ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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9 de abril de 2011

Luto oficial

O Diário Oficial da União publicou nesta sexta-feira o decreto assinado pela presidente Dilma Rousseff declarando luto oficial em todo o país, por três dias, a partir de hoje. A medida é um sinal de pesar pelas vítimas da tragédia na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro. As escassas informações que consegui sobre o que seria o luto oficial, na prática, são estas: é uma forma de manifestação de tristeza da nação. Durante o luto oficial, a bandeira nacional é hasteada em todas as repartições públicas do governo a meio mastro. Além disso, coloca-se um laço de crepe na ponta da lança se ela estiver sendo conduzida em alguma cerimônia. Ponto final.
Pensei, na minha ignorância, que o luto oficial suspenderia, também, a realização de eventos e programas de diversão, humor e entretenimento, mas vejo que me enganei. Enquanto a rádio BadNews FM, pelo menos no dia da tragédia, desistiu de participação do humorista José Simão, a soberana Rede Globo teve a cara de pau de emitir hoje o lixo chamado "Zorra total". Tenho pena, também, dos apresentadores que, num piscar de olhos (ou, melhor, sem piscar mesmo), são obrigados a "mudar de cara" de acordo com o teor da notícia. Neste sentido, o "Fantástico" de amanhã, será fantástico. Quanta hipocrisia! Ainda bem que tenho a liberdade de desligar a tv...

Campanha da Fraternidade [2]

A Campanha da Fraternidade, há décadas, tem sido a oportunidade para promover novas iniciativas. Algumas delas perduram, enquanto a maior parte de assuntos e projetos, cai no esquecimento. Mesmo assim, vale a pena aproveitar os impulsos e inspirações que aparecem. Escrevi (aqui) um pouco mais sobre a Campanha e hoje acrescento algo sobre a sua dinâmica, sem entrar no conteúdo em si (a ecologia). O livreto da CF-2001, elaborado pela Coordenação Arquidiocesana de Pastoral do Rio de Janeiro traz, no 4° encontro (p. 15), uma proposta interessante (transcrevo, inclusive, a forma original do diálogo entre participantes):
T. [todos] Podemos nos unir para fazer pequenos gestos, que vão, mais tarde, fazer toda a diferença.
L. [leitor] Exatamente! Um dos gestos mais importantes é a criação da consciência ecolôgica em todas as pessoas, de modo que ninguém fique pensando que isso é coisa de maluco.
T. [todos] As comunidades poderiam ter uma pastoral da ecologia.
L. [leitor] Seria um grupo com a finalidade de promover estudos sobre o tema, levantamento da relidade local, pistas para reciclagem e economia de energia... Há tantos caminhos! [aqui há referência ao Texto-base da CF 2011, n° 204ss.]
D. [dirigente] Um pequeno grupo preocupado com este assunto faria muito bem a todas as comunidades. Na história da Igreja, muitas atividades, que hoje são grandes e bem conhecidas, surgiram assim, de pequenas iniciativas. Vamos ver o que pode ser feito em nossa comunidade.
Notemos neste trecho uma dica prática para a formação de outros grupos, por exemplo, os de uma Pastoral para Homossexuais (podemos chamá-la de "Pastoral da Diversidade"). Basta substituir os termos "ecológica", "ecologia", "reciclagem", "economia de energia", por outros, mais apropriados à nossa proposta. A dinâmica e a motivação são as mesmas.

Ignorância e arrogância

Na linguagem popular, o termo "ignorância", equivale à arrogância, embora o seu significado original não seja exatamente o mesmo. O Dicionário do Aurélio traz a seguinte definição: inorância - Falta geral de conhecimento, de saber, de instrução. / Estado de quem ignora. / Falta de conhecimento de um objeto determinado: ignorância da lei. / Imperícia, incompetência. Por sua vez, a arrogância, (segundo a mesma fonte) é: Atitude altaneira; altivez; orgulho; insolência. Frequentemente podemos ouvir a declaração de alguém que pretende "partir para a ignorância", quer dizer, tornar-se agressivo, brigar. Por exemplo: "Não me conformei e parti pra ignorância." Sem dúvida, ambas: a ignorância e a arrogância, podem tornar-se vizinhas e cúmplices, alimentando-se mutuamente. Acho difícil dizer qual delas aparece primeiro. Pode acontecer que, por arrogância, alguém permaneça na ignorância. Igualmente, por ignorar a verdade, alguém torna-se arrogante. É o exemplo do Evangelho de hoje (Jo 7,40-53). Apesar de todos os milagres realizados por Jesus e de toda admiração do povo, neste caso, também dos guardas do templo, as autoridades judaicas permanecem arrogantes. “Também vós vos dei­xastes enganar? Por acaso algum dos chefes ou dos fariseus acreditou nele? Mas esta gente que não conhece a Lei, é maldita!” (vv. 47-49). E argumentam: Porventura o Messias virá da Galileia? Não diz a Escritura que o Messias será da descendência de Davi e virá de Belém, povoado de onde era Davi?” (vv. 41-42) Respondem a Nicodemos que apelava à lógica e ao bom senso: Vai estudar e verás que da Galileia não surge profeta. (v. 52) Quem, de fato, precisava de estudar, eram eles: os fariseus e os sacerdotes do templo. Faltou-lhes, no entanto, a humildade de Sócrates que dizia: "Só sei que nada sei". Outro grande filósofo, Platão, afirmava que a ignorância pode ser tão profunda que não a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos que ignoramos (leia uma matéria interessante sobre este assunto no blog "Templário Lusitano" - aqui). É o caso daqueles religiosos de Jerusalém. É o caso, também, de todos aqueles que tomam atitudes arrogantes e agressivas, em relação a homossexuais. Cito aqui um texto, reproduzido por muitos autores, portanto sem a definição exata de sua origem. Tenho a impressão que a história complementa bem a reflexão de hoje. O comandante das tropas de ocupação disse ao prefeito de um povoado: "Temos certeza de que você está escondendo um traidor em seu povoado. A menos que você o entregue, nós vamos exterminar todo o seu povo. O povoado estava, mesmo, escondendo um homem que parecia bom e inocente e que era amado por todos. Mas, o que poderia fazer o prefeito, agora que o bem-estar do povoado todo estava sendo ameaçado? O conselho do povoado passou horas discutindo o assunto, mas não chegou a conclusão alguma. Então, o prefeito levou o assunto ao conhecimento do padre. Ambos passaram a noite toda consultando as Escrituras e, por fim, chegaram a uma solução. Havia um texto que dizia: "Não percebeis que é melhor um só morrer pelo povo do que perecer a nação inteira?" (Jo 11,50) Assim o prefeito entregou o homem inocente às forças de ocupação. O homem foi cruelmente torturado, seus gritos podiam ser ouvidos em todo o povoado. Finalmente ele foi morto. Algum tempo mais tarde passou pelo povoado um profeta que foi até o prefeito e lhe disse: "O que você fez? Aquele homem tinha sido escolhido por Deus para ser o salvador deste país. E você o entregou para ser torturado e morto!" - "O que podia eu fazer?" - contestou o prefeito. - "O padre e eu procuramos nas Escrituras e agimos de acordo com elas". "Esse foi o seu erro" - disse o profeta. - "Você procurou nas Escrituras, mas devia ter procurado dentro dos olhos dele".

Ler Santa Teresinha

No último dia 6 de abril, durante a Audiência Geral no Vaticano, o Papa Bento XVI falou sobre Santa Teresinha do Menino Jesus (leia a catequese na íntegra aqui). O Santo Padre fez, também, um convite: "História de uma alma". É um livro que teve subitamente um enorme sucesso, foi traduzido em muitas línguas e difundido em todo o mundo. Gostaria de convidar-vos a redescobrir esse pequeno-grande tesouro, esse luminoso comentário do Evangelho plenamente vivido! A História de uma alma, de fato, é uma maravilhosa história de amor, narrada com tal autenticidade, simplicidade e frescor que o leitor não pode não ficar fascinado! Atendo ao convite do Papa e transcrevo aqui um pequeno trecho do texto de Santa Teresinha. Vejamos como esta Doutora da Igreja enxerga a diversidade no plano de Deus: [Jesus] Pôs diante dos meus olhos o livro da natureza e compreendi que todas as flores por ele criadas são belas, e que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não tiram o perfume da humilde violeta nem a simplicidade encantadora da margarida... Compreendi que se todas as flores quisessem ser rosas, a natureza perderia sua pompa primaveril e os campos já não seriam salpicados de florzinhas... O mesmo ocorre no mundo das almas, o jardim de Jesus. Ele quis criar grandes santos, que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas criou também outros menores, e estes devem se conformar em ser margaridas ou violetas destinadas a alegrar os olhos de Deus quando contempla seus pés. A perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser aquilo que Ele quer que sejamos... (n. 5) Santa Teresinha resumiu a sua obra como "História primaveril de uma Florzinha branca escrita por ela mesma". O livro inteiro pode ser lido aqui.

Blogueiros no Vaticano

O portal católico de notícias Zenit (aqui) publicou o convite dirigido aos blogueiros: Os Conselhos Pontifícios da Cultura e para as Comunicações Sociais convocaram um encontro de blogueiros em Roma, no dia 2 de maio. Este encontro tem como objetivo permitir um diálogo entre os blogueiros e representantes da Igreja, compartilhar experiências dos que trabalham diretamente neste campo e compreender melhor as necessidades desta comunidade. Será que nós, autores de blogues "gays-católicos", podemos ser recebidos pelos "representantes da Igreja"? Estou falando de DIVERSIDADE CATÓLICAGAY CATÓLICO, RUMOS NOVOS, GAYS CATÓLICOS, MORADAS DE DEUS, e tantos outros (entre eles, também o meu). A atribuição oficial do adjetivo "católico" à qualquer instituição, atividade ou publicação, não é muito fácil. Várias pessoas, comunidades e afins, com um trabalho bem menos polêmico do que o nosso, lutam por longos anos pelo reconhecimento por parte da Igreja (seja por uma diocese, seja pelo próprio Vaticano). Obviamente, não têm este problema, as iniciativas promovidas pela própria Igreja. Podemos abrir aqui a questão de quem (ou o que) é a Igreja. Percebo que, de acordo com a circunstância, este termo refere-se, uma vez à hierarquia e, em outras ocasiões, ao povo católico em geral. São Paulo fala sobre a Igreja como o Corpo de Cristo (cf. 1Cor, 12) e a doutrina católica retoma esta ideia ao longo da história. Nas últimas décadas, a inspiração vem dos documentos do Concílio Vaticano II que desenvolve abundantemente esta eclesiologia (teologia da Igreja). Tendo, porém, o exemplo da "Carta sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais" (comentada neste blog várias vezes), percebo que seria mais fácil - em nosso caso - ser excluído do que incluído à Igreja. A "Carta" (aqui) está cheia de advertências e objeções, por exemplo: Mesmo dentro da Igreja formou-se uma corrente, constituída por grupos de pressão com denominações diferentes e diferente amplitude, que tenta impôr-se como representante de todas as pessoas homossexuais que são católicas. Na realidade, seus adeptos são, na maioria dos casos, pessoas que, ou desconhecem o ensinamento da Igreja, ou procuram subvertê-lo de alguma maneira. Tenta-se reunir sob a égide do catolicismo pessoas homossexuais que não têm a mínima intenção de abandonar o seu comportamento homossexual. Uma das táticas usadas é a de afirmar, em tom de protesto, que qualquer crítica ou reserva às pessoas homossexuais, à sua atitude ou ao seu estilo de vida, é simplesmente uma forma de injusta discriminação. (n. 9) As afirmações desse tipo parecem apagar os últimos resíduos de esperança. Entretanto, como diz o ditado popular, "a esperança é a última que morre". O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, disse: “Sabemos que no geral os blogueiros são um pouco provocadores. Como seria possível ignorá-los? São sujeitos fundamentais da nova comunicação”.
O encontro acontecerá um dia depois da beatificação de João Paulo II, aproveitando a presença em Roma de numerosos blogueiros. Os que desejarem participar devem enviar um e-mail para blogmeet@pccs.it, colocando o link do respectivo blog. A sede do encontro será o auditório São Pio X, na Via da Conciliação, n. 5. Notifico aqui que, infelizmente, não esterei neste dia em Roma...

7 de abril de 2011

O coração insensível

Até onde consegue chegar o ser humano? A perplexidade toma conta do nosso coração, diante das notícias sobre a maldade de um criminoso que, nesta manhã, assassinou dentro de uma escola, várias crianças inocentes. Os noticiários falam de um - mais que provável - transtorno psíquico daquele homem. Houve indícios anteriores dessa atitude desumana? Alguém teve a chance de prever e, principalmente, impedir, tal acontecimento? Certamente, vamos ouvir ainda muito sobre este assunto. Não cabe a mim emitir aqui nada em tom de definição ou julgamento. Uno-me, em oração, com todas as vítimas e concordo com as palavras de Dom Orani, Arcebispo do Rio: O atentado feriu não só aqueles que foram atingidos, mas também a todos os cariocas. (Leia o texto da nota aqui)
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Estamos na proximidade da celbração anual do Mistério Pascal. Apesar do nome, que associamos principalmente à ressurreição, este mistério engloba também o inimaginável sofrimento do Filho de Deus. Não me refiro "apenas" à paixão de Jesus, ocorrida entre a noite de Quinta-feira Santa e a tarde de Sexta-feira da Paixão. Sim, naquelas horas foi o auge do sacrifício. Os textos do Evangelho lidos nestes dias, porém, mostram-nos o cerco de maldade que se apertava, cada vez mais, em torno de Cristo. É impressionante a frieza de coração, bem como a "anestesia de inteligência", que apresentam os inimigos de Jesus. No texto de hoje (Jo 5,31-47), lemos a triste constatação de Jesus: Eu sei que não tendes em vós o amor de Deus. (v. 42) Foi esta falta de amor de Deus que impediu àqueles judeus, líderes religiosos, a reconhecerem o significado das obras de Jesus: As obras que eu faço dão testemunho de mim, mostrando que o Pai me enviou. (v. 36) É bom pararmos aqui, para refletir um pouco. Que obras são essas? Sem dúvida, em primeiro lugar, os milagres (com frequência descritos no Evangelho como "sinais"). Enquanto o povo simples se maravilhava com esses feitos extraordinários de Jesus, as autoridades ficavam furiosas. Entre vários exemplos, cito apenas dois: Jesus estava ensinando numa sinagoga, num dia de sábado. Havia aí uma mulher que, dezoito anos já, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e totalmente incapaz de olhar para cima. Vendo-a, Jesus a chamou e lhe disse: “Mulher, estás livre da tua doença”. Ele impôs as mãos sobre ela, que imediatamente se endireitou e começou a louvar a Deus. O chefe da sinagoga, porém, furioso porque Jesus tinha feito uma cura em dia de sábado, se pôs a dizer à multidão: “Há seis dias para trabalhar. Vinde, pois, nesses dias para serdes curados, mas não em dia de sábado”. (Lc 13, 10-14) A reação do chefe da sinagoga me espanta. Como se tivesse falado de varrer o chão ou carregar as cadeiras dentro da sinagoga no dia de sábado, mas tratava-se de um milagre! Outro exemplo é ainda mais chocante: Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde morava Lázaro, que ele tinha ressuscitado dos mortos. Lá, ofereceram-lhe um jantar. Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Muitos judeus souberam que ele estava em Betânia e foram para lá, não só por causa dele, mas também porque queriam ver Lázaro, que Jesus tinha ressuscitado dos mortos. Os sumos sacerdotes, então, decidiram matar também Lázaro, pois por causa dele muitos se afastavam dos judeus e começaram a crer em Jesus. (Jo 9, 1-2. 9-11) Sinceramente, não consigo entender a insensibilidade dos corações daqueles homens (homens religiosos, é bom lembrar!). A falta de boa vontade não resulta apenas em uma simples indiferença. Torna-se má vontade.
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Concluo com uma observação no contexto da experiência diária de muitos homossexuais. Digo a todo aquele que nos condena, despreza e persegue: Por que você, antes de dizer ou fazer qualquer coisa, não quer nos conhecer mais de perto? Olhar nos olhos de um homossexual? Compreender, um pouco melhor, a sua vida, os seus sentimentos, a sua história? Jesus disse que as suas obras davam testemunho a respeito dele. Você pensa que os homossexuais vivem fazendo "aquele sexo pavoroso" 24 horas por dia e que essas são as suas únicas "obras"? Você já imaginou que muitos homossexuais são filhos, irmãos e amigos carinhosos, ótimos profissionais e artistas, têm alma sensível, coração aberto e sonham com o futuro, assim como você? E que muitos são religiosos e procuram cultivar uma dedicada vida de oração? Ah, sim, existem homossexuais perversos, promíscuos, mentirosos, ladrões, pedófilos e até assassinos. Assim como entre os hetrossexuais. Precisamos rezar por todos eles.

6 de abril de 2011

Deus trabalha

Jesus respondeu aos judeus: “Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho”. Então, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque, além de violar o sábado, chamava Deus o seu Pai, fazendo-se, assim, igual a Deus. (Jo 5,17-18) Estas palavras iniciais do Evangelho de hoje (Jo 5,17-30) ajudam-nos a entrar no clima, cada vez mais tenso, no meio do qual Jesus se aproximava à realização plena de sua missão, através da paixão, morte na cruz e ressurreição. A liturgia quaresmal procura fazer com que acompanhemos, passo a passo, o Nosso Senhor. O texto do Evangelho lido hoje é a continuação da passagem de ontem (Jo 5,1-16) que falava sobre a cura de um paralítico. Os judeus, assim como em tantas outras ocasiões parecidas, criticavam o fato de o milagre ter sido realizado no dia de sábado. As respostas de Jesus, em diversas ocasiões, resumem toda a revelação (a Boa Nova), que Ele mesmo trouxe, a respeito dos preceitos judaicos e da maneira correta de cumpri-los: O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. (Mc 2,27) Em dia de sábado, o que é permitido: fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou matar? (Mc 3,4) Um pequeno trecho do Evangelho de ontem mostra, também, a firmeza daquele que tinha experimentado a graça de Jesus e compreendido o seu ensinamento: Os judeus disseram ao homem que tinha sido curado: “É sábado! Não te é permitido carregar tua cama”. Ele respondeu-lhes: “Aquele que me curou disse: ‘Pega tua cama e anda’”. (Jo 5, 10-11) Podemos, neste momento, recordar a análise da mentalidade judaica da época, apresentada pelo padre Helminiak e citada neste blog (aqui). A palavra-chave parece ser a "abominação". Certamente, para os acusadores do paralítico curado, o ato de carregar a cama no dia de sábado, era uma abominação. Entretanto, a resposta do homem foi clara: aquele que me curou disse "Pega a tua cama e anda". Realmente, no entendimento dos judeus, realizar qualquer trabalho no dia de sábado, era um pecado grave. Pensavam que, ao trabalhar nesse dia, os homens ofendiam a Deus. Foi neste contexto que Jesus disse: Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho. (Jo 5, 17) É muito importante esta reflexão! Como é que o Pai do céu, Deus todo-poderoso "trabalha sempre"? Existe, entre várias correntes de pensamento, o chamado "deísmo" que aceita a existência de um Deus, mas nega qualquer intervenção dele na história do universo. É como o fabricante de um mecanismo qualquer (fala-se, por exemplo, de um "Deus-relojoeiro") que, depois de ter criado e colocado em movimento a sua obra, nunca mais se interessou por ela. As palavras de Jesus descartam totalmente tal ideia. Como, então, Deus "trabalha"? A resposta vem no salmo responsorial e na I leitura de hoje: Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura. O Senhor é amor fiel em sua palavra, é santidade em toda obra que ele faz. Ele sustenta todo aquele que vacila e levanta todo aquele que tombou. É justo o Senhor em seus caminhos, é santo em toda obra que ele faz. Ele está perto da pessoa que o invoca, de todo aquele que o invoca lealmente. (Sl 144, 8-9. 14. 17-18) E Ele mesmo diz (na I leitura - Is 49,8-15): Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti. (v. 15) Como uma mãe carinhosa e vigilante, Deus trabalha, cuidando de cada um de nós. Trabalha sempre. 24 horas por dia. E foi exatamente disso que se esqueciam os adversários de Jesus, preocupados com a obediência cega aos preceitos. Jesus, em outra ocasião, dizia-lhes: Sabeis muito bem como anular o mandamento de Deus apegando-vos à vossa tradição. (Mc 7,9). Compreendeu isso perfeitamente o Apóstolo Paulo, ao escrever: A letra mata, o Espírito é que dá a vida. (2Cor 3,6)