ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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7 de abril de 2011

O coração insensível

Até onde consegue chegar o ser humano? A perplexidade toma conta do nosso coração, diante das notícias sobre a maldade de um criminoso que, nesta manhã, assassinou dentro de uma escola, várias crianças inocentes. Os noticiários falam de um - mais que provável - transtorno psíquico daquele homem. Houve indícios anteriores dessa atitude desumana? Alguém teve a chance de prever e, principalmente, impedir, tal acontecimento? Certamente, vamos ouvir ainda muito sobre este assunto. Não cabe a mim emitir aqui nada em tom de definição ou julgamento. Uno-me, em oração, com todas as vítimas e concordo com as palavras de Dom Orani, Arcebispo do Rio: O atentado feriu não só aqueles que foram atingidos, mas também a todos os cariocas. (Leia o texto da nota aqui)
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Estamos na proximidade da celbração anual do Mistério Pascal. Apesar do nome, que associamos principalmente à ressurreição, este mistério engloba também o inimaginável sofrimento do Filho de Deus. Não me refiro "apenas" à paixão de Jesus, ocorrida entre a noite de Quinta-feira Santa e a tarde de Sexta-feira da Paixão. Sim, naquelas horas foi o auge do sacrifício. Os textos do Evangelho lidos nestes dias, porém, mostram-nos o cerco de maldade que se apertava, cada vez mais, em torno de Cristo. É impressionante a frieza de coração, bem como a "anestesia de inteligência", que apresentam os inimigos de Jesus. No texto de hoje (Jo 5,31-47), lemos a triste constatação de Jesus: Eu sei que não tendes em vós o amor de Deus. (v. 42) Foi esta falta de amor de Deus que impediu àqueles judeus, líderes religiosos, a reconhecerem o significado das obras de Jesus: As obras que eu faço dão testemunho de mim, mostrando que o Pai me enviou. (v. 36) É bom pararmos aqui, para refletir um pouco. Que obras são essas? Sem dúvida, em primeiro lugar, os milagres (com frequência descritos no Evangelho como "sinais"). Enquanto o povo simples se maravilhava com esses feitos extraordinários de Jesus, as autoridades ficavam furiosas. Entre vários exemplos, cito apenas dois: Jesus estava ensinando numa sinagoga, num dia de sábado. Havia aí uma mulher que, dezoito anos já, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e totalmente incapaz de olhar para cima. Vendo-a, Jesus a chamou e lhe disse: “Mulher, estás livre da tua doença”. Ele impôs as mãos sobre ela, que imediatamente se endireitou e começou a louvar a Deus. O chefe da sinagoga, porém, furioso porque Jesus tinha feito uma cura em dia de sábado, se pôs a dizer à multidão: “Há seis dias para trabalhar. Vinde, pois, nesses dias para serdes curados, mas não em dia de sábado”. (Lc 13, 10-14) A reação do chefe da sinagoga me espanta. Como se tivesse falado de varrer o chão ou carregar as cadeiras dentro da sinagoga no dia de sábado, mas tratava-se de um milagre! Outro exemplo é ainda mais chocante: Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi a Betânia, onde morava Lázaro, que ele tinha ressuscitado dos mortos. Lá, ofereceram-lhe um jantar. Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Muitos judeus souberam que ele estava em Betânia e foram para lá, não só por causa dele, mas também porque queriam ver Lázaro, que Jesus tinha ressuscitado dos mortos. Os sumos sacerdotes, então, decidiram matar também Lázaro, pois por causa dele muitos se afastavam dos judeus e começaram a crer em Jesus. (Jo 9, 1-2. 9-11) Sinceramente, não consigo entender a insensibilidade dos corações daqueles homens (homens religiosos, é bom lembrar!). A falta de boa vontade não resulta apenas em uma simples indiferença. Torna-se má vontade.
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Concluo com uma observação no contexto da experiência diária de muitos homossexuais. Digo a todo aquele que nos condena, despreza e persegue: Por que você, antes de dizer ou fazer qualquer coisa, não quer nos conhecer mais de perto? Olhar nos olhos de um homossexual? Compreender, um pouco melhor, a sua vida, os seus sentimentos, a sua história? Jesus disse que as suas obras davam testemunho a respeito dele. Você pensa que os homossexuais vivem fazendo "aquele sexo pavoroso" 24 horas por dia e que essas são as suas únicas "obras"? Você já imaginou que muitos homossexuais são filhos, irmãos e amigos carinhosos, ótimos profissionais e artistas, têm alma sensível, coração aberto e sonham com o futuro, assim como você? E que muitos são religiosos e procuram cultivar uma dedicada vida de oração? Ah, sim, existem homossexuais perversos, promíscuos, mentirosos, ladrões, pedófilos e até assassinos. Assim como entre os hetrossexuais. Precisamos rezar por todos eles.

6 de abril de 2011

Deus trabalha

Jesus respondeu aos judeus: “Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho”. Então, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque, além de violar o sábado, chamava Deus o seu Pai, fazendo-se, assim, igual a Deus. (Jo 5,17-18) Estas palavras iniciais do Evangelho de hoje (Jo 5,17-30) ajudam-nos a entrar no clima, cada vez mais tenso, no meio do qual Jesus se aproximava à realização plena de sua missão, através da paixão, morte na cruz e ressurreição. A liturgia quaresmal procura fazer com que acompanhemos, passo a passo, o Nosso Senhor. O texto do Evangelho lido hoje é a continuação da passagem de ontem (Jo 5,1-16) que falava sobre a cura de um paralítico. Os judeus, assim como em tantas outras ocasiões parecidas, criticavam o fato de o milagre ter sido realizado no dia de sábado. As respostas de Jesus, em diversas ocasiões, resumem toda a revelação (a Boa Nova), que Ele mesmo trouxe, a respeito dos preceitos judaicos e da maneira correta de cumpri-los: O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. (Mc 2,27) Em dia de sábado, o que é permitido: fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou matar? (Mc 3,4) Um pequeno trecho do Evangelho de ontem mostra, também, a firmeza daquele que tinha experimentado a graça de Jesus e compreendido o seu ensinamento: Os judeus disseram ao homem que tinha sido curado: “É sábado! Não te é permitido carregar tua cama”. Ele respondeu-lhes: “Aquele que me curou disse: ‘Pega tua cama e anda’”. (Jo 5, 10-11) Podemos, neste momento, recordar a análise da mentalidade judaica da época, apresentada pelo padre Helminiak e citada neste blog (aqui). A palavra-chave parece ser a "abominação". Certamente, para os acusadores do paralítico curado, o ato de carregar a cama no dia de sábado, era uma abominação. Entretanto, a resposta do homem foi clara: aquele que me curou disse "Pega a tua cama e anda". Realmente, no entendimento dos judeus, realizar qualquer trabalho no dia de sábado, era um pecado grave. Pensavam que, ao trabalhar nesse dia, os homens ofendiam a Deus. Foi neste contexto que Jesus disse: Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho. (Jo 5, 17) É muito importante esta reflexão! Como é que o Pai do céu, Deus todo-poderoso "trabalha sempre"? Existe, entre várias correntes de pensamento, o chamado "deísmo" que aceita a existência de um Deus, mas nega qualquer intervenção dele na história do universo. É como o fabricante de um mecanismo qualquer (fala-se, por exemplo, de um "Deus-relojoeiro") que, depois de ter criado e colocado em movimento a sua obra, nunca mais se interessou por ela. As palavras de Jesus descartam totalmente tal ideia. Como, então, Deus "trabalha"? A resposta vem no salmo responsorial e na I leitura de hoje: Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura. O Senhor é amor fiel em sua palavra, é santidade em toda obra que ele faz. Ele sustenta todo aquele que vacila e levanta todo aquele que tombou. É justo o Senhor em seus caminhos, é santo em toda obra que ele faz. Ele está perto da pessoa que o invoca, de todo aquele que o invoca lealmente. (Sl 144, 8-9. 14. 17-18) E Ele mesmo diz (na I leitura - Is 49,8-15): Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém não me esquecerei de ti. (v. 15) Como uma mãe carinhosa e vigilante, Deus trabalha, cuidando de cada um de nós. Trabalha sempre. 24 horas por dia. E foi exatamente disso que se esqueciam os adversários de Jesus, preocupados com a obediência cega aos preceitos. Jesus, em outra ocasião, dizia-lhes: Sabeis muito bem como anular o mandamento de Deus apegando-vos à vossa tradição. (Mc 7,9). Compreendeu isso perfeitamente o Apóstolo Paulo, ao escrever: A letra mata, o Espírito é que dá a vida. (2Cor 3,6)

5 de abril de 2011

Bento XVI vai conversar

A notícia que merece o destaque, também porque não se encontra nos oficiais meios de comunicação da Igreja. Em visita à sua terra-natal, a Alemanha, o papa Bento XVI participará de uma reunião com a entidade LSVD (Associação Lésbica e Gay de Berlim-Brandemburgo). De acordo com a agenda oficial de Bento XVI, o encontro acontecerá no dia 22 de setembro deste ano. É o primeiro evento deste tipo na história da Igreja Católica. Alguns sites e blogues fazem piada com esta notícia, alegando o fato de ter sido publicada próximo ao dia 1 de abril (o "dia da mentira"). De fato, as fontes católicas falam de encontros do Papa com representantes judeus, muçulmanos e da comunidade evangélica luterana. As autoridades católicas não confirmaram ainda se Bento XVI se vai encontrar com vítimas de padres pedófilos (nada sobre o encontro com a entidade em questão). Vamos aguardar a confirmação de todos os detalhes dessa viagem. Ainda que não se possa esperar grandes soluções práticas e concretas, este encontro (caso aconteça de fato) será um sinal muito positivo, tanto para a Igreja, quanto para nós, homossexuais. Eu estou confiante. Deus escuta o clamor de seus filhos amados.

4 de abril de 2011

A fé em andamento

Embora usemos com frequência a expressão: "o ato de crer", a fé não é uma relidade estagnada. A dinâmica, o movimento constante, é a sua natureza própria. Neste sentido, o ato de crer, seria um dos passos da jornada de fé. Assim como numa caminhada, cada passo é algo novo, também cada ato de crer é diferente. Podemos perceber isso na passagem do Evangelho de hoje (Jo 4, 43-54). O funcionário do rei dá seu primeiro passo ao sair de casa à procura de Jesus. Não desiste do seu propósito diante da declaração de Jesus: Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais. Podemos falar aqui de uma fé desafiada que, se fosse pequena ou fraca, iria desistir naquele exato momento. O homem, no entanto, insiste: Senhor, desce, antes que meu filho morra! Agora vem um desafio ainda maior: Podes ir, teu filho está vivo. Ou seja, Jesus não atende ao pedido do pai angustiado de maneira que este imaginava. Acredito ser esta a verdade muito importante para a nossa percepção da fé e de oração. Quantas vezes as nossas preces tomam uma forma de instruções para Deus! Nesta altura, o homem do Evangelho, dá o segundo passo: acredita na palvra de Jesus e vai para casa. É, mais ou menos, como a resposta de Simão Pedro, no início de sua vocação: Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos; mas por causa de tua palavra, lançarei a rede. (Lc 5, 5) Aquele funcionário do rei, um pai preocupado, pode ter pensado assim: "Imaginei que o Mestre fosse para minha casa para curar o menino, mas por causa de sua palavra, eu vou embora sozinho". Vai com fé e não com revolta no coração. E a fé está sempre acompanhada pela esperança, ambas sustentadas pelo amor (a fé, a esperança e a caridade, são inseparáveis). Alguém pode ter criticado aquele homem: "Poxa, você não trouxe Jesus?", mas ele está seguro: Tendo uma tal esperança, procedemos com toda a segurança. (2Cor 3, 12) Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos em apuros, mas não desesperançados. (2Cor 4, 8) Pois, se labutamos e lutamos, é porque pusemos a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos, principalmente dos que têm fé. (1Tm 4, 10) A fé é a certeza daquilo que ainda se espera, a demonstração de realidades que não se vêem. (Hbr 11, 1). O Papa Bento XVI, em sua encíclica sobre a esperança, "Spe salvi" (leia esta encíclica aqui), escreveu que «esperança» equivale a «fé» (n. 2). O Evangelho relata os detalhes do retorno daquele homem para casa: os empregados com boas notícias e a preocupação do pai com a hora em que o filho tinha melhorado. Tenho a impressão de que, naquele momento, esse homem estava mais interessado com o detalhe do horário, do que com o estado de saúde do próprio filho, mas talvez tenha siddo assim, porque, de fato, ele não estava mais preocupado com o filho, mesmo sem tê-lo visto. Tinha acreditado de verdade. O terceiro passo da sua jornada de fé, porém, ocorreu já em casa: Ele abraçou a fé, juntamente com toda a sua família. (Jo 4, 53). Três etapas: acreditou, foi embora (agiu, contra a lógica e contra os sentimentos) e, finalmente, abraçou a fé. E, quando o evangelista conclui a descrição deste episódio, com a informação de que esse foi o segundo sinal de Jesus. Realizou-o quando voltou da Judeia para a Galileia. (v. 54) - podemos interpretá-lo de duas maneiras: a cura do menino foi, sem dúvida, um sinal (no Evangelho é o sinônimo de milagre), mas também (o que parece sugerir a sequência imediata das afirmações de João), não deixa de ser um sinal a mudança de vida daquela família que abraçou a fé (ou seja, a sua conversão).
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Para nós, homossexuais e cristãos, é muito importante esta lição de fé. Primeiro, porque temos motivos de sobra para deistir, diante das palavras (muitas vezes ouvidas dentro da própria Igreja) que pretendem nos desencorajar. É bom lembrarmos aqui, mais uma vez, a frase de São Paulo, citada acima: Pois, se labutamos e lutamos, é porque pusemos a nossa esperança no Deus vivo (1Tm 4, 10). Para terminar, vou repetir a minha opinião, sobre a enorme necessidade de um trabalho sério, estruturado, apoiado de verdade pela Igreja, que podemos chamar de "Pastoral para Homossexuais". Nós precisamos urgentemente de uma formação espiritual de qualidade. Não podemos continuar abandonados e desprezados pela Igreja. Caso contrário, a própria Igreja permanecerá em estado de omissão grave.

3 de abril de 2011

O cego de nascença

Neste IV Domingo da Quaresma (Ano A), a liturgia apresenta-nos a cena de cura do cego de nascença (Jo 9, 1-41). É bom lembrarmos que, especialmente neste ciclo litúrgico, chamado "Ano A", a Igreja nos leva a revivermos as etapas do caminho de preparação para o Sacramento do Batismo, o Catecumenato. Para quem já foi batizado, este período torna-se uma experiência que podemos denominar "neocatecumenato" (existe um movimento com este nome, reconhecido pela Igreja). O catecumenato em si, vivem aqueles que, de fato, preparam-se para o Batismo (os catecúmenos), tendo alcançado a idade adulta (o que, no sentido definido pelo Código de Direito Canônico, ocorre na idade de 7 anos). Leia sobre o catecumenato, por exemplo aqui.
O pregador da Casa Pontifícia, o Padre Raniero Cantalamessa, comenta o Evangelho de hoje: Ver é um milagre, só que não lhe damos atenção porque estamos acostumados. Eis aí então que Deus às vezes atue de forma repentina, extraordinária, a fim de sacudir-nos de nosso supor e tornar-nos atentos. É o que fez na cura do cego de nascença e de outros cegos no Evangelho. Mas é só para isso que Jesus curou o cego de nascença? Em outro sentido também nascemos cegos. Há outros olhos que devem ainda abrir-se ao mundo, além dos físicos: os olhos da fé! Permitem vislumbrar outro mundo muito além do que vemos com os olhos do corpo: o mundo de Deus, da vida eterna, o mundo do Evangelho, o mundo que não termina nem sequer... com o fim do mundo. É o que Jesus quis recordar-nos com a cura do cego de nascença. Antes de tudo, Ele envia o jovem cego à piscina de Siloé. Com isso, Jesus queria significar que estes olhos diferentes, os da fé, começam a abrir-se no batismo, quando recebemos precisamente o dom da fé. Por isso, na antiguidade o batismo se chamava também «iluminação», e ser batizado era chamado de «ter sido iluminado». (Leia a pregação inteira aqui)
O que pode nos interessar de modo especial, no contexto de nossa homossexualidade, é a parte do texto que apresenta o diálogo de Jesus com os seus discípulos: Os seus discípulos lhe perguntaram: “Rabi, quem pecou para que ele nascesse cego, ele ou seus pais?” Jesus respondeu: “Nem ele, nem seus pais pecaram, mas é uma ocasião para que se manifestem nele as obras de Deus." (Jo 9, 2-3). Quantos pais de homossexuais, quantos parentes, vizinhos e até estranhos, fazem esta pergunta: "Quem é culpado pelo fato de que essa pessoa seja homossexual?". Os próprios gays e lésbicas fazem, com frequência, esta pergunta. A analogia que faço, não está entre a cegueira e a homossexualidade, portanto, para o melhor entendimento, podemos interpretar a frase do Evangelho assim: “Rabi, quem pecou para que ele nascesse assim, ele ou seus pais?”. É claro que esta reflexão serve somente para aqueles que admitem a tese de que, na formação da orientação sexual, atuam os fatores anteriores ao nascimento (genética, influências ocorridas durante a gestação, etc.). Refleti um pouco sobre os segredos da gestação no 2° dia da Novena de Natal (aqui) e também, em outra postagem, sobre a genêtica (aqui). É neste sentido que leio a resposta de Jesus: Nem ele, nem seus pais pecaram, mas é uma ocasião para que se manifestem nele as obras de Deus. Acredito que, a partir destas palavras de Jesus, seja possível enxergar melhor a nossa identidade e prosseguir pelo caminho de novas descobertas: quais são as obras de Deus que se manifestam em mim e, quais ainda devem se manifestar, com a minha participação consciente, livre e confiante?
Leia as belíssimas reflexões no site "Diversidade Católica" (aqui e aqui), baseadas no episódio de cura do cego de nascença: "Olhos para ver o invisível " e "Caminhos para a fé".

2 de abril de 2011

João Paulo II

Há 6 anos, ao receber notícia sobre a morte do Papa, senti como se tivesse terminado uma época da história do mundo, da Igreja e, também, da minha vida. Desde os meus 15 anos vivi fascinado com Deus e com a Igreja, em grade parte graças a João Paulo II. Esta fascinação não era a mesma que, pelo menos nos primeiros anos do pontificado de João Paulo II, apresentavam e nutriam os meios de comunicação. Ainda hoje lembro-me das manchetes de jornais que falavam do porte atlético do Papa e de suas viagens repletas de gestos inesperados, originais e cativantes, criando uma imagem do "Papa-Popstar". Não tive também muitas ocasiões de ver João Paulo II de perto. O que, de fato, causou (e ainda causa) a minha admiração, foram os seus textos. Ainda adolescente, fiquei apaixonado pelas primeiras encíclicas do Papa: "Redemptor hominis", "Laborem exercens" e "Dives in misericordia". Depois vieram muitos outros documentos, discursos e livros. Palavras embriagadas de amor por Deus e pelo ser humano. Cada ser humano. Hoje, no sexto aniversário do seu retorno à casa do Pai e quase às vesperas de sua beatificação (no próximo dia 01 de maio), agradeço a Deus pelo dom deste Papa e agradeço a João Paulo II, especialmente por ser apóstolo de - e para - cada homem, sem excessão alguma.

1 de abril de 2011

Mandamento de amor

Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! O segundo mandamento é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo! Não existe outro mandamento maior do que estes. (Mc 12, 28b-34) Não teria razão este mandamento (pois, como é que se pode mandar amar alguém?), se não fosse uma consequência do amor de Deus, uma resposta ao amor que Ele tem por cada um de nós. Nós amamos, porque ele nos amou primeiro. (1Jo 4,19) Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros. (1Jo 4,11) Neste sentido podemos interpretar as palavras iniciais (Ouve, ó Israel!), como: "Experimente, ó Israel, como Deus, o único Senhor, te ama! Abre os olhos e abre o coração" - isso sim, pode ser exigido, pois depende de nossa vontade. Quanto mais descobrimos o quanto somos amados, maior é a nossa reação que consiste, justamente, em amar a Deus e ao próximo. Em outra passagem, bem parecida com esta, Jesus acrescenta: Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos. (Mt 22, 40) e São Paulo, por sua vez, diz: Não fiqueis devendo nada a ninguém… a não ser o amor que deveis uns aos outros, pois quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei. De fato, os mandamentos: “Não cometerás adultério”, “Não matarás”, “Não roubarás”, “Não cobiçarás”, e qualquer outro mandamento, se resumem neste: “Amarás o próximo como a ti mesmo”. O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei. (Rm 13, 8-10) À luz dessas afirmações da Palavra de Deus, compreendemos a mais famosa frase de Santo Agostinho: Ama e faze o que quiseres. É claro que tudo depende da maneira de entendermos a palavra "amar". Recentemente falou sobre isso o pregador da Casa Pontifícia, o Pe. Raniero Cantalamessa: O amor sofre de uma separação nefasta não só na mentalidade do mundo secularizado, mas também, do lado oposto, entre os crentes e, em particular, entre as almas consagradas. Poderíamos formular a situação, simplificando ao máximo, assim: temos no mundo um eros sem ágape; e entre os crentes, temos frequentemente um ágape sem eros. (...) Se o amor mundano é um corpo sem alma, o amor religioso praticado assim é uma alma sem corpo. O ser humano não é um anjo, um espírito puro; é alma e corpo substancialmente unidos: tudo o que ele faz, amar inclusive, tem que refletir essa estrutura. Se o componente humano ligado ao tempo e à corporeidade é sistematicamente negado ou reprimido, a saída será dúplice: ou seguir adiante aos arrastos, por senso de dever, por defesa da própria imagem, ou ir atrás de compensações mais ou menos lícitas, chegando até os dolorosíssimos casos que estão afligindo atualmente a Igreja. No fundo de muitos desvios morais de almas consagradas, não é possível ignorá-lo: há uma concepção distorcida e retorcida do amor. (Leia na íntegra aqui)