ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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18 de maio de 2011

Sodoma - uma evolução

Há três semanas, o Papa Bento XVI, iniciou uma nova série de catequeses, proferidas - de costume - em todas as quartas-feiras no Vaticano. O tema deste novo cíclo é a oração. Hoje (18/05), o Papa dedicou o seu discurso à figura de Abraão, como modelo de intercessor, no contexto de sua oração pelas cidades de Sodoma e Gomorra (cf. Gn 18). O texto, na íntegra, pode ser encontrado no site da Canção Nova (aqui), pois o portal do Vaticano publica, no momento, apenas um resumo. O que chama minha atenção é o fato de não haver no texto qualquer menção, nem mesmo alusão, que associasse o pecado dos habitantes daquelas cidades à homossexualidade. Vale lembrar que o Catecismo da Igreja Católica (redigido sob o comando do então Prefeito da Congregação Para a Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI), no número 2357, faz essa associação, ao dizer: Apoiando-se na Sagrada Escritura, que os apresenta como depravações graves, a Tradição sempre declarou que «os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» (a nota, no rodapé, menciona, entre outros textos, Gn 19, 1-29 [a destruição de Sodoma e Gomorra]). E na Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais (aqui), assinada pelo mesmo Cardeal Ratzinger, lemos a seguinte afirmação: O deterioramento devido ao pecado continua a desenvolver-se na história dos homens de Sodoma (cf. Gn 19, 1-11). Não pode haver dúvidas quanto ao julgamento moral aí expresso contra as relações homossexuais. (n° 6) O curioso da catequese de hoje é que o Santo Padre, ao falar sobre a mesma história bíblica, limita-se a seguintes termos:
- narra-se que a malvadeza dos habitantes de Sodoma e Gomorra havia chegado ao seu ápice, tanto que se tornou necessário uma intervenção de Deus para realizar um ato de justiça e parar o mal, destruindo aquelas cidades
- Deus decide revelar-lhe [a Abraão] aquilo que está para acontecer e lhe faz conhecer a gravidade do mal e as suas terríveis consequências
- o pecado (...) invadiu a realidade do homem 
- Abraão compreende imediatamente o problema em toda a sua gravidade
- se a cidade é culpável, é justo condenar o seu crime e infligir a pena
- Com a sua oração, portanto, Abraão não invoca uma justiça meramente retributiva, mas uma intervenção de salvação que, tendo em conta os inocentes, liberte da culpa também os ímpios, perdoando-os
- não se podem tratar os inocentes como os culpáveis
- se os malfeitores aceitam o perdão de Deus e confessam as culpas deixando-se salvar, não continuarão mais a fazer o mal, tornar-se-ão também esses justos, sem mais necessidade de serem punidos
- A destruição de Sodoma devia parar o mal presente na cidade
- É o perdão que interrompe a espiral do pecado
- O mal, de fato, não pode ser aceito, deve ser assinalado e destruído através da punição: a destruição de Sodoma tinha exatamente essa função
- nem mesmo dez justos se encontravam em Sodoma e Gomorra, e as cidades foram destruídas
- as cidades estavam fechadas em um mal totalizante e paralisante
- é dentro da realidade doente que deve estar aquela semente do bem que pode curar e restituir a vida

Pois bem, há quem diga: "O Papa não falou sobre o homossexualismo porque todo mundo sabe que se trata disso mesmo!" Além de preferir o termo "homossexualidade" (em vez daquele "-ismo"), eu não concordo com essa ideia. Ao evitar aquela infeliz associação de Sodoma com a homossexualidade, o Papa - pelo menos - abre espaço para outras interpretações, ou seja, volta à leitura objetiva (imparcial) da Bíblia. No contexto um pouco diferenta (mas no mesmo texto da catequese), Bento XVI usa seguintes termos: "Se lemos, no entanto, mais atentamente o texto, damo-nos conta de que...". É, exatamente, isso! Ler mais atentamente, para darmo-nos conta de que a passagem bíblica em questão não faz a mesma associação que os fundamentalistas homofóbicos fazem. Este, aliás, é o convite que o Papa dirigiu, no final da catequese de hoje, aos peregrinos de língua portuguesa: Convido-vos a aproveitar o percurso que faremos nas próximas catequeses para conhecer melhor a Bíblia, que tendes – penso eu – em casa. Durante a semana, parai um pouco a lê-la e meditá-la na oração para aprenderdes a história maravilhosa da relação entre Deus e o homem: Deus que Se comunica a nós, e nós que Lhe respondemos rezando. Sereis assim uma bênção no meio dos vossos irmãos, como foi Abraão. A Virgem Mãe vos guie e proteja!

17 de maio de 2011

O Bom Pastor

O último domingo (4° da Páscoa) foi celebrado como a Festa de Jesus Bom Pastor. Em algumas regiões do mundo, toda esta semana é dedicada, justamente, a esta característica de Cristo. Sugerem isso as próprias leituras litúrgicas. No texto de hoje (Jo 10, 22-30), temos uma revelação importante: a fé faz com que nos tornamos membros do rebanho do Senhor. Jesus disse aos seus adversários: vós, porém, não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas (v. 26). Logo, se acreditamos, somos das ovelhas do Senhor. Mas, não é só isso. Ontem ouvimos mais uma coisa importante: Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem (Jo 10, 14). De onde nos vem este conhecimento? No domingo, Jesus disse: Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas (...) as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome (...) e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz (cf. Jo 10, 2-4). Não é tão fácil (mas, também, nem tão importante) definir o que acontece primeiro e o que depois: crer, ouvir ou conhecer. O Apóstolo Paulo escreveu que a fé vem pela pregação e a pregação, pela palavra de Cristo. (Rm 10, 17) Por outro lado, o acolhimento da Palavra, supõe a fé. Fala sobre isso o mesmo Apóstolo: Agradecemos a Deus sem cessar, porque, ao receberdes a palavra de Deus que ouvistes de nós, vós a recebestes não como palavra humana, mas como o que ela de fato é: palavra de Deus, que age em vós que acreditais. (1Tes 2,13) O conhecimento de Jesus é o dom de Deus. Vale lembrar aqui aquela conversa de Jesus com os discípulos, na qual o Senhor perguntava sobre as opiniões a respeito de sua pessoa. Quando Pedro acertou a resposta, Jesus disse: Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu (Mt 16,17). Com outras palavras, tudo é dom de Deus (Santa Teresinha do Menino Jesus, no leito de morte, repetia: “tudo é graça”). Estes três fenômenos (fé, escuta e conhecimento) são dinâmicos e, necessariamente, interativos. O ser humano pode deixar de crer, parar de escutar e abandonar o conhecimento. Vem aqui, portanto, uma dica importantíssima para nós: escutemos a voz do Senhor. Além de ouvi-lo em nosso coração, devemos dedicar-nos à leitura da Sagrada Escritura. O Papa Bento XVI escreveu, na Exortação Apostólica Verbum Domini (aqui): Exorto todos os fiéis a redescobrirem o encontro pessoal e comunitário com Cristo, Verbo da Vida que Se tornou visível, a fazerem-se seus anunciadores para que o dom da vida divina, a comunhão, se dilate cada vez mais pelo mundo inteiro. (...) Não existe prioridade maior do que esta: reabrir ao homem atual o acesso a Deus, a Deus que fala e nos comunica o seu amor para que tenhamos vida em abundância (cf. Jo 10, 10). [n° 2] Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo para podermos amar cada vez mais a Palavra de Deus. [n° 5]
E para nós, homossexuais, há mais uma coisa importante, também provenirnte das leituras litúrgicas desta semana. No início do anúncio da Boa Nova, tinham sido batizados somente os judeus. Com o passar do tempo e, principalmente, com a dinâmica da própria Palavra de Deus, começaram a abraçar a fé, também os pagãos. Nem todos os irmãos de origem judaica gostavam disso. Vejamos a passagem dos Atos dos Apóstolos: Naqueles dias, os apóstolos e os irmãos, que viviam na Judeia, souberam que também os pagãos haviam acolhido a Palavra de Deus. Quando Pedro subiu a Jerusalém, os fiéis de origem judaica começaram a discutir com ele, dizendo: “Tu entraste na casa de pagãos e comeste com eles!” (...) [Pedro disse] Deus concedeu a eles o mesmo dom que deu a nós que acreditamos no Senhor Jesus Cristo. Quem seria eu para me opor à ação de Deus? Ao ouvirem isso, os fiéis de origem judaica se acalmaram e glorificaram a Deus, dizendo: “Também aos pagãos Deus concedeu a conversão que leva para a vida!” (At 11, 1-3. 17-18). Hoje em dia, não faltam aqueles que questionam a presença de homossexuais na Igreja. E como a reação dos "irmãos de origem heterossexual" é a mesma que a dos judeus convertidos ao cristianismo, a resposta não pode ser diferente: quem são vocês para se oporem à ação de Deus? (cf. At 11, 17).

Nosso Dia

Hoje é o Dia Internacional de combate à Homofobia. A data foi escolhida para lembrar a exclusão da homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 17 de maio de 1990. O Dia foi oficializado em 1992. Nesta ocasião, muitos veículos de comunicação, fazem uma homensagem ou, ao menos, mencionam o fato. E não se trata apenas de meios de comunicação que representam o "mundo gay". Como exemplo, trago um fragmento do material publicado no blog "Textos de Thereza Pires" (aqui). Thereza Pires apresneta-se assim: Carioca do Rio Comprido, moro no Rio, Graduada em Jornalismo pela UFRJ, Membro da Anistia Internacional [Todos os meus textos estão disponíveis para reprodução parcial ou total, desde que a fonte seja citada]. Thereza dedica um pensamento de ternura:
~ para meu filho, que tem a coragem e a coerência de se expor e pelos seus amigos e amigas gays
~ para Harvey Milk, primeiro politico assumidamente gay, vítima de crime de ódio
~ mais uma vez e sempre, pelos gays enforcados no Irã, pelos mortos por skinheads, ou mortos por gays enrustidos assassinos
~ para Judy Shepard, mãe coragem que tenta superar, com ativismo pela causa da não homofobia, o desespero te ter perdido o filho Matthew Sheppard de forma brutal
~ [aqui quero acrescentar: para Angélica Ivo, mãe de Alexandre Thomé Ivo Rajão e para os demais familiares e parentes deste menino de 14 anos, assassinado por crime de ódio - homofobia - no dia 21/06/10 na cidade de São Gonçalo - RJ (veja o blog: aqui)]
~ Para cada um que já foi vítima de chacota, deboche e escárnio na vida social, escolar ou profissional e pelas famílias que apoiam e compreendem seus meninos e meninas gays, sendo - elas mesmas - muitas vezes repelidas e discriminadas, em geral pelos parentes mais próximos
~ por quem precisa viver "na clandestinidade", mesmo sem desejar e apela para casamentos de mentirinha
~ para os gays soropositivos e os que já desenvolveram a AIDS, mas as famílias, com quem dividem o teto, nem de longe imaginam mesmo qual sua orientação sexual
~ para os excomungados da Igreja Catolica Romana e pelos excluídos nas religiões fundamentalistas
~ para as mães que tentam militar em favor da não homofobia - com boa vontade, é certo - mas não conseguem reinventar a maternidade pois, elas mesmas, são as primeiras a discriminar e não ousam reconhecer isso
~ para travestis e transexuais - que me inspiram especial carinho e que são, às vezes, discriminados pela própria comunidade LGBT.
Agradeço a Theresa pela sua atenção e carinho. O apoio de pessoas reconhecidas na sociedade e não necessariamente ligadas com o nosso ambiente, é muito importante para nós, homossexuais (e outros membros do mundo da diversidade sexual). Assim, mais gente (de mente abera e coração sensivel), terá a oportunidade de perceber que não se trata de uma obsessão ou de usurpação por parte de um pequeno grupo de pessoas, mas que, de fato, a luta é pela dignidade de todos os seres humanos.

15 de maio de 2011

As vozes da Igreja [2]

Escrevi recentemente (aqui) sobre as primeiras (moderas, mas de certo modo, positivas) reações de alguns bispos católicos, ao reconhecimento (pelo STF) da união homoafetiva como legítima. Mais tarde, veio a nota oficial da CNBB (comento aqui) que, literalmente, detona aquelas primeiras reações dos bispos e acaba com a nossa ilusão de um clima diferente naquele meio. Existem, entretanto, algumas vozes da Igreja que ressoam em tom diferente. No site da própria CNBB encontrei um pequeno artigo de Dom Aloísio Roque Oppermann, Arcebispo de Uberaba, MG. O tamanho do texto permite a sua transcrição no blog. Quem quiser conferir se é verdade, acesse o site da CNBB (aqui). Confesso que li a coisa várias vezes e, a conclusão a qual cheguei é que o Dom Aloísio Roque seria o primeiro bispo católico no Brasil, pronto para abençoar o casmento de pessoas do mesmo sexo. Sei que, no momento, isso não é possível, mas leiam, vocês mesmos, o que ele escreveu. Não é verdade que o bispo expressa sua admiração pelos gays?

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Por que os casais hetero não querem e os gays querem? .
14 de Maio de 2011; por: CNBB


Nos tempos atuais, sobretudo no meio urbano, moços e moças, não fazem muita força para se casar “de papel passado”. A multidão dos que apenas “ajuntam os trapos”, e vão morar juntos, cresce de ano para ano. Basta percorrer um bairro novo. Parece que os jovens temem assumir compromissos definitivos. O computador que hoje é o último grito, amanhã vai para o aterro sanitário. Os parceiros, convidados para uma “união no Senhor”, parecem preferir a provisoriedade. Ademais, as leis civis embaralharam tanto o direito da família, que ninguém mais precisa casar perante a lei. A legislação não favorece a estabilidade familiar. Caso queiram um documento de união civil, basta dirigir-se ao poder público, que o atestado será fornecido em pouco tempo. E logo em seguida, caso o considerarem necessário, podem obter o “divórcio instantâneo”, sem problema. Por que ainda casar, se a nova geração não sente mais utilidade no reconhecimento público da sociedade? E vejam que ainda nem estou falando do casamento religioso.
 
Agora vejam a luta dos gays. Querem que suas uniões sejam equiparadas às de uma família tradicional. Querem que existam leis que garantam a herança para o parceiro; que cada qual possa ter acesso ao sistema de saúde; que possam adotar crianças... Eles sabem se mexer. Mas não é este seu objetivo principal. Onde querem chegar, é obter o reconhecimento público da sociedade. É exatamente o que “homem e mulher”, no casamento tradicional, julgam poder dispensar. A aprovação pública de casamentos heterossexuais não é apenas útil, mas uma garantia para a estabilidade da família. A legislação civil não se ocupa em facilitar a perenidade da família. Sua maior preocupação é criar leis que facilitem qualquer veleidade de separação. Agora digo uma coisa. Para quem tem fé cristã, e tem verdadeiro amor ao parceiro, receber a bênção de Deus se torna um imperativo categórico. Isso vem em primeiro lugar. Também casar perante a lei civil é de grande valor. Mas vem em segundo lugar.

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Eu quero os dois!
...pois é, só me falta um parceiro
(mas isso já é outra história).

CNBB - duas notas

Não estou falando de duas notas em categorias escolares, embora este ponto de vista possa servir como introdução. Neste caso, as duas notas seriam: 10 e 0. Até parece uma goleada. Infelizmente, o time da CNBB não é o vencedor, pelo menos no balanço final. As duas notas, sobre as quais pretendo escrever, são as recentes declarações da cúpula da Igreja Católica no Brasil. Uma observação importante: vou interpretar apenas duas de um número maior de notas emitidas, nestes dias, pela CNBB. Os bispos do Brasil, reunidos em Aparecida (interior de SP), nos últimos dias 4 a 13 de maio, na 49ª Assembléia Geral, abordaram diversos temas, emitindo no final alguns textos, tais como “As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil”, a “Moção de Apoio à Frente Parlamentar Mista em Defesa da Vida - Contra o aborto”, homenagem na ocasião da (próxima) beatificação de Irmã Dulce e da (recente) beatificação de João Paulo II, além de vários outros. Um dos textos que quero abordar é o “Compromisso solidário da CNBB com a Causa Indígena no Brasil” e o outro, “Nota da CNBB a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal quanto à união entre pessoas do mesmo sexo”. O primeiro destes documentos pode ser encontrado, por exemplo, no portal da Canção Nova (aqui) [não consegui localizá-lo no site da CNBB]. O outro está – evidentemente – no site da CNBB (aqui). A leitura fica muito mais interessante, quando se faz a comparação destas duas declarações. Ambas começam em tom solene, mas logo tomam rumos diferentes. Vejamos o início do “Compromisso solidário com a causa indígena”: Reunidos na 49ª Assembléia Geral, nós, bispos do Brasil, mais uma vez tomamos conhecimento dos sofrimentos e injustiças que afetam os povos indígenas do nosso País. Por isso, não podemos deixar de reagir, de forma solidária e comprometida, diante da grave situação em que se encontram tantos desses nossos irmãos. Beleza! Nota 10! Que tal, ao falar de homossexuais, começar da mesma maneira? Reunidos na 49ª Assembléia Geral, nós, bispos do Brasil, mais uma vez tomamos conhecimento dos sofrimentos e injustiças que afetam as pessoas homossexuais do nosso País. Por isso, não podemos deixar de reagir, de forma solidária e comprometida, diante da grave situação em que se encontram tantos desses nossos irmãos. Em vez disso, suas excelências (e algumas eminências), falam que equiparar as uniões entre pessoas do mesmo sexo à família descaracteriza a sua identidade e ameaça a estabilidade da mesma. Tudo bem, há, no meio do texto, uma frase cautelosa que diz: As pessoas que sentem atração sexual exclusiva ou predominante pelo mesmo sexo são merecedoras de respeito e consideração. Repudiamos todo tipo de discriminação e violência que fere sua dignidade de pessoa humana – mas não e é a mesma coisa, nem o mesmo efeito, quando se fala, mais adiante, sobre a ameaça que as uniões homoafetivas trazem para família. É o mesmo que dizer: não se pode discriminar nem tratar com violência as pessoas homossexuais, mas cuidado, porque essas mesmas pessoas desestabilizam a família que, como se sabe, é um recurso humano e social incomparável, além de ser também uma grande benfeitora da humanidade. Ela favorece a integração de todas as gerações, dá amparo aos doentes e idosos, socorre os desempregados e pessoas portadoras de deficiência. Portanto têm o direito de ser valorizada e protegida pelo Estado. Vamos defender a família de todos que pretendem ameaçá-la (e que todos que nos escutam, escolham a maneira de lutar por isso, até mesmo com paus, pedras, facas e armas de fogo, se for necessário). É claro que os bispos não chegam a este ponto, mas trata-se de um jeito antipedagógico de dizer as coisas. As ideias de violência podem, facimente, nascer numa mente "católico-homofóbica" (é o que não falta por aqui). Vejamos, também, outro trecho do texto sobre a causa indígena: Muitos povos indígenas enfrentam conflitos decorrentes da não demarcação de suas terras, perseguição de suas lideranças, ameaças de morte, assassinatos, prisões ilegais, criminalização de suas lutas e outras agressões à sua dignidade e aos seus direitos constitucionais. Esses conflitos são responsáveis pelo alto índice de violência que, de 2003 a 2010, ceifou a vida de 499 indígenas. No texto “dedicado” aos homossexuais poderia ser, mais ou menos, assim: Muitos homossexuais enfrentam conflitos decorrentes da falta de espaço na vida social e religiosa, perseguição de suas lideranças, ameaças de morte, assassinatos, prisões ilegais, criminalização de suas lutas e outras agressões à sua dignidade e aos seus direitos constitucionais. Esses conflitos são responsáveis pelo alto índice de violência que, apenas em 2010, ceifou a vida de 260 homossexuais e de outros 65, nos primeiros três meses deste ano. No Brasil, um homossexual é morto a cada 36 horas e esse tipo de crime aumentou 113% nos últimos cinco anos. Que ilusão! Não há nada sobre isso! A ausência – no texto dos bispos - de qualquer menção sobre a trágica situação de homossexuais, tem uma explicação. Na nota sobre as uniões entre pessoas do mesmo sexo, os bispos apontam a fonte de sua inspiração: motivados pelo Documento de Aparecida, propomo-nos a renovar o nosso empenho por uma Pastoral Familiar intensa e vigorosa. Para quem não sabe, o Documento de Aparecida é o fruto da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, inaugurada pelo Papa Bento XVI e realizada em Aparecida no ano de 2007. O documento trata a “questão homossexual” assim: Entre os pressupostos que enfraquecem e menosprezam a vida familiar encontramos a ideologia de gênero, segundo a qual cada um pode escolher sua orientação sexual, sem levar em consideração as diferenças dadas pela natureza humana. Isto tem provocado modificações legais que ferem gravemente a dignidade do matrimônio, o respeito ao direito à vida e a identidade da família. [n° 40] Sinceramente, uma premissa dessas é como querer chegar ao Corcovado de barco. Conclusão: é ótimo que os indígenas são reconhecidos como “nossos irmãos”. E é péssimo que os homossexuais não têm o mesmo privilégio. É louvável que os bispos católicos do Brasil querem defender os índios. E é lamentável que – de fato – condenam os homossexuais.
P.S. Nesta reflexão lembrei-me da história de Susana do Antigo Testamento (leia o capítulo 13 do Livro de Daniel). Acusada por dois velhos perversos, estava prestes a ser condenada pela assembleia dos anciãos de Israel (olha a analogia). Deus ouviu a prece da mulher inocente e suscitou o espírito íntegro de um adolescente chamado Daniel, para socorrê-la. Daniel pediu que se ouvisse os dois acusadores separadamente. Inspirado por Deus, o jovem dirige à assembleia dos anciãos uma exortação: Como sois idiotas, israelitas! Sem julgamento e sem formar uma idéia clara acabais de condenar à morte uma mulher israelita! (Dn 13, 48) e, depois, recebe o primeiro dos homens com estas palavras: Ó homem envelhecido na malícia, agora teus pecados vão aparecer, tudo o que já vinhas praticando, ao dar sentenças injustas, condenando o inocente e deixando sair livre o culpado, quando a palavra do Senhor é: ‘Cuidado para não condenar à morte o inocente e o justo!’ (Dn 13, 52-53). Confesso que, ao ler as declarações da CNBB, referentes a homossexuais, tenho vontade de repetir os dizeres de Daniel. O curioso é que os bispos, ao tratarem da “causa indígena”, declaram: É necessário ouvir os povos indígenas (...), bem como combater a violência e proteger a integridade física dos membros de suas comunidades. Pergunto: e não é necessário ouvir e defender os homossexuais? A omissão, neste sentido, é contribuir para a sentença da morte deles! Como sois idiotas, homens envelhecidos na malícia! Sem julgamento e sem formar uma idéia clara acabais de condenar à morte os inocentes! (Cf. Dn 13, 48. 52)
P.S. [2] Mais uma interrogação: se, dentro de uma comunidade indígena, fossem "detectados" alguns homossexuais (o que, sem dúvida, ocorre de fato), esta comunidade não mereceria mais todo aquele cuidado da CNBB? Ou mereceria? O que prevalece nesse caso: a "causa indígena" ou a "questão homossexual"? Hein?
Hein ???

13 de maio de 2011

Bolsonarofobia?

Em abril publiquei (aqui) um texto sobre a ignorância e a arrogância. E ontem, ao assistir o Jornal Nacional, lembrei-me desse assunto. O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) é uma infeliz encarnação de ignorância e arrogância, ou melhor, de um casamento (ou, pelo menos da união muito estável) das duas. Foi o próprio demônio em pessoa, quem abençoou essa união! E olha que ambas pertencem ao mesmo gênero (estou falando de língua portuguesa). Para que ninguém pense que estou sendo preconceituoso (do tipo bolsonarofóbico), cito a frase que resume o conteúdo do panfleto que o deputado mandou fazer (por nosso dinheiro) e distribuir nas ruas do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira, dia 11 de maio: “Querem, na escola, transformar seu filho de 6 a 8 anos em homossexual”. Volto ao tema de ignorância e arrogância. Ninguém duvida que as duas alimentam-se mutuamente. Ambas, também, podem ser, simplesmente, uma herança recebida em casa (o que é apenas uma teoria que exige mais dados sobre a infância e a família do indivíduo em questão). A arrogância pode ser um dos sinônimos da falta de educação (“bons modos”), em seu sentido literal. A ignorância tem sua origem na falta de estudo. Por exemplo, quem não frequentou uma escola, frequentou mal, ou teve péssimos professores, acaba ficando ignorante. Todos esses supostos precedentes, podem não ter nada a ver com a realidade atual. Do mesmo modo como alguém aprende durante a vida inteira (dizemos que “cresce e aparece”), pode acontecer, exatamente o oposto. As lacunas no conhecimento geral nunca ficam preenchidas pelas experiências e descobertas da vida, devido... à arrogância (falta de humildade, soberba, egocentrismo, etc., etc.). Isso, provavelmente, não tem remédio. Mais uma observação: há vários exemplos, comprovando que as pessoas com uma obsessão relacionada com a sexualidade dos outros, possuem graves problemas na sua própria sexualidade. E quanto mais alto alguém grita “Eu sou heterossexual” e “É a discriminação dos heterossexuais”, deixa pairar no ar a dúvida, bastante séria, sobre a própria identidade sexual. Veja a matéria no portal da Globo (aqui).
Quanto ao título desta postagem: “Bolsonarofobia?”, confesso senti-la um pouco. Mas apenas no sentido original do termo “fobia”, quer dizer, o medo. Infelizmente, este indivíduo, por causa do triste efeito colateral da democracia, representa (por enquanto) o povo brasileiro, ou seja, foi eleito por uma parte deste povo. Por ser um deputado, ainda tem o poder de causar graves estragos na sociedade. Esta é a minha preocupação. Ou medo. Tudo bem, não chega a ser uma fobia, mas achei o neologismo legal. Declaro que dita “bolsonarofobia”, no meu caso, não terá nenhum efeito prático e nocivo para o próprio sujeito em questão, nem para qualquer outra pessoa. Não esqueço, porém, que a homofobia – pregada por Bolsonaro – tem este efeito. Muito prático e muito nocivo. A homofobia mata. Por isso concordo com a senadora Marinor Brito, que disse: “Tu és homofóbico. Tu deveria ir pra cadeia! Tu deveria ir pra cadeia! Homofóbico, criminoso, criminoso!”. Tirando ignorância e agressão à língua portuguesa, a senadora tem toda razão. Hitler, pessoalmente, talvez tenha matado algumas pessoas. Os que escutavam o seu discurso mataram milhões. Os filhos da mãe que escutam o discurso diabólico de Bolsonaro, transformam os argumentos dele em paus e pedras. Por isso estou falando de medo...
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P.S. Uma sugestão para Sr. Bolsonaro. Enquanto ele está preocupado com os “nossos filhos de 6 a 8 anos” que seriam transformados em homossexuais através do chamado “kit gay” (Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos do Ministério da Educação e Cultura - filmes e cartilhas contra a discriminação sexual, que o MEC deve começar a distribuir nas escolas de ensino médio no segundo semestre), as crianças muito menores estão – muito provavelmente - correndo o mesmo risco, assistindo televisão (assista o vídeo). Deputado! Elabore o projeto da lei sobre a necessidade de censura! Que tal?


10 de maio de 2011

Equiparação

O documento da Santa Sé (de 2003), assinado pelo então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Card. Ratzinger (atual Papa Bento XVI), “Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais” (aqui), afirma: Não existe nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimônio e a família. Não pretendo entrar, hoje, no mérito da frase, tampouco de todo este documento. Faço, entretanto, uma pergunta, inspirada no termo "equiparar" em conjunto com a mensagem litúrgica desta segunda-feira (a 1ª leitura relata o martírio de Estêvão: At 7,51-8,1a). De acordo com o Dicionário do Aurélio (on-line), "equiparar", significa: Comparar pessoas ou coisas, considerando-as iguais. / Igualar em condições ou em benefícios. Pois bem. O documento da Igreja diz que as uniões homossexuais - nem por analogias remotas - podem ser comparadas/igualadas ao matrimônio (deixo a discussão para outra hora, assinalando apenas que tenho sérias dificuldades para concordar com isso). A minha pergunta é: a perseguição e a morte de homossexuais, por causa de sua orientação sexual, podem ser equiparadas ao martírio de Estêvão (e de tantos outros mártires venerados pela Igreja)? Já ouço vozes que gritam: "Blasfêmia!" Vamos, então - desta vez - à fonte ainda mais legítima, do que um simples dicionário. O Catecismo da Igreja Católica diz: O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte. O mártir dá testemunho de Cristo, morto e ressuscitado, ao qual está unido pela caridade. Dá testemunho da verdade da fé e da doutrina cristã. Suporta a morte com um ato de fortaleza. (n° 2473) Por que razão, os homossexuais, travestis e tantos outros, estão sendo perseguidos, agredidos e assassinados? Por serem fiéis à verdade sobre si mesmos! Por amarem, do jeito que amam! Encontramos na Palavra de Deus as seguintes revelações: [Jesus respondeu:] Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. (Jo 18,37) e Eu sou o caminho, a verdade e a vida. (Jo 14,6), ou então, Deus é amor. (1Jo 4, 8) Será, de fato, uma blasfêmia, chamar de mártires, aqueles que sofrem e morrem por amor e pela verdade? Para nós, potenciais mártires (...portanto, vigiai, pois não sabeis o dia, nem a hora! [Mt 25, 13]), fica a preciosa lição, deixada pelo Santo Estêvão: Enquanto o apedrejavam, Estêvão clamou dizendo: “Senhor Jesus, acolhe o meu espírito”. Dobrando os joelhos, gritou com voz forte: “Senhor, não os condenes por este pecado”. E, ao dizer isto, morreu. (At 7, 59-60)