ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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21 de abril de 2011

Via Sacra [10]

X Estação: Jesus é despido de suas vestes

As vestes de Jesus estavam praticamente grudadas em Seu corpo por causa do sangue coagulado nas feridas causadas pelo açoitamento. (...) A roupa foi arrancada, causando surtos de dor pelo corpo de Jesus. (Frederick T. Zugibe, "A crucificação de Jesus: as conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal"; Ed. Idéia & Ação; São Paulo, 2008; p. 67) Nos textos devocionais de Via Sacra, fala-se frequentemene, nesta estação, sobre a imoralidade, associada à nudez. É interessante notar, neste contexto, que a vergonha causada pelo corpo nu, é a primeira consequência do pecado. Então os olhos de ambos se abriram, e, como reparassem que estavam nus, teceram para si tangas com folhas de figueira. (...) O Senhor Deus chamou o homem e perguntou: “Onde estás?” Ele respondeu: “Ouvi teu ruído no jardim. Fiquei com medo, porque estava nu, e escondi-me”. (Gn 3, 7. 9-10) Vamos colocar o pensamento em ordem. Se a vergonha, diante da nudez, é o efeito imediato do pecado e, por sua vez, Jesus sofreu, morreu (nu!) na cruz e ressuscitou, por que, então, a Igreja, ao longo dos séculos, cultiva e alimenta, até ao extremo, a vergonha da nudez? Será que, ao permitir ser despido de sus vestes e crucificado nu, Jesus não redimiu e santificou, também, a nudez humana? Outra observação importante: o ato de descobrir (expor) o corpo, em toda a sua extensão, é um elemento indispensável da experieência de intimidade no amor. Quanto maior o amor, menor é a vergonha diante da nudez. Na verdade, a vergonha desparece totalmente, sem ter algo a ver com aquilo que, na linguagem popular chamamos de "sem-vergonha". É na intimidade do amor que se revela a nudez redimida pelo amor de Deus. E é na nudez que se revela, por excelência, a beleza da criação. Para deixar as coisas bem claras: a "sem-vergonhice" consiste em ver o corpo do outro, como o objeto a ser usado para obter um prazer individual. É a expressão do egoísmo. Quando, porém, fico fascinado e - por que não - atraído, pela beleza do corpo do outro, mas enxergo muito mais do que apenas o corpo, sou capaz de desenvolver o profundo e sincero amor. Livro-me, então, das minhas roupas e, os dois, experimentamos a comunhão íntima do amor. Repito: ao redimir o homem, Jesus santificou e consagrou a nudez.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Desde pequeno, olho o Teu corpo nu, exposto na cruz. Obrigado pela redenção da nudez. Obrigado por tantos belíssimos corpos que já tive a graça de contemplar (e, alguns, de tocar). Peço-Te que o corpo humano, que me fascina tanto, não seja para mim apenas um objeto do desejo carnal, mas o caminho para crescer no amor pelo homem inteiro. Livra-me da hipocrisia de toda falsa vergonha. Junto contigo, Jesus, louvo o Pai Criador, magnífico Artista, Autor da maior beleza: o corpo humano.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

19 de abril de 2011

Via Sacra [9]

IX Estação: Jesus cai pela terceira vez

Eram na verdade os nossos sofrimentos que ele carregava, eram as nossas dores, que levava às costas. E a gente achava que ele era um castigado, alguém por Deus ferido e massacrado. Mas estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos pagar caiu sobre ele, com os seus ferimentos veio a cura para nós. (Is 53, 4-5) Todo o sofrimento de Jesus - e não somente as suas quedas no caminho ao Calvário, como sugerem alguns - foi a consequência dos pecados de cada ser humano. Ao contemplarmos a Paixão de Cristo, desperta-se em nós o arrependimento de nossas fraquezas, precedido pelo exame de consciência. Estes dois atos (o exame de consciência e o arrependimento) e mais outros três (o propósito de emenda, a própria confissão perante o sacerdote e a penitência, cumprida posteriormente),  formam o conjunto das condições de uma boa confissão. Entre estes elementos da reconciliação sacramental, o exame de consciência parece representar a maior dificuldade. Muitas vezes temos dúvidas, tanto em questão o que é e o que não é um pecado, bem como em relação ao "tamanho" (a gravidade) de cada pecado. Lembro-me da conversa com um pastor evangélico que afirmava ter sido a "adoração das imagens", o mais grave de todos os pecados. Não adiantava explicar de que nós, os católicos, não adoramos, mas veneramos as imagens, ao homenagearmos as pessoas representadas nelas (Jesus, Maria, os Santos, etc.). Naquele conversa não recorri aos argumentos bíblicos ou teológicos, mas à lógica. Jesus disse no Evangelho: Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora, o segundo lhe é semelhante: Amarás teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos. (Mt 22, 37-40). Logicamente, o maior pecado, será a falta de amor a Deus e ao próximo. O resto depende destes dois mandamentos. Em vários ambientes católicos (comunidades, movimentos, grupos de espiritualidade, etc.), existe uma obsessão relacionada aos "pecados contra castidade", tidos evidentemente, como as mais graves (vejam aqui a semelhança com a neurose de alguns grupos evangélicos, em relação às imagens católicas). Anselm Grün, monge beneditino e escritor, fez uma interessante observação: Projetamos sobre os outros o demônio que habita o nosso coração, endemoniniando-os, acusando-os de serem pouco ortodoxos ou cristãos sem muita convicção. (...) Os defeitos que se apontam nos outros são sempre os próprios defeitos. ("O ser fragmentado: da cisão à integração"; Ed. Idéias & Letras; Aparecida, SP, 2004; p. 71). A clássica (e histórica) obsessão da Igreja, em relação à sexualidade (ou: sexualidades), parece revelar a sombra interior, da mesma espécie, presente (mas não admitida) nos próprios líderes e membros desta instituição. E, muitas vezes, comete-se o maior pecado - a falta de amor - ao investir na "caça das bruxas", na área da(s) sexualidade(s).

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Sofreste por causa dos nossos pecados. Perdoa-nos, por favor! Dá-nos a luz interior, para reconhecermos tudo aquilo que nos afasta de Ti. Dá-nos o dom de um verdadeiro e profundo arrependimento. Não nos deixes cair em tentação e livra-nos do mal. Do mal de não amar.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

18 de abril de 2011

Via Sacra [8]

VIII Estação:
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém
que choram por Ele

Seguia-o uma grande multidão do povo, bem como de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se para elas e disse: “Mulheres de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as estéreis, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. Então começarão a pedir às montanhas: ‘Caí sobre nós!’, e às colinas: ‘Escondei-nos!’ Pois, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” (Lc 23, 27-31). Jesus Mestre ensina até o último instante e suas palavras, nestas circunstâncias, ganham ainda mais peso. Tornam-se testamento. Jesus sabe que, muitas vezes, choramos e nos lamentamos sobre os outros, para não olhar a nós mesmos, ao nosso interior. Da mesma maneira, censuramos outras pessoas, para abafar a voz da nossa própria consciência. As palavras iniciais de Jesus ("não choreis por mim"), por mais que pareçam, não constituem uma proibição. É a mesma história que a da afirmação do Senhor: O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos. (Mt 20, 28). Se fosse uma ordem explícita, não teria sentido (pois seria abominável nos olhos do Senhor) todo o serviço prestado a Ele (pela Igreja, por pessoas individualmente, etc.). Jesus se importa com as prioridades. Em primeiro lugar, Ele veio para servir e dar a vida em resgate por muitos. E, por isso mesmo, os que foram resgatados, procuram servi-lo. Da mesma maneira, quando Jesus diz "não choreis", não quer dizer que esteja nos ensinando a insensibilidade e a indiferença. Ele quer que choremos, mas, em primeiro lugar, sobre nós mesmos e sobre os que amamos. Assim, como Jesus chorou, olhando à cidade de Jerusalém: Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, começou a chorar. E disse: “Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras, te sitiarão e te apertarão de todos os lados. Esmagarão a ti e a teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada”. (Lc 19, 41-44) Choramos, porque amamos e nos preocupamos. E devemos chorar (com outras lágrimas), quando não amamos o suficiente. As mães de Jerusalém e de todos os lugares da terra, devem chorar sobre si mesmas, quando não são capazes de acolher os filhos, do jeito como eles são. Por exemplo, homossexuais. E devem, por mesmo motivo, chorar sobre estes filhos que não recebem o amor necessário, dentro de sua própria casa. A Igreja precisa chorar sobre si mesma, quando não consegue se libertar de preconceito e, por isso, não serve a Jesus, presente em cada pessoa homossexual. E deve chorar por estes seus filhos abandonados. Por serem abandonados.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Eu choro sobre Ti, sobre mim e sobre aqueles que amo, ou devo amar. Ajuda-me a compreender o sentido das lágrimas e perceber a diferença entre elas. Ajuda-me a chorar sobre os meus pecados. Ensina-me a chorar por amor. Acolhe todas as minhas lágrimas. E que nenhuma delas Te ofenda.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [7]

VII Estação: Jesus cai pela segunda vez

"O sol do meio-dia estava forte e o suor pingava do rosto e do corpo de Jesus. O forte calor do sol e o peso da barra da cruz em Seus ombros irritados, considerando a condição em que Ele se encontrava, causaram intensa fraqueza e tontura, fazendo com que Ele tropeçasse, se desequilibrasse e caisse. As Estações da Cruz (indicadas por São Francisco de Assis) mostram Jesus caindo três vezes. Mas essa suposição não é compatível com Seu estado clínico, porque, considerando-se Sua condição física, há poucas dúvidas de que Ele tenha caído inúmeras vezes antes de chegar ao Calvário. (...) Ele tinha cada vez mais dificuldade para se erguer cada vez que ia ao chão, na tentativa de suportar o peso da cruz." (Frederick T. Zugibe, "A crucificação de Jesus. As conclusões surpreendentes sobre a morte de Cristo na visão de um investigador criminal"; Ed. Idéia&Ação; São Paulo, 2008; p. 66) Repito aqui o meu pensamento, apresentado na meditação da III Estação: a maioria dos textos devocionais, associa as quedas de Jesus ao pecado, mais ou menos da seguinte maneira: "Cristo cai de novo por terra. São os pecados horríveis que o oprimem. Tão depresa acostumo-me a praticar o mal." Eu não pretendo fugir deste assunto, mas acredito que haja muito mais significado no verbo "cair" e que Jesus, derrubado no chão, deseja unir-se com cada ser humano, em todo tipo de queda. Na ocasião da III Estação (aqui), refleti sobre a experiência de "cair em si" que, em muitos casos, pode ter sido algo muito doloroso (exemplo: as pessoas que se surpreendem com a descoberta de sua homossexualidade). Continuando, de certo modo, aquela meditação, proponho agora o fenômeno de "cair em depressão". Muitos autores afirmam que entre os grupos mais propensos a sofrer depressão, o grupo homossexual destaca-se de modo acentuado. (...) Alguns cientistas têm sustentado uma vinculação genética entre a homossexualidade e a depressão (uma proposta [...] não apenas perturbadora como também insustentável). Outros sugeriram que as pessoas cuja sexualidade não pressupõe filhos podem confrontar mortalidade mais cedo do que a maioria dos heterossexuais. Diversas outras teorias têm circulado, mas a explicação mais óbvia para as altas taxas de depressão gay é a homofobia. Os gays são mais vulneráveis a serem rejeitados por suas famílias do que as pessoas em geral. São mais propensos a problemas de ajuste social. Devido a tais problemas, são mais vulneráveis a abandonar a escola. Eles têm uma taxa mais elevada de doenças sexualmente transmitidas. Têm menos probabilidade de formar relações estáveis em sua vida adulta. É menos provável que tenham guardiões quando idosos. São mais vulneráveis a serem infectados pelo HIV; e mesmo os que não são soropositivos, quando ficam deprimidos são mais vulneráveis à prática de sexo inseguro e a contrair o vírus, o que, por sua vez, exacerba a depressão. E, acima de tudo, têm uma maior probabilidade de viver furtivamente e ter passado por intensa segregação em consequência disso. (Andrew Solomon; “O demônio do meio-dia”; Ed. Objetiva; Rio de Janeiro, 2010; pp. 305-306)
Em vez de reduzir a riquíssima simbologia das quedas de Jesus durante a Via Sacra a questões morais ou legais ("pecado"), prefiro abrir os meus olhos a tantas outras realidades e expressar a solidariedade aos irmãos que caíram ao fundo do poço de solidão, tristeza e desânimo.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Vejo-Te prostrado, outra vez, no caminho. Creio que cada instante de Tua passagem por este mundo, tem o profundo sentido. Também estas quedas. Ampara, com o poder do Teu amor, todo aquele que caiu em depressão. Olha, de maneira especial, àqueles que, não recebem apoio algum, em sua dolorosa experiência de homossexualidade incompreendida e perseguida.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [6]

VI Estação: Verônica enxuga o rosto de Jesus

Esta cena não foi registrada pelos evangelistas, mas é transmitida por meio da tradição, inclusive o nome daquela mulher sensível e corajosa. Verônica teria sido a mulher curada por Jesus de hemorragia (cf. Mt 9, 20-22) e o seu nome, em versão grega, seria Berenice, tendo mais tarde a forma latinizada "Verônica", o que por sua vez, evoca a sua atitude da via crucis (vera [lat.] = verdade + eikon [gr.] = imagem). É aquela que recebeu de Jesus um singular sinal de gratidão, em forma de sua face sagrada e maltratada, impressa na toalha. A tradição atribui ao gesto de Verônica e ao "presente" de Jesus, a origem do culto à Sagrada Face. O que chama atenção, é o encontro de duas virtudes no coração daquela mulher. Uma atenciosa delicadeza e compaixão, normalmente seria vista como aquele frágil lado feminino. Não é de se surpreender que os rapazes, com traços delicados e sensíveis, são desprezados por muitos, por serem efeminados (a maioria dos machões, mesmo entre os gays, usam - em sua ignorância - o termo "afeminados"). No exemplo de Verônica percebemos que a sensibilidade não é necessariamente o sinal de fraqueza, muito pelo contrário. Unida com a coragem, esta virtude torna-se o meio para um belíssimo exercício de amor. Imagino os soldados, surpresos e aborrecidos, mas impotentes, diante de tal gesto. No meio da multidão, sem dúvida, houve quem sentisse vergonha, por causa da própria indolência. Muitos se lamentavam, mas somente Verônica tomou atitude. Naquele oceano de indiferença e zombaria, misturadas com a medrosa inêrcia, aquela mulher, junto com a Mãe de Jesus, tornaram-se como ilhas de esperança, consolo e autêntico amparo, para Jesus que naufragava nas profundezas de dolorosa solidão. Medito e rezo, nesta Estação, pensando em todas as pessoas que foram - e ainda são - as minhas Verônicas. É impressionante como, em torno de um homossexual, estão sempre presentes as mulheres, contrariando aquela ideia de que os gays são antifeministas, por natureza (perversa, é claro!). Tenho certeza de que, na maioria das vezes, as mulheres são tratadas melhor pelos homossexuais do que por homens heterossexuais. Está aqui a minha homenagem a todas as minhas amigas, que pertencem a várias gerações e diferentes "classes sociais", moram em lugares diversos, mas sempre, quando enfrento algum tormento, estão comigo, com aquela toalha na mão, para enxugar o meu rosto. E preciso completar que fazem isso, sem esperar qualquer coisa em retribuição da minha parte. Pelo contrário: suportam com paciência as minhas frequentes e estúpidas irritações e outras neuroses.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Aprendo contigo a verdadeira gratidão. Obrigado por cada Verônica que puseste no meu caminho. Abençoa todas elas, uma por uma! Envia outras pessoas, sensíveis e corajosas, ao encontro dos meus irmãos e irmãs homossexuais, sobretudo aqueles que enfrentam, sozinhos, as ondas furiosas de preconceito e perseguição.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

17 de abril de 2011

Via Sacra [5]

V Estação: Jesus recebe ajuda de Simão Cireneu

Passava por ali certo homem de Cirene, chamado Simão, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo, e obrigaram-no a que lhe levasse a cruz. (Mc 15,21) As duas principais informações são estas: 1) Simão ajudou Jesus; 2) Simão foi obrigado (Lc 23, 26, diz: detiveram um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para que a carregasse atrás de Jesus). A tradição da Igreja acrescenta a história de profunda transformação daquele homem, após o encontro com Jesus e com a sua cruz (alguns autores dizem que ele não queria devolver a cruz no final do caminho). Há quem associe o nome de Rufo, mencionado pelo Apóstolo Paulo (em Rm 16, 13) a um dos filhos de Simão Cireneu, como eventual prova daquela tradição. Seja qual for a história real desse homem, a V Estação da Via Sacra, leva-me à reflexão sobre todas as pessoas que assumiram o papel de Cireneu na vida de muitos homossexuais. Às vezes é uma ajuda conquistada, depois de longas e duras batalhas (portanto forçada), como a lei contra a homofobia e vários sinais de avanço em questão de reconhecimento da dignidade e dos direitos de pessoas homossexuais na sociedade. Ainda que se trate de leis e instituições, na prática acaba sendo uma convivência com as pessoas que representam essas leis ou instituições. Acredito que haja casos de mudança no interior de algumas dessas pessoas, à semelhança da experiência de Simão, descrita pela tradição. Mais uma vez confirma-se a tese de que o preconceito pode ser superado quando surge a oportunidade de conhecer o "problema" de perto. Alguns, ao conhecerem o "mundo gay" (ou, melhor, um ser humano, concreto e real), tornam-se seus defensores, além de toda obrigação institucional, ou pelo menos, ficam curados de medo e de má vontade. Por outro lado, existem entidades nas quais eu não depositaria tanta confiança assim. Hoje em dia, por exemplo, a mídia parece estar ao nosso lado. Como, porém - na minha opinião - a mídia é como uma prostituta conformista, acredito que a simpatia atual por parte dela, em relação ao universo GLBT, é o efeito da "onda do momento" e nada mais (pelo menos, no sentido geral). Só espero que essa onda dure ainda por muito tempo. A Igreja, por sua vez, declara o seu papel de Cireneu para com as pessoas homossexuais, mas (com algumas exceções) isso não passa de uma bela teoria.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Quando vejo Simão de Cirene, renova-se no meu coração, a memória de todas as pessoas que me ampararam pelo caminho. Quero agradecer, Senhor, por todas as conquistas que aliviam a vida de homossexuais em nossa sociedade. Peço-Te a graça para toda a Igreja, para que encontre as maneiras melhores de acolher e acompanhar os homossexuais, através de um trabalho pastoral, levado a sério. Quando vejo Simão de Cirene, desperta-se no meu coração, o desejo de ajudar os outros a carregarem a sua cruz.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [4]

IV Estação: Jesus encontra a sua Mãe

Não há palavras que fossem capazes de descrever os sentimentos de Maria naquele momento. Vários autores falam de um encontro que trouxe conforto para Jesus, neste caminho rumo ao Calvário. Eu não tenho tanta certeza. Quando enfrento alguma dificuldade, procuro não envolver a minha mãe naquela situação e, quando ela pergunta, sempre digo: "Estou bem, mãe. Está tudo bem por aqui!". Não quero que ela fique preocupada (também porque acho que ela sempre exagera nesta questão). Talvez a minha reação, vontade e postura sejam diferentes, no caso de uma situação extrema, como a de Jesus na Via Sacra. Se eu estivesse morrendo, gostaria que ela estivesse ao meu lado? Com certeza. Entretanto, a sua dor iria aliviar ou aumentar a minha? De acordo com uma das reflexões anteriores (aqui), a dor é o elemento indispensável (e, até, "constituinte") de amor. O encontro de Jesus com Maria, na via sacra, era necessário e, embora não tenha deixado marca alguma nos textos sagrados, chegou até nós por meio da piedosa tradição do povo. Penso, nesta estação, em Maria Santíssima e no seu lugar no plano da salvação. Muitos teólogos e, de certa forma, o próprio Magistério da Igreja, falam de Maria como "corredentora". Este título não diminui, nem ofusca, os méritos infinitos de Cristo Jesus, o único Redentor da humanidade, mas Deus quis que Ela participasse, de modo todo singular, nesta obra (a mesma logica se dá em relação à intercessão e/ou mediação entre homens e Deus). Logo, em seguida, nesta IV Estação, o meu pensamento vai em direção da minha mãe. Como é importante, para um homossexual, o amor compreensivo e acolhedor de mãe! Eu sei que muitos não tiveram a felicidade de encontrar o apoio e o amor incondicional de suas mães. Ainda assim creio que o desejo maior de cada mãe é ver o seu filho feliz (ainda que, nem sempre, o conceito de felicidade, seja o mesmo para ambos - veja aqui). Muitas mães não estão angustiadas pelo fato de seu filho ser homossexual, mas pela perspectiva de sofrimentos (preconceitos, perseguições, etc.) que isso pode causar na vida deste filho. É algo parecido, um pouco, com a preocupação de mãe, com a sorte do filho-policial, piloto ou alpinista. A diferença evidente está na eventualidade de persuadir o filho para que desistisse daquela carreira, o que não pode ocorrer, no caso de um filho homossexual (e nem sempre a mãe se dá conta dessa diferença). Apesar de todas as dificuldades e limitações, a presença de mãe, no nosso caminho de homossexuais, é de suma impotrância.

ORAÇÃO

Senhor Jesus, obrigado pela Tua Mãe, Maria Santíssima! Mãe, consoladora dos aflitos, acompanha-nos em todos os instantes. O seu terno amor de mãe acolhe, também, os filhos e filhas homossexuais. E nós, muitas vezes machucados pela vida, contamos com este encontro. Pela intercessão de Maria das Dores, peço-Te, Jesus, por todos aqueles que, ao descobrirem a sua identidade homossexual, não tiveram a compreensão e o apoio da própria mãe. Abençoa as nossas mães, para que nunca desistam de seus filhos.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.