ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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28 de março de 2011

Gandhi

Transcrevo a notícia encontrada no site do "Jornal do Brasil" (aqui) e faço logo uma pergunta: se for verdade, isso muda alguma coisa na nossa percepção de grandeza e importância histórica de Gandhi?
Escrita pelo jornalista britânico Joseph Lelyveld, uma nova biografia de Mahatma Gandhi promete causar bastante polêmica. O livro, que deve ser publicado ainda neste mês, afirma que o líder indiano era bissexual e que abandonou a esposa para viver com o fisioculturista alemão Hermann Kallenbach. As informações são do jornal Daily Mail. Eles teriam morado juntos em uma casa na África do Sul e se comprometido a “dar um ao outro, um amor como o mundo jamais vira”. Em uma passagem, o jornalista afirma que Gandhi mantinha um retrato do alemão sobre a cabeceira de sua cama e prometera jamais olhar para uma mulher com intenções “impuras”. A história do suposto casal termina em 1914, quando Gandhi retorna à Índia e Kallenbach não pode acompanhá-lo devido a Primeira Guerra Mundial. Desse momento em diante, os dois passaram a corresponder-se apenas por cartas. Em uma destas, ele teria escrito que a sua esposa, com quem teve quatro filhos, era mulher mais venenosa que já tinha conhecido.

Naamã

A passagem do Evangelho de hoje (Lc 4, 24-30) já comentei neste blog (aqui), por isso vou diretamente à I leitura de 2Rs 5, 1-15a, que conta história de Naamã, general do exército do rei da Síria, (que) era um homem muito estimado e considerado pelo seu senhor, pois foi por meio dele que o Senhor concedeu a vitória aos arameus. Mas esse homem, valente guerreiro, era leproso. (v. 1) A lepra tem, até hoje, uma fama terrível e assustadora, mesmo com todo o avanço de ciência e medicina. Tento imaginar como foi visto este mal naquela época. As próprias prescrições da Lei de Moisés, ainda que indiretamente, induziam o povo à interpretação dessa enfermidade, também em dimensão espiritual e moral. Em consequência, o doente sentia-se rejeitado por Deus e pelos homens. A sensação mais provável era o desespero. No caso concreto de Naamã, várias coisas eram felizmente diferentes: teve todo o apoio do rei e, também, a sua posição social contribuía bastante para que não se sentisse tão rejeitado. Não era judeu, por isso não sentia tanto a "maldição da lepra". Além disso, desde o início da história, notamos vários sinais de ação da Divina Providência. Mas, como para Deus é impotante não apenas a saúde física do homem (ou a solução de qualquer outro problema), mas o homem inteiro, vemos Naamã colocado em prova. Deus lhe oferece o dom da cura, mas desafia a sua razão e quebra o seu orgulho. De novo aparece alguém que, com simples argumento, consegue convencê-lo (como foi no início a intervenção de uma moça de Israel - cf. vv. 2-3): Senhor, se o profeta te mandasse fazer uma coisa difícil, não a terias feito? Quanto mais agora que ele te disse: "Lava-te e ficarás limpo" (v. 13). Penso que, muitas vezes, a simplicidade do dom que Deus oferece (ou da maneira de como o oferece), desafia-nos a ponto de não aceitarmos tal oferta. Achamos impossível que Deus queira se comunicar assim conosco. Na minha opinião, o problema real está na dificuldade de aceitarmos o amor que Deus tem para conosco. No caso de pessoas homossexuais, isso torna-se ainda mais difícil, por causa do sentimento de culpa. Crescemos e convivemos com a visão de homossexualidade como algo absolutamente errado, sujo, inaceitável - como uma lepra. Se as pessoas que - no meu ver - representam Deus aqui na terra, dizem que "atos homossexuais são profundamente desordenados", logo imagino que seja esta, de fato, a opinião que Deus tem a meu respeito. E pior, porque se eu sou um homossexual, todos os meus atos são homossexuais também (- profundamente desordenados, entende-se). Até o ato de tomar, neste instante, um café, é também o ato homossexual. Dá para perceber a confusão interna? E, neste momento, vem o próprio Deus e me diz: "Aceita o meu dom. A sua sexualidade também é um dom. Como a finalidade de sua existência é amar, ame de acordo com a sua condição que lhe concedi...". Lemos no texto que Naamã, quando aceitou o desafio, experimentou um grande milagre - foi curado de sua lepra, de sua incredulidade e soberba. Por isso digo: é necessário reconhecer e aceitar os dona que Deus nos dá. Então ele desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado. (v. 14)

27 de março de 2011

O poço

A Igreja propõe hoje a leitura de uma longa e profunda mensagem do Evangelho (Jo 4, 5-42) sobre o encontro de Jesus com a samaritana. Em resumo: a mulher fica surpresa pelo fato de Jesus, um judeu, está falando com ela. Um simples diálogo sobre a água para matar sede, entra numa dimensão sobrenatural: Jesus fala de água viva. Em seguida, o Senhor mostra que sabe tudo sobre a mulher, inclusive sobre os seus "pontos fracos", mas não a condena, nem sequer critica. De fato, esta revelação, torna-se para samaritana a "pista" para descobrir a verdadeira identidade de Jesus, o Messias e Salvador. A mulher quer saber algo mais sobre a maneira certa de adorar a Deus e, em seguida, corre para anunciar aos habitantes daquela cidade a presença de Cristo.
Transcrevo aqui um trecho do livro de Françoise Dolto e Gérard Sévérin, "Os Evangelhos à luz da psicanálise" (Ed. Verus; Campinas, SP, 2010):
Jesus mostra que, se nós pensamos em parar em nosso corpo e em nosso prazer, jamais ficaremos extasiados na dimensão para a qual nosso ser é chamado. Ele não satisfaz essa mulher segundo o seu pedido, mas a questionou num lugar desconhecido para ela. Se Jesus a tivesse satisfeito, ela teria ficado lá, passiva. Questionada, ela é transportada a outro lugar. Buscando por meio de nosso corpo e em companhia dos outros, vamos descobrir que somos habitados não somente por necessidades, mas também pelo desejo que nos leva muito além do que o nosso corpo pode alcançar, um desejo que, para além dos sentidos, ainda faz apelo a outra comunicação. Essa mulher vai descobrir que o desejo jorra constantemente de reviravolta em reviravolta. O desejo que nos aflige é muitas vezes surpreendente. Jesus leva essa mulher a descobrir que além de todos os homens com quem ela procurava acalmar sua sede, para além das suas necessidades de segurança, de seus desejos carnais, ela buscava outra coisa. Mais do que em seus amantes, encontrou em Jesus alguém que a preenche. (p. 153)

Átrio dos gentios

Na sexta-feira passada, o Papa Bento XVI dirigiu uma mensagem aos participantes do ato de inauguração do Átrio dos Gentios (em outra tradução: Pátio dos Gentios), promovido em Paris. De acordo com as agências católicas de informação, este espaço será permanente e servirá para promover o diálogo entre crentes e não crentes. O nome evoca o espaço homônimo que, no antigo Templo de Jerusalém, hospedava os não judeus.
Não localizei no site do Vaticano a versão oficial e completa da mensagem pontifícia, mas os trechos da mesma, publicados em alguns lugares, permitem ter uma noção sobre aquilo que o Santo Padre disse. O portal da Canção Nova (aqui), cita afirmações importantes: Bento XVI lançou um apelo na noite de sexta-feira, 25, aos fiéis e não fiéis reunidos diante da Catedral Notre-Dame, em Paris, aderrubar as barreiras do medo do outro, do estrangeiro”. "O medo daquele que não se parece conosco nasce da ignorância mútua, do ceticismo ou da indiferença." É preciso “construir um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, no qual todos devem se sentir livres e iguais em seus direitos de viver sua vida pessoal e comunitária de acordo com as próprias convicções”.
Não preciso dizer que, para nós, que sofremos as consequências de homofobia, estas palavras do Papa são como bálsamo para o coração ferido. Resta agora esperar que as pessoas no mundo inteiro ouçam a voz de Bento XVI.
O site da Rádio Vaticana (aqui) informa que, depois de Paris, as iniciativas do «Pátio (Átrio) dos Gentios» vão passar por Florença (Itália), Tirana (Albânia), Estocolmo (Suécia), Berlim (Alemanha), Moscovo (Rússia), Quebeque (Canadá), Praga (República Checa), Chicago e Washington (EUA). A mesma fonte acrescenta e comenta (aqui) outros trechos da mensagem: Bento XVI explicou que as religiões não devem ter medo de uma laicidade justa e aberta, que deixa cada um livre de acreditar ou não, respeitosa diante do direito de todos a permanecer fieis ás próprias convicções, e em fraternidade com o outro. Não tenhais medo – concluiu o Santo Padre - no caminho que percorreis juntos rumo a um mundo novo, sede pessoas que procuram o Absoluto e que procuram Deus.

26 de março de 2011

Filho pródigo

Acho difícil resumir a reflexão sobre esta belíssima parábola de Jesus (Lc 15, 11-32) em apenas uma postagem do blog. É um texto tão rico que inspira livros inteiros, além de séries de pregações (como as de um retiro espiritual). João Paulo II tomou a história do filho pródigo como base da Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia sobre a reconciliação e penitência na missão da Igreja hoje (leia aqui). Entre livros, dignos de atenção, destaco "A volta do filho pródigo" de Henri J. M. Nouwen (Ed. Paulinas; São Paulo 1997). Para abordar apenas um dos aspectos - certamente não essencial - desta parábola, confrontarei um trecho do livro de Nouwem com outro texto, tirado da obra de Didier Eribon, "Reflexões sobre a questão gay" (Ed. Companhia de Freud; Rio de Janeiro, 2008).
Henri J. M. Nouwem, no capítulo 2, dedicado ao filho mais jovem (o pródigo), escreve: O filho indo embora é, portanto, um ato mais grave do que parece à primeira vista. É uma rejeição cruel do lar no qual o filho nasceu e foi criado e uma ruptura com a mais preciosa tradição apoiada pela comunidade maior da qual ele faz parte. Quando Lucas escreve "partiu para uma região longínqua", ele se refere a muito mais do que ao desejo de um jovem de ver o mundo. Ele se refere a uma quebra drástica da maneira de viver, pensar e agir que recebeu como um legado sagrado das gerações passadas. Mais do que desrespeito, é uma traição aos valores cultuados pela família e pela comunidade. O país distante é o mundo no qual não se respeita o que em casa é considerado sagrado. (p. 41)
O julgamento é claro, severo e usa termos fortes. É, no entanto, uma avaliação "de fora". Basta olhar nos olhos daquele jovem ou tentar colocar-se no lugar dele, para que tudo mude totalmente. Talvez não tenha sido cruel a sua atitude de rejeitar "a mais preciosa tradição, o legado sagrado da maneira de viver, pensar e agir", mas - pelo contrário - todas essas coisas (tradição, modo de pensar, etc.) tornaram-se insuportáveis, portanto cruéis, principalmente em sua expressão prática de intolerância, rejeição, agressividade, etc.
Dider Eribon dedica um capitulo do seu livro (coincidentalmente também o 2°), à "Fuga para a cidade". Escreve: Entendemos que um dos princípios estruturantes das subjetividades gays e lésbicas consiste em procurar os meios de fugir da injúria e da violência, que isso costuma passar pela dissimulação de si mesmo ou pela emigração para lugares mais clementes. Por isso é que as vidas gays olham para a cidade e suas redes de sociabilidade. São muitos os que procuram deixar o lugar onde nasceram e onde passaram a infância para vir se instalar em cidades mais acolhedores. Marie-Ange Schiltz escreve, comentando o resultado de estudos recentes, que, "comparando com as pesquisas feitas na população geral, fica claro que a partida do lar familiar e o acesso à independência econômica são mais rápidas entre os jovens homossexuais". Esse movimento de fuga seguramente conduz os homossexuais para a cidade grande. (p. 31)
A parábola de Jesus tem o final feliz (em sua parte principal): o retorno do filho pródigo para casa. Em algumas famílias acontece, justamente, este abraço do pai (da mãe e dos irmãos), no ato sincero de acolher o filho ou a filha homossexual que, após uma fuga, tem a coragem de voltar para o convívio familiar. Este novo convívio, graças ao amadurecimento interior dos familiares, torna-se possível (ainda que exista ainda algum "irmão mais velho", preso em sua falta de amor).

25 de março de 2011

Anunciação do amor

No dia em que a Igreja celebra a Solenidade da Anunciação do Senhor – que, de fato, comemora o mistério da Encarnação do Verbo Divino e não apenas o momento do anuncio feito pelo Anjo à Santíssima Virgem Maria – transcrevo aqui um trecho importante da primeira Encíclica do Papa João Paulo II “Redemptor hominis” (n° 10). Sobre este documento falei neste blog na ocasião da Novena de Natal (aqui) e o seu texto original pode ser encontrado no site do Vaticano (aqui).
O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor, (...) revela plenamente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade. No mistério da Redenção o homem é novamente «reproduzido» e, de algum modo, é novamente criado. Ele é novamente criado! «Não há judeu nem gentio, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher: todos vós sois um só em Cristo Jesus» (Gal 3, 28). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente — não apenas segundo imediatos, parciais, não raro superficiais e até mesmo só aparentes critérios e medidas do próprio ser — deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo.
O Papa insiste, ao longo de toda Encíclica, com a expressão “todo homem”, o que à luz da citação da Carta aos Gálatas, torna-se especialmente importante também para nós, homossexuais. Nós também não podemos viver sem amor, pois a nossa vida seria destituída de sentido e cada um de nós permaneceria para si próprio um ser incompreensível, Por isso encontrar-nos com o amor, experimentá-lo, participar nele vivamente, tornando-o algo próprio nosso, é tão importante para cada um de nós. O Papa João Paulo II, que será beatificado no próximo dia 01 de maio, escreveu muitos outros textos que contribuem, ainda que indiretamente, à causa de reconhecimento da dignidade de homossexuais, mostrando o seu lugar bem dentro da Igreja.

24 de março de 2011

Rico e Lázaro

Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. (Lc 16, 19) O maior problema deste homem não era a riqueza, mas a ausência de caridade no seu coração insensível e indiferente: Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. (v. 20) Evidentemente, o estilo de vida daquele homem rico, contribuía ainda mais, para essa insensibilidade. Em outros momentos, Jesus dizia: Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. (Mt 6,21) e É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus. (Mt 19, 24). Lembro-me de uma pregação na qual o padre tinha falado sobre o vidro que, enquanto permanece limpo, conseguimos enxergar através dele as pessoas e todas as outras coisas, mas basta cobri-lo com uma fina camada de prata e o vidro torna-se um espelho. Não dá mais para ver nada e ninguém, a não ser a nossa própria imagem. A riqueza tem capacidade de aprisionar o coração humano e mergulhá-lo no profundo egoísmo. Li, recentemente, no "Diálogo" de Santa Catarina de Sena, a seginte explicação: Se o apetite sensível procura os bens materiais, a eles orienta-se a inteligência; e quando a mesma toma como objeto os bens passageiros, surgem o egoísmo, o desprezo pelas virtudes, o apego ao vício e, como consequência, o orgulho e a impaciência. Por sua vez, a memória encher-se-á com tais elementos, fornecidos pelo afeto sensual, obscurecendo-se a inteligência, que não mais vê senão aparências da luz. (16, 1)
O "mundo gay" estende-se por todas as camadas da sociedade, mas a mídia (inclusive a do próprio "mundo gay") apresenta mais frequentemente os homossexuais que se vestem com roupas finas e elegantes e fazem (ou participam de) festas esplêndidas todos os dias. Basta acessar qualquer portal GLBTS ou assistir, por exemplo, a série "Queer as folk", para confirmar isso. Eu mesmo tenho amigos que dedicam todo seu tempo livre à "balada", como dizem por aqui. Por sua vez, é conhecida a sensibilidade dos homossexuais em relação a "roupas finas e elegantes", bem maior que dos heterossexuais. Repito: tudo isso, em si, não é um problema, mas não deixa de ser um perigo. Por isso, mais uma vez, insisto quanto à necessidade de um acompanhamento pastoral, ou de uma formação espiritual, para homossexuais. E faço um apelo aos meios de comunicação do "mundo gay": não se esqueçam que, neste nosso mundo, há "pobres Lázaros", também. Tenho uma edição da revista "Junior" de 2008 (n° 6) [veja informações sobre a revista aqui]. Uma das matérias ("À margem da margem", p. 38) fala sobre a vida dos homossexuais que moram nas ruas de São Paulo. São vários depoimentos emocinantes e surpreendentes, sobre preconceito, violência, rejeição e... esperança. Um dos entrevistados, Ramon de 35 anos, conta a sua passagem de um a outro personagem da parábola de Jesus: Sou modelista, estou desempregado hoje por safadeza mesmo, admito. Estou na rua por causa de muita farra que fiz quando tive dinheiro, era muito mão-aberta, gastava com comidas caras, roupas caras, pagava até a droga dos outros - e olha que não uso drogas. Meu sonho é montar uma grife de roupas ou seguir carreira de cozinheiro, mas primeiro preciso conquistar a confiança das pessoas para elas me darem emprego. Sou de Belo Horizonte, vim para São Paulo para ter uma vida com mais liberdade, bem longe da minha família, que é muito religiosa e não aceita minha homossexualidade. Outro entrevistado, Mourane Gutierrez de 47 anos, resume a sua vida assim: Saio do albergue às 7h30 e vou fazer meu trabalho com os portadores de HIV que estão nas ruas de São Paulo. Volto só no fim da tarde para dormir. Sei como é ruim estar na rua, e isso é ainda pior para quem tem HIV. A rua não te dá dignidade nenhuma, você vive à beira de todo mundo, ninguém te olha. Já faz oito meses que estou nessa luta diária. Não vou prá balada, não paquero ninguém, quase não me divirto, não me sobra tempo e eu fico bem cansado. Queria muito ter tempo tempo para caçar.
O meu sonho é uma Pastoral para Homossexuais que, além de toda formação espiritual, teria estruturas para trabalho social para com os homossexuais-Lázaros, abandonados até pelo próprio "mundo gay".