ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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4 de junho de 2011

Maria e Pentecostes

O Papa Bento XVI disse que não há Igreja sem Pentecostes e não há Pentecostes sem a Virgem Maria. (Oração Regina caeli, 23/05/2010, Solenidade de Pentecostes - aqui). E o seu predecessor, Beato João Paulo II, em uma catequese dedicada a Maria e o dom do Espírito (aqui), explica que a partir do momento que na Anunciação o Espírito Santo já havia descido sobre ela, recobrindo-a com a «sua sombra » e dando origem à Encarnação do Verbo. Tendo já feito uma experiência muito singular acerca da eficácia desse dom, a Virgem Santíssima estava na condição de o poder apreciar mais do que qualquer outro (...). Ela, plenamente consciente da importância da promessa de seu Filho aos discípulos (cf. Jo 14, 16), ajudava a comunidade a dispor-se bem para a vinda do «Paráclito». A sua singular experiência, então, enquanto a fazia desejar ardentemente a vinda do Espírito, empenhava-a também em predispor mentes e corações daqueles que estavam ao seu lado. (Audiência geral, 28/05/1997)

Embora muitos seguidores de Cristo tenham ainda certas dificuldades em reconhecer o papel de Maria no plano da salvação, ou seja, localizar o lugar exato ocupado por Ela nesse plano, nós católicos, não nos imaginamos sem a sua presença. Em outra ocasião, o Papa Bento XVI disse: Desde sempre foi claro que a catolicidade não pode existir sem um comportamento mariano, que ser católico quer dizer ser mariano (enquanto o site do Vaticano apresenta alguns problemas, leia a matéria no portal "Gaudium press" - aqui).

Nós, gays católicos, sabemos disso muito bem. Entre vários títulos atribuídos a Maria, especialmente querido para nós deve ser o de “Consoladora dos aflitos”. Isso não quer dizer que nos sintamos “coitados”, mas que, ao reconhecermos a nossa condição que, devido incompreensões, julgamentos e rejeições, provenientes do preconceito acarreta bastante aflições, recorremos à nossa Mãe que, até hoje, também não é compreendida por muitos e rejeitada. Entretanto, Nossa Senhora está no céu, gozando a prometida consolação. Nós buscamos a consolação para sabermos consolar os outros, de acordo com a Palavra de Deus: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação. Ele nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e qualquer aflição. Pois, à medida que os sofrimentos de Cristo crescem para nós, cresce também a nossa consolação por Cristo. (2Cor 1, 3-5). Não é por acaso que um dos termos, com o qual é traduzido o nome grego do Espírito Santo Paráclito é, justamente, o Consolador. Mas sobre isso vamos refletir numa das próximas postagens.



Leia também sobre a imagem de Nossa Senhora dos Gays - aqui


3 de junho de 2011

Compare

Deixo aqui dois vídeos que têm muito em comum. Compare o tom do discurso e a reação dos ouvintes...


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Este é o comentário de um blog amigo (Homorrealidade - aqui):

A falta de Amor somada com a falta de Inteligência torna possível a existência de homens como Malafaia e Bolsonaro - Triste Vídeo - Triste Realidade!

Uma pena que toda essa "cristandade" não seja utilizada para cuidar do Bra$il que realmente necessita... Saúde e educação desmoronam diariamente e a meta desse grupo de fanáticos religiosos é combater "Direitos Fundamentais" de pessoas que nada fizeram a eles...
Aceitar e respeitar as diferenças parece ser um exercício distante e impossível diante de tanto ódio e violência.
São Lobos em peles de Cordeiros... mas a fantasia começa a ficar curta pois o apetite destes lobos por sangue de LGBTTs assassinados só cresce!

A união da falta de AMOR com a crescente falta de INTELIGÊNCIA dos fieis e eleitores criou Malafaias e Bolsonaros.

É triste a percepção da realidade. A Ignorância desses iludidos fieis é utilizada em favor do Crime disfarçado de religião.

O Cenáculo



“Sim, escrevo-vos do Cenáculo, relembrando o que aqui se passou”. Com a frase de Beato João Paulo II, da Carta aos Sacerdotes por ocasião da Quinta-Feira Santa de 2000, inicio a reflexão, no contexto da Novena de Pentecostes. O Papa, naquela linda carta (aqui), refere-se, evidentemente, à instituição da Eucaristia e do Sacerdócio ministerial, mas sabemos que, neste mesmo lugar, aconteceram outras coisas importantes, inclusive a própria efusão do Espírito Santo, no dia de Pentecostes. O nome “Cenáculo” vem da palavra latina cena, quer dizer, ceia. Os evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) fornecem detalhes interessantes sobre a misteriosa escolha do local da última ceia (cf. Mt 26, 17-19; Mc 14, 12-16; Lc 22, 8-13). A primeira conclusão, sempre atual e bastante prática, é que os lugares têm sua importância nos planos de Deus. Nada acontece por acaso. Cada um de nós nasceu em um lugar determinado. Nós, cristãos, temos gravado na alma o local em que fomos batizados, recebemos Jesus na Eucaristia pela primeira vez, fomos crismados, alguns casaram, outros sepultaram o pai e/ou a mãe... Quem de nós, que porventura tenha se deslocado ao longo de sua vida, não gostaria de visitar o lugar onde passou a sua infância, ou o local que marcou a sua primeira paixão, o primeiro beijo, e assim por diante? Os lugares especiais trazem à tona o conteúdo que marcou a nossa vida, renovam os sentimentos, refrescam a memória. Eu tenho alguns lugares assim. Ninguém ergueu monumentos ali e, para todo o resto da humanidade, são – provavelmente – lugares insignificantes. Lembro-me, por exemplo, o lugar onde, pela primeira vez, admiti a minha homossexualidade e aquele outro, marcado pelo primeiro beijo. A partir dali, começou uma nova fase da minha vida. Também da minha vida espiritual. Eu sei que há quem considere isso uma blasfêmia, mas, desde o momento em que descobri que estava apaixonado e que essa paixão era homossexual, a minha compreensão do amor de Deus deixou de ser uma teoria. É claro que, se eu fosse um heterossexual, o fruto seria o mesmo. O essencial é experimentar o amor. Uma coisa é ler sobre o amor e talvez até se emocionar com os textos e imagens que mostram essa realidade. Amar, entretanto, é diferente. A experiência engloba vários elementos: palavras, sentimentos, o toque e, principalmente, aquela luz extraordinária que invade nossa mente, nossa alma, enfim, todo o nosso ser.

No Cenáculo de Jerusalém aconteceu tudo isso. O evangelista João dedica cinco capítulos inteiros (13-17) ao que aconteceu ali durante a última ceia, deixando aos sinóticos a descrição da instituição da Eucaristia. Este texto de João está cheio de emoção, pois descreve, justamente, a intimidade de Jesus com seus discípulos. São palavras densas, dramáticas, apaixonadas. Foi ali que Jesus disse: um de vós me entregará (Jo 13, 21); Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros (Jo 13, 34); não cantará o galo antes que me tenhas negado três vezes (Jo 13, 38). Sem dúvida, foi essa experiência única que “prendeu” os apóstolos ao Cenáculo. Na manhã de domingo da Ressurreição, quase todos estiveram ali. Tomé que, como único, estava ausente, teve a sua “Páscoa da Ressurreição”, uma semana depois, no mesmo local. E quando, na ocasião da Ascensão do Senhor, o evangelista Lucas, no seu segundo livro (Atos dos Apóstolos) diz que os apóstolos voltaram para Jerusalém, acrescenta: Entraram na cidade e subiram para a sala de cima onde costumavam ficar. (At 1, 13). Mais tarde diz: Quando chegou o dia de Pentecostes, os discípulos estavam todos reunidos no mesmo lugar. (At 2, 1)

O mapa dos meus “cenáculos” ultrapassa limites de um só continente. Hoje percorro todos eles, cheio de gratidão. Tenho consciência de que o cenáculo é, também, o lugar em que acontece o envio. Renovo o meu compromisso da missão recebida. É uma tarefa doce e amarga ao mesmo tempo. É a missão de amar.

Novena de Pentecostes


Ontem (quinta-feira, 02 de junho), em algumas partes do mundo, foi celebrada a Solenidade da Ascensão de Nosso Senhor. Aqui no Brasil e em vários outros países (inclusive na Itália e no próprio Vaticano) a celebração é transferida para o próximo domingo. A primeira opção corresponde melhor à cronologia dos acontecimentos relatados pela Sagrada Escritura e, também, situa de maneira mais exata, o período atual, vivido pela Igreja como a Novena de Pentecostes. A própria novena como tal, tem a sua origem e o seu modelo, justamente, naquela resposta obediente dos discípulos de Jesus que, juntamente com Maria Santíssima e outros seguidores do Mestre, permaneceram em Jerusalém, esperando o cumprimento da promessa do Senhor (cf. At 1, 4-5). Proponho, nestes dias, um ciclo de reflexões que podem se enquadrar numa espécie de "Novena de Pentecostes", embora - desta vez - sem tanta disciplina de atribuir a cada dia uma reflexão/oração específica (como tentei fazer em "Novena de Natal [a partir daqui], Oitava de Natal [a partir daqui], ou Via Sacra [aqui]).

Aguardem.

Ao Eduardo


Caros Leitores Amigos. Escrevo neste espaço para todos, tendo deixado bastante claro o caráter deste blog, logo no topo da página. As minhas postagens nunca têm um único destinatário, mas estão dirigidas a todos. Todos também têm a liberdade de dar a sua opinião. Leio com atenção cada comentário. Desta vez, permito-me escrever a um comentarista (não digo leitor, pois tenho dúvidas a respeito do principal atributo deste nobre título [leitor], que é de... LER). Transformei a minha resposta, junto com o comentário, numa reflexão aberta a todos. Como digo no texto: pelo respeito aos meus Leitores.
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Caro Eduardo, recebi e publiquei o seu comentário (aqui) e decidi transcrevê-lo nesta nova postagem. Tenho impressão de que Você não tenha entendido - ou lido direito - o texto da postagem em questão. Pode ser que eu não tenha conseguido explicar direito o fato de ser, eu mesmo, um homossexual que, apesar de tudo, procura cultivar a própria identidade cristã-católica. Por isso usei aquela figura de um fenômeno pesquisado pela física quântica, chamado "mundos paralelos". Deixei clara a minha tentativa de buscar meios para construir pontes, contatos, encontros entre esses dois mundos: o "mundo gay" e o "mundo cristão". Ao ler o seu texto - que achei bastante amargo e, sim, um tanto grosseiro - penso que Você não tenha tido a mesma preocupação (de buscar possibilidades de contato e diálogo). Se Você quiser, leia outras reflexões neste blog. Vai poder perceber (talvez) o meu ponto de vista e, quem sabe, um pouco da minha experiência de cristão e de gay também.

Eu não tenho medo de encarar a verdade nua e crua. Com meus 45 anos tive bastante oportunidades de fazê-lo e sei que isso pode ser bastante doloroso. Quando Você se refere ao "meu meio", não sei se está falando do "meio cristão" (como sugerem suas palavras), ou ao "meio homossexual", pois pertenço a ambos (por mais incrível que pareça). Concordo com Você em questão de muitos pregadores que condenam a homossexualidade e praticam o mesmo. Se Você encontrar uma palavra no meu blog que tenha sido uma condenação à homossexualidade ou aos homossexuais, dou-lhe também razão e assumo que sou "velho tipinho hipócrita". Mas, primeiro, venha me provar isso. No seu perfil do blogger (aqui) não consta nada sobre a sua idade, mas suponho que Você seja uma pessoa jovem. Não tenho argumentos suficientes para achar que Você não goste de ler ou tenha alguma dificuldade em compreender o que esteja lendo. Se for verdade, é inútil pedir que Você releia o texto em questão e, se tiver cultura suficiente, retrate-se em um novo comentário. Sinceramente, não espero que isso aconteça... Mas, pelo respeito (conhece esta palavra?) aos Leitores do meu blog, publico aqui, tanto o seu comentário, quanto a minha resposta.

Última palavra: quando Você diz: "Torço para que você se liberte de você mesmo", vêm na mina mente aqueles gritos de Silas Malafaia ou de outros malucos por aí que querem curar os homossexualidade. Ou Você quer me curar do cristianismo? Há um bom tempo, reconciliei em mim estas duas maravilhosas realidades. Sou gay. Sou cristão. Graças a Deus!
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TRANSCREVO AQUI O COMENTÁRIO DE EDUARDO
(o texto comentado por ele está aqui)

"No momento, vejo-me numa "esquizofrenia existencial" que pode ser vista, também, como "hipocrisia forçada" ou "inevitável vida dupla". Com outras palavras: quando, de alguma maneira, estou "atuando" na Igreja, obviamente oculto o meu "lado B", quer dizer, a identidade homossexual. E, ao "atuar" no "mundo gay", por exemplo neste blog, escondo os pormenores da minha ligação com a Igreja." [Este é o fragmento do meu texto, ao qual Eduardo faz referência]

[Aqui começa, de fato, o comentário de Eduardo]:
Ao ler isso,senti pena,nojo e sei lá *me recuperando do choque*...medo,acho que você tem medo de encarar a verdade com realmente ela é,nua e crua. '-'
MUITA hipocrisia.E pensar que muitos no seu meio fazem o mesmo.Padres,pastores,todos pregando que a homosexualidade é algo do demônio,e muitos praticando.E pensar que quase fui na de vocês.Reprimindo meus desejos,e vivendo uma vida amarga em nome da promessa de Deus,da sociedade integra e seus bons costumes,e blá,blá,blá...

O que dói profundamente é que muitos gays[coitados!] são enganados por pessoas como você,o velho tipinho hipocrita do "faça o que eu falo,mas não faça o que eu faço"[a sociedade tá cheio de gente assim],acaba os confundindo,deixando-os ainda mais confusos e negando quem realmente são[ao invés de ajudar,condenam].

Desculpe se pareci grosseiro,foi o único jeito que encontrei para mandar a falsa moral religiosa se f***!

Torço para que você se liberte de você mesmo.^^

2 de junho de 2011

Mundos paralelos

A teoria dos mundos paralelos pertence originalmente à ficção científica, mas conquistou espaço, também, nas pesquisas da física quântica. Segundo alguns cientistas, entre os que abraçaram a ideia, os mundos paralelos são incomunicáveis entre si. Outros sustentam o contário. Por exemplo, a "teoria das cordas" (aqui) diz que nosso próprio universo é como uma bolha que existe lado a lado de universos paralelos semelhantes e esses universos podem entrar em contato entre si.

Não vou entrar em detalhes. Sempre tive problemas com ciências exatas. Bem, exceto à química, cujo professor era homossexual e costumava dar notas melhores aos rapazes, ainda que fossem analfabetos nessa matéria. Mas isso não vem ao caso. Ou vem? Quero utilizar aquela teoria para retratar a existência de, pelo menos, dois universos paralelos. Nem sei direito como definir o campo ou a dimensão em que eles se encontram (ou melhor: desencontram!). Seja o nível espiritual, cultural, moral, linguístico... enfim. Estou falando de "mundo gay" e "mundo das Igrejas" (ou religiões em geral). Quando leio ou escuto os argumentos de ambos os lados - pois "funciono", de certa forma, tanto em um, quanto no outro mundo - vejo razões, sinto paixões, reconheço preocupações. Entretanto, diferentemente da "teoria das cordas", não consigo perceber grandes possibilidades de diálogo e, menos ainda, de compreensão mútua. Talvez eu seja um pessimista. Com frequência, fico perguntando a mim mesmo: o que, de fato, pode ser feito para que o contato desses mundos paralelos aconteça? No momento, vejo-me numa "esquizofrenia existencial" que pode ser vista, também, como "hipocrisia forçada" ou "inevitável vida dupla". Com outras palavras: quando, de alguma maneira, estou "atuando" na Igreja, obviamente oculto o meu "lado B", quer dizer, a identidade homossexual. E, ao "atuar" no "mundo gay", por exemplo neste blog, escondo os pormenores da minha ligação com a Igreja. Posso estar errado, mas a intuição me diz que, justamente como na "teoria das cordas", quando esses universos (paralelos) interagem, acontece um Big Bang. Tenho certeza de não estar preparado para tal ocorrência na minha vida. Por outro lado, vejo a urgente necessidade desse contato. Como construir as pontes? Certamente, já existem sinais de aproximação. Nem todos nas Igrejas cristãs são homofóbicos. E nem todos no mundo GLBTS são "antieclesiais" (atnticlericais, antipapistas, anticristãos, etc.). Há esperança, apesar de muitos obstáculos. A minha esperança, em particular, está na ação do Espírito Santo e na promessa de Jesus de que o Paráclito nos conduzirá à plena verdade (cf. Jo 16, 13).

Encontrei, no blog "GLS é humano" (aqui) um vídeo que retrata bem a trágica realidade dos "mundos paralelos". Se a legenda ficar pequena demais para sua leitura, clique no canto inferior direito do vídeo e assista diretamente no YouTube.


1 de junho de 2011

Dia da Criança

Embora a comemoração do Dia da Criança, aqui no Brasil, tenha a data marcada para 12 de outubro, é hoje que a maioria dos países do mundo presta homenagem aos pequeninos (confira aqui). No contexto de reflexões sobre a homossexualidade, raramente o nosso pensamento se volta à criança como sujeito, digno de atenção. Em vez disso, muitos enxergam nela apenas o objeto/alvo de disputa, como acontece na briga pelo kit-antihomofobia, ou em polêmica sobre a adoção de crianças por casais homoafetivos. O assuto "criança" entra em pauta, evidentemente, quando falamos sobre a pedofilia. Tudo isso é importante, mas onde é que fica a contribuição ativa da própria criança? Lembro-me de um ditado que dizia: "Peixes e crianças não têm a voz". Que pena! Sei que é um assunto extremamente delicado, por isso proponho a reflexão de alguém que já era criança (como todos nós) e, justamente no período de infância, experimentava os primeiros sinais de sua homossexualidade. O texto completo encontra-se no blog "Papai Gay" (aqui). Entre outras coisas, o Autor diz: Criança gay não é como Papai Noel: EXISTE! Para quem duvida, vou esclarecer. De onde vieram todos os gays que vemos por aí? De outro planeta? Já nasceram adultos? Eram hoterosexuais até o fim da adolescência? (...) Desde muito novo, lá pelos meus 5 ou 6 anos eu já havia me dado conta que era gay. Sabia exatamente o que isso significava: ser atraído pelo mesmo sexo. Eu me apaixonava pelos amiguinhos, pelos amigos do meu pai, pelos porteiros, mas é claro, tudo dentro da inocência e cabeça de uma criança. Sentia vontade de ver homens pelados, como eu acredito que as crianças heteros sentem vontade de ver peitos e revistas de mulheres peladas escondido. Lembro bem da revista de homens nus que minha empregada tinha, eu já estava com 8 anos, e devorava cada foto da mesma. Qual a conclusão? Eu era uma criança gay! Nada mudaria essa verdade.

O texto acima, carregado de emoção, encontra respaldo nos argumentos profissionais. Kimeron N. Hardin, doutorado em psicologia, diretor do Centro de Combate à Dor da Universidade em São Francisco, escreve em seu livro "Auto-estima para homossexuais. Um guia para o amor próprio" (Editora Summus, São Paulo, 2000): Muitos adultos gays e lésbicas lembram de terem se sentido desdenhados, de maneira direta ou não-verbal, devido à sua atração por pessoas do mesmo sexo. Mesmo que a sua família não tenha discutido abertamente a questão da sua homossexualidade, ou até mesmo da sexualidade em geral, você provavelmente conhecia a postura da sua família sobre essas questões e aprendeu a esconder esses sentimentos. O reconhecimento precoce por parte de uma criança de sua atração por pessoas do mesmo sexo, numa família ou cultura sem atitudes tolerantes em relação a essa orientação, pode fazer com que a criança desenvolva uma fragmentação de sua identidade, criando uma pública e outra privada ou secreta. (...) As crianças gays e lésbicas têm uma probabilidade muito maior de fugir de casa e até de tentar o suicídio do que seus correlatos hetrossexuais, provavelmente para escapar de um sistema familiar disfuncional que resiste à noção de uma criança com uma identidade que não se adapta a ele. (...) Crianças gays e lésbicas sadias frequentemente aprendem a compartimentar as suas vidas, guardando suas partes secretas (sua sexualidade) bem lá no fundo. Elas desenvolvem um exterior conformista, que segue as regras do sistema familiar e lhes permite funcionar numa relativa segurança, até serem capazes de se mudar para um ambiente mais saudável ou que as aceite melhor. (p. 43 e 47)