ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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17 de abril de 2011

Via Sacra [5]

V Estação: Jesus recebe ajuda de Simão Cireneu

Passava por ali certo homem de Cirene, chamado Simão, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo, e obrigaram-no a que lhe levasse a cruz. (Mc 15,21) As duas principais informações são estas: 1) Simão ajudou Jesus; 2) Simão foi obrigado (Lc 23, 26, diz: detiveram um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para que a carregasse atrás de Jesus). A tradição da Igreja acrescenta a história de profunda transformação daquele homem, após o encontro com Jesus e com a sua cruz (alguns autores dizem que ele não queria devolver a cruz no final do caminho). Há quem associe o nome de Rufo, mencionado pelo Apóstolo Paulo (em Rm 16, 13) a um dos filhos de Simão Cireneu, como eventual prova daquela tradição. Seja qual for a história real desse homem, a V Estação da Via Sacra, leva-me à reflexão sobre todas as pessoas que assumiram o papel de Cireneu na vida de muitos homossexuais. Às vezes é uma ajuda conquistada, depois de longas e duras batalhas (portanto forçada), como a lei contra a homofobia e vários sinais de avanço em questão de reconhecimento da dignidade e dos direitos de pessoas homossexuais na sociedade. Ainda que se trate de leis e instituições, na prática acaba sendo uma convivência com as pessoas que representam essas leis ou instituições. Acredito que haja casos de mudança no interior de algumas dessas pessoas, à semelhança da experiência de Simão, descrita pela tradição. Mais uma vez confirma-se a tese de que o preconceito pode ser superado quando surge a oportunidade de conhecer o "problema" de perto. Alguns, ao conhecerem o "mundo gay" (ou, melhor, um ser humano, concreto e real), tornam-se seus defensores, além de toda obrigação institucional, ou pelo menos, ficam curados de medo e de má vontade. Por outro lado, existem entidades nas quais eu não depositaria tanta confiança assim. Hoje em dia, por exemplo, a mídia parece estar ao nosso lado. Como, porém - na minha opinião - a mídia é como uma prostituta conformista, acredito que a simpatia atual por parte dela, em relação ao universo GLBT, é o efeito da "onda do momento" e nada mais (pelo menos, no sentido geral). Só espero que essa onda dure ainda por muito tempo. A Igreja, por sua vez, declara o seu papel de Cireneu para com as pessoas homossexuais, mas (com algumas exceções) isso não passa de uma bela teoria.

ORAÇÃO

Senhor Jesus! Quando vejo Simão de Cirene, renova-se no meu coração, a memória de todas as pessoas que me ampararam pelo caminho. Quero agradecer, Senhor, por todas as conquistas que aliviam a vida de homossexuais em nossa sociedade. Peço-Te a graça para toda a Igreja, para que encontre as maneiras melhores de acolher e acompanhar os homossexuais, através de um trabalho pastoral, levado a sério. Quando vejo Simão de Cirene, desperta-se no meu coração, o desejo de ajudar os outros a carregarem a sua cruz.
Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [4]

IV Estação: Jesus encontra a sua Mãe

Não há palavras que fossem capazes de descrever os sentimentos de Maria naquele momento. Vários autores falam de um encontro que trouxe conforto para Jesus, neste caminho rumo ao Calvário. Eu não tenho tanta certeza. Quando enfrento alguma dificuldade, procuro não envolver a minha mãe naquela situação e, quando ela pergunta, sempre digo: "Estou bem, mãe. Está tudo bem por aqui!". Não quero que ela fique preocupada (também porque acho que ela sempre exagera nesta questão). Talvez a minha reação, vontade e postura sejam diferentes, no caso de uma situação extrema, como a de Jesus na Via Sacra. Se eu estivesse morrendo, gostaria que ela estivesse ao meu lado? Com certeza. Entretanto, a sua dor iria aliviar ou aumentar a minha? De acordo com uma das reflexões anteriores (aqui), a dor é o elemento indispensável (e, até, "constituinte") de amor. O encontro de Jesus com Maria, na via sacra, era necessário e, embora não tenha deixado marca alguma nos textos sagrados, chegou até nós por meio da piedosa tradição do povo. Penso, nesta estação, em Maria Santíssima e no seu lugar no plano da salvação. Muitos teólogos e, de certa forma, o próprio Magistério da Igreja, falam de Maria como "corredentora". Este título não diminui, nem ofusca, os méritos infinitos de Cristo Jesus, o único Redentor da humanidade, mas Deus quis que Ela participasse, de modo todo singular, nesta obra (a mesma logica se dá em relação à intercessão e/ou mediação entre homens e Deus). Logo, em seguida, nesta IV Estação, o meu pensamento vai em direção da minha mãe. Como é importante, para um homossexual, o amor compreensivo e acolhedor de mãe! Eu sei que muitos não tiveram a felicidade de encontrar o apoio e o amor incondicional de suas mães. Ainda assim creio que o desejo maior de cada mãe é ver o seu filho feliz (ainda que, nem sempre, o conceito de felicidade, seja o mesmo para ambos - veja aqui). Muitas mães não estão angustiadas pelo fato de seu filho ser homossexual, mas pela perspectiva de sofrimentos (preconceitos, perseguições, etc.) que isso pode causar na vida deste filho. É algo parecido, um pouco, com a preocupação de mãe, com a sorte do filho-policial, piloto ou alpinista. A diferença evidente está na eventualidade de persuadir o filho para que desistisse daquela carreira, o que não pode ocorrer, no caso de um filho homossexual (e nem sempre a mãe se dá conta dessa diferença). Apesar de todas as dificuldades e limitações, a presença de mãe, no nosso caminho de homossexuais, é de suma impotrância.

ORAÇÃO

Senhor Jesus, obrigado pela Tua Mãe, Maria Santíssima! Mãe, consoladora dos aflitos, acompanha-nos em todos os instantes. O seu terno amor de mãe acolhe, também, os filhos e filhas homossexuais. E nós, muitas vezes machucados pela vida, contamos com este encontro. Pela intercessão de Maria das Dores, peço-Te, Jesus, por todos aqueles que, ao descobrirem a sua identidade homossexual, não tiveram a compreensão e o apoio da própria mãe. Abençoa as nossas mães, para que nunca desistam de seus filhos.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

16 de abril de 2011

Via Sacra [3]

III Estação: Jesu cai pela primeira vez

Os Evangelistas não mencionam nenhuma das três quedas de Jesus no caminho da cruz, celebradas entre as "estações" da Via Sacra. É a tradição que nos transmite esses fatos. Por sua vez, a devoção atribui imediatamente o significado às quedas. Jesus caiu sob o peso da cruz, para salvar os homens que caíram no pecado. Obviamente, a maioria das meditações desta terceira estação (assim como da sétima e da nona), gira em torno do pecado. Não pretendo fugir deste assunto. Vou abordá-lo, em uma das próximas ocasiões. Neste momento penso sobre outros significados da palavra "cair". Na parábola sobre o filho pródigo (Lc 15, 11-32), Jesus descreve o estado interior do rapaz, com a expressão: "Caiu em si" (v. 17). O termo é claro: o jovem viu, enxergou a sua situação. Tomou consciência. Como dizemos popularmente: "caiu a ficha dele". Quando vejo Jesus que, ao carregar a cruz, cai pela primeira vez, penso naqueles momentos, em que para mim "caiu a ficha", em relação da minha homossexualidade. Caí em mim, tomei consciência. Isso não aconteceu, porém, num só instante, mas aos poucos. Como uma leve pena ou folha seca, a "minha ficha" foi caindo lentamente, ainda que causasse o autêntico terremoto ao tocar no chão. "Eu sou homossexual!". Para muitos, esta descoberta tornou-se insuportável, a ponto de atentarem contra a própria vida. Outros, morreram social ou emocionalmente. Há quem, depois de algum tempo, conseguiu ficar em pé, reconciliando-se consigo mesmo. Se ele cair, não ficará prostrado, pois o Senhor segura sua mão. (Sl 37, 24) Hoje agradeço a Deus por esta reconciliação. Peço por aqueles que continuam em guerra consigo mesmos.

ORAÇÃO

Senhor Jesus, prostrado no chão! Tu me acompanhaste naqueles momentos em que, finalmente, admiti a minha homossexualidade. Foi um tempo difícil, pois os fundamentos do meu mundo ficaram abalados, mas tu seguraste a minha mão. Obrigado, Senhor! Olha com amor àqueles que ainda não se deram conta desta realidade e àqueles que procuram fugir da verdade. Estende a Tua mão protetora sobre aqueles, cuja percepção do sentido de viver, foi ofuscada pelo desespero ou depressão. Faze com que não desistam da vida e que se aceitem como são. Que consigam enxergar a homossexualidade como uma variação - e não aberração - da própria natureza. Dá-lhes a paz!

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

Via Sacra [2]

II Estação: Jesus recebe a cruz

Bem antes de sua paixão, Jesus disse aos discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. (Mt 16,24) Contemplamos, nesta segunda estação, o momento em que o próprio Jesus tomou a cruz. E, para nós, "tomar a cruz", quer dizer: tomar o quê? Grande parte da reflexão teológica, ao longo dos séculos, identifica esta atitude com a penitência pelos pecados e, neste contexto, também com a aceitação de sofrimentos e adversidades, bem como a fidelidade aos deveres do estado de vida. Há, em todas estas interpretações, o aspecto negativo, triste e pesado. É impossível negar que carregar uma cruz seja uma coisa triste e dolorosa, mas será que aqui está a sua essência? Até hoje, os católicos são associados a uma postura passiva diante de dor, perseguição, pobreza, etc. Tudo está sendo resumido por uma palavra: a cruz. Para muitos, os católicos são aqueles "pobres coitados" que, com resignação, permitem ser pisoteados, humilhados e injustiçados, porque - segundo dizem - tudo isso faz parte da cruz de cada dia. Acredito que, para respondermos à pergunta sobre a verdadeira "essência" da cruz, seja necessário olhar de um ângulo diferente (e único correto): o ponto de vista do próprio Jesus. Como foi que Jesus encarou aquele madeiro? Como enxergou o significado da cruz? Pouco antes da sua morte, o Senhor declarou: Sinto agora grande angústia. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. (Jo 12, 27) Em outra ocasião disse: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos. (Jo 15, 13) Para Jesus, a cruz era a melhor maneira de amar. Ou melhor: a cruz é o amor! Não se trata de masoquismo, mas de um amor autêntico e exigente, capaz de se sacrificar por inteiro. Jesus sabia que essa foi a melhor maneira de expressar o amor ao Pai e aos homens. Jesus ficaria inconsolado se alguém impedisse a sua morte na cruz. Em consequência, "tomar a cruz", significa amar. Amar de maneira com a qual foi formado o nosso coração. Se o meu coração é homossexual, o meu amor será homossexual também.

ORAÇÃO
Senhor Jesus, tomaste a cruz para realizar divino plano de amor. Obrigado pela Tua cruz e também pela minha. Às vezes tenho dificuldades em compreender o significado da cruz da minha sexualidade. Peço-Te, por isso, que a luz do Teu Espírito ilumine sempre o meu coração, para que eu veja a importância do amor. E que eu saiba sofrer por amor, quando for necessário. Abençoa cada homossexual, sobretudo todo aquele que sofre por ser assim. Ajuda-nos a acreditarmos no amor. Cura-nos do medo de amar. Fortalece aqueles que são perseguidos, porque amam. Convence aqueles que foram desiludidos no amor, que vale a pena começar de novo.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

15 de abril de 2011

Via Sacra [1]

I Estação: Jesus é condenado à morte

Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Pilatos disse a Jesus: “O que é a verdade?Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus. (Jo 18, 37b-38) Um detalhe, aparentemente sem importância, resume o absurdo do “processo” que levou Jesus à condenação. Em Jesus cumprem-se os projetos maliciosos dos homens, registradas pelo profeta Jeremias: Vinde para conspirarmos juntos contra Jeremias; um sacerdote não deixará morrer a lei; nem um sábio, o conselho; nem um profeta, a palavra. Vinde para atacarmos com a língua, e não vamos prestar atenção a todas as suas palavras. (Jr 18, 18) Jesus é rejeitado, julgado, condenado, humilhado, maltratado, crucificado e morto, porque os homens não deram atenção a suas palavras.
Várias pessoas têm dúvidas em relação à homossexualidade, não a compreendem, pensam que seja algo monstruoso. Têm medo de algo obscuro que teria sido “contra a natureza”. Não se dão conta de que muito mais contra a natureza humana seja viajar de avião, pois a natureza do ser humano é pisar no chão. Se a homossexualidade não estiver dentro da natureza humana, onde então estaria? O medo, a fobia, faz com que as pessoas fogem das respostas, ainda que tenham feito perguntas, como Pilatos. O medo e a falta de respostas, geram preconceito e incitam agressividade. Milhares de homossexuais são insultados, espancados, mortos. As recentes estatísticas apontam o crescimento do número de assassinatos de homossexuais, travestis e lésbicas no Brasil. É Jesus que continua sendo condenado.

ORAÇÃO
Senhor Jesus, foste condenado, porque o medo dominou o coração do homem e impediu o conhecimento da verdade. Tu és a Verdade. Tu nos chamas a vivermos a verdade do nosso ser. Dá-nos a graça de reconhecermos e respeitarmos a nossa própria dignidade e a dignidade de cada ser humano. Dá-nos, também, o dom de perdoar a todos aqueles que nos ofendem e agridem. Protege de todos os perigos, os nossos irmãos e irmãs homossexuais. Cura a humanidade do mal da homofobia. Liberta o coração humano de todo preconceito. Orienta a Tua Igreja, para que esteja realmente aberta e saiba acolher com amor e conduzir a Ti, todas as pessoas homossexuais.

Nós Te adoramos e Te bendizemos, ó Cristo,
porque com tua Santa Cruz remiste o mundo.

13 de abril de 2011

Via Sacra [introdução]

Diz uma antiga tradição que foi Maria Santíssima, a Mãe de Jesus, que percorreu, como primeira, todos os lugares que marcaram o doloroso caminho do Senhor, rumo ao Calvário. Os discípulos de Jesus, mesmo depois de sua ressurreição, preservaram este piedoso costume, assim como o próprio Crucifixo, o símbolo e a memória do amor infinito de Deus pelos homens. Proponho uma série de meditações, seguindo o esquema milenar das quatorze estações: a Via Sacra. Como introdução, trago um trecho de texto escrito pelo então Cardeal Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI) e lido no início da celebração de Via Sacra no Coliseu, na Sexta-feira da Paixão de 2005. Naquela hora, o Papa João Paulo II, já muito debilitado, assistia tudo via televisão, no interior de sua capela particular. Ofereço esta Via Sacra em homenagem deste Servo de Deus e grande apóstolo do homem, em vista de sua próxima beatificação (01 de maio).
Introdução à Via Sacra (Card. J. Ratzinger)
A Via-Sacra mostra-nos um Deus que partilha pessoalmente os sofrimentos dos homens, cujo amor não se mantém impassível nem distante, mas desce ao nosso meio até à morte na cruz (cf. Fil 2, 8). Este Deus que partilha os nossos sofrimentos, o Deus que Se fez homem para levar a nossa cruz, quer transformar o nosso coração de pedra chamando-nos a partilhar os sofrimentos alheios, quer dar-nos um «coração de carne» que não fique impassível diante dos sofrimentos alheios, mas se deixe comover e nos leve ao amor que cura e ajuda. (...) «Se alguém quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me» (Mt 16, 24). Com estas palavras, o próprio Jesus nos dá a interpretação da «Via-Sacra», ensina-nos como devemos fazê-la e segui-la: a Via-Sacra é o caminho da perda de nós mesmos, isto é, o caminho do amor verdadeiro. Ele precedeu-nos neste caminho; este é o caminho que a devoção da Via-Sacra nos quer ensinar. (Leia o texto na íntegra aqui).
ORAÇÃO
Senhor Jesus! Venho seguir os Teus passos neste doloroso caminho da cruz. Tu me conheces profundamente. Trago a minha homossexualidade e tudo que nela é doloroso para mim. Como Tu, ao carregar a cruz, eu também experimento a solidão. Como Tu, encontro pelo caminho várias pessoas agressivas e preconceituosas, mas também, algumas pessoas cheias de amor, atenção, carinho e disposição. Ajuda-me a carregar a minha cruz e eu me proponho a ser o Teu Cirineu e a Tua Verônica. Peço a companhia de Tua Mãe compassiva. Abençoa, Senhor, todos os meus irmãos e irmãs, os homossexuais em toda a face da terra. Concede-nos a preciosa graça de fé, esperança e de amor verdadeiro. Abençoa aqueles que amamos, por quem estamos apaixonados. Abençoa aqueles que nos odeiam e perseguem. Abençoa, sobretudo, nossas mães e pais, nossos irmãos, irmãs e demais familiares. Ampara-nos na hora da dor. Consola-nos na hora da tristeza. Defende-nos na hora da tentação. Livra-nos de todo mal. Amém.

12 de abril de 2011

Jesus elevado

A declaração de Jesus, lida no Evangelho de hoje (Jo 8,21-30): Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sa­bereis que eu sou, e que nada faço por mim mesmo, mas apenas falo aquilo que o Pai me ensinou. (v. 28), lembra uma outra frase: É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim. (Jo 12, 31-32) De imediato, vem a ideia da cruz, pelo menos na primeira passagem, na qual Jesus dirige-se aos fariseus. Foram eles, juntamente com os sumos sacerdotes e outras autoridades que, aproveitando o poder dos romanos e a confusa conjuntura político-social do momento, condenaram Jesus à crucificação. Apesar de vários sinais extraordinários na hora da morte de Jesus (Desde o meio-dia, uma escuridão cobriu toda a terra até às três horas da tarde. [Mt 27, 45]; O véu do Santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes, a terra tremeu e as pedras se partiram. Os túmulos se abriram e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram. [Mt 27, 51-52]) e, principalmente, diante das notícias inegáveis sobre a sua ressurreição, não há registro de que tivessem cumprimento as palavras de Jesus: então sa­bereis que eu sou (Jo 8, 28), pelo menos, no sentido de uma conversão dos fariseus em massa. As afirmações de Jesus nesta mesma passagem de hoje (Jo 8, 28-30) revelam a gravidade do estado espiritual desses fariseus: Disse-vos que morrereis nos vossos pecados, porque, se não acreditais que eu sou, morrereis nos vossos pecados. (v. 24) Neste contexto, podemos decifrar um segundo significado do termo "elevar Jesus". Quando abraçamos a fé, elevamos ou, como querem alguns tradutores, exaltamos Jesus, em nosso coração e na nossa vida. Ele passa a ocupar o primeiro lugar, acima de todas as coisas. Fica evidente a associação com o primeiro mandamento do Decálogo: "Amar a Deus sobre todas as coisas". Alguém disse que, quando Jesus (Deus) está em primeiro lugar, todas as outras coisas ficam em seus devidos lugares. Há uma harmonia e paz interior. A fé e o amor a Deus, são frutos da ressurreição de Cristo. A segunda das citações iniciais (Jo 12, 31-32), sugere esta interpretação. Jesus, "elevado" na cruz pelos homens é realmente "elevado da terra", pelo próprio poder divino, na hora de sua ressurreição e, mais tarde, na ascensão (Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi elevado ao céu. [Lc 24, 51]) A promessa de Jesus é de atrair todos a si. Elevado na cruz e exaltado na ressurreição e ascensão, Jesus nos atrai, ou seduz (usando as palavras do Profeta Jeremias: Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir! [Jr 20, 7]), para que o elevemos acima de todas as coisas na nossa vida. Isto é a fé.