homens a verdade da sua missão, por meio da unidade dos discípulos. A unidade deve ser visível, reconhecível; e reconhecível precisamente como algo que não existe em qualquer outra parte do mundo; algo que é inexplicável com base nas forças próprias da humanidade e, consequentemente, torna visível o agir de uma força diversa. Por meio da unidade humanamente inexplicável dos discípulos de Jesus através dos tempos, é legitimado o próprio Jesus. Torna-se evidente que Ele é verdadeiramente o "Filho". Desse modo, Deus aparece reconhecível como Criador de uma unidade que supera a tendência do mundo à desintegração. Foi por isso que Jesus rezou: por uma unidade, que só é possível a partir de Deus e por meio de Cristo, mas uma unidade que aparece de modo tão concreto que se torna evidente a força presente e operante de Deus. (Bento XVI, "Jesus de Nazaré. Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição"; Editora Planeta do Brasil; São Paulo, 2011; p. 95). Eu sei que o conceito de um blog prevê, geralmente, as postagens mais curtas, mas achei indispensável essa argumentação do Papa.

Pois bem, voltemos às leituras bíblicas. Na primeira leitura, Paulo, em sua comovente despedida com os anciãos de Éfeso, disse: Eu sei que, depois que eu for embora, aparecerão entre vós lobos ferozes, que não pouparão o rebanho. Além disso, do vosso próprio meio aparecerão homens com doutrinas perversas que arrastarão discípulos atrás de si. (At 20, 29-30) É o mesmo Apóstolo que escreveu: Rejeitamos todo procedimento dissimulado e indigno, feito de astúcias, e não falsificamos a palavra de Deus. Pelo contrário, manifestamos a verdade e, assim, nos recomendamos a toda consciência humana, diante de Deus. (2Cor 4, 2) Ou seja, Paulo não estava "inventando modas". Podemos constatar isso, não apenas lendo a Bíblia, mas analisando a história e olhando aos tempos atuais. Mas, o que, de fato, quer dizer isso tudo? A conclusão à qual cheguei é inacreditável. Por isso escrevi no início que a "coisa" está martelando na minha cabeça. Parece que o Pai não atendeu a oração de Jesus, seu Filho amado! E isto fica ainda mais grave, quando comparado com outro episódio, do mesmo Evangelho de João. Diante do túmulo de seu amigo Lázaro, Jesus, levantando os olhos para o alto, disse: “Pai, eu te dou graças porque me ouviste! Eu sei que sempre me ouves, mas digo isto por causa da multidão em torno de mim, para que creia que tu me enviaste”. Dito isso, exclamou com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” O morto saiu, com as mãos e os pés amarrados com faixas e um pano em volta do rosto. (Jo 11, 41-44) Notemos que é o mesmo argumento que Jesus usa para "convencer" o Pai, pedindo a unidade dos discípulos: para que sejam perfeitamente unidos e o mundo conheça que tu me enviaste (Jo 17, 23). Pode parecer uma constatação grosseira, mas Lázaro saiu vivo do túmulo, enquanto os discípulos de Jesus, desde o início é até hoje, continuam "perfeitamente" desunidos. Falando sobre a oração de Jesus, houve, sim, um caso de Ele não ser atendido pelo Pai, mas foi uma situação totalmente diferente e o próprio Jesus tinha feito essa ressalva: Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres. (Mt 26, 39) Como sabemos, o Pai não afastou o cálice do seu Filho. Alguém já imaginou a semelhança dessas duas preces? Jesus teria dito: "Meu Pai, se é possível, guarda-os em teu nome, para que eles sejam um assim como nós somos um! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres!" Até porque, no projeto do Pai, há superação do pecado e de todas as suas consequências, inclusive da divisão. Enquanto no episódio de Babel, o próprio Deus teria impedido a orgulhosa pretensão de união entre homens que queriam, por conta própria, chegar com uma torre até o céu (cf. Gn 11, 1-9), em Jesus quis fazer, exatamente, o contrário. Entretanto, parece que a maldição de Babel continua sobre a humanidade que não se entende, inclusive entre os que falam o mesmo idioma. Se o Pai não escutou a prece de Jesus, para que serve a fé ou a oração? Mas, será que não escutou mesmo? Qual é a resposta? Não sei se existe uma. Há teorias.

Uma delas parece interpretar a oração de Jesus como a ordem dirigida aos discípulos. É como se Jesus fizesse de conta que estava orando, mas na realidade estava "mandando recado" para os discípulos de todos os tempos. É na mesma página do citado livro de Bento XVI que lemos: (...) a fadiga em prol de uma unidade visível dos discípulos de Cristo permanece uma tarefa urgente para os cristãos de todos os tempos e lugares. (p. 95) Em sua catequese, proferida na ocasião da Semana de Oração pela Unidade de Cristãos 2011 (celebrada no hemisfério norte em janeiro), o Papa disse que é importante crescer cada dia no amor recíproco, comprometendo-nos a superar as barreiras que ainda existem entre os cristãos; sentir que existe uma verdadeira unidade interior entre todos aqueles que seguem o Senhor; colaborar o mais possível, trabalhando juntos sobre as questões ainda abertas; e sobretudo permanecendo conscientes de que neste itinerário o Senhor deve assistir-nos, ainda nos deve ajudar muito, pois sem Ele, sozinhos, sem «permanecer nele», nada podemos (cf. Jo 15, 5) (leia o texto aqui). De acordo com estas palavras (diferentemente daquelas escritas no livro e citadas anteriormente), existe uma "unidade interior" dada, certamente, por Deus, mas cabe a nós construir a exterior. Quer dizer que o Pai atendeu Jesus em parte? E o que seria essa unidade interior, já existente? Indiretamente, ainda no mesmo livro, Bento XVI parece tocar neste assunto: Jesus rezou por qual unidade? Qual é o seu pedido para a comunidade dos crentes ao longo da história? (p. 93) Depois de elogiar o teólogo luterano Rudolf Bultmann (1884-1976) e, também, de polemizar com ele, o Papa chega às conclusões citadas acima. Estamos, portanto, de volta ao ponto de partida.

Existe outra teoria, bastante simples e muito comum em toda a doutrina/espiritualidade católica, que responde à pergunta: "O Pai não atendeu a prece de Jesus?". O Pai atendeu, sim, a oração do Filho e concedeu o dom da unidade aos cristãos. Eles, porém, nunca souberam acolher este dom. Que ótimo! Mas, Deus não podia fazer com que soubéssemos fazê-lo, como Ele mesmo prometeu na profecia de Ezequiel: Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Porei em vós o meu espírito e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos. (Ez 36, 26-27)? Este já seria assunto para outra reflexão para abordari a relação do plano de Deus com a livre vontade do homem...

Para concluir, proponho a minha teoria, parecida - em parte - com a anterior: O Pai atendeu o pedido de Jesus e concedeu o dom da unidade aos cristãos, mas não do jeito que nós imaginamos. Um pouco nesta linha responde o Beato João Paulo II à pergunta de Vittorio Messori, no livro "Cruzando o limiar da esperança" (Editora Livraria Francisco Alves; Rio de Janeiro, 1994). V. Messori: Por que o Espírito Santo teria permitido tantas e tais divisões e inimizades entre aqueles que no entanto se dizem seguidores do mesmo Evangelho, discípulos do mesmo Cristo? [De acordo com a nossa reflexão, podemos traduzir essas palavras, sem alterar o sentido delas: Por que o Pai não atendeu ao pedido de Jesus, ou, se atendeu, como fez isso?]. João Paulo II: Para esta pergunta podemos achar duas respostas. Uma, mais negativa, vê nas divisões o fruto amargo dos pecados dos cristãos. A outra, pelo contrário, mais positiva, é gerada pela confiança Naquele que tira o bem até mesmo do mal, das fraquezas humanas: por isso, não poderia ser que as divisões tenham sido também um caminho que levou e leva a Igreja a descobrir as múltiplas riquezas contidas no Evangelho de Cristo e na redenção operada por Cristo? Talvez tais riquezas não pudessem vir à luz de maneira diferente... (p. 147)

Seria, talvez, uma analogia com as palavras de Jesus: Pobres vós tereis sempre convosco. (Mt 26, 11) que em nosso contexto, diria: "Divisões vós tereis sempre entre vós". Em ambos os casos, a necessidade (carência), torna-se ocasião para o exercício de caridade.

Para complementar esta reflexão, leia o texto sobre a ideia de ecumenismo que envolve homo e heterossexuais (aqui).

morde e assopra



Não vou comentar a novela, apesar do título desta postagem. Acabei de ler uma notícia no portal Gaudium Press (noticiário católico - aqui), sobre a participação do observador permanente do Vaticano junto a ONU, arcebispo Silvano Maria Tomasi. Não é nenhuma surpresa que o pralado tenha insistido em dizer que os melhores interesses da criança são primariamente servidos no contexto da família tradicional (baseada no casamento heterossexual). Não somos tão burros assim para não saber para quem é este recado. O que me impressiona é que o arcebispo (assim como a Igreja em geral) consegue, no mesmo discurso (aposto que sem um piscar de olho), detonar qualquer possibilidade de relação afetiva entre as pessoas do mesmo sexo (como se não existisse) e, logo em seguida, expressar a preocupação de garantir amor, cuidado e assistência a aqueles afetados pela violência e pelo abuso, visando um mundo onde estas crianças podem perseguir seus sonhos e aspirações de um futuro livre de violência. Excelência! O senhor já pensou que algumas dessas crianças têm sonhos e aspirações de um futuro livre de violência causada pela homofobia que o senhor, ainda que indiretamente, alimenta?

Putz! Morde e assopra. Cuidado para não se lambuzar!

10 de junho de 2011

James Alison - o Livro


Recebi ontem em casa o livro de James Alison (padre jesuíta), "Fé além do ressentimento. Fragmentos católicos em voz gay" (Editora É Realizações; São Paulo, 2010). Quero recomendá-lo a todos! Li, por enquanto, apenas o "Prefácio à edição brasileira", escrito pelo autor e a "Apresentação", feita pelo teólogo, Pe. João Batista Libanio (o texto disponível no site da Editora "É Realizações" aqui). Pe. J.B. Libanio tem a sua própria página na internet - aqui (confira a sua biografia na Wikipedia - aqui). O autor do livro, Pe. James Alison (nascido em 1959 em Londres, mora em São Paulo) pode ser localizado no seu própro portal - aqui. Como a apresentação da obra pode ser lida na íntegra através do link indicado acima, vou transcrever apenas um pequeno trecho (só para despertar a curiosidade!): [James] Evita gerar no leitor extremos do sentimento de rejeição da condição gay ou de compaixão pela vítima ou de revolta contra o sistema social ou contra a máquina eclesiástica. Atravessam-lhe a obra transparência e honestidade do relato. Em qualquer situação existencial, gay ou não, o leitor se toca. A pessoa gay certamente encontra uma palavra de libertação, não pela via barata da contestação, mas por honesto processo reestruturante interno, baseado fundamentalmente na ação criativa e bondosa de Deus e apoiado por inúmeras passagens da Escritura feita em voz gay.

Pe. James Alisson escreve no "Prefácio à edição brasileira": Os capítulos deste livro são diversas tentativas de permanecer fiel à vocação de teólogo católico sem evitar o campo onde é mais difícil proclamar a verdade na cultura atual da nossa Igreja: o campo gay. É um campo minado de escândalo, de meias verdades, de silêncios covardes, de rabos presos, de enrustidos que perseguem os outros, de mendacidade em geral, e produz em todos nós efeitos espirituais e morais sumamente tóxicos. Porém, creio que a minha tarefa como teólogo e como padre não é deixar-me fascinar por aquilo que estrututa a mendacidade e viver gritando contra; é oferecer recursos para aqueles que queiram ousar avançar além das posições oficiais, posições que, como se torna cada vez mais evidente, fundamentam-se numa falsa caracterização daquilo que é a pessoa gay.

A parte que mais me toca no texto é: O meu sonho como padre, um sonho que por enquanto vive sem nenhum apoio ou aprovação eclesiástica, é criar uma pastoral que tenha coração para abarcar o desenvolvimento humano completo e a formação profissional de tantos jovens gays nas nossas cidades que ou vivem assombrados pela rejeição familiar ou procuram sobreviver por meio do sexo pago. 
 
A informação importante para quem estiver preocupado com a legitimidade (católica) das opiniões contidas no livro: (...) nem este livro, um dos raros escritos por um padre católico assumidamente gay que mostra um desacordo com a posição oficial, nem os outros mais recentes, nos quais tenho aprofundado mais a mesma matéria, receberam qualquer tipo de crítica eclesiástica nas suas versões inglesa, espanhola ou italiana, nem o seu autor sofreu qualquer espécie de reprimenda oficial. Tomara que no Brasil seja possível impedir que a Igreja destrua a sua credibilidade entre os próprios fiéis reproduzindo es reações defensivas e contrárias à verdade nessa esfera, atitude que a tem caracterizado em muitos outros países, e possamos começar a trabalhar esses assuntos à luz do dia, de maneira honesta, serena e adulta.

Padre James Alison
Pois bem. Essa é apenas uma introdução. Se Deus quiser, vou voltar ao assunto ainda muitas vezes. Por enquanto deixo aqui algumas dicas sobre a compra do livro.

Fiz a solicitação do produto no site da Editora É Realizações (aqui) na quarta-feira (dia 06) e, como decidi utilizar o boleto bancário, efetuei o pagamento no dia seguinte (evidentemente, há várias opções de pagamento com diversos cartões de crédito). O preço líquido é de R$ 55,00 e o frete é calculado de acordo com o local de entrega (definido pelo CEP) + custo do serviço de entrega, em três opções: PAC-CORREIO [R$ 11,90]; E-SEDEX [R$ 7,43]; SEDEX [R$ 20,70] (preços referentes à entrega no Rio de Janeiro). Tudo levou uma semana. Outro detalhe: a encomenda chega em uma embalagem comum (leia-se discreta) - há quem se preocupe com isso. Em qualquer sistema de busca na web, podem ser encontradas outras livrarias virtuais que possibilitam a compra, com preços e condiçãoes de pagamento/entrega semelhantes.

BOA LEITURA!

ovelhas e cordeiros


Jesus (...) perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. E disse de novo a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas”. Pela terceira vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas. (Jo 21, 15-17)

Como sempre, o texto do Evangelho inspira diversas interpretações. Tudo depende do ângulo sob o qual a passagem está sendo analisada. Muitos pregadores sustentam a ideia de uma ligação direta entre três negações de Pedro e três respostas "eu te amo" que teriam o papel de "apagar a culpa", ou melhor, curar o coração do discípulo e a sua relação com o Mestre. Acho válido este ponto de vista.

Outros, mais estudiosos, procuram analisar o diálogo de Jesus com Pedro, recorrendo ao significado original dos termos escritos em grego. Vejamos a explicação feita pelo Papa Bento XVI: O evangelista João narra-nos o diálogo que naquela circunstância se realiza entre Jesus e Pedro. Nele revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo "filéo" expressa o amor de amizade, terno mas não totalizante enquanto o verbo "agapáo" significa o amor sem reservas, total e incondicionado. Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: "Simão... tu amas-Me (agapâs-me)" com este amor total e incondicionado ( cf. Jo 21, 15)? Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: "Amo-Te (agapô-se) incondicionalmente". Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: "Senhor... tu sabes que sou deveras teu amigo (filô-se), isto é, "amo-te com o meu pobre amor humano". Cristo insiste: "Simão, tu amas-Me com este amor total que Eu quero?". E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: "Kyrie, filô-se", "Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo". Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão: "Fileîs-me?", "tu amas-Me?". Simão compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o único de que é capaz, e contudo sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: "Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (filô-se)". Seria para dizer que Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus! É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim: "E disse isto para indicar o gênero de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras acrescentou: "Segue-Me"!" (Jo 21, 19). (Bento XVI, Audiência Geral, 24/05/2006 - aqui).

Sublinhei uma frase do texto de Bento XVI, por trazer uma revelação importante para todos nós, inclusive, os homossexuais. Há uma diferença enorme entre considerar indigno ou sujo um jeito de amar (por exemplo, amar uma pessoa do mesmo sexo) e reconhecê lo como "pobre" (o termo usado pelo Papa). De fato, todo amor humano é pobre, sobretudo quando comparado com o amor infinito de Deus. O nosso amor é pobre porque é humano. Mesmo assim, é o único de que somos capazes. Quero dizer que as palavras do Papa sobre Jesus que "se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus", são muito consoladoras para nós. Como diz Bento XVI, "surge daqui a confiança".

Tendo tudo isso em consideração, podemos abordar mais um ângulo de interpretação da passagem evangélica. Não tenho dúvida de que são os pastores que leêm o diálogo de Jesus e Simão Pedro com especial atenção. O Senhor associa a resposta do apóstolo com a missão de apascentar o rebanho. Bento XVI deixou isso claro na cerimônia de imposição do pálio a 40 Arcebispos Metropolitanos, no dia 29/06/2008 (aqui): Cristo ressuscitado une o mandato: "Apascenta as minhas ovelhas", inseparavelmente à interrogação: "Amas-me, amas-me tu mais do que estes?". Todas as vezes que vestirmos o pálio do Pastor do rebanho de Cristo, deveríamos ouvir esta pergunta: "Amas-me?" e deveríamos deixar-nos interrogar acerca do acréscimo de amor que Ele espera do Pastor. Assim, o pálio torna-se símbolo do nosso amor pelo Pastor Cristo e do nosso amar com Ele torna-se símbolo da vocação para amar os homens como Ele, juntamente com Ele: aqueles que estão em busca, que tem perguntas a fazer, quantos estão seguros de si e os humildes, os simples e os grandes; torna-se símbolo da vocação para amar todos eles com a força de Cristo e em vista de Cristo, a fim de que O possam encontrar e, nele, encontrar-se a si mesmos.

Acho interessante, também, o detalhe de ovelhas e cordeiros. Será que Jesus intercala "ovelhas" e "cordeiros" só para não deixar que a conversa fique monótona? Ou tem algo propósito especial? Li em algum lugar a seguinte explicação: A frase "apascenta meus cordeiros" é o chamado a Pedro para ser Papa, pois, no rebanho, o cordeiro é tido como o chefe das ovelhas, porque estas seguem o cordeiro. Na comparação de Jesus, as ovelhas somos nós, os cordeiros são os nossos chefes: os coordenadores das Comunidades, os líderes pastorais, os padres e bispos. Jesus mandou Pedro, além de apascentar as ovelhas, apascentar esses chefes, isto é, ser o chefe dos chefes do Povo de Deus.

Como escrevi no início, a passagem do Evangelho deixa uma margem bastante grande para várias interpretações. O cordeiro, em sua simbologia bíblica, relaciona-se com o sacrifício a ponto de ser o sinônimo do próprio Cristo - o Cordeiro de Deus. Pode ser que Jesus tenha chamado Pedro para cuidar, de modo especial, daqueles que se tornariam, como o Mestre, cordeiros imolados no sacrifício do martírio. Todos os perseguidos devem estar sob o particular cuidado dos pastores!

Eu tenho, porém, uma ideia mais simples. Para mim, é provável que o Senhor tenha falado daqueles que constituem uma minoria (cordeiros) no meio de uma multidão (ovelhas). Como se Jesus dissesse: Pedro, cuida de todos, e não se esqueça daqueles que são, de alguma maneira, diferentes.

Muitos podem me chamar de "ovelha negra",
mas eu sou apenas um cordeirinho...

Estamos na fila



Agência de notícias Gaudium Press (aqui) divulgou no último dia 06 de junho a informação sobre o encontro do Papa Bento XVI com uma parte dos cerca de 1400 ciganos que irão à Roma neste fim de semana para recordar o 150º aniversário de nascimento e os 75 anos do martírio do primeiro cigano beato, o espanhol Zeferino (Ceferino) Giménez Malla (1861-1936). O encontro, previsto para amanhã (sábado) é noticiado como "novo ato inédito e histórico para a Igreja" e "um evento significativo em um momento no qual tantos episódios de discriminação a ciganos acontecem em muitos países europeus". De acordo com Marco Impagliazzo, presidente da Comunidade de Santo Egídio (conheça esta Comunidade aqui), "a via da integração parece ser a única possível para se viver juntos em paz e em segurança. A audiência testemunha que a Igreja ama os ciganos e que se empenha junto a essas populações para que sejam reconhecidas como um minoria europeia, com seus direitos e com seus deveres." Para Dom Giancarlo Perego, diretor geral da Fundação Migrantes, esse primeiro encontro para os ciganos no Vaticano trata-se de um "sinal importante para o mundo, marcado pelas diferenças, preconceitos e violências".

Só queria dizer que nós também estamos nessa fila...

9 de junho de 2011

Michał Szpak



Escrevi recentemente (aqui) sobre Andrej Pejic, o modelo andrógino que esteve presente (e, como dizem, arrasou) no último Fashion Rio (30/05-04/06). Não tenho certeza absoluta se o fenômeno é o mesmo, mas proponho hoje uma apresentação do jovem cantor polonês - Michał Szpak, 21 anos - finalista no programa X-Factor, baseado no evento homônimo inglês e realizado na Polônia (algo parecido com "Ídolos"). No vídeo abaixo, Michał canta junto com Alexandra Burke, ganhadora da quinta temporada do programa de TV britânico “X Factor” (confira as informações sobre Alexandra na Wikipedia - aqui).


8 de junho de 2011

Beleza total


Depois de ter lido/assistido várias declarações homofóbicas, decidi parar com isso e ocupar-me com algo positivo e mais leve. Inspirei-me no Blog-Amigo: "O.C. - Ouriço-Cacheiro" (aqui) para refletir sobre a beleza. É algo muito pessoal e - falando ainda dos opositores (e agressores) do mundo GLBTS - é uma pena que a briga de dois lados toma geralmente rumo teórico, com argumentos criados nos escritórios de políticos ou de religiosos e não deixa espaço para uma partilha de experiências. Muitos falam de homossexualidade como "opção" (entende-se: escolha), ou "desvio de comportamento", "más influências", etc. Pergunto eu: onde nessa história fica o MEU PADRÃO DE BELEZA? É possível escolher aquilo de que se gosta, ou - logicamente - o gostar é independente da vontade? Vou dar um exemplo. Nunca gostei de leite. Se fosse uma questão de vontade, ao saber de todos os seus benefícios, tomaria a decisão de gostar de leite. A mesma coisa acontece, por exemplo, com a música. MPB - adoro. Funk - detesto. Música sertaneja - não gosto. Pois bem. Se o meu olhar volta-se com admiração (e desejo) em direção aos rapazes jovens, magros, não muito altos, cujo sorriso acho encantdor, será que haveria possibilidade de "redirecionar" a minha atenção, por exemplo, para mulheres? Só para deixar claro: eu não acho as mulheres feias por serem mulheres. Vou dizer assim: "Esta mulher é bonita" e "aquele garoto é lindo". Dá para notar a diferença? Talvez eu esteja confundindo a beleza com a atração, mas acho que, até certo ponto, ambas se misturam (ou, pelo menos, encontram e influenciam). Concordo com Juan Heféstion (do blog citado acima) quanto à importância da beleza interior. Acho, porém, que o que realmente importa é a BELEZA TOTAL, ou seja, a exterior e a interior, juntas. É verdade que uma é capaz de complementar algumas falhas da outra, mas não é mesma coisa que substituir. Quem, portanto, procura cuidar de sua própria beleza, vai prestar atenção tanto ao interior quanto ao exterior, notando que, quanto mais estiver em paz consigo mesmo, terá reflexos disso mais evidentes, também em sua aparência. Lembro-me de um conhecido meu que, um dia, perguntou: "Você está amando?". "Por quê?!" - devolvi a pergunta. "Porque tá bonito!". De fato, naquele tempo estava vivendo uma das melhores fases do meu relacionamento amoroso. O amor transborda e revela a BELEZA TOTAL da pessoa. E quanto ao "padrão da beleza"? Cada um tem o seu próprio...