ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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27 de maio de 2011

Nova Cantuária

A liturgia de hoje (27/05) leva-me a refletir sobre o amor que se expressa no diálogo conduzido pelo Espírito Santo. A busca de soluções, diante dos desafios concretos e sempre novos, muitas vezes exige o sacrifício. Ainda que, frequentemente, não chegue ao extremo, o ideal proposto por Jesus de “dar a vida” (cf. Jo 13, 15), sempre se faz presente. A polêmica sobre os pagãos que abraçaram a fé em Cristo, relatada na liturgia desta semana, é o excelente exemplo. A questão começa com muita confusão e uma grande discussão (cf. At 15, 2). Depois houve testemunhos, um grande silêncio e a decisão final dos Apóstolos, ou melhor, do Espírito Santo junto com eles (cf. At 15, 4-29). Vale à pena transcrever as palavras de Paulo: Irmãos, vós sabeis que, desde os primeiros dias, Deus me escolheu, do vosso meio, para que os pagãos ouvissem de minha boca a palavra do Evangelho e acreditassem. Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a favor deles, dando-lhes o Espírito Santo como o deu a nós. E não fez nenhuma distinção entre nós e eles, purificando o coração deles mediante a fé. Então, por que vós agora pondes Deus à prova, querendo impor aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós mesmos tivemos força para suportar? Ao contrário, é pela graça do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos, exatamente como eles. (At 15, 7-11). Certamente, não foi fácil modificar a mentalidade dos irmãos de origem judaica. Todos eles tinham recebido, com leite materno, a convicção de pertencer ao único povo escolhido por Deus. E agora, precisavam reconhecer o fim desta exclusividade, quer dizer, perder a vida para ganhar a vida (cf. Mt 10,39; 16,25; Mc 8,35; Lc 9,24; 17,33). Paulo define essa perda/conquista: Não há mais judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, pois todos vós sois um só, em Cristo Jesus. (Gal 3,28) Portanto, não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, que é generoso para com todos os que o invocam. (Rm 10, 12)

Este princípio de amor, capaz de dar a vida e de acolher irmãos diferentes, levou Santo Agostinho de Cantuária [Canterbury] (+ 604), celebrado hoje, a encarar a perigosa missão na Grã Bretanha, a pedido de seu pai espiritual, São Gregório Magno, o papa. No ano de 597, Agostinho e 40 outros monges beneditinos, ao desembarcarem, seguiram em procissão ao castelo do rei, tendo a cruz à sua frente e entoando cânticos sagrados. Não seria grande surpresa, se um desses cânticos tivesse sido o Salmo 56, proclamado hoje na liturgia: Meu coração está pronto, meu Deus, está pronto o meu coração! Vou louvar-vos, Senhor, entre os povos, dar-vos graças por entre as nações! Agostinho, com a ajuda de um intérprete, apresentou ao rei Etelberto o Evangelho e pediu permissão para pregá-lo em suas terras. Impressionado com a coragem e a sinceridade do religioso, o rei, apesar de todas as expectativas em contrário, deu a permissão imediatamente. No Natal do mesmo ano mais de dez mil pessoas já tinham recebido o batismo. Entre elas, o próprio rei e toda a nobreza da corte. Em seguida, Agostinho foi nomeado arcebispo da Cantuária, primeira diocese fundada por ele.

Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. (Jo 15, 16).

Santo Agostino é venerado, igualmente, por católicos e anglicanos, sendo assim uma referência no diálogo entre as duas Igrejas. Em 1982, o Beato Papa João Paulo II, durante sua viagem à Inglaterra, visitou o túmulo do Santo e, ali mesmo, encontrou-se com Robert Runcie, o 102° Arcebispo de Cantuária (leia o discurso do Papa aqui) e ambos assinaram a “Declaração Conjunta” (aqui) que, entre outras coisas, diz: O nosso objetivo não se limita apenas à unificação das nossas duas Comunhões, excluindo os outros Cristãos, mas antes estende-se ao cumprimento da vontade de Deus, a qual consiste na unidade visível de todo o seu povo. No presente diálogo, e nos que são desenvolvidos por outros Cristãos entre si e conosco, nós reconhecemos, nos acordos que pudermos alcançar e nas dificuldades que encontramos, um novo desafio a abandonarmo-nos completamente a verdade do Evangelho. Sem dúvida, a memória de Santo Agostinho e a recordação dos passos dados na história recente, inspiraram os trabalhos da Comissão Internacional Anglicano-Católica (ARCIC) reunida desde último dia 17/05, no mosteiro italiano de Bose. No comunicado final, divulgado hoje, a comissão composta por 18 teólogos católicos e anglicanos declarou que "aquilo que nos une é maior do que aquilo que nos divide" (palavras repetidas, no mesmo contexto do diálogo ecumênico, pelo Beato Papa João XXIII). O texto acrescenta ainda: Serão analisadas algumas questões particulares para esclarecer como as nossas duas comunhões abordam assuntos morais e como problemas que causam tensão para os anglicanos e católicos romanos podem ser resolvidos através da aprendizagem mútua.

Escrevo tudo isso com o propósito de sonhar junto com os meus Leitores. Já imaginaram a “Comissão Permanente”, composta por teólogos, representantes da hierarquia eclesial e... homossexuais? Parafraseando as palavras de João Paulo II, estamos de acordo que o momento é chegado de formar uma nova Comissão. A sua tarefa será a de continuar o trabalho já iniciado; de examinar, especialmente à luz das nossas respectivas opiniões, as principais diferenças doutrinais que ainda nos separam, em vista da sua eventual resolução; de estudar tudo o que impede o recíproco reconhecimento; e de recomendar que medidas hão de ser necessárias tomar quando, em base à nossa unidade na fé, formos capazes de prosseguir para o retorno a uma comunhão completa. Damo-nos perfeitamente conta de que a tarefa desta nova Comissão não será fácil, mas encoraja-nos a confiança que temos na graça de Deus. Enquanto continua este necessário trabalho de esclarecimento teológico, ela deve ser acompanhada pelo zeloso trabalho e pela fervorosa oração de todos os católicos, heterossexuais e homossexuais, pois eles precisam crescer na compreensão recíproca, no amor fraterno e no comum testemunho do Evangelho. Nessa ocasião, o Santo Padre, poderia repetir as palavras de seu grande predecessor, São Gregório Magno, escritas na ocasião daquela missão à Inglaterra: Cristo, o grão de trigo, caiu na terra e morreu para não reinar sozinho no céu. Por sua morte nós vivemos, por sua fraqueza nos fortalecemos, por sua paixão nos libertamos da nossa. Por seu amor procuramos (...) irmãos que desconhecíamos; por sua bondade, encontramos aqueles que procurávamos sem conhecer. (São Gregório Magno, Cartas).

Uma loucura

Hoje quase surtei. Tinha acabado de abrir a página da CNBB para ler a mais recente “voz da Igreja” (na onda da polêmica sobre uniões homoafetivas). Ao mesmo tempo, chegava aos meus ouvidos, o áudio da “propaganda partidária obrigatória”. Alguns minutos mais tarde, ouvi a Presidenta Dilma falando coisas estranhas. Conclusão: não entendi absolutamente nada. Nem do bispo, nem do PSOL, nem da Dilma. Ora, eu não fumei nehuma erva. Mas eles... não sei! Dom Antônio Augusto Dias Duarte (Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro), em seu texto “A Bíblia e o frei” (aqui), tenta ser eloquente, mas o fio condutor do discurso, acaba se emaranhando. Como em outros casos de artigos publicados pela CNBB, consegui pescar dois “peixinhos” (ou duas pérolas) - frases interessantes do autor: [1] Ainda há tempo – se alguns freis, alguns ministros de tribunais, alguns políticos, alguns padres e alguns pastores permitirem –, de recuperar plenamente o sentido da Bíblia como o grande código de vida para as culturas, incluindo aqui também a cultura gay, para pensar e direcionar melhor todas as considerações sobre a homossexualidade. [2] (...) A Bíblia sempre existirá para que cada pessoa, com suas particularidades e com sua história singular, reconheça-se e valorize-se como criatura de Deus e como filha no Filho Eterno do Pai por obra do Espírito Santo, a fim de que responda à vocação do amor e da comunhão nela inscrita e aceite a própria identidade sexual e a viva na sua especificidade e na sua complementaridade. Queira me desculpar Dom Antônio Augusto, mas o resto do texto é, para mim, uma confusão e tanto. Quem quiser, leia na fonte, sob a sua própria responsabilidade. O meu conselho é de desligar a TV e tentar se concentrar. O que aconteceu comigo foi ouvir duas vezes, no meio daquela leitura desafiadora, as exclamações de partidários do PSOL que pretendem defender “homens, mulheres e homossexuais”. Eu devo não ter escutado direito. Será possível? Pensando bem, é mesma lógica que o bispo usa em seu artigo e que, para contestar o fenômeno da homossexualidade, cita a Bíblia: “Deus disse: façamos o ser humano à nossa imagem e segundo a nossa semelhança (...). Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus os criou. Homem e mulher Ele os criou” (Gen 1, 25-27). Vale notar que essa é a principal argumentação dos religiosos, opositores da união afetiva de pessoas do mesmo sexo: Deus criou o macho e a fêmea (como gritavam os outdoors de Silas Malafaia, espalhados pela cidade). Isso significa que, na opinião deles, a pessoa homossexual não é homem nem mulher. Deve ser então um monstro! Ou bicho! Aí vem, depois, a Presidenta e diz que “não vai ser permitido a nenhum órgão do governo fazer propaganda de opções sexuais”. Por estar tentando, naquele momento, decifrar o propósito do texto de Dom Antônio Augusto, tive a impressão de que a Dilma havia se inspirado em uma das teorias do prelado: Em primeiro lugar, é politicamente inexato dizer que as pessoas nascem assim, pré-determinadas a uma biologia ou sujeitas necessariamente a uma definição cultural sobre a sua raça ou sobre o seu sexo. Quem diria que persiste ainda a ideia de que a identidade sexual seja uma opção, quer dizer, uma escolha. Putz! Se eu soubesse...

Corrija-me quem quiser!
Localize na web aquela propaganda do PSOL, porque eu possa não ter entendido direito.
Leia o artigo do bispo, porque eu fiquei perdido.
Tente interpretar as palavras da Presidenta, porque... sei lá!

Eu desisto...
Alguém tem um pouco de erva para compartilhar comigo?

26 de maio de 2011

Ajude a combater o preconceito

Pequenos gestos são capazes de promover grandes conquistas.
PARTICIPE !



25 de maio de 2011

A mola e a bola

Não pretendo entrar em detalhes da Terceira Lei de Newton (“Para cada ação há sempre uma reação, oposta e de mesma intensidade”), tampouco da Lei de Hooke (sobre a elasticidade de corpos). Estas e tantas outras leis e teorias procuram descrever e calcular os fenômenos que acontecem ao nosso redor. Não pretendo, também, escrever sobre coisas óbvias, embora tenha impressão de que o tal do óbvio não está tão evidente para muita gente. Gostaria de aplicar o método de Jesus para comentar certas situações e opiniões que, recentemente, ganharam bastante espaço na mídia, em nossas conversas e até em nobres salões onde estão sendo definidas as regras de vida. O método de Jesus chama-se parábola, parente próxima de alegoria. O Senhor dizia: vejam os lírios no campo, os pássaros, a mulher na cozinha e o rico que fazia festas todos os dias, etc. Por trás das figuras e imagens, surgia o mistério, revelado aos que tinham olhos para ver e ouvidos para ouvir. Muitos, porém, continuavam franzindo a testa e rangendo os dentes. O coração deles permanecia endurecido. Outros, enteretanto, ficavam fascinados com novos horizontes e abraçavam uma nova vida, nascida da nova visão. O primeiro fruto dessa boa-nova foi a alegria que nada e ninguém conseguia apagar. Tudo isso aconteceu há quase dois mil anos. Tudo isso está acontecendo hoje.

O portal católico Zenit publicou (em 27/02 – aqui) um texto que, entre outras coisas, afirma: Durante muitos anos, grupos homossexuais advogaram pela tolerância e pela eliminação das leis que eles consideravam discriminatórias. Agora que, em grande medida, eles venceram sua batalha, seu entusiasmo pela tolerância desapareceu. Os cristãos, que por razões de consciência sentem que não podem ser favoráveis ao comportamento homossexual, sofrem cada vez mais pressões.

Quando leio essas (e tantas outras) declarações de gente espantada e amargurada com o “avanço da minoria homossexual”, lembro-me, imediatamente, da mola e da bola. A bola quica e a mola se estica, depois de comprimida. É a coisa mais natural, previsível e comprovada pelas leis da física. Algo analógico acontece na história da humanidade. Basta ler um pouco de história, por exemplo, do ponto de vista de revoluções e guerras ou, simplesmente, de tantas transformações sociais, religiosas e políticas, mais ou menos pacíficas. A experiência de opressão, humilhação, persegição, etc., torna-se, em algum momento, a força da reação. Enquanto a Terceira Lei de Newton fala de "mesma intensidade", a força da reação social, geralmente, devolve com juros. É, justamente, como a mola. Comprimida e solta em seguida, a mola não volta, simplesmente, ao estado anterior de “relaxada”, mas pula mais alto e, só depois de alguns movimentos para cima e para baixo, alcança o equilíbrio. O que, no caso de mola ou bola acontece em poucos instantes, na história da humanidade leva bastante tempo. Podemos dizer que a comunidade GLBTS, oprimida por séculos, está ganhando a oportunidade de respirar. É claro que vai saltar o mais alto possível. Até mesmo para assegurar os seus direitos, negados por tanto tempo. Provavelmente, vai acontecer algum exagero, o que é natural. Exatamente, como aconteceu na abolição da escravatura, na emancipação da mulher, nos movimentos antirracistas, sem falar dos judeus, depois do Holocausto. Quem tem boa memória ou gosta de vasculhar a história, vai constatar que, em todos estes fenômenos, houve alguns equívocos. O mesmo acontece com a criança que começa a dar primeiros passos. Alguém viu uma criança que tenha desistido de ficar em pé por causa de tombos que levou? Como dizia Kleber Bambam do BBB-1, “faz parte”. Por isso, digo a todos os apavorados com as reivindicações da “lobby gay”: tenham paciência! Se vocês também colaborarem, em breve vamos alcançar o equilíbrio, desejado por todos. Haverá novo céu e nova terra. Nos parques da cidade veremos casais hetero e homossexuais, passeando de mãos dadas. Ninguém em nossas escolas vai ridicularizar e agredir os meninos efeminados e meninas com jeito de garoto. Em nossas festas de família haverá casais homossexuais e os pais irão convidar o namorado do filho para um churrasco. No exército, no futebol e em todas as outras áreas, ninguém vai ficar barrado no seguimento de sua carreira profissional. Haverá Pastoral para Homossexuais e os gays serão admitidos ao sacerdócio. Desaparecerão deputados idiotas e padres, jornalistas, professores (etc.) preconceituosos. Homossexuais poderão doar sangue.

Sonho? Delírio? Ou a lei da mola e da bola.
Se deixar quieto, haverá equilíbrio.

As vozes da Igreja [3]

O portal da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB - aqui), tornou-se ultimamente palco de debates sobre a homossexualidade. Vários prelados, certamente "pegaram a onda" e, como surfistas profissionais, deslizam pelo assunto que, recentemente, está - digamos - na moda. A unanimidade dos hierarcas da Igreja Católica do Brasil, revela-se apenas na repetição daquele (discutível) slogan de "não equiparar as uniões de pessoas do mesmo sexo à família". Fora disso, é pura diversidade (de opiniões). O Arcebispo de Uberaba (MG), Dom Aloísio Roque Oppermann, no artigo "O direito de ser protegida", usa a metade do texto para elogiar e defender homossexuais. É verdade que, no final dessa parte, aplica uma alfinetada (de duvidosa ironia), mas diante de tanto carinho anterior, quase não dá para senti-la. A segunda parte do texto já é outra história (aquela sobre "não equiparar"), embora apareça, como pérola no meio de bijuteria, um pensamento intrigante (sublinhado por mim). O artigo não é muito grande, por isso decidi transcrevê-lo na íntegra. Para quem quiser conferir na fonte, clique aqui.
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O direito de ser protegida
23 de maio de 2011
Dom Aloísio Roque Oppermann scj
Arcebispo de Uberaba - MG


Não vemos dificuldade em aceitar - como justiça líquida e garantida - que as pessoas que sentem atração sexual por representantes do mesmo sexo, sejam respeitadas. Na homofilia tratamos com seres livres, cuja dignidade humana não pode ser ferida. São seres humanos particularmente dotados para certas artes e ciências. São filhos e filhas de Deus. Não escolheram sua condição, e por isso “merecem ser tratados com respeito”, livres de “qualquer sinal de discriminação injusta” (Catecismo da Igreja Católica, nº 2358). Os motivos da tendência homossexual ainda são amplamente inexplicados, havendo razoável certeza em não atribuí-los a causas genéticas. Talvez a pedagogia futura saiba explicar melhor do que nós, a gênese da tendência. Então sim, existirá a possibilidade de escolha. Por enquanto, não devemos amargurar a vida dessas pessoas. A homossexualidade não é fenômeno moderno. Ela atravessa todos os tempos da história da humanidade, ora com presença mais explícita, ora menos acentuada. Entre eles há até grandes benfeitores da raça humana.


Mas no fragor dessa luta, todos devemos estar concordes em reconhecer o valor da instituição familiar tradicional, dessa união estável entre um homem e uma mulher. Inclusive os homossexuais vão me dar razão, pois eles provieram de uma união dessas. As diferenças sexuais do masculino e do feminino são originárias, e não produtos de uma cultura posterior, como querem alguns próceres da ONU. A família monogâmica, e o matrimônio natural entre um homem e uma mulher são a raiz fundamental de todo Direito. Segundo as Escrituras, são destinados a “serem uma só carne” (Gn 1, 27). Outros tipos familiares podem existir, mas não devem ser equiparados à Família, que é baseada na complementaridade dos dois sexos, à procriação e educação dos filhos. [1] Equiparar todos os tipos de união possível seria ameaçar a estabilidade do grupo primordial, que tem a capacidade única de integrar as gerações e acolhe-las. Ela recebeu de Cristo um privilégio inestimável de ter sua união elevada à categoria de Sacramento. O que não é o caso das outras uniões. A Família tem o direito de ser vigorosa e sadia. [2] Isso só será possível se receber a proteção privilegiada do poder público. Na atualidade se está vendo exatamente o contrário.
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Faço mais alguns comentários:
[1] Na minha opinião, da mesma maneira como não é necessário insistir (brigar) para dar à união de pessoas do mesmo sexo o nome de "matrimônio" (ou "casamento"), também podemos abrir mão do termo "família". Por que não dizer "comunidade", "núcleo", "círculo", etc.?. Por outro lado, a história (também da Igreja) mostra-nos que certos nomes, títulos e termos, originalmente reservadas para uma só realidade, acabaram espalhando-se por toda parte. Todos se lembram das palavras de Cristo: não chameis a ninguém na terra de mestre, pai ou guia (cf. Mt 23, 8-10). Entretanto, é justamente na Igreja que encontramos uma multidão de mestres, pais e guias. Como se Jesus falasse: você pode ser tudo, menos mestre, pai e guia. E hoje, os mesmos mestres, pais e guias dizem: esses uniões podem ser tudo, menos família. A solução é simples: vamos voltar à versão original. Eles renunciam os seus títulos e nós abrimos mão do termo "família". Está combinado?
[2] A família torna-se sadia, vigorosa e está protegida quando, por meio de uma evangelização levada a sério e, também, por meio das leis adquadas (civis e religiosas), está sendo preparada para acolher, com amor e respeito, os filhos (próprios e dos outros), inclusive os filhos e filhas homossexuais. A família é sadia e vigorosa quando, no processo de educação dos filhos (e também no habitual modo de pensar, falar e agir da própria família) exclui-se rigorosamente todo e qualquer tipo de preconceito. Também a homofobia.

24 de maio de 2011

Vamos orar?

O tempo pascal tem o seu desfecho na solene celebração do dia de Pentecostes (neste ano: 12/06). Cinquenta dias depois da ressurreição de Jesus, foi derramado o Espírito Santo sobre os apóstolos, reunidos no cenáculo com Maria e outros irmãos e irmãs. Tradicionalmente, no período de 9 dias que precedem a celebração de Pentecostes, os cristãos revivem a experiência dos discípulos de Cristo, em forma de uma novena. É o tempo particularmente dedicado à oração. Eu sei que muitos entre nós homossexuais vivem brigando com a Igreja e com Deus. Certamente, não são poucos, que abandonaram a oração. Aproveitando a proximidade do dia de Pentecostes, quero propor um renovado esforço na busca de espiritualidade, ou seja, de uma vida marcada pelo sincero e amoroso colóquio com Deus. Podem nos ajudar, neste sentido, as palavras do Beato João Paulo II, de sua Encíclica Dominum et vivificantem (aqui). Confesso que eu, como homossexual que acredita em Jesus e procura segui-lo, fico animado, ao identificar-me com a mensagem do Papa:
É belo e salutar pensar que, onde quer que no mundo se reze, aí está presente o Espírito Santo sopro vital da oração. É belo e salutar reconhecer que, se a oração se encontra difundida por todo o universo, igualmente difundida é a presença e a ação do Espírito Santo, que «insufla» a oração no coração do homem em toda a gama incomensurável das mais diversas situações e das condições, umas vezes favoráveis, outras vezes contrárias à vida espiritual e religiosa. Em muitos casos, sob a ação do Espírito, a oração sobe do coração do homem, apesar das proibições e das perseguições (...). A oração continua a ser sempre a voz de todos os que aparentemente não têm voz (...). O Espírito Santo é o Dom, que vem ao coração do homem ao mesmo tempo que a oração. Na oração Ele manifesta-se, antes de mais e acima de tudo, como o Dom, que vem em auxílio da nossa fraqueza. (n° 65)
Então, vamos orar?

Mandamentos de Jesus

Já começou terça-feira, mas eu ainda estou com o Evangelho de ontem na cabeça. Demorei,  porque fui jantar, numa churrascaria, com um amigo (aquele que, há uns anos, era mais do que amigo). Provavelmente ninguém vai acreditar, mas conversamos - entre outras coisas - sobre os pecados capitais, tais como a preguiça ou a gula, o que, naquelas circunstâncias, teve a sua base existencial. Enfim, além de barriga cheia demais, fiquei com a conclusão de que o "ex" é "ex" mesmo e não adianta insistir (desta vez nem tentei). Os nossos mundos se distanciaram. Sobrou uma amizade que talvez sobreviva ainda por muito tmpo, mas já posso notar os efeitos daquela distância crescente entre os nossos mundos.

Vamos, então, ao Evangelho de ontem. Jesus disse: Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele. (Jo 14,21-26). Fiquei pensando, quais são, exatamente, os mandamentos de Jesus? Ah, sim, os mandamentos de Deus (o Decálogo), pois Jesus é Deus. A resposta seria somente esta, ou há algo mais? Em seu ensinamento, o Senhor fez várias referências aos 10 mandamentos que Deus tinha transmitido ao Povo de Israel por intermédio de Moisés. Ao jovem que queria saber como alcançar a vida eterna, Jesus disse: "Guarda os mandamentos", indicando-os como base para uma decisão mais corajosa: vender tudo, distribuir entre os pobres e seguir o Mestre (cf. Mt 19, 16-22; Mc 10, 17-22; Lc 18, 18-23). Em outra ocasião, Jesus dedicou longo discurso ao entendimento mais profundo de alguns mandamentos (cf. Mt 5, 17-48). Enquanto, neste caso, podemos dizer que Jesus tenha "apertado o parafuso", muitas vezes chegou a ouvir duras críticas dos fariseus e mestres da lei, justamente, por ter "afrouxado" o mesmo parafuso. Numa visão geral, Jesus podia ser visto, tanto como um conservador, quanto um liberal. Com outras palavras: parece uma grande confusão. A chave para desvendar o dilema é aquela expressão única, à qual o próprio Cristo se refere como "o meu mandamento". Foi no cenáculo, horas antes de sua morte na cruz, que Jesus disse: Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. (Jo 13, 34-35) Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. (...) O que eu vos mando é que vos ameis uns aos outros. (Jo 15, 12. 17) Notemos que a citação inicial desta reflexão pertence ao mesmo contexto daquela íntima e comovente conversa de Jesus com os discípulos, no cenáculo. É uma espécie de testamento. É, também, a resposta clara, a todas as dúvidas e críticas a respeito de sua doutrina sobre os mandamentos. Ele disse, em outra ocasião: Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir. (Mt 5, 17) Alguns tradutores preferem: Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição, o que pode significar, também, "levar à plena compreensão" (porque seria impossível cumprir, sem compreender). Parece confirmar isso mais uma afirmação de Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos. (Mt 22, 37-40) À luz deste princípio entendemos o motivo de "apertar o parafuso", por exemplo, no mandamento "Não cometerás adultério": Ora, eu vos digo: todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela em seu coração. (Mt 5, 28) Lembro-me de um amigo, gay, que disse ser possível que ele tenha cometido um monte de pecados, mas esse, de olhar para uma mulher daquele jeito, nem lhe passou na cabeça. Brincadeira à parte, Jesus aponta o perigo de instrumentalização (alguns dizem "coisificação") de outra pessoa (seja mulher ou homem), o que constitui uma das faltas graves contra o amor, mesmo que aconteça apenas no pensamento. Por outro lado, acusado de violar o preceito referente ao sábado (o dia santo dos judeus), Jesus denuncia a hipocrisia dos adversários: Em dia de sábado, o que é permitido: fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou matar? (Mc 3, 4) Ou seja, no sábado e em qualquer outro dia, é preciso amar. Para concluir, tentando responder à pergunta inicial: "quais são os mandamentos de Jesus", leiamos o que Ele mesmo diz, nessa mesma passagem, lida na segunda-feira (Jo 14,21-26): Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. (v. 23) Percebemos que, neste pequeno trecho, o termo "meus mandamentos", é apresentado como sinônimo de "minhas palavras". Entre todas as palavras de Jesus, registradas nos 4 evangelhos, aquelas que têm a forma de ordem, ganham, evidentemente, o maior destaque. Cito apenas algumas e digo que a leitura do Evangelho, sob este ângulo, é muito interessante (como costumam dizer os nossos jovens: fica dica!):
+ Segui-me! (Mt 4, 19)
+ Assim brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus. (Mt 5, 16)
+ Procura reconciliar-te com teu adversário. (Mt 5, 25)
+ Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. (Mt 5, 37)
+ Ora, eu vos digo: Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem! (Mt 5, 44)
+ De fato, se vós perdoardes aos outros as suas faltas, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará. (Mt 6, 14)
+ Não julgueis, e não sereis julgados. (Mt 7, 1)

... e assim por diante...