ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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22 de abril de 2011

Via Sacra [13]

XIII Estação: Jesus é descido da cruz

Um dos momentos anteriores vem na mente neste silencioso momento, em que o corpo de Jesus sem vida é descido da cruz. É o grito cruel dos religiosos, reunidos ao pé da cruz: Zombavam de Jesus os sumos sacerdotes, junto com os escribas e os anciãos, dizendo: “A outros salvou, a si mesmo não pode salvar! É Rei de Israel: desça agora da cruz, e acreditaremos nele. Confiou em Deus; que o livre agora, se é que o ama! Pois ele disse: ‘Eu sou Filho de Deus’”. (Mt 27, 41-43) Também os que passavam por ali o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: “Tu que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt 27, 39-40) Jesus tinha o poder de descer da cruz, assim como de se defender para não ser crucificado. Mas permaneceu fiel, no seu amor divino e humano, até o fim. Esta XIII Estação é, portanto, a revelação da fidelidade de Jesus. Como se Ele quisesse dizer: “Eu sou o que sou. Eu sou assim. Nada e ninguém vai tirar isso de mim. Foi para isso que eu vim”. No contexto de nossas reflexões sobre a homossexualidade, à luz da Paixão de Cristo, chegamos à questão de fidelidade à própria identidade. Embora haja, recentemente, um avanço de aceitação da homossexualidade, como algo inseparável da natureza humana e, portanto, uma clara oposição (apoiada pela lei, em alguns casos), diante das tentativas de “tratamentos” ou “terapias” para “curar” alguém desse “vício”, infelizmente existem ainda muitos que acreditam no êxito de tal procedimento. A profunda ignorância de tanta gente proclama a urgência de que o “gay vire homem”. Sinceramente, é o mesmo grito daqueles que zombavam de Jesus e exigiam que descesse da cruz. Ele não desceu, mas foi descido, somente depois de sua morte. Eu posso dizer que vou deixar de ser homossexual, só na hora da minha morte. Embora não tenha tanta certeza, pois o próprio Jesus disse sobre a vida além da morte: Quando ressuscitarem dos mortos, os homens e as mulheres não se casarão; serão como anjos no céu. (Mc 12,25). Essas palavras do Senhor parecem sugerir que a definição da sexualidade, ou pelo menos o casamento, é a coisa passageira e limitada apenas para esta vida (ou este mundo). Na eternidade não será assim. São Paulo, por sua vez, afirma: O amor jamais acabará. (...) Atualmente permanecem estas três: a fé, a esperança, o amor. Mas a maior delas é o amor. (1Cor 13, 8a. 13) Na eternidade, não teremos mais necessidade de fé e de esperança. Viveremos a plenitude de amor. Será que a orientação deste amor continuará, ou haverá uma transformação? Isso só vamos saber quando chegarmos lá. Como está escrito, “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu”. (1Cor 2, 9)

ORAÇÃO

Senhor Jesus! A Tua fidelidade até o fim inspira a minha fidelidade. Creio que sou assim, porque o Criador me fez deste jeito. Tu disseste: Não se vendem dois pardais por uma moedinha? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. (Mt 10, 29) Pois é! Nada acontece sem o consentimento do Pai do céu. É com este consentimento do Pai, que eu sou homossexual. Embora muitos gritem, para que eu deixasse de ser o que sou, o Teu exemplo de permanecer na cruz até o fim, consola-me e fortalece. Obrigado, Jesus!
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [12]

XII Estação: Jesus morre na cruz

Pelas três da tarde, Jesus deu um forte grito: “Eli, Eli, lamá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46) Jesus nunca foi abandonado por Deus, até porque Ele próprio é Deus. Na hora da morte, porém, Jesus experimentou o ápice de toda angústia humana. A partir daquele momento, também a sensação de ser abandonado por Deus, foi consagrada. Não é mais identificada com a blasfêmia. Quando sentimo-nos abandonados por Deus, estamos muito mais perto dele do que pode parecer. Muitos homossexuais experimentam esta angústia, alimentada, inclusive, por aqueles que se consideram representantes de Deus neste mundo. Não nos esqueçamos de que, ao pé da cruz, além de Maria Santíssima e o discípulo amado, estavam, justamente, os "representantes de Deus" que, naquela hora, não paravam de zombar de Jesus. Cristo está sendo representado, de maneira mais eloquente, pelos perseguidos e, por isso mesmo, angustiados, do que por aqueles que exibem os seus títulos e ministérios eclesiásticos. O livro "Vidas em arco-íris" (Editora Record; Rio de Janeiro, 2006) de Edith Modesto (fundadora do movimento dos pais de homossexuais), reune vários depiomentos de gays e lésbicas. Uma parte é dedicada à relação dessas pessoas com Deus. Um dos entrevistados, Bruno, diz: A adolescência foi quando começaram as crises, porque, para mim, que era protestante, eu tinha a minha realidade formada, eu acreditava em todo aqule mundo que a religião mostra. Então, na adolescência, óbvio que depois aconteceu de eu me apaixonar por outro rapaz e não entender o que estava acontecendo. Eu me preocupava com a minha família religiosa, e com Deus... Tinha uma coisa de Deus extremamente presente, absolutamente cruel. Eu iria ser muito castigado... Seria a minha destruição, com certeza. (p. 102) Betty Fairchild e Nancy Hayward, em seu livro "Agora que você já sabe: o que todo pai e toda mãe deveriam saber sobre a homossexualidade" (Ed. Record; Rio de Janeiro, 1996), citam a obra de McNeill, "The Church and the Homosexual": O homossexual passa por uma grande angústia mental e por um profundo sentimento de alienação, frequentemente se considerando uma pessoa banida, não apenas da sociedade, mas também do amor divino. (p. 188) Jesus crucificado deixou um testamento muito importante para todos aqueles que experimentam a sensação de serem abandonados por Deus: Não tenhas medo que fui eu quem te resgatou, chamei-te pelo próprio nome, tu és meu! Pois és muito precioso para mim, e mesmo que seja alto o teu preço, é a ti que eu quero! Para te comprar, eu dou, seja quem for; entrego nações, para te conquistar! Não tenhas medo, estou contigo! (Is 43, 1b. 4-5a)

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Eu sei que Tu estás sempre comigo. Nunca me abandonaste. Houve momentos em que gritei por me sentir desamparado. Peço-Te, abençoa todos os homossexuais, sobretudo os que se sentem abandonados ou condenados por Deus. Também aqueles que foram expulsos das Igrejas. Dá-nos a graça de experimentarmos a Tua presença e o Teu amor em nossa vida.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

21 de abril de 2011

Via Sacra [11]


XI Estação: Jesus é pregado na cruz

Dedico esta XI Estação a todos os homossexuais torturados e assassinados por causa de sua identidade homossexual. Didier Eribon conclui a introdução ao seu livro "Reflexões sobre a questão gay" (Ed. Companhia de Freud; Rio de Janeiro, 2008), com o seguinte texto: No momento em que termino este prefácio, leio nos jornais que um jovem gay foi assassinado nos Estados Unidos, numa cidadezinha do Wyoming. Foi torturado pelos dois agressores e abandonado, agonizante, pendurado numa cerca de arame farpado. Tinha 22 anos. Chamava-se Matthew Shepard. Sei bem que não é o único homossexual a ter conhecido sorte tão trágica nos Estados Unidos nos últimos anos. Sei igualmente que, em muitos países, os gays, as lésbicas, os bissexuais e os transexuais são regularmente, sistematicamente, vítimas de violências como essa. Um relatório da Anistia Internacional publicou recentemente uma lista aterrorizante e, com certeza, bem incompleta. Mas é a foto de Matthew Shepard que hoje tenho diante dos olhos; o relato do que ele sofreu. Como não pensar nele quando me preparo para publicar este livro? Como não pedir ao leitor para nunca esquecer, ao lê-lo, qua não são apenas problemas teóricos que estão em jogo? (p. 23) Jesus disse: Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. (Mt 25, 40) Jesus continua sendo crucificado. E a Igreja, em vez de lavar os pés dos mais marginalizados, continua lavando as suas próprias mãos.


ORAÇÃO

Senhor Jesus! Foste humilhado, torturado e crucificado. Olha com amor àqueles que são crucificados por causa de sua homossexualidade. Recebe-os no Teu reino.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [10]

X Estação: Jesus é despido de suas vestes

As vestes de Jesus estavam praticamente grudadas em Seu corpo por causa do sangue coagulado nas feridas causadas pelo açoitamento. (...) A roupa foi arrancada, causando surtos de dor pelo corpo de Jesus. (Frederick T. Zugibe, "A crucificação de Jesus: as conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal"; Ed. Idéia & Ação; São Paulo, 2008; p. 67) Nos textos devocionais de Via Sacra, fala-se frequentemene, nesta estação, sobre a imoralidade, associada à nudez. É interessante notar, neste contexto, que a vergonha causada pelo corpo nu, é a primeira consequência do pecado. Então os olhos de ambos se abriram, e, como reparassem que estavam nus, teceram para si tangas com folhas de figueira. (...) O Senhor Deus chamou o homem e perguntou: “Onde estás?” Ele respondeu: “Ouvi teu ruído no jardim. Fiquei com medo, porque estava nu, e escondi-me”. (Gn 3, 7. 9-10) Vamos colocar o pensamento em ordem. Se a vergonha, diante da nudez, é o efeito imediato do pecado e, por sua vez, Jesus sofreu, morreu (nu!) na cruz e ressuscitou, por que, então, a Igreja, ao longo dos séculos, cultiva e alimenta, até ao extremo, a vergonha da nudez? Será que, ao permitir ser despido de sus vestes e crucificado nu, Jesus não redimiu e santificou, também, a nudez humana? Outra observação importante: o ato de descobrir (expor) o corpo, em toda a sua extensão, é um elemento indispensável da experieência de intimidade no amor. Quanto maior o amor, menor é a vergonha diante da nudez. Na verdade, a vergonha desparece totalmente, sem ter algo a ver com aquilo que, na linguagem popular chamamos de "sem-vergonha". É na intimidade do amor que se revela a nudez redimida pelo amor de Deus. E é na nudez que se revela, por excelência, a beleza da criação. Para deixar as coisas bem claras: a "sem-vergonhice" consiste em ver o corpo do outro, como o objeto a ser usado para obter um prazer individual. É a expressão do egoísmo. Quando, porém, fico fascinado e - por que não - atraído, pela beleza do corpo do outro, mas enxergo muito mais do que apenas o corpo, sou capaz de desenvolver o profundo e sincero amor. Livro-me, então, das minhas roupas e, os dois, experimentamos a comunhão íntima do amor. Repito: ao redimir o homem, Jesus santificou e consagrou a nudez.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Desde pequeno, olho o Teu corpo nu, exposto na cruz. Obrigado pela redenção da nudez. Obrigado por tantos belíssimos corpos que já tive a graça de contemplar (e, alguns, de tocar). Peço-Te que o corpo humano, que me fascina tanto, não seja para mim apenas um objeto do desejo carnal, mas o caminho para crescer no amor pelo homem inteiro. Livra-me da hipocrisia de toda falsa vergonha. Junto contigo, Jesus, louvo o Pai Criador, magnífico Artista, Autor da maior beleza: o corpo humano.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

19 de abril de 2011

Via Sacra [9]

IX Estação: Jesus cai pela terceira vez

Eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E a gente achava que ele era um castigado, alguém por Deus ferido e massacrado. Mas estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos pagar caiu sobre ele, com os seus ferimentos veio a cura para nós. (Is 53, 4-5) Todo o sofrimento de Jesus - e não somente as suas quedas no caminho ao Calvário, como sugerem alguns - foi a consequência dos pecados de cada ser humano. Ao contemplarmos a Paixão de Cristo, desperta-se em nós o arrependimento de nossas fraquezas, precedido pelo exame de consciência. Estes dois atos (o exame de consciência e o arrependimento) e mais outros três (o propósito de emenda, a própria confissão perante o sacerdote e a penitência, cumprida posteriormente),  formam o conjunto das condições de uma boa confissão. Entre estes elementos da reconciliação sacramental, o exame de consciência parece representar a maior dificuldade. Muitas vezes temos dúvidas, tanto em questão o que é e o que não é um pecado, bem como em relação ao "tamanho" (a gravidade) de cada pecado. Lembro-me da conversa com um pastor evangélico que afirmava ter sido a "adoração das imagens", o mais grave de todos os pecados. Não adiantava explicar de que nós, os católicos, não adoramos, mas veneramos as imagens, ao homenagearmos as pessoas representadas nelas (Jesus, Maria, os Santos, etc.). Naquele conversa não recorri aos argumentos bíblicos ou teológicos, mas à lógica. Jesus disse no Evangelho: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos. (Mt 22, 37-40). Logicamente, o maior pecado, será a falta de amor a Deus e ao próximo. O resto depende destes dois mandamentos. Em vários ambientes católicos (comunidades, movimentos, grupos de espiritualidade, etc.), existe uma obsessão relacionada aos "pecados contra castidade", tidos evidentemente, como as mais graves (vejam aqui a semelhança com a neurose de alguns grupos evangélicos, em relação às imagens católicas). Anselm Grün, monge beneditino e escritor, fez uma interessante observação: Projetamos sobre os outros o demônio que habita o nosso coração, endemoniniando-os, acusando-os de serem pouco ortodoxos ou cristãos sem muita convicção. (...) Os defeitos que se apontam nos outros são sempre os próprios defeitos. ("O ser fragmentado: da cisão à integração"; Ed. Idéias & Letras; Aparecida, SP, 2004; p. 71). A clássica (e histórica) obsessão da Igreja, em relação à sexualidade (ou: sexualidades), parece revelar a sombra interior, da mesma espécie, presente (mas não admitida) nos próprios líderes e membros desta instituição. E, muitas vezes, comete-se o maior pecado - a falta de amor - ao investir na "caça das bruxas", na área da(s) sexualidade(s).

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Sofreste por causa dos nossos pecados. Perdoa-nos, por favor! Dá-nos a luz interior, para reconhecermos tudo aquilo que nos afasta de Ti. Dá-nos o dom de um verdadeiro e profundo arrependimento. Não nos deixes cair em tentação e livra-nos do mal. Do mal de não amar.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

18 de abril de 2011

Via Sacra [8]

VIII Estação:
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
que choram por Ele

Seguia-o uma grande multidão do povo, bem como de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se para elas e disse: “Mulheres de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. Então começarão a pedir às montanhas: ‘Caí sobre nós!’, e às colinas: ‘Escondei-nos!’ Pois, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” (Lc 23, 27-31). Jesus Mestre ensina até o último instante e suas palavras, nestas circunstâncias, ganham ainda mais peso. Tornam-se testamento. Jesus sabe que, muitas vezes, choramos e nos lamentamos sobre os outros, para não olhar a nós mesmos, ao nosso interior. Da mesma maneira, censuramos outras pessoas, para abafar a voz da nossa própria consciência. As palavras iniciais de Jesus ("não choreis por mim"), por mais que pareçam, não constituem uma proibição. É a mesma história que a da afirmação do Senhor: O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos. (Mt 20, 28). Se fosse uma ordem explícita, não teria sentido (pois seria abominável nos olhos do Senhor) todo o serviço prestado a Ele (pela Igreja, por pessoas individualmente, etc.). Jesus se importa com as prioridades. Em primeiro lugar, Ele veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. E, por isso mesmo, os que foram resgatados, procuram servi-lo. Da mesma maneira, quando Jesus diz "não choreis", não quer dizer que esteja nos ensinando a insensibilidade e a indiferença. Ele quer que choremos, mas, em primeiro lugar, sobre nós mesmos e sobre os que amamos. Assim, como Jesus chorou, olhando à cidade de Jerusalém: Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: “Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados. Esmagarão a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada”. (Lc 19, 41-44) Choramos, porque amamos e nos preocupamos. E devemos chorar (com outras lágrimas), quando não amamos o suficiente. As mães de Jerusalém e de todos os lugares da terra, devem chorar sobre si mesmas, quando não são capazes de acolher os filhos, do jeito como eles são. Por exemplo, homossexuais. E devem, por mesmo motivo, chorar sobre estes filhos que não recebem o amor necessário, dentro de sua própria casa. A Igreja precisa chorar sobre si mesma, quando não consegue se libertar de preconceito e, por isso, não serve a Jesus, presente em cada pessoa homossexual. E deve chorar por estes seus filhos abandonados. Por serem abandonados.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Eu choro sobre Ti, sobre mim e sobre aqueles que amo, ou devo amar. Ajuda-me a compreender o sentido das lágrimas e perceber a diferença entre elas. Ajuda-me a chorar sobre os meus pecados. Ensina-me a chorar por amor. Acolhe todas as minhas lágrimas. E que nenhuma delas Te ofenda.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [7]

VII Estação: Jesus cai pela segunda vez

"O sol do meio-dia estava forte e o suor pingava do rosto e do corpo de Jesus. O forte calor do sol e o peso da barra da cruz em Seus ombros irritados, considerando a condição em que Ele se encontrava, causaram intensa fraqueza e tontura, fazendo com que Ele tropeçasse, se desequilibrasse e caisse. As Estações da Cruz (indicadas por São Francisco de Assis) mostram Jesus caindo três vezes. Mas essa suposição não é compatível com Seu estado clínico, porque, considerando-se Sua condição física, há poucas dúvidas de que Ele tenha caído inúmeras vezes antes de chegar ao Calvário. (...) Ele tinha cada vez mais dificuldade para se erguer cada vez que ia ao chão, na tentativa de suportar o peso da cruz." (Frederick T. Zugibe, "A crucificação de Jesus. As conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal"; Ed. Idéia&Ação; São Paulo, 2008; p. 66) Repito aqui o meu pensamento, apresentado na meditação da III Estação: a maioria dos textos devocionais, associa as quedas de Jesus ao pecado, mais ou menos da seguinte maneira: "Cristo cai de novo por terra. São os pecados horríveis que o oprimem. Tão depresa acostumo-me a praticar o mal." Eu não pretendo fugir deste assunto, mas acredito que haja muito mais significado no verbo "cair" e que Jesus, derrubado no chão, deseja unir-se com cada ser humano, em todo tipo de queda. Na ocasião da III Estação (aqui), refleti sobre a experiência de "cair em si" que, em muitos casos, pode ter sido algo muito doloroso (exemplo: as pessoas que se surpreendem com a descoberta de sua homossexualidade). Continuando, de certo modo, aquela meditação, proponho agora o fenômeno de "cair em depressão". Muitos autores afirmam que entre os grupos mais propensos a sofrer depressão, o grupo homossexual destaca-se de modo acentuado. (...) Alguns cientistas têm sustentado uma vinculação genética entre a homossexualidade e a depressão (uma proposta [...] não apenas perturbadora como também insustentável). Outros sugeriram que as pessoas cuja sexualidade não pressupõe filhos podem confrontar mortalidade mais cedo do que a maioria dos heterossexuais. Diversas outras teorias têm circulado, mas a explicação mais óbvia para as altas taxas de depressão gay é a homofobia. Os gays são mais vulneráveis a serem rejeitados por suas famílias do que as pessoas em geral. São mais propensos a problemas de ajuste social. Devido a tais problemas, são mais vulneráveis a abandonar a escola. Eles têm uma taxa mais elevada de doenças sexualmente transmitidas. Têm menos probabilidade de formar relações estáveis em sua vida adulta. É menos provável que tenham guardiões quando idosos. São mais vulneráveis a serem infectados pelo HIV; e mesmo os que não são soropositivos, quando ficam deprimidos são mais vulneráveis à prática de sexo inseguro e a contrair o vírus, o que, por sua vez, exacerba a depressão. E, acima de tudo, têm uma maior probabilidade de viver furtivamente e ter passado por intensa segregação em consequência disso. (Andrew Solomon; “O demônio do meio-dia”; Ed. Objetiva; Rio de Janeiro, 2010; pp. 305-306)
Em vez de reduzir a riquíssima simbologia das quedas de Jesus durante a Via Sacra a questões morais ou legais ("pecado"), prefiro abrir os meus olhos a tantas outras realidades e expressar a solidariedade aos irmãos que caíram ao fundo do poço de solidão, tristeza e desânimo.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Vejo-Te prostrado, outra vez, no caminho. Creio que cada instante de Tua passagem por este mundo, tem o profundo sentido. Também estas quedas. Ampara, com o poder do Teu amor, todo aquele que caiu em depressão. Olha, de maneira especial, àqueles que, não recebem apoio algum, em sua dolorosa experiência de homossexualidade incompreendida e perseguida.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.