ESTE BLOG NÃO POSSUI CONTEÚDO PORNOGRÁFICO

Desde o seu início em 2007, este blog evoluiu
e hoje, quase exclusivamente,
ocupa-se com a reflexão sobre a vida de um homossexual,
no contexto de sua fé católica.



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25 de março de 2011

Anunciação do amor

No dia em que a Igreja celebra a Solenidade da Anunciação do Senhor – que, de fato, comemora o mistério da Encarnação do Verbo Divino e não apenas o momento do anuncio feito pelo Anjo à Santíssima Virgem Maria – transcrevo aqui um trecho importante da primeira Encíclica do Papa João Paulo II “Redemptor hominis” (n° 10). Sobre este documento falei neste blog na ocasião da Novena de Natal (aqui) e o seu texto original pode ser encontrado no site do Vaticano (aqui).
O homem não pode viver sem amor. Ele permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se ele não se encontra com o amor, se o não experimenta e se o não torna algo seu próprio, se nele não participa vivamente. E por isto precisamente Cristo Redentor, (...) revela plenamente o homem ao próprio homem. Esta é — se assim é lícito exprimir-se — a dimensão humana do mistério da Redenção. Nesta dimensão o homem reencontra a grandeza, a dignidade e o valor próprios da sua humanidade. No mistério da Redenção o homem é novamente «reproduzido» e, de algum modo, é novamente criado. Ele é novamente criado! «Não há judeu nem gentio, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher: todos vós sois um só em Cristo Jesus» (Gal 3, 28). O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente — não apenas segundo imediatos, parciais, não raro superficiais e até mesmo só aparentes critérios e medidas do próprio ser — deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo.
O Papa insiste, ao longo de toda Encíclica, com a expressão “todo homem”, o que à luz da citação da Carta aos Gálatas, torna-se especialmente importante também para nós, homossexuais. Nós também não podemos viver sem amor, pois a nossa vida seria destituída de sentido e cada um de nós permaneceria para si próprio um ser incompreensível, Por isso encontrar-nos com o amor, experimentá-lo, participar nele vivamente, tornando-o algo próprio nosso, é tão importante para cada um de nós. O Papa João Paulo II, que será beatificado no próximo dia 01 de maio, escreveu muitos outros textos que contribuem, ainda que indiretamente, à causa de reconhecimento da dignidade de homossexuais, mostrando o seu lugar bem dentro da Igreja.

24 de março de 2011

Rico e Lázaro

Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. (Lc 16, 19) O maior problema deste homem não era a riqueza, mas a ausência de caridade no seu coração insensível e indiferente: Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. (v. 20) Evidentemente, o estilo de vida daquele homem rico, contribuía ainda mais, para essa insensibilidade. Em outros momentos, Jesus dizia: Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração. (Mt 6,21) e É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus. (Mt 19, 24). Lembro-me de uma pregação na qual o padre tinha falado sobre o vidro que, enquanto permanece limpo, conseguimos enxergar através dele as pessoas e todas as outras coisas, mas basta cobri-lo com uma fina camada de prata e o vidro torna-se um espelho. Não dá mais para ver nada e ninguém, a não ser a nossa própria imagem. A riqueza tem capacidade de aprisionar o coração humano e mergulhá-lo no profundo egoísmo. Li, recentemente, no "Diálogo" de Santa Catarina de Sena, a seginte explicação: Se o apetite sensível procura os bens materiais, a eles orienta-se a inteligência; e quando a mesma toma como objeto os bens passageiros, surgem o egoísmo, o desprezo pelas virtudes, o apego ao vício e, como consequência, o orgulho e a impaciência. Por sua vez, a memória encher-se-á com tais elementos, fornecidos pelo afeto sensual, obscurecendo-se a inteligência, que não mais vê senão aparências da luz. (16, 1)
O "mundo gay" estende-se por todas as camadas da sociedade, mas a mídia (inclusive a do próprio "mundo gay") apresenta mais frequentemente os homossexuais que se vestem com roupas finas e elegantes e fazem (ou participam de) festas esplêndidas todos os dias. Basta acessar qualquer portal GLBTS ou assistir, por exemplo, a série "Queer as folk", para confirmar isso. Eu mesmo tenho amigos que dedicam todo seu tempo livre à "balada", como dizem por aqui. Por sua vez, é conhecida a sensibilidade dos homossexuais em relação a "roupas finas e elegantes", bem maior que dos heterossexuais. Repito: tudo isso, em si, não é um problema, mas não deixa de ser um perigo. Por isso, mais uma vez, insisto quanto à necessidade de um acompanhamento pastoral, ou de uma formação espiritual, para homossexuais. E faço um apelo aos meios de comunicação do "mundo gay": não se esqueçam que, neste nosso mundo, há "pobres Lázaros", também. Tenho uma edição da revista "Junior" de 2008 (n° 6) [veja informações sobre a revista aqui]. Uma das matérias ("À margem da margem", p. 38) fala sobre a vida dos homossexuais que moram nas ruas de São Paulo. São vários depoimentos emocinantes e surpreendentes, sobre preconceito, violência, rejeição e... esperança. Um dos entrevistados, Ramon de 35 anos, conta a sua passagem de um a outro personagem da parábola de Jesus: Sou modelista, estou desempregado hoje por safadeza mesmo, admito. Estou na rua por causa de muita farra que fiz quando tive dinheiro, era muito mão-aberta, gastava com comidas caras, roupas caras, pagava até a droga dos outros - e olha que não uso drogas. Meu sonho é montar uma grife de roupas ou seguir carreira de cozinheiro, mas primeiro preciso conquistar a confiança das pessoas para elas me darem emprego. Sou de Belo Horizonte, vim para São Paulo para ter uma vida com mais liberdade, bem longe da minha família, que é muito religiosa e não aceita minha homossexualidade. Outro entrevistado, Mourane Gutierrez de 47 anos, resume a sua vida assim: Saio do albergue às 7h30 e vou fazer meu trabalho com os portadores de HIV que estão nas ruas de São Paulo. Volto só no fim da tarde para dormir. Sei como é ruim estar na rua, e isso é ainda pior para quem tem HIV. A rua não te dá dignidade nenhuma, você vive à beira de todo mundo, ninguém te olha. Já faz oito meses que estou nessa luta diária. Não vou prá balada, não paquero ninguém, quase não me divirto, não me sobra tempo e eu fico bem cansado. Queria muito ter tempo tempo para caçar.
O meu sonho é uma Pastoral para Homossexuais que, além de toda formação espiritual, teria estruturas para trabalho social para com os homossexuais-Lázaros, abandonados até pelo próprio "mundo gay".

23 de março de 2011

pedido de mãe

A mãe dos filhos de Zebedeu aproximou-se de Jesus com seus filhos e ajoelhou-se com a intenção de fazer um pedido. (Mt 20, 20) As mães sempre querem o bem para os seus filhos, mas às vezes (como lemos hoje no Evangelho [Mt 20, 17-28]), não sabem o que estão pedindo, ou seja, nem sempre aquele bem que desejam, tem a mesma avaliação nos olhos de Jesus. Imagino quantas mães, numa expressão de desespero, clamam a Deus que "cure e liberte" o(s) seu(s) filho(s) do mal de homossexualismo (quase nunca dizem "homossexualidade"). Não é a primeira nem a única situação descrita nas páginas do Evangelho, em que vemos as pessoas (frequentemente as mais próximas do Senhor) que mostram uma tremenda falta de noção daquilo que Jesus falava e fazia. Hoje não é diferente. A origem disso pode estar no que descreve, também na liturgia de hoje, o profeta Jeremias, citando alguns detalhes de conspiração promovida pelos adversários dele: Não vamos prestar atenção a todas as suas palavras. (Jr 18,18). O que esses homens conscientemente tramavam, como forma de agir contra o profeta, é mais que comum entre os seres humanos e não necessariamente de maneira igualmente planejada. Sem dúvida, em nossos tempos, a própria civilização com sua rapidez, quantidade e superficialidade de informações, contribui para isso. Simplesmente, não conseguimos mais prestar devida atenção às pessoas e àquilo que estão dizendo. Penso que este seria mais um exercício valioso nesta Quaresma: prestar atenção à maneira como... presto atenção. Parece redundância, mas é aqui que está a grande parte da origem de vários problemas que enfrentamos. Inclusive - ou melhor: em primeiro lugar - temos dificuldade na hora de ouvir e assimilar aquilo que Deus nos fala. Já escrevi aqui algumas vezes que, na minha opinião, o diálogo sobre a homossexualidade não consegue avançar, porque as pessoas que se dispuseram a conversar, geralmente falam como que "línguas diferentes". Exatamente, como no Evangelho de hoje: Jesus acaba de anunciar a eminência de sua paixão, morte e ressurreição e, na mesma hora, aparece aquela mãe e pede favores para seus filhos.
Evidentemente, este não é a única conclusão da leitura deste texto do Evangelho. Jesus denuncia (para curar) a presença perigosa das ambições humanas (que aparecem, também, na reação dos osutros discípulos) e revela o modelo de todos os relacionamentos que ainda hoje esperam ser aprendidos por todos os seus seguidores: Quem quiser tornar-se grande, torne-se vosso servidor; quem quiser ser o primeiro, seja vosso servo. (Mt 20, 26-27)

22 de março de 2011

pais, mestres e guias

O Evangelho de hoje (Mt 23, 1-12) traz duras criticas de Jesus dirigidas à elite religiosa de Israel. Logo podemos dizer que o cristianismo é o herdeiro do Povo de Israel não só em coisas boas, pois as mesmas críticas aplicam-se perfeitamente em relação à Igreja. Imagino como fica difícil para um sacerdote (consciente) ler e comentar este texto. Ainda bem que temos muitos padres que não se esquecem de que a própria orelha fica mais perto da boca que fala. Não faltam, entretanto, aqueles que falam e não praticam, amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo (vv. 3-4), gostam de lugar de honra nos banquetes e dos primeiros lugares (...), de ser cumprimentados nas praças públicas e de serem chamados de mestre (vv. 6-7). Por isso, devemos fazer e observar tudo o que eles dizem, mas não imitar suas ações (cf. v. 3). Compreendo estas advertências de Jesus não como incentivo ao anticlericalismo ou à contestação da Igreja como tal. A questão é de estarmos sempre atentos e cultivarmos a humildade. A crítica deve ser objetiva e construtiva. Ja falei neste blog sobre a razão pela qual não abandono a Igreja (aqui). Imagino uma pessoa que usa, por necessidade, a cadeira de rodas. Se perguntarmos: "Você acha essa cadeira boa e bonita?", a resposta, certamente, seria: "Não se trata de ser boa ou bonita. Ela até pode me incomodar, assim como incomoda os outros, mas neste momento necessito dela para chegar aonde preciso. Por ser útil, torna-se boa e até bonita". É, evidentemente, apenas uma comparação, talvez simples demais, mas algo assim ocorre na minha compreensão da Igreja como instrumento útil para chegar a Deus e o instrumento que Ele próprio quis chamar à existência. As falhas da Igreja provém da fragilidade humana e não são de autoria do seu Fundador. É também por isso que a liturgia não omite uma passagem do Evangelho como essa.
A segunda parte do texto pode gerar algumas dificuldades. O que foi que Jesus quis dizer com essas palavras: Na terra, não chameis a ninguém de pai, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. (v. 9)? Disse também que devemos evitar os títulos como "mestre" ou "guia" (cf. vv. 8. 10). No contexto das censuras anteriores, fica claro que o Senhor ensina a combater a tentação de falsa grandeza ou importância pessoal, "representada" para o olhar dos outros (coisas que os religiosos da época adoravam). Mas como fica a questão de não chamar ninguém, aqui na terra, de pai? Os irmãos protestantes apontam, como uma das formas de "infidelidade católica" perante a Sagrada Escritura, a existência e as funções do Papa e dos padres (cujos títulos provêm da palavra "pai"). A Igreja, aliás, utiliza também, os títulos de mestre (p.ex. nos noviciados) e de guia (espiritual). Pessoalmente, compreendo todas essas "proibições" de Jesus, exatamente, como advertências. Ele conhece o nosso coração e sabe como é fácil cairmos em algum tipo de exagero ou usurpação de poder e autoridade, como uma espécie de propriedade nossa. Para mim, a palavra-chave é a "participação" (aqui está também o argumento contra as críticas protestantes sobre a intercessão dos santos). Vou tentar explicar... A Bíbli diz que Jesus é o Fílho único de Deus (cf. Jo 1,14; 1Jo 4, 9, etc.), mas também, que nós somos filhos de Deus (cf. Rm 8, 16; 1Jo 3, 1, etc.). Não é contradição, pois somos filhos de Deus, porque fomos admititos pela graça à única filhação divina de Cristo. Com outras palavras: somos filhos de Deus em Cristo. A Bíblia diz que Cristo é o único mediador entre homens e Deus (cf. 1Tm 2,5). Da mesma maneira, Ele nos concedeu a graça de participarmos nesta mediação e sermos, também, mediadores ou intercessores (na terra e, depois de partirmos daqui, ainda mais). Creio que haja a mesma lógica em questão da paternidade, em todas as suas expressões, começando pela biológica. O Apóstolo Paulo diz: Dobro os joelhos diante do Pai, de quem recebe o nome toda paternidade no céu e na terra (Ef 3, 14) e, em outro lugar, reivindica o direito de paternidade espiritual, escrevendo aos seus "filhos": De fato, mesmo que tenhais milhares de educadores em Cristo, não tendes muitos pais. Pois fui eu que, pelo anúncio do evangelho, vos gerei no Cristo Jesus (1Cor 4, 15). Paulo não contradiz as palavras de Cristo. Ele as compreende e interpreta. Não se trata, então, de não usar as palavras "pai", "mestre" ou "guia" em relação aos homens, mas de - ao usá-las - não se esquecer de sua origem.
Dito isso tudo, quero acrescentar aqui o meu voto em favor do reconhecimento - em todas as dimensões da sociedade - de direito dos casais homossexuais à adoção dos filhos. A paternidade (assim como a maternidade) que recebe de Deus Pai o seu nome, revela-se - além de sua forma biológica - de muitas outras maneiras, não menos importantes e válidas.

Dia Mundial da Àgua

Desde 1992 (algumas fontes dizem 1993), acontece o Dia Mundial da Àgua, promovido pela Organização das Nações Unidas. Neste ano, o tema específico é "Água para as cidades: respondendo ao desafio urbano" e tem por objetivo incentivar aos governos, às organizações, às comunidades e às pessoas a participarem ativamente para responder ao desafio da gestão da água urbana. A Declaração Universal dos Direitos da Água, no parágrafo 7, diz: A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.
A coisa é séria e não tenho a intenção de banalizar o assunto, mas não resisti e deixei me levar pelo seguinte pensamento: será válida a proposta ao casal que compartilha tantas coisas, que tomasse banho junto? Parece que sim, mas a experiência mostra que pode haver o desperdício de água ainda maior, dado que atenção se volta para outras coisas e não propriamente para o banho...
Falando sério: vamos pensar com carinho sobre este dom precioso que é a água. Nós, católicos, temos neste ano mais um incentivo, através da Campanha da Fraternidade.

21 de março de 2011

a medida do homem

Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. Dai e vos será dado. Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante será colocada no vosso colo; porque com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medidos. (Lc 6, 36-38) Neste pequeno texto lido hoje na Missa, temos o resumo de todo o Evangelho. Infelizmente, a nossa sociedade não é cristã, ainda que faça referências à fé e à religião. Mesmo em comunidades que se reúnem nas igrejas, realizam trabalhos pastorais, etc., estas regras de vida que Jesus deixou, não estão sendo vividas. Talvez a questão de "dar" tenha sido parcialmente posta em prática (por exemplo, através das pastorais sociais, campanhas de doações e coisas semelhantes), mas todo o resto não é. Geralmente recorremos à frase "não julgueis e não sereis julgados", apenas em situações em que nós mesmos nos vemos como alvo de críticas ou fofocas. Entretanto, vivemos o tempo todo exercendo a usurpação de direito para julgar os outros.
Acredito que um ditado popular, absolutamente equivocado e repetido com muita frequência por aí, tenha origem numa confusa troca de palavras, tiradas do ensiamento de Jesus citado acima. No povo se diz: "Quem sou eu para perdoar? Só Deus é quem perdoa!". Em vez disso, deveria ser: "Quem sou eu para julgar? Só Deus é quem julga!". Quanto ao perdão, Jesus está claro: "Perdoai e sereis perdoados". Todos nós já experimentamos na própria pele as consequências das atitudes contrárias às palavras de Jesus. Certos grupos de pessoas - entre eles, os homossexuais - tornam-se particularmente o objeto de julgamentos injustos, baseados nas opiniões generalizadas, alimentadas por infundadas emoções negativas. É isso que chamamos de preconceito e de homofobia.
Jesus fala no Evangelho sobre a medida. Qual é a medida do homem? Falou sobre isso o Papa João Paulo II, durante a sua primeira viagem apostólica à Polônia, em 1979 (leia aqui). Com que medida se há de medir o homem? Medi-lo com a medida das forças físicas de que dispõe? Ou medi-lo com a medida dos sentidos, que lhe permitem o contato com o mundo exterior? Ou medi-lo com a medida da inteligência, o que se realiza através dos vários testes ou exames? (...) É preciso medir o homem com a medida do «coração». O coração na linguagem bíblica significa a interiorização espiritual do homem, significa em particular a consciência. É preciso portanto medir o homem com a medida da consciência, com a medida do espírito aberto a Deus. Só o Espírito Santo pode «encher» este coração, ou seja, conduzi-lo a realizar-se através do amor e da sabedoria.
A cada um que me despreza, somente por causa da minha identidade homossexual, pergunto: o que você sabe sobre mim, sobre o meu coração e a minha consciência? Por que você se coloca no lugar de Deus que tem a autoridade única para julgar? Se você é um cristão, use a recomendada pelo Papa "medida do coração" que significa, também, a medida de caridade e respeito.

20 de março de 2011

Transfiguração

A transfiguração de Jesus, lida e meditada na liturgia deste 2° Domingo da Quaresma (Mt 17, 1-9), ocupa o lugar de destaque na tradição e na espiritualidade da Igreja que celebra também uma festa especial dedicada a este misterioso acontecimento (no dia 06 de agosto). Recentemente, o Papa João Paulo II, chamou ainda mais a atenção do povo à transfiguração do Sengor, ao inseri-la no elenco dos cinco novos mistérios do Rosário (confira a Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae - aqui). Também a sua Exortação Apostólica, dedicada à vida cosagrada (Vita consecrata - aqui), tem a transfiguração como o ponto de partida e o fio condutor de todo o seu conteúdo. O Papa escreve: No Evangelho, são muitas as palavras e gestos de Cristo, que iluminam o sentido desta vocação especial. No entanto, para se abarcar numa visão de conjunto os seus traços essenciais, revela-se particularmente útil fixar o olhar no rosto resplandecente de Cristo, no mistério da Transfiguração. (n. 14) E continua mais adiante: O episódio da Transfiguração assinala um momento decisivo no ministério de Jesus. É um evento de revelação que consolida a fé no coração dos discípulos, prepara-os para o drama da Cruz, e antecipa a glória da ressurreição. É um episódio misterioso revivido incessantemente pela Igreja, povo a caminho do encontro escatológico com o seu Senhor. Como os três apóstolos escolhidos, a Igreja contempla o rosto transfigurado de Cristo, para se confirmar na fé e não correr o risco de soçobrar ao ver o seu rosto desfigurado na Cruz. Em ambos os casos, ela é a Esposa na presença do Esposo, que participa do seu mistério, envolvida pela sua luz. Esta luz atinge todos os seus filhos, todos igualmente chamados a seguir Cristo, repondo n'Ele o sentido último da sua própria vida podendo dizer com o Apóstolo: «Para mim, o viver é Cristo» (Fil 1,21). Mas uma singular experiência dessa luz que dimana do Verbo encarnado é feita, sem dúvida, pelos que são chamados à vida consagrada. Na verdade, a profissão dos conselhos evangélicos coloca-os como sinal e profecia para a comunidade dos irmãos e para o mundo. (n. 15)
No seu livro "Direção espiritual e homossexualidade" (Edições Loyola; São Paulo, 2006), o padre jesuíta James L. Empereur, apresenta uma clara analogia entre a vida consagrada e a vida das pessoas homossexuais. Logo, a meditação do Papa, ganha para nós um significado especial. Leia a argumentação do autor: Os gays cristãos possuem um carisma análogo ao carisma de uma vocação religiosa. (...) O que diferencia o carisma do homem gay do carisma de um homem membro de uma ordem religiosa é que o do homem gay é um carisma sexual. Assim como Deus ofereceu certo dom aos sacerdotes, irmãos ou irmãs na vida religiosa para que seguissem o evangelho com certo caráter público, assim Ele ofereceu aos homens gays e mulheres lésbicas um dom sexual especial, que exibe de maneira pública a diversidade e a beleza de Deus em nosso mundo. Todas as criaturas de Deus expõem a obra de Deus, mas o mundo também precisa de variação para que a riqueza dessa obra seja inequivocamente evidente. Deus dá a gays e lésbicas a variação um tanto surpreendente de sua sexualidade para ajudar seus irmãos e irmãs a ter uma compreensão maior da realidade de seu Deus. (...) Os religiosos são poucos em comparação à população total, e pede-se a eles que vivam de certa meneira, que carrega consigo certa qualidade contracultural. Se a vida religiosa é indistinguível do resto da vida cristã, parece não haver nenhum propósito para sua existência. (...) Também os homossexuais são uma minoria. Também eles devem viver vidas contraculturais. Percebemos nitidamente a lógica desta analogia, mas o autor observa que ela não é completa: A vida religiosa é uma vocação acima da vocação que recebemos de Deus ao sermos criados filhos ou filhas de Deus. A sexualidade gay é um fato da criação. (...) Ao contrário dos homens e mulheres religiosos, eles [os homossexuais] não tiveram escolha quanto à vocação. Não lhes perguntaram se queriam ser homossexuais. (...) O carisma não se baseia primariamente na escolha, mas em um dom oferecido a alguém para ser compartilhado porque o mundo necessita desse dom. (pp. 4-6).